terça-feira, outubro 29, 2013

Fico Pensando...


Fico Pensando...

por Rafael Belo


Fico pensando em como é possível se contentar com a estagnação, a paradeira. Trabalhar sem a possibilidade de evoluir, sem a perspectiva de melhorar... Viver sem contribuir de forma alguma com a vida. Está aí algo que me irrita. Uma rotina onde é tudo redondinho e igual dia após dia. Como não absorver, compartilhar, transformar...? É como se contássemos mentiras diárias para nós e cada mentira adiasse ser quem somos. Gradualmente a irritação aumenta, se transforma em raiva, ódio, fúria e toda a ira nos curva pendendo nosso corpo para o chão.

Ainda fico então pensando se importa o tamanho da corrupção. Maior ou menor, não muda. Porque é claro que nos corrompemos. Vamos nos corrompendo aos pouco. Mais uma vez fingimos não ver e sentir na nossa maniqueísta versão de o que os olhos não veem o coração não sente. Falar e ouvir continua sendo um arremedo da nossa verdade. Falamos muito e mais besteira ainda. Ouvimos pouco e quase ensurdecemos. Aí falamos de carreira e salário para no fim preferirmos a suposta imagem da profissão.

Toda esta paradeira e mesmice fica martelando enquanto fico pensando no tempo desperdiçado para agradar, para continuar ao invés de seguir. Porque continuar é ficar girando em círculos, embaralhar todos os pensamentos e misturar qualquer decisão que poderia ser tomada. Seguir é usar outra pontuação da nossa Língua Portuguesa. Substituir as reticências, deslocar as vírgulas e utilizar os pontos finais. Ah, há tantos finais. Cada um disfarçado de prolongamentos como aqueles filmes considerados bons que pelo sucesso do primeira emendam uma continuação péssima.

Portanto, não adianta ficar no fico pensando... Ficar. Pensar. É bom, mas é uma etapa. Uma prévia para ir e agir. Protelar, adiar, cria uma ilusão de agrilhoamento, várias correntes cheias de bolas de metais, com a vestimenta obrigatória das listras intercaladas em preto e branco nos aprisionando na nossa própria covardia de arriscar. Com isso a morte vem todo dia de uma maneira mais pavorosa. O medo de provar sua inutilidade faz a tecla ser tão batida que já não tem nada a identificá-la. A pasmaceira toma conta e se não quisermos apodrecer devemos podar partes de nós mesmo para novas flores nascerem e deixarem nosso perfume.

2 comentários:

Cristina disse...

Excelente texto, un placer leerte...
Bello martes.

Rafael Belo disse...

Obrigado, linda. Bom ter vc por aqui. Bjs