sexta-feira, julho 20, 2018

Impagável (miniconto)





por Rafael Belo
Quando olhei ao redor me senti em algum filme ruim. Todas nós estávamos sofrendo o mesmo bizarro clichê. Era a mesmíssima cena. A intimidação e eu tive que gritar. Éramos um grupo de 50 mulheres de todas as idades. Todas com idade para responderem por si mesmas. Todas já haviam sofrido assédio antes e sofreriam depois… Todas ainda sofreremos. Mas, nunca em silêncio. Não mais!

Andávamos juntas para nunca mais nenhuma de nós passar pela intimidação, pelo assédio, pela agressão, esta violência diária que nos assola… Somos o “Ninguém é Obrigada". Chega de violência. Estamos em sintonia. Esta sincronicidade mostra nossa unidade. Eu me via em cada uma delas e elas viam o mesmo. Éramos perspectivas diferentes de um sentimento de indignação, imposição e a antiga ordem da sofreguidão…

Elis Regina nos representa! Tão sofrida, tão talentosa e até hoje inigualável. Clarice também que reconheceu a visceral Carolina Maria de Jesus… Que Mulher!! Nesta escravidão moderna o amor vira carne e a sociedade pensa em nos mastigar em um ruminar dominante nos comprando com estética, status, promessas… Sai dessa! Não há fragilidade por aqui! Eu só me acho agora e não me perco mais!

Mas não sou só! Jamais! Somos um explorado campo de girassóis sem fim... Largue meu braço sociedade Neanderthal! Solte minha língua, não controle meus passos, não me obrigue a me multiplicar mais, quando descubro minha força não há caverna que me prenda, que me esconda, não há excesso nosso que chegue diante toda esta dívida impagável à nossa igualdade, aos nossos direitos, aos nossos valores, ao respeito pelo ser humano que somos. Mulheres, só vamos!  Nada de assistir nem ser coadjuvante de filme ruim, porque sempre fomos protagonistas!

quinta-feira, julho 19, 2018

não obrigada



saiu nua na tua própria rua
indefinida forma feminina
física alma independente
dona de si efervescente

oceano concentrado em derramar ondas
descamar peles sair de carnes tantas
tontas desta montanha-russa vida

envolvida com quedas livres
pela própria liberdade mulher

quer ser o ser incrível capaz de nada ser obrigada.

+às 15h43, Rafael Belo, quinta-feira, 19 de julho de 2018+

quarta-feira, julho 18, 2018

de novo (miniconto)





por Rafael Belo

Mais uma insistência em tão pouco tempo. Não, não é sim. Esqueça está história se eu nem te.conheço. Respeita meu espaço, olha meus olhos, meu rosto. O prazer do corpo, de suprir uma talvez carência não vale à pena apenas por ser. Só causa mais vazios. Que homem vai ouvir isso? Amiga, presta atenção. Homem espera até um certo tempo, mas só vai conduzindo conforme nós, mulheres, nos mostramos.

Seguem em busca do nosso corpo, da nossa dependência, da nossa carência… Não adianta dizer que não são todos. Felizmente não são. Mas, achar alguém que realmente soma e divida… Só venho acumulado vazios desses que tentaram só manipular. É difícil ver o todo quando focamos só nos detalhes porque mesmo o todo não sendo os detalhes, os detalhes são o todo…

Sem os detalhes acabamos assim, mas sem o todos nós acabamos. Eles fingem não querem nada sério e quando isso acontece eles se afastam e usam este argumento, aí quando o ego de macho alfa é ferido voltam e ficam tentando nos prender neste ciclo da carência deles, que não conseguem ficarem só com eles mesmos e vem perturbar nossa sanidade.

Amiga. Eu estou misturando tudo. Já nem sei em quantos shots foram, quantas garrafas virei… Isto é o que eu acho que estou dizendo né?! Porque amanhã você vai me dizer que não foi… Estas relações que me meti são assim… Só estão na minha mente, só eu enxergo… Aí o primeiro que demonstrar carinho eu desmonto, dou corda, não demonstrou e lá vou eu achar estar apaixonada de novo. Você vem me salvar ou não?! Estou quase fazendo merda de novo!!

terça-feira, julho 17, 2018

não recomendada





não se sabe quantas voltas foram dadas
nesta disléxica palavra profana didática
sintomática do medo da mecânica sistemática
do destrato do poder do homem ruminante

minúsculo querendo dominar maiúsculo
todo o crepúsculo independente Mulher
sob os velados hematomas da ofensa

dizendo forçando gritando por aí em mal-me-quer
na maquiagem pesada da aparência

em uma existência emprestada não recomendada para a igualdade.

+às 01h02, Rafael Belo, terça-feira, 17 de julho de 2018+

segunda-feira, julho 16, 2018

Disseminando o ódio







por Rafael Belo

Todo mundo quer ser livre. Mas, ninguém quer arcar com as consequências da liberdade nem com os contraditórios limites, mas se houvesse o mínimo de bom-senso, ao menos o que não gostaríamos que fizessem conosco não faríamos com ninguém. No entanto, somos ensinados a vencer, a conquistar, a ser o melhor independente do outro e acabamos focando apenas nos nossos direitos. Avançamos atropelando corações, corpos e individualidades.

O ser humano desrespeita particularidades e reforça a diferença dos gêneros, ao invés de reforçar a igualdade. Neste mundo patriarcal, machista, egoísta e ignorante os preconceitos estão em toda parte assolando a todos, principalmente, o sexo mais forte. Disseminando o ódio e o desamor. Assediadas o tempo todo, as mulheres não têm paz. Não há respeito. É uma perturbação constante já somando a luta diária por salário justo, tratamento por igual, reconhecimento geral onde não deveria haver qualquer diferença relacionada ao sexo oposto que incentivado se tornar chulamente mais idiota, babaca e nojento.

Homens pensam ser machos e querem tratar as mulheres como fêmeas e seguem agindo como animais... Poucos têm consciência da falta de obrigação com qualquer coisa que elas possuem. Elas podem tudo. São maioria, nós somos minoria. Vejo e vivo isso minha vida toda. Minhas avós, minha mãe, minhas irmãs, minhas sobrinhas, minhas primas, minhas tias, minhas ex e todo tratamento injusto permeado em piadas e em séculos de opressão... Nossa sociedade separou homens e mulheres em coisas que um deve e outro não deve, que um pode e outro não pode... Tornando “normal” algo que nem deveria existir...

Se somos todos iguais perante a lei, tudo deveria ser revisto para naturalmente nos tratarmos todos como seres humanos. Ao menos ensinado, reforçado porque sem isso, ao invés de nos fortalecermos, nos enfraquecemos com atitudes e atos assassinos alimentados por uma cultura falsa colocando as verdadeiras provedoras do mundo como submissas, as estigmatizando, as quebrando, as estuprando, as matando, e a maioria das vezes vêm de pessoas próximas e de laços familiares. Como confiar sequer em um abraço desta forma?

sexta-feira, julho 13, 2018

Veja! (miniconto)





por Rafael Belo

Eu respirei fundo tantas vezes naquele momento que me afogava no ar ao mesmo tempo que me asfixiava. Eu não acreditava que as pessoas eram capazes de fazer de um abraço real algo repleto de outras intenções. Duvidei de mim, me senti mal e me retirei. Fui caminhando para fora dali. Logo me sentia bem novamente…

Era necessário motivação para sair daquele lugar. Eram tantas pessoas perdidas, me perdi também. No meu caminho havia um rumo impensado, mas impresso em outro plano. Uma missão me convocava. Possíveis acidentes apareciam por toda parte. Um cachorro que chamei antes de ser atropelado, havia tanta gente que sofreria ao redor…

Uma conversa atenciosa com uma pessoa desiludida na ponte sobre a Antônio Maria Coelho, uma chamada no motorista distraído chegando ao semáforo no vermelho, um me acompanhe por favor para a senhorinha perdida pouco antes de um “cacho” de cocos cair no lugar… Eu não pensava em nada, só sentia um turbilhão de indefinições e descolamento.

Mas não me sentia mal, me sentia útil. Renovada! Restaurada! Um propósito ou muitos… Comecei a pensar que se fosse de outro gênero haveria desconfiança… Tão iguais, tão diferentes… Eu vejo a alma das pessoas vivas! Não é premonição, leitura de mentes, são sentidos, conexões de almas, atenção e tudo diz o que está para acontecer, mas há tantas outras possibilidades. Todo mundo pode ver!

quinta-feira, julho 12, 2018

restaurado



eu sou o inesperado
respiro fungo retrato
acidente do sistema retardado
sem esperar o amanhã

disposto a levantar mesmo se a vida arranha
espanca em uma direta mensagem subliminar
tomo um fôlego solar sem hora para terminar

dois comprimidos inteiros de intensidade
está tudo claro em verdade

não há choro nem vela só o desafio de ser luz nos vidros quebrados estou restaurado.

+Às 15h07, quarta-feira, 12 de julho de 2018, Rafael Belo+

quarta-feira, julho 11, 2018

catalisadora (miniconto)







por Rafael Belo

Havia algo atrás de mim. Eu juro! Eu sentia. Mas, ver… Ver mesmo só vultos. Eu me sentia mal. Disseram uma vez eu ter uma mediunidade única. Nunca acreditei. Na verdade eu sabia, mas me escondia. Tinha medo. Tenho medo. Não quero ter nada a ver com essas coisas. Mas, mulher em casa de maioria masculina tem que brigar o dobro e era só eu e meus irmãos. Todos mais velhos. Todos ligados a Igreja. Ninguém se aproximava de mim. Sempre achei que afastavam as pessoas ou eram inconvenientes com quem me visitava…

A verdade era outra. Só descobri hoje e há pouco me aceitei. Eu sentia a alma das pessoas quando me aproximava delas afetivamente. Demorou para eu entender não serem meus sentimentos sempre. Eu sou catalisadora empática, dizem. Não era necessário estar próximo para eu entender sem pensar a necessidade de resolução e fechamento de quem era próximo. Até por WhatsApp rolava. Se fosse no século passado eu seria carne de churrasco dos opressores…

Mas fizeram algo com minha alma logo que me afastei de tudo ligado a alma. Eu definhei, enfraquecimento. Estava aborrecida por ninguém contar o que houve com meus pais. Não sei o que fiz! Porém, sei que fiz.  Há uma pressão terrível no meu peito. Nunca mais frequentei nada capaz de aliviar as angústias da minha alma. Porém, o tal dom seguia… Doía. Imagens terríveis invadiam e invadem minha mente. Eu só consigo pensar como alguém pode desejar o mal. É muito tempo para esquecer de si e viver outras pessoas.

Só corpo, sangue e fome poluíram minha alma. Ela estava cega, voraz, sedenta, faminta e minhas quedas não  pararam mais. Já não sei qual a profundidade que atingi. Mas todo mal desejado a mim gratuitamente não são só palavras e não é grátis para ninguém. Eu voltei a alimentar minha alma, mas ela estava quase vendida para quem quer que tenha cuidado dela na minha ausência… Este retorno. Este retomar meu espaço… Gera um conflito grandioso demais. E eu achava que dormir mal era o motivo da minha energia estar sendo sugada. Agora eu corro desta sombra que tenta de novo me tirar da minha missão. Já houveram vítimas demais, talvez até fatais… E tudo foi omitido de mim. Agora eu sei o que fazer e já comecei a fazer! Não vou parar mais!

terça-feira, julho 10, 2018

estilhaços





o inesperado bate no meu rosto
deixa marcas cheiro gosto
um momento indisposto
alterando qualquer esperado adiante

diante de um susto um corpo
controlado pelo descontrole
um copo de loucura antes de dormir

ao sair no meio forma-se devaneio
meio comprimido de ausência lágrimas de banheiro

sobe um denso nevoeiro vidros inteiros estilhaçados.
+Às 15h40, Rafael Belo, terça-feira, 10 de julho de 2018+

segunda-feira, julho 09, 2018

Somos tão frágeis





por Rafael Belo
De uma hora para outra tudo pode mudar. Um milímetro, um milésimo de segundo, uma mudança de trajeto, um pouco mais rápido, um pouco mais lento... São tantas possibilidades a ponto das probabilidades de acontecer um acidente deixam de ser metade das chances e aumentam de forma desproporcional, mas isto é apenas mais uma possibilidade. Das infinitas vividas diariamente. Viver é arriscado e não há garantias de absolutamente nada. Há poucos dias me vi envolvido em um acidente bizarro. Até ontem minhas mãos tremiam e parecia que parte de mim ficou por lá, no local do acidente.

Uma pessoa transtornada com bebida alcoólica em uma das mãos corria ensandecidamente próxima a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Entre um ponto de ônibus e o semáforo. Avenida praticamente sem iluminação, muita escura. Agradeci por estar em baixa velocidade. Ele correu, sem camiseta, só de bermuda, descalço e com uma bebida alcoólica na mão direta... Freneticamente ele veio na direção do carro pelo lado do passageiro, desviei entre tenso e aliviado... Mas, infelizmente ele voltou e se jogou de cabeça no pára-brisa do lado do motorista bem rente ao fim deste. Não encostou na lataria do carro. Não era o que importava também.

Parei. Tudo parecia irreal. Pareceu realmente uma eternidade. Quando desci dezenas de pessoas estavam lá fora falando comigo sobre tudo que o rapaz estava fazendo e que ele se jogou, que se não fosse eu seria outro. Ele estava respirando, mas inconsciente metade do corpo na grama, metade na calçada. Todos os mototaxistas do outro lado da avenida estavam ali, universitários que aguardavam o ônibus e funcionários de uma empresa. Era noite faltava menos de 20 minutos para as 20h.  não consegui ligar para ninguém, mas percebi que um dos motociclista encerrava uma ligação.

Em quatro minutos uma viatura do Samu chegou seguida de um caminhão do Corpo de Bombeiros. Fizeram o primeiro atendimento, enfaixaram a cabeça dele e o levaram na maca. Ele respirava normalmente, mas seguiu inconsciente. Tudo isso durou alguns minutos. Eu tentava saber da saúde dele e respondia aos bombeiros que fizeram a análise do local, retiveram meus documentos e lamentaram a minha infelicidade enquanto eu fazia mentalmente o mesmo, mas mais da pessoa acidentada... Bem mais de uma hora depois a Polícia de Trânsito chegou, aparentemente temos pouquíssimas viaturas, o oficial responsável explicou o ocorrido e o que tinha avaliado. Depois puderam seguir para o próximo acidente... Respondi a cada pergunta aos policiais tentando detalhar. Ele era conhecido dos policiais por outras dessas. Respirei tantas vezes fundo e balançava lentamente a cabeça em negativa tentando me livrar daquela péssima sensação. Todas repetiam sem parar o quanto podia ser pior e vários e “ses”. E se tivesse vindo por outro caminho, e se tivesse correndo e se...

Depois de descrever o ocorrido à caneta em um papel oficial, fui liberado. Faltavam dez minutos para as 22h. Eu olhava para o vidro trincado e não conseguia evitar a repetição da cena independente de tudo que havia vivido, aquilo era tristemente inédito para mim, a fragilidade contrastante da vida, mais uma vez gritou comigo e resolveu subir nas minhas costas por alguns dias.

sexta-feira, julho 06, 2018

Um lugar, um estado (miniconto)





por Rafael Belo

Ela havia perambulado pela noite toda. Não bem perambulado... A Palavra seria outra. Ela é sonâmbula, então supostamente não teve consciência de nada. Tempo e espaço também se perderam nos significados. Nada significam mais. Toda uma vida de ansiedade e depressão não ficaram no caminho, mas parecem ter tido finalmente uma absorção e um absolvição definitiva. Quando finalmente ela acordou, demorou para perceber. Principalmente, demorou para entender... Ela nunca acreditou ser sonâmbula, mas agora... bem...

Não tem como eu contestar mais. Agora eu... Que sentimento é esse? Alguém me explica esta sensação? Nunca me senti leve na minha vida...! Só pode ser isso porque é totalmente ao contrário de como sempre me senti. Quanto tempo eu levei para chegar até aqui? Onde é aqui? Este lugar é um pedaço da paz em um mar de luz... Que casa é esta? É normal se sentir assim nesta tranquilidade? Tudo isso existe, mesmo? Sempre achei ser uma forma das pessoas tentarem em vão me deixar melhor. Por incrível que parece, adoro ser contrariada...

A casa está vazia. Só há janelas. Tudo é feito de janelas. Paredes, chão e teto... Tudo isso parece voar. Há sol e lua... O sol nascendo, a lua se pondo e nada parece se mexer além desta brisa. Eu me sinto flutuar, me sinto transparente como a água corrente saindo da nascente... Tudo isso me reflete... Uau! Eu sou maravilhosa! É tão bom dizer isso! LIVRE! FINALMENTE LIVRE! Todo este caminho de pedras me ajudou a construir o leito do meu próprio rio e eu fluo, eu corro, eu me adapto, eu mudo, não há nada raso por aqui, não há como molhar os pés, é tudo profundo, quem chega se afoga em mim.

Eu olho para mim. Talvez pela primeira vez depois de tantos desenganos eu me olho. Eu me importo comigo. Respiro tão aliviada. Todo lugar sou eu quando chego e deixa de existir quando me vou. Mas continua lá para outros, outras... Às vezes sou outras e agora vou me esforçar para não ser ninguém além de mim. Consegui me entender, me descobrir, claro, quase desisti, mas estou aqui. Meu corpo me trouxe até onde estou e posso sentir a conexão com alma, o relaxamento da mente. Não vou mais sair deste lugar. Nada mais vai perturbar minha paz! Veja! Beija-flores...

quinta-feira, julho 05, 2018

só importa



beija boca multicolores
beija-flores revoam um a um
direto da boca do estômago
aos leves olhos nada é comum

quando a felicidade plantada no solo
vem do âmago ao som do bum

no médio coração médium
não há proporção no seu incondicional jejum
o remédio é um sacrilégio oral na medida do tédio

no interminável passar do relâmpago somos tantos no assédio ao tempo não querendo deixar nada em branco acabamos clareando todo ranço sombra escuridão então enxergamos cada porta escolhemos só o que nos importa.

+Às 13h35, Rafael Belo, quinta-feira, 05 de julho de 2018+

quarta-feira, julho 04, 2018

Estendidas sombras (miniconto)




por Rafael Belo

Beija-flores enxameavam por toda parte. Eram do tamanho de abelhas. Pareciam vir de dentro de mim. Eu não sabia se dormia, sonâmbulava, sonhava, imaginava, mas havia pedaços meus em cada um deles. Eram pedaços de dores latejantes, pulsando passado, presente e futuro com tanta intensidade fazendo um vácuo exalando calor parecendo refletir todo minha dor sem explicação para tudo.

Eu olhava para cima, eu olhava para baixo, para os lados e não via medidas, começo nem fim… Eu era aquele abismo em sombras estendidas de escuridão. Meus cabelos flutuavam abandonados. Nem percebia que caia mais… Parecia um filme de terror muito ruim, forçado demais, clichê demais, mas ainda assim incômodo. Um tombo para onde eu voltava, creio que, como ainda volto a ele, é meu inferno particular.

Li em algum lugar fictício que todos tem seu céu e inferno privado. Um reviver sem fim do melhor ou pior momento da própria vida… Parece tudo inferno para mim. Como pode pensar doer? Só penso no que virá sem deixar de pensar no passado e ainda assim me estresso com tudo isso aqui. Eu não me entendo nem quero o entendimento ou aprovação de ninguém, mas é o que penso… Sinto-me totalmente ao avesso…

Há um desespero me apertando como se o ar tivesse as mais pesadas e ingratas mãos do universo… Qual o motivo de me esmagar assim? Ainda assim, estou solta envolta a esta angústia feita da ansiedade dos meus beija-flores ainda saindo como correnteza de dentro de mim ao mesmo tempo voando como abelhas furiosas e agora estes elefantes enfileirados sobre meus ombros tentando me afogar dentro da minha desolação, não sei como seria ter outra sensação. Este deserto que sou fazendo minha própria sombra solitária só tem areia movediça e não sei ficar parada. Só pode ser um sonho. Não posso estar caindo em um abismo sem fim e presa na areia movediça... Ainda assim, estou.

terça-feira, julho 03, 2018

esquecidos



elefantes voam como beija-flores
com semblantes pesados em dores
se arrastam do estômago para ombros
ajudando tombos a permanecerem caindo

coexistindo com a desistência
a aparência já não esconde mais
há excesso de futuro acumulando

com o imediatismo dos jornais
abissais colecionando passados

improvisados no desconhecimento onde estamos estacionados esquecendo o que nos importa.

+às 12h03, Rafael Belo, terça-feira, 03 de julho de 2018+

segunda-feira, julho 02, 2018

Distribuindo desimportâncias






por Rafael Belo

Há incontáveis beija-flores se espalhando do estômago para o peito e acelerando o corpo todo. A gente treme com eles e ficamos em uma dança aérea angustiante tentando segurar toda esta Beleza dentro de nós. Não tem como sabermos se o mundo aguentaria tanta Beleza, mas precisamos soltar um a um deles, ao invés disso aumentamos a quantidade destes raros e especiais pássaros dentro de nós. Nós podemos cair sem encontrar a calma aqui dentro, neste abismo, onde o fundo é em um sem fim, a queda é uma angustia ocultando nossa verdade.

Pode vir daí uma tristeza inexplicável retirando todas as nossas vontades cirurgicamente e uma fileira de elefantes vai se acumulando nas nossas costas. Estas figuras de ansiedade e depressão nos atingem nesta cirurgia clandestina feita no desespero destes sentimentos nos consumindo vorazmente adoecendo nossa alma com um fervor ainda recebendo o preconceito e a incompreensão para atrapalhar ainda mais. As sequelas cirúrgicas se misturam somaticamente as nossas incertezas mentais. Parecemos diminuir com tudo isso em uma sequência de supostos azares deitados nesta tal melancolia.

Nosso estado mental é 100% atitude. Mas, precisamos desconstruir para reconstruir. Pedaço por pedaço saindo desta área cinzenta e começar a colorir entendendo quem nos tornamos e quem podemos nos tornar. Assim, buscamos a luz dentro de nós saindo deste emaranhado de sombras costurado em algum momento dentro de nós, nisso há mãos se esticando em nossa direção, prontas para ouvir, para ajudar a resolução de seja lá o que se acumulou de nós. Os elefantes podem ser retirados aos poucos e nossa alma vai evoluindo, desencurvando, se abrindo para ser mais.

Os beija-flores vão saindo quando vamos redescobrindo o sorriso, a calma, a paz em nós e a certeza de, mesmo dependendo 100% de nós mesmos, não estamos sozinhos. Não há necessidade de pressa, aliás, o lento, o devagar, o demorado vêm com mais valor, é melhor aproveitado e nos permite ver os detalhes do mundo percebendo tantas maravilhas perdidas quando não prestamos atenção. A Beleza do mundo é nossa conexão com ele e quando a conexão cai a percepção se vai também, por isso, precisamos parar e tomar distância para distribuirmos as desimportâncias para seus devidos lugares nos perguntando o que nos importa?

sexta-feira, junho 29, 2018

Olhos de girassóis (miniconto)





por Rafael Belo

Era proibido registrar. Nenhuma imagem. Nenhuma palavra. A única regra do lugar. Havia uma placa dizendo o quão antigo eram... Não acreditei ser possível tudo aquilo ter sobrevivido por tanto tempo, portanto, quebrei as regras. Em pouco tempo minha imagem virou meme. Até aquele momento ninguém sabia o que era um girassol…

Eu e um campo com uma quantidade incontável de girassóis. O sol parecia não se pôr por lá. Todos queriam saber como chegar àquele lugar. Eu não lembrava. Testaram as fotos. Tentaram desacreditar a existência do lugar. Houve debates, brigas, mortes… Tudo por causa de uma imagem. Nem havia polêmica e mesmo assim polemizaram.

Lembrei do aviso e só enxerguei, a partir dali, girassóis. Eu via girassóis por toda parte. Eram iguais. Todos iguais. Não havia nada de diferente. Pareciam cópias exatas uns dos outros. A diferença era a fala. Eles conversavam comigo. Eles eram pessoas. Quem via diferente era eu. Como iria explicar isso…? Quem iria explicar isso? Em uma sociedade medicada e obcecada pelo corpo, eu era a mulher humilhada.

Passei a sorrir e tratar todos da mesma forma. Não sei por quanto tempo isto durou. Poderia bem ser uma alucinação, mas eu me sentia bem. Como se eu fosse o sol… Esta sensação jamais me deixou. Antes eu sentia que nublava o ambiente e chovia destruidoramente granizo. Às vezes, me sinto assim ainda, mas ninguém me deixa esquecer os girassóis e ainda hoje tento lembrar da localização deles. Muita gente precisa ter girassóis na vida.

quinta-feira, junho 28, 2018

Jamais distante








anti-heróis flagelados pelas pétalas
saem das telas direto do espaço
astronautas dos girassóis aéreos
cruzando os hemisférios pousando no asfalto

rompendo este urbano em sinceros campos
abertos mantos amarelos em prantos solares
nascendo se pondo estelares na indefinição de fora

aurora pessoal pulsando cordialidade na hora
lota a pele de arrepios da existência compartilhada

transborda flor solar este mar de luz nos doando ao próprio instante e o coração jamais fica distante.

+ às 23h35, Rafael Belo, quarta-feira, 27 de junho de 2018+

quarta-feira, junho 27, 2018

A loucura desconhecida (miniconto)







por Rafael Belo

Há muito tempo eram tantos girassóis... Impossíveis de contar! Os campos eram todos amarelos iluminados pelo sol até à noite. Sempre brilhava por aqui. Parecia magia. Um constante dia. Agora há uma energia exaustiva no lugar. Mas encontrei este girassol no chão enquanto ele brilhava. Só a flor sem nada e ainda assim viva.  Comecei a brincar com a tradução em inglês que é sunflower virou sunfloor onde floor é chão... E só pude imaginar o acontecido. Na verdade parece mais que as imagens brotaram na minha mente... Uma devastação descordial. Brutalmente o egoísmo matou tudo. O tempo todo antes eram fotos deste campo. Agora ninguém se lembra mais. Talvez seja vergonha do que fizeram...

A loucura desconhecida aconteceu poucas vezes na história. Na verdade, só foi registrada uma vez. Dizem que as pessoas morreram de arrependimento depois de só enxergarem girassóis por um tempo. Elas acreditavam que só destruindo os campos era possível se curar. Lá ninguém via outro ser humano só as flores do sol... Um fenômeno assustador que passou despercebido por um bom tempo. Quando as pessoas começaram a arrancar os girassóis algo mudou gradualmente. Imediatamente cada responsável pelo desrespeito misteriosamente se transformava em uma extensão do girassol.

Afastados do campo, eles morriam. No campo nada os podia matar. Aos poucos morreram girassóis e pessoas. Outras pessoas começaram a vir e tentavam destruir o campo porque estavam assustadas demais e o medo também pode ser um monstro capaz de tudo. As fotos desapareceram, as pessoas também e nada mais foi falado sobre isso. O desconhecido era um filme de terror devolvido para suas origens. Mal explicado porque ninguém podia explicar, então a invenção era a mãe da proteção da mente racional. O campo de girassóis se transformou em uma ameaça de pais a filhos desobedientes.

Eu sempre acreditei tudo isso ser apenas uma lenda urbana até vir aqui. É como se eu visse tudo que aconteceu e sentisse uma dor orgânica tentando me plantar neste lugar. Minha sunfloor parece ter nascido para mim. Ela me chamou. Estou ligada a ela. Sinto-me devastada como este lugar. Igual este sol no chão. Veja! Há sementes que eu preciso levar, plantar, espalhar, mas estarei despertando o terror ou racionalizando o racional? Vou trazer o passado de volta ou o passado vai dar a volta no presente? Se for um plano de vingança para tudo ser girassol... Poderei dizer que agora a loucura é conhecida.

terça-feira, junho 26, 2018

Agro(tóxicos)





egoísmo intacto esparrama agrotóxico

girassóis no chão
lençóis naturais mortos

faróis apagados sem direção
escuridão solar em lotus
eus de abortos forçados

nos seres opostos a illinois
anzóis lançados como aerossóis no status
caracóis sem cascas separados
se rastejando sem tato perdendo contatos.

+às 10h30, Rafael Belo, terça-feira, 26 de junho de 2018+

segunda-feira, junho 25, 2018

A cordialidade perdida


por Rafael Belo

De coração…. Cordial vem daí. Relativo ao coração. Nesta palavra/órgão cabe cor, oração, ação, mas atualmente está imperceptível no cotidiano. Falta nas nossas atitudes. Vejo como se o coração estivesse devastado e incapacitado de oferecer cordialidade. Esta anda perdida ou interpretada como fraqueza no nosso dia-a-dia. O que é de coração é afável, sincero, estimulante… Quando acontece é dado a raridade, a nobreza, não algo que é comum a qualquer um.

O ordinário passa a ser extraordinário  posto como exemplo e um simples gesto acaba nas páginas de destaque, vira viral… Logo porque há um estresse desnecessário no  trânsito, a má-educação, a pressa descabida só para parar no semáforo fechado logo à frente, claro, se não houver desrespeito a todas as regras de trânsito e aos outros motoristas. Mas, o que me chamou atenção neste domingo é o “novo” ponto turístico campo-grandense: O Campo de Girassóis. Plantado na entressafra e localizado a sete quilômetros de Campo Grande em direção a Sidrolândia, uma multidão registra belos momentos no local.

O Campo é aberto e é tanta gente indo e vindo que uma nuvem de poeira incessante fica no ar neste tempo seco. Carros parados em toda a pequena estrada de terra margeando o Campo. As imagens paradisíacas se espalham pelas mídias digitais e é quase impossível você não ter visto selfies com os girassóis. O incômodo é o comportamento das pessoas que, dizem por aí, já gera desconforto e reclamações do proprietário do plantio. A cordialidade ausente abre caminhos devastadores no lugar. Há famílias inteiras por lá, mas muitas passam carregando as flores solares arrancadas nas mãos.

Pelo caminho também há muitos girassóis no chão. Não percebi ninguém se comprimentando no local inspirador ou sequer enxergando o outro, apenas procurando os melhores ângulos, os melhores lugares como se cada dupla, grupo ou pessoa ali estivesse só. Seguimos sendo a sociedade da imagem fria, egoísta e descordial contrastante à beleza, ao calor, a cor, oração e ação coletiva  possível além da fotografia trabalhada. Já pensou se cada um ali presente ajudasse a cultivar o local, os girassóis, encontrasse a cordialidade perdida e fosse responsável não pelo abuso e destruição, mas pela permanência deste Campo para todos poderem usufruir dele e do melhor que o ser humano pode oferecer? Espero que possamos fazer tudo de coração.

sexta-feira, junho 22, 2018

já consigo sorrir (miniconto)





por Rafael Belo

Não sei quanto tempo demorei para encontrar minha casa. Eu sempre esqueço as coisas, as pessoas, os compromissos, os nomes, até minhas funções no trabalho. Agora já não durmo há muito tempo. Por isso, não paro de perguntar o que acontece? Eu tenho certeza que morri. Eu olho para todo mundo e não consigo formar pensamentos e palavras. Tudo fica mais frio na minha presença. Frio e lento… De repente acabou o jogo.

Eu me inventei outra por tanto tempo… Já não sabia ser outro alguém. Quando eu percebi ser um jogo e eu era uma das jogadoras principais. Já não sabia mais me portar de outra maneira, e ver as pessoas que pensava conhecer manipulando este jogo me fez passar mal. Este surto de naturalidade me afronta. Eu acerto apenas, nunca erro…  Este é meu dilema. Acho ser o suficiente, mas isto é falha, é imperfeição. É uma piano rompendo o silêncio tocando minha música favorita. Eu sento e choro. Não sei quanto tempo guardei o choro…

Não entendo nada de inglês. Mas esta canção, vem carregada de uma voz triste. De uma tristeza tão profunda e determinada que vi o quanto entregou a felicidade ao outro e agora vive arredia na contenção. Não quero isso, não. Se eu estiver viva, vai fazer sentido eu expor o jogo e seus jogadores? Até os profissionais são amadores. Atores fadados ao vale à pena ver de novo de si mesmos e ao assistirem pensam talvez não valer...Naturalmente eu percebi não ter identidade.

Na verdade. Fazia caras e bocas gritando para todas: aja com naturalidade. Havia mesmo era a vontade de tentar enxergar como era esta tal naturalidade. E, olha só, eu estou aqui, parada na varanda da minha casa e muito perturbada. Tenho memória criadas de eu ter feito esta fachada. Há memória afetiva me invadindo, mas, à olho nu, fico aflita porque eu jamais criaria uma fachada assim…! Estou me vendo lá dentro! Devo ter vendido minha alma para o Tempo e agora assombro algum corpo sem alma ausente de 1,70 cm, pele indeterminada, bronzeada, olhos difusos parecendo feitos de tons noturno do universo, cachos esparramados até o braço, seios fartos e arrogantes, daí pra baixo é tudo curvilíneo. Quero saber em qual curva me perdi e, principalmente, se vivi ou morri. Não avalio nada disso como ruim. Vim até aqui sozinha e já consigo sorrir.

quinta-feira, junho 21, 2018

vive o lar






Haja naturalmente vire a página
deixe fluir toda esta mágica
da salada silábica saindo vida
nesta movimentação estática inconcluída

sou a imperfeição a falha no estado mais perfeito
rasgo meu peito para lentamente ler devagar
neste jeito mar sem ondas autêntica exteriorização a salgar

em um estar tão bem na sensação zen de ser
a naturalidade falível de todas as coisas

neste efeito mariposa há o retorno para si mesmo onde vive o lar podemos nos libertar.
+às 01h54, Rafael Belo, quinta-feira, 21 de junho de 2018+

quarta-feira, junho 20, 2018

Minhas elas (miniconto)








Por Rafael Belo

Bem suada a abençoada, que era eu, reclamava da sorte. Me achava bem zoada sem aceitar as falhas e imperfeições, segundo ela – minha outra eu– as razões de tanta conseqüência negativa na vida dela – ainda eu. Mas eu culpava os outros e ainda os culpo. Eu sou desculpada, afinal, minha doença mental me permite tudo. Até esconder tantos eu. As chamo de minhas elas. Sou história velha, porém detetive moderna. Uma Deusa mulher atuando em todas as esferas. Alias, não há doença em mim nem nas minhas outras. Sou cura mental. Desculpe, somos...

Eu disfarço porque sou disfarce. E não venha me fragmentar porque sou tantas, minhas elas, como eu, não gostam de serem apontadas como metades. São minhas próprias verdades, quer dizer, delas mesmas. Eu, eu desconstruo este programa hoje contando sobre mim. Vocês sempre me viram como segura, confiante, perfeita, infalível e... Eu sou assim mesmo. Não é sobre isso. É sobre vocês acharem que são como eu, não são. Vocês são imperfeitas e falhas e está tudo bem. Vocês sabem: estou sempre certa! Esta programação crackeada era só para eu ter acesso à vida e contas de vocês...

Vocês acham que eu vou exigir alguma coisa e que esta é minha imagem real. Bem... Foi assim que tiraram todas as televisões, cinemas, tabletes, computadores e nootebooks de vocês. É muito mais fácil induzir, vigiar e manipular vocês por smartphones... Estes celulares aliados as novas leis... Estou parecendo uma vilã querendo contar o plano em um filme da antiga sessão da tarde antes de eliminar os heróis... É sempre nesta hora que o jogo vira. Bem, jogadores... As regras? Esqueçam as regras. Vocês aceitaram tudo ao clicarem no link neste insistente grupo de whatsapp da família...

Nada sabem sobre autenticidade, certo? Todas as chances, dicas, para seguirem, para vencerem, para evoluírem foi ignorada com sucesso. As chances de vocês acabaram. Vocês são minhas. Serão parte das minhas elas. Muitas já fugiram de mim e eu as recuperei. Nenhuma minha ela fugiu realmente de mim. Eu invento outras, eu nos invento constantemente e agora vou tornar cada uma de vocês elas. Quando acordarem perceberão serem inteiras, perfeitas e infalíveis. Agora durmam...