sexta-feira, junho 04, 2010

O tempo não foi mais naquele lugar

8 subindo a torre do tempo, os sinos badalam e tudo retumba um ressoar de parada... captei subindo a Torre do Sinos em Ribes City



Por Rafael Belo

Os ponteiros estavam parados às três e meia da manhã e todo aquele lugar os imitava. A chuva embevecia com os ventos arrastando folhas secas e os galhos verdes uns nos outros. Fazia anos e os anos não faziam diferença. Não faziam nada. Nem sequer passavam mais. Estava tudo vermelho tenso no céu e as gotas d’água pairavam no ar em uma gravidade inversa. Havia uma pausa lenta entre o acontecer e o acontecido. Estávamos todos adormecidos há tempos.

Naquela hora marcada, todos abriram os olhos há meses pela última vez. Centenas de corpos ressoavam um sono pesado ressonado em um tempo nunca perdido. Ninguém sabia estar em sonhos coletivos de uma telepatia desperta. Algo teria de estar desperto. Um sentido mais avançado no cérebro primitivo trabalhava. Todos aqueles minutos travados exatos em todos os marcadores da passagem do sol revelaram o mal mascarado de tantos sentimentos em tantas incertezas e indefinições.

Seria para sempre este dilúvio de inconsciência inundando o mundo? A consciência estava cansada demais e acabou dormindo no tempo com o bom senso. Foi mais... Foi um apagão incontrolável a revelar o verdadeiro rumor ensurdecedor e acima de quaisquer decibéis permitidos: a fúria do silêncio. Era um sepulcro ritmado pela respiração inconstante na sinfonia dissonante a tomar conta de um mundo de exceções aonde às regras são faltas.

Haveria o despertar coletivo com o som dos olhos se abrindo e piscando e piscando e piscando... Haveria a mesmice física pela parada do tempo e espaço. Mas, o trabalho da mente pela limpeza de tantas artérias entupidas de pensamentos, de tantas almas enroscadas na tubulação do coração carregado de confusão e reversão de prioridades seriam as reais horas. Por enquanto os ponteiros continuavam parados às três e meia da manhã e como imitações de todo lugar. Embevecia a chuva com o arrastar das folhas secas pelos enquanto os verdes galhos verdes se roçavam. Anos faziam e não fazia diferença os anos. Nada faziam. Sequer... Mais passavam.

4 comentários:

La Sorcière disse...

...a fúria do silêncio...
Bateu fundo, tem um silêncio me devorando bem agora...

Rafael Belo disse...

os silêncios se alimentam de nós e quando falamos eles exigem um tempo entre as palavras... Ou a fúria vai sobre nós rs... bj Lelezinha

Naty Araújo disse...

Esse foi profundo mesmo...
E o relógio ali, parado, mas os ponteiros se movimentando rapidamente e uns deixando o tempo passar.

Forte... A imagem tá magnífica!
Beijos, Belo.

Rafael Belo disse...

QUe bom que viu rsrsrs obrigado Naty bjs