sábado, julho 18, 2009

D‘água

(Esta foto tirei em Isla Maragarita no PAraguai, flamboiã)

Choveu por anos. Fomos migrando para as montanhas morrendo. Sabendo de única coisa: amigo é sempre bom. Não adianta procurar amigos, pois a procura é sempre longe, um amigo está sempre ao lado, não importa se distante. Sem família de sangue, só a escolhida – como se houvesse escolha no meio da tragédia. Este era nosso carregamento exato. Tragédia. As sobras das bagagens. Ninguém ousava chorar após infindáveis lágrimas do céu sem nuvens. Parecíamos desolados sem poder planejar nada, a não ser sobreviver. Mais! Éramos precisamente deslocados.

Não podíamos nos deitar. Só havia poças e onde não havia poças não estava seco ainda. Éramos 50 pessoas consideradas fortes. Infelizmente, não contávamos os mais velhos ou as crianças abaixo dos sete anos. Dez homens apenas. De todos dois eram imunes a “acquafobia”. Palavra denominada ao absurdo medo da água. Em um planeta água como a temer? Precisos 48 a temiam. Era consequência da mesma ter levado a vida da ex-Terra. Trauma. Um deserto líquido baumaniano (referência ao sociólogo Zigman Bauman) era a única paisagem. Afetos, amores, leis, família, religião, justiça eram pura fluidez como a modernidade.

Nenhuma metáfora mais. Beber da água era beber dos nossos e cada um daqueles planos ambiciosos. Não! Ninguém acreditava nisto! Uma noite só havia o silêncio em corpos empilhados, teimando planejar sobreviver, mas os planos era outros. Nunca mais havia dormido e toda noite observava os corpos vazios, me pareciam sem vida até acordarem junto ao sol insinuante e agressivamente sorridente. Neste dia sabia do meu sono, ele se aproximava conforme aparecia terra em volta.

Foram surgindo todas as frutas esquecidas. Olhei para os lados e um por um se afogava em terra. Sem som, sem luta, se entregaram. O naufrágio da terra “se acabava”. E agora? Decidi subir em uma árvore e escolhi negar a fruta oferecida. Assim as águas avançaram mais uma vez sobre nós e nos levaram. Bem, fiquei eu a ver minha família desaparecer, varrida. Uma mulher isolada. Penso em doar uma costela. Estou pronta para ceder uma costela. Não vim do barro, vim da água. Sou fluída e não modelada. Sou corrente pronta para libertar uma nova humanidade.

12 comentários:

La Sorcière disse...

Nossa Rafael...fiquei extasiada, de verdade...muito lindo, tocante, comovente e sobretudo, bem escrito!
Bj

Rafael Belo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rafael Belo disse...

(risos) Bom, eu me sinto todos estes adjetivos ao ler seu escrito aqui - com o acréscimo de um sorriso bobo. Fico feliz pelo teu gosto, já que teu paladar é tão requintado em boa leitura. Agradeço, também, pelas suas palavras no teu espaço. Reverências a ti, La. beijos

La Sorcière disse...

Rafael, vc não tem que agradecer nada, vc é bom mesmo, eu gosto do q leio aqui, é realmente um prazer!
Quanto ao q estou sentindo com Os Homens que não Amavam as Mulheres.....diz prá mim que vai melhorar!!!!!Tô achando tudo TÃo confuso, tão enrolado....tô no começo ainda....mas tô apavorada, todo mundo gostou do raio do livro, será que só a chatonilda aqui não vai gostar???
Sua fila de livros é para lá de respeitável!!
Não li nada de Willian Gibson, vou dar uma procurada, o cara é bom??
Bj!!!!

Casa Pré Fabricada disse...

"Nunca mais havia dormido e toda noite observava os corpos vazios, me pareciam sem vida até acordarem junto ao sol insinuante e agressivamente sorridente."

Há dias assim, em que ficamos distantes de nós mesmos.

Bjs.

Rafael Belo disse...

É, e até de tudo e todos. Obrigado "Casa", beijos bom domingo

Sandra disse...

Muito lindo o que vc. escreveu.
Fala de tudo um pouquinho: dos amores, dos amigos, das árvores, da chuva, da vida, da alegria, enfim da vida.
Valeu amigo. Continue sempres assim.
Com carinho
Sandra

Rafael Belo disse...

Obrigado Sandra! Espero sempre seu retorno , agora. Beijos

Deise Anne disse...

Uma nova Genese da criação humana. Muito bom poder reinventar o começo das coisas, assim o final chega de uma forma mais planejada.
Belo texto, Belo. rsrs

Tathy Panziera disse...

Nossa... orgulhosa do meu Amigo Poeta! rsrs

Feliz dia do amigo! Amigo =)

E sou lesa demais pra comentar um texto desse deixa queto... Mas tanta água me deu sede. Vou lá.

Futilidades a parte - a palavra de verificação abaixo é Trati. hehe seu blog tava me esperando.Bju

Rafael Belo disse...

Não é!? Obrigadoo Dei. (risos)

Rafael Belo disse...

Claro que estava te esperando. Muito lesa... ok! Nem falo. Obrigado Tathy e Feliz dia do Amigo. obrigado de novo (risos)