quarta-feira, março 01, 2017

Bina, a Colombina (miniconto)



por Rafael Belo

Mais uma vez estou aqui. Mas, desta vez é pior. É carnaval. Não gosto nem devia estar aqui. Estou mais velha. Não gosto de multidão. Aperto, aglomeração... Também não tenho coragem de dizer o quanto penso em sexo e o quanto acho chata estas pessoas sem idade acima dos 18 até aquelas com mais de 40. Nossa! É um vazio nada atraente. Já não sinto mais atração pela beleza padrão de um corpo, de um rosto... Estou recolhendo minhas cinzas faz tempo. O pior é chamar Colombina. Obrigado pai, valeu mesmo mãe. Ninguém sabe meu nome. Todos me chamam de Bina e eu nunca explico o motivo nem origem.

Meus amigos de escola, de faculdade já não estão mais próximos e não fazem questão de me envergonhar quando nos encontramos. Só eles ouviam todo meu nome. Hoje estou com outros amigos. Vim pelo erro da insistência. Olho para todas estas fantasias e duvido serem só fantasias... Eu aqui sorrindo misteriosamente pareço um atrativo para todos os gostos e só estou sorrindo para minhas descobertas de mim ou seriam revelações? Só posso fazer divagações dos meus Pierros e Arlequins quantos troquei, quantas vezes fui trocada... Ainda estou tentando estar no agora. Matar este passado me matando aos poucos de hora em hora...

Se for ler minha história colocarei em dúvida quantas realizações são realmente minhas, são reais... Dói não me deixar sentir dor, não liberar a raiva, não soltar a mágoa presa neste meu rosto pintado. Sou uma palhaça porque riem quando sou honesta e sincera. É minha ligeira amargura das falsas inocências cavando buracos para si mesmas por aí. Preciso desesperadamente de profundidade para manter o pouco de sanidade aqui, fugindo da minha cabeça ainda insistindo em perguntar para onde vou agora, quando preciso saber onde estou... Minhas perspectivas, minhas expectativas me sufocam por aí e eu fingindo respirar bem.


Estou respirando com ajuda de aparelhos. Muletas sociais substituindo minhas reais vontades, meus anseios verdadeiros... Como meus pais eram os pais deles, sou órfã e como meus pais. Sou minha mãe, sou meu pai... Não uma mistura dos dois. Eu sou meus pais. Sou os dois. Mas, nego se disserem eu ter dito isso. Ainda assim, ainda assim... Ainda assim preciso admitir eu ser a culpada de mim. Eu sou o remoer dos meus erros e o exagero dos meus acertos, mas um espelho no qual não quero ver os reflexo feitos por mim. Eu sou O Carnaval. Não! Eu estou um Carnaval. Não posso ser só isto. Esta festa da carne feita para esquecer os pensamentos, os sentimentos, os arrependimentos, liberar os desejos e se divertir. Vou adotar a diversão. Vou dar um perdido fácil nestes meus amigos e depois vejo até onde vão a brincadeiras e suposições. Agora vou. Sou Bina, a Colombina.

Um comentário:

Maria Belo disse...

"Vou adotar a diversão" muito bom!