segunda-feira, agosto 01, 2016

Anúncios imperiais diários


La fora os anúncios são tantos. Ainda vende-se de tudo... Dia desses, parado ali na Rua 13 de maio com a Avenida Fernando Corrêa da Costa, aliás, a data é uma das mais importantes mesmo com o Brasil sendo o último país americano a criá-la e um dos últimos do mundo, a Abolição da Escravatura é a famosa Lei Áurea, mas o real nome da Lei de Ouro é Lei João Alfredo (este que foi, entre diversos cargos políticos, primeiro-ministro imperial, e um dos responsáveis pelo registro civil brasileiro e todas as leis que libertaram os negros)... Enfim, o dia histórico se encontra ali com Fernando.

 Fernando foi médico e político antes de Mato Grosso do Sul se separar de Mato Grosso e morreu dez anos depois aos 84 anos. Ele foi prefeito de Campo Grande por cinco anos, depois foi governador e senador, mas o que o fez ser o nome desta avenida foi seu trabalho como o cirurgião que era. Em 1927, quando se mudou para Campo Grande, pegava seu Ford Bigode para atender os campo-grandenses a qualquer hora e lugar sem distinção social, tratava todos igualmente... Parece que temos um histórico de médicos prefeitos por aqui, mas sem todas as qualidades deste. Para juntar esta avenida com aquela rua, precisamos falar da regente temporária, princesa Isabel e seus 11 nomes. Ela enviou uma carta para Europa onde o imperador Dom Pedro I, tratava da saúde.

“Papai, libertei os escravos, mas acho que vão depor a gente mesmo assim.” A inocência da princesa em achar serem os escravos independentes o suficiente (conhecimento intelectual, político, assalariado, escolaridade, saber o que fazer com a liberdade...) para reconhecerem a força da união e influenciarem na continuidade do imperialismo e ser inocente o bastante para pensar não serem os títulos, cargos e dinheiro donos dos rumos do país. Cheguei até aquele cruzamento pensando sobre estes fatos históricos durante a espera do verde no sinal de três tempos, recebi seis panfletos e um bem-humorado “enchemos você de papel, né?!” da última.

Calor infernal era eufemismo para aquele dia. Mas, eles se divertiam mesmo sendo mais um trabalho escravo. Mais um? Você me pergunta, claro! Como sinhorzinhos e escravos de nós mesmos ajudamos a criar os anúncios imperiais diários ignorando a história e a vida das pessoas ou apenas dando importância enquanto não aparece um fato novo para mudar o foco “do importante”... Opa! Estão tentando me vender água, ainda bem que o motorista de trás comprou.


Voltando, o que quero dizer é: somos escravos da tecnologia, da tentativa de ser eternamente jovens, agradáveis com padrões de beleza e aceitos por toda parte, por todo mundo só para acabarmos anunciando “Necessita-se de emoção urgente”, “Precisa-se de quem é capaz de se preocupar mais com os outros”, “Procura-se respeitar a si mesmo e tratar os outros de igual forma” e “Perdi a inocência. Quem achá-la, favor trazê-la com a receita da verdadeira liberdade e alguma forma de dar a mesma oportunidade para todos”. Vê? Não são os panfletos que nos enchem, somos nós que esvaziamos nossa alma e nos achamos cheios das coisas erradas.

3 comentários:

Bruno Belo disse...

Puxa vida!!!! Q aula de história fantástica......adorei o texto....meu carro tb se enche de panfletos todos os dias.....

Bruno Belo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Rafael Belo disse...

Valeu primo. Bom te ver por aqui :D