quarta-feira, novembro 11, 2015

Um instante (miniconto)


Centenas de pétalas estavam esparramadas no pátio. Vinham ondulando do terraço do prédio mais alto da cidade. A maioria estava seca e enrugada. Estas tinham caído pela ação do vento, envelheceram e morreram por falta de poda e água nas plantas de onde nasceram. Também lhes faltava sombra, atenção... As demais José despetalou.

Jovem e arrogante, jamais achou ser possível levar um fora e fora exatamente isto que aconteceu. Despetalava as flores como seu coração despedaçado. Olhava para baixo murmurando malmequer, malmequer, malmequer... Como um mantra e apontava para as pessoas pequenas e se sentia pequeno também.
O primeiro amor, o primeiro coração partido e a juventude vinha com improváveis pensamentos suicidas... Claro, Marcela não precisava humilhá-lo na frente de todo mundo no intervalo da faculdade. Não foram necessários nem os gritos, nem a exposição da intimidade, nem... Vergonha. Mal sabia da aposta entre as universitárias sobre ele...

José envelheceu toda a vida que teria pela frente naqueles instantes quando auxiliava na morte das flores. Podia regá-las, mas o fim do mundo acontece de hora em hora na adolescência estendida chegando até depois dos 30 e além disso era a terceira idade, a velhice... Ele ficou um mal idoso, não de maldade, mas ficar mais velho fez a gravidade ganhar de José.


Ele ainda não aprendera nada, não escutara o ensinamento de ninguém, nem sequer sentia o aroma das flores, preferia descartar, despetalar, ao invés de cuidar, hidratar, reviver... Ele seria obrigado a aprender em pancadas ou a surra o mataria naquele terraço mesmo, pois, às vezes, 70 anos é um instante.

Um comentário:

Maria Belo disse...

Legal...."preferia descartar,despetalar"....isso ai a vida é um sopro!