segunda-feira, março 10, 2014

Para Pierro, seria o fim (miniconto)


Para Pierro, seria o fim (miniconto)
por Rafael Belo

Ele vinha alterando o humor como um tumor pressionando várias áreas do cérebro ao mesmo tempo. Um aneurisma da cisma de diversas situações. Desde seu último traumatismo craniano, o sangue parecia ter se alojado todo na cabeça.  Além da pressão da doença... Esta levou seus filhos e sua esposa e como todo deixado para trás, ele pensava: Por que não eu?! A autopiedade se transformou em raiva. Enquanto todos pulavam o Carnaval, Pierro Cinzas se imaginava pulando em cima de cada carro e pessoa por ali. Passou toda a folia registrando e planejando.

Pierro marcava rostos e placas. Motoristas bêbados. Rostos alterados. Quando o Carnaval chegasse ao fim, seria o fim. Ele adorava chamar as coisas e acontecimentos de estrume e as pessoas e conversas de estrupícios. Mas Pierro achava muito limitado o significado de estrume -  pôxa só merda é pouco, pensava. A explicação sobre estrupício para ele também era distante – Não pode ser só pessoa feia, desfavorecida esteticamente, esquisita... Não! Vamos juntar. Então, surgiu o termo estrumício. Bem além da explicação de qualquer Google.  Para Pierro tudo e todos passaram a ser estrumício.

Seu amor foi embora. Aliás, seus amores. Ninguém fez nada. Mas ele não culpava coisa alguma nem ser nenhum. Porém, não queria deixar a raiva morrer também. Alimentava-a. Engordava-a. Ah, e ela comia de tudo. Sua mais nova cria. A própria criação da retaliação. Ele seria O Retaliador. Não deixaria seu sofrimento ser de mais ninguém. Queria... - Ah, eles vão vasculhar minha história e distorcer tudo. Estes sensacionalistas vão explodir tudo. Eles nem vão entender os estrumícios no ventilador. Seria mais um terrorista. Esta é a incompreensão da bomba. Boom ...

Assim, na manhã da Quarta-feira de Cinzas. Era tudo silêncio no mundo da folia. Pierro saiu cedo. Dirigiu quilômetro. Acabou sua gasolina no ponto exato. Tudo conforme o planejado, pensou. O tempo chuvoso tornava tudo um só borrão. Desde o primeiro dia de Carnaval ele reuniu milhares de litros de combustível. Tudo isto está agora espalhado. Jogou mais um pouco no carro, “embebeu” um pano velho e o socou no tanque de combustível. O maior coquetel molotov do mundo, se divertia.


Ironia ou não, nem um par de pedras havia levado para acender seu plano. Pensou no meio e no fim. Mas, não no fundamental. Sua versão de Roma em Chamas, literalmente virara piada e estava encharcada. Mas começou a chover granizo. Misericordialmente (ou seria misericordiamente?), enfim, uma pedra de gelo, fina e longa, atravessou seu cérebro e para Pierro foi o fim. De alguma forma, começou um incêndio debaixo de todo aquele aguaceiro, seguindo toda a trilha deixada para trás por Pierro.

2 comentários:

Cris Bo disse...

Excelente!
Buen inicio de semana.

http://sombriabelleza.blogspot.com/

Rafael Belo disse...

obrigado. Para ti também e que ela seja cheia de luz. Seja sempre bem-vinda