quarta-feira, novembro 30, 2016

Sem luz (miniconto)




por Rafael Belo

Cansada, Fabine se escondia naquela carcaça do tempo. Havia tantos muros ao seu redor que a luz não penetrava. Nem uma fresta sequer de iluminação chegava ali. Com os olhos dilatados, ela via vultos por toda parte porque só sombras habitavam naquele lugar tão particular dela. Foi quando Fabine quase perdeu o fôlego. Um estrondo ecoou tão forte que ela sentiu uma pancada no peito como se o próprio coração recebesse uma pancada inesperada após parar. Começou a respirar lentamente, mas agora sentia uma forte dor...

O que está acontecendo? Olho para todos os lados e não vejo nada. Eu esperava o quê? Não é este o objetivo do meu refúgio? Esconder estas fragilidades devastadoras em mim? Ah, Fabine é isso, Fabine é aquilo, Fabine tem tudo fácil, Fabine é uma fortaleza se espelhem nela, a imitem porque ela... Ah, ela não erra. Ela nem pisca ao tomar uma decisão... Sei! Estes bandos de lobos me devorariam em um instante se soubessem das minhas fragilidades e que eu pareço uma rapper falando de mim mesma na terceira pessoa.

Quem sou eu? Eu me tornei esta pessoa solitária, por quê? Onde eu estou? Aliás, onde é aqui? Minha alma foi vendida... Valeu o preço? Por acaso sou feliz? Para onde vou agora? Eu queria ser bem sucedida, mas não infeliz... Eu era tão feliz, não era? Tinha tantos sonhos... Eu realizei meus planos? Onde estão meus sonhos? Nunca parei para pensar sobre este lugar... Ai meu Deus! Este estrondo de novo...! Agora está mais perto. Qual o significa disso tudo? Agora dói mais ainda... Morrerei antes dos 40, igual meus heróis musicais... Não, só se for overdose de cafeína!!


Preciso sair daqui. Nossa! Não doeu nada pensar isso! Mas... Eu só posso ter desmaiado. Nunca vi luz por aqui. Onde estão meus muros? Sinto-me tão exposta... Será...? Foi tudo coisa da minha mente? Meu peito dói, minha cabeça dói... Alguém apague a luz, por favor. Estou sozinha, esqueci... Sou sozinha. Preciso interagir, mas vão pensar que enlouqueci. Sempre fria e distante. É mais fácil não se envolver com os funcionários da minha empresa... Vou procurar minha família, mas vai ser tão difícil pedir desculpas... Se eu me afastar... Bom, preciso tentar. Foi assustador ver a fragilidade da minha fortaleza sem luz.

terça-feira, novembro 29, 2016

Debaixo da quedá’gua



sorrisos rachados espalham rachaduras pela face
disfarce nossa frágil arte atrás dos muros da fortaleza
a solidão da certeza desta frieza na ilha vira salgada chuva

fragilidade de dois gumes do chão ao cume usa luvas

para não deixar má impressão todo mundo urra
após curva surpresa da vida insistir em resistir até o fim
e o ser humano volta a vestir a raposa e as uvas

no grande campo aberto não há cheiro discreto no jasmim
ai de mim se não chorar chuvas para a dor deixar de ser turva!

(às 12h53, Rafael Belo, terça-feira, 29 de novembro de 2016)

segunda-feira, novembro 28, 2016

Frágeis fortalezas



Por Rafael Belo

Amanhecemos levantando muros, tentando criar uma fortaleza por dia para mostrarmos estar bem o tempo todo. Queremos sorrir e mostrar que não importa, que nosso coração pode ser esquartejado e dado de comer aos cães diante de nossas risadas... Queremos ser resistente, resilientes, indiferentes fingindo que nada aconteceu, mas olha só a surpresa: aconteceu. Temos de nos encarar no espelho no fundo de nossos olhos e arrancar nosso mal costurado coração para encará-lo. Precisamos de coragem para enfrentar nosso eu obscuro, nosso erro surrado, espancado pelos nãos, pelas armadilhas e pelas curvas da vida.

Erguemos a cabeça ou a afundamos no chão, tomamos satisfação, tomamos na cara, tomamos vergonha, somos corajosos e destemidos repletos de pontos fortes, mas falar das nossas fraquezas também é necessário porque ninguém sabe mais de nós... Apenas nós mesmos nos conhecemos totalmente e ainda assim nos negamos três vezes antes do galo cantar, ou melhor, antes do celular despertar. Paramos o despertador ou vamos adiando levantar a cada cinco minutos, a cada dez minutos, até ser inevitável sair da cama e termos de levantar para nos juntas aos outros zumbis.

Nada acontece de um dia para o outro, mas temos o péssimo hábito de fingir não ver, de tentar evitar, de achar que vamos mudar com palavras o que ações não fizeram e ainda de última hora, por isso, saímos nos arrastando com o olhar vazio para um ponto qualquer reclamando de sermos donos, de sermos chefes, do chefe, dos colegas de trabalho, dos amigos, da família, dos pais, dos professores, da escola, dos filhos, dos vizinhos, bem... Reclamando da vida e das “injustiças” para continuar agindo da mesma maneira evitando cantar “o que é que eu sou?”, interpretada por Paula Toller e composta por Erasmo Carlos. A música questiona: “o que é que eu sou? Eu vim por quê? Pra onde vou? Onde é que eu tava? Onde é aqui? Quem me mandou? Qual é o nome da minha alma?”


Esta balada intimista termina afirmando que você não sabe, eu também não sei, somos o todo, feitos de nada... Porém, podemos assumir nossas fragilidades e derrubar esta falsa fortaleza comandada por um ditador morto. Assim descobriremos o todo no nada e o nada no todo. Se não o fizermos viveremos presos e acumulando veneno, nos matando lentamente, simplesmente porque estamos engolindo ressentimentos, raivas, momentos e frustrações deixando de resistir e insistir para apenas ir se deixando levar. Oras! Resistir é da nossa natureza, mas precisamos preparar a mente não para ser forte, mas para encarar as fraquezas, se fortalecer nelas e, finalmente, nos sentirmos confiantes e confortáveis com quem somos. Quem é você?

sexta-feira, novembro 25, 2016

Lá no fundo (miniconto)





por Rafael Belo

Ela estava cansada daquela corrida, mas não era por correr. Estava tão condicionada a ponto de poder continuar por dias na correria. Não. O problema era o calor insuportável. O cansaço não vinha e Melodia escorria. Sentia-se uma cachoeira após um ano de diário temporal. Lembrava as noites em claro encharcando as roupas e a cama sem nenhum motivo bom... Só o calor. Nem a temperatura do banho importava mais, antes de se vestir... Quando se vestia já precisava de um banho novo e este tempo perdido ela começaria a jogar fora onde quer que estivesse.

Chegava já. Melodia corria balançando resignada e negativamente a cabeça. O fazia com tanta força que mal percebeu quando jogou o celular longe, apenas para não ver as horas. Nem se deu conta quando o relógio cardíaco também marcador de tempo acabou pisoteado. Ela nunca tinha visto tantas pessoas disfarçadas de incontáveis profissões correndo na mesma direção que ela. Bastou perceber para parar de repente. Houve xingamentos, esbarrões e trombadas doloridas mesmo, além de uma estranha encarada silenciosa e inexpressiva que simplesmente se demorou ali até simplesmente desviar como se nunca tivesse acontecido.

Aquela festa a fantasia itinerante despertou Melodia. Ela franziu a testa e movimentou cada músculo facial quando se viu ali, ao contrário do fluxo. Lentamente tirou o olhar das pessoas e lentamente o levantou para o horizonte. Procurou um espaço que não havia e se derreteu diante da visão. Não tinha certeza se o dia acabava ou começava. Percebeu que fazia muito tempo desde sua perda da falta de noção de tempo. Sorriu quando pensou sobre os reflexos daquela pintura celeste aparecerem incompletos...


Começou correndo calmamente, trotando, mas logo estava – inexplicavelmente – usando toda força física e mental para manter as pernas em uma velocidade incrível, mas fantástico mesmo era as pessoas saírem da frente. Se neste momento houvesse uma visão aérea ainda não haveria espaços vazios, mas um corredor humano tinha parado e parava de criar várias versões viciadas do passado e este novo fluxo ainda se livrava do tempo quando Melodia chegou cantando em casa para se libertar de todo controle de hora em hora girando no que não fez/no que faria. Finalmente assumiu ser original lá no fundo e iria cavar este presente.


quinta-feira, novembro 24, 2016

passa por pressa



passa o coelho branco veloz um borrão santo arremessando o tempo
estamos atrasados correndo em quedas por buracos do avesso nos desfazendo
diante do adiante com os ponteiros loucamente girando a cada 11 números se atropelando em segundos supostamente idênticos
vamos nos manipulando na corrida maluca do pós-moderno não existindo no ciclo confusamente dântico
pânico do agora outrora outra vez se repetindo enquanto vamos indo na mesma direção

rompendo a situação na inversão de todos os sentidos nossos passos são o caminho

para onde vão nossos pés é o lugar do nosso instante hesitante em não se repetir
coelho branco sentado no banco deixando sozinha pressa partir
e o segundo neste eterno milésimo arde à tarde enquanto o sol pára para nos ver se pôr
então a noite falha em nos fazer dormir queremos nosso tempo de volta para acontecer aqui.


(às 15h, Rafael Belo, quinta, 24 de novembro de 2016)

quarta-feira, novembro 23, 2016

Desmemória (miniconto)




por Rafael Belo

Os tics-tacs pararam sem aviso. Aquele silêncio súbito perturbou o cotidiano plasticamente repetitivo. Isto quase parou o coração de Alira. Talvez tivesse parado e ela nem percebeu. Parecia um pesadelo que não conseguimos acordar e de repente acordarmos sentindo o quarto diminuir, a escuridão nos apertar e esfriar o quarto quente suado. Os sons se recusavam a ser repetições e, por qualquer razão, não seguiam... Ela conferiu a televisão, o microondas, o notebook, o celular, o relógio de pulso, a decoração de parede, mas teve medo de procurar a posição da lua.

Alira sentia que tudo recuava, se repetia como lembranças perdidas no Facebook há um ano, há cincos anos, há décadas, há tempos imemoriais...  Era um incômodo parecido com ser observado em filmes de suspense e terror, era um equivalente a um déjà vu sem fim aliado ao enigma da esfinge sem jamais ser solucionado, então a alma revivia o castigo de Prometeu. A ironia de uma grande águia devorar o fígado do titã amarrado a uma rocha pela eternidade que simplesmente crescia novamente no dia seguinte.

Ela via sombras dos passos. Eles eram os mesmos, mas... O visual vinha mais elaborado parecendo simples, mas tinha uma complexidade típica da manipulação, da ilusão do poder... Alira olhou para a lua. Era a super lua latejando no meio da noite. Ela sentia aquele pulsar devendo descontrair, porém, apenas contraia como uma dor que não passa, uma fibromialgia sem tratamento sequer para amenizar. Aquelas estrelas ofuscadas já inexistente, já mortas, ainda brilhavam em outros séculos da mesma forma.


Desesperada, Alira tentou insanamente voltar as horas em tudo que as informava. Como nada informava o tempo exato mais, não percebeu quanto tempo passava, mas todo o olhar dirigido a lua só reforçava a loucura dos erros não aprendidos serem repetitivamente repetidos e a corrupção histórica corromper a memória enquanto quem despertava desmaiava de exaustão. Alira acordou no silêncio percebeu a falta de batidas do próprio coração, não estava entendendo... Por que o tempo não passava? Ainda deitada, respirou fundo e preferiu voltar a dormir.

terça-feira, novembro 22, 2016

Atrasados



várias versões viciadas do passado transformam indignados em atropelados
escravos dos protestos digitais fotografados no meio da rua
sociais literalmente conectados a uma diferente lua

fases feitas de frases leigas escondidas no tempo ficam mudas

entrelinhas do movimento se perdendo no entretenimento dos bichos da revolução
dissolução de ditos reescritos em imagem e voz para a vontade de poucos parecer de todos nós
distorcer a realidade invertendo os pólos revelando o herói algoz

e a disfuncional família hoje ausente no mesmo ambiente ontem sai da trilha perdida
aturdida na sua posição confundindo direções frente é atrás

traz acua flutua insinua constrangimentos andando de costas
pensando seguir para outra hora encosta em um ilógico tempo na estante
quando atua mostra que se aposta no pódio do amanhã tem o passado por falta de agora o relógio adiante.


(às 23h42, Rafael Belo, 21 de novembro de 2016, segunda)

segunda-feira, novembro 21, 2016

Várias versões viciadas do passado



por Rafael Belo

Não sei por que achamos estar em algo chamado pós-modernidade se nem terminamos a modernidade ainda. Pensando bem, vivemos várias versões viciadas do passado contrariando nossa noção de presente. Estamos presos às nossas próprias sombras, a ideias que não funcionam mais, as maneiras tão usadas a estarem gastas, caquéticas repletas de todos os tipos de aranhas tecendo novas teias, ideais cristalizados entre o tempo dividido em horas afastando a humanidade dos valores inerentes a nós, chamados humanos, e deixando a razão alucinada ao meio de tanto disfarce e manipulação entrelinhas de uma nova roupagem de autoridade.

Há novas maneiras da velha forma de nos enganar, nos fazendo ainda mastigar o ontem, estamos indigestos de agora há pouco, ruminamos atitudes ultrapassadas e seguimos filmando o próprio filme da nossa vida em um Além da imaginação, o famoso Twilight zone criado em uma realidade paralela na qual deveríamos viver, mas morremos. Morremos cada momento revivido em tensões históricas, morremos a cada palavra rasgando quem somos, morremos a cada atitude vazia tomada como sicuta deixando um olhar vazio pendurado no horizonte e um sentimento de falta, de ausência.

Esta Era de aparências se expandiu para os três poderes e passou do limite ao chegar nas mídias digitais. É preciso trabalhar bem a imagem, encaixar bem as palavras, desenvolver textos e discursos incisivos e emotivos exatamente como grandes romances premiados encurtando o tempo para ler, apagando a reflexão de pensamentos profundos para rápidas passadas de olhos... Lemos as primeiras linhas, os títulos, os resumos e já somos mais um especialista em nada deixando a vida nos levar, os muros nos dividir e este incômodo nos separar com um ranço da areia movediça reeditada da Guerra Fria.


Somos um povo, uma comunidade, não fragmentos de tribos lutando pela mesma causa com nomes diferentes. Temos de defender uns aos outros, nossos direitos e deveres, não um poder transitório que a cada um de nós deve responder, ao qual elegemos e temos sim responsabilidade por ele. Somos os patrões deste lugar no qual estamos, somos vestígios dos humanos que poderíamos ser, que deveríamos ser... Não adianta ficarmos indignados, escrever horrores, refletir e não agir. Ficar sentado reclamando, revoltado com tudo, vestir a rebeldia sem calça e viver de causas errando os mesmos erros, passando a vida no passado é reforçar esta prisão que dizemos ser presente e liberdade.

sexta-feira, novembro 18, 2016

Para chorar e molhar (miniconto)




por Rafael Belo

Ruas vazias assombravam o coração cansado dela. Mas, a mente também estava em uma irritação que o machismo logo diria ser TPM... Não desconfiavam que o motivo do cansaço dela fosse justamente o machismo impregnado, principalmente, naqueles a se dizerem contrários. Naquele dia, Hariam já tinha distribuído tapas nas caras dos abusados e obrigada a ser grossa diante das grosserias... Não! Ela não queria se acostumar e não iria. Ela saia para se divertir, não estava procurando peças faltando porque não faltavam peças.

Coleciono desilusões, mas minhas esperanças incrivelmente, contrariadamente, se fortalecem porque não sou iludida. Não mais... Sei a quantidade de ilusões vivida pelos casais com medo de não encontrarem alguém, de não estarem sós nem por um segundo... Até há pouco eu pulava de um relacionamento para outro sem me conhecer mais. Acorrentava-me em um vicioso ciclo de carência, me anulava por migalhas vivendo vazia, vagando dentro de mim sem nenhum trilho porque tudo foi levado na calada da noite, enquanto eu dormia.

Tinha medo sim de ficar sozinha. Doía só de pensar, mas sempre tive amigos, família, todo o apoio e incentivo que meus relacionamentos “inexplicavelmente” não traziam nunca me davam... Eu me sentia um animal magro pastando sempre o mesmo pasto e em grupo só por comodismo, não havia conversa, não de verdade, era só uma busca por conforto, por reconhecimento, afinal, era um grupo de casais, mas acaba uma terapia do silêncio incômodo na velha ditadura do quintal do vizinho ser mais verde... Quantos absurdos minha mente pensava...


Não sou nada frágil. A fragilidade habita nestes acúmulos de plágios que aceitamos ser e o pior é plagiar quem fomos ontem. Fui tanto plágio de mim mesma que foi difícil achar minha origem, minha fonte... Não vou deixar de ser gentil pela carência dos outros. Vou continuar dando chances para mim mesma. Darei uma e outra e outra e mais outra... Até quando quiser que dê certo, com alguém realmente de valor e valores. Uma boa relação, uma relação boa... Quando tomei esta decisão senti respostas imediatas de agradecimento. A mente parecia acender um luminoso escrito gratidão e o coração batia em código Morse uma reverência. Eles é que ficavam mais confusos... Vou mudar o verso de “Lágrimas e chuva”, do Kid Abelha: a vida é sempre um risco, não tenho medo do perigo, lágrimas e chuva são para chorar e se molhar, vou me arriscar!

quinta-feira, novembro 17, 2016

Feitos



Autênticos alvos arrebatadores da razão de quem somos
donos de nós mesmos presos à beira do destino sem plágios nos contágios
hilários no imaginário diário do divino humano no cansado coração
somos todos flores dentro de um botão tentando ter toda proteção

em uma fração do tempo nossos aromas se misturam
ao arrastar das correntes da alma em libertação

sauna da primavera de todas as estações

sensações são secundárias quando não há faixa-etária para evitar sofrer
quem vai viver se no cotidiano escolhe todo dia morrer?

Colhidas flores colecionando amores para sobreviver um pouquinho de cada vez
sobram sabores saltando na explosão de cores para reviver o que a gente fez
absurdez de recolher a sanidade e estender a profundidade... Em escassez.


(às 09h15, Rafael Belo, 17 de novembro de 2016, quinta)

quarta-feira, novembro 16, 2016

Para amanhã (miniconto)




por Rafael Belo

Talvez barata tonta não girasse tanto tão desesperadamente, mas Ametie não sabia mais nada. Seu coração havia aberto fuga e ela estava parada procurando a mente... Esta também escapara. Um vazio frio invernara nela há algumas decepções. Desde então, ela “desistira” de encontrar o tal sapo encantado, mas bem entre aspas mesmo porque se o cara demonstrava um pouco mais de interesse, a esperança pegava fogo nela novamente e lá vinha mais uma cicatriz para a coleção. Agora ela simplesmente deitou na grama da melhor forma possível para observar a parte mais masculina dos casais.

Será ele gentil ou quer apenas esquentar a cama de vez em quando? Ele tem o mesmo receio de ficar sozinho mesmo lá no fundo do mais profundo esconderijo? Não deve estar tudo tão perfeito assim, deve? Onde está meu coração agora? Por que meu raciocínio não funciona e minhas reflexões nem tem tempo de ficar antes de ir embora? Meus pensamentos vêm e vão embora... Seria meu passado tão ruim, minhas escolhas tão erradas? Meu dedo é podre ou ando plagiando tantos falsos relacionamentos por aí? Preciso encontrar estas respostas, mas eu já as achei...

Continuo fugindo de mim mesma. Meus principais pedaços estão à frente. Quase posso enxergar onde estão... Minhas pernas já não me pertencem... Até forço o aparecer dos dentes, mas não é um sorriso... Não sei mais porque bebo tanto se no final não fica tudo bem... Meu coração contradiz minha mente, tudo se arrepende, mas e aí?! Isso não é viver?! Será... Não tive tempo para mim mesma. Sempre pulei de um relacionamento a outro para não ficar só, mas não sei se terminei algum deles em mim. Será esta a motivação da rebelião da mente e do coração?


Voltem! Minha ilusão ainda acorrenta minha alma e sozinha, continuo a ser um vazio infinito. Grito só aqui na minha mente para não chamar mais atenção... Minha mente vem calma com todas as lembranças que esqueço. Meu coração com todas as cicatrizes que não fecho e ainda reabro. Tenho que partir estas correntes... Preciso arrebentar este cabo me acumulando de nada, cegando minha jornada, me deixando aqui sem direção... Qual foi a última vez que fiquei assim? Sozinha resgatando quem fui porque não me permito pensar e sentir há tanto tempo... Como está lindo este pôr-do-sol com a tinta fresca respingando... Vou me embriagar com as meninas e deixar tudo isso para amanhã! Lá vêm elas!

terça-feira, novembro 15, 2016

Imaginárias ondas



a independência grita presa no peito de um jeito que o sujeito precisa libertar
vários vazios vazam escorrem espontaneamente espaços espremidos
em qualquer lugar
comuns contradições contrárias como corais corados fora do mar

ondas imaginárias trazem e levam relevam nossos plágios apagam nossas digitais

ficamos sem controle quando o ar nos envolve acusando cópias descaradas nos deixando sem respirar
inóspita vontade de não morar de namorar a ventania sair carregando quem quer se levar
pelos estágios de se revelar vazio de coisas cheias

cantar cantos cromados de sereias com crostas camadas de eu acumulados nas poeiras onde cavamos nossas profundidades
sem autoridade a fragilidade despedaça o coração repleto de falta de Amor próprio
impróprios para nós mesmos desatamos desertos desolados de delegacos de tempestades de areias
enterrados na superfície doem todas as partes do ócio de se entregar parar de arrastar as correntes da alma e se autoassombrar
contraímos os hinos do medo o risco de temer nos iludir partindo perdidas ilusões para tomarmos de hora em hora

quanto mais demora se distancia a chave da nossa gaiola e o Amor tão livre é reprise para ver se a gente se devora.


(Rafael Belo, às 02h06, terça, 15 de novembro de 2016)

segunda-feira, novembro 14, 2016

Plágios de nós mesmos





por Rafael Belo

Há uma carência dolorida nos olhos por aí. Pode ser somente sexo e mais um dia suportável, mais uma balada inabalável, um palpite variável, um rolê, uma hora aceitável, então, o tempo deixa de ser amigável. Começamos a plagiar nós mesmos. Voltamos a nossa adolescência como se tivéssemos saído dela platônicos e insatisfeitos, rebeldes e tão maduros... Prontos para continuar mergulhando no chão impermeável acreditando ser o próprio oceano profundo, mas dizemos por aqui ser a regra não se apegar, ser curtir a vida em público e pelos cantos invisíveis chorar.

É difícil definir tanta coisa, mas pensar no que sentimos não apresenta dificuldade, basta ter coragem de se arriscar, assumir a idade... Nosso problema é o medo de se magoar novamente, assumir envelhecer e achamos saber nossos desígnios nos perguntando até quando. A pergunta é a resposta. Enquanto perguntarmos quanto tempo precisamos sentir dor e sofrer, vamos continuar doloridos e sofridos porque transferimos a intensidade dos atos para as palavras e acorrentamos nossas almas, as fazendo escravas das repetições. Vivemos de ilusão.

Somos um ser vulnerável procurando em certo alguém aquilo dentro de nós. Somos cercados de toda a instabilidade criada para acreditarmos nesta fragilidade e com um quê da sádica necessidade de encontrar uma pessoa o tempo todo para nos sentirmos satisfeitos. Achamos-nos os eleitos para nos apossarmos da liberdade deste alguém. Plagiamos o machismo e o negamos, plagiamos o racismo e o negamos, plagiamos o preconceito e o negamos, plagiamos a surdez e a justificamos... Queremos ter alguém, não compartilhar. Simplesmente porque nos sentimos no direito de nos apropriar de uma pessoa para a controlarmos. Mas precisamos é de Amor.

Nenhum todo Amor do mundo basta para dois. O Amor é livre e se o outro só amar a sensação de ser amado não há construção, a estrutura rui e é necessário pousar em um lugar diferente. Só cresce quem está em liberdade, só volta quem tem a oportunidade de ir, só oferece quem tem o que doar... Se insistirmos em plantar em terras áridas onde não bate o sol, nem chove e mal sopra o vento, nada nascerá. Precisamos parar de nos plagiar e nem pensar em plagiar os outros para criarmos nosso espaço e tirarmos as correntes do nosso Amor.

sexta-feira, novembro 11, 2016

Olhar noturno (miniconto)




por Rafael Belo

O sobrenatural estava presente na noite. Era certo pela lua oval vermelha já tocando o horizonte e o vermelho sol saindo entre as árvores do outro lado. Havia uma neblina pairando. Fellinie Notche estava caída em uma poça de sangue aumentando vagarosamente. O pé esquerdo e todo o tornozelo estavam dilacerados. Eram visíveis ossos, tendões e articulações, mas ela permanecia encolhida e tensa sem demonstrar a terrível dor visível latejando naquela imagem. Murphy estava acordado aplicando sua lei pessoalmente para cada um.

Arcadia apareceu neste momento e quase atropelou Fellinie quando a viu. Cães perturbados mordiam o meio-fio, pneus, árvores e com certeza a matariam se Arcadia não tivesse jogado o carro pra cima dos animais já próximo de Fellinie. Mais adiante ainda era possível ver o carro desvairado responsável pelo acidente com fuga. Eram altas horas da madrugada como a lua indicava e quase o amanhecer como o sol desafiava. Nem os semáforos estavam abertos. Piscavam inconsequentes como os bêbados solitários parecidos com figurantes de Walking Dead.

Havia um gato em cada esquina parando para olhar o carro de Arcadia e do anônimo namorado dela. Eles olhavam nos olhos humanos com um misto de desconfiança e desafio. Nada funcionava, nem as clínicas 24 horas... Estava tudo indefinido e Fellinie ainda não havia dito nada, apenas olhava como... Como... Como uma gata abandonada... O casal tentando salvá-la estava entrando em desespero. Em um dia sem nada funcionar a sensação era de estar em um filme. Aquela aventura sem fim era como definir extremas direita e esquerda.... Não eram definidos porque não tinham definição. Estavam sentados na própria origem. Uma das coisas incríveis para se pensar eram as horas rodadas de carro sem o medidor de combustível se mover. Ele ainda indicava tanque cheio...


Fellinie testava corações de novembro. Era parente da deusa Bastet e poderia se curar quando se transformasse, mas fazia tanto tempo... Ela não recebia atenção e cuidados de ninguém, por isso, os olhos de gato dela refletiam expressando dor e receio. Ela tinha perdido todas as direções. Não esperava um atropelamento. O acidente a havia desnorteado. Tinha fobia de sentar em qualquer indicação de direita e esquerda. Sua direção era, óbvio, o equilíbrio. A qualquer momento ela acabaria com aquele inferno a anestesiando. Quando o carro parou diante de uma clínica, Fellinie mostrou também ser a própria noite e se transformou em um negro gato. Depois se curou e pelo gesto do casal os presenteou com o enxergar diante de qualquer escuridão.

quinta-feira, novembro 10, 2016

Ideologia dos lugares para sentar




todo trono tem desarticulado desvio do destrono
quem senta no desvairado dono do destino
sai carpindo carolamente correndo o inferno ao meio-dia
e não são os outros

a falta de pinos nos tinos atirados como tiros
pelos desatinos desafinados derrotados na rotatória de todas as direções
são insanas canções sãs ainda descobrindo dedicadamente dedos
de ritmos

arrítmicos arrebatando ameaçadoramente acrílicos corações
comendo camadas catalogadas em algum infinito
perdido nos limites físicos da visão

se fechar os olhos a historia dos provisórios preços pregados nas pálpebras
desconstrói destruições desoladas deixando de acreditar no nada

no alto do protótipo do estudo tudo depende de uma sentada.


(às 09h04, Rafael Belo, quinta, 10 de novembro de 2016)

quarta-feira, novembro 09, 2016

(C)Sem lados (miniconto)





por Rafael Belo


Não havia como correr. Anittie estava cercada pela direita e pela esquerda. À frente havia um muro altíssimo e às costas tantas pessoas sentadas em um minúsculo muro... Ela perdia o fôlego só de olhar. Estava sozinha bem ao/no Centro. No meio dos ecos, gritos e de todos os exageros vociferando a mesma coisa em línguas diferentes. As capitais são aldeias globais... As capitais são aldeias globais... Este era o mantra de Anittie simultâneo ao pensamento de as línguas serem a mesma, a diferença era na interpretação... Foi quando a empurraram do mundo dela.

Preciso levantar para não ser pisoteada. Já assisti reportagens terríveis e... Uma PEDRA! Sério mesmo, Brasil? Me jogaram uma pedra??!? Ótimo!! Sangue!! Tinha que ser na cabeça?! Bem na CABEÇA!!? Peraí gente!! Sou comunista ou coxinha?! Só estas duas opções?!! Oi?! Vermelho ou verde-amarelo? Posso falar sobre ignorância? E anteolhos? Oi?! Cominha?! Coxista?! Dividir tudo em dois ou dividir e conquistar? Posso sugerir somar? Hummm e começar tudo de novo? Quem disse não ter guerra no Brasil?! Quem?!!

Como dói minha cabeça. Estou ficando tonta? Você que já é seu estúpido!! Estão todos loucos?!! Doutrinação não, por favor! Já não proibiram isso nas escolas, etc e tal? Se afastem de mim AGORA!!! JÁ!! Não me toquem! Eu louca? Por discordar? É ? são oito ou 80? Ok. Concordo. Não tem meio-termo. Mas, não existem pontos em comum? Já falei tira a mão!! Bonitinha é o ....... Não quero ajuda dos meus carrascos. Não, não, não, nãonãonãonãonão... Há pessoas armadas em todos os lados... Por que não sentam ou trocam de lugar uma vez na vida?! Heim?! Por que?


Absurdo??? ABSURDO? Acha isso mesmo ou tem certeza? Vai mudar de assunto? Vai ignorar mesmo? Você são vigilantes preparados agora?! E estão fazendo... Pode ser chamado de qual nome... Justiça... Hum... Ah, o certo...! Sim, sim... O melhor para TODOS...  Sério?! Com as próprias mãos... Só penso uma coisa no momento. Pois é, realmente... Minha cabeça na suporta mais... Só uma por vez seu machista filho da.... Vou te ignorar e dizer mesmo assim. Quem está no poder sempre consegue manter estas divisões. Deve ser uma das inúmeras diversões deles, nos confundirem nas interpretações tão especificas das mesmas lutas. Queremos a liberdade dos nossos direitos! A polícia chegou! Qual povo o Governo vai defender? Qual povo será culpado desta vez? Quem é o povo?

terça-feira, novembro 08, 2016

Servir



esquerda direita centro meia volta vamos viajar
girando a roda da história sem sair do lugar
é o inferno de Dante atrás agora adiante
tudo feito é subir na esteira e continuar a andar

opostos se opondo se mantendo mais distantes no celular

no iPhone do trabalhador quantas prestações a pagar
vestindo Che Guevara sob o último Reebok a lançar
escravos modernos engomando termos alisando ternos
virtualizando vírus vorazes ao perfil atualizado badalar

mais uma balada no rolê do check in a política serve a quem governar
escolha um lado para sentar ideologia só serve se somar.



(Rafael Belo, às 00h03, terça, 08 de novembro de 2016)

segunda-feira, novembro 07, 2016

É o inferno!



por Rafael Belo
O lamaçal do ranço das sobras da Guerra Fria ainda me faz pensar não em um mundo múltiplo, mas ainda em algo polarizado. Ainda somos capitalistas e comunistas, liberais e sociais, democráticos e autoritários, egoístas e... Bem, estamos aqui cheios de etiquetas e marcas, tecnologia e distanciamento de profundidade... Basta ver que Dante Alighieri estava certo: “Os lugares mais sombrios do inferno estão reservado para aqueles que foram neutros em tempo de crise moral”.

A moral atual é sobreviver e somos obrigados a escolher um lado para mesmo assim continuar em crise moral. É o inferno onde estamos do nosso lado constantemente porque não há lados. Há a necessidade de analisar todos os fatos possíveis para tentarmos entender a moral da história e o problema mora justamente aí: na História. Se vamos falar de lados opostos, mas que não deveriam se opor bem-vindo à França. Hoje, o país possui dois partidos: do movimento e da ordem.

Obviamente diríamos que ordem é direita e movimento é esquerda. Na concepção engessada intolerante atual – ou seria a de sempre? – haveria opiniões de direita e esquerda se sobrepondo, substituindo, aniquilando a visão de certo e errado. Você escolhe um lado e o outro é o inimigo. Na Revolução Francesa em 1789, os membros da Assembleia Nacional, se dividiam entre quem concordava com o imperador Napoleão Bonaparte e quem discordava. Os à favor do rei sentavam à direta e os simpatizantes a revolução à esquerda. Os supostos de direita não queriam a disposição das cadeiras porque acreditavam sim no apoio a interesses particulares ou gerais pelos deputados, mas não em facções e partidos políticos.

Passados dois anos a Assembleia Nacional foi substituída pela Assembleia Legislativa totalmente renovada, mas as divisões continuavam com “inovadores à esquerda”, “moderados” ao centro e “defensores da consciência da Constituição” à direta. Mais dois anos se passaram e um golpe de Estado mudou a dança das cadeiras. Ninguém sentava mais do lado direito porque os Girondinos estavam presos e quem sobrou foi para o centro. Um ano depois, no 9 do Termidor, marcado pelo fim do regime do Terror onde o próprio Robiespierre e seus seguidores foram decapitados como fizeram com o Rei Luís XVI, a extrema esquerda foi totalmente excluída e o método das cadeiras também foi definitivamente encerrado.

Robiespierre foi o último de cerca de 40 mil pessoas vítimas deste regime, literalmente eles perderam a cabeça, a ideologia original foi distorcida. Em 1814-1815, o “definitivamente” perdeu o sentido. Mas até antes de 1871, início da Terceira República, nunca havia sido usado para definir ideologias, eram a localização das cadeiras do Legislativo. Com a nova República, os partidos passaram a adotar os termos e no século XX, os termos Direita e Esquerda passaram a representar ideologias específicas. Em 1914, os partidos chamados de esquerda se sentavam à direita. Marx diz em seu Manifesto do Partido Comunista:


"classe média - pequenos comerciantes, pequenos fabricantes, artesãos, camponeses - combatem a burguesia porque esta compromete sua existência como classes médias. Não são, pois, revolucionárias, mas conservadoras; mais ainda, reacionárias, pois pretendem fazer girar para trás a roda da história." Para girar para trás é preciso seguir em frente e faz tempo que pegadas solitárias brilham adiante como um visão do horizonte onde estamos parados no inferno criado por nós.

sexta-feira, novembro 04, 2016

Amnésia de futuro (miniconto)




por Rafael Belo

Nada passava na cabeça. Mentira! O vento ecoava lá dentro. Ruídos de sopros de vidas aprisionados no estreito corredor de uma casa abandonada. Os lábios se espremem parecendo um, os olhos apertam, a mão côa a testa sem coceira, esfrega o couro cabeludo e é tudo. Arila morde o interior das bochechas e dos lábios. Olha para os lados tentando não enxergar ninguém. Ri de nervoso. Quase derrubou o garçom quando este tocou com a mão fria o ombro esquerdo dela. Está ansiosa e assustada, mas não consegue pensar em nada.

Não consigo assimilar tanta gente falando. Estou me irritando não com a conversa, mas com a minha covardia de não falar. Este meu silêncio angustiado parece um parto disfarçado, um aborto ao avesso... Sinto-me perdida e este sorriso nervoso pintando no meu rosto, só atrapalha. Não é um não assimilar nada... É mais uma entrada em um espaço capaz de ecos e repetecos, mas agora só ouço forte minha respiração como uma ventilação exagerada nesta palestra tumultuada.

Por que vim para esta palestra? Ah, lá vem. Gaguejei, mas perguntei. Qual a profundidade desta discussão? Não era minha pergunta... Só foi tudo o conseguido nos meus pensamentos embaralhados. Não consegui puxar lembranças claras... Puxo as gavetas armazenadas nos corredores do meu cérebro como antigos cleros de inquisições... Estão vazias ou só é assim o meu enxergar? Não ligo um ponto ao outro e não faço mais passar pelo agora para chegar ao depois... Estou com amnésia de futuro.

É! Não formo na minha mente o porvir. Não antecipo mais nem planejo coisa nenhuma. Esqueci como será o será... Não durmo além de poucas horas há um ano agora. Estou sem noção de tempo. Estou fugindo de mim. Não dormir mata meus neurônios e deve desconectar as sinapses... Sinto-me estas operadoras enganando a gente, deixando a conexão lenta e a derrubando de tempo em tempo... Não consigo refletir... Preciso mesmo dormir... Preciso me reconectar com os outros, mas por enquanto não me reconecto comigo... Por que chove na minha mente em uma densa neblina mais branca que o próprio branco? Acho... Nunca usei este palavra! Estou me apagando. Estou com amnésia de mim.

quinta-feira, novembro 03, 2016

Voando longe



Atropelam as horas os estatelados olhos da insônia
cerimônia de tentar teatralmente temperar tempestades mentais
tramam timidamente twittar o manifestar das ideias presas ao entretenimento machucando a goela
a língua se rebela revela o preenchimento do vazio

cultua o rio sua fluidez arrebenta correntes matando a serpente com a própria correnteza
cultura calada cavando camadas nos arrepios da pele onde habita a real esperteza

experimentada na previsão de chegada de cada turbulência improvisada pelo coração
um comichão percorre a sola do pé até o fim do cabelo
apelo para a única certeza ser a cor da pureza contaminada de ser você

aprisionada liberdade engaiolada fora de todas as asas voando longe da mente para não morrer.


(às 03h04, Rafael Belo, quinta, 03 de novembro de 2016)

quarta-feira, novembro 02, 2016

Misturando massas (miniconto)




Por Rafael Belo

Era ensurdecedor onde Dorapan estava. Não se entendia nada do som. Não era possível distinguir nada do barulho enlouquecedor vindo das ruas, então, tanto fazia se havia vocal, guita, baixo, teclado, batera, pessoas a espremendo ao redor... Ela continuaria fingindo conversar, disfarçando prestar atenção enquanto tentava manter o sorriso, queria a anestesia social todo dia depois do trabalho escravo, vivia da interação superficial do esquecimento no amanhã. Não queria pensar. Iria beber até cair e esquecer como chegou à própria cama.

Parece... Parece tudo estar indo mais lento. O que está acontecendo? Esta anarquia dissonante fez sentido. Espera. Preciso parar. Estou percebendo... O sentido está claro e latente, mas não é o pior... Quase ninguém quer ver além do entretenimento... Estão se desfazendo em uma massa de desentendimentos, mas o corpo continua embalando a alma, ninando a mente adormecendo a evolução humana... Mas, por que estou filosofando na balada?

O pior era sempre estar ali a crítica, o sentimento... Sempre fez sentido. Mas... Mas... Ninguém escuta nada e muitas pessoas se comportam como taradas assexuadas tentando beijar na boca, na minha boca... Quero me divertir não me preocupar com outra pessoa. Também quero parar de pensar. Onde aperta o botão de desligar pensamentos?  Não quero ouvir, não quero pensar... Droga! Eu fingia simplesmente não haver nada para refletir!


Esta é minha pílula de Lewis Carroll. Eu sou Alice...! Ou... Ou eu sou Neo na minha própria Matrix? Melhor, sou Case de William Gibson em Neuromancer. Sou uma mistura distópica de fantasia, atualidade, premonição e ficção científica. Somos condutores e pedaços de plásticos ao mesmo tempo esperando sermos enganados para viver em uma utopia disfarçada de realidade global porque, juntando os canais, há mais partes daquilo não dito... Todos aqui também tiveram asas? Alados... Finados fadados diariamente na maior negação em apenas existir. Vou ficar na bobeira de só me misturar.