quarta-feira, agosto 03, 2016

Só cinzas (miniconto)



Estava vazio lá fora. A casa também não tinha nada e não deveria ter ninguém.  Os silêncios se cruzavam dentro, fora, tropeçavam uns nos outros em todas suas incontáveis formas. Dava vontade de tapar os ouvidos e sair correndo sem rumo, esquecer tudo, começar de novo... Ciana se sentia um pêndulo balançando em um ritmo irritante do sol do meio-dia para um eclipse total sem estrelas, do sol do meio-dia para um eclipse total sem estrelas, do sol do meio-dia para um eclipse total...

Ela sentia calor e frio, mas suas emoções estavam condenadas como esta casa. Se houvesse alguém na rua não perceberia nada. Parecia nova, bela e um ótimo lugar para morar, mas havia uma opressão por dentro, sabe? Como se caíssemos em buraco e uma pedra de 50 kg caísse também. Ficamos sustentando e pequenas pedras menores, menos pesadas, vão se acumulando em cima, até... Vamos cansando, porém, se nos entregarmos morremos... Está faltando o ar. Por que vim parar aqui?! Só há cinzas neste lugar agora.

Consigo ver cada móvel imóvel onde deveria estar... Ali... Qual o motivo de um espelho ter sobrevivido intacto a esta destruição? Só posso rir desta aparência, mas não vou quebrar este silêncio nem tocá-lo. Engraçado é ele não preencher este vazio e estar por toda parte. Quem sabe está com meu coração perdido e calado. É! Foi isso. Esta casa sou eu. Isso me atraiu até aqui. Não era o que eu esperava quando sai procurando sons e significados pela manhã muda. Serei eu surda?

Mais uma vez Ciana, mais uma vez... Não resisto a esta atração no horizonte. A este chamado para a vida. Escute, você não está surda... Nunca direi nada disso em voz alta. Vou continuar a evitar o inevitável e ficar olhando para fora. Há um lindo incêndio terminando no céu... Quem sabe eu queime e dê boas-vindas ao fim... Será possível existir doações de sentimentos? Será difícil sorrir? Não deve ser impossível morrer e nascer todo o dia como uma fênix cruzando o céu.

 Estou toda amassada. Sou um rascunho errado à mão e jogado no lixo. Hey! Talvez eu seja uma fagulha esquecida deste fim de dia, esta fênix da encruzilhada ou uma lâmpada queimada. Estou apagada. Vou sair pela janela e quem sabe mudar ou acender. Mas seu puder sentir... Que eu comece a sentir agora! Desculpem... Ciana foi engolida pelo silêncio que já havia devorado todos nós. Ela saiu em direção ao horizonte e olhou para trás tentando enxergar a casa... Então, finalmente tudo estava vazio. Só havia cinzas.

2 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom!!

Maria Belo disse...

Perfeito!