domingo, dezembro 25, 2011

Chama crepitante de giz



Trilha - Chão De Giz - Zé Ramalho - Áudio do miniconto Chama Crepitante de giz

(*Felicidade vem da Paz acendida depois do queimar sem ardência esquentar por dentro.) Feliz Natal
Foto: Rafael Belo


Por Rafael Belo
A meia-noite já havia transformado o sábado em domingo há tempos e a chuva ainda faltava. Era costume até então não quebrado. Por isso, depois dos Felizes Natais habituais saiu enquanto seus pares lembravam vários passados mesclados e já contaminavam o ar da esperança, do novo... Com um quente bafo etílico embriagando qualquer um ainda sóbrio. Andou ouvindo as mesmas palavras em outros lares, mas caminhou com cautela para não receber abraços estranhos, mesmo de conhecidos a tentarem queimar todo o chão passado.

“Tudo bem! Nenhuma mágoa será guardada”, pensava Natalino com seus passos silenciosos pelas ruas tumultuadas, cheias de sorrisos a sorrirem pelo menos neste dia depois de tantos dias de caras fechadas... Talvez por isso, a chuva sempre vinha para deixar o céu mais limpo e as estrelas cintilantes no céu mais azul. É dia de cantar, celebrar, dançar o Sol podendo ser Solstício ou Cristo, pois no meio ambos são um, sendo luz do mundo dia e noite... No céu a aquarela das cores saia de um breu brilhoso para um claro contido de arco-íris, mas Natalino olhava para o chão.

No chão o incêndio iniciado por ele parecia ter transformado tudo em giz e estava ali ardente bruxuleando já sem queimar - Não era mais a chama iniciada por ele. Todas as cinzas devidas a ali estarem eram brotos verdes e orvalhados e através do fogo tudo ao alcance do olhar era novo. Diferente de qualquer chama já vista, aquela era uma só e irradiava com oscilação pulsante. Era vida pura em seu elemento construtor a estender sua cauda em calda marcada de rastro de sabores. O céu começava um toque solar para conectar um elemento vivo a outro. Toda a noite já estava envolvida pela Luz.

Natalino tocou aquilo parecido com giz no chão e sentiu a Paz vir... Não do tocado, mas de dentro dele e era como se ele ainda fosse noite até rasgar o medo com a estrela cadente de sua alma.  Mas, o medo ficou em partes menores para deixar o sossego ainda atento ao mundo de todos. Como se pegasse aquele giz e desenhasse, voltou buscando abraços etílicos como contornos de fogo celeste. Não importava a razão sua fé crepitava silenciosamente em seu retorno, enquanto a suposta chama de cauda voltava para ser guia, para levar olhares ao céu, para voltar a nascer Estrela de Belém e ficar acima da chuva, esta a amanhecer o Natal.

sexta-feira, dezembro 23, 2011

Até em secos galhos



Trilha - Eu Caçador De Mim - Milton Nascimento para a Crônica 'Até em secos galhos'



(*os galhos impedem a visão de quem vê...) Ft: Rafael Belo
por Rafael Belo
Somos partes de uma imensa raiz mutante metade profunda e a outra também aérea. Sugamos a força da terra com intensa independência da submutação para “qual evoluímos” e se quando percebemos somos galhos secos no meio de mais um feriado de presentes aparentemente tumultuados sem ligação nenhuma. É como conduzir um veículo em uma das principais avenidas do Centro da cidade e ver em toda e cada brecha pessoas tentando atravessar a rua. Lembra-me um brinquedo no qual assim que o bichinho colocava a cabeça para fora tínhamos que acertá-lo com uma espécie de porrete...

Bem amanhã é véspera e no domingo é Natal e as ruas estão todas assim cheias de nós procurando um significado para trocar presentes e ver ou fazer o possível para não ver parentes e amigos. Talvez até sermos um pouquinho menos egoístas e mais solidários, mudar a equação uma vez por ano ou quem sabe não seja a matemática o problema e sim a química... As misturas feitas para esta nova velha data sofreram mudanças históricas que iriam além das cerca de 40 linhas destas crônicas, mas fato é: é tempo de união e de esperança.

Não importa ser solidário apenas pelo espírito natalino a celebrar o sol, o capitalismo e Menino Jesus no dia 25 de dezembro... Tirando o capitalismo, os outros dois devem ser celebrados e praticados diariamente para quem crê no renascer cotidiano de um astro celeste a sempre estar no céu e no filho do homem/Deus. As pessoas não precisam de atenção, carinho e outros tipos de alimentos apenas em um dia do ano. Todo dia é tempo de praticar uma ação acolhedora para o próximo. Até para os ateus acordar, levantar e seguir é um ato de fé. Se acreditamos em nós já temos um impulso e um motivo para fazer brilhar um achama aquecedora no próximo. A vida é o maior ato de fé e o Amor é via-sacra do crescimento.

Abrace todos os dias... Não continuemos galhos secos vindo e indo em nossa direção e do próximo só para esfarelar e se quebrar, porque apesar de perto e até entrelaçados por dentro já não há fé. Há formas já não vistas por nós atrapalhando nossa visão... Caímos das árvores do Conhecimento e da Vida e fomos nos esquecendo da infância e do nosso tamanho. Antes de secarmos e sermos galhos caídos éramos folhas verdes, tronco robusto, raízes profundas e apontávamos vivos galhos para o céu. Crescíamos para cima e para baixo e espalhávamos sementes, esperanças de florestas jovens a dar sombras e frutos para o mundo... Mas a esperança brota até em secos galhos!

quarta-feira, dezembro 21, 2011

Misturas de novos



Trilha Depois de Nós - Engenheiros do Hawaii - Poesia Mistura de Novos

*(Cada renascida manhã é chance de ser nuvem e dissipar) Ft-Rafael Belo
Olhos marejados preenchem o mar escorrendo das montanhas
até as lágrimas doces transbordarem das lacunas completando a vastidão
encontram-se salgadas águas de um olho e do outro o rio

chovem choros cadenciados, correntezas carregadas do amanhã
choram chuvas confirmadas, contemplações caídas do pé de maçã

gravidade passada pela gravidez de um dia parido
das palavras nomeando o passar de tempo, o amanhecer de aurora,
alvorada, alvorecer... Tudo para um dia novo, para uma nova manhã

nascida sem som de parto, mas aos poucos de partida
para ao cantar do galo em plena diluição da noite na urbana Capital,
seja adquirida nova vida do alvor do sol para a luz artificial da macieira

partindo nomes e significados em novos olhares e transformações.

Rafael Belo, às 7h48 da terça-feira, 20 de dezembro de 2011.

domingo, dezembro 18, 2011

O casal na terra dos pelados



Trilha do miniconto - O Casal na terra dos pelados - música Pelado - Ultraje à rigor

(*As flores despidas e os espinhos também ,vestí-los seria a nudez)
Foto e palavras: Rafael Belo

por Rafael Belo

Pelados. Assim eles se viam pela primeira vez. Eles desejavam se verem nus com a mão no bolso antes do atracamento fulminante do melhor encaixe da vida deles. Mas, para nós seria engraçado o conceito de pelado dos dois, afinal, eles passaram a vida toda isolados em uma comunidade nudista dos tempos dos primeiros índios amazônicos.  Não havia novidade nenhuma balançado por aí, por ali, por aqui... Ninguém ficava com uma mão na frente e a outra atrás, roupas para eles eram novidade. Logo nos primeiros dias eles decidiram não fazer sexo explícito em público como era costume entre os outros. Mas outras duas decisões os fariam serem expulsos – algo nunca antes ocorrido na história destes descendentes dos tempos.

Tentaram algo novo, manter a relação entre os dois apenas, a poligamia à céu aberto até os reprimia. Mas, o jorro em êxtase das fofocas na comunidade surgiu antes destas duas decisões... Veio logo da primeira.  Eles não passaram a noite entrelaçados com suas genitálias proeminentes... O choque foi total no lugar mais sem privacidade do mundo. Fizeram o pior. Passaram a noite silenciosamente se olhando detalhe por detalhe insones. Nem as orgias, ménages, grupais e todos os seus sons povoadores pareciam chegar até eles. Eles haviam sido corrompidos, mas como nunca antes na história desta comunidade isto havia ocorrido. Decidiram esperar, afinal só podiam ser os espasmos da juventude inexperiente.

Toda a comunidade decidiu insonemente acompanhar o mais improvável: O Casal.  “Um casal? Só duas pessoas em um relacionamento. Como chama isso lá pela terra dos ‘pelados’... Mono... Monoga... Monogamia?! É isso!? Que cruel Que absurdo!! Eles não se tocaram ainda?! Vamos ter... Teremos de... (Longo suspiro seguido de silêncio gerais) Vamos consultar o livro dos primórdios?!” . E lá dizia: “aquele nãofornicador não é de pertencimento desta Comunidade, aquele não gerador de prole logo no primeiro contato pode contaminar toda a Comunidade e levá-la a novas sodomias e gomorrias terminando assim com o fim da nossa Comunidade”. As palavras lidas em voz altas despertaram o furor assassino de tubas reunidas e também das duas mães e os inúmeros possíveis pais – afinal este sentimento ainda não era selvagem.

Em algum lugar enterrado por décadas estava um guarda-roupa pressurizado a vácuo. Só estas duas mães guardavam o segredo. Fizeram os homens cavarem por horas, não sem antes fazerem estes encontrarem o... ooo.. o.. o Casal. O Casal estava por perto, mas escondido por precaução. De onde estavam todos escutavam a destruição da Comunidade a procura do... do.. do.. Casal que afinal ‘lhes pertencia’. Quando chegaram ao ‘tesouro’ fecharam os olhos e vasculharam às cegas. Tatearam duas pequenas malas e ainda na escuridão chamaram O Casal e passaram o tesouro para estes, não sem acrescentar secamente: ‘Corram por suas vidas, mas algo me diz para utilizarem este conteúdo assim que saírem de nossas vistas’.  As mães e os prováveis pais fugiram para o  lado oposto tomando rumo desconhecido. O Casal se despiu pela primeira vez e descobriu aquele desejo de sempre se verem nus com a mão no bolso... Não demorou muito e o atracamento fulminante encontrou ponto seguro onde começaria uma Nova Velha Comunidade.

sexta-feira, dezembro 16, 2011

O Desejo pelo outro nos move


Trilha 'O Desejo Pelo Outro Nos Move' - Ultraje à Rigor - Sexo

(*Flores e espinhos sempre podem se encontrar, despidos ou em
 uma dor gostosa) Foto: Rafael Belo

por Rafael Belo
Toda forma de amor é possível. Assim como abandonar as pessoas sem sair do lugar ou estando dentro delas. Não da maneira metafórica, imaterial, mas invasiva, sexual, carnal... Afinal, todos se autodenominam grandes amantes, mesmo o sexo sendo rotineiro e até ruim, sem sentimento, pois o fingir geme um som eufórico. Alguém já disse uma vez: Você não pode ser feio, as pessoas ainda não te conhecem... Mas com as genitálias não é assim, se você não proporciona prazer e não o sente, se você não toca no lugar exato e é tocado no lugar suspirável, não liga o GPS corpóreo de sensibilidade, é só mais uma vez. Se bem que se tratando de nós, homens, o cio é constante, e o gozo intermitente nem é prolongado como o das mulheres. Já se tratando de nós, humanos, o desejo pelo outro nós move.

Não importa a orientação sexual, o vasto órgão... Chamado pele... Espalha-se em incontáveis experiências a serem descobertas pelo outro. O maior paradoxo, nesta nossa nova era veloz, é este paralelo entre o acesso a tudo instantaneamente e o distanciamento imediato, contudo é este acesso ao mundo digital a facilitar o conhecimento dos mapas do prazer e levar o parceiro ao êxtase. O autoconhecimento e o autocontrole por meio das manipulações digitais dos genitais em parceira com as cenas explícitas expostas pela rede de alcance mundial também geram uma harmonia entre homem/mulher, homem/homem, mulher/mulher e por aí vai – e vem...

Não diria ser o abandono do egoísmo em prol do prazer da parceira (o), porque muitos homens (quiçá mulheres) o fazem pensando logo mais: “agora é minha vez”. O famoso dar para receber - também lido atualmente como receber para dar. Não falo do colecionamento de “saidinhas” - eu escrevi isto?! - noturnas, diurnas, colegiais, universitárias, experimentais... As aventuras recorrentes dos solteiros normalmente regadas a álcool, drogas, inconsciências – com muitas exceções.  Há claro, nestas exceções, o sexo sem compromisso, mas qual o ponto já ultrapassado – falo disto -de nós a não se comprometer em uma relação sexual? Sexo é bom e confirmo minha pieguice ao escrever: sexo com Amor é inesquecível. Sem esquecer: sem conversar e sem química o inesquecível pode sair às avessas, mas ainda sim jamais sair da memória.

Indiscutível (?) é escrever: o desejo faz nosso olhar invasivo e nossas ações moverem céu, inferno, terra e purgatório independente de sua fé ou ateísmo. O sexo está em toda parte, mas fazê-lo em todo lugar onde está pode levar a duas coisas: atentado ao pudor – consequentemente cadeia e... Sexo (?) - ou voyeurismo. Este do qual todos sofremos, principalmente se os desejos sexuais forem platônicos e idealizados. Ainda assim, as vitrines diárias, as ruas, e as ladras das janelas, as tevês, nos resumem ao desejo e um presumível movimento de vem e vai onde somos imagéticos seres comestíveis e canibais de nós mesmos... E o pior gostamos disso e mordemos os lábios lambidos.

quarta-feira, dezembro 14, 2011

Seus suores sagrados


*(Segredando o fazer inesquecível de exaltar o entrelaçar dos corpos e almas) Ft: Rafael Belo

Seus suores sagrados saem de ti em sacrilégio
sem suportarem seguirem, secam ao calor corpóreo
gritando prazer poro por poro dos roçares geniais do privilégio

prevalece o fazer em arrepios constantes do ofegar provisório
dos gozares Kama Sutras da cama procurada do olhar dos hemisférios
movendo-se ao encontro dos sexos nos tremores ultrapassando o esquentar dos óleos

escorregando o encaixe no ritmo frenético do vapor exalado no revelar dos mistérios
fabricados da entrega a consumação do Amor em oferenda a vida subindo em incensório

esgotando a sensação de miríades de sentidos sequenciais  movendo-se sem parar
em seus suores sagrados sacolejando os universos nas chuvas cadentes de estrelas
levando nosso ar.

Rafael Belo às 11h56 de 13 de dezembro de 2011.

domingo, dezembro 11, 2011

O Oito Deitado da amizade


Áudio de O Oito Deitado da Amizade -  Trilha Amigos pela fé - Anjos de Resgate


(*Na calada da noite a lua se movimenta e apesar do negro céu aparecer é azul e tudo se move e faz barulho) Foto: Rafael Belo


por Rafael Belo
“Sonhei meus sonhos em palavras declamadas e elas foram lapidadas arqueologicamente...” Havia uma redoma nebulosa com diversas faces conhecidas ao redor de um Oito Deitado, mãos se uniam e formavam um sol de raios espalhados. Nem todos se conheciam entre si, mas eram meus amigos, eu conhecia a todos e todos me conheciam. Cerca de 13 pessoas segurando um o dedão da mão direita da outra falavam boas palavras adjetivadas da reunião prestes a terminar. Ao fim, o sol foi sacudido e os raios se liberaram acima das cabeças sobre o grito uno de ‘infinito’.

Era a primeira reunião do Oito Deitado. Gabvi havia encontrado por acaso o artefato há um ano em um parque da cidade. Ele viu um brilho sob a grama reluzir diretamente em seus olhos e decidiu verificar. Sob a grama molhada, após a chuva seguida de três horas, havia barro ainda com água.  Não era sua intenção ir ao parque, mas há um tempo ele reuniu todos seus amigos naquele local de diversos estados e quando deu por si, voltou após dois anos. Só percebeu sua imundice ao estar praticamente dentro de um buraco. Olhou ao redor e viu dezenas de pessoas o cercando... Imperceptivelmente guardou o artefato no bolso e fingiu aos estranhos ter encontrado a suposta aliança perdida...

Estava cheio de barro e foi ao banheiro mais próximo. Nem havia terminado de se lavar quando a primeira ligação o assustou “ah, ah ah...” começava a canção de seu celular. Nos próximos onze meses, outros onze quase irmãos o surpreenderiam da mesma forma. Ele ainda pensava em como fez aquele buraco e encontrou aquela pedra desconhecida com o Oito Deitado. Quando Os Amigos – uma das denominações a perpetuar esta aliança reforçada - fizeram novo contato voltando a fazer parte de seus caminhos. Eram 13 contando com Gabvi.

Todos relataram sobre um chamado interno silencioso, porém pulsante.  A vontade de ajudar sempre o próximo começou a orientar o dia de todos os presentes. Um sentimento de irmandade era implacável. Eram diferentes, eram iguais e a partir deste dia seriam amigos de ventre. O desejo em comum de espalhar a fraternidade criou uma aliança forjada pelo tempo e um sobrenatural incondicional. Um Oito Deitado idêntico em 13 alianças guardado por milênios dentro do artefato não parecia intrigar ninguém. Eles os vestiram no anelar e dedo médio e saíram com a intenção de espalhar os sentimentos de verdadeiros irmãos.

sexta-feira, dezembro 09, 2011

Chuva que flui a vida


Trilha da Crônica Chuva que flui a vida- Canção da América - Milton Nascimento


por Rafael Belo


O tempo nos pega pelo pé e nos sacode feitos leitões natalinos - o ‘peru’ favorito lá pelas bandas européias. Quando percebemos, nossa criança interna naquela adolescência a fazer contorções faciais negando ser infanta. Mas, nos enche lembrar como nos construímos subindo em árvores, correndo em diversas brincadeiras, jogando o Jogo da Vida, Banco Imobiliário, War e até videogame. Contudo, as mais derradeiras e proeminentes são as pessoas plantadas no caminho. Os amigos e as marcas mútuas deixadas. As memórias e cicatrizes traçadas em nós do espaço pendendo levemente a esquerda do peito até as mais diversas sensações espalhadas no cérebro, na pele.

Parar, brilhar os olhos e olhar para um falso vazio no espaço são sintomas pulsantes de mais um fim de ano, de mais um celebrado Natal. Nestes nossos tempos de mídias sociais e dedos acelerados, os amigos - perto e distantes – estão ali ou ainda estarão. Mas lembrar dos feitos, dos passados juntos, dos aprontamentos traz a vibração de poder reencontrar, de reuni-los todos no mesmo lugar. Dilata a vontade de deixar o adulto de lado, soltar a criança mais intensa, esquecer dinheiro e empecilhos e atar as pontas livres de amarras só para saber...

Não é nostalgia. Nem chega a ser saudosismo. É a gratidão de ter estas pessoas, de alguma forma ainda, em nós. Não importa se estão em Rondônia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Roraima, São Paulo, Paraná, Distrito Federal... Elas ficam em nós. São partes das construções destes adultos apressados e esquecidos feitos nós.  São outras Felicidades a enredar a música mais bela das nossas vidas. Uma palavra, a presença, o puxão de orelha, a ligação, o pensamento... Aliás, quantas vezes já não associamos um momento de hoje a algum déjà vu com um amigo? Escrevendo em pensamento lembrei de uma composição minha onde digo que os amigos estão do outro lado do pensamento...

Mas é bem mais, não é? Amizade é aquele leito de rio seco esperando o tempo nublar, trovejar, relampear e despejar seus raios no sertão até virar mar... Esta esperança, esta força, esta fluência viva da água... A chuva motivo de toda água da terra. Gota a gota formando uma corrente arrastando os desafiantes, se adaptando por onde passa e seguindo, levando consigo um pouco e deixando um pouco também. Esta memória da natureza nos lembrando de quanto não hesitávamos ao sair para tomar banho de chuva e ensopar as roupas e calçados. Acima de tudo, regando além da distância, as sementes da amizade espalhadas em mentes e corações.

quarta-feira, dezembro 07, 2011

Desconstruções amigas


Áudio de Desconstruções Amigas com trilha de Quando não houver sol - Titãs



(*Céu dividido em águas, águas dividindo céu e seguindo em frente, mas
deixando seu rastro de umidade)
Foto: Rafael Belo
Outrora éramos tantos a se divertir

correndo pela rua a se reunir por aí

negando ser criança e sendo o riso fácil branco

sempre pronto para sair

e quando não, vem o tempo brando

voando vago vento nos espalhando tanto

quanto de saudade sem lágrimas guardamos

brilhando nosso eufórico eu, lembrando

irresistível construção de quem somos

pelo espaço loteado dos corações salteando

o impossível, das amizades em sensações inesquecíveis,

lá seguindo vidas

adiante, onde um adiantado sorriso, nos desconstrói.

Rafael Belo, às 11h10 de 6 de dezembro de 2011.


domingo, dezembro 04, 2011

A dois em um e em dois


Áudio do miniconto com Trilha 'Bom dia, Anjo' - Jair de Oliveira e Tabatha Fher



*(Entre o espaço da terra encontrada pelo céu está o horizonte sem fim por onde mora o Amor)
Foto do Alto do Cristo Rei em Corumbá - Imagem: Thais Solano 


por Rafael Belo
Eles não iam se encontrar. Desencontraram-se por mais de 23 anos pelo Brasil afora. Entre amores e resguardos estiveram tão próximos em certas ocasiões, a ponto de um esticar de olhar os cruzarem para sempre. Mas, não foi assim. Não é desta forma a aventura da montanha-russa arriscada de viver. Os dois não estavam prontos um para o outro. Nenhum deles iria para onde foram. No entanto, temos pouquíssimo controle sobre qualquer coisa e aquelas a pensarmos ter, menos ainda. O tempo e o espaço estavam prestes a se dobrarem para eles e os dobrar.


Em uma noite de reunir e celebrar, no tradicional encontro anual do Dia do Amigo, aqueles decididos a não irem foram. Chegaram juntos. Ele a viu primeiro e já sabia. Ela estava na calçada com uma amiga em comum. Ela o viu depois e acabou por saber também. Estava tudo diferente. Uma força maior fazia da Alma pólvora e do Coração acelerado combustível a acender para sempre aquela chama bíblica. O mundo era fogos de artifícios na virada do ano. Esperança, Paz, Suor e... Ansiedade e Amor sorriam o mesmo sorriso.

Toda oportunidade ele a olhava e ela, sabendo do olhar, se completava e, quando não, olhava de volta.  Sem saber o motivo e não importava nem um pouco eles tinham a mais absoluta certeza do equilíbrio a terem um no outro. Pouco haviam conversado com palavras. Suas Almas pareciam conhecer e compreender detalhes um do outro. Quando a celebração acabou, dois corações permaneceram celebrando. Quase foram embora juntos, mas era cedo demais. Quatro dias depois, chegava a sexta-feira com as linhas costuradas por ele. Este a já ter de cor os dois números dela. Hesitou um instante e no próximo... Ligou. Era hora do almoço.

A empolgação e o medo estavam na voz dos dois ao telefone. No dia seguinte, para não ter volta, ele ligou confirmando o endereço, mas já estava na frente da casa dela. Ela, envergonhada, abriu a porta. Ele portava um violão e muitos presentes, o aniversário dela chegaria em dois dias. Eram as primeiras de muitas surpresas boas.  Vermelha e radiante ela agradeceu. - Uma pergunta a vir, vez ou outra, é o motivo da velocidade e a resposta mais justa é o não ter pressa, pois na verdade o tempo parece passar tão devagar, e não há dúvidas.

Com medo de errar, os dois acertaram e no fim da tarde o primeiro dos primeiros beijos cantou. Passados 13 dias o namoro iniciava para nunca mais. Mesmo no noivado, 12 meses depois, o namoro seguia intenso, e daqui a 12 meses e 11 dias, a intensidade em verdade será uma aliança da eternidade dos dois.

PS: qualquer mera semelhança com a realidade, não é mera nem semelhança, é a realidade mais pura das vidas de Karine Nogueira e, deste blogueiro, Rafael Belo – levemente resumida.

sexta-feira, dezembro 02, 2011

O Amor está ao nosso redor e em nós

Pra Você Guardei o Amor - Nando Reis e Ana Canãs
*(De braços aberto o Amor nos espera guiado pelo Sol, abrace)
Foto Rafael Belo - Cristo Rei em Corumbá
por Rafael Belo

Eu preciso dizer Eu te Amo! E o digo. Sem motivo para me envergonhar de dizer em alto e bom som. É a verdade mais linda e eu não consigo guardar. A dois o mundo é mais claro e profundo. Há mais conexões, há tantas soluções e há, claro, o movimento. Tudo se move o tempo todo e só há um momento no qual o contrário parece. Lento, praticamente parado. É no exato instante do nosso encontro, do nosso estar junto. O silêncio se faz presente e o universo inspira comigo. Não há imperfeição no Amor, há em nós, em nós dois e em todos. Isso é resultado dos pés estarem no ar e no chão ao mesmo tempo.

O Amor nós ensina a nos amar mais para mais amar o outro.  Ele liberta, cativa e tira os óculos escuros do desamor. Àqueles a protegerem os olhos da luz, do sol e nosso olhar do olhar do outro. Amar não é uma receita pronta a não ser se a vontade for o autoengano. Ouvir e respeitar o outro diariamente faz o Amor crescer e tomar as próprias proporções do imensurável se tornando de uma maneira única incondicional. Não há o ideal, pois este é só um exercício imaginário de um reflexo egoísta de nós mesmos.

Este é o Amor apaixonado, como podemos perceber, entre duas pessoas dispostas a passarem a vida juntos sendo sinceros um com o outro em uma conquista da Felicidade mútua e da compreensão de cada. Não é anulação, negação, subtração... É soma, multiplicação e divisão. Divisão do tempo, das tarefas, da vida... É aprender a conviver, aceitar, sorrir ao invés de gritar e implicar, apreender a Esperança, calma e a paciência. É um sempre querer bem do outro. Não há inveja, vaidade, não há mal... E antes de mais nada, não é impossível. Amar nos dá força e ser amado, coragem.

Antes do esquecimento me acometer, ainda digo: Amar é ser você mesmo e ter o seu espaço também. Para o Amor acontecer e dar certo é preciso estar disposto. Ele pode até cair do céu, bater na sua porta, ligar por ‘engano’, mandar um email ‘sem querer’, um torpedo ‘equivocado’, mas se você estiver disfarçado (a) pisando em pegadas alheias na vida, como o reconhecer? As linhas tortas a o levarem até você podem ter lá o seu tempo, mas o Amor está em nós e ao nosso redor e será declamado quando menos esperarmos, porém, ao nosso atentar.

quarta-feira, novembro 30, 2011

Sinestésico horizonte

Eu preciso dizer que te amo - Cazuza e Bebel

*(No horizonte estão todos os sentidos se expandindo pelo infinito.)
Foto Rafael Belo
 Avassaladoramente, move nossa mente e dissipa nosso corpo o Amor
desafia toda dor, endireita o torto e canaliza o universo no todo
potencializa o Coração, no topo a ser Alma, absorto em cada olhar faiscante
iluminando instante a instante o mundo com a chama eterna da vida
emocionada nos detalhes da brisa soprada, em entalhes manuais ternos

Acaricia o rosto a aliança etérea entre as almas arrebatadoras na entrega
do abraço da pele poro por poro, suspiros por cheiros, coração em coração
na mais intensa inspiração de conquistar um ao outro, em cada alvorada

na revoada apertada liberada pelo sorrir contínuo a se mesclar com o horizonte
fonte do encontrado olhar se pondo e renascendo sem pontos, para encher os espaços do entoar lacrimejante do verbo conjugado pelo dando da boca beijada em realizados sonhos, Eu Te Amo!

Rafael Belo, às 9h49, terça-feira, 29 de novembro de 2011.

sábado, novembro 26, 2011

Somos anjos e demônios



Trilha - É preciso dar vazão aos sentimentos - Bidê ou Balde.




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*(  se tiver que tocar a Luz sua fé é fraca e pode se apagar depois do terceiro toque...) Foto Rafael Belo

por Rafael Belo
Email anônimo destinado ao mundo
Perto do fim tudo parece voltar ao início para o derradeiro. Como um minuto eterno de consciência onisciente do coletivo e das extensões dos universos. É como se a compreensão final sorrisse e o som da linha reta pudesse se perpetuar na UTI invisível. Mas, antes dos pontos finais e da pontuação necessária, há um surto de pluralização única de nós, seres sem iguais. Nunca só calmos, nunca só irritados, nunca só gentis, nunca só sorridentes, nunca só tristes, nunca só felizes, nunca sós enfim, porque somos detentores de todas as sensações das mais diversas formas captadas pelo corpo e pela alma.

Já não sei mais quem sou – se é que já soube um dia – mas, não somos uma coisa só, não somos os anseios de ninguém e o ideal?  O ideal é sinônimo da utopia. Uma referência, uma luz no fim do túnel posta para nos indicar o caminho. Somos anjos e demônios sim. Não adianta negar, procurar com a cabeça os ombros esquerdo e direito vigorosamente. Admita. Somo fortes, fracos, somos humanos... Doamos opiniões e agimos pouco. Pouco em demasia. Chega da nossa hipocrisia reconfortante! Nossos pecados serão perdoados e quando compreendermos de fato, no soar da maturidade desta ou daquela idade, nos arrependeremos.

Como ninguém sabemos ser sábios e tolos. É da nossa natureza humana. Mudamos muito de assuntos, insistimos muito no mesmo ou não temos assunto nenhum. Mas fazer justiça com as próprias mãos ajuda a incitar o ódio, a decepar cabeças de hidras mitologias só para vermos duas novas nascerem no lugar. Não precisamos tirar a vida de ninguém ou nos privar da liberdade de ser quem somos, basta nos adaptarmos. Existem sempre vários caminhos para chegar a um objetivo, existem vários objetivos para um caminho.

Nosso mundo é tolerante e sabemos bem o significado de tolerar – distante o suficiente de aceitar ou respeitar. Queremos respostas, queremos perguntas, queremos responder, queremos nos calar, queremos o silêncio, queremos guerra, conflito e queremos paz. As pessoas têm interesses, nós temos interesses nas pessoas. Amamos – ou pensamos que sim – nos apaixonamos e perdemos a paixão, fingimos desamor e às vezes o promovemos. Para no final voltarmos ao início de um email anônimo desabafado (desesperados enviados a todos e todos os meios de comunicação) e descobrirmos que fizemos várias rotações e translações e, tonteados, desabamos na beira do edifício mais alto das proximidades. De lá deslumbramos as nossas necessidades: alguém que nos ame, alguém para amar, um grupo de amigos e lembranças, um refúgio e os momentos de silêncio e solidão. Somos o próprio paradoxo em harmonia.

quinta-feira, novembro 24, 2011

Barulhos da Noite

 Trilha Quase sem Querer - Legião  Urbana na voz de Maria Gadú

(* o que está no fundo atrás da teias do muro ?) Foto Rafael Belo

por Rafael Belo
Engraçado como o noticiário nos fez medrosos. Bem, o noticiário, nossos pais, nossa falsa sensação de segurança, experiências nossas, alheias e, claro, nossa própria paranoia. Basta um barulho da noite, aquele ruído noturno repentino, para o despertar. Tudo fica em alerta e às vezes o sono dá lugar a insônia. Mas qual seria nosso feito se o possível invasor tivesse portando uma arma de fogo? Com sons diferentes no quintal ligar para a polícia é a primeira ação, mas normalmente nossa reação é: ‘e se não for?’ Aí vamos até lá verificar... Instinto e insegurança se misturam e no final, no breu das altas horas, não dá para confiar mais.

Devemos estar preparados para tudo, mas é tão exaustivo sermos eternos escoteiros, olhando para todos os escuros, gritando sempre alerta e temendo estranhos desconfiando de desconhecidos... Mas ao mesmo tempo aquela sensação de sermos impunes e com tanto ego a afastar qualquer mal deixa o desequilíbrio igual = totalmente equilibrado. Os barulhos da noite nos perseguem em cada esquina. Às vezes nós estamos nestas esquinas escondidos nos esperando para a surpresa... Na ponta dos dedos, achamos termos o controle.

Se não temos controle sobre nossa reação diante do inesperado por mais treinamento mental imposto por nós mesmos por que tanta preocupação com o porvir? Por que nos consumirmos tanto diante ao quem sabe, ao possivelmente? Esta sensação de impotência perante o passar das horas só existe pela nossa superestima. Esta nossa mistura diária de herói/anti-herói no olhar único de cada um nesta nossa gula veloz de não saber esperar, de querer resolver cada problema e tudo de uma vez ... Claro, virão reclamações e nos verão lamuriando o evidente leite derramado...

Este nosso eu freudiano martelando a certeza do entender dos outros, do mundo, exaure nossas possibilidades de permitir conhecer o passar ao nosso redor, enche nossas vistas de anteolhos e nos torna juízes constantes quando somos réus da vida. Desprezamos o presente com tal argúcia de raciocínio a ponto de não raciocinarmos e deixamos o presente guardado a olhos nus, sob as árvores de Natal para quando for passado o abrirmos e descobrirmos não ter sido bem daquela forma que víamos, mas então, os barulhos da noite já não nos deixaram dormir – mas quem sabe deixarão.

terça-feira, novembro 22, 2011

Oásis urbano


Trilha - Dom Quixote , Engenheiros do Hawaii


(*Somos além de segredos, somos mistérios
não decifrados por nós mesmos) *Foto Rafael Belo

Mesmo sob o sol escaldante diário nosso deserto hesitante se move
nos restos do passado não usado ao lado dos ventos renovados  do incensário
fazendo árvores longas sobre seco suor, sob nossos pensamentos que sobem,
fumaça da oração na sensação sendo ouvida por meio dos nossos grãos de areia a formar um grão, no oásis urbano

humanos traços nas fases dos quatro elementos espalhados pelo nosso vento
face da nossa folha verde no intenso outono, por mais que para sempre seja verão
naquela estação da sensação de inverno poucas vezes é frio e estagnado
pois há flores da primavera no coração e os mistérios da vida na alma não são segredos exagerados, são os ares das areias do nosso olhar acostumado a se enxergar destacado na multidão, em reforma eterna cheia de avisos de reforma e reconstrução.

Às 14h40 por Rafael Belo na segunda-feira, 20 de novembro de 2011.

sábado, novembro 19, 2011

Nos limites da memória


A trilha sonora mais uma vez é O Teatro Mágico, 'Transição' -do CD A Sociedade do Espetáculo

*(A pequena Panda na vastidão de seu mundo se confunde com a natureza e a natureza se confunde com ela) Foto: Rafael Belo
Por Rafael Belo
Não era a primeira vez. Mas, já não acontecia há uma vida inteira. Mesmo assim sob suas unhas estava uma molhada terra vermelha, suas mãos estavam cheias de cortes e seu pijama do avesso parecia retalhos não costurados. Seu sonambulismo atacara novamente neste fim próximo. Aos 93 anos, firme com pouquíssimas rugas, sua memória falhava ao tentar se recordar da última vez... Até que... Sentou-se. “Meu Deus! Ainda era uma adolescente quando meus pais morreram e acordava noite após noite em busca das minhas referências e ao voltar da minha consciência estava com as fotos deles nas mãos...”

- Ah, Asharo Gen... Qual a busca do seu inconsciente agora? Vou voltar para casa e esperar minha memória recente fazer o mesmo, disse para a madrugada iniciada.

Descalço. Estou descalço. Não só sinto o chão, mas a vibração do silêncio urbano. E... Será...? Será que se eu não piscar não perderei mais nada? Desta vez minha calma não vai mais me abandonar. Não terminarei medicado ouvindo desconhecidos dizendo me conhecerem e debilitarem meu tempo programando minha vida como um microondas apitando miolos aquecidos. Não! Sei e não me sinto sozinho. Agora é parecido... Mas... É outra coisa... Tem a ver com... Quem é você?! Por que estou tremendo tanto...

- Quem é você?! Não se aproxime. Por que não o escutei se aproximando e..., Asharo suspirou profundamente virando o rosto para frente.

Não havia ninguém. Vou fechar os olhos, abaixar a cabeça e olhar novamente. Pronto...! Era novamente meu passado longo me perseguindo em peças noturnas. Nestes meus passos ecoando... Nossa... Eu fiz todos estes buracos na terra?! Por isso tanta dor nos músculos. Não conseguirei competir amanhã. Nada de piscina enquanto eu não me resolver. Há tempos eu não era um mistério... Ah, as mulheres adoravam este meu ar, meu olhar... Chega de divagar! Tire o sorriso bobo do que já foi e se concentre por um tempo.

O que é isso pesando no meu bolso? Bolso? Desde quando meu pijama tem bolso?!

Que frases são estas na minha mente: ‘ Preservar coragem em transição’, ‘Desvalidar o improvável’... Com certeza são versos de alguma boa música. Devo estar dormindo...

- O que este sonho queria dizer..., foi retórico Asharo enquanto caminhava na escuridão de seu chalé até a sacada para procurar as respostas no silêncio. Aos poucos foi balançando a cabeça afirmativamente e abriu um sorriso a não mais sair de sua face.

Chega de fugir. Vou voltar. Meu pé... Ah, Danpa, minha fiel Danpa... Vai voltar comigo para a civilização e a conhecerá pela primeira vez, mas ninguém acreditará na tua inteligência e idade.

Asharo fez as malas e começou a descer as montanhas. Uma pontada atingiu sua alma e ele percebeu ser Danpa a causadora. Ela ficara nos limites das montanhas o encarando e virando a cara em diagonais. Asharo esperou as lágrimas e a compreensão escorrem. Não posso voltar... Certo? Nem para te abraçar... Devo seguir. Me lembrarei de ti?

Quando Asharo seguiu seu caminho. A incrível cadelinha Danpa, que não crescera e não mudara por todas as nove décadas ao lado de Asharo, cavava buracos todos os dias em busca do seu dono e o reencontro entre eles.

quinta-feira, novembro 17, 2011

Onde está a calma?


A trilha é "O que se perde enquanto os olhos pisca", o Teatro Mágico.



(E de repente  os galhos seguem as nuvens e nós despencamos) FT Rafael Belo

por Rafael Belo

A pressa engole nosso tempo sem mastigar. Mas, mastigados somos nós a ficar atrás desta corrida com a ânsia do mundo torto a nos ensinar a correr para chegar sempre na frente. Nossos ponteiros nunca se acertam e nossos fusos horários vivem em constante pane, já nesta vida vivida para trabalhar. Nosso relógio invisível é programado para nos alertar do nosso cronometrado tempo dividido, multiplicado e somatizado das nossas síndromes diárias do ‘estou ocupado’. Com tanta velocidade empregada nosso espaço fica vago e nós desempregados do viver. Tudo é curto, inclusive o pavio. Por isso, até além da sexta-feira outro estado é procurado... Onde está a calma?

Nas ruas todo o horário é de pico, toda fila é impaciência e cada palavra é reclamação. Em casa o cansaço é rotina, as dores de cabeça companheiras e toda conversa agressão. Como praticar a vida sem calma? Sem consultar os celulares inquietos e as horas atropelando? Se as calçadas não tivessem lixeiras, árvores e postes os motoristas e pilotos dos veículos dariam um jeito de ultrapassarem os adversários outros por ali, os ciclistas ignorariam tudo e os pedestres fingiriam não ser nem com eles... Se houvesse paciência e – sei lá – companheirismo e não competição ilimitada enxergaríamos mais no próximo, poderíamos baixar a guarda...

Mas estamos distantes pensando no dia seguinte, procurando culpados e passando direto pelo dia seguinte. Este passa diariamente enquanto nos atrapalhamos com nossos planos de enriquecimento e por mais mais mais mais.... Nossa ambição nos cega, ensurdece, emudece e regurgita verdadeiros valores simplesmente para vencermos a disputa de chegarmos primeiro ao sinal vermelho. Caso esteja verde, aceleramos mais por uma onda de cruzamentos abertos para afinal vencermos a competição imposta e dormimos...

Lá na linha cruzada nos louros e glórias procuramos do alto os deixados para trás, os espinhos, pedras e o próprio caminho... Era isso nosso futuro? Mas, cadê a paz?! Quem nos tornamos afinal? Onde está o suficiente? Onde estão os sorrisos? Onde estão os sonhos? Onde está a responsabilidade? Onde nós estamos enfim...? Achamos em algum canto o perdido Pequeno Príncipe da nossa eterna infância conhecedor do fato de nos tornarmos eternamente responsáveis pelos nossos cativados? ‘Alguns’ na verdade temem a felicidade, se tornam cativeiros dos sonhos inacabados, cativos de suas horas marcadas e se esquecem de perguntar: onde está a calma?

terça-feira, novembro 15, 2011

Reis tolos


*(a flor da abóbora murcha na verdade esconde a coragem do sol)
Captei no fundo do quintal do serviço, Rafael Belo.
Perdeu-se a coragem na esquina quando a curva da chuva chegou cintilando
nas ruas lavadas de céu noturno leve límpido louvado em catarse
na frase viva ouvida por arrepios adentro no centro de tudo no fundo do olhar do espelho

Centelha estralada do seio da terra molhada na calada da coragem abalada do amanhã
queimando feito fogo falido enquanto o falecido não tem nada de morto
só solto sedado pelo alado selo partido salgado no debulhar do trigo

Colhido silencioso no meio marginal mareado onde se dissipa a sanha
sem manha escondida da contida coragem constipada alastrada em incêndio
perdido na chuva curvada coroada pelo rei tolo tomando tudo como seu

som saindo , alto alvo aniquilador... Caindo na esquina na branquidão onde se arrastava a coragem.

(Rafael Belo, às 22h21 de 14 de novembro de 2011.)

sábado, novembro 12, 2011

Pequenos milagres ao sol

*(...em todas as dimensões a Luz chegou e mostrou o quanto há milagres na vida...) captei nos fundos do serviço na quarta, Rafael Belo.


por Rafael Belo
Ela simplesmente juntou tudo que lhe pertencia – as roupas e materiais passou o mês doando -, respirou em profundidade, ligou o som e deixou correr as lágrimas. Era a primeira decisão de sua vida em silêncio e sem influências de terceiros ou primeiros...  Deixou-se pela última vez deitar debaixo das flores roxas e ver a versão original do sol espreguiçar seus longos raios acolhedores para mais um dia milagreiro. Daria seus primeiros passos no escuro e na solidão em quase 20 anos. Já beirava os 35 e sabia: solitária não ficaria. Quem realmente a conhecia a entenderia e da forma de cada a incentivaria. Estavam com ela, além das lembranças.

Perita em pequenas armas e mestre em Aikido, correria menos riscos de morte pela sua caminhada. Aika Sophia esperava um dia poder ajudar as pessoas a crerem. Mas, como jurou protegê-las quando se formou há 13 anos, o prosseguiria fazendo, mesmo sem a farda. Planejou viver de sua arte de escrever e filosofar por meio da fotografia – seu hobby – e da poesia – sua expressão diária. Decidiu escolher em cada cidade passada uma pessoa coerente e consciente na medida do possível, de si e do mundo. Além de seu quimono, suas faixas de graduação e conhecimento, carregava sua máquina fotográfica...

Não imaginou que o Grande Criador pudesse abençoar sua até que enfim decisão. Quando choveu, no seu primeiro passo fora de casa, seus olhos choveram também – de novo. Era a paz e a alegria misturando doce e salgado em seu rosto no arrepio da sua alma pelo corpo. A alegria nunca foi tão bem lavada. E entre as nuvens e o os raios fugidios do sol escondido coloriu um imenso arco-íris fascinante. Uma revoada de diversas espécies de pássaros pousou ao seu redor e cantou. Em meio a tanta água, Aika Sophia sorriu. Como velho hábito juntou os dedos da mão direita e os tocou como um golpe na diagonal da sua testa sobre a sobrancelha direita e rapidamente retirou: “Sim Senhor, Senhor!”

Recolheu suas coisas da varanda e continuou seus novos passos. A chuva cessou e parecia o fim da manhã. Ficou feliz por ser pequena e se sentir tão imensa – mesmo com seus menos de 1,70m -  media  todas as medidas do universo. Seus pecados foram lavados e agora sabia o rumo certo para seus dons. Quem sabe voltaria a postar na ‘voz do post a libertar’ quando pudesse falar como todos de uma vez na conexão única... Agora o faria um a um até voltar ao todos ser um. Enquanto saia da cidade imaginou como seria amanhã quando amanhecesse e seus post do dia continuasse dormindo...

quinta-feira, novembro 10, 2011

Amarelo formiga

*(polenizamos a vida mesmo na nossa pequenez agigantamos o amarelo) RB
Amarelo formiga

O nariz vermelho reluzia o reflexo da realidade
raiz espelho da fantasia dos outros sobre nós
atados a pequenez agigantada pelo amarelo [identidade
perdida na voz pela vastidão do nosso silêncio a sós

ecoando a lúdica luz lívida no novo ato amanhecido de raridade
rarefeito efeito feito do amarelecer das lágrimas escorridas dia das nuvens

poço raso sem fim da alegria procurada na amplitude da vida em profundidade
a se encontrar no desfocar dos detalhes divinos sem nós
sem sós, de sóis a sóis no desbotar desabrochado no interior do olhar sem idade

brilhando as cores deflagradas do instante inebriante do nosso acontecer.

Rafael Belo – 9 de novembro de 2011, às 7h45.

terça-feira, novembro 08, 2011

Banho de chuva

*(ornamenta a terra o tronco talvez morte de sua origem mas vida para muitos..
Rafael Belo)
Por Rafael Belo
O gosto da chuva parecia querer amargar o fim do dia. Mas, chuva é doce por mais molhados a ficarmos.  Nem o show adiado pelo tempo acabou com um domingo de dádivas. Depois de dias quentes tomar banho de chuva estendeu o fim de semana até o cinema mais próximo e claro, valeu à pena. Mesmo se o filme fosse ruim – o que não foi – o primeiro dia da semana chegou ao fim ainda sorrindo. O Palhaço é uma boa lição. Não é um filme completo, mas ver a atuação de Selton Mello em seu próprio filme com um grande elenco e uma fotografia impecável deixa todo o longa em um quebra-cabeça repetindo na mente.

Não vou contar o filme, mas ‘quem faz o palhaço rir?’ não é um pergunta cuja resposta seja difícil. ‘Se o gato gosta de leite, o rato gosta de queijo, você gosta de ser o quê?’ Quanto ao riso do palhaço sem seu nariz vermelho quem proporciona é a própria escolha de fazer os outros rirem. Mesmo quando nós retiramos nossas máscaras sem conseguirmos retirar os narizes vermelhos, somos felizes em nossas escolhas diárias a nos levarem ao futuro reiniciado a cada minuto chegando e se tornando no próximo minuto, passado? Nada de culpar o tempo, a família, os amigos, os outros antes de pensar bem ‘em refletir’...

Acredito ser no nosso palco da mente onde atuam tantos atores reverberados nos nossos pensamentos e lembranças aquele grande ‘quê’ de definição em uma única escolha para o resto da vida. Como se... Como se não pudéssemos mudar de ideia, errar, cair... É o que mais podemos. Como acertar a mutação constante de ser quem somos sem nos permitirmos descobrir? Desagrilhoar das correntes das limitações não é uma forma fácil de fugir da robotização modernizada dos ‘pensamentos’ nas redes sociais. Não há um decreto divino ou judicial a nos obrigar a sermos apenas uma escolha. Caso houvesse - e até caso o mais xiitas acreditassem – seria humanamente impossível.

Mesmo se os materiais baratos da política – escolhida por nós – causarem danos - como causam – e for decretado estado de emergência, o desmoronar , o cansaço e o engolir da erosão não será o fim. Há sempre tempo de assumir ou rejeitar o nariz de palhaço aceito um dia por nossas cabeças baixas como uma medalha de superação esportiva. Isso não significa desespero, dor e ranger de dentes – pode até não significar nada – mas hora ou outra o tempo se estenderá diante de nós se assim lutarmos para ser. Aí a chuva vira para marcar e lavar nossa alma.

domingo, novembro 06, 2011

No Dia Seguinte

(* o mundo escureceu e tudo remetia a um par de lâmpada fria acesa e todos para lá foram... Captei em uma antiga sala de trabalho. )



Por Rafael Belo

Ele havia rasgado suas roupas e andava com seus próprios trapos. Era do povo, mais um Zé Ninguém ilustre... No entanto, seu plano estava prestes a funcionar agora que chegara a Brasília e parecia se misturar aos mendigos. Toda sua estratégia de dividir e conquistar havia falhado e ele acabara improvisando. Mesmo com o sucesso solitário nas estâncias menores invadidas seu rosto ficara conhecido. Amado e odiado foi se escondendo pelos anos e apagando seus rastros como um cão de longa calda se arrastando pela areia. Foram necessários cinco anos de ausências e perambulações. Seu nome, sua vida não existiam mais.

Méugnin Camaleão... Era assim que as raras mentes ainda lembravam, mas mesmas estas não podiam provar a existência dele. Sua estratégia saia tão perfeita a ponto dele duvidar. Antes e agora. Na Capital Federal, não o encaravam sequer o olhavam... Ele, finalmente, não fedia nem cheirava. Não fora revistado ou impedido de entrar em qualquer lugar da cidade avião. Perambulava invisível feito um fantasma flutuando pelos cantos e só não era a encarnação do silêncio porque podia jurar: “se alguém passar muito perto ou vai ouvir meus pensamentos ou o barulho das sinapses trabalhando...”

Passou o dia analisando. Assombrou o Planalto Central como este cerca os cidadãos brasileiros e ali não havia mentalistas ou sensitivos para vazar informações e espalhar a cidade planejada em 191, 5 milhões de pedaços de pizzas... Cada porta e saída de emergência foi memorizada ao lado dos horários de entrada e saída de funcionários e a troca de guardas. Os mapas de todos os cômodos cintilavam nos seus olhos sem brilho. Decidiu confirmar todos os dados colhidos por mais um dia e marcou os ângulos cegos das câmeras. No dia seguinte, revelou sua mochila e trocou de roupas.

No Congresso Nacional se misturou aos paramentares federais e todos o cumprimentaram efusivamente. Fechou cada porta silenciosamente e em seguida obrigou o presidente da Casa a passar o microfone. Era uma sessão extraordinária, mas todos os suplentes também estavam presentes. Só havia os representantes de cada Estado presentes. Para a ‘sorte’ de Méugnin Camaleão só havia quem interessava. Com armas e bombas ele descreveu a situação e após muitas mentiras vindas dos ameaçados... No primeiro dia fez cada um trabalhar e ler todas as leis. Nos seguintes fez todos aprovarem os projetos engavetados, parados, ignorados.

Algumas semanas passaram e poucas reclamações vieram pela interrupção das sessões ao vivo, mas até estas cessaram. O fato é: o Brasil dificilmente aguentaria tanta bonança em menos de um mês, por mais que a espera tenha durado tanto. E a desconfiança era generalizada, assim como a confusão. Parentes e amigos não chegaram nem a estranhar o sumiço... Era apenas mai um... Mas, eventualmente o descobririam e de fato aconteceu.

Ele passou dias sob o cerco cerrado de especialistas, mas saiu como entrou só que estava de terno e uma pasta. Tinha o dossiê de cada um e o dinheiro de todos... Os bicos estavam fechados. O passo seguinte era depositar cada centavo merecido nas contas dos contribuintes e novamente entrar nos esquecimento, só não passou pela cabeça de Méugnin Camaleão este ser o início do fim e no fim só havia um par de lâmpada fria acesas.