quinta-feira, dezembro 31, 2015

Distorções


Nunca fazia nada além de fantasia
vestia-se cuidadosamente para a sociedade
mesmo quando agia com sua casual identidade

a ilha surgia no meio de um continente
expressando solidões como se os outros fossem legiões

cada falange reagia como podia adiante
diante das sensações oprimidas das multidões
e era um só sem saber

bárbaras invasões eram eficientemente educadas para valer
na profecia direcionada macia
com a cortesia da vazia emoção da possessão
morria todo dia cheia de distorcida razão.


 (às 19h18, Rafael Belo, quinta, 31 de dezembro de 2015)

quarta-feira, dezembro 30, 2015

Deusa dos agradecimentos obrigatórios (miniconto)




Mais uma salva de palmas, reverências e com o corpo curvado – mesmo assim – o nariz seguia empinado. Os pensamentos, embora inebriados no momento, ainda eram egoístas, prepotentes, arrogantes de quem sempre merecia mais. Os olhos fechados se espremendo em cada respiração curta de momentânea satisfação. Mas, os olhos. Ah, aqueles olhos seriam vermelhos se os sentimentos tivessem cor.

Foi espetacular o espetáculo. Toda pompa e glória transmitida em mais um fim de ano, a bebedeira e aqueles showzinhos particulares que ninguém quer presenciar, mas acaba obrigado... Enfim, o único objetivo para Pietra Nature eram os aplausos, o reconhecimento, as palavras floreadas, recheadas de elogios, uma massagem diária no ego já inflado e alçador de voos. Qual outro motivo de ser atriz?

Não. Nesta noite já revirada, nesta transição marcada pela festa e pelo calendário o tempo seria diferente. Ela será forçada a parar de atuar. Esta noite ela deve revelar o desequilíbrio, a psicopatia... Nada de loucura... Ela planeja, calcula, elabora e tem total consciência de cada detalhe... Nem se quisesse os deixaria escapar. Ela é obcecada com a ideia de ser sempre ignorada por mais elevada que seja pelo público e pela crítica.

Eu a ouvi várias vezes para acreditar. Ah, como ela é boa, mas sei não saber quem ela é nem você nem ninguém. Sozinha no banheiro, provavelmente de frente a versão dela, ao reflexo no espelho de 2m por 2m, ela esbraveja coma inventora da razão, a deusa para quem todos devem orações, pedidos, agradecimentos e sacrifícios. Naquele banheiro os amigos dela não suportariam nem os pensamentos que ela revela.

Quando descobri queria acreditar ser mais um ensaio da minha mãe, mas raiva, o sentimento de injustiçada, desrespeitada.... Estes nunca dirigidos a ela estavam impregnados, envenenavam cada vogal, toda consoante daquela voz pontual que eu não tinha como dizer ser de outra pessoa. Todo dia o banheiro se fechava no mesmo horário com Pietra dentro, porém acaba agora.

Venham comigo! Vamos revelar... Todos somos assim: pedras atiradas em nós por nós mesmos. Espinhos e agulhas infiltrados delicadamente sob as nossas unhas diariamente... Uma construção inacabada de máscaras declarando: Cada roupa que vestia era uma fantasia. Ela mudava de comportamento, de sexo, de voz, de tom, de aparência... Por mais que acreditasse ser sozinha era uma legião quando projetava o olhar mortal sobre nossas costas frágeis, porém quando sorria era uma falange e até coro celeste era possível ouvir, mas vivia em dúvida e acabava multidão.


Todos pensam ser uma ilha convidando quem quer para entrar e vivemos lidando com uma contínua invasão esquecendo ser isto denominação de arquipélago com problemas de identidade e localização como toda sociedade, mas como minha mãe somos péssimos alunos quando se trata de nós mesmos.

terça-feira, dezembro 29, 2015

Esfregando as têmporas


Um formigamento na mão a dormência
gaiolas abertas em todas as direções aparências

dentro dos olhos solidão
arrastando comunidades a garotos perdidos
idos das oportunidades vindos das identidades
do adjetivo da ilusão
extremos doentes dos desequilíbrios

sorrisos dementes na quebrada balança
esperança fantasiada de egoísmo
maquiado olhar aberto colorido
tingido pela fuligem da poluição

da janela fechada
a fachada vai antiga
fingida ao ter o que respirar
atingida pela ficção moderna

são insanos sãos
batendo a cabeça no escuro
dizendo extremos exageros absurdos
criando a particular solitária plateia.


(às 18h57, Rafael Belo, segunda, 28 de dezembro de 2015)

segunda-feira, dezembro 28, 2015

Engaiolados pássaros


A São Silvestre chega correndo para corrermos atrás dos nossos sonhos, mas nós os temos? Às vezes corremos até o esbranquiçar dos nossos pelos e cabelos - ou até que caiam - para percebermos que não era o sonho, não o nosso, aliás olhando para tantas pessoas com o mínimo de atenção, apenas sobreviver pela próxima hora já é um sonho. Mas, é sempre nesta época do (fim do) ano que começamos a pensar mais em nossos feitos e desfeitos.

Não há como comparar realidades nem pessoas. Cada um é um mundo, todo um planeta girando ao redor de algo. O problema é se for exclusivamente de si mesmo, unicamente dos próprios direitos, aí pronto: não tem como não se irritar facilmente, se achar perseguido, pensar ser excluído... E centenas de sintomas difíceis de listar. Claro, todos saímos do sério e devemos, mas se deixar irritar é dar tanta importância a si mesmo – e ao outro - que só pode ter algo errado.

Com certeza ninguém deveria dar mais importância a quem somos além de nós mesmos, mas acontece de exagerarmos para mais e para menos. Somos demasiados humanos. Não temos múltiplas polaridades e sim momentos, nossos pensamentos íntimos, mágoas pessoais, mas precisamos na mesma quantidade estar em comunidade e estar sozinhos. Sorrir E chorar...


Seria o equilíbrio tanto procurado. Mente, corpo e coração sãos ou o menos insanos possíveis é o caminho, porém a vida e seu vai e vem começa e termina constantemente desde a Grécia Antiga, do Egito Medieval, da China Anciã... Há esta sabedoria desde o primeiro desdobramento da mente, do primeiro definir dos músculos, do primeiro expandir do coração, no entanto ainda não conseguimos Amar, não aprendemos a viver este verbo declaradamente sem posses, sem amarras, apenas seguimos o confundindo com prazer próprio e bens pessoais perdendo a real Liberdade.

domingo, dezembro 27, 2015

Debaixo da lupa (resenha)


Escuridão Total Sem Estrelas é mais uma obra-prima de Stephen King dividida em quatro incríveis contos. Neles é revelado o quanto podemos ser sombrios e agir normalmente simultaneamente. Fazemos coisas terríveis e boas ao mesmo tempo, às vezes sem nem dar conta. King só reforça o quanto é um ótimo leitor do cotidiano e da alma humana com uma imensa lupa sobre nós.

No primeiro conto, 1922, ficamos logo de cara, bem ali, sabendo que tudo vai dar errado a qualquer instante com a cumplicidade assassina de pai e filho. A tensão no invade cada vez que tudo é quase descoberto, mas ao que tudo indica o pior não é ser pego ou descoberto pelas autoridades... As sombras em uma escuridão total são bem piores.

Em seguida caímos na estrada com O Gigante do Volante e todas as trevas ao redor da violência sexual revoltante pelo mundo com uma escritora classe c sobrevivente de uma família tenebrosa... O filme com o envolvimento de King é totalmente fiel a este conto angustiante apontando todos os aspectos de até onde o ser humano pode chegar pelos desejos e pela dor.

Um pacto diabólico nos espera logo depois com Extensão Justa chegando a nos surpreender com os detalhes da inveja, da ira e da vingança silenciosa. É diferente de tudo já lido ou visto por nós e realmente podemos dizer que o Diabo está nos detalhes. Para fechar esta obra apagando o sol e qualquer brilho na noite por um tempo, lemos Um Bom Casamento. Neste o autoengano é sublinhado com a mais marcante cor florescente de reviravolta que já li. Como o conhecimento nos obriga a tomar atitudes e como estas vão nos mudar para sempre...

É sempre fácil falar de King, nem o é lê-lo. Não pela escrita ou pelos detalhes, mas pela verdade do que somos capazes.  Vá ler AGORA este vencedor do Bram Stoker e do British Fantasy!

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Escuridão Total Sem Estrelas
Original: Full Dark, No Star
Stephen King
Tradução: Viviane Diniz
Editora Suma de Letras
Ficção Americana
copyright@2010

Brasil 2015
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quinta-feira, dezembro 24, 2015

Tentativas


o horizonte rompe meu corpo
se quebra o som em estilhaços de adivinhações
órbitas alteram as trações
toda falta de espaço é infinito
gradualmente a gravidade se vai
os acúmulos de silêncios são um inacabado grito
nada mais cai...

Quando o sol se levanta
cada um disfarça sua dança
ninguém admite normalmente ser esquisito
uma voz canta...

Anulam-se eventuais casualidades na hora dos faniquitos
por que insistimos em ter tantos ídolos?
pedimos sorte na herança do acaso
nos encanta mais um ocaso

tentamos não ser esquecidos.

(Rafael Belo, quinta, às 18h39, 23 de dezembro de 2015)

quarta-feira, dezembro 23, 2015

Granizos (miniconto)




Eles estavam divididos, mas o calor fritando ovo na cabeça não permitia pensar. Era como se os pensamentos fossem água e evaporassem antes mesmo de se formarem. Aquele mormaço na mente só podia duplicar a visão, bambear as pernas e deixar as pessoas parecidas com dançarinas de frevo profissionais... Faziam círculos parecidos com harmoniosos, mas estavam passando mal casualmente. A única diferença era que casual era um disfarce para consequências.

Sô tentava fazer chover na mente e desejava isso, desejava ardentemente, quase em chamas, só precisava focar, enxergar algo. Não era a mesma vontade do corpo e sabemos: não há maior razão que o corpo quando este tem todo o controle. Todos os membros desse gritavam por hidratação, sombra fresca, banho gelado, sorvete trincando, limonada suíça, milk-shake... Hummmm.

Loreal não tinha forças para se juntar. Tentava decidir qual Sô era real, mas não queria irritar a mulher e como homem... Bem não tinha definição, se houvesse algo ideal não precisaria dizer frases como como homem... Ele não saberia nem em quantas partes estava dividido se ela perguntasse. No entanto, não só quer como precisa tomar uma atitude, porém seu desejo maior era algo extremamente refrescante para jogar na pele derretendo ou para dentro da boca fervente.

Eventualmente a sorte cria a própria inexistência e, “por ventura”, o isolamento. Em um esforço que os faria - desmaiar mais tarde - começaram a fazer chover e, consequentemente, pensavam no peso-morto da sorte ou azar. Leia bem, já não era possível dizer quem era quem, mas acredito ter sido Sô quem se pronunciou desta forma: - Diga que foi sorte cada bem adquirido por quem lutou uma a uma pelas próprias conquistas, se afogou nos próprios suores, abdicou de praticamente toda diversão, passou noites em claro, tudo que teve de deixar de lado, pense apenas por um instante Lore, pense...!

- Pense você, Sô - replicou Lore – naquele morador das ruas. Diga a ele que foi o azar o responsável pela situação dele, que foi o Cosmos ou Deus quem quis assim, o desejo de Alá, Buda, Maomé, Jesus, culpa da sorte dos outros, que foi o próprio descaso, a própria falta de vontade, que ele sofre abusos sexuais, é espancado, passa forme, frio, é humilhado, sempre é molhada pela chuva ou pelo suor produzido pelo calor excessivo... diga que ele merece este sofrimento, pense Sô...!

Depois o clima mudou. Eles se olharam e pensaram a mesma frase e só sei que falaram juntos: - atire a primeira pedra quem nunca jogou sorte ou azar.

O tempo fechou torrencialmente atirando granizo em todos as pessoas e lugares.

terça-feira, dezembro 22, 2015

Levante sem pele



Olhos brilham embriagados de lembranças
na última fileira dos pensamentos levanta as mãos a esperança
enxota a ronda dos cães infernais da depressão na ignorância
raivosas mordidas amansam quando a palma se estende e avança

aleatoriamente a casualidade opta pela distância

se encurta o longe alargam-se sorrisos rasos são os abismos
a união levanta

parda negra mulata amarela vermelha excluída só uma banda
colorida de recortadas peles arrepia
pia a coruja bem no instante da sabedoria passar

alegoria do tempo sentado a pensar com emoção
no derrubar das barreiras onde nenhuma fronteira existe no levantar da alma no coração.


(às 17h05, Rafael Belo, segunda, 21 de dezembro de 2015)

segunda-feira, dezembro 21, 2015

Herança do acaso


Notícia boa de verdade ninguém sai por aí espalhando, sabe? Tem aquela coisa de inveja, agouros e outros clichês, mas notícia ruim? Ah, esta pode ficar na boca do povo o tempo todo. Tanto a ponto de parecer serem as únicas... E também segue a sina de “notícia ruim chegar rápido”, aliás em época de tempo real, ao vivo, instantâneo essa só pode ser parente do Usain Bolt.

Falando em sina, fado, destino... Enfim, acabam por significar a mesma coisa, mas sina e fado – sabe se lá porque – sempre são usadas para designar algo ruim. Desígnios, às vezes, chegam a mesma finalidade. Mas, se fomos usar a capacidade de raciocínio desenvolvida por nós nestes nós de contradições diários, jamais definiríamos linhas traçadas para nossa vida inteira, traçaríamos?

Não sei qual sua motivação na vida ou sua fé, mas “pressupondo” sermos dotados de livre-arbítrio não haveria possibilidade real de decidimos sofrer abuso sexual, mortes violentas, suicídios, miséria, sofrimentos... Nem ser necessário passarmos por tais brutalidades para crescermos, evoluirmos, percebermos outros caminhos quando é possível de forma pacífica e piedosa aprendermos, nos arrependermos e escolher o considerado melhor.

Até acredito existir a capacidade de ignorarmos aquela desabrigada, abandonada à própria sorte, azar ou acaso... Espera uma pessoa é obrigada a jogar os dados diariamente e torcer para dar certo? Suplicar para ter alimento, abrigo, saúde, atenção, mais um dia para os filhos viverem? Não, não posso acreditar na casualidade, na aleatoriedade de tudo ou de apenas certos “algos”. Nem a isso somos obrigados ou sequer agradecidos.


Castigo, punição, inflição de dor, sofrimento, julgamentos não têm nada a ver com os ensinamentos de fé, empatia, oportunidade, iniciativa, motivação, dar a outra face, união, esperança, Amor nos quais são baseadas tantas crenças. Tudo isto é herança de quando ao invés de estendermos a mão ao próximo, ouvir, aprender, ensinar, respeitar apontávamos dedos, chamávamos quem e o que não era parecido com a gente de diferente, bárbaro, ruim, mau, mal... Espalhávamos o medo... E, infelizmente, este medo ancestral, bestial e egoísta ainda cega nossos olhos e nos faz divididos. Nem é preciso dizer, mas o digo, que enquanto assim formos seguiremos ao acaso na dor.

domingo, dezembro 20, 2015

Escuridão na luz (resenha)


Aos poucos a dúvida se instala, perturba, manipula de todas as formas possíveis e quando se dá conta pode ser tarde demais. O medo move manifestadamente nossos sentidos, nossos instintos mais profundos sem sequer nos avisar ou permitir refletir. Se há dor e esta for irreparável, irreversível as consequências são avassaladoras com os motivos nunca esclarecidos realmente. Ler O Demonologista nos prende na maior façanha dita feita pelo demônio: reforçar sua inexistência. Mas, "parece" que agora ele quer o oposto...

Andrew Pyper nos presenteia com esta leitura assombrosa capaz de nos levar a raciocínios perturbadores, tirando nossos fôlegos e nos forçando a lembrar de respirar apenas no limite da apneia. David e Elaine são a força motriz desta história assustadora que começa se desenvolver realmente que David aceita ir até a Itália aproveitando para passear com a filha de 12 anos quase idêntica a ele.

Os diálogos inteligentes nos fazem querer chegar até aproxima página enquanto tentamos permanecer em silêncio para que seja lá o que habita a escuridão não nos alcance e aterrorize. Mesmo assim não queremos nos separar desta narrativa surpreendente desejando o tempo todo que ao final tenham mais páginas. Pyper está no patamar de Peter Straub, Joe Hill e até do incrível Stephen King.


Não é por acaso que O Demonologista é o best-seller do New York Times, vencedor do Prêmio de Melhor Romance do International Thriller Writers Award (2014), finalista de diversas listas de melhores livros de 2013 e 2014, além de ter sido publicado em dezenas de países. Precisa de mais para querer ler este livro nascido clássico? A Dark Side mais que caprichou com uma bela capa, projeto gráfico e as ilustrações também são incríveis. Esqueça tudo que está fazendo e comece a ler ontem!
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Copyright@andrewpyper
Enterprises LTD, 2013
Tradução @ Cláudia Guimarães 2015
320 pag.
O Demonologista
Autor Andrew Pyper
Editora Dark Side
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sábado, dezembro 19, 2015

Partidas matches

 




É o bastante (miniconto)


“Quase selvagens”, pensava ela olhando para ele e para as próprias linhas das mãos. “Estou perdido e Aura está me encarando... Eu fiquei distante e ela ganhou outras formas”, pensava ele. - Lauro... Será que nos amamos? Ele sabe que não adianta fingir. A pergunta foi feita em voz alta e lhe ocorre a destruição que causaria se dissesse seu esperado para a noite anunciando: ninguém dorme e ficamos em claro passando por todas as posições do Kama Sutra ou nenhuma palavra e vamos dormir... Não! Somente traria mais chororô e dúvidas.

Ele se senta. Olha ao redor. Ouve a insônia da cidade e tenta focar no rosto dela. Aperta os olhos mais para desfocar do que manter uma imagem nítida de Aura e espera. Lauro espera para quem sabe haja uma repetição da pergunta e o que pensa imediatamente é na variação de idade. Não entre eles, mas às vezes a diferença da correta e da aparente é enorme. Já passaram de 18 a 25 anos, mas raramente os 30 e poucos de ambos. Nesta noite qualquer um juraria terem mais de 50 anos...

- Como a gente sabe o que quer? Lauro pergunta sem resposta. – Você sabe o que quer? Ele insinua a cabeça em direção de Aura e mais uma vez espera. Tenta não dar seu sorriso cínico e definitivamente evita o de superioridade. Faz cara de paisagem desolada para disfarçar seus pensamentos sobre o objetivo da vida, sobre as atrocidades e toda esta pancadaria em estilhaços de guerra.

Lauro sabe como brigar, mas seu maior conhecimento é como não brigar. Ele se declara e umedece os lábios com o coração. Sussurra as mais belas palavras possíveis àquela hora da madrugada. Eles se abraçam. Choram e choram mais um pouco. Choram pelas interrogações, por não ser como era antes, pela juventude, pela velhice e, então adormecem mais leves mesmo sem saberem se foram as lágrimas o motivo do alívio ou por conseguirem dormir sem brigar. Antes do dia despertar seus corpos se entrelaçam e amassam o tempo. Algumas coisas voltam a fazer sentido por enquanto e é o bastante.

quinta-feira, dezembro 17, 2015

Rachando o ar


na beira do tédio a beirada me puxa
e preguiçosamente o marasmo grita pula
surta toda a certeza
os pensamentos soltos vão
a natureza avança em dominação
sangra verde sem parar
um distúrbio se derrama transborda da infância a velhice
sem a esperança voar
querendo existir sendo quem já existe
insiste em não ser

então quando amanhecer você ainda não vai estar aqui

criando o acaso
o descaso derruba o vaso
se desfaz em rachaduras e a esta altura... É importante cair.


(Rafael Belo, às 17h, quarta, 16 de dezembro de 2015)

quarta-feira, dezembro 16, 2015

Tonteando o círculo (miniconto)


Os 25 chegaram e passaram. Há anos... Não que eles não envelhecessem... Os anos se acumulavam como poeira em cidades abandonadas e as marcas da idade vinham fortes e profundas até antes do tempo. Mas, apesar de parecerem parados suas mentes ainda não podiam legalmente votar, dirigir, quanto menos beber. Os dois formavam círculos tão grandes que era possível dar voltas e mais voltas ao redor do mundo. Não estou falando na “necessidade” de embriaguez...

O casal escolhia insistir no acaso em podar a árvore no vaso para nem ele nem ela deixar de ser bonsai. O espaço permaneceria o mesmo por mais que outras amplitudes surgissem. Percepções precisam ser maiores que necessidades.... Quanto maior a percepção menor a necessidade, mas como o contrário acontecia com eles não era possível tocar o crescimento ou sequer fazer um resumo de 140 caracteres.

A infância foi para a Terra do Nunca e ninguém mais viu. Eles não se achavam preparados para terem uma (outra?) criança e seguiam sem saber para onde ir. Os adultos desistiram, jogaram tudo para o alto, partiram... Tudo parou em um ciclo levado pelo vento para o mesmo lugar. Liam e Lila conheciam mais uma ao outro a si mesmos e, no entanto, estavam perdidos, acabavam sempre na mesma situação. Tinham enraizado na pedra....

Cultivado uma plantação nas areias escaldantes do deserto onde, pela lógica e ciência, nada sobreviveria. Porém, teimosia e controle costumam se unir ignorantes em uma hesitante anestesia constantes dos sentidos, ou seja, enquanto houver dinheiro há motivo para resistir. Claro, não queriam discutir, definir quem ficaria com a cadelinha de olhar distante, também não desejavam sair do cômodo, começar tudo de novo, repetir todo o clichê falso das conquistas, se levantar mais uma vez, ter curiosidade, crescer, amadurecer, enfim. Não, um beijo e um “eu te amo” mastigado estava de bom tamanho. Foi o que fizeram e continuam se beijando.

terça-feira, dezembro 15, 2015

Os 25 do absurdo


Quando tudo era possível
a honestidade era o alívio do mundo
coloria sinceramente os minutos
a verdade era o exemplo mudo

não se trata de tempo nem nunca tratou-se
é um quando idade enquanto quanto era um bando
de esquecimento revoando ao nosso redor
aonde constantes instantes felizes riam movimentos
costurando a teia de infinitos

lambendo a língua para firmar hesitações lambidas
claro clareza não é necessidade enterrada na areia, mas percepção sim
as mentiras fazem todo aniversário crises de meia idade assim-assim

então eternas metades nascem completas
atletas em superar tudo
e o vulto da infância ninguém viu florescer
todos foram para os 25 do absurdo

não existem mais adultos
as pessoas vêm morrendo antes de nascer.

(Rafael Belo, 15 de dezembro de 2015, terça, às 14h10)

segunda-feira, dezembro 14, 2015

Insistentes do acaso


Perheps “And so merry Christmas”... Aliás, talvez então Feliz Natal nunca tenha soado como soa atualmente... Pensando bem, nesses ciclos de esquecimento tardio vividos por nós já aconteceram em diversos momentos da história até recente, mas também não é esta a questão. A questão é que as crises são bolas de neves a nos aproximar e afastar, um ou outro. Não, não depende da nossa necessidade e sim da nossa percepção. Não adianta passar por seja lá o que for e não entendermos, aprendermos e assumirmos nosso papel e culpa. O controle se perde porque nunca se teve...

O único controle possível em nossas mãos é o das escolhas, mas a verdade é que somos mais descrentes que crentes. Diferentes daqueles sonhadores vivendo os próprios sonhos - não sendo extensões dos desejos de outros - somos instantes de firmeza diante de constantes hesitações cegos aos traços mal feitos traçados por nós. Pior, somos teimosos. Não importam nossos pertences, conquistas ou o quanto não estamos felizes no caminho escolhido... Insistimos não ser o erro que é.

Vamos acumulando outras experiências, outras formas de viver, outras maneiras de se portar, outras personalidades a se vestir, outros passos a repetir e aquela figura desconhecida cotidiana a nos encarar pelas manhã e noites? Quem é? Onde vive? O que come? Como se diverte quando ninguém está por perto? Como age em seu habitat natural? Deseja mudar a si? Quer se conhecer?


Aonde está o tempo da curiosidade quando tudo era possível? Ainda está dentro de nós e, provavelmente, estamos por lá também... Pode ser clichê mas, então, seria apenas mais um entres os miríades do nosso dia-a-dia no qual precisamos nascer, cortar nossos cordões umbilicais para irmos longe sabendo ter para onde voltar, podendo enxergar melhor nossos horizontes e ser Natal (nascimento) e realmente buscar a felicidade em cada respirar, olhar, gesto e agir. Assim podemos gritar: (então) Feliz Natal.

domingo, dezembro 06, 2015

Quem é o narrador? (resenha)


Viajar ao passado e ao futuro simultaneamente em uma Inglaterra vitoriana que nunca existiu, mas ainda assim com vestígios reais do histórico é no mínimo inusitado e no máximo arrebatador... Vamos presenciar o sentimento de inventores e daqueles participantes do momento da criação executada em A Máquina Diferencial, o clássico dos consagrados Willian Gibson e Bruce Sterling.

Divididos em atos passeamos pelas personalidades de personagens da nossa história por uma Londres lúgubre, suja, sexual e repleta de descobertas cientificas, além de invenções inovadoras. Um encontro com Lady Ada Byron – filha do primeiro-ministro Lorde Byron - muda a vida do cientista pugilista paleontólogo Malory se envolvendo em mais uma intriga com um segredo não revelado.

Estamos partindo de Londres, a dominadora potência mundial pelo poder da Máquina Diferencial, em 1855 com a história se decompondo e se recompondo como se ali nascesse Neuromancer, Count Zero, Monalisa Overdrive... Ler esta obra é como se a verdadeira Matrix já existisse antes de se revelar e manipulasse a História a partir de um pastiche nebuloso.

Estar na mente do General Houston, Mike, Sybil, Hetty, Malory, Fraser, Oliphant, Florence, o lendário Capitão Swing, o texano vingador “Golias” permeando todo o enredo de uma forma ou de outra, a costurar o que veio e virá até um final que nos faz entender diversas formas e deformações da narrativa, até a sensação divergente da obra ter sido realmente escrita em 1855. Afinal, quem é o narrador? Vá descobrir agora!! 

ps: Ah, o designer gráfico é sensacional. 

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A Máquina Diferencial
2.ed-Ed. Aleph
Willian Gibson/ Bruce Sterling
Ficção (Norte)Americana
copyright@1991
1ª edição brasileira 2012
456 pag

*

sexta-feira, novembro 27, 2015

Reflexos de barro (miniconto)




Era possível sentir as cores se misturando no ar. Aquela brisa marítima chegava com um sorriso na face de Mário e ele sorria. As ondas iam parar de ir e voltar só quando acabasse o mar, mas por enquanto continuavam. Por enquanto iam e vinham trazendo o som da tranquilidade. Iam e viam com uma frequência cada vez menor atrás das memórias perdidas nas areias e lambiam como se fossem uma língua de gato.

Era um banho de pensamentos naufragados, afogados sentimentos e de uma sinestesia inebriante.... Mário se endireitou, esfregou os olhos, inclinou o pescoço para frente, torceu o nariz e olhou para os lados. Levantou e limpou a areia das roupas e do corpo. Como uma onda humana mimética cronometrada várias outras pessoas se levantaram, avançaram e recuaram diversas vezes...

Mas a maresia mantinha meticulosamente um marrom como se a vida se desmanchasse em barro e seu sopro cessasse. O azulado esverdeado estava maculado e trazia a morte boiando. A corrosão do tempo agora era instantânea e enferrujava dos olhos a alma. O som de murmúrio típico de uma multidão lamuriosa substituía a sonoridade mais penetrante do litoral.


Manchada a tranquilidade de Mário, ele procurou vestígios de revolta, no entanto a drástica dramaticidade do momento levara tudo a paralisia e a vontade dele era de voltar àquele ritmo repentinamente tomado, roubado da própria vida... “Então era desta forma.... Assim chega a morte! Tão de repente e mesmo assim a negamos todo as vezes”, falava alto Mário como um ensaio, uma marcação de palco. Porém, desta vez toda a plateia encenaria a morte. Água salgada e barro estavam nelas também e todos morriam até o mar voltar procurando o reflexo no céu.

quinta-feira, novembro 26, 2015

Atuação sem palco


pacato silêncio invasor escorre ao meu redor aos poucos
desolado olhar perturbador praticando o sofrimento nos outros

todos toldos levados pelas tempestades carentes
entredentes falando da intensidade do jogo
estridente recado revelador ressuscitando mais um morto

solto sem saber selar a identidade rompida na barragem
mensagem ensurdecedora revelando médicos e monstros
em desacato a vida ferida pela lama retida na correnteza

caem árvores pelo ar na certeza de nascerem floresta

rigorosamente resta o dissabor do dessabor na esticada língua
viva perversa revidando socos transformando tudo em festa
curvando imaginário chapéus para os céus que outra chuva pinta

ah, acolhedor espaço dos loucos usando nos dedos tinta
passando pela pele pesadas cores de alvo alvos e respinga
pela eternidade das cicatrizes a marca da fala de atores e atrizes.


(às 10h55, Rafael Belo, quinta, 26 de novembro de 2015)

quarta-feira, novembro 25, 2015

A árvore (miniconto)



Há dias ela estava dependurada da melhor forma possível na copa desta árvore. Estava sendo perseguida e difamada há tanto tempo que passara acreditar ser verdade, ser ela a culpada até dos crimes... Rose só não entendia o porquê. Não tinha mais forças para lutar... Não comia e tentava não beber, mas quando chovia não resistia: bebia a água ácida da chuva.

Desentendida também era da inveja e do odor da morte espalhado gratuitamente por tanta gente. Bem nem se fosse cobrado, pensou, viver para destruir o outro, para ocupar o lugar deste e se apropriar do que dele era... A qualquer momento um raio vai cair nesta árvore e eu, com todas as boas intenções do mundo, vou preencher mais uma vaga no inferno.

Rose não sabia da possibilidade de existência de um verdadeiro mar de lama e descobriu tarde demais. Aquele tipo de lama era a fama da morte. Enlamear vidas, embarrar caminhos, matar toda espécie de vida de um lugar.... Somos um lugar sagrado que profanamos insistentemente até amargar o cotidiano, os sonhos, os planos, disse para alguns pássaros que a circulavam e ao notarem serem percebidos revoaram.


Ela ignorava a corrente de amigos em busca dela, fazendo todo o esforço que podiam para limpar e restaurar esta grande mulher. Ela se isolou desolada de esperança. Nada de celular. As correntezas daquele rio de sangue a levariam. Leve-me por mais pesada que eu esteja... Desistente entrou em coma sentimental, em anestesia psicológica e não possuía mais sensibilidade às dores. Tornou-se leve e todo o peso sobre Rose despetalou. Nova pétalas surgiriam ao acordar e seus amigos a colheriam quando a encontrassem florescendo na árvore.

terça-feira, novembro 24, 2015

Soterra a Terra


O fim foi fazendo a parte dele
matou todas as flores da primavera
rompeu a barragem da morte a vida deteve
fez a cama da lama no drástico drama do já era

quimera da espera na cicatriz eterna onde a lembrança esteve

má estrela ou desastre tanta faz é grego na sombra do caverna
amargando o Doce rio desaguando o fim no mar

Vale minar Alegria nos rejeitos da humanidade
identidade adulterada nos defeitos de caráter no ar

contaminada culpa de desculpas elevando a mortandade
expulsa as vítimas em punição severa soterra o levantar.


(às 10h46, Rafael Belo, terça, 24 de novembro de 2015)

segunda-feira, novembro 23, 2015

Cicatrizes eternas


Estávamos pacatos na cidadezinha isolada e de repente morte e destruição. A calmaria e o cotidiano interrompidos e da maneira mais desastrosa possível. Pode ser o trabalho mal feito, o material de baixa qualidade ou a fiscalização cega, mas um deste (ou todos) fez de Mariana um marco começando por Bento Rodrigues– ruim – mas ainda assim um marco. Vidas embarradas – com o perdão do trocadilho – pela barragem rompida. Tudo que era tranquilidade então se foi.

Animais e plantas mortas, esperanças desoladas, mas ainda assim a sobrevivência, a solidariedade e, mais, a empatia. Porém, o que antes era doce agora traz as correntes do fim em suas correntezas. De uma cidadezinha para outras assolando o meio de sustento de tanta gente com óxido de ferro e areia. Minas Gerais e Espirito Santo nunca mais serão as mesmas e tudo acaba chegando ao mar. O que era vida agora é morte e desolação.

O rio Doce amargou mesmo com a barragem de Fundão “supervisionada” e regulada até 2019, mas a mina Germano e a barragem Santarém estavam com as licenças de operações vencidas há dois anos... Como isso resolve a situação das pessoas afetadas? É tarde para isso...! A água potável das cidades não será do afluente mais. Doamos água, como se o mundo já não tivesse escassez suficiente, descaso suficiente.... Samarco e suas acionistas - Vale e a anglo-australiana BHP Biliton – não agiram de fato até agora e nada de concreto sobre os motivos da fatalidade surgiu. As investigações sequer foram citadas nem quais serão os renomados profissionais que as farão...


Somos todos vítimas do descaso com os maiores patrimônios da Terra: a água, a biodiversidade, nós e toda a natureza. Talvez devêssemos agir como os índios Krenak, um ramo dos botocudos, e obrigar toda esta gente encoberta pelos podres poderes a tomar água direta do ex-rio Doce e comer os peixes mortos dele também. Mortos e desaparecidos são “apenas” duas consequências deste desastre que não passará e que será por muito tempo um reflexo do nosso mar de lama pela forma como tratamos as pessoas e a natureza. Não haverá esquecimento, principalmente porque é impossível cobrir as marcas deixadas ainda mais com tantas desculpas e pedidos de desculpas. A culpa não pode ser afastada, negada, precisa ser assumida o quanto antes para que este crime tenha nossa punição.