sexta-feira, maio 29, 2015

Caráteres e caracteres


por Rafael Belo
“A síndrome de vira-lata sofre de esquizofrenia e oscila por várias raças caninas até a síndrome de Mastim Tibetano, ou seja, varia de valor nenhum a 1,5 milhões de reais. De pobreza brasileira a status social na China...” é interrompido o pensamento de mais um anônimo por uma gritaria familiar a qual só pode ser identificado: “Nunca nada é bom o suficiente para você”, esbraveja Leozinho desrespeitoso para a mãe.

Esta superprotetora escolhendo e proibindo lugares e amigos de Leozinho, o cobrando o tempo o tempo todo resultados do investimento feito durante longos e briguentos 17 anos. Não teve carinho, atenção, presença, exemplo... Então, em quais esconderijos estavam a vida escolhida dela naquele filho bonzinho em dívida dos “pedidos” diários de sucesso?

Recolhendo as máscaras do chão eles se atacaram. Filho único contra mãe abandonada. Deu choradeira e rebeldia nas possíveis etiquetas na nunca. Rostos dos mais variados na mesma pessoa representavam uma paralisia social diante dos pensamentos sobre casais do mesmo sexo, moradores de rua, cidadãos sem cidadania forçados a viver em paupérrimas periferias, igualdade entre homem e mulher, respeito ao próximo... A paralisia transitava entre o sorriso e o ódio eterno nos lábios de Monalisa.

Escorregava da generosidade e simpatia para a antipatia e a proibida palavra preconceito. Uma fila de intermináveis 45 minutos de expressões para disfarçar a quantidade de julgamentos recheados das mais variadas camadas sociais. Leozinho desculpado pela adolescência e pelo “resultado” da criação, a mãe desculpada pelo duro trabalho de fazer tudo sozinha. Mas, a linha tênue sempre arrebenta e faz as cicatrizes maquiadas aparecerem.

O choro borra tudo e turva a visão insegura nas fissuras dos caráteres misturados com os caracteres e no fim um é o outro no desabafo revelador. O anônimo divagador volta a pensar e pensa na falta de caráter de alguns mundos, olhando a interminável cena... Não há caráter nem em mãe nem em filho, quem dirá... Onde Leozinho (neste momento todos sabem o nome do adolescente) moldaria seu caráter, seus valores (não, não... nada de cifras).

Assim Leozinho vira um smile e sua mãe outro. Caracteres virtuais e nada mais. O resto é não sabe de nada e o oposto também é gritado: “Está enganado filhinho. A juventude é supervalorizada. Está redondamente enganada. Vocês são novos demais e um dia irão entender!”

quinta-feira, maio 28, 2015

enrustida



 nó no novelo navalha língua
sangra palavras escorrega suinga
carimba testas soladas tratadas
periga toda verdade ser revelada
velada na escrita secreta
lida sincera no encostar da vela

sela sujeito por sujeito o jeito de cada preconceito enrustido

revestido de panos quentes bonzinhos
sozinhos na particular maneira de disfarçar o nascer do sol com a mão


ação de atar a vida no burburinho de julgar a lua pelas fases a passar escuridão.

(Rafael Belo, às 9h, quarta-feira, 27 de maio de 2015).

quarta-feira, maio 27, 2015

Mais um dia de trabalho




por Rafael Belo

Neuróticos histéricos anônimos se reuniam diariamente, afinal tinham apenas uns aos outros exatamente pelos nervos à flor da pele e a histeria completa. A desordem generalizada não interfere nos pensamentos deles. Irritados com tudo, mas pensando racionalmente. Agitados, passíveis, intranquilos, porém há a paralisia, a cegueira, a surdez, a mudez, enfim a nudez.

Todos os moldes e regras sociais saem anonimamente pela língua destravada como um vírus transmitido pelo ar contaminando o mundo exalando suas neuroses e histerias. Tornam-se anônimos inconscientes difamadores. Na alvorada, ao invés de debandar, os pássaros silenciam como cada som surgindo manhã após manhã agradecendo mais uma oportunidade de recomeços. Apenas Luna Luanda desperta ao pisar em um rosto caído...

Solta um grito longo e capaz de estilhaçar taças de cristais legítimos, mas comum e entediante para neuróticos histéricos. Trombando e sendo coberta de indizíveis impropérios ainda não registrados por aqueles que ainda podiam falar. Desequilibrada corta cada vez mais as solas dos pés. Há rostos espalhados por todos os lugares...


Não há grama, terra, asfalto só faces etiquetadas com preços sobre preços cada vez mais altos, marcados com apelidos pejorativos, preconceitos linguísticos, classicistas, literais, visuais, capilares, gestuais, vestuários, comportamentais... Depois de um tempo sendo esculhambada os ainda falantes perderam este sentido. A paralisia afetou o último estágio e a língua parou....

terça-feira, maio 26, 2015

olhar noturno



clara lua vejo através de você
por meio do meu olhar cansado
repousado no seu brilho na noite a permanecer
solitária alma brilhante reflexo solidário
tentando todos os dias flertar com o sol se pondo

alva amante prateada
assombrando todos os espíritos da estrada

quem dera uma escada a fizesse descer
forçando a maré ser alta enquanto você cheia
carrega todo julgamento em canto de sereia
para areias onde nenhum ser humano consegue pisar

para as profundezas do preconceito aonde ninguém ousa localizar.


(às 16h52, segunda-feira, Rafael Belo, 25 de maio de 2015).

segunda-feira, maio 25, 2015

Onde está nossa alma?



por Rafael Belo
Todos os tipos se misturam invisíveis nas multidões da cidade... Bem tipos não, né?! Personalidades, indivíduos, pessoas, cada um possui características únicas mesmo se forem cópias de outros sujeitos. É impossível soar e pensar exatamente como outro ser humano e separar um por um em religião, política e futebol... Gestos e gostos são tão individualizados a ponto de não identificarmos qualquer origem.

Mesmo assim, há estereótipos espalhados por todos nós nos identificando etiquetas. Não de marcas, pelos menos não exatamente, mas não é nosso nome de batismo diria Drummond. Aliás, Carlos Drummond de Andrade terminaria nos falando eu sou a coisa, coisamente. Vendemos imagens gratuitamente, ostentando nomes nos pés, roupas íntimas, calças, camisetas, celulares, selfies... Tudo enfim...

Da mesma forma julgamos separando pessoas por sexo, idade, jeito, gesto, erros... Preconceito? Com certeza. A hesitação, a dúvida, a indiferença, a superatenção, o pensar superior, o fazer mais correto, o dizer melhor, a maneira mais certa de se comportar, o adequado, o inadequado, estas nossas palavras afiadas atiradas jazendo tão enferrujadas nos pensamentos, na língua envenenada...

Talvez na lua desfocada na noite... Morremos e matamos com vírgulas e certezas inexistentes diariamente. Temos frases prontas sobre os diferentes sexos, outras orientações sexuais, as inúmeras origens, as diversas religiões e não somos todos seres humanos? Por incrível que pareça somos. Apesar das atrocidades, genocídios, das guerras por ganância, religião... 

Não faz tanto tempo um povo escravizava (??) o outro e nem conhecíamos a existência de um país vizinho, mas em seguida juramos por Deus que os nascidos e descendentes da África não tinham alma... Então, onde está nossa alma?

domingo, maio 24, 2015

Cozinhando a rã (resenha)



por Rafael Belo
Só sons significam algo para quem não vê, mas apesar da cegueira generalizada mundial e do tatear das mãos para formar imagens na cabeça, as tonalidades e nuances elaboradas pela voz trazem os detalhes entre uma vogal e consoantes ao meio de uma palavra e outra completadas pela visão do que o corpo diz. Trazer estas minúcias em palavras é de uma riqueza rara a nos levar para onde for.

Ler Toda Luz Que Não Podemos Ver é fazer parte do lançamento de um clássico com frases tão bem pensadas e relacionadas trazendo a certeza de que amanhã será parte dos diálogos cotidianos das pessoas. Anthony Doerr presenteia o mundo com esta obra-prima tratando um tema tão exaurido de uma forma inédita e em uma leveza condutora de uma cabeação condutora da mais leve a mais alta voltagem.

São 526 páginas com aquele sabor de 100, de quero mais. O capítulo A Rã Cozinha traduz toda a essência do livro em um trecho final onde Madame Manec nos oferece uma retórica: “Sabe o que acontece quando se coloca uma rã em uma panela de água fervente? Ela pula para fora. Mas sabe o que acontece quando você coloca a rã em uma panela fria e então lentamente põe a água para ferver? Sabe o que acontece? – A rã cozinha.

Um bom livro nos oferta tanta sabedoria que não esquecemos, ele nos ilumina, nos ensina a valorizar novamente e mais uma vez faz a imagem do que poderíamos ser e não há como terminar esta resenha sem citar algo novamente parafraseando Doerr: quando homens em situação limite aceleram o coração, caramujos na mesma situação o deixam mais lento. Marie-Laure foi limitada até os seis anos quando apenas via o mundo, depois ficou cega e passou a enxergar... Werner nunca deixou de aprender, ser curioso e sonhar... Se há algo que vale a pena ler é Toda Luz Que Não Podemos Ver.



TODA LUZ QUE NÃO PODEMOS VER
1ª edição Março de 2015
526 páginas
Autor Anthony Doerr
Editora Intrínseca
Tradutora Maria Carmelita Dias
Copyright 2014
Título original

ALL the Light We Cannot See

sexta-feira, maio 22, 2015

No outro dia




por Rafael Belo

Em menos de três minutos seis “perdeu, perdeu”, o equivalente a três assaltos. Crimes pequenos à mão armada, porém se comparado a quantidade de pessoas mortas em consequência da ganância de João Honesto, não era nada. Aliás, João Honesto era político de carreira, eleito e reeleito... Há 20 anos... Acompanhou o crescimento da criminalidade fruto daquilo que tirou da educação, reurbanização e saúde... Mas Honesto não imaginava ser roubado, reconhecido e, então, sequestrado.

Nos três minutos criminosos, Honesto viu uma moto estacionar, o motoqueiro descer com uma .38 em punho deixando o veículo ligado, entrando e saindo com um saco de dinheiro. Entre uma coisa e outra roubaram esta moto novinha dele. Ele xingava e reclamava da criminalidade na região. Quando se deu por si havia uma .45 encostada na própria cabeça e lá ia seu roubo suado e sua arma.

Viu uma viatura em ronda bem na hora de sempre. Foi até lá e denunciou o roubo da moto roubada na noite anterior por ele. Não satisfeito queria registrar ocorrência da arma com numeração raspada e do dinheiro assaltado. O policial, solícito, anotava tudo quando o dono da padaria indignado pelo quadragésimo assalto e pela situação política avançou com sua espingarda para o espectador  João Honesto.

O malandro criminoso ao ver a espingarda se jogou na parte traseira da viatura e bateu a porta. O dono da padaria arremessou o político do outro lado batendo a porta e encostou a arma na têmpora direita do policial o mandando ligar rápido e acelerar. Treinado, o policial enrolou e já havia deixado o rádio comunicador aberto para toda a polícia ouvir a ocorrência em andamento. Em poucos segundo esta chegou.


Assustado, o dono da padaria acidentalmente atirou e uma saraivada de balas surgiu em resposta. Não houve sobreviventes... No dia seguinte a notícia estampava todos os jornais: “Emboscada à Honesto termina com quatro mortos”.

quinta-feira, maio 21, 2015

produção seriada



de repente todos doentes tossem
inflamações ranger dos dentes
vermelhos olhos dizendo pare
repare a exaustão separe o cansaço
ampare o laço da retina vendando as retinas enfeitando pescoços no espaço
não há cortinas só esforço nem a evasiva privacidade

a insegurança é a violência do apodrecimento da verdade

o cotidiano automatizou o humano
corrompeu seus planos e os disfarçou de disfarçado otimismo
somos todos ostras do ostracismo na fascinação
sem reparar nas pérolas em alto escala de reprodução.

(Rafael Belo, às 07h47, quarta-feira, 20 de maio de 2015).

quarta-feira, maio 20, 2015

Quem disse?!



por Rafael Belo

Ele senta concentrado cercado de barulho de aviões, vozes dialogando, discutindo trabalho, falam sozinhas ao telefone... De repente silêncio, só risos sumindo e o toc-toc se distanciando de saltos, indo até a surdez provisória. Ricardo Gotas cochilou e tudo ficou mudo até os segundos se passarem e ele perceber onde estava: mais uma reunião. Os sons voltam e um telefone começa a tocar insistentemente.

Há tempos ele aperfeiçoou a bizarra técnica de dormir de olhos abertos, mas desta vez o cansaço veio tão pesado... A cabeça foi pra frente freada e pendeu no balanço do corpo... Acordou perigosamente a milímetros de bater a cabeça na mesa de madeira de lei. Teria morrido? pensou ou apenas ganharia uma concussão leve?... E então se quietava seus pensamentos até o susto dos olhos fechados. Fechei os olhos?

Ricardo Gotas não tinha nenhuma habilidade, treinamento, disposição ou vontade. Estava sentado ali ameaçadoramente sem ninguém ousar olhá-lo ou comentar a dormida pela “manipulação de conhecimento”. O pai dele, este sim trabalhador, estava reunindo o máximo de desvios possíveis para denunciar cada pessoa ao redor do filho no momento por peculato.

A corrupção era tanta a ponto dele só imaginar gordas mesadas para polícia, Judiciário, Executivo, Legislativo e faltava exatamente esta conexão para provar a lama podre de corrupção dali, mas por falta de qualquer coisa saudável teve um fulminante infarto aos 45 anos e o acomodado filho de 20 estava corrompido corrompendo os corruptores por status, poder e, claro, 50 % de todos os envolvidos.


Como corrupção gera violência em poucos meses não sobrariam nem amigos, nem família a Ricardo Gotas. Ele pressionou tanto quem não estava acostumado a ponto dele virar cinzas. Apenas a arcada dentada dele e parte de um braço ficaram milagrosamente intactos com indícios de overdose, mas o incêndio garantiu sua morte e se espalhou indelével por toda a cidade. Quem disse que a corrupção não aprende!?

terça-feira, maio 19, 2015

diários



rompem as sustentações caindo sem chegar ao chão
corrompem ilusões com ilusão para acabar com o inevitável
da noção perdida se perdendo na encenação
na queda da tentação do mais provável

contagem regressiva para autodestruição
três dois um implosão conspiração domesticável
corcunda da impostura da rejeição inviolável

volátil explosão pedras no lago
fogo fátuo no saco na cabeça cotidiana manutenção...
...mais diárias dos olhares da aproximação agressões de fatos.


(às11h25, Rafael Belo, segunda-feira, 18 de maio de 2015).

segunda-feira, maio 18, 2015

Autoagressão



por Rafael Belo

Atrás dos contornos da terra o sol mais uma vez é posto. Límpido e extremamente difícil de olhar diretamente tamanha sua luz e beleza. Sempre disposto, incansável, diário... Nós, depostos, o olhamos sem perceber ser um espelho, mas diferente dele nós vamos nos corrompendo e toda corrupção causa violência. Corrompidos nos violentamos antes de propagar esta destruição intrínseca.

O famoso efeito borboleta misturado com o efeito doppler... Sabe algo entre o bater de asas no Japão causar furacões por aqui e jogar sem parar pedras em um lago durante um dia sem vento... Não queremos ter noção do impacto de nossas ações. Procurando vantagens, tirando vantagens, agindo “enquanto ninguém está vendo”, ficando com o troco errado, com o dinheiro achado, ignorando as consequências...

É como se nosso sol parasse de nascer de repente e todo o planeta fosse Antártida, mas ao invés de seis meses de noite estamos há mais de meio milênio na escuridão trocando bugigangas por ouro, vidas por dinheiro e poder. Mas, a guerra está na mente há muito mais tempo que a existência do Brasil sempre na tríade ganância, dinheiro e poder


Ao mesmo tempo somos a pedra no lago e o bater das asas aplaudindo nossas saídas às ruas nos manifestando, paralisando distante daqueles que nos representam fazendo leis, berrando palavras de ordem afetando apenas as superfícies, na hipocrisia em crise de risos de todos... Todo o sistema está corrompido. O dinheiro desviado lá, desvia a educação aqui, desestrutura a segurança mais adiante e a violência é autoagressão e um agredir incessante.

sexta-feira, maio 15, 2015

Resmungos


Por Rafael Belo

Mais uma sexta-feira cansada se levanta cheia de esperança (que o fim de semana seja bom e longo?), mas no dia de rodízio de seu carro o ônibus é obrigatório por questões práticas. Olivia Oito se incomodava com os cutucões, puxões, empurrões, pisadas e ficava fora de si e raivosa com as encoxadas. Bolinada intencionalmente ou não, não importava, ela tinha aversão ao toque e, ingrata como todos, xingava pela falta de gentileza e gratidão.

Olhava muitos ali, atrasados como ela, mas totalmente despreocupados. Os poucos acordados avisavam por whatts do atraso enquanto se isolavam nos fones de ouvido, mas sempre tinha os chatos falando ao celular tudo que os outros não querem escutar e todo o ônibus escutava. Olivia observava com uma mistura de tédio e ferocidade assassina constrangendo impiedosamente quem quer que fosse.

Quando era tocada se contorcia como uma borboleta voltando a ser lagarta no óleo fervente. Segurava-se para não gritar cada xingamento repassado repetidas vezes na mente. Mas, os roncos a enlouqueciam fervorosamente mais... Como era possível dormir desta forma?!!!... pensava Olivia da forma mais indignada. Ela estava em pé e encarava compulsivamente quem dormia largado. Se alguém se atentasse ao rosto dela imaginaria uma dor lancinante a torturando.


À direita dela uma cabeça pendia quase encostando nas costas e à esquerda era um queixo colado no peito babando. Altos roncos de estudantes bem jovenzinhos. Muitas paradas depois, conseguiu bufante e mal-encarada sentar resmungando a meia altura... Dormiu quase de imediato roncando alto como um chaleira e balançando em toda sua antipatia rumo ao ponto final. Obviamente ela não iria trabalhar naquele dia, mas estava tranquila sonhando com um mundo onde todos a agradeciam pela liberdade de não agradecer nada, apesar da gentileza.

quinta-feira, maio 14, 2015

Imperceptível indiferença



a garoa impede o clarear
chumba em chumbo o trafegar
não há movimento no engarrafamento
também parece parada a garoa

há uma sacada vazia inexistente zombando de qualquer pressa antes das 7h

ingratas marionetes do poder
corrompidas pelas cores cinzentas fingindo magentas
pensando colorir corresponder ao seu dever

se molha e nem percebe...
A graça e gratuidade de ser água a faltar.


(às 07h34, Rafael Belo, quarta-feira, 13 de maio de 2015).

quarta-feira, maio 13, 2015

Irreconhecível


por Rafael Belo

Desabou o homem em uma queda seca e catatônica. Um baque surdo-mudo levando ao susto todos os presentes. Chico se debatia em seu silêncio e roubava o silenciar dos outros. Doía reconhecer sua ingratidão e desgraça. Então, insone, era o monstro da noite, os ruídos do prédio, o tédio do sonâmbulo culpado demais para dormir.

Arrastava sua corrente, rangia os dentes, batia portas e insatisfeito gritava. A noite não era de ninguém e silenciosa como um abismo ecoava seu som animal encurralado e ferido pelos sonhos terríveis dos outros moradores. Era impossível saber a origem dos sons e Chico sabia estar ruminando suas escondidas emoções.

Saiu no frio sem roupas depois de uma semana sem comer. Era pura água e náuseas estomacais. Toda vez Chico sabia da sua inaptidão para o amor. Falava coisas belas e as cantava, até aconselhava bem, mas como muitos, fingia não precisar dos próprios conselhos e sua forma de castigo era se privar das suas vontades...

Traído por si mesmo chorou como uma garotinha abandonada pela mãe por desamor. Fez-se oceanos de insônia com suas lágrimas doloridas e sinceras e se esvaziando voltou a se preencher, mas nas ruas paulistanas tão “pedindo pelo pior” não voltou para casa e toda sua família acreditou que Chico cumprira finalmente sua promessa de sumir... Enquanto isso, os meses devorariam os vermes conhecedores íntimos da aparência irreconhecível dele.

terça-feira, maio 12, 2015

Assopro



veleja no ar o pulsar das velas
tremulantes eras dos navegantes
apaga-se esta chama com a lama da chuva
não há mais velas acesas apenas nós em cera...

enverga-se o corpo rangendo até o chão [curva-se]

enxergar com a mão se perdeu no vento
turva visão enxergando outro movimento

não passa tempo nem volta
reviravolta-se a volta não dada

debate-se a graça e toda gratuidade nos devassa em sopro...

aonde vai a liberdade em sua revoada
se tudo a fazer com nossa passarada é cortar as asas gratas em pleno ar?


(às 14h20, Rafael Belo, segunda-feira, 11 de maio de 2015).

segunda-feira, maio 11, 2015

Graça e gratuidade

por Rafael Belo

Para manter a seda pura e no ponto o bicho-da-seda perde a vida para nos vestir. A vida tem o mesmo significado quando humana, vegetal e animal e por que não pensamos assim? Agimos como cegos e ignorantes ao recebermos os sacrifícios a nos permitir termos os nossos confortos, alimentos e cotidiano. Cada pequenez a usufruirmos custa algo. Não há gratuidade na vida a não ser a Amizade e o Amor e o quanto somos gratos a tudo isso?

Agradecimento parece viver do outro lado de uma imensa muralha a qual não nos dispomos a passar, ao invés disso nos emaranhamos a gestos e expressões parecidos com àqueles usados quando precisamos admitir nossos erros. Somos imperfeitos, esta é a perfeição e devemos ser gratos a isto também, mas por que temos tanta dificuldade de dizer obrigados sonoros e verdadeiros mesmo se o outro nem sequer deseja ouvir?

Temos medo de parecer fracos, pequenos e nos envergonhamos de nos sentirmos, assim, mesquinhos. Pensamos que nos expor é ruim... Bem desde que não seja nas mídias digitais e com intenção de ferir o outro, nos torna mais leves de corpo e alma, consequentemente, ficamos mais gratos pelos presentes diários da vida. A todo momento esta gratuidade de oportunidades deveria nos engrandecer.


Graça e gratuidade por podermos todos os dias fazer nosso melhor, de respirar sentindo o ar vagarosamente preencher nossos pulmões e oxigenar cada parte do nosso corpo, mesmo que não entendamos (por enquanto) o motivo de estarmos passando por qualquer dor e sofrimento a nos afligir, até quando nos perguntamos “por quê?!” os significados serão preparatórios e de fortalecimento para evoluirmos da correria... Para a mansidão.

sexta-feira, maio 08, 2015

Partindo adeus



Por Rafael Belo

Então é aqui que os cães se escondem quando fogem de casa? Viram cachorros de rua e, naturalmente, se tornam amigos dos mendigos... Pensou o pequeno Luís incrivelmente coerente no português. Mas Luisinho era destes geniozinhos que mal tinha entrado na pré-adolescência e não demonstrava nem a inteligência nem seu ódio pelos diminutivos fofinhos.

Saiu aquela manhã silenciosamente escondido em suas certezas de sexta-feira. Como se fosse para a escola, mas contrariado com sua passividade, como todo gênio, estava prestes a libertar suas vontades e eus mais obscuros. Já esfregava as mãos de ansiedade, a tensão no rosto já relaxava com um tenso sorriso assustador repelindo as pessoas como um ímã opositor.

Luisinho era todo satisfação e finalmente parou de se conter gargalhando furiosamente a ponto do motorista do ônibus o fazer descer sob nenhum protesto. Não suportava ver a alegria dos moradores de ruas com seus cachorros foragidos, então foi passando a mão em cada cão, incrivelmente sem nenhum protesto dos mendigos acostumados a perder, mas ninguém reclamava porque algo exalava daquele olhar e daquele sorriso...


Quem vive sem um local para dormir sob um teto acolhedor sabe exatamente o significado exalando de Luisinho: eram os limites quebrados da loucura. Certa insanidade apontando a capacidade imediata de matar ou morrer rascunhados no olhar e no sorriso. Ele se chamava ironicamente de “o” Injustiçado. Logo ele (logo eu) tão inteligente, podendo adquirir tudo e agora livre, mas com tamanha capacidade de raciocínio ele sabia necessitar de uma paz mais elevada e, por isto, partia. Apenas um cachorro o seguia para o isolamento onde nada chocaria com sua órbita colidida.

quinta-feira, maio 07, 2015

forçada comoção



injustiçados deitam na própria grandeza
tão pequenos dormem no  chão
bêbados de tantas filas de certezas
certeira certa verdadeira ilusão

não se chocam as órbitas
correm na mesma ilógica direção
colisão de inventadas memórias atraídas por outra atração

mãos se espalmam para cima não estendidas
sempre desentendida gravidade puxando tudo para baixo da consignação
crueldade total da característica da pureza
na tão úmida crueza que chove

gotas do oceano da imensidão no grão de areia rude da gentileza
sem pensar especificamente em nada erosão da clareza [se autocomove].

(às 06h44, Rafael Belo, quarta-feira, 06 de maio de 2015).

quarta-feira, maio 06, 2015

As primeiras horas de quarta-feira


Por Rafael Belo

Carolina Silva estava sentada na margem direita do canto invisível do próprio olhar. Sua expressão era algo entre pensativa e triste, mas quem pode confirmar se nem ao menos ela o sabe dizer. Uma coisa é certa Carol, aliás Karol S. (norte-americanizado mesmo como ela gosta de ser chamada) se sentia injustiçada.

Antes se sentia diferente e por isso, se achava no direito de ter mais direitos e tudo mais rápido se fosse possível se comparar aos outros. Todos os dias Karol chegava neste seu mundo com a mesma incerta expressão. Indefinida como ela mesma não gostava de admitir, porque era mais, era diferente mesmo, mas não tinha consciência de todos serem diferentes...

Igualdade apenas perante a lei e as condutas perante a sociedade.... ou algo assim... Da pele para os órgãos e aquela confusão de sentimentos e imateriais pensamentos tão pesados a ponto de confundir a materialidade não havia mesmo nada igual... Bem a questão do sentimento de injustiça, de perseguição se acumulavam como dunas no deserto pessoal de cada um.

Porém, neste exato momento não se passava nem vento na cabeça de Karol. Era o clichê dia de fúria da menina aos seus longos 18 anos em seu primeiro emprego forçado, pegou a faca de pão na cozinha e no impulso de castigar a sociedade machista que a criou tão bem para servir vestiu um cínico meio-sorriso de satisfação no canto esquerdo da boca e deu seu grito de guerra ao se atirar ao chefe este pensando ainda em “outras satisfações” nas primeiras horas de quarta-feira...

terça-feira, maio 05, 2015

adestramento



acima da dor dormente alheia nossas feridas
além de qualquer problema nossa justa reclamação parida
apressados justificando a pressa primeira passageira
das órbitas atingidas
colidem explodem [olhos saudáveis sem ver]
a pior cegueira sem gravidade grave a correr
caindo atrás de si mesma a permanecer

buzina onipresente
não se ouve, não sente
de onde vem vai recente enrijecer

grito inexistente
ainda está lá reticente
ninguém confirmou latente escutou?

gente impotente [nós no espelho]
trezentos e sessenta graus girando de repente
conselho circular ciclo inconsequente
acaba na nossa cauda
abana enrola balança senta
      rola cumprimenta
bate palmas despede segue morto
 todos tortos truques tramando tentar
                                                     o absurdo de não escutar o outro.


(às 21h18, Rafael Belo, segunda-feira, 04 de maio de 2015)

segunda-feira, maio 04, 2015

Órbitas em colisão


por Rafael Belo

Os fogos estouram lá fora como a ilusão da alegria de domingo de jogo, os cães se acuam com medo mortal das explosões antes que a segunda-feira chegue decretando o fim do feriadão e o início de mais uma semana de trabalho. Bom, é segunda-feira na expectativa de novas manifestações, novos congestionamentos e mais deseducação espalhadas no círculo viciante da vida.

Viciosa maneira canina de tentarmos morder nossa própria cauda e girarmos, girarmos em rotação e translação seguindo um sistema geográfico de posicionamento fora de órbita na lógica sem argumento, sem profundidade e mesmo assim nos tornando uma areia movediça de palavras erradas e gestos repetidos em um enlouquecedor déjà vu.

Provavelmente já vimos e fazemos e o faremos de novo, mas seguimos nos movimentando desesperadamente e afundando para uma morte medíocre. Não paramos para prestar atenção no outro e ajudamos a empurrá-lo mais para baixo enquanto há quem o empurre em nossa direção. Baste ver o ônibus nos horários de pico, trens e metrôs em dias de manifestação...

Mesmo sabendo que as portas não fecham enquanto alguém estiver nelas, há empurra-empurra desnecessário e uma total descortesia. Falta gentileza nas pessoas, sobra medo e estamos empanturrados de egoísmos. Achamos nossa dor ser maior, nossa reclamação ser mais justa, nossa pressa ter justificativa e se todos, ou a maioria, pensamos (pensa) assim, sabemos porque as órbitas só vivem em colisão.

domingo, maio 03, 2015

Grão de areia na gota do oceano (resenha)


por Rafael Belo
A tristeza é a maré necessária para nos impulsionar além da praia, para nos tornar quem precisamos ser. As alegrias são as ondas indo e vindo conforme os ventos soprarem e nós somos os grãos de areia, às vezes as gotas do oceano. Não há como sermos se não passarmos por alegrias e tristezas. Sãos os caminhos que escolhemos por nossa única conta e risco que irá florescer ou matar nosso jardim.

Amber Appleton é Quase uma Rockstar mesmo. Como Matthew Quick intitula essa forte e emocionante história tratando a religião e a relação com Deus, a vida e as pessoas de uma forma prática e informal sem amarras e incapaz de deixar algo de lado. É leitura indispensável da mesma forma de O Lado Bom da Vida.

Voltei a infância e a adolescência lentamente sem sequer perceber sendo envolvido pelo estilo leve e direto de Quick. Levou-me aos meus medos e leituras de clássicos infanto-juvenis no ambiente ideal àqueles que se veem e se deixam a margem dos clichês estudantis, da segmentação social já elaborada nas panelinhas escolares.

Os Cinco, JC, SJ, PC, os velhinhos, As Divas Coreanas, Donna, Rick, Franks, Triplo B e as fatalidades cotidianas não nos permitem nos afastar desta leitura marcante nos levando ao riso e ao choro na mesma proporção. Leia com atenção, pois há mais nas palavras do que elas dizem até chegar a um belo final onde nos vemos um grão de areia em uma gota no oceano.
##
Desde que o namorado da mãe as expulsou de casa, Amber Appleton, a mãe e o cachorro moram em um ônibus escolar. Aos dezessete anos e no segundo ano do ensino médio, Amber se autoproclama princesa da esperança e é dona de um otimismo incansável, mas quando uma tragédia faz seu mundo desabar por completo, ela não consegue mais enxergar a vida com os mesmos olhos. Será que no meio de tanta tristeza e sofrimento Amber vai recuperar a fé na vida? Com personagens cativantes e uma protagonista apaixonante, Matthew Quick constrói de forma encantadora um universo de risadas, lealdade e esperança conquistada a duras penas.
Editora : Intrínseca
Páginas: 256
Ano: 2015
#


sexta-feira, maio 01, 2015

Ponto final


por Rafael Belo

“Não deveria estar lotado este ônibus. No dia do trabalhador e uma sexta feira... Feriados deveriam ser vazios como a maioria de nós”, pensa Silvio olhando para a multidão estranha ao seu redor em contraste a ausência lá fora. Mas, não havia bancos... Deixando espaço para ainda mais pessoas. O cobrador também era um espaço em branco ocupado. O motorista não se via, havia escuridãoem seu lugar.

Todo lugar deixado vazio é imediatamente ocupado. Não importa bondade ou maldade toda a complexidade sai da superfície destas definições por isso, a lógica não faz parte das ações e do coração. Um amontoado de sombras... Sombras de outras sombras. Este é (era) Silvio. Ele não deveria estar ali pela lógica. Mas, a vida não é matemática. Silvio havia morrido há pouco.

“Estou mesmo morto? Morrer é assim, então...? ” Questiona enquanto sente seu cheiro. Ele fedia mesmo quando vivo. Desde que a escassez de água começou até agora quando a substituíram pela dengue e os 50 anos da Globo. Ele vivia isolado, morria assim também. Isolado e desolado pela própria aridez. Antes não costumava olhar ninguém nos olhos...

Agora com seus olhos murchos e opacos o fazia e parecia ver a mesma ausência de vida no olhar de volta a fixar lugar nenhum. Eles não se mexiam mesmo na velocidade inesperada. Tão rápido ia o ônibus  que em algum momento Silvio achou ser parte do clandestino exibicionista clube 299 (km/h).


Quando conseguiu fixar o olhar nos borrões parados lá fora reconheceu muita coisa. Lembrava de não ter qualquer memória de como acabou sentado no fundo do ônibus. Então a única luz que conseguiu enxergar acendeu vagamente em seus escuros olhos: minha carona para a morte... Sexta-feira é dia de rodízio de carros... E viu vário oitos e noves (todos no coletivo) que o acompanhariam para o inferno deles no ponto final.