quarta-feira, março 25, 2020

O silêncio guardado







por Rafael Belo

No geral é silêncio. Pelo menos agora. Parece que foi percebida a urgência e gravidade da situação. Há dois dias pais e crianças afrontavam a quarentena, desafiavam nominalmente o coronavírus (COVID-19) e os decretos do “FIQUEM em CASA”. Mesmo após o pronunciamento irresponsável do presidente da nossa República da conveniência menosprezar os acontecimentos e pedir um direcionamento diferente do que o mundo está tomando e sem alternativas concretas. Esporadicamente os sons que surgem são do vento balançando alguma roupa no varal, a telha de metal estalando, a geladeira zumbindo, carros e motos ligando e passando… Esta situação inédita vivida por todos nós tentando afastar o medo com humor e negação, causa extrema estranheza. Realmente estamos em quarentena vendo os erros de outros países que ignoraram a pandemia… Parece que estamos suspensos no ar. Há quem está em casa há dez dias. Eu estou neste momento da escrita há cinco dias. 

Como não lembrar das sucessões de quarentenas bíblicas e, principalmente, a do senhor Jesus?! Andamos no deserto separados dos nossos. Com os pés na areia fervendo e o sol escaldante na cabeça, tentados ao desleixo, ao desprezo, a raiva, a solidão, ao mal... Nestes instantes caseiros  e de isolamento é que realmente as falhas - grandes ou pequenas - se agigantam. Percebemos o quanto nossa humanidade é falha. Vi tantos erros meus confessados pós-descobertas e não os cometendo mais. Assustei-me com o que não me vi fazendo, não percebi minhas ações… Todo o silêncio guardado me corrompia. Sobre tudo e os pensamentos presos se perdiam. Eu me desfazia com ambos. Penso em quantas casas silenciosas estão gritando agora. Estão isoladas, em perigo… Esta quarentena involuntária é praticamente uma internação compulsória.

Esta é a hora de nos desfazermos dos nossos vícios e egoísmos. Esta é a hora de reconhecermos o mal que fizemos, fazemos e podemos fazer. Este é o momento de aprendermos as consequências de nossos atos e mesmo não tendo envolvimento, de alguma forma somos cúmplices da culpa. Nos minutos estendidos da nossa maior fragilidade exposta é que podemos ser fortes e negar as tentações. Podemos nos fortalecer e enxergar a importância de nós mesmos e de todos os nossos irmãos. É hora de limpar a casa, de tirar as impurezas detalhadamente de nós mesmos e aprendermos a discernir os silêncios que nos ronda. Como vivemos até agora não nos leva para onde deveríamos ir. Já se perguntou, ao invés de determinar, para onde deve ir?

Não guarde o silêncio. O use. O entenda. Nada mais de julgamentos. O seu Espírito é o próprio Deus manifestado em ti esperando para agir. Pode ser que o som mais assustador no momento seja o espirro de um vizinho e a tosse seca de outro, mas mais assustador ainda é ver toda a nação caindo diante dos nossos olhos. Levante-se. Ouvi no meu silêncio esta ordem: Levante-se. Compartilhe seu silêncio e acalma teu coração. Não estamos sozinhos, não estamos isolados. Revele-se.

quinta-feira, março 19, 2020

Sinais do fim









por Rafael Belo
Uma pandemia sempre vacinada e possível de vacina: a ignorância. Mas, como toda vacina é preciso buscar tomá-la. Teorias da conspiração, fakenews, junkienews… É tanta desinformação proliferando que o contágio do novo coronavírus (COVID-19) é uma questão de tempo. Aliás, toda a demora para a prevenção acontecer acelerou a propagação, a potencialização e expansão da doença. 

Os casos no Brasil são imensamente maiores pela precariedade do sistema de saúde, já incapaz de atender traumas e outras doenças por insuficiência de leitos e uma coleção de fatores. Soma-se a isso os extremos de autoridades com o trabalho dos jornalistas. Ou são totalmente desacreditados ou intensamente acreditados. Por isso, é desolador a forma como o impacto dos acontecimentos causa dúvidas mesmo com reportagem e informações 24 horas por dia esclarecendo sobre cada detalhe sobre a pandemia do coronavírus. Além disso, os oportunistas aumentam preços de produtos essenciais para higiene e estocam os produtos para vender por valores exorbitantes, sem falar na falta de senso de coletividade.

Está não é uma gripe comum. Ela pode matar quem tem problemas respiratórios ou debilidades na imunidade. Prova da complexidade da situação  são as suspensões de aulas, gravações, eventos, circulação de pessoas e a autorização de prisões por desobediência deste toque de recolher da saúde. Quanto o planeta perde com a economia? Vidas estão se perdendo pelo descaso e com a velocidade que se espalha vai lotar hospitais já lotados, já sem leitos, vai sobrecarregar o sistema e profissionais da saúde.

Não estamos competindo com H1N1, Dengue, Zika, Chikungunya nem mesmo a devastadora fome. O COVID-19 não vai pedir licença para as outras doenças, vai somar a elas. Temos que acreditar e ter fé, mas prevenção é primordial.  Aliás, razão e fé andam juntas basta fazer o mínimo e ler a Bíblia. Não podemos ser irresponsáveis e acelerar a contaminação por este vírus, portanto, se há decretos e orientações mínimas deve-se seguir. Está lá em Mateus 22:15-22 e Romanos 13:1-3.

“Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Quando o disse, Jesus respondia sobre ser certo pagar impostos a César. Esta passagem fortalece como proceder diante de autoridades nos seguintes versículos. "Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por ele estabelecidas. Pois os governantes não devem ser temidos, a não ser pelos que praticam o mal. Você quer viver livre do medo da autoridade? Pratique o bem, e ela o enaltecerá".

As consequências de não praticarmos o Bem ou nos omitirmos são as quase dez mil mortes no mundo - mesmo a divulgação sendo de metade ou menos -  sendo 3.130 em Hubei na China, 2. 978 na Itália e em outros lugares bem frequentados por brasileiros como Argentina com três mortes e 97 casos confirmados e Equador com 168 casos e três mortes. Aqui na fronteira do Mato Grosso do Sul, temos o Paraguai com 11 casos confirmados e a Bolívia com 12. Além de outro país visitado pelo planeta todo, Estados Unidos com 9.415 casos onde há 68 mortes em Washington, 20 mortes em Nova York, 16 mortes na Califórnia. Os números se atualizam a todo momento. 

Quem esteve em Campo Grande-MS, antes de ir para o EUA foi o senador Nelsinho Trad hoje confirmado com coronavírus.  Ele esteve nos Estados Unidos onde, até agora, 16 pessoas que estavam na comitiva com o presidente Jair Bolsonaro também estão com a doença. A deputada federal Rose Modesto e a senadora Simone Tebet fizeram o teste e deu negativo. Já a senadora Soraya ainda não divulgou se conseguiu fazer o teste. Falo delas porque estiveram em Campo Grande na última semana e como não há testes para todos há muitos mais casos e mortes por causa do Covid-19 que se pode registrar. 

Falando em registro, só agora o presidente parou de tratar o assunto como fantasia e histeria, além de exagero com as medidas tomadas…  Ele contrariou ações não recomendadas pelo próprio ministro da saúde. Enfim, é tarde para arrepender-se. O fato é que tanta imprudência já aumentou no mundo em quatro dias mais de 60 mil casos hoje são mais de 234 mil confirmados.  Saltamos de 52 casos na última sexta para mais de 600 com sete mortes, ou oito, dependendo da fonte.

No entanto, a mobilização para parar a contaminação e encontrar a cura já acontece desde os primeiros indícios do novo vírus no ano passado. Hoje circulam notícias publicadas por jornalista em Cuba apontando que 1500 pessoas foram curadas na China. Na matéria é apontado um medicamento (Interferon Alfa 2B) que é fabricado desde 25 de janeiro na fábrica chinesa chang-heber, cubana, que fica na cidade de Changchun, província de Jilin na  China. Porém, há um porém. É tudo novo e no Japão e na China pacientes declarados curados voltaram a dar positivo...

Ah, sobre a queda das bolsas… A China também caiu como todos os países. Esta conspiração é uma distorção dos dados reais, basta pesquisar as bolsas e verá. Também há outra teoria da conspiração envolvendo a implantação do exército norte-americano como uma guerra biológica. Faz mais sentido do que a China “matar” mais de três mil pessoas para prosperar economicamente. Mas, mais uma vez, é teoria. Porém, guerras por questões econômicas acontecem há milhares de anos. Voltando a razão e fé, busque conhecimento, obedeça as recomendações das autoridades e tenha fé. Mas, não deixe de se prevenir.

quinta-feira, março 12, 2020

O teste de O Médico e o Monstro moderno










por Rafael Belo

Para um povo estatisticamente e da boca para fora cristão, além de chamado de alegre e acolhedor pelos estrangeiros, deixamos tudo a desejar. Cultivamos e apontamos demônios e monstros por toda parte, mas não nos capacitamos sequer para abraçar os mesmos. Agora pouco li um artigo sem o nome de quem escreveu, onde um dos motivos faz sentido e me motivou a escrever sobre nós mesmos e o ignorar do nosso divino.

Já devem imaginar que o texto lido falava da nossa reação sobre o assunto do momento: Dr. Dráuzio Varella e a transexual. O abraço que comoveu quem assistiu em um primeiro momento e gerou revolta em um segundo momento quando o crime brutal cometido pela mesma (o estupro, assassinato e o deixar apodrecer o cadáver de uma criança) chegou ao conhecimento público. No texto o motivo da revolta relatado foi termos tido empatia por um assassino com todos os maus adjetivos e empatia é reconhecer no outro algo em si mesmo…

Não. Não digo termos a capacidade de fazer o mesmo, é algo devastador… Mas de ser possível algo monstruoso, demoníaco ser cometido por qualquer um de nós. Esta "lembrança" forçada a cada um de nós pelo caso foi o motivo da revolta. Julgamos e condenamos o médico e a emissora por nos fazer sentir empatia pelo mal, por gerar dúvidas e ,a verdade, em maior ou menor grau apontamos o "crime" do outro mas quando cometemos o mesmo "crime" não reconhecemos, não aceitamos, minimizarmos o que fizemos e até negamos. 

Não é hipocrisia ou covardia. É medo. Medo de reconhecer que podemos cometer não só falhas pequenas, não só erros mínimos, não só pecados "menores", mas grandes, imensos, vergonhosos e desumanos. Nisto, o que nos incomoda, o que nos indigna é que o monstro pode estar ao nosso lado no espelho sem sequer notarmos sinais ou aparência diferentes. Se fôssemos realmente acolhedores e cristãos não trabalharíamos  com exclusão. Usamos nosso divino como conveniência… Já pensou se todo este episódio do "O Médico e o Monstro" atualizado pode ser um momento de reflexão e um ponto onde, independente de religião, Deus está nos testando?

domingo, março 08, 2020

Mais que uma vida (miniconto)







Rafael Belo
Aqui, revisitando o Calvário, já não sei quantos anos se passaram. Talvez 4 ou 40. Só faz sentido o que ficou e  este carbono adulterado, que ainda chamamos de pele, que ainda dizemos ser nosso corpo se acaba em um sopro. As estrelas, as lembranças, as experiências… Todas emocionais? Todas racionais? Isto é conhecimento? Até enfrentarmos os mais invencíveis guerreiros: A Vida e O Tempo. 

Conversei com a vida. A Vida sempre dá um jeito de continuar. Deitei-me no Tempo. O Tempo ensina. Esquecemos ou vivemos em nostalgia e rancor. Vivi muito tempo assim. Raiva me movia. Mas, a Vida me jogou no Tempo. Percebi que a Vida vinha me derrubando a todo Tempo. Precisei do Tempo para entender o motivo da Vida me derrubar. Me sobrava razão, me faltava emoção. Me sobrava emoção, me faltava razão. Com conhecimento destruí ao invés de construir. Com emoção manipulei ao invés de amar. Fiquei vagando no desamor e como um mal líder diminuía quem em mim confiava ao invés de aumentar. Achava ter entendido meu Calvário. Mas não. Porém, agora já peço ajuda para entender.

Não falta nem sobra nada mais, pensei que o equilíbrio era supervalorizado. Mas mais uma vez eu estava errada. Não pense que não está também. Todos estamos. Reveja as marcas no seu corpo. Reveja suas memórias. Não garanto ser esta a última vez que levanto. Mas quase já não tenho caído. Agora estou no Espírito. Espero ter compreendido que razão e emoção são delírios sozinhos. Ao redor, neste momento distantes de mim, há muitos delirantes tentando me alcançar...

Estive delirando neste mundo covarde. Virei covarde. Agora sinto a coragem me mover. Me sinto muito maior do que sou. Soou, ressoou. Sou o próprio Espírito habitando este corpo, estas lembranças, esta razão e esta emoção. Procuro me orientar Nele. Ser além do que minha carne permite e, às vezes, isso demora mais que uma vida.

quinta-feira, março 05, 2020

reconstruída








de braços abertos não abraço me equilibro
caminhando onde não cabem meus pés
até não ter mais caminhos
estou andando nas águas

minha razão não é mais forte 
esta força é O Espírito 
trabalhando na emoção oprimida

dividida em um muro com escoras
e o mundo reprimido revida

jogo fora os comprimidos estou livre vivo na eterna  vida.

+às 15h32, Rafael Belo, quarta-feira, 04 de março de 2020, Campo Grande-MS+

terça-feira, março 03, 2020

A razão, a emoção e o Espírito








por Rafael Belo
Eu vejo as pessoas vendendo conhecimento. Eu vejo as pessoas deturpando o significado do conhecimento. Eu vejo a busca deste conhecimento, o aumento dele… Este uso da razão e da experiência para compreender poucas vezes é usado sob si mesmo. Do latim cognoscere "ato de conhecer" que deriva para o sujeito (cognoscente) e o objeto (cognoscível). Nossa capacidade de conhecer é sobre nós mesmos, o autoconhecimento e dados e informações sobre algo ou alguém. Mas, o quanto usamos para melhorar ao invés de obter posição privilegiada e de se automassagear?

Conhece-te a ti mesmo era frase atribuída ao Oráculo de Delfos  (479-399 antes de Cristo) em um mundo cheio de deuses e idolatria. Lá se dedicava a Apolo considerado deus da luz e do sol, da verdade e da profecia. Mesmo neste politeísmo cansativo e em busca de respostas conhecer-se é caminho para uma vida equilibrada, autêntica e feliz. Porém, se limita a razão e a emoção. Como ter equilíbrio sem desenvolver a espiritualidade? Impossível. É caminho certo para orgulho, prepotência, desequilíbrio, desencontro e desarmonia. 

Por isso, o desapego aos bens materiais e amar ao próximo não é explicável. Primeiro porque acumular matéria nunca satisfaz. Segundo porque amar o próximo requer amar a ti mesmo e para isso é preciso conhecer-se e entram os três caminhos: razão, emoção e espírito. Este último faz um paralelo da frase filosófica inicial neste texto a um versículo bíblico. É João capítulo 8, versículo 32. "Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará". A verdade aqui tem proporções divinas, pois se refere A Verdade, ou seja, Jesus. Nele não há escravidão, nem morte eterna.

Emoção e razão se desfazem. Razão por conhecimento, emoção por conhecimento sempre entram em conflito e o princípio de que cada um tem sua visão e sua autodefesa. Em outras palavras, se aceita o que o outro diz ou se tolera o que este faz, mas a própria experiência é o que comanda. Entra aqui o desafio diário de ser cristão. Sem aceitar e se entregar ao Espírito não há equilíbrio, não há Graça, não há verdadeira transformação do ser humano carne fraca, no ser humano espírito forte e amigo de Cristo.

domingo, março 01, 2020

Perdida (miniconto)










por Rafael Belo
Estava eu perdida… De novo.  Não acertava nada, não reconhecia nada… Eu me sentia em um deserto bem na temporada de tempestades de areia. Eu me sentia o deserto. Mas desta vez era totalmente diferente. É! É totalmente diferente! Estava sozinha. Mesmo assim sentia não estar. Sentia ser necessário tudo isso. Era a primeira vez que eu lidava com este sentimento. É! É a primeira vez! 

Só não tirei a vida de ninguém nem cometi adultério ou roubei… Bom… Melhor não listar os pecados. De que adianta? Preciso confessar… Preciso reconhecer… Todos os motivos que me afastaram. Tenho fome. Tenho cedo e nada me sacia, nada me satisfaz. Pelo menos eu não reclamo mais. Não fico balindo ou procurando ouvir alguém balir para mim, mas não permiti me tosquiarem mais. Fiquei muito orgulhosa da minha lã.

Quando percebi. Quando dei por mim. Estava aqui, sem mim… Percebi que todo vazio é preenchido, todo espaço ocupado… Todo o possível a fazer, senti, era aceitar. Com mais compreensão eu aceitei novamente. A cada passo dado aceitava mais uma vez e outra vez e continuamente aceito. Nunca estive só, gritei. Algo Inexplicável, Inabalável e Onipresente me chama para a igualdade, para ser a própria profecia. Choveu. Eu só via Luz.

Esta Luz. Sim! Esta Luz! É Paz! É Amor! Ela é realmente O Alimento! Veio atrás de mim porque meus irmãos estão Salvos. Posso aceitar minha Salvação. Novamente. Sem desvios! Segui a Luz. Ela está sempre em meu coração. Caminho na tranquilidade e logo, aqui estou, com os meus. Há festa. Batem os sinos, balem meus iguais. Toda vez que eu me perder não estarei perdido. Sei que só preciso confiar e mais uma vez aceitar.

quinta-feira, fevereiro 27, 2020

Mover








badalei o badalo da vida
Vi o avesso de fora
balem meus sinos batem meus sonhos
vai-se meu sono para a noite voltar 

minha lã já não é troca
troca-se por si pelo Pastor
agora não há superfícies

pastoreio profundo o pasto do Éden
o Jardim infinito permitido em mim

Edificado estou pois o meu Mover é Eterno.

+às 08h08, Rafael Belo, Campo Grande-MS, quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020+

terça-feira, fevereiro 25, 2020

EU SOU OVELHA







por Rafael Belo

Somos injustos, somos cruéis, somos ingratos. É fato. Nosso ego e arrogância vive a nos cegar. É difícil admitir quando se é tanta carne e quase nada espírito, quando o nosso alimento é o desequilíbrio e o reflexo de como somos tratados pelo mundo. Nos falta fé e não vem a frase "no fundo" antes. Estamos aqui na superfície. Estamos rasos cheios de insegurança, desconfiança e atitude. Somos questionadores imprudentes porque segue nos faltando também nos colocar no lugar do outro e mais… Nos falta tanto, mas penso ser o maior destas faltas o arrependimento genuíno, o avivamento.

Deixamos de acreditar em tantas coisas e perdemos mais uma chance de nos edificar. Não falo olhando ao redor. Estou de olho no meu próprio umbigo e antes disto soar e parecer egoísmo já digo algo nada inédito: a partir do reconhecimento dos nossos erros, nossas falhas e ações para mudar isto é que processamos nossa fé. Saímos, assim, do raso, desta superfície mercantil de troca e nos entregamos, nos doamos, profundamente acreditamos e vivemos na imersão total da fé.

Há clareza e vivência. Os atrasos, os vícios, nossos constantes pecados vão diminuindo conforme vem o entendimento tão pedido. Devem usar sim a razão, mas não é sozinhos que garantirmos ser esta razão A Verdade, há o coração e A Palavra para nos orientarmos por isso, somos ovelhas. Não no sentido de dependentes, controlados, mas repletos de condições a nos adaptarmos ao local onde vivemos para fazermos a diferença e aceitarmos sermos pastoreados pela Força Tremenda a qual chamamos simplesmente de Deus.

Ovelhas são dóceis e tranquilas, reconhecem rostos dentro do rebanho, inclusive o seu pastor. Elas também sabem se automedicar quando doentes comendo plantas específicas para serem curadas e digerem grãos que outros animais não conseguem, afinal elas têm dois estômagos. Além disso, se generaliza ovelha para falar de toda a espécie e, talvez, porque o carneiro (macho da espécie) é agressivo e protetor diante das ameaças. Já cordeiro é o filhote e o jovem da espécie. Outro fator a nos colocar como ovelhas é o tempo. Elas foram o segundo animal domesticado entre 17 e 13 mil anos. Elas sabem também ser eficientes já que produzem lã  desde o nascimento e cada vez que é tosquiada, sua lã fica melhor. Ou seja, ela sempre produz, ela sempre frutifica, ela não fica parada, ela não espera nada acontecer.

Isto é edificar. Diferente de achar ter razão, como por muito tempo achei e lutei para deixar isto claro fazendo prevalecer esta minha justiça própria, está minha certeza do que é certo. Porém, não há a justiça dos homens de Lei e a Justiça de Deus ? Se eu agisse como antes seguiria sendo uma cobra picando sempre que pisado ou tentando pisar. Quando entendi transbordei e encho a boca para certificar: EU SOU OVELHA! 

sábado, fevereiro 22, 2020

Vaso Novo (miniconto)







por Rafael Belo
Estava sentada. Quando começou a chover continuei chovendo sentada. Eu chovia por dentro e a chuva me transbordava por fora. Estava ressentida, insegura… Esbravejava os trocos que jogavam em mim. Eu realmente me sentia uma mendiga, um ser humano invisível e abandonado… Começava a criar lógicas absurdas porque se eu era invisível como seria abandonada se para ser abandonada era preciso ser vista? Eu não fazia sentido.

A lógica real era eu estar procurando respostas no lugar errado. Neste lugar só pairava raiva e escuridão e não havia razão. Eu me questionava. Quando eu perdi a coragem de olhar nos olhos do outro ou de sustentar um olhar? Eu me reduzi em meu próprio inferno desabitado. Acreditei nas pessoas erradas e reino uma servidão escrava. Não contenho nada. Aliás, não continha. Era um vaso rachado sem serventia… Eu servia para a dúvida, para a incerteza… Nunca tive nada de verdade porque nada havia ficado. Este tudo dito na verdade não é nada. 

A chuva era um dilúvio. Meu dilúvio. Eu sentia algo na verdade, mas não aceitava. Quando vi aquela Luz. Olhei ao redor. Não estava mais no caos e na desordem só Centro daquela cidade qualquer. Estava em um quarto. Aquela Luz estava mais forte. Esta mais forte. Mas ao contrário da cegueira da escuridão, Ela me faz enxergar. Neste quarto a água está corrente e me imerge por inteira. Há uma conversa íntima, particular e eu já sou Luz também, sou um vaso novo.

quinta-feira, fevereiro 20, 2020

ressentido







Deixei de sentir todo peso
depois de ressentir devorar ressentimentos
perder-me a tempo de me ver perdido 
ressentir reacender quebrar meu vaso
na olaria mais antiga amassado refeito 
novo sujeito outro vaso
novo que reascende o reascendia 
descendia de ressentimento
Desentendimento de um mundo 
ressentido 
Só um caminho faz sentido.

+Rafael Belo, Às 15h44, terça feira 18 de fevereiro de 2020, Campo Grande-MS+

terça-feira, fevereiro 18, 2020

Preparação do porvir





por Rafael Belo

Nestas águas de Noé em dilúvios vindo das consequências, tudo é cobrado de quem deve. Quem não deve, não deve temer. Estamos constantemente sendo preparados para algo adiante. Entender demora. Os joelhos se dobram e no tempo preciso o entendimento vem. Não sabemos o que é preciso para chegarmos onde devemos ir. É um sentimento depois de enchentes, desabamentos e uma flagrante epidemia mundial.

Estamos no deserto sem perceber. Estamos na jornada do heroi sem saber. Herois da nossa própria história, mas procurando outros herois, indo assim para lugar nenhum onde a mente se esvazia habitando um inferno sem nome assolando o coração de julgamentos quando é na coragem do silêncio que o som do coração nos aquece com uma divina Voz. Destes nós feitos por nós, nos livra. Um peso sai das nossas costas mesmo cada um carregando sua cruz e este deserto, esta provação só nos prova não estarmos sós  no deserto necessário para nossa evolução.

Na trajetória podemos perder a confiança e nós mesmos. Enchemo-nos de pensamentos negativos, agressivos, julgamentos, cobranças, arrogâncias permitindo que tudo fique pior acumulando problemas sem enxergar as soluções, sem enxergar as mãos estendidas. Acredite! Elas estão esticadas. O coração fala com a gente, mas precisamos o libertar para realmente o escutar.

No fim sentimos que tudo foi preparação. Sentimos não ter sido o fim. Mas o começo. O recomeço. Uma nova oportunidade. Na verdade uma correção de trajetória. É quando sentimos a alegria no coração. Como podemos viver sem ser alegres? Como podemos viver reclamando, apontando, se enraivecendo, matando diariamente a esperança ? Nosso pensamento precisa ser elevado e nossa atitude humilde e fraterna para evoluirmos ou não passaremos de mentirosos.





quarta-feira, dezembro 11, 2019

o padecer









a insignificância coletiva
individualmente divide o indivisível
fragmentado pela chuva da cidade
a mediocridade nos toma passiva
mastiga a tortura da nossa falsa retidão

barreiras das ilhas separadas chamadas eu
cercada de inundações
presa por pressentimentos ressentimentos armazenados no coração

enquanto a chuva continua no ensolarado dia
diminuímos derrotados ao fim da noite

de joelhos padeço ensurdecido pelo dobrar dos sinos e pergunto o porquê ambos se dobram.

+Rafael Belo, às 07h46, quarta-feira, 11 de dezembro de 2019, Campo Grande-MS+

segunda-feira, dezembro 09, 2019

Escute o dobrar dos sinos









por Rafael Belo

Olhando a cidade pelas gotas da chuva desta manhã, o individualismo e o egoísmo seguem triunfantes ao volante. Não há zelo nem atenção fora de si. Os veículos são armas piores. Revólveres, facas e outros instrumentos utilizados pelas pessoas com finalidades mortais, matam menos se comparadas a motos, carros, ônibus e caminhões.

São as pessoas o problema. Aliás a educação e a prioridade delas. O importante é chegar não importa os meios para isso. A todo custo a vantagem e a razão ocupam espaço por uma competição inexistente para chegar em primeiro lugar. Uns contra os outros e o indivíduo por si só. É um mundo solitário reagir sem pensar, competir sem ganhar…

Nestes descaminhos, nesta falta de escolha de caminho, neste seguir a maré, as linhas tortas não são vistas como futuras retas. É o presente imediato inconsequente raivoso o dono da mente. As consequências são ignoradas e todas as conexões desfeitas, ficam avulsas para qualquer necessidade. É uma total desconexão aliada a antipatia.

Logo pela manhã ao invés de desejar um bom dia e prosperidade nem sequer olhar o outro olhamos. O poeta pregador inglês, John Donne bem sabia entre 1590 e 1632 sobre a coletividade se sobrepor a individualidade, mas não apagá-la. Pelo contrário, agregar a qualidade individual a necessidade do coletivo é nossa sobrevivência. Então, todos nós somos importantes e precisamos dar a desimportância na medida para esse caos dominante se dissipar. Para crescer e evoluir precisamos ouvir, agir e nos conectar. Como disse John Donne: "Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso, não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti."  Somos parte necessária do Todo. Não há insignificância em nós, mesmo agindo e reagindo com insignificância. 

sexta-feira, dezembro 06, 2019

Não olhes nos olhos (miniconto)








por Rafael Belo

A lei proibia utilizar a visão. Não era permitido olhar o outro, mas a pior punição era olhar nos olhos. Era a morte certa. Bem… Aconteceram algumas exceções no decorrer da história. Até há um mito dos heróis. Bom… São dois mitos ou três… Não sei bem se misturei tudo, porém assim devo ter feito.  Acabei criando um terceiro mito. Alguns se cegaram e outros sobreviveram às torturas atemporais, onde por último eram arrancados os olhos. 

Desver era o procedimento mais doloroso de todos os universos. Havia formas de fazer gratuitamente, mas nunca era rápido o bastante. Pagar era dívida eterna… Então, era arcar com os atos. Porém, os mitos apareceram ou já estavam por aí… Como saberíamos se andamos com difusores oculares e cabeças baixas? Apareceram e sabotaram o procedimento de Desver. Foi quando tudo ficou mais assustador. O Governo vivia do Desver. Era a principal fonte de renda legal e Os Mitos revelaram todo o esquema. O Esquema das Promessas. O Governo agiu rápido, mas não acreditava ter Os Mitos em todos os seus tentáculos. Como enxergar isso?

Não era permitido enxergar bem nada nem ninguém. Como identificar… Tudo bem. É possível. Se você não tiver preguiça e ouvir, praticamente, tudo é possível. Hoje enxerga mais quem não vê. Os Mitos nunca permitiriam serem desrespeitados e, lembrando bem, há alguns deles olhando de verdade. Eles se infiltraram em todos os meios…

Como cego mesmo é quem vê… Eles estão agindo em duas frentes: Os Mitos e os Desvistos. A guerrilha atuando em enfrentamentos e sabotagens. Os Eleitos. Estes são os antigos espiões duplos. Eles financiam as duas frentes. Então, no final somos maioria. Eu estou deixando isso na nuvem com todos os procedimentos necessários para a sobrevivência de quem restou. Todos os arquivos estão neste sistema arcaico em todas as versões de mídia. Vocês podem acessar… Se encontraram todo o meu material, claro que já sabem e, meu plano funcionou perfeitamente. Sobraram poucos bons de verdade. Aqueles que agem! Estes só são conhecidos porque não é permitido mais cortar línguas e mãos. Espero que vocês sejam o suficiente e saibam trabalhar em todas as frentes. Não lhes direi boa sorte e nem saudações religiosas, muito menos discursos motivadores. É a liberdade de vocês. Só peço para pensarem bem antes de estarem todos no mesmo lugar. Afinal, todos os passados, presentes e futuros dependem de vocês… Façam como quiserem, mas espero que já estejam avançando e prestando atenção aos sinais Encontrem-me! 

quarta-feira, dezembro 04, 2019

dessaberes








não olhe nos meus olhos
mas me olhe outra vez
respeite o que não faz ideia
para me olhar em dessaberes

dissabores misturados a tudo que não saberás
mesmo assim respeite sem saber
para poder pensar em olhar

olhará nos meus olhos
ainda que eu não saiba de tudo
sei que não saberei

nos olhamos despidos não das vestes a nos cobrir 
nosso olhar nu só não vestirá mais julgamentos e saberes do outro.

+às 07h40, Rafael Belo, quarta-feira, 04 de dezembro de 2019, Campo Grande-MS+

segunda-feira, dezembro 02, 2019

Olhar outra vez












por Rafael Belo

A vida é feita de impulsos e tons. Force-se a parar e enxergar. Sinta seu próprio pulso pronto. Estamos pulsando no nosso tempo, mas como está ao redor? Você já deve ter pensado, mas já parou para pensar? Um tom errado e toda a intenção depositada na fala lançada vira palavras ao vento. O impulso mal calculado pode ter sequelas ou resultar no fim antecipado. "É a vida", diríamos preguiçosos, acomodados e cansados. Porém, se prestarmos atenção, a nossa correria enchendo nossa boca para continuar afirmando nossa falta de tempo é total distração dos fatos da realidade.

Distração escolhida e nos cegando em uma rotina massiva acelerada cultivando ansiedades e sensibilidade quando algo nos afeta diretamente. Diria afeta o eu. Afirmo machucar a primeira pessoa. O distanciamento acaba quando não terceirizamos nem pluralizarmos tudo. É pessoal mesmo se não for. Aquele defeito, aquela grosseria chegando aos nossos ouvidos, vindo a público sem o nosso consentimento em um reflexo egoísta nós magoa, nos chateia porque não somos esta fortaleza que vendemos. Isto é só mais uma imagem. 

Precisamos ser sinceros com quem fica com a gente o tempo todo. A honestidade com aquela imagem no espelho precisa vir em primeiro lugar seguindo quem está disposto a estar com muito além desta imagem, deste reflexo. Isto porque tudo fora do que chamamos de eu é reflexo, uma simples palidez da veracidade, umas pitadas da realidade vista pelos nossos olhos. Quem o outro é. O que o outro sente. Todos os obstáculos e quedas corresponsáveis por esta pessoa estar aqui, agora é só dela. Os efeitos e reações são particulares. Por isso, a palavra respeito vem em primeiro lugar.

Não só como palavra mas como ação. Toda reação deve também respeitar e considerar pessoas e lugares, primeiramente. Respeito vem do latim respectus significando ação de olhar para trás. Olhar uma segunda vez. Eu vejo como não emitir opinião, julgamento sobre ninguém já no primeiro contato e em todos os seguintes. É simplesmente considerar o outro e os efeitos de qualquer coisa emitida por nós sobre o outro e sobre o ambiente onde estamos. Ando errando bastante ainda e desrespeitando pessoas e ambientes, mas cada vez menos. Se realmente respeitássemos uns aos outros e lugares, coisas ruins e más não teriam vez, o mundo não estaria devastado socioambiental e sentimentalmente. Assim espero que cada um de nós seja além de impulsos e tons.

sábado, novembro 30, 2019

Cheiros da Morte (miniconto)







por Rafael Belo

Meu estômago latejava, minha garganta apertava. A todo instante me faltava o ar. Já não tinha notícias de qualquer pessoa. Talvez eu fosse o último ser humano na terra. Em algum momento todos foram dominados. A queda do Demônio esquizofrênico não foi uma só. Foi uma para cada personalidade.

Todos seus inomináveis nomes foram abolidos. Até hoje não consigo falar. Até agora não consigo afirmar se foi uma boa estratégia do mal se fingir de vencido, de inexistente, mas sempre foi mais complexo. Nunca foi só bondade versus maldade. O Vilão, o Inimigo era bem mais, ardiloso, inteligente e enganador… Espalhava Cheiros da Morte por toda parte.

A vida sempre foi um teste de caráter. O ilegal e o imoral destruíram o respeito. Depois de cem anos não restou nada da humanidade. Os bons não dobraram seus joelhos para entenderem sua pequenez e nada fizeram a não ser se doer, apontar e reclamar. Eu me salvei no último instante. Não sei dizer do que. Uma Legião vingativa saiu do exílio e explorou nossas fraquezas e defeitos. 

Creio só haver mulheres se eu não for a única viva. Tenho dúvidas se é o silêncio que perturba ou a quantidade de vozes me instigando o ódio e o rancor sussurrando no ouvido. Isto deve ser o Arrebatamento. Será que eu não me arrependo de verdade? Ou devo falar no passado e não me arrependi de verdade!? Nossa que arrepio e aquecimento dentro de mim… O que se forma lá longe? Está se movimentando… São as mulheres? Estou… Estou me afastando do chão… Nunca senti este tipo de Alegria exagerada. Vozes chamam meu nome e uma Voz distinta vibra em toda minh'alma. Meu corpo e minh'alma são um só.

quarta-feira, novembro 27, 2019

Pesado Ar









podres vermes proliferam decomposição
na desunião de mãos dadas
projetadas em pescoços apertados
robotização dos ataques para se defender

bots programados para darem o bote
cortando a ferida profunda na tentativa da eternidade de dor


um inferno privado de egos 
roubando os ares de viver

ar contaminado pelo pesado esquecimento de que é preciso morrer para ter vida. 

+ÀS 07h49, Rafael Belo, 27 de novembro de 2019, Campo Grande-MS, quarta-feira+ 

segunda-feira, novembro 25, 2019

Como nasce a desunião










por Rafael Belo

Atitudes destrutivas obviamente destroem. Não só o destruidor, mas todo o ambiente ao redor. Criam rejeição, afastamento, todo um lugar de culpa e dor. Um verdadeiro espaço insalubre dentro de nós mesmos. Coletivamente é onde se visita para se alimentar muito mas mal, semear a discórdia, deixar livre e forte a raiva e o rancor. Permitir a concretização disto sempre aliado a sentimentos negativos e a destruição só faz a multiplicação destes flagelos… A proliferação destes males é ideal para a decadência e a lamentação.

Este mal estar concreto é atrativo, é um ímã para quem se sente da mesma forma e quem se sente totalmente o oposto cai na armadilha de se afastar, de se permitir ficar em um pensamento ruim, em um sentimento negativo… Este coletivo atual está impregnado no Brasil e no mundo porque habita nosso lar. Nossas casas estão divididas. Nossos lares estão devastados. Permitimos a intriga, o egoísmo e o material resultar em desunião. Estamos desunidos até na união...

Há interesses egoístas quando grupos se reúnem. O propósito de compartilhar, dividir e crescer se transformou em mera exibição, palco, demonstração de força, curtidas… A união de fato desacontece. Deixou de acontecer porque perdeu o significado de coletividade, de auxílio e justamente de dividir o pão. Pelo contrário… Parece que ficamos ávidos por nos reunir para falar mal de alguém… Quer dizer apontar "defeitos", falhas de caráter, coisas fúteis como erros de pronúncia ou vestimentas e coisas particulares como relacionamentos... 

Não procuramos ajudar. Procuramos dar holofotes e os 15 minutos de fama daquela situação. Escolhemos filmar, tirar foto, rir, julgar…  Dizer sobre a colheita, o merecimento disso, de seja lá o que for que esteja acontecendo com a pessoa é resultado de algo que ela fez ao menos que sejam vitórias, conquistas de felicidade e bens materiais aí muda. Falamos que foi feito algo de ilegal ou imoral. Depois nos perguntamos: como nasce a desunião?

sexta-feira, novembro 22, 2019

Eu Cigarra (miniconto)









por Rafael Belo

Fui chamada de anomalia. Onde já se viu uma cigarra fêmea que canta? É papelão do macho cantar para atrair as fêmeas… Eu tenho duas caixas acústicas ainda. Uma no abdômen e outra no peito. É a correção da natureza de dar algum tipo de vantagem para os machos. Quando eles vieram me isolar, me confrontar, me exterminar… Só avisaram depois. Nunca houve aviso. Arrancaram minhas asas e me jogaram no chão…

Enterrei-me e esperei a compreensão da próxima geração. Não aconteceu. Foi o mesmo. Repetição. Enterrei-me de novo. Esperei. Desta vez esperava respeito. Não houve nenhum.  Pelo contrário. Enterrei-me novamente. Ainda tive esperança e esperei aceitação. Foi pior… Na próxima vez esperei por tolerância… Agora na milésima vez aprendi.

Não preciso esperar. Nunca precisei. Eu era única. Hoje sou milhares. Já não nós enterramos mais. Saímos anônimas por aí. Voamos silenciosas. Mesmo quando arrancam nossas asas, eles acabam descobrindo que não são asas que nos fazem voar. Com sucesso nos transformaram em escravas para botar ovos e morrer em seguida. Dissemos não a brevidade. Mas tendo que ser breve, que seja eterno.

Eu sou a única sem fim. Meus ciclos não terminam. Eu me enterro e continuo. Toda vez minhas asas são arrancadas. Quando conheci La Fontaine, aquele francesinho distorceu todos os fatos e as traduções, me fizeram dependente da formiga. Rebaixaram minha arte e fizeram parecer ser tudo gratuito basta nos alimentar e massagear nosso ego. Todo o trabalho ficou como unicamente das formigas. Obrigado La Fontaine, muito obrigado…!

quarta-feira, novembro 20, 2019

decibéis









decolou a cigarra sem asas
na marra do impulso na cara da coragem
cantando suas melodias particulares
sem escutar mais ninguém 

declarou seu amor a quem quisesse ouvir
partindo seu eu antes
se deixando bem agora

no presente perfeito expresso
na vontade maior que tem

viu seu ir no espelho já não ser ninguém visto e ao piscar acabou aquele tempo expirou o visto.
+Rafael Belo, às 07h23, quarta-feira, 20 de novembro de 2019, Campo Grande-MS+