sábado, agosto 24, 2013

Sonho seco (miniconto)


Sonho seco (miniconto)
por Rafael Belo

O vento desfez o laço. Atado fraco e pendurado no varal. Foi feito sem vontade, sem compromisso, sem qualquer conhecimento de formas geométricas ou a própria mãe matemática. Aos poucos o vento ventou mais forte e foi aumentando de intensidade. Até o laço virar fita e voar do varal. Este era o fim do sonho dele. acordou e realmente ventos fortes tentavam entrar pela janela. Quando conseguiram, tudo voou no seu quarto e assobiava pelos cantos agudo e voluntarioso. Tal invasão trouxe a lembrança todo o resto do sonho.

Ainda meio adormecido, tentava se manter acordado sentado na cama. Para variar, o sonho fora tão real, que ele ainda sentia os acontecimentos. Na porta sonhada, a mesma da entrada da casa real, havia um corpo infantil pálido, cinza, esbranquiçando com pequenos espasmos. Parecia morto, mas ele sabia estar vivo e uma voz sem rosto afirmava o mesmo. Vagarosamente foi reconhecendo a si. Só, então, reparou nos laços que trazia nas mãos. Fora das lembranças seus olhos brilhavam como se reconhecessem o significado de cada um.

Significavam um rosto, uma marca, uma cicatriz, um pedaço do seu coração partilhado, não partido, significava um amigo deixado de lado, distante, por decisões vãs e pouco pensadas, significava um adulto vazio e raso picado por dentro. As picadas queimavam, coçavam, se debatiam e vinham padronizadas neste sonho seco. Doía. Dava medo. Mas ele precisava tirar essas algemas onde ele mesmo se deu voz de prisão, ou seria de solidão. Sua pele começou a se mexer. Pareciam querer sair a veias. Mas, não.

Sua criança secava. Como se aquelas sangue-sugas que finalmente brotavam de dentro de si o bebessem e saboreassem aquela morte anunciada. Como a morte há tempos não é o fim, ele acordou pela segunda vez. Seu nariz escorria, seus olhos jorravam algum tipo de redenção e, como se evaporasse, sua pele fervia. Era uma sauna viva. Vivo, podia ressuscitar diariamente. Podia ressuscitar sua criança e parar de onde parou com seus amigos. Seus sonhos voltariam a ser regados, pois ninguém sonha sozinho.

5 comentários:

José María Souza Costa disse...

Admirável, Rafael belo.

Será esse mesmo, o sonho, de todo laço, virá fita ? Transformando-se em fita, existe a possibilidade, de enfeitar mais varais, ou mais cabeças femininas, ou mais pier de cais ?
entendo, que a Vida, nos convida, a cada instante à transformações. Nos mostra o caminho e o caminhar, e às vezes por teimosias, ou desleixos, eis, que surgem os ventos da necessidade, para fazer-se acordar, despertar. e na maioria das vezes que isso acontece, nem sempre é de maneira doce. Mas, é isso mesmo. Os varais, as fitas, os quintais. Os quintais da vida, estam aí, para desenrolar, os laços de fita, presos, tantas vezes pelo nosso comodismo.
Belissimo, o seu conto.
Parabéns.
Bom fim, de semana. Estava esquecendo, estou derramando olhares de uma janela, passe lá, naquele simplismo, que em momentos de empolgação, chamo de blogue.
Abraços.

Rafael Belo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rafael Belo disse...

Obrigado caro amigo. que bom despertar os diversos tipos de interpretar esperados e inesperados.

Cristina disse...

Un excelente relato, llego hasta tu sitio por intermedio de un comentario tuyo el blog de José Maria, si me permites me quedo para seguir tus publicaciones.
Te dejo un fuerte abrazo desde Uruguay!

http://perfumederosas-cristina.blogspot.com/

Rafael Belo disse...

Gracias, Cristina. gracias por el comentario y siempre es bienvenido. lo siento por no traducir a su idioma.