quarta-feira, abril 30, 2014

O rasgar das listas (miniconto)



por Rafael Belo

Se pudesse rasgava o corpo e andava só com a alma por aí. Claro, estaria pulsando porque o coração também seria todo alma. Não que a aparência física não importava, importava sim. Mas só até um limite, até uma medida... E Leciti, bem Leciti já tinha se arrependido de estar nua. Não havia como ignorar todos os olhares a analisando, mas este não era o incômodo. Tinha certeza. Estava sendo seguida por tarados e taradas. Afinal, tara não escolhe orientação sexual... Mas de qualquer jeito ela se sentia uma carne exposta, às vezes de primeira outra de terceira. Porém, cabeça dura como era, achava o chocar as pessoas e seus 15 minutos de fama até a próxima visualização seriam o suficientes.

Queria acabar com a hipocrisia social. Afinal, era só um corpo nu. Não era um dos mais procurados na internet? Pornografia? Sua vontade era de acabar com a bajulação das curvas, a coisificação das pessoas, esta procura insana de ser igual a outrem, principalmente com as listas. Com certeza iria criar um aplicativo de concretização do rasgar das listas neste mundinho virtual. Para Leciti, as pessoas nem sentiam o chão e viviam nas nuvens e, a maioria, nas nuvens dos outros. Por isso vivia repetindo:  Comida pronta e micro-ondas existem em quase todo lugar assim como gente. Gente sem cérebro falando um bocado como diria o Espantalho para Dorothy.

Leciti tinha alergia a simples ideia de listar algo. Ela começava a empelotar todinha. Seu ar parava de fluir. Mudava até a cor da pele. Sentia uma raiva imensa e começava a bufar como se fosse o Lobo Mal light dos Três Porquinhos das Disney. Só melhorava quando gritava. Sua alergia psicológica exigia um grito de liberdade e Leciti adorava gritar. Então, uma belezinha escultural no auge dos 19 anos nua e gritando no meio da ainda interiorana capital do Mato Grosso do Sul, Campo Grande, só podia acabar no youtube e ser o assunto. Como se não bastasse a exposição, Leciti realmente teve um surto. Saiu rasgando todas as listas de amigos, familiares, colegas de trabalho, afazeres, promessas, compras...

No esbugalhar dos olhos de Leciti, ela foi detida. Presa por diversas infrações. A mais interessante era infringir a Lei do Silêncio... Haja garganta e hipocrisia. Com falta de vagas nas cadeias, presídios e delegacias... Preferiram acorrenta-la com a primeira corrente de bicicleta encontrada.  Não chamaram psicólogos nem assistentes sociais. Veio mesmo a mídia. Mas, ninguém queria saber da alergia e paranoia de Leciti. Todos perguntavam pela “loucura” dela e ela falava sem parar: não podemos nos aprisionar nos nossos corpos, nos corpos dos outros, nestas infames mídias digitais, precisamos parar de listar as coisas (e se coçava)...

Quando estavam todos satisfeitos e Leciti, se coçando, ainda exigia ter voz, um jornalista com cheiro de leite resolveu seguir à risca as ordens do patrão. 


- Fale mais devagar para eu listar aqui suas reivindicações..., começava o comunicólogo e Leciti, ainda na palavra listar, já voava para o pescoço do cabra e tirava a vida de mais um "inocente" foca do Jornalismo...

terça-feira, abril 29, 2014

Corda sem nó

rasgou as promessas escritas,
com a pressa proscrita dos neandertais, esqueceu as limitações mentais

amassou qualquer lista [ das convenções sociais

misturou cada tinta, acabou com as ansiedades fatais

deixou as raízes mortais, imortalizarem
viu as sementes se espalharem, nos minuciosos suicídios falsos

ociosos cadafalsos das máscaras pessoais

a forca nunca existiu, a força das correntes partiu
partiram tiros dos gritos que libertavam,

estava nu e todas as referências comigo, voavam.


(às 13h04, Rafael Belo, segunda-feira, 28 de abril de 2014).

segunda-feira, abril 28, 2014

Plantando sementes, colhendo raízes


por Rafael Belo

Largar os calçados na porta. Deixá-la aberta e com os pés descalços chegar em casa. Gosto das minhas extensões: celular, tablete, relógio, pulseira, boina, calçados e roupas. Mas, no lar doce lar prefiro ter a nudez deste itens. Não fico nu, mas livre. Se saísse com tamanha liberdade nas ruas seria preso e agredido. Não necessariamente nesta ordem... Roupa de baixo só em casa, na avenida durante o carnaval, nas piscinas e praias. E apesar de me incomodar ficar, pelo menos, metade do dia coberto ainda tenho 50% do tempo para me despir, para a desconstrução.  Porém, listar meu ano, em possíveis afazeres é o cúmulo dos meus incômodos.

Gosto de surpresas. Não que eu não cumpra minhas metas, mas estou sempre em evolução e não gosto de nada me limitando. Por isso, acredito e pratico a desconstrução. Só assim consigo construir e ver os pedaços e as diversas formas de chegar até certo ponto. Por outro lado, vejo como a mãe da incomodação as fórmulas prontas, a visualização da realização de projetos... Esta tal de lista... Este tal de deu certo com fulano, beltrano, cicrano, vai dar certo com você também... Este tal eu sei... Criam uma zona de conforto, uma área de segurança inexistente.  Vai daí a quantidade de acidentes diários...  

Assim vai daqui uma lembrança de sábado e ainda dominando meus pensamentos. O tal de ultimamente não paro de pensar no Mágico de Oz. Principalmente no diálogo entre Dorothy e o Espantalho: - Espantalho, como você é capaz de falar se não tem um cérebro? - muitas pessoas sem cérebro falam um bocado, não acha?!... Onde estão nossas raízes? Todo o passado e nossas referências espalhados nos nossos poros ligando nossa mente ao nosso coração? Precisamos nos conectar com quem somos e espalhar nossas sementes. Temos de ter o encaixe antes de tudo, antes da sociedade, com a gente, com a nossa família. Aí podemos calçar aquele par de conforto para caminharmos e tirarmos para sentir o chão, então a porta fica aberta e a luz entra só para encontrar nossa própria luz. Mas para tanto é preciso se soltar, rasgar as listas, parar com as promessas e com a futurologia porque investir na própria nudez é estar vestido com todas as qualidades oferecendo raízes.



sexta-feira, abril 25, 2014

Borboletas Amarelas (Miniconto)



por Rafael Belo

O cachorro entrou desavisado. Não era por não saber... Empolgou com a visita. Não notou o rosto tenso, bravo do cidadão. Este gritou: fora cão. E o cão, Furacão, feito desta espécie de tornado, foi. Inclusive o canino, fora encontrado depois de um destes raríssimos fenômenos no Brasil, ainda mais em Mato Grosso do Sul, bem no epicentro do levado vento. Por isso o nome, não tem nada de criatividade, foi o fato de fato. Bem notificado, Furacão foi atropelado pelas próprias festas na cabeça, chamados pelos humanos de pensamentos. Um hora pensava e latia: ele chegou ele chegou ele chegou e, ao mesmo tempo, não posso entrar não posso entrar não posso entrar... Por isso entrou, mas saiu... Uma Borboleta Amarela voava...

Furação agora pensava latidos e rosnados enquanto chorava baixinho se encolhendo na porta. Só queria afago e atenção. Mas, então, um dos seus pensamentos depois de anos de solidão. Isto porque se cada ano seu eram sete humanos ele vivia 8 mil 760 dias por ano e 24 dias a cada 24 horas, claro, nas contas dele. Furacão não era bom em exatas e sim em humanas...  Ao falar com o dono só latiu aos ouvidos deste. Apenas para ouvir novamente: fora cão!! No entanto, se fez de confuso e olhos de abandono. O cidadão o olhou e acabou se comovendo. Certo, pode ficar. Mas sem pular e lamber... Várias Borboletas Amarelas voavam...

Cidadão ouviu algo, mas preferiu fingir serem só latidos de alegria. Furacão revelava algo sempre esquecidos pelos humanos: A IMPORTÂNCIA DAS BORBOLETAS AMARELAS. Elas passam constantemente na nossa frente, mas são tão delicadas e discretas... Nem percebemos, mas nos sentimos em alerta. As Amarelas produzem as lufadas de vento misteriosas. Estas levam os perigos fatais e criam cada vez um furação no meio do mar. Mas, às vezes, ganham nome de gente e vão para as cidades e causam devastações. Longe de nós porque, estas Borboletas Amarelas, são exclusivamente brasileiras. Centenas delas passeavam pelo vento ao redor daquela casa...

Borboletas Amarelas vivem só um dia e depois descolorem. Viram um contorno do próprio vento. Não percebemos o quanto nos salvam da autoextinção. Seu efeito é em massa, é Borboleta... Quase as mesmas funções de Furacão. Cidadão olhava intrigado para Furacão. Este, agora, recebia afagos e, vez ou outra, Cidadão, concordava com pequenos sim’s no balançar da cabeça. Lembrou do dia do filhote Furacão. Quando o encontrou. Lá na China uma Borboleta Amarela saia de um casulo. Foi lagarta no meio das roupas de uma filha de chineses moradores do Brasil enquanto no Brasil uma lufada de vento latia. Ao mesmo tempo da lembrança, sentia várias lufadas de vento no rosto... Lá fora milhares de borboletas começavam a bater as asas.


quinta-feira, abril 24, 2014

Sentidor


















Nem por um minuto a boca secava, pelo contrário [salivava]

uma antiga janela entreaberta, discreta para não faltar ar

batizar arte bela na pincela
de um eterno novo Amor
singela velha tela sempre à primeira vista

nos traços fortes do cofre [sem senha]
empenha simples código complexo, aberto pelo nexo
[de sentidor]

sorte do segredo dos corpos virem do Éter
[conhecidamente revelador].


(às 13h13, Rafael Belo, quarta-feira, 23 de abril de 2014)

quarta-feira, abril 23, 2014

Branca silhueta (miniconto)


por Rafael Belo

Não havia cadeado, chaves, cartão magnético, nem qualquer código secreto... Este parecia o segredo. Eram palavras comuns se repetindo. Apareciam nos olhos de Branca. Piscando. Ela foi até a neurologistas e psicólogos. Os primeiros não encontraram nada e os segundos viam muita profundidade... Bem Branca estava impaciente e não era assim mesmo? Afinal, certamente os psicólogos tinham razão.

Desde então, Branca andava mais prestando atenção em si. Estava sempre de olhos fechados apesar de abertos. Às vezes sorria com aquele ar de desvendando mistérios. Agora vivia certamente luminosa, porém, falava menos. Era uma das dez mais faladeiras do bairro e estava cotada a disputar as dez mais da cidade... Agora tão silenciosa...Todos sussurravam: Branca tem algo a esconder.

Na verdade não tinha. Branca poderia ser um livro aberto. E foi... Mesmo assim inventavam tudo. Não queriam acreditar na clareza das pessoas. Assim, Branca parecia até outra. Tanto... Mais tanto... Acabou sendo. Talvez estas palavras fossem ela pedindo ajuda. Ainda não entendia, mas primeiro mesmo apareceram imagens. Cadeados, chaves, códigos... A palavra segredo...


Então, começaram as palavras como neon na noite. Branca decidiu jogar luz para ofuscar e criou sombras. As alongou. Foi o suficiente para as fofocas acabarem. Mas não ficariam sem um apelido dúbio. A chamavam de misteriosa. Branca tinha seu próprio sorriso de Monalisa, seu preciso olhar de ressaca de Capitu. Mas, é claro... O povo continuava a fofocar, a inventar. E Branca... Branca nem ligava jogava sua luz e sombras ao seu gosto e além disso, estava destrancada.

terça-feira, abril 22, 2014

Calor das chaves




cadeado aberto, chaves no portão
mas ninguém quis não [invadir o segredo]
usar de brinquedo, a privacidade da ocasião

os limites estavam esticados, feitos filas de supermercados [em promoção]
no limiar do gume, um verdume de dois lados tensos
tensão tatuada arregalada nos olhos fechados
suspensos, pelo passado sem pontuação

veio em perseguição... Corroendo coração costurando almas
nas palmas das mãos levantadas antes de perceber a confusão

verdade silenciosa vem gritando em combustão: esteja onde estiver e vá onde for [não esqueça as chaves no portão]



(às 19h34, Rafael Belo, segunda-feira, 21 de abril de 2014).

segunda-feira, abril 21, 2014

O avesso da história #crônica/resenha – “O Segredo do meu marido


por Rafael Belo

Toda as pessoas tem um segredo. Pelo menos deveriam ter. Não me entendam mal. Nada de crimes e castigos. Algo pessoal e intransferível. Cria um ar de bom suspense. Transmite uma aura particular. Mas se perdem por aí pelo próprio enredo. Acabam perdendo todo este segredo do “eu”, de quem são. A eterna busca, no meio do ser ou não ser, eis a questão,  de quem somos.  Tudo a ver com personalidade e limites. O meu segredo literário é não gostar de autoajuda, porém sempre dar chances aos outros gêneros. Mesmo assim, me surpreendi com Liane Moriarty e seu best-seller O segredo do meu marido.

Certo, ele é número 1 do The New York Times, mas poderia ser apenas razoável. Como ler uma pessoa pelo corpo, gestos, falas e dizer ser possível defini-la.?Não é. A alma e o psicológico das pessoas são um segredo só delas. E este livro de Liane, de 366 páginas, tem algo a nos aprisionar até o fim e um complexo psicológico surpreendentes.  Lançado em março do ano passado, logo subiu aos topos porque é top. Quando recebi o livro me alegrei muito e ao mesmo tempo desconfiei, mas logo nas primeiras linhas: “Foi tudo por causa do Muro de Berlim...”  Senti o toque da alma da autora. Torci para continuar neste ritmo e foi além.

Segredos envolvendo mais de uma pessoa acabam sendo revelados mesmo velado como a Caixa de Pandora e utilizado para isolar e dividir como o Muro de Berlim. Meu nariz mal ficou torcido e já descobri uma autora com o dom da palavra escrita. Você se comove e se entranha nas história dos personagens. Eles são tão familiares quanto nossa família e agregados. É como se conversássemos com Cecília, John-Paul, Rachel, Tess, Connor, Will, Felicity, Rob, Lauren... Janie... E fizéssemos aquela bagunça nos cabelos de Liam e Jacob odiada pelas crianças. Claro, Isabel, Esther e a apaixonada Polly, filhas de Cecília, são um trio a parte. Principalmente, Polly...

Todos os limites são testados e o segredo relaxa e contrai enquanto outros segredos cintilam pelo enredo. Estamos sempre no limiar como se houvesse naquelas linhas aquele tom genial de Stephen King e Neil Gaiman. Quando outra caixa de Pandora é aberta um novo Muro de Berlim é construído e as consequências são inevitáveis porque quando não se pontua corretamente o passado, ele te alcançará onde você estiver e for.

Sinopse
"Cecilia Fitzpatrick encontra no sótão de casa uma carta escrita por seu marido. Seria algo corriqueiro, não fosse uma anotação bastante intrigante no envelope: “Para ser aberto apenas na ocasião da minha morte.” Apesar da recomendação, ela resolve abrir a carta e se vê obrigada a lidar com uma revelação avassaladora. O segredo do seu marido, John-Paul, atingirá não só seus três filhos e um longo e sólido casamento, mas também a vida de outras duas famílias. Cecilia agora precisará fazer uma escolha: optar pelo silêncio e permitir que a verdade corroa seu coração ou revelar o que leu e magoar profundamente as pessoas que mais ama."



sexta-feira, abril 18, 2014

Para Clóvis, era o primeiro bom espelho (miniconto)


Por Rafael Belo
Os soluços não foram engolidos. Simplesmente pararam. Suas faces vermelhas estavam inchadas como seus olhos. Havia aquela sensação de leveza, mas ele sentia não ser suficiente. Chorar não era suficiente. Sentir não bastava. Falar era apenas terapia para a mente e até relaxava o corpo... No entanto, Clóvis quase sentia ser questão de vida ou voltar a ser zumbi e isto... Ah, isto já começava a dar pânico em Clóvis até o abominável suicídio fez uma visita oportuna a sua mente. Rápida. Perturbadora. Sem som, sem vontade própria. Então, Clóvis se levantou e se deu conta: precisava agir já.

Clóvis lembrava lamentos, mas não se lamentava. Agora, enquanto agia freneticamente. Já visualizava seu futuro. Nada de se instalar permanentemente. Seu lar estava limpo. Era um templo. Podia ouvir tudo. De qualquer plano... Sentia-se protegido e encorajado. Estava lado a lado com seus sonhos e, sabia, seriam realizados cada um ao seu tempo. Bastava seguir agindo sem parar... Parar, pararia, mas apenas para ouvir e Clóvis queria ouvir muito, portanto seu modo de ação seria diverso. Queria muito também o silêncio e, para isto, precisava plantar mais paz.

Paz estava em repartir, compartilhar. Clóvis distribuía rosas e abraços. Os abraços eram para todos as rosas para as mulheres. Gostava de ver surpresa e gratidão nas pessoas. Mas, o atraia mesmo os sorrisos. Eram tão autênticos e luminosos... O faziam chorar. Seu choro alegre comovia e as pessoas também reagiam a isto. Ele só pensava uma coisa: este foi o dinheiro mais bem gasto da minha vida. Este sim é um investimento. Na sensação das pessoas... Este vislumbre de felicidade desamarrando rostos e reproduzindo alegria. O primeiro bom espelho...


Em busca de ser o distribuidor dos bons espelhos, saia atento às ruas. Queria se livrar dos bens. Mas não queria mídia. Nada da imprensa no seu encalço. Afinal, bem feitores deve ser anônimos. Bem fez. Clóvis não precisava se identificar e nem queria. Poucos entendiam seu desprendimento. Mas havia quem bem entendesse. Em pouco tempo virou lenda urbana. Diziam por aí existir um pessoa com um aura feita para fazer sorrir e ela sabia de alguma forma a necessidade de cada um e ele tirava dele próprio. Assim, realmente era Clóvis, a matriz dos bons espelhos. Refletia luz e dropes de alegria. Morava em si mesmo e no coração as pessoas.

quinta-feira, abril 17, 2014

#dicadeleitura : O segredo do meu marido

E olha a surpresa que os Correios deixaram! Trouxeram-me um mimo frufru da Editora Intrínseca... E Uma leitura que promete.  Editora Intrínseca Obrigado!! Uma ótima leitura para o feriadão! 




Folha em fim

Folha em fim








virou-se em branca página
sem lástima revelando o choro
em coro, escrevia novas linhas a cada instante
nada de vacilar, hesitante... Chorava e revelava o semblante

ali havia todo seu interior e os cantos inclinados do sorriso
o sol e a chuva na distância, envolvida entre um minuto e outro
aquela chuva solitária, parecia a gargalhada [de um tempo limpo, distinto]

trovoadas cintilantes traçando o instinto pelo céu
sentimentos traçados jogados no fundo do amassado papel

depois um pouco de sal, muito doce e uma folha terminada [com o zumbir das abelhas embaladas no mel].

(às 22h35, Rafael Belo, quarta-feira, 16 de abril de 2014).

quarta-feira, abril 16, 2014

Cláudia não era sem sal (miniconto)

por Rafael Belo

Acordou chorando como se tivesse nascido naquele momento. E de certa maneira aquele velho novo rebento ainda estava nascendo. Segurou tanto tempo seus prantos a ponto de, vez ou outra, sair aloprando. É! Estava enlouquecendo. Achou ter quebrado a ponte entre sua imagem e seu eu. Sua emoção e sua razão, ele acreditava, não se batiam e estavam distantes. Aliás, Cláudia, se dizia fria e vendia tal absurdo. Mas, não naquela hora. Ao acordar de madrugada ela chorava todo um oceano antes contido.

Amanheceu e o choro continuava. A manhã passou em lágrimas. À tarde ainda soluçava. Dormiu assim, mas ainda chorava. Este chorar durou uma semana. Cláudia ainda se sentia recém parida. A recém-nascida olhava o mundo com aqueles olhos de criança. Uma nova inocente transgressora. Com os olhos brilhando só sorria. Era outra sendo ela. Tanto era... Ninguém a reconhecia. Nem a mãe... Nem o pai. Até os irmãos estranharam. Acusaram-na de estar apaixonada. Estava amando. Cláudia não retrucava. Ficava sorrindo em silêncio brilhando.

Claro. Estava apaixonada. Amando bem certo. Seu Amor era ela. Agora se conhecia. Antes nem se gostava. Porque ninguém gosta do desconhecido... E apesar de diferente, Cláudia não era diferente. Mas ela sempre fingiu se amar. Porém, era sempre assim no minúsculo. Uma palavra sem substância, sem substantivo, sem verbo... E tudo saído dela também saia assim... Sem qualquer pontuação ou contexto. Um constante pretexto para ser o inexistente. Gente sem choro, sem vela.

Quando a pegaram chorando, ela ria. Respondia as infindáveis questões com lágrimas de ironia. Sempre haviam e haveriam situações a tocarem seu coração e ela desceria do muro... E ela tomaria partido e também derramaria o copo d’água. Perderia, aos poucos, as medidas, os pesos, as manias. Queria ser uma página em branco por dia, mas não deixaria esquecer (esquecerem) todas as referências. Depois sempre saia. Cláudia partia como quem acaba de sair do mar sem se banhar em água doce. Estava agora temperada, salgadinha. 

terça-feira, abril 15, 2014

Choro e brilho

Choro e brilho


a cada dia uma lágrima e um sorriso
um pouco menos de roupa, a retirada de um tijolo
um misto de choro e riso
a descoberta de um eu tesouro, um olhar gostoso, um passo para o paraíso

de hora em hora a derrubada lenta do muro assíduo, um oceano todo contido

um picolé lambido,  um sorvete derretido, o frio arredio e todo um lavar da calma

o bater de palmas no caminho do arrepio
depois o primeiro pio da alma e então o canto

para todo espanto espanar, ir levando a poeira
lavando o corpo, estendendo a beira, deixando o todo novo... Um novo brilho.


(às 18h35, Rafael Belo, segunda-feira, 14 de abril de 2014).

segunda-feira, abril 14, 2014

Choremos um pouco a cada dia



Choremos um pouco a cada dia
por Rafael Belo

Sabe, estamos cheios de manias de amenizar os acontecimentos na vida. Sempre é um diminutivo aqui, um é normal acolá e sobra eufemismos por aí. A imagem da força, o peso de temos de ser forte, agora é com você e várias variações desta duas frase de “consolo” enchem as nossas bocas. Não sabemos ficar em silêncio e nem respeitá-lo. Nos sentimos na obrigação de dizer algo. Mesmo quando temos a mais absoluta certeza de quão inútil é. Não existem estes clichês de o tempo cura tudo, de chorar não adianta e superamos tudo. Mas superação é sair de um situação ruim para uma boa. Nada disso convém quando falamos de sentimentos.

Nós precisamos chorar e respeitar o quanto precisamos nos fazer lágrimas. Há a necessidade cronológica da mente e do corpo viver um início e um meio. Relutamos diante de qualquer fim. Somos imagéticos. Sem imagens, sem olhar e até tocar não acreditamos totalmente. Não importa o quanto a razão conteste, a voz proteste... No fundo não queremos acreditar. Somos hipócritas sim. Temos uma motivação quase biológica de entender tudo e todos. Pior é quando julgarmos sermos mesmo capazes... Acredito ser forte quem fala o sentimento, do sentimento, expõe o pensamento. Desconfio de superexposição, autoafirmação e de quem não chora ou nega chorar.

Eu choro. Em filmes, em surpresas, quando me envolvo e sou contraditório quando rio e choro ao lembrar do meu pai... São praticamente todas boas as lembranças, até a última inesquecível, inevitável, dramática e poética. Por mais explicável... Esta ausência é um vazio insuperável, incurável. Não se acostuma com a naturalidade da morte. Tudo bem. Isso é natural. Então, chore comigo e pare de fingir ser forte aquele a não chorar, a não sofrer... Deixe a pressão vazar. Esvazie, alivie, permita o rolar das lágrimas. A tensão vai, a mente clareia e os músculos relaxam. Assim como precisamos sorrir, há a necessidade de chorar. Então chore comigo um pouco (ou muito) e pare de se preocupar.


Esqueça esta robotização, estas excentricidades nos alimentando no cotidiano. Estas manias da sociedade de medir e pesar tudo no coletivo. Somos indivíduos conscientes por mais nocauteados... Ouça seu corpo antes de pensar. Fique em silêncio antes de falar. Sorria antes de emburrar. Não engula o choro... Descubra-se aos poucos e utilize a própria receita para a vida. Afinal ela é sua. Ao mesmo tempo há muitos como você e ninguém. Sabemos como ninguém da inutilidade das comparações. Bom mesmo é usar bons exemplos como inspiração. Aí respirar fundo e tentar. Uma tentativa de cada vez. Então podemos esvaziar e relaxar sem cobranças.

sexta-feira, abril 11, 2014

Briel só queria voltar para casa (miniconto)



Briel só queria voltar para casa (miniconto)
por Rafael Belo

Lá estava ele sentado no coletivo. Dormindo de olhos abertos. Bem mais distante. Onde nem a velocidade da luz pode alcançar os pensamentos. Depois ele estava na janela do trabalho tão longe quanto. Talvez ainda mais. Quem sabe. Ele andava silencioso. Quem visse seus olhos, vagos e dribladores, diriam estarem lotados e concentrados. Diriam: “Briel está sentado nas nuvens tentando se equilibrar e dividir todo seu peso para a nuvem não passar e se desmanchar”. Se só soubessem seu sobrenome também diriam ser trocadilho e comparação. Ele é Briel Nuvens e Briel Só queria voltar para casa.

Havia esquecido ter vindo de carro. Gostava de dar caronas, mas ultimamente a violência andava tanta... Preferia ser encoxado no ônibus. Sentir o calor do povo, daquela união forçada, aquela situação de aperto sentida por todos. Aí ele poderia dividir. Mesmo sendo assediado. Não só por mãos espertas e partes baixas molhadas cutucando... Tinha aquela mistureira de sons e a psicologia do busão no falatório e nos conselhos, palpiteiros... Também era considerado se sentir como gado carregado, mas... Mas... Mas todos dividiam aquilo. Mesma hora todo dia. Como um grande família... De desconhecidos. Ida e volta, sempre igual.

Outra coisinha gostosa de dividir era este aperto. Um aperto no peito. Uma falta de lugar para segurar e aquela condução correndo a vontade no caos do trânsito do salve-se quem puder. Briel agradecia não ser mulher e ter de passar por mais e mais humilhações. Por isso, queria voltar para casa. Ir para estrada sem avisar e amanhecer lá. Comida de mãe. Conselhos do pai. Conversa das irmãs. Doces de vó. Causos do vó. Dengo da tia. Lembranças dos primos. Todos aqueles pequenos conflitos de família... A união. Mas queria dizer chega. Ninguém é de ferro afinal. Para isso tinha o violão e as músicas. Armas brancas de quase todos na família.


Já tinha feito as vontades inconscientes de muitos amados dele... Foram anos tocados. Agora seriam revividos com canções. Mas só depois dos abraços, dos beijos, de todo o carinho familiar. Ele não precisava de apoio ou compreensão. Ninguém precisa. Mas como é fato, todos querem. Nem sempre a razão tem razão. Isto lhe dava força e ele queria também a força da família. Tudo imaginado do alto da suas Nuvens. Briel ouvia os quatro ventos e eles sopravam em brisa enquanto o sol, mais uma vez, dourava a pílula do fim. Terminava outro dia. O ritmo era de todas as folhas no mesmo galho chacoalhando e os pássaros acompanhando em diversos tons. O som era de sorrir e de reunir a família. E lá ia Briel...  Juntá-la.

quinta-feira, abril 10, 2014

Abordar

Abordar



vários nós na mesma corda, da ponta a borda
se afrouxando para virar laço e ocuparem o mesmo espaço
em tempos diferentes, sempre abrindo portas

retas ou tortas, nada está ausente... Enquanto inteiros pedaços

no silencioso estardalhaço, vários tons da mesma nota

rota das vozes unidas esbaforidas, mas afinadas nos recados
comportados na união na toca de todos, povo da tribo

adquirido do vão da cascata caída em água viva a escorrer na nossa pele

molhada de empatia, adere, a alegria na osmose de pouco conflito
jogo de abrigo da comporta aberta do som, da fricção de nós na corda.



(às 20h20, Rafael Belo, quarta-feira, 09 de abril de 2014)

quarta-feira, abril 09, 2014

Bia era diferente (miniconto)



Bia era diferente (miniconto)
por Rafael Belo

Com o punho erguido, bradava. Mas nem ela tinha certeza se era liberdade, força ou a deturpação atual. A distorção pessoal. A dispersão midiática. Imagem mais dramática já interpretada na vida dela. E ela, naquela, era ou não era. Shakespeare se orgulharia. O anônimo não o ganhador das glórias.  Neste ser ou não ser, havia uma constante crise de não envelhecer e permanecer naquela atitude arrogante inocente, adolescente. Mas esta autista por escolha nesta era tão ausente, mas pouca coisa inteligente, era tão carente quanto um verdadeiro órfão. Porém, Bia era diferente.

Divergia da solidão e da multidão. Gostava da primeira, já de aglomeração... Nem de parentes. Se bem... Bem, Bia se definia por Bia. Era pura união. Escorria da boca. Era uma sorriso. Todo branco. Ok. Parecia tanto branco, mas só pela alegria de estar junto e compartilhar. Amava os parentes porque não eram multidão nem repartição. Eram livres. Era só ouvir a harmonia, prestar atenção nas lembranças e claro, comer e cantar. Uma marca. Farta nesta família. Não era Espíndola ou destas sertanejas.  Seu maior bem lapidando seus dons. Bia e seus primos viviam em gestação.

Uma grande geração de ouvido, se ouvindo e se abraçando. Som de vozes intercaladas, de risadas e do violão. Uma roda de música onde quem rodava era o objeto mais acústico, o dom de se doar. Também o violão passava de mão e mão e sempre saia uma canção. Todos bem vestidos até os de outros sobrenomes e diversos tipos sanguíneos. Vestiam um imenso sorriso vazado de orelha a orelha. Uma verdadeira celebração da vida. A ceia no seio dos dons humanos. Fartando-se de satisfação. Bia é cada um neste retrato e também de fato nenhum, a não ser ela mesma.


Hora em pé, hora na mesa. Mas descalça. Não porque Bia era pé no chão. Era sonhadora nata e para sonhar bem tem o trem dos pensamentos solitários e todo um imaginário de dicionário próprio. Mas estava à mostra com raízes vistas e todas aquelas debaixo da terra. Por isso, ali, naquela roda eclética, cada indivíduo ia ficando mais leve, coletivo. Bia já flutuava. Nada de photoshop. Nada de fingimentos. Era aquilo e pronto. Não havia retoque. Nem sequer um reboque ou uma luz artificial. A iluminação era natural. De dar vigor a silhueta e contorno às sombras. Como se pousados nos mais altos galhos secos de outono, dispostos ao fim do dia apreciar. Um domingo moderno, mas típico domingo em família. 

terça-feira, abril 08, 2014

Afinação


Afinação

















O sangue ferve, é alegre
como um bando de lobos entregues, a emoção de estar
com os traços contornando os atos nos dedos do tempo
no rastro do jeito do coração, amigo do peito, a somar o tocar

da música na memória, laços em família
a mais cara joia, a verdadeira matilha

no momento marcado, da chegada e partida
com nossa geração em gestação, da nossa carência bandida

roubando a emoção do mesmo sangue
montando a mais completa gangue, afinada no tom...Do violão.


(às 20h04, Rafael Belo, segunda-feira, 07 de abril de 2014).

segunda-feira, abril 07, 2014

Nunca só

Nunca só
por Rafael Belo

Está no sangue, no jeito, na temperatura... Nos traços, nos sorrisos e nos dons. Cantar e tocar é uma exaltação. Alegria e celebração só conquistadas em duas situações: com música e comida. Quando tudo isso acontece em família, então, a satisfação não tem limites. Há uma estranheza quando o resultado de tanta harmonia teve uma forcinha de partida. A partida de um membro amado. Um festeiro comemorando de sua nova caminhada pós-morte o aniversário dele de 68 anos. Isto foi ontem. Mas o Belo da família é este encaixe. Como se cada um fosse uma engrenagem pronta para fazer a máquina funcionar. Juntos tudo fica mais fácil pelo caminho.

Todos de mãos dadas e vozes afinadas celebrando a vida. Comendo e cantando. Lembrando... São laços. Laços estes nunca desfeitos mesmo se a família tiver seus defeitos. Não se acaba com o sangue, não se mente os traços... Pode ser uma nova família começada a dois. Mas as raízes, o passado conta, pesa, nos encontra, pois somos feitos de histórias. Sejam elas más ou ruins. Todos os nossos detalhes nos delatam. Não há como deletar, como não existem maneiras de trazer de volta a palavra pronunciada, a flecha lançada, a oportunidade perdida porque não somos os mesmos, no máximo somos parecidos com os nossos país.

Nem o tempo é igual, quem dirá o espaço. Estes sempre nos servindo de desculpas. Mas comer, comer, cantar, cantar nos aproxima sempre. Não ter vergonha de ser feliz e fazer da tristeza passageira ou a simples oportunidade de ver por outro tipo de olhar complexo, alheio, solidário, empático, avesso, interno porque realmente somos eternos aprendizes. Rios desaguando neste oceano e todo nosso percurso é feito de família e amigos. Claro em ambos é preciso ter fé e acreditar em algo mais. Mas toda a crença precisa começar em si mesmo para ter aconchego, afinidade e intimidade ou nada disso se reflete no outro, nos amigos, na família.

Por isso, os primeiros passos a nos aproximar costumam ser familiares. Ser passos em família. Nossas lembranças sempre nos levam a alguma memória da nossa infância. Há constantemente uma tia, um primo, um avô, uma avó, o pai, a mãe, o irmão, a irmã, o amigo... E cada passo nos leva a pensar. Se somos quem queremos ser ou quem podemos... Mas além destes pensamentos, o principal é: na nossa unidade somos comunidade. Por mais indivíduos, individuais... Precisamos do plural, da pluralidade. E não vivemos assim em busca de somar, de multiplicar? Ainda que nos nossos problemas matemático ficamos sempre com a divisão, com o diminuir e o minimizar... Só podemos pensar:  “Família nunca é um só”.                      

sexta-feira, abril 04, 2014

A morte nunca está nos nossos planos (miniconto)



A morte nunca está nos nossos planos (miniconto)
por Rafael Belo

Guto já vinha se despedindo. Mas não tinha consciência disso. Destas coisas da vida, disfarçadas até de si mesmo. Um traquejo preparando a alma para um novo caminho. Para algo não entendido e às vezes nem conformado. Mas, fato. Como é verdade afirmar os conhecimento das suas cachorrinhas... Guto falava da morte como o realista de carteirinha. Porém, nunca achamos... Por mais ao contrário dito... Nossa vez ter chegado. Nosso número ter sido sorteado e a preparação nem está a caminho, mas acontecendo à toda velocidade, mesmo se esta correria demorar anos... A morte nunca está nos nossos planos.

Mas um mês antes de morrer, Guto já vinha indo. Já mais não estava... Claro, ainda havia uma luz, um reflexo dele, mas ele mesmo já estava com as malas das lembranças prontas. Foi fazendo seu gosto, aos poucos. Encontrando todos ao seu modo. E assim, com tudo dito provisório, mostrado transitório... Ainda fica aquela linha de esperança malcriada, presa com voracidade sem entender o tempo e tudo ter o seu próprio. Guto achava assim: Nem quem escreveu sobre o tempo sabe sobre o tempo de fato, somos todos aquele sapato velho do Roupa Nova... Somos imbecis e fim!

Então começou a cantar esta mesma música lembrada: “Você lembra, lembra naquele tempo eu tinha estrelas nos olhos, um jeito de herói, era mais forte e veloz que qualquer mocinho de cowboy... Você lembra, lembra eu costumava andar bem mais que mil léguas pra poder buscar flores de maio azul e os seus cabelos enfeitar...” E não era assim seu eu mais jovem. Mas era outono e assim como as folhas, os corpos caem e as almas nascem de novo. Vestimos novas roupas e vemos lentamente as árvores mudando...

Quando abril chegou, Guto já havia ido alegrar outros caminhos. Não há quatro dias como nós, tolos, pensamos, mas nos últimos 45 dias, aquele Belo homem já não estava mais ali, nem lá... Ele queria ir para casa. Já tinha ido. Já começava a brincar, rir e fazer piadas de seu novo caminho. Só ficara sua casca. Guto tinha sua própria lista de afazeres particulares. Ele não ficaria para sofrer e fazer sofrer. Sua missão fora cumprida. Fez o mundo mais Belo, o Guto, tinha seus próprio planos porque a morte... Bem, a morte também não estava nos seus planos.


quinta-feira, abril 03, 2014

Seu quintal

Seu quintal














Todo dia chove em casa
e o sol está lá, assistindo a chuva se derramar

os livres pássaros estão a disposição da composição
ainda feita pelo pai em suas faces preenchendo o velho lar

cada fase das minhas três décadas fazem parte das suas seis que se vão
não pelos vãos do tempo, mas pela brecha do momento onde nada era ilusão

não são mais físicas, toda a emoção dos seus traços em nós estão

edificada, tão entranhada, como sua presença, pai, nada sai
tudo continua a ser, dentro, monumento, sua estrada
seu riso, sua expressão, seu brilho... Nossa risada.



(às 08h44, Rafael Belo, quinta-feira, 03 de abril de 2014).

quarta-feira, abril 02, 2014

Gramado Azul (miniconto)



Gramado Azul (miniconto)
por Rafael Belo

Era um moleque bom de bola e parecia ter nascido sentado em um formigueiro. Como era arteiro. Pequeno e marrento. Chamavam-no de Bostinha porque quanto mais batia mais fedia e partia para cima até o outro pedir arrego. Gostava de respeito e o conquistava. Não dava sossego para menina nenhuma e tinha várias... O jogador de futebol no tempo do herói não da celebridade. Era pura festa e bola. Era só alegria. Mas nem todo sonho vira realidade quando, na maldade, o carrinho no gramado acaba com os joelhos. O artilheiro encontrou o bar e nunca mais pode jogar. Ah, como jogava...

As glórias e as vitórias interrompidas. Todas um dia queimadas. Jornais, títulos medalhas. Fumaça, cinzas e lágrimas bem guardadas... Depois afogava as mágoas ao beber e como gostava do líquido de bronze. Festava até amanhecer. Sempre tinha o que dizer e dizia.  Sempre na simplicidade, dirigia pela cidade. Foi para o quartel. Era aviador fardado. Mas na época do porrete, era ele quem descia o cacete, mas no superior, e depois via o pai pelas grades. Gostava de aprender e sempre o violão tocava. Era do samba. Bom da cabeça, livre com os pés e liberdade até não poder mais.

Há muito tempo não fazia o que gostava. Mas bradava amor declarado pelos netos, paixão intensa pelos filhos crescidos e a mulher amada. Um homem como ninguém. Andava na linha e poucas vezes escorregava. Gostava mesmo é de fazer piadas. As fez até quando o brilho dos seus olhos oscilava. Quando as palavras não saiam, quando a cama não o largava... Este quando onde não podia mais viajar, nem ter seu lazer para beber, sofria... Até o time celeste precisar de um meio-de-campo avançado, com aquele gingado e técnica de primeira. Augusto Artilheiro foi convocado.

Precisava estar do outro lado, antes da estreia. O queriam nos grandes amistosos antes da Copa começar. Seu caminho sonhado seria em outra vida. Mas era tanto tempo longe do sonho que ele relutava em ser parte daquele time de craques. Não havia como ser reserva. Então antes de acabar com as reservas, mesmo assim, seguiu o novo caminho. Deixou um espaço faltando em todos. Foi confirmado no gramado azul. Se despediu nos braços do filho. Parou toda a dor. Agora joga bola e dribla até a torcida. Dá olé em Vavá, Didi e ainda no Mané (Garrincha). Nem sabe se um dia já sentiu dor, só Amor. E na saideira ainda cantou:


“Tristeza, por favor vá embora, minha alma que chora, está vendo meu fim, Fez do meu coração a sua moradia,  já é demais o meu penar, quero voltar àquela vida de alegria,
Quero de novo cantar...
 E a tristeza se foi e ele de novo cantou...!