quarta-feira, abril 02, 2014

Gramado Azul (miniconto)



Gramado Azul (miniconto)
por Rafael Belo

Era um moleque bom de bola e parecia ter nascido sentado em um formigueiro. Como era arteiro. Pequeno e marrento. Chamavam-no de Bostinha porque quanto mais batia mais fedia e partia para cima até o outro pedir arrego. Gostava de respeito e o conquistava. Não dava sossego para menina nenhuma e tinha várias... O jogador de futebol no tempo do herói não da celebridade. Era pura festa e bola. Era só alegria. Mas nem todo sonho vira realidade quando, na maldade, o carrinho no gramado acaba com os joelhos. O artilheiro encontrou o bar e nunca mais pode jogar. Ah, como jogava...

As glórias e as vitórias interrompidas. Todas um dia queimadas. Jornais, títulos medalhas. Fumaça, cinzas e lágrimas bem guardadas... Depois afogava as mágoas ao beber e como gostava do líquido de bronze. Festava até amanhecer. Sempre tinha o que dizer e dizia.  Sempre na simplicidade, dirigia pela cidade. Foi para o quartel. Era aviador fardado. Mas na época do porrete, era ele quem descia o cacete, mas no superior, e depois via o pai pelas grades. Gostava de aprender e sempre o violão tocava. Era do samba. Bom da cabeça, livre com os pés e liberdade até não poder mais.

Há muito tempo não fazia o que gostava. Mas bradava amor declarado pelos netos, paixão intensa pelos filhos crescidos e a mulher amada. Um homem como ninguém. Andava na linha e poucas vezes escorregava. Gostava mesmo é de fazer piadas. As fez até quando o brilho dos seus olhos oscilava. Quando as palavras não saiam, quando a cama não o largava... Este quando onde não podia mais viajar, nem ter seu lazer para beber, sofria... Até o time celeste precisar de um meio-de-campo avançado, com aquele gingado e técnica de primeira. Augusto Artilheiro foi convocado.

Precisava estar do outro lado, antes da estreia. O queriam nos grandes amistosos antes da Copa começar. Seu caminho sonhado seria em outra vida. Mas era tanto tempo longe do sonho que ele relutava em ser parte daquele time de craques. Não havia como ser reserva. Então antes de acabar com as reservas, mesmo assim, seguiu o novo caminho. Deixou um espaço faltando em todos. Foi confirmado no gramado azul. Se despediu nos braços do filho. Parou toda a dor. Agora joga bola e dribla até a torcida. Dá olé em Vavá, Didi e ainda no Mané (Garrincha). Nem sabe se um dia já sentiu dor, só Amor. E na saideira ainda cantou:


“Tristeza, por favor vá embora, minha alma que chora, está vendo meu fim, Fez do meu coração a sua moradia,  já é demais o meu penar, quero voltar àquela vida de alegria,
Quero de novo cantar...
 E a tristeza se foi e ele de novo cantou...!

3 comentários:

Anônimo disse...

Retrato fiel .....sonhador....grande jogador......artilheiro...conhecedor de todas as regras, crítico ferrenho das jogadas, passei a assistir jogos e procurar saber de td sobre esporte, e entender para trocar idéias, comentários...e agora? Porque? Mamys

Valéria Belo disse...

Lindo, Rafa!!!! A história do pai escrita, emocionante mesmo!!! Amei, parabéns!!!!!

Dione Bello disse...

Ele nos deixou e,foi fazer parte de
outro time,sobre o comando do maior técnico da humanidade,"Jesus Cristo".Tristeza não tem fim,muitas saudades sim.