segunda-feira, novembro 23, 2015

Cicatrizes eternas


Estávamos pacatos na cidadezinha isolada e de repente morte e destruição. A calmaria e o cotidiano interrompidos e da maneira mais desastrosa possível. Pode ser o trabalho mal feito, o material de baixa qualidade ou a fiscalização cega, mas um deste (ou todos) fez de Mariana um marco começando por Bento Rodrigues– ruim – mas ainda assim um marco. Vidas embarradas – com o perdão do trocadilho – pela barragem rompida. Tudo que era tranquilidade então se foi.

Animais e plantas mortas, esperanças desoladas, mas ainda assim a sobrevivência, a solidariedade e, mais, a empatia. Porém, o que antes era doce agora traz as correntes do fim em suas correntezas. De uma cidadezinha para outras assolando o meio de sustento de tanta gente com óxido de ferro e areia. Minas Gerais e Espirito Santo nunca mais serão as mesmas e tudo acaba chegando ao mar. O que era vida agora é morte e desolação.

O rio Doce amargou mesmo com a barragem de Fundão “supervisionada” e regulada até 2019, mas a mina Germano e a barragem Santarém estavam com as licenças de operações vencidas há dois anos... Como isso resolve a situação das pessoas afetadas? É tarde para isso...! A água potável das cidades não será do afluente mais. Doamos água, como se o mundo já não tivesse escassez suficiente, descaso suficiente.... Samarco e suas acionistas - Vale e a anglo-australiana BHP Biliton – não agiram de fato até agora e nada de concreto sobre os motivos da fatalidade surgiu. As investigações sequer foram citadas nem quais serão os renomados profissionais que as farão...


Somos todos vítimas do descaso com os maiores patrimônios da Terra: a água, a biodiversidade, nós e toda a natureza. Talvez devêssemos agir como os índios Krenak, um ramo dos botocudos, e obrigar toda esta gente encoberta pelos podres poderes a tomar água direta do ex-rio Doce e comer os peixes mortos dele também. Mortos e desaparecidos são “apenas” duas consequências deste desastre que não passará e que será por muito tempo um reflexo do nosso mar de lama pela forma como tratamos as pessoas e a natureza. Não haverá esquecimento, principalmente porque é impossível cobrir as marcas deixadas ainda mais com tantas desculpas e pedidos de desculpas. A culpa não pode ser afastada, negada, precisa ser assumida o quanto antes para que este crime tenha nossa punição.

Um comentário:

Maria Belo disse...

Triste e verdadeiro! Retrata muito bem o caos que ocorre diante da tragédia! Parabéns!