segunda-feira, outubro 15, 2018

não somos só coração







por Rafael Belo

A gente perde todos os dias quando poderíamos ganhar diariamente. A gente se deixa dominar pelo pior em nós. Desculpas, perdão não vão resolver para quem foi afetado porque esquecer palavras e feitos é fácil, porém, o que sentimos com isso não. E o sentimento… Ah, o sentimento envolvido com atitudes e palavras é denso, é profundo, esse deixa marcas, por isso, a gentileza é tão comemorada, tão exaltada, mas não no sentido de perder os ânimos, o controle, mas de se destacar diante dos dados atirados.

Jogamos um jogo que não entendemos e vamos ao ataque direto para não precisarmos nos defender depois. A melhor defesa não é o ataque este só causa um contra-ataque e é um ciclo vicioso. Fugi do foco. Cheguei até a gentileza e a deixei passar. Bom… Atenção, carinho e gentileza viram artigos de luxo em um mundo voltado a vitória a qualquer custo nos etiquetando com um luz zumbi da ansiedade da qual nos tornamos dependentes e nos leva o tempo que nos permitia olhar com cuidado e ser gentil.

Aliás, nós nos degladiamos com ele o tempo todo. Ou ele voa ou se arrasta, mas já perceberam que ele passa conforme estamos nos sentindo no momento? Temos que cuidar dos sentimentos. Principalmente, os libertar. Os sentimentos não precisam de gaiolas cantando tristes pela liberdade, mesmo se eles forem dor, raiva… Não os liberte em palavras ou em pessoas. Isto só o alimentará. Os descarregue em alguma atividade física como as artes marciais e converse com alguém sobre eles, mas não os prenda.

Nem os manipule para conseguir algo de alguém. Você perde também. Recuperar tempo e confiança é igual voltar a dormir direito. Depois de tanta insônia, de noites em claro, ansiedade enlouquecida não se retorna. É preciso começar tudo de novo porque o que fazemos sentir e o que sentimos não se esquece. Temos de lidar com isso. Assumir a culpa, receber o perdão não significa nem de longe que algo voltará a ser como antes. Por isso, não somos só coração. Podemos pensar antes de agir e falar.

sexta-feira, outubro 12, 2018

Venha falar comigo (miniconto)







por Rafael Belo

Venha falar comigo. Sente-se aqui. Conheça-me e mesmo assim só fale de mim quando estiver comigo. A noite é infância e eu estou a criança que nunca deixei de ser. Vamos ver brincadeiras reais por toda parte. O ódio nunca coube menos nem mais. A gente fala demais e sequer tem argumentos. Brincamos de democracia e como somos representados ? Decerto com memes e piadas, muito orgulho e superioridade… Ah, tem o diálogo, mas ele acontece quando estou no trabalho tentando provar constantemente que igualdade é para tudo e para todos…

Então, este “diálogo” é uma troca de favores. Mas, senta aqui para falar comigo, me olhe nos olhos, me diz quantas fontes você tem sobre esta tua defesa porque com certeza tu não sabe que jornalista estuda, pesquisa (pelo menos deveria) e quanto mais fontes melhor… Aliás, fonte é quem pode provar tua informação… Desculpe, perdi o tom. São coisas da Vida e, eu como a própria, tenho muito a falar, mas escuto também. Sem gritar, sem me exaltar, sem ofender, sem pegar minha bola e ir para casa.

Para mim está todo mundo andando de moto e de carona nesta moto. Acelerando, atacando e roubando minha paz. Não aceitam reclamação, opinião eu queria mesmo devolução. Não disse revolução porque se não estamos preparados para ouvir, para aguentar, resistir quem dirá nos organizar para algo que faça sentido. Nada faz sentido mais. Mas eu sou positiva porque a Vida só pode escolher viver. O problema de esperar em silêncio é o medo e a morte. Senta. Você já não cresce mais, mas pode crescer de outras maneiras.

Já sentou. Demorou de fato. Assim é mais fácil receber as notícias. Eu continuo. Mas até este instante não consigo entender estas diferenças criadas: raça, classe, status, gênero, educação… Só sabemos quem a outra pessoa é se ela nos dizer e só assim.  Às características individuais são justamente o que dizem junto com a personalidade. Tantas divisões e muros servem para o ódio e, infelizmente, para a própria proteção. Hoje ao invés do Amor vejo um antigo veneno no ar. Aliás, esta que você vê na variação da luz também estou eu. Vida e Morte não são duas, são uma só.  Eu só busco meu equilíbrio.

quinta-feira, outubro 11, 2018

reforma





desarmo-me de mim e de toda cerca
caminho incansável só com a sensação
desconstruo meu coração
grito sem perder a voz

nos dias quentes me fazendo mais forte
não deixam as fantasias me esconderem
mesmo fantasiado estou nu

um partido feito de alianças
inteiro encarando uma cruzada pessoal

pela reforma de nós mesmos.

+às 14h42, Rafael Belo, quinta-feira, Campo Grande, 11 de outubro de 2018+

quarta-feira, outubro 10, 2018

desconhecida emoção (miniconto)






por Rafael Belo

Eu choro. Choro toda vez que a palavra livre foge da minha boca. Ela escapa pelas cicatrizes da crueldade e do ódio mapeando o meu corpo. Das agressões que sofri e se você seguir as marcas pode chegar até minha mente travada. Ela segue torturada pelas torturas ensandecidas praticadas por mim e tudo veio de volta. Mataram-me diversas vezes mas não o suficiente para pagar quaisquer pecados meus. Uma hora eu era Deus outra eu questionava a existência dele.

A cada ano passado eu volto para uma época de atrocidades. Sou uma anomalia nesta sociedade. Sociedade de Paz. Eu, mulher não vejo gêneros… Não tenho nome há tanto tempo, mas tenho poder ilimitado. Este instante novo de vida é menos que um sopro, mas maior que um suspiro. Fui estuprada, dilacerada e violentada de tantas formas que minha melanina acentuada e meu nascimento social sempre me trazem como estatística. As pessoas fazem questão de esquecer…

Eu faço questão de lembrar. Não nego nada além da negação. Eu morri nas últimas Cruzadas, passei por todos os campos de concentração do Holocausto, mais recentemente eu estive no topo das Torres Gêmeas, lá atrás na devastação da Peste Negra, nos escombros de Portugal no Terremoto de Lisboa, na proa do Titanic, na Primeira Guerra Mundial, nos voos do Desastre Aéreo de Tenerife, estive em Chernobyl, em Hiroshima e Nagasaki, no Boeing da Gol , no voo 3054 da TAM, no voo 447 do Airbus A330 da AirFrance, no Terremoto de Porto Príncipe, nas Chuvas do Rio de Janeiro, no estouro da represa em Mariana, na Boate Kiss, no edifício Joelma, no Carandiru, nas Chacinas da Candelária, do Vigário Geral… Não lembro mais.

Eu posso ter matado, mas é certo que  morri também. Talvez eu seja a Memória ou a própria História, mas quem me tem hoje em dia? Estou defasada. Até quando sou citada viro negação ou fakenews… Por isso, estou uma imagem chorando em algum canto de luz rodeado em densidade por sombras. Tantas mortes pelo descontrole são imagens vivas na minha mente e eu choro copiosamente... Então, quando a palavra livre se desvencilha de mim e sai, há uma dor inexplicável ou talvez seja uma emoção que eu não reconheça. Será que sou a Morte?

terça-feira, outubro 09, 2018

encarando






diante de mim e ao meu redor
ando comigo até a exaustão
algo explode no meu peito
um grito que não dei

em mais um dia quente
com tanto ódio me cercando
não sei qual saci vestido de abóbora vai chegar

quando minhas fantasias me vestirem
ainda serei o centro do mundo

gritando ordens e ofensas encarando o cano fumegante da minha própria arma ilegal.

+às 16h30, Rafael Belo, terça-feira, Campo Grande, 09 de outubro de 2018+

segunda-feira, outubro 08, 2018

Cruzadas modernas







por Rafael Belo

Eu vejo ódio por toda parte. Ameaças, xingamentos, injúrias, difamações, tentativas de assassinatos, assassinatos… Medo tem sido a atmosfera mundial, mas aos meus arredores são os locais onde posso afirmar estar presente. As conquistas estão sendo questionadas em uma contradição sem fim e ao invés de evoluirmos voltamos para a vida medieval. Polarizamos algumas situações terríveis, as potencializamos e voltamos a vestir nossos anteolhos.

Distorcemos todas as coisas, as palavras e as pessoas para caberem naquilo que queremos. Somos selvagens. Quando chegamos ao limite não ponderamos, não colocamos na balança, não raciocinamos as ações e reações, então às consequências nos esmagam como a história está aí para quem quiser ler. Mas a preguiça e o descaso são mais fortes. É mais fácil tirar o tacape, agarrar as pedras e partir para os confrontos. Somos frutos do Sistema que sempre deu com uma mão e tirou com a outra, mas também frutos da cegueira.

Político faz lei, as fiscaliza… Mas nós que fazemos mudanças. Não precisamos depender de um sistema precário como está para mudar, para fazer o bem, para ajudar e se ajudar. Sabemos da corrupção humana, sabemos das opções, das possibilidades, das escolhas, da vastidão do mundo e da necessidade do equilíbrio entre mente e corpo para a evolução, mas não queremos. Queremos o fácil, o rápido e depois de milhares de vezes repetindo guerras, destruição e miséria nos últimos milênios, acabamos escolhendo de novo o mesmo porque somos especiais e desta vez fazer a mesma escolha vai ser diferente. Se tem algo que somos especialistas é na nossa idioticidade.

Somos muito idiotas e orgulhosos. Vamos morrer disso e sem sair do lugar. Damos loopings fantásticos em uma montanha-russa decadente e sem qualquer segurança para depois fingimos que o mundo não gira como uma roda-gigante. Sendo um pouco nerd e um pouco boçal, talvez Thanos saia do Universo Marvel e venha estalar os dedos por aqui. Democraticamente vai eliminar metade da população universal, não vai escolher partidos nem a ética ou a moral, muito menos respeitar alguém, além daquilo que o velho titã acredita. No entanto, não precisamos de ajuda para continuarmos fazendo nossas besteiras diárias e negarmos nossos preconceitos, ódio e egoísmos nestas Cruzadas modernas.

sexta-feira, outubro 05, 2018

abra a Caixa (miniconto)







por Rafael Belo
Eu sinto ser tão antiga. Sinto-me a própria Esperança. Não a minúscula. A mitológica: A Esperança. Aquela que chamou Pandora para também ser livre. Todo mundo fala que da Caixa de Pandora todos os males da humanidade surgiram ou foram libertados. Mas, não falam que de lá também veio a Esperança. Eu chamei e fui ouvida. A Caixa também não era de Pandora. Esta foi criada por Zeus para abrir a caixa também do deus grego. Uma vingança contra o titã Prometeu que deu o fogo aos humanos e possibilitou o conhecimento a humanidade. Zeus temia que com isso os mortais se igualassem aos deuses.

Pandora era esposa de Epimeteu, irmão desse titã que nos deu o fogo. Aliás, Epimeteu estava junto com Pandora quando a curiosidade chegou e atingiu o objetivo de Zeus. A fama foi para Pandora e o castigo para Prometeu. Qual foi o castigo dele? Ser acorrentado a uma rocha onde uma águia devorava o fígado dele até a morte. Tudo se regenerava e se repetia no dia seguinte. No fim parece o começo. Eu sempre fui a última. Sempre fui um conselho ou o oposto de mim. Sempre fui perdida, mas me buscavam muito também. É preciso me ter, porém, e se não me tiverem?

A igualdade e o equilíbrio não servem aos poderosos porque pensar faz mal para eles. Então, por qual motivo dariam a esperança da mudança se esta não iluminasse apenas os focos que quisessem? Zeus tinham razão em temer. Prometeu tinha razão em libertar e isso sempre custou algo. Quando estou nas pessoas e sou capaz de lembrar quem eu sou e vejo que todas são Prometeu, mas só o castigo dado a ele. Eu mesma fui confundida e ele me tornei.

Mas, toda vez que conto minha história a Luz que sou ilumina. Não os focos manipulados e contaminados, tudo. Eu ilumino tudo. A Depressão, o Pânico e as fobias não suportam quando eu me reencontro. Quando chegando aquele fatídico clichê dolorido do fundo do poço, descobrimos que não tem fim. Perdemos a voz de tanto gritar para a confusão, o caos, para a gritaria e o barulho interminável lá fora infectando aqui dentro. Então, basta um foco de luz e tudo para. Um raio quase invisível de Esperança ilumina mais que qualquer densa e cega escuridão. Só peço paciência e silêncio. Quando conseguir, por favor me tire mais uma vez da Caixa.

quinta-feira, outubro 04, 2018

devorandoeu







minha vida deixou de ser um #TBT sem fim
é tudo novo sempre em sequências de agora
eu escuto meu silêncio sussurrar do coração
os sinais verdes livres no meu caminho

quando a bateria chega ao fim eu não forço
recarrego ouvindo cada mudez em mim
levo meu tempo fora da gaiola voando solto

vou aos poucos começando de novo
neste start me up rolando

alimento-me da minha antropofagia e sigo a ressignificar.

+às 16h48, Rafael Belo, quinta-feira, Campo Grande, 04 de outubro de 2018+

quarta-feira, outubro 03, 2018

o mundo disfarça (miniconto)






por Rafael Belo
Estou molhada, mas tremo de indignação. Com a frieza já estou acostumada e todo este frio me abraçando, me fazendo me sentir menor. Mas me assusto com os flashes no céu. Não sei o que podem estar registrando. Já não vejo luz em mim e após o último trovão parecendo ressoar em um eco sem fim em mim, também já não há energia em lugar algum. Ninguém me viu chegar, ninguém me viu sair, ninguém me viu partir …

Minha memória sempre foi de peixe, então, já não sei dizer que festa estava, quem estava lá… Talvez alguém tenha morrido. E qual a diferença, afinal? Sinto eu ter morrido. Isso seria físico ou carnal? Talvez eu seja alguma entidade residual, um espírito perdido, uma alma assombrada ou um fantasma de um filme de Tarantino. Talvez esta tempestade tropical seja meu último aviso. Há tanta seriedade seca por aí e eu aqui toda molhada

Meus pés doem, meus calçados estão se desfazendo. Este é meu relógio, meu sinal do tempo. É o alerta. Este amarelo destaque no meio de tanto cinza e este novo dilúvio nunca prometido, aliás prometido que não teria mais. Olhando bem posso pensar melhor e enxergar que aqui, nesta inundação, não estou só há mais gente sozinha aqui comigo. Devo alertá-las a não preencherem o vazio? Elas nem me olham…

Parece que antes e depois de setembro todo o mundo disfarça finge que não existo. Só sou uma estatística, uma fonte jornalística, uma história para contar quando falam de ansiedade, dor, sofrimento, depressão e a palavra proibida: suicídio. Eu venho amarelando destes pensamentos da solidão, mas então chove. Eu me sinto perseguida pela chuva. Ela vem salvando minha vida porque quando chove me sinto viva. Mesmo agora sem energia, molhada, a cidade inundada e tanta gente afogada em egoísmo.

terça-feira, outubro 02, 2018

amarela dor





há tanto barulho
não me ouço quase nada
meu corpo é descontrole
na minha mente de enxames

são abelhas picando pensamentos
morrendo dentro da minha razão
estou em chamas impagáveis

estalo fogo ao meio dos zumbidos
tudo em mim esta mudo

meu falso silêncio é sentença de morte diária no banho de sol banhado pela banalização da minha dor amarela.

+às 17h31, Rafael Belo, terça-feira, Campo Grande, 02 de outubro de 2018+

segunda-feira, outubro 01, 2018

Falso silêncio





por Rafael Belo

Você já tentou sair da bolha e realmente prestar atenção? Tantas banalidades virando extremismo, tanta coisa séria virando banalidade, tanta caracterização, demonização e herois fabricados instantâneamente, mas não se engane - ou tente enganar - tudo isso vem se (des)construindo há muito tempo. Eu vejo nosso maior problema nos sentidos. Sentidos das significações, interpretações e humanos. Neste último a ênfase esta não no sexto, sétimo ou oitavo…. Esta na visão, no olfato, no paladar, na visão e, principalmente, na audição. Estamos perdendo todos os sentidos.
Usamos até fones de ouvido - perdendo realmente a audição - para não ter de usar outro sentido… Não queremos falar porque tememos nos desgastar com o outro, então nos isolamos. Não queremos tocar porque desconhecemos a reação ao toque, então não tocamos. Não queremos degustar  porque confundimos com o paladar e ficamos só falando mesmo. Não usamos nem o olfato para podermos sentir algo estranho no ar e acabamos não enxergando as pessoas como seres humanos.

Talvez a consequência seja a necessidade do alerta amarelo reforçado em Setembro para ligar todos os sentidos para o suicídio, mas é só um dos fatores aliado a cobrança intensa em todos os aspectos sociais e pessoais, porém, a impessoalidade, ou a frieza, e o descarte fácil de tudo e todos na confusão entre coisas e pessoas, junto a desatenção nos mata agressivamente em um falso silêncio. Às vezes, precisamos mesmo da nossa bolha para lembrarmos o quão desnecessário e prejudiciais nossos gestos e falas podem ser. Ao mesmo tempo, como amigos, família, sociedade, comunidade sair da bolha pode salvar o próximo. Por isso, acabar com a banalização tem que estar no nosso caminho.

Esta banalização de nós mesmos balanceada ao eucentrismo ou simplesmente ao superimportar consigo mesmo ainda utilizando a distorção da Liberdade de Expressão, causa um desrespeito agudo diariamente capitalizado em busca de curtidas que não valem nada. No entanto, quando há engajamento se perde o limite. Queremos ser evangelizadores das nossas crenças e vontades com a alma ainda colonizada invadindo as pessoas sem se importar em ouví-las. Estamos na era do desrespeito e do Pânico. Os sentimentos não só são banalizados como maltratados a ponto de só voltarem a aparecer depois de muito sofrimento gratuito. Vamos ouvir o silêncio e amparar o próximo como uma necessidade diária da nossa próxima alma.

sexta-feira, setembro 28, 2018

sem verdades absolutas (miniconto)






por Rafael Belo

Nada é distante. Ainda mais se temos o meio de chegar. O meio e o motivo. Não sei em qual tempo estar, qual tempo conjugar, mas chego e quero. Não coloco filtros mais quem dirá máscaras. Mas para chegar até aqui, neste caminho de dramas e contatinhos, você precisa tirar a trilha de cadeados e máscaras que te fazem me seguir. Ao chegar aqui verás não existir nenhuma personagem. Todas estas pedras metamorfoseadas neste atalho até mim são obstáculos inexistentes.

Só eu olho para trás e vejo por onde vim. Para vocês este é só mais um artifício para algum interesse velado. Eu digo agora, antes de encerrarem as votações, sou mulher. Não perco interesse facilmente. Não sou nem serei candidata. Mas, cansei de gente tão chata achando conversar com ameaças e ofensas, ter argumentos com gritos , ironias e humilhação. A minha razão é ser nua e crua. Não sou heroína. Rejeito máscaras, capas e proteções.

Só estou vivendo o agora e tirando máscaras ainda desconhecidas até por mim. Todo dia eu redescubro meu eu natural observando o amanhecer selvagem onde negamos ser os animais sem propósito que demonstramos ser atrás de sobrevivência, sexo, violência e alimentação. Este carnal entregue… Mas se vejo em mim um corpo liberto florescendo Belezas de um divino infinito além da compreensão do corpo, deixo este pulsar em sensações.

Por contratar os chatos eu vou presa, mas não calada. Não seja mais um chato. Digo isso enquanto minha liberdade de expressão é amordaçada, amarrada e transformada em uma  fakenews viralizada exposta no horário nobre da tevê aberta e pipocando a toda hora no WhatsApp. Eu me permito ser mais humana e quero o mesmo para a humanidade. Ainda assim, com esta aparência de caos, me sinto em harmonia cuidando e sendo cuidada. Vendo o Amor no final de mim, então, todo este ódio e desamor vai se chocar com algo tão lindo e quem sabe comece a enxergar e o Ser Humano ressurja sem verdades absolutas enxergando a inexistência do tempo e da distância.

quinta-feira, setembro 27, 2018

aconchegando






senti meu rosto entre meus dedos
chovia choro com chuva
um sal doce de mim mesmo
sem síntese resumo eu cru

toda minha história em minhas mãos
meu molhado mistério no olhar
desabafo da enchente e seca da pele

minhas dores me reforçam
se afogam sequidão se secam inundação

grito carne berro alma minha razão é outra estendo aconchego a quem ainda não se encontrou lar.
+às 18h17, Rafael Belo, quinta-feira, Campo Grande, 27 de setembro de 2018+

quarta-feira, setembro 26, 2018

enquanto eu dormia (miniconto)






por Rafael Belo

Minha face era desconhecida até para mim mesma. Parecia delicada, confiante, uma perfeita máscara social, mas por trás desta adaptação sintética há algo mais pesado. É como olhar para frente e para cima, mas na verdade ter dor na nuca porque meu rosto vive voltado para o chão com o peso de tantas câmaras misturadas às camadas de quem não sou. São tantos cadeados nas fechaduras desta máscara de ferro que já nem lembro mais quais os códigos da libertação.

Cada número está na minha frente. Eu os vejo, mas não os entendo. Fico presa em um desconhecimento e em mim, desconhecida. Mas sou figura conhecida que muitos julgam serem amigos, conhecer… Eu rio de nervosa, chego a perder o controle dos músculos e tremo. Depois procuro os motivos dentro do vazio dentro de mim só para me cansar. Eles fogem. Como demônios me possuindo, se negam a dizer o nome e eu sigo no desconhecimento ao não pertencimento.

Enquanto pensam eu ser muralha, estrutura, firme bloco, eu desmorono. Vivo desmoronada como se insistisse em viver nas áreas de risco da cidade e todo ano as chuvas levassem tudo que tenho. Sempre um pouco mais que nada. Como dizer: eu não sei quem sou e não sou quem você diz eu ser? É tanta gente dependendo destas minhas máscaras que qualquer coisa fora do roteiro que eu faça vem direto para as minhas decepções e fobias secretas.

Hoje eu acordei no meio de vocês sem vocês saberem quem são. Vocês perderam a memória e não sei julgar se é egoísmo eu fingir também não saber quem são vocês porque, para mim, parece ser a primeira vez que vocês estão no meu lugar. Eu admiti não saber quem sou, ontem assim que terminei de descaracterizar minha personalidade quando todos esperavam que eu cantasse. Talvez tenham tido todas as dúvidas entre realidade, interpretação e ironia. Mas agora que liberei o monstro que sinto ser ainda não tive coragem de abrir o último cadeado. Parece que enquanto eu dormia soube finalmente decifrar todos os códigos dos meus cadeados.

terça-feira, setembro 25, 2018

pontuando errado








não sei se minha máscara veste o mundo
o quanto esconde aquela vela luz em mim
esta velha alma esperando o corpo
tirar as capas de um falso herói

uso tanta proteção virando dores
tudo é uma costura de ais
cada dobra em mim sofre em dobro

com tanto sintético me fazendo síntese
me sinto uma decoração de plástico

finjo fazer fotossíntese e ser um ponto final.

+às 16h08, Rafael Belo, terça-feira, Campo Grande, 25 de setembro de 2018+

segunda-feira, setembro 24, 2018

Estenda a mão






por Rafael Belo

Eu vejo máscaras por toda parte. Mas só quando não olho porque quando enxergo ali está a pessoa debaixo de tantos sentimentos enrijecidos nos padrões faciais feitos de traços de defesas pessoais. Há dor lá. Muitas cicatrizes e muita poeira para ser removida. Maquiagem feita para encarar os outros e as coisas que damos tantas importâncias. Na verdade, isso só cria distâncias, principalmente, de nós mesmos.

Estas máscaras vêm em um kit distribuído gratuitamente em qualquer lugar. Contém capas e proteções impedindo nossas sementes de germinarem, que dirá oferecer o florescer. Podemos ver os caminhos a serem percorridos, mas como se permitir correr o risco em um caminho não percorrido ainda? Estamos emergidos sem sequer termos feito a imersão. Precisamos da sensação de ser nós mesmos e esta precisa ser visitada e revisitada até voltar ao seu curso natural: de dentro para fora.

Podemos ter cuidado e cuidar para criar este fluxo e fluir. Ter cuidado com o outro na tradução do sentimento, não é ficar atento ao que este pode fazer contra nós. Pelo contrário. Ter cuidado é cuidar do outro, oferecer carinho, amparo, presença e assim nos cuidamos também porque vamos virando primaveras sem fim e acabamos por dar frutos e aquela vontade de cheirar, de apreciar, de curtir cada momento e dançar com o ritmo deste novo coração liberto.

Por meio das sensações e através delas somos nós mesmos. Desarmamos qualquer impedimento tolo capaz de gerar violência e contra nós mesmos e ao próximo. Assim, podemos enxergar o poder da paz que aduba a terra para o Amor, o próprio e aquele transbordando nos permitindo a liberdade de tratar o outro como a nós mesmos. Esta seria a Beleza da humanidade. Esta é a melhor forma da sobrevivência, de subir o próprio patamar para se elevar a vida e estender a mão para que o outro viva também.

sexta-feira, setembro 21, 2018

Está tocando minha música (miniconto)





por Rafael Belo


Está tocando minha música. É agora que toda conversa some. Todas as pessoas desaparecem. Todos os programas se apequenam, se solucionam. Visto meus sentimentos. Dispo meu sorriso. Sintonizo minha energia e ela me conecta com outro alguém na mesma vibração. Não há peso. Não há músculos. Sou um impulso deste sentir. Eu sou a pista. Eu sou o som. Sou o ar. Também sou a terra e o fogo. Sou toda a  água fluindo. Além de tudo isso… Eu sou a conexão.

Sou um encaixe dentro de mim, dentro do outro. Solta neste salão chamado ar livre, clamando o céu aberto, fluindo a energia compartilhada por todos nós quando silenciamos tantos impedimentos, tantos barulhos nos tensionando, nos pressionando dentro de tantas caixas, impedindo a gente de ouvir a liberdade nos chamar para dançar. Então, eu sinto o arrepio dançando na minha pele chamado o brilhante sorriso a tocar a alma já fora do olhar, a flutuar em alívio e evolução.

Meu corpo é alegria, alma e coração. Eu sou o ritmo desta canção, sou cada instrumento, sou minha própria pausa. Eu apenas reajo. Não penso. Sou... sentimento, movimento… Cada átomo da respiração. Sou pura emoção. Sou tempo e espaço. Eu e o Todo. É tanta profundidade interagindo com tudo e nada que nesta entrega eu vou... Meus olhos veem fechados. Não há prisão em mim. Não existem grades que me prendam. Não há infinito que me caiba.

Estou toda asas e só sei dançar para expressar gratidão. Minha pele inspirada lateja. Meus pés descalços desejam. Eu renasço a cada passo e me olho parte por parte inteira. Sou novidade. Curiosidade de como o Universo conspira em mim novos desdobramentos, ressignificados, retirando tudo o que é pesado para um transbordar desconstruído contínuo que me torno e eu o entorno embebeda desta poesia cósmica que começa a se sentir pelo ouvido e então tudo é orgânico, novo e eu vivo.

quinta-feira, setembro 20, 2018

e a gente dança






minha alma chora de alegria por incontenção
transbordando transferência de peso
indo de encaixe em encaixe flutuar
na leveza real de ser unidade

a emoção se movimenta em verdade
desenhando no chão a Árvore da Vida
na velocidade de um passo por arrepio

não há desafio para o corpo quando ele é alma
são sorrisos soltos em respirações

minhas conexões são luzes massageando a pele quando sou canção te sentindo comigo
e neste equilíbrio a gente dança.

+às 15h45, Rafael Belo, quinta-feira, Campo Grande, 20 de setembro de 2018+

quarta-feira, setembro 19, 2018

parei no meio da pista (miniconto)







por Rafael Belo
Eu parei no meio da pista. Estava em um salão de dança. Achava estar sendo observada por todos os lados. Na verdade. Era de um único lado. De dentro. Eu estava me limitando. Eu estava me prendendo. Eu estava desconectada de tudo. Estava precisando de uma limpeza. Estava precisando de menos. Mas cada parte do meu corpo que eu tentava soltar… Era uma dor medonha. Tamanha. Eu parei para me perguntar há quanto tempo venho me ferindo deste jeito? Há quanto tempo venho me condicionando em tantas caixinhas onde nunca coube ou caberia?

Foi como um colapso. Meus músculos não aguentavam mais, minha mente faziam minha cabeça doer… Era o fim de algo e eu nem entendia. Estou aqui. Estou parada. Não consigo ligar nada nem desligar. Gostaria de relaxar e mandar a eletricidade artificial embora. Está luz dela não me serve, nunca serviu… Parece estar ali oscilando quente prestes a se apagar ou com o objetivo de me hipnotozar, mas não me permite enxergar de verdade. Eu quero a energia das conexões, mas…

Onde estão? Gostaria de poder enxergar… Gostaria de poder fechar todos este olhos julgadores, gostaria da leveza das folhas quando soltam suas pétalas para a mais leve brisa a direcionando a própria vontade… Mas, talvez seja cedo demais para mim. Então, vou deixar aqui neste lugar. Nesta pista fria irregular, neste salão vazio e assustador, nesta lista de cobranças de movimentos, de passos, de ser melhor na vida, mas eu sei só poder me comparar a mim mesma!

Quero sentir o que sustenta este piso, o que está abaixo deste chão, mas a conexão precisa vir de mim, desta energia que meu cérebro comanda organicamente para o encaixe dos membros no corpo, se esforço, sem músculos, tudo ascendendo a chama do meu coração para a minha alma. No entanto, eu preciso de calma, de silêncio, quero meu campo distante, minha praia deserta e, por enquanto, só consigo ser esta cidade barulhenta nas cobranças incabíveis sem fim. Até mudar vou estar parada no meio da pista sem ser quem eu sou.

terça-feira, setembro 18, 2018

tensão





não teve olhares
o toque era frio
a distância pesava entre os dois
eram duas bolhas

cheias de passos repletas de movimentos
todas os sentimentos estavam espalhados
eu olhava meio de lado rígido

só sentia a tensão sem nada do sentir
caíram todas as conexões

aquela transferência de peso não tinha consciência não era dança.

+às 14h36, Rafael Belo, terça-feira, Campo Grande, 18 de setembro de 2018+

segunda-feira, setembro 17, 2018

Para melhor escutar





por Rafael Belo

Eu sempre tive vontade de dançar. Parecia algo inerente ao meu corpo. Se eu fechasse os olhos meu corpo se moveria inspirado pela letra, instrumentos, melodia, pela música... Sempre me inspirou. Eu me divertia, mas alguma voz inadvertida me repreendia por algo não estar certo. Passos, ritmo, dança... Também sempre desconstruí palavras, rimas, significados, imagens, sentimentos, respirações. Aliar tudo isso a fechar os olhos e harmonizar o corpo com o invisível me ressignifica mais uma vez. É terapia dissociativa unida as palavras do universo.

Neste verso eu me crio, recrio, silencio, sorrio e grito. Dançar te prepara para a vida e te desmonta. Há expressão de tudo isso em duas personificações: Brenda e Anderson. A história deles. Tudo que a dança fez e faz até aqui com estes dois. A alegria incontida ali. Aqueles sorrisos livres e iluminados. Entender o sentir e o sentimento pela leveza e intensidade do toque. Limpar a mente. Relaxar o corpo. Dá uma clareza para dançar até nas sombras. Dançar é ser poesia. Ah, e eles são Poesia.

Estar trocando experiências com Brenda e Anderson foi mais um degrau evolutivo, não só na dança, mas na vida. Em dois dias reduzidos a poucas horas - porque não há tempo para dizer ser o suficiente -, eles lembraram a todos ali presentes, compartilhando, que a primeira expressão da alma é o movimento, o silêncio, a concentração, o relaxar, uma descoberta constante do equilíbrio e da liberdade do corpo. Diante de tantos obstáculos na vida, no tempo deles, eles foram lá e dançaram, ressignificaram os problemas, as dores, os amores os traduzindo em liberdade da ponta dos dedos dos pés até o último átomo sobre a cabeça.

Brenda Carvalho e Anderson Mendes são seres humanos únicos construindo e desconstruindo diariamente provocando reflexões e muitas emoções com o que mais amam: a dança. Como cada um de nós que parou de repetir e passou a questionar, a liderar a si mesmo, eles ensinam os primórdios do ser humano. Os primeiros momentos de aprendizagem, a pureza, a atenção aos detalhes, a cada parte de si mesmo e assim elevam a arte de dançar porque cantar ainda necessidade de som, mas o corpo para dançar completo, inteiro, íntegro, puro, precisa do silêncio dentro de si para melhor escutar.

sexta-feira, setembro 14, 2018

Estamos em guerra (miniconto)







por Rafael Belo

As pessoas cultuam a saudade e a dor por aqui. A sociedade da dor e da saudade. É o que move a economia neste mundo destruído. Nesta terra desatenta, os joelhos se dobram sustentando o mundo, as culpas, os mares se formam de saudades transbordando em deturpações latentes, queimando, dilacerando estes alimentos adulterados com vidro moído nos triturando por dentro, nos matando para desvalorizar as pessoas e valorizar objetos, status, a velha aparência padrão desdenhando de pele, corpo, classe...

Eu era estas pessoas. Tentei derrubar este sistema e posso dizer que estou morta. Para a sociedade, para o sistema... Venderam minha atitude, minha voz, tentaram me deletar da existência, mas havia muitos backups de mim por aí e os downloads foram realizados com sucesso. Eu viralizei e a cada tentativa de sumirem com algo, apareciam milhares de avatares meus contaminando cada clique com views desta sociedade lucrando da nossa dor e transformando a saudade quase em uma maldade...

Quando derrubaram todo o sistema para hackearem toda a tecnologia rastreada deste mundo do avesso, eu realmente tive de desaparecer. Dada como morta, não poderia morrer novamente, não poderia aparecer que qualquer câmera ou smartphone me denunciaria e em instantes meu mito seria arrancado de toda a existência. Eu tive que aprender a sentir dor e saudade novamente. Minha insensibilidade crônica causada pela Síndrome de Riley-Day me fez viver uma jornada em busca dos meus neurônios sensoriais...

Haviam células troncos experimentais capazes de serem redirecionadas para a criação destes neurônicos. Funcionou e adivinhem, virei experimento. Todos viram a primeira vez que chorei, que senti dor, mas eu aprendi biológica e neurologicamente a não permitir ser dominada pela tristeza na hora da saudade e pela negativada na hora da dor. Então, eu ria ao chorar também, eu sorria ao lembrar do passado, das pessoas... Eu era uma anomalia de risco. Eles me consideraram um risco ao equilíbrio nacional e hoje eu sou uma foragida. Não estou sozinha e nem original pareço diante de tantas distopias, mas eu sou real e desperto ao menos a reflexão e só de causar este risco causei o colapso desta economia. Estamos em guerra quer você saiba ou não.

quinta-feira, setembro 13, 2018

por ter






deitei na grama matinal
o orvalho se misturou a mim
fiquei imóvel até ser parte abstrata
daquele ciclo concreto

sorri sozinho sendo solares raios
contei tantas quedas mas não doía
veio a saudade deitar comigo

desta grama fértil  escavei reforços
sujo de terra verde céu

suspirei aqui juntando tantos eus felizes por terem saudade.

+ Rafael Belo, às 17h11, quinta-feira, 13 de setembro de 2018, Campo Grande+