segunda-feira, abril 10, 2017

Sobre ainda ser manada



Por Rafael Belo

Demorou para eu enxergar o outro como outro. Mesmo sem saber, este sempre foi uma extensão de mim, de cada um de nós. Tantos os considerados positivo ao dito negativo eram reflexos dos meus pensamentos, dos meus ideais, das minhas expectativas, sabemos disso, mas superficialmente e preferimos ignorar. É fácil ler o discurso de aceitação geral e agir totalmente diferente. Fazemos isso. Não negue. Basta ler os posts, os comentários, o compartilhar por aí e depois conversar com as pessoas. Vivemos em negação.  Não perdoamos, não seguimos em frente. Guardamos para nós. Somos falsos cristãos, falsos moralistas, falsos crentes... Usamos nossas virtudes para julgar o outro. Seguimos corretos no trânsito e vamos crucificando o errado desejando a punição deste, mas não porque é lei, porque é justo, mas para exaltarmos nossa retidão.

Quanta petulância a nossa achar sermos o conserto do mundo se não nos descobrimos quebrados, apontando o dedo disfarçando como comparação. Falamos dos “defeitos” e para compensar enumeramos “qualidades”. Armazenamos a raiva e qualquer poeira pode ser a gota d’água. Divergências viram guerras e vivemos uma falsa liberdade... Escrevi tanto falso aqui... Mas é por aí. Nós falsificamos nossa realidade, pirateamos todo o nosso redor e somos tendenciosos aos nossos interesses. Só podemos ser menos invejosos, chegar a quase sabedoria, reduzir o orgulho, zerar a luxúria quando pararmos os joguinhos.

Vivemos jogando com nós mesmos partidas intermináveis onde todos perdem. Sustentar falsificações, piratarias e tendências causam exaustão, perda de memória, solidão... Tornamo-nos carentes e desconfiados colecionando um desperdício recorde de oportunidades, chances de recomeçar ou terminar o jogo. Estamos de patins correndo na esteira. Estamos mortos... Vivemos paranóicos ou em um estou nem aí forçado vazios nos relacionamentos e também quando em nenhum. Solteiros esbanjando o quanto é bom ser solteiro? Sério? Namorados exaltando a perfeição da vida a dois? Casados mostrando a superação diária em dupla dos desafios do mundo? Pode isso produção? Queremos um aval, uma comparação para dizer: há pessoas, há casais, há casados piores por aí...

Condescendentes ao extremo e orgulhosos nos detalhes vamos vaidosos vendo notícias – implícita ou explicitamente – nos incitar a cegueira do olho por olho, mas não pela informação em si, mas porque não podemos permitir ninguém impune. Onde está a sinceridade e a honestidade puras, distantes dessas buscando audiência, aceitação, seguidores, adoradores...? Cansei de quem não sai do muro, de quem fica na dúvida e de quem não arrisca... Ando com preguiça de quem não se entrega, de quem não está presente, de quem não demonstra interesse nem intensidade e de quem não respeita o outro. Vale à pena a aceitação e descoberta de si, a liberdade do outro e a autenticidade de cada um. Todo o resto é ainda ser manada.

Um comentário:

Maria Belo disse...

.....ando com preguiça de quem não se entrega! Muito bom!