sábado, outubro 26, 2013

Pequeno córrego (miniconto)


Pequeno córrego (miniconto)

por Rafael Belo

Todos que podiam ver paravam alguns instantes para olhar. Depois esfregavam os olhos, balançavam a cabeça e, se tivessem tomando algum remédio, certamente estavam pensando se exageraram na dose ou se esqueceram de tomá-lo. Seguiam olhando para trás várias vezes e, então, decidiam ser tudo uma alucinação, um delírio por causa de tantos sóis particulares. Como está calor! Justamente por estar tão quente ele derretia. Não metaforicamente. Sua pele..., Melhor dizendo, suas peles escorriam e formavam um pequeno córrego onde antes era apenas chão.

Nenhum pensamento se mantinha na mente dele. Era como se ele tivesse mil olhos e se visse impotente se desfazendo. Assim, era difícil formar qualquer tipo de raciocínio. Ele via o predador sendo presa a presa sendo predador e sentia sua sanidade escorrer também. Ele era ambos o tempo todo. Construía com uma mão enquanto a outra derramava todo líquido inflamável disponível e de repente ateava fogo. Deixava toda luz entrar pelo seu teto de vidro e simultaneamente arremessava pedras.

Tanta destruição provocava o tsunami do efeito dominó. Quem se aproximava caia desde sempre. Pelo menos nas lembranças carcomidas desta mente sem recordações. Um brilho eterno eclodia por instantes e depois era o vazio. A ânsia de conquistar, destacar, ter e lá vinha uma nova pele... Claro que com seu impossível derretimento, todas as lembranças que acendia apagavam na mesma velocidade. E ele já não sabia se quem caia, caiu, cairia ou estava caindo... Então, a torneira pareceu engasgar e cuspiu uma gota d’água. O suficiente para trazê-lo de volta e se assombrar com um reflexo no espelho do banheiro. O próprio.

Fosse qual fosse o jogo ele se concentrou em suas mãos. Primeiro na esquerda depois na direita. Parou de frente consigo mesmo. Olhou para um olho depois para o outro. Quase se assustou com o primeiro pensamento. Pareceu em voz alta. Um olho meu acumula identidades, o outro condensa personalidades. Chorou personalidades e identidades até desidratar. Não melhorou. Ao invés disso, misturou fúria assassina, temor covarde e inclinou a cabeça para se encarar.

Ao olhar no espelho não estava mais lá. Não estava mais lá a imagem que sempre reconheceu como sua. Podia ver e ouvir um lobo feroz, porém suas palavra eram um som oposto a imagem. Ele balia e tilintava um sino estridente.

2 comentários:

Cristina disse...

Un placer pasar a leerte, gracias por la vista y el comentario.
Bella semana!
Abrazos!

Rafael Belo disse...

el placer es todo mío querido, Cris, una semana increíble para usted