segunda-feira, maio 01, 2017

Profetas da antecipação



por Rafael Belo

Há um jogo diário sem vencedores onde obviamente todos saem perdedores de cada partida. Colecionadores de corpos e vazios olhando sem foco para frente, esperando uma mensagem, esperando chegar um whatsapp... Há muita verdade em fazer as coisas com liberdade, sem compromisso e se apaixonar por quem faz estas coisas contigo. As comédias românticas nos mostram este óbvio e não vejo erro nisso. Errados somos nós nos omitindo, mentindo, manipulando a verdade sendo evasivos, evitando dizer a própria vontade e os reais pensamentos.  Este jogo de paciência é pura aparência sem graça focado na tal da experimentação. É impossível experimentar de tudo e todos.

Podemos tentar, mas por quanto tempo? Vamos elaborando vários planos caso o principal não dê certo e, às vezes, torcemos para dar errado porque aparentemente estamos mais interessados em um dos outros planos. Mas, esta coleção de crushs é desgastante e também se desgasta. São pessoas aptas a arriscar, mas nem sempre prolongar os riscos. Parece ser o risco maior se apegar, se apaixonar... Mas sem se apegar e se apaixonar nos resta... Nada! Nada além de uma falsa sensação de controle. Os relacionamentos começam e terminam com os controladores descontrolados, com arrogantes humildes humilhados, com herois vitimas bandidos, com quem não se machuca ferido, egos estourados e um monte de trapo fingindo força. É isso?

Assim é fácil acabar descrente, radical... Esvaziar, desconstruir o Amor e o transformar e moeda de barganha... Uma hora ou outra, precisamos sim de uma pessoa muito próxima para nos mantermos inteiros como nascemos. Sem isso vamos despedaçando o coração e espalhando ele para o primeiro carinho, a primeira atenção, o primeiro elogio, àquelas máscaras de ceras de Gepeto... Somos feitos de poeira e infelizes como jogar o peso da felicidade no outro? Qual tipo de louco nós somos?  Não dos melhores. Parecemos bonzinhos, mas somos sadomasoquistas, ativistas de socar pontas de facas, bater a cara no muro e cutucar cada ferida até virar infecção.


Exaltamos nossa solidão, mas temos medo de ficar sozinhos e vamos sugando uns aos outros esvaziando a alma soltando os pedaços costurados do coração porque também temos medo de nos machucar, de dar errado... Como somos medrosos e profetas da antecipação. Vampiros da expectativa... Para onde vamos com tanto medo e desconfiança? Para o lugar onde não queremos: a dor e abandono. Ainda assim falamos com orgulho de nossa independência, das vantagens de não ter ninguém a quem responder. Mas quando surge alguém arrebatando quem somos, realmente abandonamos todas estas nossas defesas e desculpas ou seguimos lutando e fingindo ser muito bom acordar sem ninguém sequer para desejar bom dia?

Um comentário:

Maria Belo disse...

....exaltamos nossa solidão , mas temos medo de ficar sozinho!... Verdadeiro# solidão...dificil ficar só!