sábado, setembro 07, 2013

A arte da fome (miniconto)



A arte da fome (miniconto)
por Rafael Belo

Ela estava com um apetite voraz e mastigava mal. Engolia bem, mas quase engasgando. Ao fim passeava a língua pela boca, procurava com a ponta os vãos entre os dentes. Nesta acrobática imagem bucal queria tirar as frustrações presas na boca. Depois voltava a comer como se nunca mais pudesse fazê-lo, mas não estava saramandando, portanto nada de explodir feito a Dona Redonda. Nem tinha sinais de gordura. Era só uma gula psicológica com sintomas direto no estômago. Enquanto ruminava a boca vazia e mordia as bochechas pelo lado de dentro, pensava.

Era a própria angústia solitária. Já há alguns dias estava nesta encrenca. Sentia uma fome incontrolável. Tamanha era que podia jurar que até os outros mais distantes podiam ouvir seu estômago. Insaciável, mastigava até os músculos das mandíbulas travarem e mal conseguir abrir a boca, portanto não falava mais. Para alguns era uma bênção, pois em seus dias “normais” este ser faminto matraqueava como uma rádio em frequência AM durante final de jogo de futebol, lotado, com diversas invasões de indigentes pelados, com previsão de prorrogação e pênaltis.

De repente ouviu sua mente imitar Deus. Nem só de pão viverá o Homem, minha filha. Foi, então, comer pão para garantir e tudo ao alcance. Até não restar mais nada. Aquele, agora, conhecido apetite voraz realmente parecia ser interminável. Novamente seu estômago roncou, mas ela se encolheu porque não era só um ronco. Era toda uma palestra ministrada pelo “senhor saco sem fundo”. Encolhida. Envergonhada. Rezava para ninguém o ouvisse. Ninguém mesmo. Nem tão, tão perto. Nem tão, tão, tão, tão distante. Além de correr o risco de ser confundido com sons de outros locais mais ao sul, parecia a localizar geograficamente com imagens ao vivo em um satélite Obamaespião.

Quando já se entregava ao autocanibalismo, que jurava estar acontecendo neste instante nos recôncavos do seu interior. Ouviu a imitação divina de sua mente de novo. Minha filha, nem só de pão viverá o Homem, nem a mulher, mas... “Caraca meu”, ela pensou interrompendo sua mente, estou usando licença poética”... Como nunca foi de imaginação cada coisa era aquela cada coisa e nada mais e nada menos e nada, nada.

Resolveu fazer uma coisa inédita. Não iria mudar o mundo, mas quem sabe sua... Foi até sua pilha de livros e livros e livros e livros nunca sequer tocados, soprou a poeira, entrou em uma crise de tosse e assim que parou de tossir começou a ler Um artista da fome, Franz Kafka. Imediatamente tudo silenciou dentro dela. Ela se assustou e reclamou com sua mente. “Pôxa, da próxima vez seja mais direta com sua imitação...” Voltou ao silêncio e a um novo e surpreendente apetite voraz onde parecia nascer sua imaginação.

2 comentários:

José María Souza Costa disse...

Admirável, bom dia.

Um texto brilhante. Gostei mesmo, foi da fome psicológica. Essa que deveria chegar até aqui em casa. Confesso, que apenas, mostraria o Mercadão de peixe, e tudo estaria resolvido. Fim de mês ? A mesma grana inicial. Mas, deixemos as minhas particularidades de lado.
" Ler, é uma Arte."
Amei. Abraços.

Rafael Belo disse...

OO querida amigo versado. as particularidades não devem ficar de lado rs ou ficamos também. Muito obrigado nobre. abraços