sexta-feira, dezembro 09, 2016

Dominação total (miniconto)




por Rafael Belo

A cidade toda acumulava mortalhas. Era uma forma de lembrar não só obviamente seus mortos, mas o peso jogado na vida. Os verdadeiros donos da situação eram ovelhas deficientes deformadas pelos absurdos cometidos livremente pelos seus representantes, estes seriam um bando de porcos orwellianos, mas George Orwell soltaria seus bichos revoltados sobre nós se fizéssemos tal comparação. Então, naquela manhã uma mortalha diferente foi proposta e aprovada por unanimidade com a presença da população. Havia tanto cansaço nos enganados que os enganadores já não tinham mais vergonha.

As mortalhas não vestiriam mais os corpos reprimidos a partir daquele momento. Todos usariam mortalhas adaptadas e a primeira tinha obrigatoriedade imediata de utilização. Funcionários terceirizados já estavam à postos com vendas de pressão feitas de malha de aço medieval. Era como vestir fibras de aço nos olhos e só quem era responsável por vesti-las nos cidadãos sabia a combinação para retirá-las. Sem nem ver o que os atingia o mundo já era tingido de escuridão novamente. Ninguém mais saberia dizer como era a própria imagem.

Aquele peso no olhar esvaziou as ruas. Apenas os porcos, digo, os representantes daqueles cidadãos eram vistos e viam. Claro, que até aquele momento fatídico, todos cometiam suas pequenas corrupções nem que fosse para chegar mais rápido no sinal fechado... Mas, as privações nunca haviam afetado tão diretamente um órgão humano. Estavam todos depressivos e não saiam de casa. Não havia sequer vontade de levantar da cama. O assalto descarado da cidadania era a violenta consequência de várias ausências daquelas pessoas.


Ver apenas a escuridão se tornou um costume como a depressão. As notícias adulteradas tinham o cuidado de chegar ao mundo sem falar da política, sem se vangloriar de nada, mas havia palavras cifradas incitando todos os demais a tramar as privações dos sentidos da sociedade. Em pouco tempo, as mortalhas se espalharam como praga. Não era mais uma cidade cega, agora havia cidades surdas, cidades mudas, cidades inodoras, cidades paraplégicas, cidades tetraplégicas e todo o povo que se achava esperto, malandro, desapareceu. O plano dos enganadores era expandir aquele negócio lucrativo primeiro para países próximos e, então... Bem a ganância sempre quer dominação total com uma vista tranquila para fingir sossego.

Um comentário:

Maria Belo disse...

Muito bom o texto....retrata bem o momento!