sexta-feira, novembro 04, 2016

Amnésia de futuro (miniconto)




por Rafael Belo

Nada passava na cabeça. Mentira! O vento ecoava lá dentro. Ruídos de sopros de vidas aprisionados no estreito corredor de uma casa abandonada. Os lábios se espremem parecendo um, os olhos apertam, a mão côa a testa sem coceira, esfrega o couro cabeludo e é tudo. Arila morde o interior das bochechas e dos lábios. Olha para os lados tentando não enxergar ninguém. Ri de nervoso. Quase derrubou o garçom quando este tocou com a mão fria o ombro esquerdo dela. Está ansiosa e assustada, mas não consegue pensar em nada.

Não consigo assimilar tanta gente falando. Estou me irritando não com a conversa, mas com a minha covardia de não falar. Este meu silêncio angustiado parece um parto disfarçado, um aborto ao avesso... Sinto-me perdida e este sorriso nervoso pintando no meu rosto, só atrapalha. Não é um não assimilar nada... É mais uma entrada em um espaço capaz de ecos e repetecos, mas agora só ouço forte minha respiração como uma ventilação exagerada nesta palestra tumultuada.

Por que vim para esta palestra? Ah, lá vem. Gaguejei, mas perguntei. Qual a profundidade desta discussão? Não era minha pergunta... Só foi tudo o conseguido nos meus pensamentos embaralhados. Não consegui puxar lembranças claras... Puxo as gavetas armazenadas nos corredores do meu cérebro como antigos cleros de inquisições... Estão vazias ou só é assim o meu enxergar? Não ligo um ponto ao outro e não faço mais passar pelo agora para chegar ao depois... Estou com amnésia de futuro.

É! Não formo na minha mente o porvir. Não antecipo mais nem planejo coisa nenhuma. Esqueci como será o será... Não durmo além de poucas horas há um ano agora. Estou sem noção de tempo. Estou fugindo de mim. Não dormir mata meus neurônios e deve desconectar as sinapses... Sinto-me estas operadoras enganando a gente, deixando a conexão lenta e a derrubando de tempo em tempo... Não consigo refletir... Preciso mesmo dormir... Preciso me reconectar com os outros, mas por enquanto não me reconecto comigo... Por que chove na minha mente em uma densa neblina mais branca que o próprio branco? Acho... Nunca usei este palavra! Estou me apagando. Estou com amnésia de mim.

Um comentário:

Maria Belo disse...

Belo texto!tb não gosto da palavra ACHO!