sexta-feira, novembro 27, 2015

Reflexos de barro (miniconto)




Era possível sentir as cores se misturando no ar. Aquela brisa marítima chegava com um sorriso na face de Mário e ele sorria. As ondas iam parar de ir e voltar só quando acabasse o mar, mas por enquanto continuavam. Por enquanto iam e vinham trazendo o som da tranquilidade. Iam e viam com uma frequência cada vez menor atrás das memórias perdidas nas areias e lambiam como se fossem uma língua de gato.

Era um banho de pensamentos naufragados, afogados sentimentos e de uma sinestesia inebriante.... Mário se endireitou, esfregou os olhos, inclinou o pescoço para frente, torceu o nariz e olhou para os lados. Levantou e limpou a areia das roupas e do corpo. Como uma onda humana mimética cronometrada várias outras pessoas se levantaram, avançaram e recuaram diversas vezes...

Mas a maresia mantinha meticulosamente um marrom como se a vida se desmanchasse em barro e seu sopro cessasse. O azulado esverdeado estava maculado e trazia a morte boiando. A corrosão do tempo agora era instantânea e enferrujava dos olhos a alma. O som de murmúrio típico de uma multidão lamuriosa substituía a sonoridade mais penetrante do litoral.


Manchada a tranquilidade de Mário, ele procurou vestígios de revolta, no entanto a drástica dramaticidade do momento levara tudo a paralisia e a vontade dele era de voltar àquele ritmo repentinamente tomado, roubado da própria vida... “Então era desta forma.... Assim chega a morte! Tão de repente e mesmo assim a negamos todo as vezes”, falava alto Mário como um ensaio, uma marcação de palco. Porém, desta vez toda a plateia encenaria a morte. Água salgada e barro estavam nelas também e todos morriam até o mar voltar procurando o reflexo no céu.

quinta-feira, novembro 26, 2015

Atuação sem palco


pacato silêncio invasor escorre ao meu redor aos poucos
desolado olhar perturbador praticando o sofrimento nos outros

todos toldos levados pelas tempestades carentes
entredentes falando da intensidade do jogo
estridente recado revelador ressuscitando mais um morto

solto sem saber selar a identidade rompida na barragem
mensagem ensurdecedora revelando médicos e monstros
em desacato a vida ferida pela lama retida na correnteza

caem árvores pelo ar na certeza de nascerem floresta

rigorosamente resta o dissabor do dessabor na esticada língua
viva perversa revidando socos transformando tudo em festa
curvando imaginário chapéus para os céus que outra chuva pinta

ah, acolhedor espaço dos loucos usando nos dedos tinta
passando pela pele pesadas cores de alvo alvos e respinga
pela eternidade das cicatrizes a marca da fala de atores e atrizes.


(às 10h55, Rafael Belo, quinta, 26 de novembro de 2015)

quarta-feira, novembro 25, 2015

A árvore (miniconto)



Há dias ela estava dependurada da melhor forma possível na copa desta árvore. Estava sendo perseguida e difamada há tanto tempo que passara acreditar ser verdade, ser ela a culpada até dos crimes... Rose só não entendia o porquê. Não tinha mais forças para lutar... Não comia e tentava não beber, mas quando chovia não resistia: bebia a água ácida da chuva.

Desentendida também era da inveja e do odor da morte espalhado gratuitamente por tanta gente. Bem nem se fosse cobrado, pensou, viver para destruir o outro, para ocupar o lugar deste e se apropriar do que dele era... A qualquer momento um raio vai cair nesta árvore e eu, com todas as boas intenções do mundo, vou preencher mais uma vaga no inferno.

Rose não sabia da possibilidade de existência de um verdadeiro mar de lama e descobriu tarde demais. Aquele tipo de lama era a fama da morte. Enlamear vidas, embarrar caminhos, matar toda espécie de vida de um lugar.... Somos um lugar sagrado que profanamos insistentemente até amargar o cotidiano, os sonhos, os planos, disse para alguns pássaros que a circulavam e ao notarem serem percebidos revoaram.


Ela ignorava a corrente de amigos em busca dela, fazendo todo o esforço que podiam para limpar e restaurar esta grande mulher. Ela se isolou desolada de esperança. Nada de celular. As correntezas daquele rio de sangue a levariam. Leve-me por mais pesada que eu esteja... Desistente entrou em coma sentimental, em anestesia psicológica e não possuía mais sensibilidade às dores. Tornou-se leve e todo o peso sobre Rose despetalou. Nova pétalas surgiriam ao acordar e seus amigos a colheriam quando a encontrassem florescendo na árvore.

terça-feira, novembro 24, 2015

Soterra a Terra


O fim foi fazendo a parte dele
matou todas as flores da primavera
rompeu a barragem da morte a vida deteve
fez a cama da lama no drástico drama do já era

quimera da espera na cicatriz eterna onde a lembrança esteve

má estrela ou desastre tanta faz é grego na sombra do caverna
amargando o Doce rio desaguando o fim no mar

Vale minar Alegria nos rejeitos da humanidade
identidade adulterada nos defeitos de caráter no ar

contaminada culpa de desculpas elevando a mortandade
expulsa as vítimas em punição severa soterra o levantar.


(às 10h46, Rafael Belo, terça, 24 de novembro de 2015)

segunda-feira, novembro 23, 2015

Cicatrizes eternas


Estávamos pacatos na cidadezinha isolada e de repente morte e destruição. A calmaria e o cotidiano interrompidos e da maneira mais desastrosa possível. Pode ser o trabalho mal feito, o material de baixa qualidade ou a fiscalização cega, mas um deste (ou todos) fez de Mariana um marco começando por Bento Rodrigues– ruim – mas ainda assim um marco. Vidas embarradas – com o perdão do trocadilho – pela barragem rompida. Tudo que era tranquilidade então se foi.

Animais e plantas mortas, esperanças desoladas, mas ainda assim a sobrevivência, a solidariedade e, mais, a empatia. Porém, o que antes era doce agora traz as correntes do fim em suas correntezas. De uma cidadezinha para outras assolando o meio de sustento de tanta gente com óxido de ferro e areia. Minas Gerais e Espirito Santo nunca mais serão as mesmas e tudo acaba chegando ao mar. O que era vida agora é morte e desolação.

O rio Doce amargou mesmo com a barragem de Fundão “supervisionada” e regulada até 2019, mas a mina Germano e a barragem Santarém estavam com as licenças de operações vencidas há dois anos... Como isso resolve a situação das pessoas afetadas? É tarde para isso...! A água potável das cidades não será do afluente mais. Doamos água, como se o mundo já não tivesse escassez suficiente, descaso suficiente.... Samarco e suas acionistas - Vale e a anglo-australiana BHP Biliton – não agiram de fato até agora e nada de concreto sobre os motivos da fatalidade surgiu. As investigações sequer foram citadas nem quais serão os renomados profissionais que as farão...


Somos todos vítimas do descaso com os maiores patrimônios da Terra: a água, a biodiversidade, nós e toda a natureza. Talvez devêssemos agir como os índios Krenak, um ramo dos botocudos, e obrigar toda esta gente encoberta pelos podres poderes a tomar água direta do ex-rio Doce e comer os peixes mortos dele também. Mortos e desaparecidos são “apenas” duas consequências deste desastre que não passará e que será por muito tempo um reflexo do nosso mar de lama pela forma como tratamos as pessoas e a natureza. Não haverá esquecimento, principalmente porque é impossível cobrir as marcas deixadas ainda mais com tantas desculpas e pedidos de desculpas. A culpa não pode ser afastada, negada, precisa ser assumida o quanto antes para que este crime tenha nossa punição.

domingo, novembro 22, 2015

Não tenha medo (resenha)


Todo ser humano já sentou em uma roda de conversas para ouvir histórias. Se for com fogueira então... Dificilmente as assombrações locais deixam de fazer parte destes encontros motivados para assustar e perturbar os sonhos, mas também há algo da cultura embutida em cada um destes causos. Claro que todos os povos cultuam esta tradição e entre os mais antigos estão os japoneses... Como não levar um susto com uma maldade sem fim em seus livros e filmes? Kwaidan – Assombrações, de Lafcadio Hearn nos ensina sobre a origens dos contos populares do Japão.

Em plena sexta-feira 13, parei em frente das máquinas de livros espalhadas pelas estações de metrô de São Paulo e lá estava o livro. Não tive dúvidas: cliquei no número e imediatamente comecei a ler. Hipnotizado fui descobrindo de onde surgiu e cada uma das simbologias das assombrações japonesas – e orientais no geral, ansiando pelo que viria a seguir.

Com uma linguagem leve e bem elaborada viajamos pelas diversas eras da milenar cultura japonesa de várias épocas conseguindo nos fazer enxergar lógica em muitas atitudes e filmes de terror. Há um significado para cada forma, cada veste, todo ato... Os espíritos são vingativos, cheios de temperamentos e sempre cobram as promessas feitas.

A morte não é o fim e cada conto deixa óbvio o motivo disso e os porquês de cada manifestação. Nenhuma história é tratada de maneira fantástica, há uma sensação de causa e consequência, de... normalidade neste “Pós-Vida” tanto que os japoneses – de acordo com o autor – nunca se importaram em registrar tais contos, era uma tradição oral. Aliás, a importância dada a cada ser vivo e a certeza de que fauna e flora possuem um espirito esclarece ainda mais e nos instiga a não querer o fim da obra. Uma leitura rápida e deliciosa. Não espere, leia já!

*
Editora Claridade
Lançamento: 2007
160 páginas
Ficção japonesa
Contos populares japoneses
Autor Lafcadio Hern
Kwaidan – Assombrações


*

sexta-feira, novembro 20, 2015

Culpado sem culpa (miniconto)

Lucius estava inconsciente mais ouvia tudo. Estava em coma induzido há dias. Tentava dizer algo, mexer qualquer coisa sem conseguir. O corpo não obedecia. Como clichê de filme norte-americano as pessoas insistiam em lhe contar os mais absurdos segredos, diziam o quanto o amavam, tanta falta fazia, porém Lucius nunca teve certeza se havia realmente este tal de amor, aquela palavra sentimento.
"Ou vim com defeito ou todos são tolos, afinal... Por que vou querer atenção, alguém querendo saber tudo de mim, meus afazeres e pior os meus pensamentos?! Não! Afastem-se! Sumam daqui. Não, não, não, esperem... Ainda não sei como sobrevivi... Não sinto nenhuma maldita dor, então terminem com isto logo. Calem a boca! Deixem-me em paz uma vez pelo menos."
"Planejei direito desta vez. Era para eu estar em milhares de pedacinhos indo direto para o nada, para o zero absoluto, mas, mas, mas... AAAaaaa... Não funcionou e além de não entender porquê ainda estou preso obrigado a receber carinho e atenção. Então, realmente, há castigo pelos maus pensamentos, pelas más intenções... Só queria saber quem elabora tais punições. Não, não, não... Quero não."
"Eu não devia ter me afastado da bomba... Para onde foram as milhares de pessoas que estavam lá? Por que eu não morri?" Com os olhos estatelados, Lucius assistiu a reportagem onde um grupo de terroristas assumia a responsabilidade do que não havia acontecido e só então percebeu ter aberto os olhos. Estava só no quarto. Conseguiu mexer um pouco a cabeça. Não restava muito de seu corpo afinal. Foi tudo que viu porque logo sentiu uma dor insuportável e tudo foi escuridão. O sol ia se por e a noite não teria brilho nenhum - sem estrelas e luar.

quinta-feira, novembro 19, 2015

Consequências


Nas cidades do mundo há o falso fundo-aparência
independência alheia disfarçando o prisioneiro eleito
sujeito ao quão anônimo é isto tudo vestindo a violência
no meio da multidão há um infinito acabando por conceito

preconceito suspeito ilustrado em tantas diferenças

crenças fecham os olhos juntam as mãos ao seu direito
efeito incontrolável do corpo aceitável em sua eloquência
libertando a impaciência na prudência querendo respeito

onde está a trilha de migalhas da floresta da inocência ?

é uma procura de abrigo proteção do perigo um certo aceito
de olhar direto o sol até o outro ser o louco da nossa  imprudência.

(às 08h50, Rafael Belo, quinta, 19 de novembro de 2015)

quarta-feira, novembro 18, 2015

Sobrevivente (miniconto)


Talvez Jess tenha andado em círculos sem perceber. Estava tonta, mas não era este o motivo. Sentia-se sozinha... Não confiava em ninguém, mas queria manter as aparências e agradar sempre. Deixava de incentivar quem precisava e todas às vezes ela sabia... Nada era bom o suficiente nem merecia realmente algo dela.

Só não perceberia suas atitudes a tempo. Atordoada, Jess parecia encontrar novos lados para olhar. Se todos os fogos de artifício do mundo estivessem estourando ao mesmo tempo ao redor de um filhotinho de cachorro não seria possível comparar a como se sentia Jess. Não tinha entendido ainda o estouro. Estava cheia de escombros, sangue e, provavelmente, pedaços de várias pessoas.

Não estava escutando quando o mundo explodiu. A ironia do assassino em massa seria noticia assim que encontrassem Jess. No momento da explosão tocava: Foi uma bomba relógio que explodiu / Deixou em mil pedaços... O Maior Encontro Sertanejo Moderno foi um ataque planejado. Jess estava próxima da imensa caixa de som. Por milagre, depois de um estrondo ensurdecedor, ela só ouvia o silêncio e a escuridão.


Não sabia explicar nada, não via ninguém e angustiada não soube dizer como conseguiu sair de dentro da caixa de som ou como esta mesma não a matou. Seu último pensamento antes de seja lá o que foi... Foi exatamente: ele não está merecendo... Enfim, lá no primeiro parágrafo ela estava atordoada, andando em círculos e assim continuava. O mundo iria se unir temporariamente novamente enquanto ela estava desnorteada e sem audição seguindo perdida tropeçando em escombros, corpos e ilusões. Se sentia alguma coisa era ser sobrevivente só precisava descobrir do quê?! 

terça-feira, novembro 17, 2015

suturas


A dívida da dúvida se divide livre e presa
súdita insubordinada da súbita clareza
esbugalha os olhos escancara a boca a clara surpresa
escorre pelo mundo um rio rubro reagindo às peças na mesa

caindo de costas com cor celeste colorindo os olhos
corre clarão que desce branco tanto quanto no meio explode

aceso ódio pódio do poder pode absorver a intolerância

quem tolera a falha fala da agressão na aversão da ânsia
e mesmo assim vomita seus medos até grita
regurgita a generalização na distorção da autopreservação

aquece a vontade de outros tipos de pão
esquece a escuridão humana e trepida a chama da união
enlouquece assustados e desligados que entrelaçam as mãos

atura a altura sutura corações despedaçados
com pontos espaçados feitos com linhas da imensidão.


(Rafael Belo, 17 de novembro de 2015, terça, às 09h55) 

segunda-feira, novembro 16, 2015

Acúmulo do cúmulo da cultura do medo


Há tantas guerras entre nós, em nós e no mundo... Por isso, vivemos assustados ou desligados e em nossa maioria talvez entre um e outro. Esse adverbio de dúvida é a área cinzenta por onde tanto transitamos, aliás vagamos nesta incerteza de atos contínuos de violência extrapolados entre a tolerância e a intolerância. A diferença entre estes é que o último já não tolera mais e o outro por enquanto tolera...

Quantos atentados contra a humanidade acontecem diariamente? Incontáveis, é certo, mas quando toma proporções mundiais surtindo os efeitos queridos pelos mandantes e treinadores há comoções indefiníveis e minutos de silêncio intermináveis. Matar ou morrer não resolve os problemas do mundo quanto mais de indivíduos porque sabemos que esta dívida sem dúvida será cobrada por algo ou alguém.

Na nossa história vivemos repetindo os massacres, os holocaustos dizimando vidas e deixando vivas sequelas psicológicas indeléveis. Quantas “minorias” foram covardemente atacadas, mortas, exterminadas...? “‘Bárbaros’, imigrantes, estrangeiros, cristãos, negros, judeus, índios, mulheres, homossexuais, pessoas que optam por outras formas de encarar a vida e nós não temos que tolerar, julgar não cabe a nós nada além de respeitar.

Mesmo assim nos consternamos diante de fatalidades. Ainda bem. Continuamos humanos, continuamos errando, historicamente repetindo homéricos erros e fingindo aprender, entender... Fingindo que ataques planejados covardemente a culturas diferentes não mais acontecerão.

Só nas últimas três décadas já nos unimos por Kosovo, civis afegãos, centrais americanos, África, Kuwait, sérvios, bósnios, iugoslavos, Metohijas, líbios, egípcios, Quênia, Somália, Estados Unidos, civis israelenses, iranianos, iraquianos, sírios, incontáveis vezes pela democracia, hoje é pela França, mas se nos uníssemos sempre não haveria necessidade de nenhuma lamentação nem do aumento da raiva, intolerância, do preconceito e da cultura do medo.

domingo, novembro 15, 2015

Terra da alegria? (resenha)


Falar de Stephen King e suas obras é a coisa mais fácil do mundo. Primeiro sou inegável fã e segundo o motivo de eu o ser. King consegue te envolver e fazer nos vermos em seus personagens, ele tem a capacidade de te transportar para a época e a idade de suas criaturas e tudo que queremos é saber o porvir. Joyland é exatamente assim.

Quando percebi já tinha devorado suas pouco mais de 340 páginas e nunca foi tão rápido ler quase três centenas e meia de uma narrativa. Claro, nenhuma “terra da alegria” vinda do universo de King seria suficientemente alegre sem um fantasma. Assim, seguimos Devin em seu coração prestes e partir e em todas suas aventuras, incluindo, uma séria brincadeira de detetive.

Trabalhando em um parque de diversões acompanhamos um Devin de 70 anos contando sua história, lembrando de um verão inesquecível de quando partiu seu coração, perdeu a virgindade, desvendou um crime brutal e quase... Enfim, tem de tudo neste belo livro girando em torno do jovem Devin de 21 anos. Quer amizade? Terá. Precisa de heroísmo? Lerá. Amor? Com certeza.

Não tem como não torcer, se arrepiar, se emocionar nesta tocante e verdadeira obra onde somos levados aos nossos próprios primeiros amores, virgindade, o desafio de conquistar o trem fantasma e se entristecer com Mike, Annie, Tom, Erin... Ah, não se esqueçam do lobo em pele de cordeiro, fiquem de olho há reviravoltas e muita profundidade por aqui....  Aliás, aqui estamos falando simplesmente do mestre não só do terror e do suspense, mas da ficção, do romance e da criatividade. Já me deu vontade de ler de novo!

Está esperando o que?! Vá ler já!


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Joyland
Suma de Letras
copyright@ 2013
Brasil, 2015
Ficção Norte-americana
340 pg


*

sexta-feira, novembro 13, 2015

Previsões (miniconto)


Maria caminha. Ia olhando para cima involuntariamente e da mesma maneira involuntária as pessoas desatentas desviavam dela sem a ver ou ter esta função no cotidiano automático paulistano. É, nem tudo se explica porque a explicação, às vezes, só tem a função de acabar com a magia das coisas, da vida. Talvez fosse este o pensamento de Maria e lá ia ela.

Disse-me nem perceber sua repentina obsessão pelo céu, pelas nuvens, me disse querer enxergar as estrelas de dia. Pensei: Ah, Maria. Poluição, sol, meio-dia, não querida, não verá nada não. Por isso, sorri quando a ouvi, mas ela imaginou ser outro o motivo do meu sorriso. Percebi – antes de me aproximar – que até os ladrões a evitavam.

É... Loucura, pensavam e se afastavam depressa. Maria me disse se imaginar centenária e até mais. – Mais de 100?!, perguntei surpreso e dizendo não me imaginar planejando nada, indo adiante, mas sim via meus sonhos se realizando, dando entrevista para o Jô, aliás até sonhava tal alegria algumas vezes...

Interrompendo meu ego, Maria voltava com a mania de se perder olhando para cima e envelhecia com a mesma idade. Dizia, que no futuro cada idoso teria até a sexta idade, mas provavelmente o desrespeito – infelizmente – até pioraria, então queria envelhecer agora porque amanhã o tempo passaria, mas o corpo pararia aos 25 e ninguém mais perceberia a vida como ela é: mais bela porque havia a morte para a enaltecer.

quinta-feira, novembro 12, 2015

Soprando sopros


No parapeito do terraço retorce o aço
e o tal do acho reconhece todo mundo minúsculo
enquanto a tempestade bate espanca a juventude
a atitude antiga puxa o idoso com  jeito de moço

para baixo olha tanta gente ostra molusco
pensando estar definida pronta mas mero esboço
tenta enxergar com olhar fixo no lusco-fusco
teimoso a faiscar dividindo dia noite tempo espaço azul roxo      

até ser no acaso um descaso do ocaso crepúsculo
sem idade apenas um espalhar de si para todos um pintarroxo.

(às 20h44, Rafael Belo, quarta, 11 de novembro de 2015)

quarta-feira, novembro 11, 2015

Um instante (miniconto)


Centenas de pétalas estavam esparramadas no pátio. Vinham ondulando do terraço do prédio mais alto da cidade. A maioria estava seca e enrugada. Estas tinham caído pela ação do vento, envelheceram e morreram por falta de poda e água nas plantas de onde nasceram. Também lhes faltava sombra, atenção... As demais José despetalou.

Jovem e arrogante, jamais achou ser possível levar um fora e fora exatamente isto que aconteceu. Despetalava as flores como seu coração despedaçado. Olhava para baixo murmurando malmequer, malmequer, malmequer... Como um mantra e apontava para as pessoas pequenas e se sentia pequeno também.
O primeiro amor, o primeiro coração partido e a juventude vinha com improváveis pensamentos suicidas... Claro, Marcela não precisava humilhá-lo na frente de todo mundo no intervalo da faculdade. Não foram necessários nem os gritos, nem a exposição da intimidade, nem... Vergonha. Mal sabia da aposta entre as universitárias sobre ele...

José envelheceu toda a vida que teria pela frente naqueles instantes quando auxiliava na morte das flores. Podia regá-las, mas o fim do mundo acontece de hora em hora na adolescência estendida chegando até depois dos 30 e além disso era a terceira idade, a velhice... Ele ficou um mal idoso, não de maldade, mas ficar mais velho fez a gravidade ganhar de José.


Ele ainda não aprendera nada, não escutara o ensinamento de ninguém, nem sequer sentia o aroma das flores, preferia descartar, despetalar, ao invés de cuidar, hidratar, reviver... Ele seria obrigado a aprender em pancadas ou a surra o mataria naquele terraço mesmo, pois, às vezes, 70 anos é um instante.

terça-feira, novembro 10, 2015

Sem saber contar


O aroma das flores invadia era dia
como não foi e nunca mais será
pingava dos olhos desfocados selvageria mais mania
de forçar ser o não permanecerá

falhava a memória em falsa nostalgia dissintonia
Alzheimer negativo da mente a se esfacelar
direto na cratera da lua serenando a fria apologia
esfera imaginária na ilusão daquele satélite buscar

românticos de lua cheia devaneia hipocrisia fina
olhando o horizonte de esguelha o sol a paquerar
coração na incisão da noite arritmia disritmia
cirurgia clandestina a anestesiar a dor para chegar

chegou... Uma noite de dia e o aroma das flores ainda permanecia no meio da tarde anônimo pela manhã nas cores que ele mesmo fazia pela manha que cria algo impossível de contar o tempo [até contar sem saber].


(às 17h54, Rafael Belo, segunda, 09 de novembro de 2015)

segunda-feira, novembro 09, 2015

Testemunhas


Na fila do mercado, dois dias antes de Finados, fui reparando, enquanto esperava, na quantidade de flores compradas. Quanto mais avançada a idade o número de vasos floridos aumentava. Na minha frente um casal de idosos, com mais de 70, empurrava dois carrinhos: um com compras e outro só com homenagens aos seus mortos.

Eram mais de 20 flores. Um recorde pelo que meus olhos diziam. Ao redor não via ninguém com mais de cinco, mas para isto era praticamente uma afirmação dizer: seria comprado no dia e, provavelmente, em frente ou no caminho do destino final. Nos idosos havia todo tipo de resistência, vitórias, e claro, longevidade como verdadeiras testemunhas das mudanças do tempo.

Estava em um fila educada e ninguém reclamava da velocidade das coisas e, afinal, nunca será encontrada uma fila ao gosto do freguês. Este sempre acha que poderia ser mais rápido por mais que o próximo compromisso seja nenhum. Eu pensei assim quando vi o casal já passando as compras, mas “minha” fila era gentil também e atendemos o pedido de um rapaz com uma coca de 3 litros em mãos: posso passar rapidinho?!

Enfim, tinha me esquecido da data até ver os idosos e me questionar o motivo do segundo carrinho. Nunca fui a um cemitério sozinho... Sempre há todos os tipos de flores, principalmente secas e morrendo na mesma proporção que são trocadas e a quantidade de flores de plástico... Só esta imagem diz tudo... Mas esta data é memória para refletirmos sobre a vida de quem foi e na nossa vida. O que ficou de quem morreu?

Ver aqueles idosos com tantas flores me trouxe lembranças dos meus mortos amados - e dos queridos também - e de como eles, o experiente casal, respeitavam a memória de quem se foi. Será que recebiam o mesmo respeito de outras pessoas no cotidiano deles? Com mais de sete décadas de vida com certeza eles começaram a peregrinação naquele mesmo dia e eu - dois dias depois e diariamente antes de dormir – dediquei (dedico) minhas orações, pensamentos e sorrisos a todos àqueles que se foram, mas com certeza, nos ensinaram algo e deixaram muito deles mesmos.

domingo, novembro 08, 2015

O Paraíso não termina (resenha)


Há 36 anos As Fontes do Paraíso criavam uma nova legião de fãs e Arthur C. Clarke elevava mais uma vez o prestigio dos escritores de ficção científica. A felicidade de antigos, atuais e futuros autores bebia direto dele. Assim livros, filmes, HQ’s e animações têm hoje falas, trechos e imagens só possíveis depois da publicação deste clássico.

Fatos históricos e científicos são enredados com muitos diálogos lembrando outro clássico: a profunda trilogia “psicofilopolítica” A Revolta de Atlas de Ayn Rand de 1957. Ambos deixaram suas marcas em Ken Follet que lançava, em 1989, a trilogia arrebatadora Os Pilares da Terra. Mas, voltando As Fontes, Clarke conseguiu condensar tantos assuntos interligados em um livro quando facilmente seria uma saga enorme.

Relançado no Brasil este ano, As Fontes entrelaça física, engenharia, matemática, história, estupidez, arrogância e sabedoria para nos fazer literalmente viajar no tempo. Vamos de dois milênios atrás, a mais de um milênio e meio à frente, entre estas distancias vamos ao passado próximo, aos dias atuais e algumas centenas de anos depois enquanto pontes são construídas.

Esta narrativa eficaz, precisa e envolvente revela a ambição de duas épocas onde grandiosidade, falhas e abrangência intelectual constroem As Fontes do Paraíso para a eternidade vinda do passado marcante do rei Kalidasa desejada por Morgan no nosso futuro. Este quer uma ponte entre a Terra e o espaço... Seu sonho está para se realizar diante de toda a incredulidade daqueles a presenciar a evolução.

Também há vidas inteligentes em outros planetas e previsões sobre o que esperar em Marte no futuro da humanidade abordadas de forma surpreendentemente natural, assim como as eternas lutas contra a gravidade, para permanecer em pé e deixar uma marca na história para o não esquecimento são intermináveis. Além disso, há um posfácio do autor e ainda um adendo de dez anos depois do lançamento do livro quase como uma conversa direta conosco, leitores. Nesta leitura o Paraíso é a realização dos nossos sonhos. Só posso finalizar dizendo: deveria ser uma saga.
Não perca tempo! Vá ler já!

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Editora Aleph @2015
350 pag.
Tradução: Susana L. de Alexandria
Título original: The Fountains of Paradise
1ª publicação: Rocket Publishing Company LTD. @1979

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sexta-feira, novembro 06, 2015

Aquela fresta (miniconto)


Dona música olhava pela fresta e lá embaixo o sr. Canção admirava aquele pequeno vão onde os olhos dela enxergavam liberdade. Ambos pensavam neste momento como a mais bela melodia. Ainda não era nem deixava de ser. Algo entre um minuto e outro, as pausas e os sons, os jogos entre os silêncios...

Era uma junção sem fim de coisas boas palpitando no olhar de ambos e cantando no ouvido da vida. Na verdade, os dois gostariam de ouvir outro “entre”. Eles possuíam uma paixão equivocadamente platônica um pelo outro. Ele gostaria de ouvi-la dizer entre sem bater e ela desejava dizer que entraria com prazer entre o olhar dele e a imensidão.

Enquanto a melodia desafiava, desfiava e desfilava diante da imaginação de ambos, aquela fresta ficava sem dimensões se expandindo feito o fim de uma estrela, ou seja, um buraco negro os estava sugando para a mesma direção. Dona Música e sr. Canção temiam não ser uma boa dupla, mas temiam mais a desilusão.


Então, a boa e velha Serenata baixou no sr. Canção e a fresta de ambos já passava de uma janela quando chegou também o sereno e a noite. Pronto! O ambiente estava perfeito. Música dispensou o dona, Canção o senhor, a melodia agora era cola e a Serenata não faltava mais para fazer o Amor cantar e virar trilha sonora contagiando um festival de novos casais.

quinta-feira, novembro 05, 2015

Mar doce no sertão salgado


Como folhas secas esmagadas no outono chove
no som úmido umedecendo lembranças em ritmo
e não passa esta branca cortina conectando correntes
vidas são sopradas suavemente sem se mexerem no íntimo

fritando e esfriando o mundo lavado ao mesmo tempo
viva ligação entre os elementos dos quais somos fração de movimentos
é primavera chuvosa alagando os fins de tarde
como canção molhada chorando céus comoventes

águas de novembro nos invadem
para levar o que é seco e povoar nossos desertos congelantemente quentes.


(às 18h15, Rafael Belo, quarta, 04 de novembro de 2015)

quarta-feira, novembro 04, 2015

Uma Nova Canção (miniconto)


Arrebentaram as cordas do violão. Todas de uma vez cortando meus nove dedos de maneira inusitada. Um chicote de aço deixando o violão vermelho, mas continuei cantando ignorando a dor.... Não, ignorar não é a palavra. Eu, eu incorporei na minha voz o sentimento necessário para a música. Eu era a dor. Desempregada, nas ruas e dando minha vida para proteger meu único ganha pão.

Como outros, mal conseguia dormir nas ruas. Precisava ficar atenta e nos albergues eu não poderia criar, tocar, cantar... Era obrigada a ficar muda ou chamar atenção desnecessária quando eu menos queria. Minha mente sempre me manteve com poucas horas de sono e Insone sempre me chamaram. Dormir era bom para sonhar com o que eu não conseguia pensar.

Mas, agora sem as cordas como eu tocaria minha vida? Já estava em outro país sem saber se meu “marido” tinha sobrevivido após aquela, Aquela, AQUELA única vez... Maldito! Como eu me deixei iludir? Eu justo eu tive que fugir... Por que eu inventaria algo sobre alguém que eu amei?! AAAA... Não, Insone, respira, você jurou nunca deixar nada roubar sua paciência e integridade novamente.

Sentei na Praça da República, fechei os olhos, respirei fundo e deixei o ar sair com tudo mais. Daria um jeito com certeza, sempre o dei... Comecei a cantar e cantar e cantar... Não tive coragem de abrir os olhos por várias músicas, confie em seja lá qual força a me proteger durante tanto tempo... Talvez tivessem passado horas, mas uma canção surgia na minha alma. Abri os olhos sem lembrar da falta de cordas e no meu violão cordas lindas e novas reluziam.

Comecei a compor uma nova canção.

terça-feira, novembro 03, 2015

Tort’olhar


Doem minhas juntas minhas articulações minhas dobras
nas sobras de meio ilusão metade imaginação
escola dos meus pensamentos labirintos em alguma boca escondida na minha barba perdida por escolha

uma música me hipnotiza me descobre todo

fogos de artifícios destroem edifícios no meu estomago
um eu autônomo desdenha do louco
se agarrando às escorregadias aparências
bolinando as saliências de soltas línguas por aí

olhares do avesso me atravessam o desejo dos outros

quem são os outros senão eu caminhando fora do meu corpo?

Escalo a depressão faço a barba descubro as montanhas nos olhos do povo
Preso no daltônico olhar torto.


(Rafael Belo, às 17h02, segunda, 02 de novembro de 2015)

segunda-feira, novembro 02, 2015

O tenor do ônibus


Ele tocava com seu aspecto sujo, seu rasta, sua voz raspada e ao mesmo tempo limpa ocupando todo o ônibus, mas seu rosto não tinha nenhum pelo. Um domingo destes onde a nação roqueira ocupava o Autódromo de Interlagos e se hospedava na região. Estava em pé na porta se equilibrando enquanto tocava o violão e cantava um reggae gospel capaz de silenciar todos.

Um ar leve dominado pela música dele. Todas as atenções, quando não estavam de olhos nele, estavam naquela música do jovem. Outros violões estavam com seus donos sentados pelo coletivo. Como eu, o olhavam com ar de satisfação e ao mesmo tempo de “a qualquer momento me junto a ti”.

Com ele uma mochila pequena e aparentemente com pouquíssimas coisas. As pessoas tinham vergonha de interromper aquele show ininterrupto e tão paulistano para um domingo de manhã. Afinado e intenso talvez não fosse o tema cantado tocando as pessoas. Abraão, Jesus, os apóstolos... Velho e Novo Testamento celebrado na voz de um hippie.

Mas era a alma imposta(da) em cada tom, nas frases de coração, aliás de peito, de cabeça... O tenor do ônibus, morador de qualquer lugar mudando a manhã de tanta gente, empunhava música para todos. Não era porque estávamos em um domingo que o coletivo não estava lotado e justamente por isso, ouvir, sentir aquilo era um alívio.


Quando a música agradeceu e desceu, pouco antes do Parque Ibirapuera, a mensagem parece ter ficado, pois as pessoas permaneciam caladas com os olhos brilhando e um sorriso de esperança nos lábios.