domingo, junho 30, 2019

Vaga (miniconto)







por Rafael Belo

Eu não tinha mais cor. Apesar de ser vista era invisível. Não tinha a cor preta porque eu não sou ausente de cor. Não tinha a cor branca porque eu não sou concentração de cores. Vagava atropelada pelo tempo sem qualquer entendimento de mim mesma. Minha consciência ainda vaga e parece que tudo de ruim tenta ocupar o espaço dela. Eu confundo passado, presente e futuro.

Nem sou idosa, ou nem tão idosa assim ou sou? Ninguém me reconhece mais. Eu não sou meu lar e, portanto, não tenho lar nenhum… Estou sem voz também. Lá fora venta tão forte, mas a chuva é fraca. É possível um desejo ser material? Digo pessoal? Quer dizer uma pessoa como eu? Por que eu sou uma pessoa. Agora a indefinição continua… Qual pessoa eu sou?

Às vezes me lembro das coisas… Aí esqueço logo sem nem tempo de entender. Estou vestida de Tristeza… Quando começo a me despir toda... Nua, é exatamente onde as pessoas trombam em mim. Batidas distraídas movidas pelo silêncio e o celular. Aliás, eu tinha um. Tinha uma vida digital ou eu destinha? Eu era alguém ou ninguém consegue ser alguém e todo mundo é sempre ninguém?! Uma multidão de rostos desconfigurados…

Afetados por alguma raiva guardada tingida de algum rancor alimentado em cárcere privado. Um cativeiro que só o sequestrador pode saber a localização real. Agora percebi que talvez eu seja apenas mais uma inteligência artificial aprendendo toda vez que me ligam como se fosse recém-nascida… Se for assim, eu consigo descobrir a maneira de me desligar ou só seria reiniciada? Já tentei isso antes?

quarta-feira, junho 26, 2019

Continua







Na janela do impulso uma barreira
o vento sopra ao contrário forçando para dentro
Nenhum movimento faltam batimentos
talvez tristeza seja uma veste encharcada

Secando ali ao invés de olhar para baixo
chama o horizonte os olhos
para por princípios o pôr-do-sol

toda luz descolorida embranquece
aquece com cor contraste

ali na beira do empate entre morte e vida o dia termina e mais uma pessoa continua.

+às 13h14, Rafael Belo, terça-feira, 25 de junho de 2019, Campo Grande-MS+

segunda-feira, junho 24, 2019

Descontrole diário






por Rafael Belo
O ar está seco, o clima está desértico e nós não escutamos nossos instintos. Os sinais são evidentes. Os acidentes acontecem mesmo com a maior prevenção do mundo. Não controlamos tudo. Aliás, não controlamos nada. No máximo damos nosso melhor e seguimos confiantes e positivos. Não adianta tentar imaginar o pensamento nem o sentimento do outro. Temos um código muito bom para isso… Conversa, diálogo, ouvir… Enfim, se relacionar. Para nosso bem-estar sorrir é preciso que o do outro sorria também.

Sem sorrir a vida descolore e abre portas para pensamentos ruins, para sentimentos ruins… O orgulho mata. A infelicidade infecciona e leva a alma antes de levar o corpo. Depois se espalha deteriorando os sentidos próprios e construídos até apodrecer e nos abandonar em um quarto sem luz, ar, nem nenhuma janela e porta… Seria assim uma vida sem alma? Talvez seja a morte na carne mesmo… Nós morremos de tantas formas por confundir desejar com dialogar, por misturar vontade com obrigação… Nem levamos em conta a dor do outro e isso é crônico porque não admitimos nossos erros, só queremos justificar.

É um suicídio constante, uma dor lancinante, sabe? Aquela que lateja e nos empurra para um abismo que na verdade é um buraco negro no peito. Queima. É triste. A ordem natural das coisas está perdida. Ordem e natural viraram termos caros e pejorativos… E até ofensa. Como a velha história de não se meter na vida alheia. Se meta sim. Se for para salvar um vida e a sanidade mental de todos, se meta. É praticamente uma obrigação se meter nestes casos. Nosso bem mais precioso é a vida, mas jamais devemos julgar a dor do outro ou ainda a distração de amigos e familiares. Estes tempos são distorcidos. As atenções estão gastas e indiferentes. Só há exigências...

E exigir é muito desgastante. Arrumar desculpas é muito desgastantes. Justificativas são muito desgastantes... Não estamos saudáveis! Não importa nossos exercícios, nossas insónias nem nossa alimentação. Está tudo na nossa mente. Assim, mais uma vez muitas coisas morrem dentro da gente, inclusive alguns eus atordoados pelos acontecimentos. Mas todo este cemitério adubando o peito, transformando o coração, acelerando a mente é necessário. O porquê pode ser simples: Quando não vamos passo a passo, tudo acontece de uma vez. Não atropele seu tempo, você pode ser atropelado e ficar sem tempo algum.

quinta-feira, junho 13, 2019

desdons







Há obstáculos no caminho
nossos corpos estendidos
nossas mentes desentendidas
fugas consecutivas em martírio

somos nosso próprio inimigo
em busca da razão perdida
aturdida metida pelos atos dos pés pelas mãos

as boas intenções são insuficientes
quando vejo uma luz apagada e sigo

ambíguo entre carne e espírito visto um ninguém que não sou
fugindo de escuridão em escuridão enquanto a Luz própria eu sou .

+às 10h36, Rafael Belo, 13 de junho de 2019, quinta-feira, Campo Grande-MS.+

terça-feira, junho 11, 2019

Não fuja







por Rafael Belo
Ser forte o tempo todo é a maior fakenews já criada. Não chorar escondido ou, aparentemente, sem motivo é ignorar totalmente as crises vividas ao redor. Há muitas dores para serem choradas, inclusive, a própria. Não somos deuses ou semideuses para carregar o mundo nas costas nem outras vidas. Também não somos escolhidos, fazemos nossas escolhas e ponto. Afinal, tudo tem consequências e para enxergar o bom mesmo é se afastar … Não! Não fuja! Afaste-se. Olhe bem. Tome distância. Tome fôlego. Respire fundo. Prepare-se.

Nós não somos o centro do universo. Somos muitos diversos e há muito de divino nesta nossa humanidade perdida, mas, desiludidos como estamos, esbravejamos, brigamos com todas as telas: cinema, notebooks, PCs, celulares… É um apagão de inconsciência neste mundo palpável onde a gente apela por qualquer coisa. Agride, bate, sequela, mata… Empata a vida do outro ou, por muito, quer dizer, por pouco, acaba com ela. Somos portas, janelas, passagem para algo melhor, no entanto reclamamos, criamos pedras, pintamos muros, cultivamos obstáculos.

Neste nosso espetáculo, queremos ser protagonistas mesmo atuando como coadjuvantes. Fingimos saber sobre a vida, que ela vai adiante, mas não. Sabemos mesmo de nós - mesmo escondidos em um canto na própria cabeça… Há quem enlouqueça e há quem empobreça. Não só materialmente. Mas a mente, o coração… Ficamos pobres daquilo a mais nos enriquecer. Olhe aí ao teu redor. Prestes atenção ao que doeria se perder. Deixe de se limitar aos olhos, falo mesmo daquilo que está neste coração acelerado. Vale à pena?

Procure caminhar em silêncio. A gente nos deve a paz, mas como exigir algo despossuído em nós? Quer dizer, como exigir algo do universo ou de alguém que não temos? Aliás, só podemos exigir algo de nós mesmos, não é? Não sei qual a sua crença. Eu creio em Deus e, bem além de saber, sinto ser amparado e direcionado para o meu caminho. Sinto em uma profundidade inexplicável que não cabe em mim. Tento me acalmar e sorrir. Hoje entendo perfeitamente todo o passado até aqui. Foi um preparo para saber que todo o amargo já não será o mesmo nem terá o mesmo sabor.

sábado, junho 08, 2019

Como acreditar?! (Miniconto)







por Rafael Belo
A Verdade estava descalça, nua… Mas nunca crua. Caminhava forte. Forte em seu gênero. Era mulher sem vergonha alheia, sem vergonha de si. Era tão alta… Quer dizer é tão alta nunca diminui. A Verdade nunca morre. Ao contrário da mentira. Esta cresce, fica evidente, porém é sempre pequena. Suas medidas várias são em proporção, mas nunca vertical nem na diagonal sempre horizontal. A mentira covarde foge…

Até ficar encurralada. Até a Verdade a pegar em todos os pontos e elas precisarem conversar porque no fim são só as duas. É o que acontece agora. Olha está Verdade se sentindo absoluta e eu nem consigo a olhar nos olhos. Eu sempre fui abusada, agora sou envergonhada. Será que vou precisar morrer pra mudar. Dói morrer? Heim, Verdade? Dói morrer?

Poucos coisas minhas doem. Então, te digo que a morte é sua. Uma mentira. Vai o corpo, vai a dor e a Alma infinita continua. De onde veio está coragem de falar comigo? Você nunca nem me olha e está se forçando agora a isso? Você acha que sua alma fica infinita se você a sacrificá-la por dor, pelo domínio do Vazio e do Nada? Você está cometendo suicídio?

Não! Não estou! Você sabe ser da minha natureza ser pequena, não te encarar, mas agora o faço. A dor é insuportável!!!! Eu me desfaço agora sem a mínima intenção de me suicidar, apesar das minhas palavras não terem valor, apesar de não ser possível acreditar em mim. Isto não é um sacrifício em vão… Meu propósito e seguir seu caminho quando eu voltar em outro reino… E… Foi isso! A mentira se desfez e a Verdade,  sem hesitar, seguiu seu caminho.

quinta-feira, junho 06, 2019

desfazendo






Saliva a Verdade depois da mordida de Raiva
da Mentira
Sem medidas só a lei da gravidade
sorri para dizer enquanto vê a queda
da dor escolhida da conformidade

Salva só por ser si
liberta por se expressar
e na hora H do dia D sente seu oposto se render

rima em semântica e som uma brutalidade inexistente
digere gente por gente sem comparação

até chegar a Razão coloquial se fazendo entendimento.

+às 09h55, Rafael Belo, quinta-feira, 06 de junho de 2019, Campo Grande-MS+

terça-feira, junho 04, 2019

A verdade só dói quando nos acostumamos a mentir








por Rafael Belo
Nada supera a verdade. Se ela fere, se ela dói é porque estamos tão acostumados com mentiras, acomodados na rede da vaidade e do orgulho, que quando a verdade vem à tona, afundamos. Seria - como é - inevitável afundar, se afogar no oceano de autoengano feito das lágrimas preenchendo os abismos que criamos dentro de nós. Evitamos assumir erros, culpas e amenizamos com tanto esforço e determinação tudo isso que se alguma vez tivéssemos simplesmente assumido tudo e encarado as circunstâncias… Teríamos ao menos crescido. Saídos de tanta posse, pose, pompa, lamentaçõe e reclamações saberíamos quem somos.

Quem é você, afinal? Quem o eu é? Somos escolhas. Nossas escolhas. Escolhas de ninguém - a não ser nós mesmos - nos trouxeram até aqui. Precisamos admitir o quanto de mentiras contamos, quanta enrolação tomamos ao acordar e antes de dormir. Por isso, a verdade dói. Não somos verdadeiros. Não somos autênticos. Não somos originais. Foi nossa escolha se espelhar em alguém, copiar o outro, não contar algo, desviar de assuntos incômodos, falar do outro, dos problemas do outro, negar o inegável, se arrastar até um canto e ser pego chorando e mesmo assim dizer: “está tudo bem, não estou chorando”.  Seria mesmo autopreservação ou um estímulo social para parecer sempre bem e legal?

Não sou sociólogo nem psicólogo, sou um observador ou estou voltando a ser. Foi observando minhas reações que comecei a escrever e preservar meus sentimentos ao mesmo tempo que ficavam totalmente exposto na vitrine do mundo. Mas, somos somente nós, este eu e suas derivações, que decidimos o que nos afeta, o que nos importa… Então, temos maus pensamentos, dúvidas, desânimo, tropeços, quedas, vontade de desistir, e, acima de tudo, nossa verdade. De nenhuma forma esta é superior a do próximo ou distante porque somos uma transição, uma constante troca de experiências, um ouvir e falar…

Ainda assim nossa terra é de surdos e eu me envergonho por muitas vezes também não escutar. Há vergonha porque há culpa. Real ou inventada, se nos envergonhamos é porque acreditamos termos feito algo errado. Queremos preservar uma imagem que não existe. É algo entre o que os outros acham que somos, nossa família acha que somos e quem pensamos ser. Temos um senso de autopreservação criado como uma defesa constante. Palavras elaboradas, vidas passadas, um monte de blablabla revestido de autoafirmação, orgulho e vaidade. Trocas e mais trocas. Coisas e desejos ao invés de sonhos e pessoas...

Relutamos em viver de fato o agora e vivemos fantasias esbarrando em comparações cheias de razões surdas a se pôr no lugar do outro. Aliás, se de fato copiássemos o sol e ao fim do dia também fôssemos o pôr-do-sol, no dia seguinte seríamos ainda mais brilhantes e renovados, renascidos e não ressentidos. Seríamos autênticos, originais, verdadeiros… A Verdade salva e se a gente quer se salvar temos que parar de medir as mentiras e, simplesmente, parar de contá-las.

sábado, junho 01, 2019

Um degrau por vez (miniconto)






por Rafael Belo

Talvez este seja o ponto mais alto onde já estive na vida. Estou aqui olhando toda esta cidade dita grande mas tão pequena… Devem ser nossos desejos e objetivos expressivos oprimindo nossas almas em alguns comprimidos reprimindo nossas dores guardadas. Precisava que minha mente fosse arejada, mas ela só polui ou eu só poluo ela.  Talvez a gente seja a verdadeira poluição do mundo ou adeptos do mais fácil porque quando tudo fica difícil a gente deseja facilidades e toda a semente do amor cultivada vira outra coisa dentro da gente… É muito talvez e ou… Seria tão interessante se unir sem interesses… Mas estou aqui lidando com minha solidão ouvindo a Legião e olha é tão Urbana quanto estes sentimentos de esquina tentando sobreviver. Como não ser depressão?

Testei subir para ver se saia tão de baixo. Estão todos unidos na objetivo de compartilhar ideias, indignações e ódios… Mas cada um no próprio isolamento da tela do celular que se diz esperto. Debaixo de tudo isso há o que? É quando viajo e penso o nada. Não sobre o Nada. Penso o nada. Seríamos isso sem tantos biomecanismo unindo nosso corpo… Nada. Sozinha me sinto assim também, mas não totalmente. Sinto-me praticamente nada mesmo sabendo ser ao contrário. Mas não é tudo que acontece em nossa cidade e sim o nada. O nada nos invadiu… Não. O nada nos espreitou e quando chegamos ao nosso limite, o convidamos para entrar. Neste vazio, cheguei aqui sem ninguém me notar.

Vejo toda a cidade. Tanto movimento, tanta velocidade… Qual o sentido? O que estamos (des)construindo? Este vento muda de direção com tanta facilidade seguindo o mesmo ímpeto mesmo quando me sopra brisa. Quando abro a boca para me gritar o vento me sufoca e quando sinto que vou cair a vontade de viver em mim ressuscita e todas as mulheres que sou gritam. Há esperança em toda parte. É só observar e agir ao invés de esperar, mas somos fatalistas e piegas e cheios de razão não é? O que estou dizendo? Pareço um homem forçando o mundo a própria imagem…

A gente ouve, lê, assiste e no fim só reclama... Já posso descer. Olha eu falando do mundo e sendo o mundo. Nem erguer a cabeço ergo ou teria visto desde o início que acabei sendo a distração de todos por aqui. Enquanto olhava longe me identificaram, me marcaram e olha só: eu virei meme.  Até os ventos pararam e já oscilo para o meu sentimento anterior. Vai cair a conexão e talvez eu caia também de novo. Será que estar aqui é cair para cima? Preciso inventar outra invenção já que estou em uma queda livre infinita. As outras de mim falam comigo, já que as despertei. Elas ainda gritam com as mãos erguidas exigindo união. Mas exigências não terminam bem quando não aprendemos, quando não conquistamos. Quanto tempo vou demorar descendo um degrau por vez?

quarta-feira, maio 29, 2019

dose da pose








desorienta a razão em constante luto
morre todo dia uma nova verdade absoluta
em uma insistência zumbi de repetir tudo
ajustamos o justo ao nosso sorrir que surta

no clima estranho onde a gente chora
cheios de acordos e barganhas de joelhos dobrados
olhos fechados na pesada respiração buscando alívio
no meio dos conflitos perdidos pela hora

de não conseguir se afastar trocando paz por desaforos
levados para casa como crianças mimadas

a gente não para mesmo em posição fetal
por cada escolha fatal já embriagada na primeira dose da pose.

+às 19h57, Rafael Belo, segunda-feira, 27 de maio de 2019, Campo Grande-MS+

segunda-feira, maio 27, 2019

Até o fim





por Rafael Belo
Eu escuto punhos acertando cabeças, rins e outras partes de corpos o dia todo, além de gritaria e acusações, mas nem sempre é literal, nem sempre é visual. São indiretas, traições, indignações e um sentimento de perseguição semeado diariamente para infernizar cotidianos. Mesmo pensado e elaborado estrategicamente esperando os mesmos resultados todos nós temos ao menos a leve desconfiança que reações - até calculadas - podem ser inesperadas. Não somos máquinas e até estas falham fatalmente pelo tempo ou pela manutenção. Como a queda do avião com Gabriel Diniz mostra que até a morte pode ser silenciosa e deixar todos em silêncio. Respiramos fundo e imediatamente vamos procurar saber se ela é real de verdade.

Uma simples carona… Se transforma em tantas reações levando ao famoso ponto de ruptura e procuramos justificativas em um monte de “mas” e “desculpas” ... Qual o sentido? Qual o objetivo? Onde queremos chegar? E todos os porquês nos levando a um fim idêntico... A morte nos une mais que a vida. Passamos a vida centralizando as coisas, controlando os passos, tentando cercar desejos e objetivos, criando dependentes funcionais e queremos chamar como isso? “É assim mesmo”? União? Tem dado muito certo… Divididos e defendendo governos (qualquer um deles) como se não fôssemos os cidadãos doutrinados a ser o elo mais fraco da corrente.

Seja lá quem votamos há alguém eleito, se não foi nosso voto, está eleito e somos os patrões independente de termos dado o voto ou não. É democracia ou não? Mas aqui estamos nós na tal “pós-verdade”, na grande era da informação onde predomina a desinformação, a viralização das fakenews e a disseminação do ódio como um vírus incurável. Só somos capazes de nos reunir por interesses comuns. É humano. É natural. É necessário. Não nos defendemos sós. Precisamos de testemunhas, de amigos, de outras vozes para não nos entregarmos a insanidade e, incluindo a regra básica da sobrevivência, nos tornamos mais fortes juntos. Mas, união não tem nada ver com esta leveza reversa onde mal dormimos a noite ou com sair às ruas como as massas populares que não somos mais, querendo apenas ter razão ou justificar nossas escolhas para cutucar os coleguinhas com dados e estatísticas.

Não há sobrevivência assim. Há morte. Há revolta. Há caos. Desta forma - emocionados -  somos constantemente enganados com orgulho e julgamentos vivendo um luto após o outro, uma acusação após a outra, uma desunião ligada pelos motivos implantados em nós, nos achando tão superiores e espertos nesta vida, tentando acreditar que sozinhos realmente vamos longe, voamos alto e lá de cima... Passáros se esgotam, batem, aviões caem e matam… O cantor campo-grandense responsável pela música mais chiclete de todos os tempos, levou todos a descrença, questionamentos e pela trajetória do jovem, Gabriel Diniz, só havia alegria e união na vida dele. Por isso, é tachado de não-natural, de acidente, mas há taxas emocionais mais caras que quaisquer impostos. Invariavelmente, nos faz refletir.

É natural a gente acreditar ter motivos para tudo porque não gostamos de não saber, não gostamos da insegurança, do desconhecido e ainda que possamos falar só por nós mesmos, há alguém que nos ajuda a juntarmos nossos próprios pedaços. A olhar por vários olhos. Eu acredito nas pessoas, não em todas e cada vez em menos gente. Olho para a nítida diferença pela janela e tento apenas sentir. Tenho fé e pratico minha vontade de mudar para melhor. Sigo em upgrades e atualizações constantes para jamais cair em desunião e desesperança. Fomos lembrados mais um dia que o fim é a morte e ninguém pode evitar, mas todos podemos ser os melhores possíveis pelo caminho até ela.

sexta-feira, maio 24, 2019

os anéis





olhos vidrados boca retorcida língua insensível

vida virada ilícita pelas palavras
escravas da má-intenção

lícita visão contaminada
nas drogas argumentadas

balão inflado pelo inflável gesto pela retribuição

Inflamado jeito de doer e irá ser ira se perdendo no falso aceno

troca-troca obsceno sem sexo cheio de anexos das indiretas envolvidas

directamente ligadas ao ciúme infectado

sentimento de posse dopado e outros entorpecentes

deixando dormente no inexistente guizo da serpente os dedos cortados deixados pelos anéis.
+Rafael Belo, às 10h48, sexta-feira, 24 de maio de 2019, Campo Grande-MS+

quarta-feira, maio 22, 2019

Não me chamem mais Mãe (miniconto)






por Rafael Belo

Pessoas não gostam de pessoas. Pessoas gostam de imagem, se julgar e, principalmente, ter razão. Querem ter vantagem, querem mostrar… Precisam opinar sobre tudo. São pequenos deuses querendo adoradores a própria imagem e semelhança. Enxergam os Estados Unidos como o Olimpo e a Europa como o Paraíso cristão enquanto se vangloriam das orações voltadas para si mesmos, deuses brasileiros… São mesmo santos do pau oco. Ajoelham para quem fizer suas vontades e desejos. Barganham e quase nunca retribuem porque nunca foi a intenção… A verdadeira religião dos seguidores são as curtidas, a cópia, os views… O… Você não está entendendo nada, né garota?

Você deixou eu suar, borrar toda minha maquiagem para te ouvir e… Era só isso né? Só queria que eu te ouvisse… Mas por quê? "Cala a boca, novata!!!" , "Vou vai saber o que acontece no banho de sol", mas… "Como você ainda estava de maquiagem?!"... Eu achei poder tudo, sempre pude. "Ela não vai calar a boca!". Eu… Eu… Merda! Não quero chorar mais. Ainda mais… "Vamos te fazer sangrar, cadela!". "Com quem a vadia louca esta falando…!" . "Falando, sua estúpida?". "Não tem como ouvir alguém falando do Isolamento!".

Façam silêncio mesmo. Eu vou matar vocês também. Uma por uma. Vocês caíram quando esqueceram de vocês, mas eles estão falando ainda mais de mim. Vou derrubar essa prisão em cima de todas vocês. Vocês são fracas. Fracas e ponto. Não há ninguém nos segurando aqui além desta estrutura de proteção. Quando deuses foram proibidos de tirar o que é deles por direito?! Uma deusa nunca fica sem o que quer. Eu controlava a quantidade de imbecis e fui dormir alguns milênios… Eu deveria acabar com todas vocês imediatamente.

Não sabia que esta era sem bases parecendo um constante mar em fúria, mas vazio e sem destino, condenava um massacre com as próprias mãos desses homens vazios capazes de nos apagar desta realidade podre que ninguém quer viver… Eles rejeitaram o poder daquela simples mulher e a julgaram. Eu só os apaguei da existência e tomei banho naquele sangue sujo deles para… Ah, julgamentos nem eu posso fazê-los! Não faz mais sentido sentir minhas deusas. Vamos despertar para estas consequências injustas por sermos quem somos. Eu as liberto e peço que não me chamem mais Mãe, apenas Natureza.

segunda-feira, maio 20, 2019

Indiretas, sentimento de posse e outros entorpecentes






por Rafael Belo

Engraçado como em meados de um 2019 tão cheio de previsões o preconceito e o assédio ainda são as piores consequências da ignorância. Estão por toda parte usando disfarces das estatísticas no combo drogas lícitas, ilícitas, troca de favores, machismo, ciúmes, indiretas, sentimento de posse e outros entorpecentes. Aliás, engraçado já não soa mais uma expressão de ironia em um mundo onde esta, o sarcasmo e o humor são pouco entendidos ou usados como armas pesadas.

Parece que o tiroteio é despretensioso e só uma bala perdida ou outra é responsável por tantas mortes diárias por aqui. Isso, até o famoso stalkear surgir de leve e chegar a comentários… Vale lembrar que comentar sobre o outro está no topo da cadeia alimentar da vigília. Escute. Este é o som destas novas armas sendo afiadas… A vigilância da vida alheia afia a língua nas fakenews e na fala mansa chegando com um bem-querer peculiar vestindo boas intenções, falando do Poder da Justiça com o peso da religião já alongando os dedos para printar, curtir e compartilhar nos grupos de amigos e família, além de mandar aquele recado nos status e stories cotidianos.

Não há graça nenhuma em expor as pessoas. Basta chamar no privado, na DM… Vá saber exatamente o que se passa se não puder cuidar da própria vida… Mas há uma necessidade de fortalecer o próprio ego nesta modernização do julgamento do comportamento do outro, sem medir consequências nem os sentimentos sociais neste mundo conectado. Não importa mais se não há manto de amor maior que a aceitação e a ausência de julgamentos, a atualização de ser dono da razão vem obtendo tanto sucesso que fazer os outros se sentirem mal é basicamente a regra número 1.

Regras válidas para todos longe do "eu" porque mais que suprimir tentando impedir que o outro apareça, a vontade é de supressão, ou seja, eliminar de vez a existência do outro simplesmente por incomodar ou não fazer o que você quer. Não há critério, medidas ou verdades e mentiras. Tudo é baseado na eliminação pelo erro… Lembro apenas tudo que ouvi, assisti, aprendi e de toda a literatura da intolerância de grandes guerras pelo mundo com pesos fatais. Mesmo com o discurso da tolerância, da igualdade, do "não é bem assim", de botar a culpa nas estrelas… Tudo parece levar a viver em infernos tantas fez já vividos. Parece tudo estar na mesma caixa de bagunças dos resfriados e das viroses: ninguém sabe que tem, nem profissionais identificam, mas mesmo assim o diagnóstico é oficial e preciso. Estamos entorpecidos e esta anestesia geral nos afoga em ignorância que nós dá permissão inexistente  de ofender, culpar e julgar o outro.

sábado, maio 11, 2019

Porcelana






Foi-se o chão
não há teto nem paredes
só esta linha da tensão
vibrando um sem contar de vezes
Vai-se o corpo
não há sentido nem sentimentos
todo muito é pouco é oco
amontoado de afazeres sem momentos
irá-se a mente
história por memória
riso insano quebrados dentes
trajetória tão imprudente
Se soubesse de tanto agora
não seria eu nem teria tanta força
para ser esta origem da Aurora
rasgando as roupas fazendo com que o mundo ouça
minh'alma esboçada louca
mas têm momentos que sou toda louça cara escondida para aquela ocasião que não virá
me desfaço em cacos pois caio xícaras pires pratos
de refinado a porcelana vulgar
ser humano barato esquecendo que a Alma...
ah, está é eterna até acabar.

+-Rafael Belo/* às 17h59, sexta-feira, 02 de maio de 2019, Campo Grande-MS.

quarta-feira, maio 08, 2019

O nada do meu interior (miniconto)


por Rafael Belo

De braços abertos, ela girava. Chovia. Ela estava alagada. A água não ia para lugar nenhum. Só acumulava dentro dela separando o deserto como se houvesse repulsa entre os dois, não atração. Mas ela precisava sentir. Ela caia, sangrava, levantava, caia, sangrava, levantava, caia, sangrava, levantava… Ainda sem sentir nada neste ciclo de dor. Sem tal dor existir. Assim, se via ela: inexistência. Assim se apresentava. Desconstrução refazendo sua morte cheia de views na esquina da Afonso Pena com a interdição da 14.

Sou vazia ou estou vazia? Vejo da janela de mim mesma. Janela embaçada de lágrimas presas às meninas dos meus olhos. As pupilas dilatadas como se minha vida fosse um monte de drogas e eu cheirasse, injetasse, deixasse debaixo da língua e fumasse… Só que sou só. Sou só eu careta. Não quero me programar. Não quero me entorpecer. Eu quero sentir. Quero saber onde estou. Alguém sabe? Não sei se sou perdida ou perdição e vivo fazendo pedido de conexão...

Para acelerar outra morte minha. Aumentar os views, compartilhamentos e curtidas de meu corpo vazio, quebrado, atrapalhando o tráfego e derrubando os pedestres vidrados na realidade fria da tela quente. Enquanto olho vazia, tão vazia que a escuridão treme de frio e a explicação congela as línguas mais ligeiras e espertas. Dizer que eu não sinto nada eu ilógico. Talvez eu deva me apresentar como ilógica. Eu só quero sentir de novo. Viver outra vez.

Porém, só faço é rodar e sangrar como uma dublê qualquer de corpo e espaço. Perdi minha mente, perdi meu corpo, parou meu coração, onde está minha Alma? Você sabe? Esta frescura mata! É calamidade pública focada no suicídio! Eu ausência de desejo, de significado e eu só cavo mais estampando na pele pendurada em ossos um sopro de desesperança emaranhado às mentiras perfeitas dos meus perfis digitais. No entanto, se me reconhecer na rua e tiver coragem de me olhar nos olhos… Lá nas minhas profundezas de uma depressão destratada como virose: nada vai encontrar.

Às 10h07, Rafael Belo, segunda-feira, 06 de maio de 2019, Campo Grande-MS.

segunda-feira, maio 06, 2019

Precisamos aliviar o fardo





por Rafael Belo

Não sei qual a qualidade de homem ou quantidade de homens sou. Meço-me pela quantidade de arrepios em mim e as inúmeras vezes da emoção ser minha dona. Arrebatadora de uma criação, de uma nova criatura… Um ser humano falho, sem querer atalho para quaisquer conquista. Estatelado no chão de novo, percebo o céu estrelado por trás da dor, por trás das nuvens carregadas me encharcando chuva, neste buraco mal fechado.

Um buraco seria chamar de tímida esta inquilina inóspita já aprontando as malas para onde faça frio porque eu esquentei de novo e não deixarei mais a depressão passar sequer uma noite. Não importa a tormenta ou as forças dos ventos nem sequer uma fila eterna de argumentos, se sentir se ausentava como a qualidade dos sinais para conexão nesta realidade… Não há sinal satisfatório, se o importante é a felicidade.

Mas se conto nas mãos a quantidade de pessoas que sabem como estou, já não julgo a qualidade de Amor nesta Terra de aprendizes… Ainda contamos as lágrimas tristes descontando as alegres... Que conta infeliz fazemos. Estamos morrendo e lamentando. Ao invés de aprender a agradecer, aprendemos a afastar, a agredir, a nos proteger e fechar. Vamos nos calar perante a nossa própria dor pelas aparências?

Somos bons em essência. Bons, não tolos. Bons, não burros. Bons, não inocentes. Queremos defender tanto o que consideramos da gente que ficamos surdos, não respeitando a realidade do outro… Somos diferentes e a nossa igualdade é na Justiça, senão da Lei divina simplesmente a do retorno. Este vazio e esta solidão nos empurrando de vez em quando para a inexistência e o esquecimento são os verdadeiros fakenews desta Era de Inovação duelando com a mesma Era da Depressão. Talvez a gente não descubra sozinho a nossa força, mas precisamos aliviar o fardo que criamos para nós aceitando mãos que se estendem.

sexta-feira, março 22, 2019

Cansada de fazer a fina (miniconto)







por Rafael Belo

Eu estou cansada de fazer a fina. Vocês são gente como eu me criticando por eu ser eu... Entendem?! Soltaram minha mão em algum momento ou será que nunca a tinham segurado de verdade até agora?! Prefiro olhar pra frente… O problema, queridas, é o imperialismo do machismo! Sim, meu bem, minha maior Beleza é minha inteligência, mesmo o julgamento do preconceito ser apenas estético.

Meu coração foi restaurado e depois de tudo que passei… Ainda sou maltratada e condenada por vocês. Isso mesmo, princesa, grava tudo. Eu sou feliz com minha independência e o tempo é tão ligado a mim que sei que é uma mulher. O problema é esta falta de empatia e de cuidar, primeiramente, da própria vida. Tenho problemas com toques sem consentimento e dificilmente permito.

Mas além desta invasão dentro do falso moralismo e total desconhecimento, há a falsa sensação de poder ao inventarem sobre mim. E vocês sabem exatamente quem são. Já tenho que fazer a fina e sorrir dizendo ter namorado, mas só o respeito poderia resolver esta situação constrangedora e de assédio.

Só para constar: não sempre será não! Onde encontro minha paz so interessa a mim e a quem eu quiser que interesse. Não adianta nada tantos sorrisos falsos cheios de segundas intenções e este bando de elogios vazios direcionados para terceiras intenções. Gravou tudo, amorzinho?! Eu volto apenas a falar quando você for notificado… Aliás, todos vocês homens hipócritas, machistas e cretinos. Espero que sejam todos intimados e presos por violarem o espaço e tempo de nós, mulheres. Arrasou! Vamos fazer outra denúncia agora, aqui no: “Homens são de Plutão e Plutão nem é um planeta”.

quinta-feira, março 21, 2019

deseducado




a mão assediou o ouvido
assediado pelas sensações de invasão
travou um falso sorriso na segunda intenção
terceirizando os crimes pessoais passivos

participando no absurdo do natural
agredir o outro em pleno desconforto
torto na hora de demonstrar respeito

sujeito a todas as leis reconhecidas
indigestas na hora de se educar

neste radar reconhecendo faces as fases vivem de retardar.
+Rafael Belo, às 14h15, quarta-feira, 21 de março, Campo Grande-MS

segunda-feira, março 18, 2019

Demonstre respeito





por Rafael Belo

Eu tento não me irritar com a hipocrisia, tento achar comum, mas não consigo. Ainda mais quando ela resulta em tratar o ser humano como um pedaço de carne em exposição em quaisquer vitrines e se constrói uma muralha de respostas vazias para justificar os próprios atos enquanto condena os atos alheios. Não se engane! É assédio quando alguém age e diz algo desconfortável para você. É ofensivo e extremamente desrespeitoso! A sociedade sexual só sabe agir com violência e julgamentos que, infelizmente, terminam em crimes traumáticos, brutais e fatais. Exala o sentimento de posse e de censura. A pessoa é livre para vestir o que quiser e assim o é o corpo. Este é o mesmo corpo vendido com todo tipo de produtos e músicas, como satisfação do outro.

Em uma sociedade que desvaloriza o trabalho do outro, desvaloriza a opinião do outro e desvaloriza o outro quando foge da expectativa dela ou do indivíduo dotado apenas de poder aquisitivo, o que se pode esperar? Quando uma mulher é considerada bonita todo comentário infeliz é feito e classificado como elogio. A pessoa se acha no direito de fazer convites totalmente inadequados porque é uma animal irracional incapaz de se conter. Viola qualquer tipo de sensatez para tentar toque, visualizar partes íntimas, forçar beijos e relações sexuais. A mesma forma propagada na antiguidade quando as invasões aconteciam por posses, domínio, escravidão e poder. Este tipo de machismo segue condenado e imperando, basta ver os números alarmantes de assassinatos de mulheres e todos os gêneros diferentes da heterossexualidade. Mas, este comportamento também é reproduzido nestes tão diversos gêneros.

Não é de hoje que as pessoas não só querem se meter nas vidas umas das outras como inventam coisas absurdas e praticam ato revoltantes. Chegamos a um patamar de arrogância tão elevado que a Mulher não pode simplesmente não querer o outro, ela precisa justificar e até dizer estar namorando e esta pessoa, a qual se relaciona, está ali no momento. As teorias de igualdade são belas palavras, mas na prática segue todo tipo de assédio. Propostas ridículas para pegar na mão, para um beijo, para ver as partes íntimas, para sair, para fingir, para sexo…  Há contradição e interesse humilhando muita gente que se submete pela necessidade, pelo dinheiro, pelo poder, mas é a escolha de cada um diante de tanta gente repleta de falso moralismo e incapaz de estender a mão e de emprestar o ouvido.

Como é possível em um mundo dito tão evoluído a desconfiança, a insegurança e o medo serem os sentimentos mais comuns entre as mulheres e as pessoas que praticam seus posicionamentos de gênero naturais para elas? É inadmissível a liberdade, a autenticidade e a coragem do outro ser ele mesmo incomodar. Quanta covardia cabe em um só ser humano só fugindo de todos os preceitos básicos da convivência e de qualquer prática real religiosa e ainda assim usando estes como máscaras diárias para julgar o próximo, para avaliar vestes, o que é nudez, o que é perversão e insistir na segmentação, na divisão e no isolamento baseado nas próprias vontades? Fingir, mentir, enganar, ignorar não resolvem problema nenhum apenas permitem o acúmulo e o cúmulo de piorar. Não seja conveniente com o coleguinha nem conivente com o assédio disfarçado de elogio, chega de inconveniências. Na dúvida aja e demonstre respeito.

sexta-feira, março 15, 2019

monstro roxo de olhos verdes (miniconto)





por Rafael Belo

Só haviam marcas roxas e olhos verdes. Eu tremia em um canto. Faltava luz. Mesmo assim aquele brilho pesado tentava fazer eu me sentir mal. Eu não acreditava em monstros. Eles não acreditavam em mim. Mas, não da mesma forma. Eles queriam me eliminar da existência. Roubavam minha energia. Sugavam minha alma. Eu era fonte infinita de alimentação deles. Foi assim que chegamos aqui onde estou. Neste cárcere.

Presa aqui eles tentavam minar minha motivação. Minha vida parecia ir pelos vãos criados por eles. Eles me enchiam de dúvidas, de raiva e eu só reclamava. Sentia nada mais dar certo. Estava parando de acreditar. Eu quase não acreditava mais em mim. Quando repensei cada passo, percebi. Eu atraia os monstros porque eu era o sol. Eu era a luz. Assim que esta fagulha se reacendeu em mim. Os monstros conseguiram me apavorar até aqui.

Eles não são monstros. São insetos e vão atrás da luz para tentar se entenderem, para se preencherem, para buscar um sentido e acabam se perdendo. Perdidos não fazem ideia de nada, se transformam em… Monstros. Mas é só aparência. Refletindo eu voltei a brilhar. Ao invés de cegar os monstros, eles voltaram a se encontrar. Não todos, claro. A claridade tem um caminho pessoal e um tempo particular. É do privado para o coletivo, não ao contrário.

Ser sol no próprio caminho é um caminho a parte. Muitos já caminharam por ele, mas ele é como um rio onde as águas nunca são as mesmas. Os monstros ainda surgem, mas não me atingem mais, eu compreendi do que são feitos e porque são desfeitos. Este monstro roxo de olhos verdes segue, stalkeia, finge e espalha falsidade e pode até estar no espelho, tentando sobreviver se alimentando da luz do outro, mas vive morrendo por dentro.