quinta-feira, agosto 16, 2018

quando a alma se vai






apago tudo da memória para tirar
o peso da minha história e ser leve
breve onde tentam me usar como degrau
eterno no reinício da inocência transformada
em crença neste eu não há urgência
vem e vai essência destemperando meu sal
dou aval até deixar de acreditar
não há julgar no meu abraço
meu espaço é coletivo
ou desinteressado ou emotivo
sou vivo até na dificuldade de dizer
que algo é meu já que tudo vai tão rápido
meu ser larápio rouba as horas
as amarra na aurora até sozinhas
as amarras se soltarem e a marra
deixar de ser expressão
de certas caras sem tempo.

+às 12h47, Rafael Belo, quinta-feira, 16 de agosto de 2018+

Desta posição (miniconto)



por Rafael Belo

Eu não conseguia me sentir boba como eles diziam que eu estava sendo. Achava normal ajudar mesmo naquilo ao qual eu nada tinha a ver. Não via problema algum. Parecia parte da minha rotina. Descobri mais tarde ser exploração, crimes trabalhistas… Mas não adiantava ninguém falar sobre mim… Tudo o que eu sentia era meu e de mais ninguém. Aquelas doenças todas psicológicas e físicas ainda são um mistério…

Eu sou Inocência. Não é natural de mim ser inocente? O que mais eu seria? Fui até presa… Verdade que logo disseram ser eu a própria Inocência e tal fato foi constatado… Mas, diz o ditado… É equivocado todo aquele pensando ser espertalhão ou seria malandrão? Bom, eu só sou eu mesma não sei ser mais ninguém e venho mesmo me embebedar esperando nenhum macho vir me incomodar, a não ser venha…

E daí se eu perco a noção. Ninguém tem mais noção de nada mesmo. Eu canso de ver me interpretarem da pior maneira quando acho ter dado a única intenção possível. Eu me sinto clara como a luz do dia, mas aí o tempo não pára e vejo a paranoia que não possuo me rondar como assassinos seriais da mente alheia… Fu….. tudo. Eita! Não sou tão inocente assim

Minha mente é só minha até eu me perder neste meu nome e sei lá. Já desconheço minha identidade, o meu lugar, onde estou, as direções se misturam com as emoções e tudo fica desconhecido sem sol sem lua nem céu há mais. Só vejo o chão quando sou recheio de uma multidão de botas sujas fingindo distração… Aí quando dizem que sou ruim acabo acreditando da posição onde fiquei.

terça-feira, agosto 14, 2018

apidéias








saio ouvindo os sonhos e vou vendo abandonos
abanando donos de nada
feito gente inocente injustiçada içada
pelo pescoço como um animal de estimação
eu vou na direção de tentar plantar independência no buraco da ausência
que costuma estar sempre no mesmo lugar
pareço estar plantando em pedras terras devastadas
mas sempre há coisas inesperadas
fazendo a pedra furar
aí me vejo águas represadas
desviadas da sua correnteza natural
me jogo no meu infinito lago artificial
mergulho em apnéia porque há aqueles
dias sem idéias onde só queremos respirar.

+às 14h49, Rafael Belo, terça-feira, 14 de agosto de 2018+

segunda-feira, agosto 13, 2018

Olha a inocência







por Rafael Belo

Você já assumiu o quanto a gente quer que gostem da gente? Mesmo quando nos esforçamos para sermos autênticos e nós mesmos... Seja lá quem formos... ? É natural querer. Não queremos que nos rejeitem, que nos odeiem... Tudo ao nosso redor durante o nosso desenvolvimento dá a entender inocentemente que somos únicos e especiais, uma inocência que insistimos em manter. Uma proteção egoísta que acaba sendo só para o bem de quem protege. Podemos até chegar a maturidade de não ligar a mínima para o opinião dos outros, até realmente nos tornarmos únicos e especiais para nós mesmos e para algumas pessoas, mas até lá ainda temos esta tal inocência em uma país onde a exaltação é a malandragem e a malícia. Mas devemos perdê-la?

Quando finalmente este sistema lucrando com nossa insegurança nos faz perceber que a vida não é um filme que não entendemos acabamos desacreditando em partes em relacionamentos cantando o mantra de que não era a pessoa certa, que a pessoa certa irá chegar... Até nos cansamos tanto a ponte de nos afundarmos em relacionamentos ruins com medo de ficarmos sós, ou então desconfiamos quando está tudo certo achando estar certo demais e ter algo errado, criando bloqueios e comparações ou ainda transformamos aquela velha inocência em aprendizado seguindo em frente e não deixando de acreditar sermos todos seres humanos cheios de falhas crescendo diariamente. Mesmo assim não simplificamos nem uma conversa e...

São tantos códigos possíveis nesta conversa que a clareza precisa ir além das palavras e dos gestos. É preciso dizer exatamente as intenções e ter a vivência de entender que erramos e também as intenções mudam. Não somos uma coluna de sustentação de algum imóvel antigo tombado. Podemos despir de nós todas as exigências das sociedades e ainda assim manter a inocência de uma criança, mas sem deixar de tentar diferenciar sinceridade de conveniência e manipulação. Afinal, inocência e ser trouxa e capacho são totalmente diferentes. Até porque a falta de caráter motivando tratar qualquer pessoa como trouxa e capacho é de quem tem a atitude cretina do tratamento.

Precisamos desta inocência da infância editada para não sermos explorados com medo de perder “amizades”, de “acabar com a relação íntima”, da reação do outro, de sermos julgados, de não dar certo, de sermos demitidos... Se não for dito, não será adivinhado, precisa ser exposto, iluminado, inocentado todos aqueles que têm a coragem de acreditar nas pessoas e que sofrem as retaliações (consequências), estes sabem encontrar a paz. Vamos assumir tudo que precisa ser assumido, não importa o que digam.

sábado, agosto 11, 2018

Vamos voar (miniconto)





por Rafael Belo

Eu me esqueci... Fui à pouco! Foi por pouco que me lembrei, mas me segurei e me deixei. Um quase se perder... Assim me encontrei aqui, neste agora. Tomei uma distância de mim, tomei fôlego e corri para no caminho decidir ter sido, estar sendo minha última corrida. Eu precisava de uma trilha sonora sem nada me incomodar. Ia correr e dançar. Aliviar e respirar, mas pela primeira vez... Calmamente... calma mente... Calma, mente... Assim, com pausa era antigamente ontem quando ainda me enganava e fingia calma. Eu tinha que me lembrar de sorrir, lustrar meu brilho...

Acionei minha playlist Girl Power Bad Ass e lá estava o sorriso perdido. Nada em mim mentia mais. Eu não acumulava, não deixava para depois, não fazia um monte de coisas ao mesmo tempo... Acabou a competição! Só nunca vou esquecer tudo que perdi achando que ganhava... Ainda acharei a cura para esta dor. Não fui responsável, mas se ao menos eu tivesse dormido mais antes de dirigir... Ou nem ter ido... Mas já não dói tanto, já não me leva de um extremo ao outro... Já passo pelo túnel escuro só com minha própria luz própria.

Consigo pensar melhor e também não pensar em nada. Posso refletir tranquilamente sem surtar, sem me acusarem de estar na TPM, sem ter ataque de sinceridade quando não é sequer necessário e ficar em silêncio quando deveria estar tendo o tal ataque de sinceridade... Se corro ainda agora já não é mais fuga, é aquele encontro comigo mesma... Uma desconectada deliciosa, uma calma tão contraditória ao personagem vestido por mim como se eu fosse e eu assim acreditava... Tudo isso por tão pouco. Esta minha paz deste instante não vai mais ser perturbada sem a minha reflexão.

É só levantar a cabeça deste mundinho de ansiedade, disperso e imediato onde mergulhava para respirar, para perceber que eu sou o satélite definitivo construído, mas se desconstruindo em cada passo para ser nova, uma supernova tocando o sol e saindo mais viva, não ilesa. Não saímos de nada ilesos! Você acredita nisso? Meu superego estourou e ainda ouço o ar saindo quando pouso meus pés no chão. É raro eu sair da minha lua, prefiro levar algumas pessoas para lá, essas que como eu, de vez em quando, se libertam e lembram saber voar. 

quinta-feira, agosto 09, 2018

encontrada





meu eu espelho me olha como se me visse
mas nem usamos palavras é uma reflexão silenciosa tecida em lembranças dessas
músicas que a gente nunca esquece
e tece nova teia em cadeia universal
com escalas lentas sem repetição
cada vez que paro sou novo
povo da rede desamassa
vejo tudo que passa e nem corro
morro um pouco para viver
e ninguém tem que ver
quem dirá saber
sou individual e trato os outros como me trato
sou sua solidão com energia
digo para o espelho com tranquilidade
percebo a cidade acordada encontrando o coletivo
aditivo do reflexo fechando os olhos tomando decisão e da aceitação vem o necessário nos aliviar.

+às 11h34, Rafael Belo, quinta-feira, 09 de agosto de 2018+

quarta-feira, agosto 08, 2018

Comprometida (miniconto)




por Rafael Belo

Se eu Não me entendo, como alguém entenderia? Por que eu insisto nisso?! Vou forçando até me arrebentar… Como posso ficar satisfeita com alguma coisa? Preciso da opinião das pessoas e a maioria nem conheço… Preciso de autocontrole e nem conheço… Preciso dormir e esqueço... Aliás, venho esquecendo tudo e como toda mãe, a minha insiste que só não esqueço minha cabeça porque está grudada.

Aí eu sinto falta dela e assim que vou visitá-la desarrependo de ter ido morar sozinha tão cedo… Ela também me faz lembrar o motivo e… Já estou atrasada. Nem tive tempo de cansar ou seria descansar? Estou tão confusa quanto o rumo destes políticos… Cadê minha agenda? Será que eu apaguei o app? Cara. Preciso de tempo pra chorar… Será que sobra?

Vou colocar na agenda e pronto. Agora sim. Quanto tempo será que vou poder chorar? Sinto que estou precisando muito e o que vocês acham, meninas? Estou louca pra aumentar o seios e um pouquinho a bunda também… Quem aí já fez? Você vivem me fazendo acreditar que sou incrível e eu acredito, mas quero corresponder a expectativa de vocês e…

Quando eu chegar a 2K de seguidores vou mandar surpresinhas no direct de vocês e sortear algumas coisas. Já estou atrasada de novo. Será que dá tempo de surtar um pouquinho antes? Eu vou ter que encaixar aqui entre as selfies das 15h e a sessão de fotos das 15h30… Não! Vou ter que tentar encaixar amanhã vou ao salão e ver o crush e postar a indireta para aquele contatinho novo… Preciso dos meus ansiolíticos. Aí ansiedade, me solta!

terça-feira, agosto 07, 2018

reflexo







descobri que o que me causa esquecimento
não é idade tempo insônia estresse o acúmulo das coisas mas a desimportância
desimporta coisas pequenas falas miúdas
me acabo esquecendo delas
me importo com as pessoas com a presença
meço as ausências a partir das minhas
apenas meu estar é necessário
ou desnecessário é arbitrário  
ambíguo bipolar
aí eu penso se há tempo para tudo
tenho tempo para me perder
quando multiplico estes meus pólos
e tudo parece uma grande esquizofrenia
porque no meu ser sou muito sou todos
alegria agonia
perdido no labirinto da repetição
sou uma multidão tarja-preta
pululando da teia mundial da ansiedade
uma mídia sociedade perdendo o senso coletivo
olhando em um espelho sem enxergar reflexão.

+às 14h34, Rafael Belo, terça-feira, 07 de agosto de 2018+

segunda-feira, agosto 06, 2018

Falhas diárias



por Rafael Belo

A busca pela juventude eterna de um lado e a ganância sem escrúpulos do outro é o resultado da nossa superficial sociedade do individualismo extremo e da competição exagerada. Todo dia casos novos de mortes decorrentes de procedimento estético feito em casas ou lugares clandestinos são notícias e não importa a gravidade irreversível da situação, mais pessoas vão atrás da mesma coisa do mesmo jeito com o mesmo resultado.

Insaciáveis que somos, justificamos tudo e buscamos o próximo resultado. Ainda sem fôlego, ainda sem respirar, ainda sem descansar… Tornamo-nos insatisfeitos natos. Chatos querendo doutrinar e criar um disciplina do nosso jeito demorando a nos darmos conta que se o outro não estiver fazendo o mesmo, ele está procurando ou repetindo, se não nós, alguém que considera bem-sucedido em algo. Lembrando que exceção não é regra e que cada um é de um jeito.

Isso não significa que é diferente a pessoa, o objeto e sim sua forma de lidar com isso. Antes disso somos indiferentes. Estamos concentrados nos nossos problemas, desta forma incapazes de aprender com a experiência do outro. Sempre vestimos o superego com capa e qualquer fantasia tendo certeza que não vai acontecer com a gente porque temos a prepotência de achar isso.as.podemos fazer totalmente o oposto disto... Nós não temos meio-termo apesar de vivermos em cima do muro confundindo imortalidade com eternidade. Nosso despreparo em lidar com a gente e com o outro é pessoal, social, familiar...

Aí “percebemos” que há cobranças por toda parte aliadas a uma desestrutura psicológica e uma exposição somática vinda com um kit de julgamento diário sem fim. Este ciclo nos leva a inúmeros escapes, mas acabamos escolhendo aquele que não nos faz bem. Escolhemos o que nos faz esquecer para seguirmos da mesma forma ao invés de resolvermos o problema. Não há como esquecer ou apagar, a gente acumula o que não supera. Mas, é difícil errar quando você escolhe se sentir bem, se sentir confortável, então pode perder o senso de coletividade nenhuma pessoa é obrigada a nada, mas precisa entender mesmo as consequências para cada atitude e posicionamento. Só reflita diante de tudo.

sexta-feira, agosto 03, 2018

Até na fila (miniconto)





por Rafael Belo

Sabe, eu comecei um relacionamento agora. Este palavrão que fingi por tanto tempo não querer. Claro! Eu nem sei se acreditava mesmo em relacionamentos… Quem acredita? Mal me relacionava comigo sem comparar com uma infinidade de padrões… Os homens e mulheres só viviam querendo o que? Serem patrões! Minha referência era isso. Está ausência de independência forjada em liberdade por aí…

É esta desconfiguração de aí meu amorzinho pra cá, ô meu chuchuzinho pra lá e aquele monte de diminutivos tão lindo para os apaixonados… Mistura com um monte de regra social, com vícios de comportamento e vem me comparar feminismo com machismo… Que ofensa grave. Nem pedi pra parar o mundo. Fui lá e desci. Quanta chatice este monte de elogio infundado sem atitude ou pior atitude planejada… Cadê a espontaneidade!

Eu perco o interesse na hora. Quero viver e morrer diariamente. Sabe que agora está acontecendo isso. Eu superei toda esta merda de complexos, traumas e este monte palavrão chamado comparação, submissão, possessão… Nem penso em como será amanhã?! Ninguém sabe. Retirei meus excessos de passado, futuro e imediatismo…

São tantas nóias pesadas transvestidas de palavras, de cobranças… Neste instante eu sei, sei não dever nada a ninguém, principalmente a mim mesma. Quando senti necessidade de uma intimidade bem próxima não suprida, olha suprida, pelas amizades meu coração simplesmente começou a tocar em uma batida diferente e cá estou eu cheia de clichês… Naturalmente como se fosse a primeira vez, mas sem peso algum. Sinto-me mais, livremente. Eu quero alimentar diariamente para, então, ser Amor até camelando na fila do pão.

quinta-feira, agosto 02, 2018

inusitar




havia tantas relações relacionadas
enquanto todo o resto desfocava
cada qual em seu tempo atual
o vento me respirava em um despertar

imensidões enfileiradas esperavam em ação
a reação sabia quando atuar
até o medo esvoaçando na barriga voar

os sons das minhas asas só aproximavam
sem portas telas janelas nem parede para cercar

total libertar ouvindo fluindo sem recuar O inusitar.

+às 12h05, Rafael Belo, quinta-feira, 02 de agosto de 2018+

quarta-feira, agosto 01, 2018

Contagioso ou contagiante? (miniconto)





por Rafael Belo

Aqui estou eu me lamentando, reclamando, chorando, gritando, jurando, prometendo, revidando, me vingando… De novo… Mais uma vez… Meu Deus! Quando vou aprender?! Por que sou tão cabeçuda assim? Invento de sofrer mais com o coração partido e ralo meu joelhos para me contradizer em pedidos divinos… Depois junto todas as dores e fico uma temporada sozinha achando o máximo até não achar mais e…

Eu sou a roda-gigante da montanha-americana da vida porque me sinto na Rússia… Não sei me relacionar comigo. Aff! Não sei o que quero comigo imagina com outra pessoa. Aí vou lá e começo uma relação sem liberdade para nada, me distancio das minhas amigas e paro de fazer o que gosto e deixo de ser quem eu sou sem nem saber quem sou, entende? Só escuta ou lê que hoje tô sem voz…

Como é isso de despossuir a vida e tomar posse de mim?! Parece tão sofrido e colorido… Só ser for de roxo-hematoma! Aff! Dolorido, sofrido como tentar fazer o mesmo com a outra parte da relação, o mesmo controle, as mesmas abstinências, as mesmas ausências, as mesmas cobranças, uma mesmice diária disfarçada de deslumbramento, aquela vidinha de antolhos,  de mimimis enquanto a paixão durar…

Aí tudo parece ruim e vamos dizendo que está tudo bom. Mantendo as aparências, maquiando as evidências (e cantando também)... E nestas insanidades vamos mantendo algo… Eu toda bloguerinha dando dicas de desastres futuros porque… É eu sei que isso vai acabar com minha carreira de Digital Influencer, mas cansei de dizer que é bom ser sozinha e depois desdizer dizendo ser bom estar apaixonada por alguém… Tenho meus momentos para ambos, só não estou preparada para andar nesta velocidade indecente das coisas não resolvidas, só passadas adiante, preciso me reparar comigo e Ei! Outro dia continuo…! Ai meu coração!!! Deu até palpitação entre Deus me livre, mas quem me dera... Olha o crush falando comigo…

terça-feira, julho 31, 2018

desrelação






lambia aquele cheiro tocado com o olhar
salivava ouvindo este som
tudo em mim arrepiava
a música era o vento na insônia


alguns cães ladravam outros uivavam
só se falava na lua cheia
talvez eu latisse se me confundissem


disse o silêncio algo para mim
assim na minha distância com relação


não havia um relacionamento que não me assustava e eu não dormia nem acordava.

+às 02h47, Rafael Belo, terça-feira, 31 de julho de 2018+

segunda-feira, julho 30, 2018

Há muitas formas de ouvir






por Rafael Belo

Sempre chego à Orla Morena tentando ser imperceptível. Paro, olho, escuto... Observo cada um ali. Recentemente o número de fumantes de narguile aumentou muito. Então, há muita fumaça ao redor e no meio de quem está ali dançando... Nada agradável. Fora o desrespeito intencional ou não de outros sons altíssimos rolando ao redor. Enfim, nem sempre consigo chegar e não ser visto. Quase nunca, na verdade. Mas, no último domingo consegui ficar em silêncio. Forçado, mas silêncio. Fiquei afônico. Minha voz se foi e etc... Isso me permitiu dar uma atenção a mais.

A particularidade das pessoas dançando... Ah, sim para quem desconhece em Campo Grande existe um rolê de dança permanente aos domingos à noite chamado Zouk Na Orla... Voltando, é singular realmente. Não há padrões para dançar. Cada um se sente à vontade no próprio corpo e conecta a música a ele e a quem estiver dançando junto. É um relacionamento puro, sem distinção alguma. Quem assiste da arquibancada de um palco ao estilo mini Coliseu, vê diversão, sorrisos, alegria e estamos falando sem distinção de sexo, raça, classe social nem gênero.

Eu vejo desta forma um objetivo de qualquer tipo de relacionamento. Amizade, Amor, Família, trabalho, cotidiano... É clássico, é clichê, mas fato. Basta prestar um segundo de atenção ao redor e vai explodir no nosso rosto a quantidade de desencontros na vida. Enquanto uns relacionamentos começam outros terminam e cada um traz o que preferir destes ou aquilo que não conseguiram superar ou precisam se curar para prosseguir. Por isso, não acredito existir só um caminho para nós. São desafios diários e constantes onde precisamos parar de desencontrar com nós mesmos. Nós nos relacionamos primeiro com a gente mesmo e em seguida encontramos alguém ou alguém nos encontra... Não há regras além do respeito. Mas, fazemos ao contrário começando a achar que nos encontramos no outro, a nos relacionar com o outro sem sequer nos conhecermos ainda e tudo bem...

Sabe se lá quantas vezes vamos nos aprisionar para entender que ser livre não é ser sozinho, nem estar só, mas somar ao outro e preservar o espaço deste indivíduo. Claro, nós conseguimos ser solitários, ficarmos sós e é saudável e é possível, mas eu só cresço de verdade quando compartilho, quando falo, quando converso, quando estou com outras pessoas. Não importa a quantidade de livros convertidos em conhecimento pessoal, os diplomas colecionados, as línguas faladas, o emprego, a empresa, o veículo, o quanto me divirto, as posses, as quantidades, se nada acontecer daí... 

Por isso, tento zerar todos os dias, respirar fundo e ir. Simples. Olhar o outro, sorrir e não fugir das possibilidades. Nós ainda não chegamos a atingir nossa capacidade de Amar. Estamos aqui, pequenos, querendo algum tipo de controle em uma relação quando, como na dança só precisamos ouvir, dar a intenção, expressá-la de forma a ser entendível e deixar o outro livre para criarmos juntos “A” conexão, a relação, então aos poucos nossa pequenez se agiganta.

sexta-feira, julho 27, 2018

Despertar (miniconto)






por Rafael Belo

Começamos com algumas. Éramos poucas, mas juntas chamamos atenção. Nossos pés sangram. Nossas vozes sangram... Ainda assim continuamos e gritamos! Nós não paramos. Há uma indignação em nós precisando ao menos sair do peito. Chamamo-nos Artes, nos chamam Mulheres. A gente só quer ser ouvida. Não! Não é só! A igualdade vem antes! Queremos criar... Então, nos trancaram em caixas, nos separaram... Tento entender o que fizeram... Foi um período de descrença, de ataques pessoais, de desunião. Parecíamos frágeis e submissas... Parecíamos...

As aparências sempre enganaram. Estávamos ali nos juntando, nos pintando, nos versando, sentindo novos passos surgindo, novas danças, novas canções... Estávamos apagando o invisível e quando subimos ao palco novamente não foi mais esporádico, não havia mais como nos roubarem, retirarem nossos créditos, sabotarem nossa força. Somos artes. Somos valorização. Começamos a revolução? Não, ela já vinha. Ela não parou. Estava sufocada pela mídia como as guerras intermináveis divulgadas como novidades.

Nosso grito de guerra sempre foi: artista não anda só. Estamos despertando todos os dons capazes de estapear a sociedade. Estamos onipresentes. Onde olhar verá algo da nossa responsabilidade e isso irá te tocar. É poesia! É dança! São olhos fechados! São as artes! Quem não esta compartilhando o espaço com a gente, infelizmente, está desaparecendo. Descobrimos a tempo, então te chamo para vir conosco. Temos a cura, mas quem quer o poder pelo poder, não quer a cura...

A cura está no coração, a cura está na alma... Vocês não escutam nem veem agora, mas Eles estão chegando para tentar tirar isto de nós. Eles começam destruindo sonhos, apertando às jornadas de trabalho, encarecendo tudo, roubando nosso tempo, nos induzindo a escravidão, nos desvalorizando, tirando nossa sobrevivência, mas dons e sonhos não morrem por mais que digam que sim. Eles chegaram, mas desta vez não resistiram ao nosso Templo de Cultura. Hoje não somos nós que choráramos de dor... São Eles que choram pelo Despertar!

quinta-feira, julho 26, 2018

artida






está paga reconhecida
toda a imaginação retribuída
fomentando a alma do mundo
a conhecer a fundo o filtro artista

no palco chão a apontar o coração ativista
batendo na razão para reflexão
na flexão da inspiração protagonista

curando dores criando pontes
na extrema valorização da vida

entregue sem descarte a toda nascida arte.

+Rafael Belo, às 12h02, quinta-feira, 26 de julho de 2018+

quarta-feira, julho 25, 2018

Vou só (miniconto)







por Rafael Belo

Caminhava eu sozinha em busca de mim mesma quando vi à frente muitas mesas. Havia esquecido completamente de mim. Foi minha entrega às artes que me trouxe a tona de minhas profundezas na primeira vez e, ali à frente, sobre a mesa eram outras coisas já possíveis revelando o fundo. Garrafas vazias, restos de comida e o silêncio afogado junto às mágoas... Era um espaço fantasma abandonado ali naquele ponto escuro da cidade. Havia todo tipo de arte exposta. Roupas, pinturas, desenhos, poesias, encenações teatrais, músicas, danças...

Mas, as pessoas estavam todas no chão. Não sabia se era ilusão, loucura ou morte súbita por problemas internos. Se esta fosse a causa da suposta morte eu... Comecei ali mesmo contar qualquer coisa capaz de me matar e contei vários corpos de meus eu’s na mente. Sobrevive das migalhas, dos favores daquela caridade de quem detesta Cazuza, daqueles juízes, júris, vizinhos, colegas colocando pedras em cada morte que me ajudavam a morrer...

Estava internada no hospício proibido do mundo. Levava choques da hipocrisia diária ao vivo. Meu nome já foi Valorização Silva, acreditem... Filha de artistas tem nomes insensatos ou sensatos demais dependendo o que for a sensatez... Pensando bem, se é que ainda sei fazer isso, esta história pode nem ser minha. Já pensou se tudo que você sabe sobre você fosse sobre outra pessoa ou pior fosse a história de todas as pessoas capazes de mostrar outros caminhos para ver os detalhes da vida e o todo dela?

Há vozes por aí dizendo de alguma forma o que queremos dizer não tem? Até hoje eu não entendo como oferecem dinheiro de somas impensáveis pelo meu corpo, por sexo e não querem pagar um real pelo que almas e corações revelam, expõem criam do nada, esculpem da inexistência... Compramos coisas caríssimas e nos endividamos, mas pagar para ver, ouvir, refletir, dançar é um absurdo... Tem algo me chamando para este templo apagado cheio de luzes... Será suicídio seminal? Estendo minha mão e pergunto para o Nada: quem vem comigo?E vou só!

terça-feira, julho 24, 2018

enviver




não há nada de graça
existe um tipo de custo até para a garça
voando depois de um Rivotril na mata
porque até perder o sossego mata

imagina o artista entrando na guerra atômica com faca
só sobrevive sincero com a própria arte na maca
armado não com pincéis canetas grafite voz tinta lata

vai nu com a imaginação em prática
colorindo sem medo tanta vida pálida

ninguém quer pagar para ver valorizar o que nos faz viver.

+às 13h21, Rafael Belo, terça-feira, 24 de julho de 2018+

segunda-feira, julho 23, 2018

Pagar para ver






Por Rafael Belo

Reunir a cultura em um mesmo espaço é algo de elevar a alma quando a reação do público é de surpresa e imersão. Mas, também é um “desego”. É se despir do orgulho e mesclar a individualidade ao coletivo, a doação de si e da própria arte. Não há espaço para a solidão. Artista não anda sozinho. Todas as áreas das artes precisam se juntar para que o respeito a todo artista seja restaurado. Artistas locais, artistas familiares, artistas sem a projeção nacional tanto reverenciada por toda parte.

Existe a campanha valorize o comércio local, compre do pequeno. Que tal promovermos: “valorize o artista local, incentive esta profissão. Pague para ver”. Nós precisamos desta cultura. A arte salva vida, mostra aquilo que no cotidiano não vemos, alimenta nossa alma... Afinal, de que vale se matar de trabalhar e não aproveitar, nutrir o corpo e deixar morrer a alma? A arte pode até ser hobby para algumas pessoas, mas só o é por falta de valorização, pela depredação diária, pelo vandalismo constante a quem tenta sobreviver de música, dança, artes plásticas, teatro, literatura e tantas outras áreas artísticas... É esgotado pelo mercado que se aproveita da situação do artista.

Quem nunca ouviu ou disse alguma vez que tal show é caro, que tal apresentação é cara, que tal artista está ganhando muito, não sabe ou soube o que diz/disse. É tanta negociação, despesas para quitar e o problema da maioria dos brasileiros que mal sobra para investir no próprio crescimento e todo convite para apresentar a arte é aceito consumindo de maneira ingrata e violenta o profissional. Cultura não é gratuita. O artista de profissão vive disso e como viver se não querem pagar, só consumir e abusar do dom desse ser humano?

Alguém precisa pagar. Artista não vive de ego, afagos, promessas, elogios, visibilidade... Ele passa horas sujeito a dezenas, centenas e, se tiver muito treino, suor e sorte, milhares de pessoas o cobrando, o avaliando, o julgando de uma forma até desonesta. Quem aqui não tem uma música que marca, marcou? Um filme? Uma fotografia? Ou gostaria de aprender a dançar? Isto é fruto de muito gasto, treino, tempo, insônia de um ser humano com o dom da arte. Claro que gostamos do consagrado, dos monstros das artes por aí, mas que tal valorizar aquele amigo, aquele artista do seu bairro, da sua cidade, do seu Estado e não só ir aos shows e apresentações, mas pagar para ver literalmente?