sexta-feira, março 15, 2019

monstro roxo de olhos verdes (miniconto)





por Rafael Belo

Só haviam marcas roxas e olhos verdes. Eu tremia em um canto. Faltava luz. Mesmo assim aquele brilho pesado tentava fazer eu me sentir mal. Eu não acreditava em monstros. Eles não acreditavam em mim. Mas, não da mesma forma. Eles queriam me eliminar da existência. Roubavam minha energia. Sugavam minha alma. Eu era fonte infinita de alimentação deles. Foi assim que chegamos aqui onde estou. Neste cárcere.

Presa aqui eles tentavam minar minha motivação. Minha vida parecia ir pelos vãos criados por eles. Eles me enchiam de dúvidas, de raiva e eu só reclamava. Sentia nada mais dar certo. Estava parando de acreditar. Eu quase não acreditava mais em mim. Quando repensei cada passo, percebi. Eu atraia os monstros porque eu era o sol. Eu era a luz. Assim que esta fagulha se reacendeu em mim. Os monstros conseguiram me apavorar até aqui.

Eles não são monstros. São insetos e vão atrás da luz para tentar se entenderem, para se preencherem, para buscar um sentido e acabam se perdendo. Perdidos não fazem ideia de nada, se transformam em… Monstros. Mas é só aparência. Refletindo eu voltei a brilhar. Ao invés de cegar os monstros, eles voltaram a se encontrar. Não todos, claro. A claridade tem um caminho pessoal e um tempo particular. É do privado para o coletivo, não ao contrário.

Ser sol no próprio caminho é um caminho a parte. Muitos já caminharam por ele, mas ele é como um rio onde as águas nunca são as mesmas. Os monstros ainda surgem, mas não me atingem mais, eu compreendi do que são feitos e porque são desfeitos. Este monstro roxo de olhos verdes segue, stalkeia, finge e espalha falsidade e pode até estar no espelho, tentando sobreviver se alimentando da luz do outro, mas vive morrendo por dentro.

quarta-feira, março 13, 2019

escorrendo






Está tudo verde até ficar roxo
o monstro nos cerca louco
morto querendo viver por nós
na vontade de nos tirar do meio

é o fim da ausência de começos
só cópias e desejos venenosos
envenenando corações perdidos

cegos arroxeados no amarelado olhar
não tem lar nem qualquer rumo

quer comprar em demolição onde moramos desfrutar dos frutos sem saber seu real sabor salivando.

+Rafael Belo, às 12h15, terça-feira, 12 de março de 2019, Campo Grande-MS+

segunda-feira, março 11, 2019

Não alimente o monstro





por Rafael Belo

Ando em silêncio e a passos leves quase flutuantes. Há famílias inteiras de monstros dos olhos esverdeados proliferando como ratos de esgotos e coelhos selvagens. Antenados, mal-intencionados, querendo difamar, humilhar, tomar para si ou, pior, apenas que o outro não tenha. Há tanta gente verde de inveja espreitando, stalkeando que proteção nunca é demais.

Não se distanciou tanto da sua origem latina invidere (não ver)  ao se entregar para a cobiça, mas não ver no sentido de deixar de enxergar que com empenho e honestidade é possível chegar a qualquer parte. As pessoas não veem o peso e acúmulo de energia negativa emanando delas para impregnar o objeto invejado, o objeto de desejo… Já que todos fomos objetizados.

Sendo objetivo. Não há inveja branca ou de qualquer outra cor. Ela é verde ranço, verde, imaturo e a expressão “verde de inveja” tem origem na obra de William Shakespeare. Othello, the Moor oficial Venice ( Otelo, o Mouro de Veneza). Ao invés, do ser humano apoiar, incentivar, parabenizar as conquistas do próximo, do amigo, da família… Questiona, minoriza, inferioriza, adquire raiva, desistimula e depois reclama. Além de reclamar do motivo da própria vida estar seja lá como.

Ainda assim acredito em pedir todas as proteções possíveis espirituais, sobrenaturais, todas as medidas protetivas e mudar do país seja a solução… Quer dizer… Não! Brincadeira! Tenho esperança no ser humano. Ainda há muitas pessoas ficando feliz com o sucesso alheio, se inspirando em pessoas que se destacam por serem elas mesmas e realizarem seus sonhos. É possível derrotar o monstro de olhos verdes nos perseguindo e aquele dentro de nós. Basta não alimentar este animal e cuidar, antes de mais nada, da própria saúde mental.

sexta-feira, março 08, 2019

Sob o olhar dela (miniconto)





por Rafael Belo

Aquela correria do dia ainda acordava quando ela já estava no terceiro compromisso da manhã. Ela representa não só as negras, mas todas a mulheres… Tão fortes e únicas com aquela inteligência de cabeça erguida. Mas neste dia os planos dela reverenciavam algo que a mente não pode sequer conceber. As convergências cósmicas se ajoelharam diante dela. Ela olhando com o negro olhar intenso, vestida do seu Ébano esculpido pelas estrelas, flutuou.

Naquele momento toda a Alma dela a estava vestindo. Todos os poderes irradiando nem a deixavam mais tocar o chão. Uma heroína diária. Seu próprio sol. Seu próprio sistema solar. Sendo órbita particular há muito já tinha decido atrair só a evolução para si. Com um simples sorriso sincero sacrificou barreiras, mentiras, machismo e cada preconceito tentando fazer a inveja abalar a recém descoberta Deusa que é.

Estava tão repleta da energia inexplicável criadora de tudo que chorou Alegria. Aquelas lágrimas sorridentes eram declaração da maior independência jamais vista: a liberdade de ser quem quiser. Vestida de si fez todos caírem antes sequer de se aproximar dela. É a arrebatação e a ausência temporal. Todo lixo humano causador de violência foi virado do avesso com cada osso quebrado e se extinguiu pelo odor da própria podridão.

Não havia reparado estar no Centro de todos os universos, mas todos os seres a viam. Desceu em excelsa energia transbordando naquelas se sentindo ali, na Deusa, e preenchendo aquelas ainda com vazios a pressionando. Aqueles presos no olhar dela sentiram o coração expandir em um oceano novo de águas infinitas. Mas, ainda com tanto poder e autenticidade algumas sobras de lixo seguiriam com negação e destruição sobre diversas máscaras. Porém, sob o intenso olhar dela será só conquista.

quarta-feira, março 06, 2019

Nosso esporte





é uma luta em dobro o dobrado do dia
a pele dourada do negro brilha
com o suor misturados às lágrimas
retroativas dos retrocessos escritos em sangue


dores em anexos resilientes no olhar
não permitem as correntes prenderem
a desimportância de nos ofenderem


referências punhos erguidos bandeiras
ignorando todas as rasteiras do preconceito


o eu me aceito é mais forte
a volta por cima é nosso esporte.

+Rafael Belo, às 14h14, quarta-feira, 06 de março de 2019, Campo Grande-MS+

segunda-feira, março 04, 2019

desunião diária





por Rafael Belo

Acabei de ouvir no filme “O Menino que Descobriu o Vento” que a Democracia é igual mandioca importada: apodrece rápido. O olhar de quem não é negro - sobre o negro - segue o mesmo processo. Tudo está podre e mais uma vez vivemos em um ciclo de retrocesso. A representatividade tão reduzida em um Brasil onde mais da metade da população é negra mostra o pensamento dos governantes que tivemos até aqui. Ignorando totalmente a fachada de democracia (do grego antigo “governo do povo”).

Onde está o povo? Não  adianta dizer que cota é mimimi. Não é! Nunca será! É uma tentativa falha de pagar a dívida com os africanos, e nós descendentes, por toda a destruição feita aliada a escravidão. Hoje ainda há pessoas discriminadas pelo simples fato de serem negras e pessoas se achando no direito de ofender alguém que já sofreu abuso racial. O olhar preciso e intenso do negro só é visto por ele mesmo, quem não vive esta realidade só consegue ser solidário e apoiar em lutas pela igualdade, além de se posicionar contra esta segmentação cruel.

Mas como na África, onde muitas guerras  aconteciam para escravizar os derrotados desde os primórdios, aqui quem sofre diariamente de desconfianças e ofensas revoltantes, também é capaz de tratar os irmãos com pedradas e segmentação ao invés de estender a mão, conversar, ajudar a esclarecer ou simplesmente apoiar. Um amigo novo me relatou coisas absurdas onde o condenaram por tentar algo relacionado com representatividade e união. Pela fala dele eu vi o que li em “O Destino da África - cinco mil anos de ganância e desafios”. Vi a desunião.

No livro Malawi está presente, que é onde  acontece o filme citado no início. Este filme, baseado em uma história real se passa no país de Malawi, no continente africano. Malawi vem do nianja (língua original local, mas a lingua nacional é  o Chewa, mesmo com a língua oficial sendo inglês) e significa “o sol nascente”. Há 50 ou 60 mil anos, o primeiro ser humano habitou a região e os exploradores só chegaram por lá no século XVI. A partir daí milhares de habitantes locais foram escravizados e mandados para outros continentes, a maioria sempre morria no caminho.

Mesmo com as missões escocesas, que converteram chefes e reis para assim toda a população se converter ao cristianismo, elas também tentaram acabar com a escravidão, mas o tráfico de escravos seguiu até o fim do século XIX. Toda a África foi invadida, teve a cultura renegada e explorada, principalmente, por portugueses, ingleses e espanhóis. Eles descobriram que o mais lucrativo comércio era de pessoas seja em xhosa, zulu ou algum dos outros nove idiomas nativos sobreviventes. Ou seja, convém a quem está no poder o manter e o mantém com dinheiro e poder recheados a ganância, a discórdia e a desunião dos negros e toda a maioria levada a crer ser minoria.

sexta-feira, março 01, 2019

Esqueço-me e sou você (miniconto)







por Rafael Belo


Eu sou uma deusa, aliás, Deusa. Maiúscula. Mas faço questão de esquecer para me misturar. Eu evoco imediatamente Liberdade e Saudade. Nasci do Dia e da Noite quando estes ainda eram uma só coisa estendida no universo deste planeta. Sou ambos e assim Contraste.

Eu danço libertação e na minha palpitação se ouve o arrebentar de qualquer corrente. Tudo ecoa na mente quando não nasce nela. Eu sou a ação que reverbera e da minha própria estratosfera sou você. Então, nascemos, renascemos em pequenez e imensidão. Sem contradição, só contraste, apenas equilíbrio.

Eu, daqui, deste ponto de mim, influencio todas vocês e as sou também quando retiro tuas almas dos teus corpos pelo álcool… Todos acabam me reverberando, me fazendo própria maré, mas quando bate a ressaca somos inteiras. É aí que a liberdade se reconhece e a saudade segue seu ser. Nestes desencontros vamos de encontro a saudade daquele eu pelo caminho, porém, ao nos vermos nós entendemos. Obedecemos a desobediência social.

Além deste bem e mal estereotipado, padronizado, há dualidade que nem existe. Mas lembramos do medo cultivado em nós para criar falsos papéis, fortalecer a manipulação e se acomodar. Você estão entendendo?! Eu sinto cada uma de vocês. Somos escravas das contas diárias… É vocês fazem exatamente o que gostam. Bom falta força. Vocês estão apenas me imitando e vamos começar de novo, de um falso zero. Falso porque não se apaga tudo que vivemos, se aprende… Enfim, eu sou uma Deusa. Assim mesmo maiúscula. Mas me esqueço para ser você...!

quarta-feira, fevereiro 27, 2019

conquistando o medo








sem liberdade a saudade é peso
prendendo passados primeros nos olhos
com as grades da constante indecisão
condenando perpetuamente o coração

quando os significados se misturam ao avesso
no acaso das pessoas diferentes
o que se sente um não sente-se o outro

até a liberdade ser entendida estendida
na extensão de torna-se além

neste mais ser menos conquistando o medo de ser nós mesmos.

+às 00h14, Rafael Belo, quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019, Campo Grande-MS+

segunda-feira, fevereiro 25, 2019

Significado pessoal








por Rafael Belo

O medo nos move ou nos aprisiona. É um decisão necessária nas nossas vidas para vivermos. Caso nada escolhermos, o mundo não vai parar. Somos todos covardes até aí.  Eu, como ex-covarde, tive muito medo, mas principalmente de perder, de parecer muito ou pouco, de julgarem minha sexualidade, apesar de eu fazer parte da heterosexualiadade a mais hipócrita e covarde… Hoje nem me importo. O medo nos torna os animais que somos como se fôssemos apenas uma coisa ou outra. É com medo que os políticos e os dominadores nos subjugam. Fazem-nos temer ser medíocres, não seguir a moda, os padrões, não abastecer com gasolina, não ter um negócio próprio ou perder o emprego, não ter dinheiro o suficiente, ter pressa para conquistar… Assim, o medo nos leva a procurar apenas segurança. Não temos liberdade e morremos de saudade o tempo todo.

Não sei se você tem tempo, ombros e ouvidos ou acumula desculpas, mas se você tiver todos estes itens em dia, certamente reparou que a história das pessoas é extremamente parecida. Todas falam de liberdade e todas falam de saudade. Mas, a experiência, a vivência de cada um muda o significado delas. Tanto das pessoas a liberdade e saudade. Posso falar somente por mim e eu tenho saudade do meu pai. Penso nele o tempo todo. Sou uma das extensões dele. Onde ele esteve e tocou, ainda continua. Mas, fisicamente e profundamente sou eu, minhas irmãs, minha mãe e minhas tias e primos… Para nenhum o sentimento de falta é o mesmo. Eu já senti muita falta do meu pai. Hoje eu só penso o quanto ele me ensinou e a forma como reagiria as pessoas e acontecimentos. Esta é minha saudade.

Não sinto falta do amanhã porque aprendi a estar mais ocupado com o agora e com as pessoas ao meu redor, as que conheço e as que desconheço. O que leva a minha liberdade. Minha liberdade é poder observar tudo e todos. Interagir com tudo e todos. Traduzindo no meu coração em conluio com a mente a minha forma de liberdade. Esta, escrever, é minha maior expressão. Hoje ela pode ser cantada, tocada, dançada… Abraçada de tantas formas finalizadas em conexão. Somos singulares sim, mas precisamos nos descobrir para nos tornarmos o que somos. Sair desta lama de hipocrisia e de tantos desvios que fazemos para seguirmos covardes subjugados aos poderes nos manipulando pela ambição deles.

Nossa prisão se move direto na televisão e na distorção do passado desconhecido. Se ler é o caminho das luzes, não é o bastante porque precisamos iluminar também, por isso, Se você tem saudades de você, vá se encontrar. Se você se sente preso, vá se libertar. Não é um processo lento, é imediato. Só estamos tentando entender da forma errada... Agora você precisa de si e para se ter é preciso ser livre. Olhando para dentro de nós para vermos nosso infinito e reconhecê-lo em cada ser vivo compartilhando esta existência com a gente. Agora vá. Arrebente a corrente. Sinta o motivo do medo e faça sua revolução pessoal porque o primeiro mundo a se conquistar é o da nossa mente e do nosso coração.

sexta-feira, fevereiro 22, 2019

Afasta (miniconto)






por Rafael Belo

A última lembrança eram rastros. Rastros na areia. Meus passos estavam em toda parte. Não sinto ter passado anos em círculos. Tudo parecia ontem. Mas neste longo dia sigo por um caminho diferente, porém a diferença é a  minha atitude. A alteração na chave-geral da minha resistência emocional quase queimou tudo em mim. A cidade está escura e a escuridão total apaga tudo na ausência de resistência por aqui. Assim, sinto tanta gente neste constante desestar.

Há corpos sonâmbulos pensando ser o próprio despertar. Eu estou pensando em quanto e quando fiquei desacordada e disso nada lembro. Nem antes nem durante… Estou neste depois. Sou a energia natural das baterias. Acabei de abrir estas flores. Estou eletrificada. Ando transformando qualquer energia em boas vibrações para mim. Veja como estou arrepiada…! Vou criando transformações e onde elas não tentam me fechar, eu sigo em frente.

Não quero entender qual tipo de Matrix é esta porque está tudo em cinzas. Queimou até tudo ser o mesmo. Não é possível distinguir absolutamente nada. As baterias humanas quebradas na origem, no cômodo acomodado daquele passado repetido exaustivamente enriquecendo as pobres ideias de riqueza e prosperidade. Propriedade humana de um corpo vazio feito de preconceitos e julgamentos. É um stand-by, um estado criogênico reversível, que só eu mulher posso mudar.

Tenho as lembranças de todos e ouço aqui na minha mente definições de preto, negro, carne, mercado, submissão, covardia, gays, gêneros, corpo, peso, raça… Todas as resistências menosprezadas com o emocional reforçado até entre as lágrimas. Talvez eu chore agora com a solidão não permitindo eu me sentir só, mas só sentindo ser tanto e tantas… Nesta exclamação da minha força trarei todas de volta primeiro, depois todos os outros! Urrarei: AFASTA! Será para ninguém e neste depois vou utilizar o desfibrilador na potência máxima torcendo para queimar os neurônios da ignorância e do egoísmo. Por agora, vou agradecer minhas lembranças… Mas já vejo outras despertarem sozinhas.

quarta-feira, fevereiro 20, 2019

despertencer







cai a resistência emocional
desaba a chuva depois do estrondo
são tantos eus escorrendo alagando
transbordando nos céus particulares

procurando o desapego nos cantos nos beijos
todos tirados truculentos de um dia normal
lá finge desconstruir desconversando acumular

aqui é tão longe da atitude de se trocar
tocar o pó da resistência cremada

na existência dos padrões deste despertencer.
+Rafael Belo, às 23h41, terça-feira, 19 de fevereiro de 2019, Campo Grande-MS+

segunda-feira, fevereiro 18, 2019

Resistência emocional





por Rafael Belo

Eu ouço, vejo, leio, assisto tantos medos e reclamações sobre emoções. Reclamar não resolve se for só por reclamar, se não souber e não houver solução… Agora medos a gente supera, mas não mata. Aquele medo de  mudar, de repetir os erros é um bom alerta, mas deixá-los nos dominar é ser ausência. Acumulamos ausências, inclusive de nós mesmos e a sofrência insisti na resistência. A resistência de se entregar, a resistência de se envolver e de resistência emocional em resistência emocional, tudo queima e até nossa luz se apaga.

Perdemos nossa chave-geral, o disjuntor não se acha e o interruptor da luz não funciona. Eu prefiro sentir tudo, até esta escuridão nublada em um céu sem lua, sem sol e sem estrelas a resistir às emoções. Deixa os holofotes acusarem o drama, a plenitude, a desolação neste palco da nossa vida. Ninguém tem o poder de acabar com o nosso emocional se não dermos este poder para alguém. Poste se tiver feliz, poste se tiver triste, faça as postagens que quiser e se preferir não fazer publicação nenhuma, a escolha é sua. Só não resista em ser você mesmo.

Há um considerável tempo, eu resistia em falar qualquer coisa onde em minha imaginação fosse prejudicar a relação, qualquer uma: amizade, de ficante, de namoro, familiar… Eu resistia falar sobre meus sentimentos e obviamente tudo que se acumula sobrecarrega. Considero isso ser resistência a ser feliz. Esta resistência realmente precisa queimar.  Não há arrependimentos se houve aprendizagem e aí fazemos o que? Enumeramos só o que consideramos ter dado errado na relação.

A isto eu resisto. Não considero participar de nada se não for 100% e, sendo assim, quem não estava totalmente presente, resistiu a ter algo ainda melhor. É da nossa natureza sentir, então porque colocamos listas, padrões e exigências para a liberdade? Não há liberdade assim. Qualquer corrente é sintoma de escravidão. Porém, nos enganamos se anunciamos sermos escravos das emoções, prisioneiros do coração e reféns dos sentimentos. Somos escravos do controle, reféns do comodismo, de querer agradar e prisioneiros de tentar manter e não querer perder relacionamentos que acabaram.

sexta-feira, fevereiro 15, 2019

A Dríade humana






por Rafael Belo

Em todo seu poder e longevidade, no alto da própria maturidade daquela era toda dela, a Dríade teve a chance de voltar a ser semente. Ela era a principal árvore daquela floresta dos primórdios africanos, a Floresta Divina, mas quando os primeiros conquistadores chegaram não podiam sequer enxergar o lugar. Viam um abismo capaz de inspirar medo e dor. Por isso, hoje milhares de eras desde a concepção da criação, toda a floresta está intacta em centenas de metros para os céus e milhões de hectares.

O mas veio logo ali atrás porque a curiosidade da Dríade por aqueles seres vorazes como gafanhotos bíblicos vinha de ela não acreditar nesta destruição desenfreada causada por eles. Esta Dríade, chamada Driane, sofria por ser a última das sua espécie divina e pelo descaso dos humanos, ainda assim quis ser um deles. Ao invés, de morrer de desgosto nasceu de um ventre.

Humana, mas com toda a alma Dríade. Ela veio madura. Vinha chegando no ápice de cada idade encantadora. Ninguém entendia porque não conseguia desgostar dela, desejar mal a ela, fazer qualquer ruindade com esta mulher. Ela inspirava o bom e a evolução. Ninguém conseguia identificar a idade dela. Não acreditavam quando ela dizia. Ela não ligava. Sorria como se fosse o próprio tempo e o assunto terminava.

Com ela sendo amada em toda parte todos a queriam. Estava nas redes digitais espalhando suas sementes. Quando falava, a plenitude reinava, tudo parecia arte e possível. Porém, por mais divina que parecesse também era humana. Um dia simplesmente desapareceu. Não houve pânico algum. Os corações tocados sabiam que ela estava bem. Na Floresta Divina lá nos primórdios da vida, uma árvore surgia de uma semente e imediatamente se agigantava no meio daquele lugar invisível para a humanidade, mas alguns já podiam ver ser revelar.

quarta-feira, fevereiro 13, 2019

naquele ser







pesou o galho de onde caiu a fruta
madura espatifou o chão
este piso natural não suporta experiência
nem a imaturidade dos tempos verbais

refestela-se com o som da chuva contínua
lá ainda criança na teia da irresponsabilidade
só porque não há grades na prisão

ali naquele espatifar chegou onde estava
sentiu a completude deste acontecer

entendeu a chuva como nunca antes naquele ser.
+às 02h11, Rafael Belo, 13 de fevereiro de 2019, Campo Grande - MS+

segunda-feira, fevereiro 11, 2019

Maturidade anual





por Rafael Belo

Há muitas canções, poesias e textos dizendo o quanto queremos crescer quando crianças e depois voltar. Não são só as dores e desamores, mas aquela proteção e a quantidade de possibilidades ao nosso redor onde só a infância é capaz de oferecer plenamente, mas apenas a maturidade nos dá com a liberdade e a compreensão de aproveitar nosso tempo. Ter experiência e idade não significa ser maduro. Tem pessoas que nunca amadurecem.

Não importa ter dez anos ou 60, a gente nem sempre quer entender ou está preparado para os acontecimentos a nos atingir ou até às consequências daqueles forjados por nós. Nada disso impede as ações e reações. É aí que criamos proteções, desculpas e impedimentos. Paramos aí no tempo. Queremos aproveitar quando não tínhamos responsabilidades, quando tudo era mais fácil, na maioria das vezes, as perspectivas são diferentes como as expectativas, então como podem as maturidades serem iguais?

Há diferenças por toda parte e o conceito de igualdade se aplica às leis e ao tratamento cortês uns com os outros. Entender isso é maturidade. Já parou para lembrar de algo? Eu volto e ainda paro e fico encarando as árvores altas e cheias de troncos e galhos pensando o que daria para ver do topo delas e os sentimentos causados ao chegar lá. Na casa da minha avó materna os cheiros de toda a casa e quintais são minhas memórias me levando até o sentimento, principalmente das frutas madurando. O aroma do verde, das flores, das jacas, das carambolas, das acerolas, das pitangas, das jabuticabas, dos canais, das bananas, mas essencialmente das mangas. Eram tantas variedades e tinha que esperar amadurecer.

Nunca tive pressa para crescer. Viver com tantas pessoas diferentes no tempo e idade me fizeram observar e ouvir sem querer deixar de ser quem sou nem quando sou. Cada idade passada teve aquele momento de respiração profunda e o “é tenho tal idade”. Eu chamo isso de maturidade anual. A cada idade chegamos a maturidade dela. Estamos todos nesta situação particular onde olhamos para  o que passamos ano a ano e escolhemos se estamos preparados para mudar de atitude, de crescer, de transformar seja lá qual dificuldade e dor, em algo positivo capaz de nos trazer até aqui. Então, podemos dizer: é cheguei a maturidade, esta é minha atual idade, que venha a próxima.

sexta-feira, fevereiro 08, 2019

Expirando o mundo (miniconto)








por Rafael Belo

Só seguiam sensações em mim. Arrepiava minha pele, pequenos espasmos sorriam meu corpo todo. Eu estava aliada a uma imensidão incompreensível pela mente. Parecia não haver necessidade em mim de respirar o invisível respirava por mim. Tudo me inspirava e profundamente me sentia nos pulmões da Natureza. Naquele silêncio particular eu era coletiva, era singularidade e extensão, um ontem e um amanhã costurado com raios solares me amanhecendo de novo ali. Eu estava no todo do meu mundo não havia meu gênero feminino, não havia coisas concretas nem abstratas. Ali eu simplesmente era.

Reparei estar vestida quando senti aquele tecido de algodão roçar minha pele, contornar meus seios e via das curvas da minha mente a necessidade de me despir de tudo. Assim o fiz. A brisa me trouxe de volta. Eu não conseguia parar de sorrir. O privilégio de poder chegar em um lugar onde só a natureza habitava há tanto tempo. Um lugar perdido. Sou grata por esta perdição. Voltei a ouvir aquela cachoeira e pude ver a água, turva pelas chuvas na nascente, ficar lentamente transparente. Fechei os olhos e caminhei até a beirada escorregadia daquele penhasco. Eu estava em paz...

Lembro-me apenas de estar lá embaixo em um lapso proposital de tempo. Nunca amei tanto a vida. Nunca me amei tanto. Aquele era o ponto dos milagres. Onde a mente era alma fluindo pelo corpo e tudo era possível. Eu ouvia meu coração e minha respiração. Os ouvi silenciosamente durante toda minha jornada até ali. Olhei ao redor quando lembrei da minha mochila. Não foi difícil a encontrar. Se eu fosse tomada pela lógica afirmaria estar alucinando e questionaria ouvir algo além daquela cachoeira com quase 500 metros de queda. Avancei e me sentir enraizar nas pedras e depois pela areia molhada. Ao mesmo tempo meus braços esticados eram a água e o ar.

Não era mais complexamente mulher. Era a Sereia destinada do lugar. Eu me equilibrei com o tempo, com o som, com o espaço... Éramos sintonia. Aquela música cantava naquele lugar desde o início dos tempos. Ciência, mitologia e divindades se misturaram em mim. Quando abri os olhos não sabia se era déjà-vu, memória, vivência ou premonição. Sabia ser minha maior inspiração. Só não tinha certeza se aquela tela viva, consumindo quem não inspirava, deixaria o mundo sobreviver a ela.

quarta-feira, fevereiro 06, 2019

sentiração










tremeluzia a escuridão em contradição
estava gelado o silêncio quando me abraçou
era um mute mundial extremo
eu abri os olhos em um renascimento

tremia luz enquanto meu coração transbordava
o vazio foi desabitado com um sopro
o arrepio itinerante percorreu todas as milhas da pele

enquanto o devagar me respirava pelo horizonte
a claridade era alvorada e crepúsculo em pulsação

meu corpo estada efêmera d’alma só segue sensações.

+Rafael Belo, às 23h22, 05 de fevereiro de 2019, terça-feira, Campo Grande-MS+

segunda-feira, fevereiro 04, 2019

Inspire fundo








por Rafael Belo

Nascemos para a inspiração. Não estou falando só da necessidade de puxar o ar pelo nariz, e até pela boca, para continuarmos vivendo. Falo do menos óbvio. Falo daquele momento no qual paramos e percebemos o ar entrar aos poucos e se espalhar em nós. Vou mais profundo nisso. Feche os olhos. Venha comigo. Pense neste momento de inspirar. O que te inspira? É uma pergunta que sempre respondo, mas nunca com tanta clareza como agora. Boas energias me alimentam. O som das águas, o som da cachoeira, o som das risadas, o som dos instrumentos, o som do silêncio, o som de beijos e o som de abraços entregues.

Respirar fundo e olhar ao redor me inspira. Ouvir me inspira mais, mas sentir é o principal. Abrir as mãos, tocar, entender o vento percorrendo a pele… Sentir a natureza, o chão com os pés descalços, a chuva no corpo e sentir as pessoas. Se sentíssemos mais entenderíamos a necessidade do silêncio, do espaço, da construção vinda das nossas mãos de algo que antes não existia. A energia criadora em nós se exaltaria, gritaria de felicidade… Como se após muito preparo vencêssemos uma maratona, passássemos em um concurso… Faz todo sentido sentir! Basta ver o efeito avassalador de alguém que conquista um objetivo, que realiza um sonho.

Nascemos para sermos inspirados e sermos inspiração. Enquanto não chegarmos lá, só nos sentimos perdidos e é normal se perder antes, durante e depois. Só precisamos sentir. Buscar o que nos faz sentir, o que nos faz sentido e não nos perderemos de novo. Dizer só faz parecer simples esta busca individual, mas não significa impossível ou que em coletivo não possa acontecer. Há um lugar para nós, mas precisamos ocupar nosso espaço e nos sentir merecedores deles. Ninguém pode fazer isso por nós, mas há tanta gente inspiradora capaz de acender a luz indecisa em nós, não é?

Nesta direção, naquela direção… Não importa cada um tem seu próprio lado, seu próprio jeito, independente de parecer estarmos pisando os mesmos passos. O combate individual vira repetição e desistência sem inspiração. Um gesto, um minúsculo inseto, um olhar, um sorriso, uma mão estendida, uma frase, uma imagem, a natureza… Tudo pode ser inspiração, até nada. É um sopro de vida, um inflar refrescante e quente a nos fazer voar, a avaliar nossos limites, nossas capacidades, sorrir e ir além. Respirar dentro, inalar das ideias ou sentimentos de outro, colocar o ar para dentro… Isto é do latim In (dentro) Spirare (respirar). Que tal nos inspirar diariamente e inspirar uma pessoa por dia?

sexta-feira, fevereiro 01, 2019

Libertei-me do tempo (miniconto)







por Rafael Belo


Eu tremia sem controle. Descontrolado também estava meu sorriso e não era de nervoso. Talvez eu fosse a única mulher por ali. Eu sabia qual era o erro, além desse… O som só existia quando eu me lembrava dele. De alguma forma me tornei o meu sonho. Pelas minhas memórias poderia ir mais… Consegui estar fisicamente no lugar onde já estive. Mas não era só isso, conseguia acessar em qualquer tempo. Passado, presente, futuro… Libertei-me do tempo que nos controla.


Quando meu conceito de certo e errado me batia em cada esquina, precisei rever os meus conceitos. Bem clichê! Mas, realmente eu tive que admitir que só aprendemos apanhando, dando as caras, enfrentando… Mas, se este for meu Efeito Borboleta, não é pra me ensinar sobre escolhas e como é a maneira que entendemos elas o motivo do caminho? Ou seria uma ditadura cósmica onde não importa a escolha o resultado vai levar para o mesmo lugar?


Este meu Mundo de Sofia particular estava me fazendo passar mal de ansiedade! Há tão pouco tempo eu havia conseguido esquecer o tempo. Desapareci silenciosamente. Joguei fora os relógios que ainda existiam, doei meu celular… Vendi tudo. Fui para lugares frios onde poderia usar gorros, tocas, máscaras e esquecer da aparência. Parei de falar de milésimos, segundos, minutos, horas… Adiantar e atrasar se perderam no meu vocabulário.


Ninguém está preparado para saber! Respirando calmamente me misturei aquele rio desaguando em meus mares e assim oceano pensei na responsabilidade de ser a única Máquina do Tempo consciente… Não. Não é verdade! Há outras! Sinto isso agora. Elas me chamam. Eu ouço tudo… Elas me esperavam! Não. Este lance de Profeta, de “A” esperada… Meu! Não! Cada um é sua própria aspas, seu próprio profeta… Olha aí a ansiedade de novo. Olha eu vou para a inexistência do futuro encontrar minha cachoeira e não me venham com esta de quandos.... Eu vou voltar!

quarta-feira, janeiro 30, 2019

correnteza








o som da cachoeira some
fico parado no mesmo lugar
é tudo um acúmulo de desnome
com esquecimento familiar

este rio vivo molha meus pés
a paz e o silêncio respiram
suspirando o que interessa em um devagar interessante

um minuto com efeito escorre na pele
os defeitos no tempo alucinam

eu oscilo com a memória descendo a correnteza sem parar.
+Rafael Belo, às 00h09, 30 de janeiro de 2019, quarta-feira, Campo Grande-MS+

segunda-feira, janeiro 28, 2019

Nossos (d)efeitos no tempo







por Rafael Belo

Lembro de Nelson Rodrigues quando ele fala de beleza. Vou adaptá-lo. É preciso chegar às pessoas e dizer: “ser bonito não interessa, seja interessante”. A beleza acaba em 15 dias em uma fadiga visual. Agora pessoas interessantes se perpetuam… Mas, não estou falando aqui de beleza e sim do tempo. Perdemos o controle diante dele. Há toda uma ditadura social impondo nossos direitos e deveres diante do tempo. O tempo nos controla. Somos alienados para temer os efeitos dele. Entre parar, descansar, refletir e continuar pensamos sobre este vigia eficiente e tão presente em nós. Sim ele passa. Ele não pára. Cabe a nós entender como ele funciona individualmente. Sabe, eu estava estes dias esperando em uma das cachoeiras do Ceuzinho. Era só o barulho das folhas e daquela pequena cachoeira. Ouvi meu silêncio ali e senti minha paz.

Vendo as águas passarem preenchendo os espaços, percebi que estamos na história com nosso passado, no amanhã em mistério e tudo isso deságua no nosso agora, neste presente onde podemos aplicar nossa aprendizagem até ontem e nos preparar para revelar nosso depois. Tudo dependendo deste momento. Tocando o frescor daquele rio, realmente senti ele não ser o mesmo a cada instante acontecendo. Eu era aquele rio. Sou ele. Somos… Aqui comigo, você está ouvindo o som de alguma cachoeira na sua memória. Lembra como se sentiu? Está sentindo o mesmo agora. Sentimento é tempo. O tempo é o sentir. Esqueça o controle. Foque nas ferramentas dentro de ti para lidar consigo mesmo e assim lidar com tudo.

A maneira como nos sentimos é prisão ou liberdade. Eu sinto o tempo me libertando a cada passo dado, a cada palavra formada, a cada nota emitida como canção e em toda dança eternizada em um abraço gostoso. Este é o tempo, este é o sentimento, estes somos nós lidando, conforme nossas escolhas, com a mão estendida da vida nos tirando para dançar todos os dias, a cada instante. Por isso, individualmente 1 minuto pode nos ser eterno e dez anos um sopro, um instante. É nosso sentimento-tempo. Realmente depende de nós. Individualmente e coletivamente. Então, não se prenda dizendo eu não tenho controle sobre o meu sentimento… Aí entra o pensamento, a reflexão, o conhecimento. Um exemplo? Quantas vezes você pensou amar alguém e no primeiro deslize da pessoa seu sentimento foi de raiva? Diga-me: isso é amor? Ou, então, quantas vezes você não sentiu raiva e quando parou para pensar percebeu o mal que estava fazendo a si mesmo?

Vamos voltar a Nelson Rodrigues na vida como ela é e dedicar este último parágrafo ao interesse e ao interessante. Não é mais interessante não sentir raiva e focar o interesse em resolver a situação? Quanto tempo vamos desperdiçar com egoísmo, com desamor, com raiva, com futilidades e nos deixar transformar em pessoas manipuladas, controladas pelo desinteresse, pela ausência, pelo domínio de sentimentos que apenas nos fazem mal e contribuem para um vazio ganhando tempo e espaço nas nossas vidas? É interessante nos permitir sentir até a tristeza e a dor, mas é do nosso interesse utilizar nosso tempo como uma ferramenta para crescermos individualmente e coletivamente estendendo a mão, chamando também a vida para dançar no tempo do abraço gostoso localizado naquela cachoeira da memória.