sexta-feira, setembro 21, 2018

Está tocando minha música (miniconto)





por Rafael Belo


Está tocando minha música. É agora que toda conversa some. Todas as pessoas desaparecem. Todos os programas se apequenam, se solucionam. Visto meus sentimentos. Dispo meu sorriso. Sintonizo minha energia e ela me conecta com outro alguém na mesma vibração. Não há peso. Não há músculos. Sou um impulso deste sentir. Eu sou a pista. Eu sou o som. Sou o ar. Também sou a terra e o fogo. Sou toda a  água fluindo. Além de tudo isso… Eu sou a conexão.

Sou um encaixe dentro de mim, dentro do outro. Solta neste salão chamado ar livre, clamando o céu aberto, fluindo a energia compartilhada por todos nós quando silenciamos tantos impedimentos, tantos barulhos nos tensionando, nos pressionando dentro de tantas caixas, impedindo a gente de ouvir a liberdade nos chamar para dançar. Então, eu sinto o arrepio dançando na minha pele chamado o brilhante sorriso a tocar a alma já fora do olhar, a flutuar em alívio e evolução.

Meu corpo é alegria, alma e coração. Eu sou o ritmo desta canção, sou cada instrumento, sou minha própria pausa. Eu apenas reajo. Não penso. Sou... sentimento, movimento… Cada átomo da respiração. Sou pura emoção. Sou tempo e espaço. Eu e o Todo. É tanta profundidade interagindo com tudo e nada que nesta entrega eu vou... Meus olhos veem fechados. Não há prisão em mim. Não existem grades que me prendam. Não há infinito que me caiba.

Estou toda asas e só sei dançar para expressar gratidão. Minha pele inspirada lateja. Meus pés descalços desejam. Eu renasço a cada passo e me olho parte por parte inteira. Sou novidade. Curiosidade de como o Universo conspira em mim novos desdobramentos, ressignificados, retirando tudo o que é pesado para um transbordar desconstruído contínuo que me torno e eu o entorno embebeda desta poesia cósmica que começa a se sentir pelo ouvido e então tudo é orgânico, novo e eu vivo.

quinta-feira, setembro 20, 2018

e a gente dança






minha alma chora de alegria por incontenção
transbordando transferência de peso
indo de encaixe em encaixe flutuar
na leveza real de ser unidade

a emoção se movimenta em verdade
desenhando no chão a Árvore da Vida
na velocidade de um passo por arrepio

não há desafio para o corpo quando ele é alma
são sorrisos soltos em respirações

minhas conexões são luzes massageando a pele quando sou canção te sentindo comigo
e neste equilíbrio a gente dança.

+às 15h45, Rafael Belo, quinta-feira, Campo Grande, 20 de setembro de 2018+

quarta-feira, setembro 19, 2018

parei no meio da pista (miniconto)







por Rafael Belo
Eu parei no meio da pista. Estava em um salão de dança. Achava estar sendo observada por todos os lados. Na verdade. Era de um único lado. De dentro. Eu estava me limitando. Eu estava me prendendo. Eu estava desconectada de tudo. Estava precisando de uma limpeza. Estava precisando de menos. Mas cada parte do meu corpo que eu tentava soltar… Era uma dor medonha. Tamanha. Eu parei para me perguntar há quanto tempo venho me ferindo deste jeito? Há quanto tempo venho me condicionando em tantas caixinhas onde nunca coube ou caberia?

Foi como um colapso. Meus músculos não aguentavam mais, minha mente faziam minha cabeça doer… Era o fim de algo e eu nem entendia. Estou aqui. Estou parada. Não consigo ligar nada nem desligar. Gostaria de relaxar e mandar a eletricidade artificial embora. Está luz dela não me serve, nunca serviu… Parece estar ali oscilando quente prestes a se apagar ou com o objetivo de me hipnotozar, mas não me permite enxergar de verdade. Eu quero a energia das conexões, mas…

Onde estão? Gostaria de poder enxergar… Gostaria de poder fechar todos este olhos julgadores, gostaria da leveza das folhas quando soltam suas pétalas para a mais leve brisa a direcionando a própria vontade… Mas, talvez seja cedo demais para mim. Então, vou deixar aqui neste lugar. Nesta pista fria irregular, neste salão vazio e assustador, nesta lista de cobranças de movimentos, de passos, de ser melhor na vida, mas eu sei só poder me comparar a mim mesma!

Quero sentir o que sustenta este piso, o que está abaixo deste chão, mas a conexão precisa vir de mim, desta energia que meu cérebro comanda organicamente para o encaixe dos membros no corpo, se esforço, sem músculos, tudo ascendendo a chama do meu coração para a minha alma. No entanto, eu preciso de calma, de silêncio, quero meu campo distante, minha praia deserta e, por enquanto, só consigo ser esta cidade barulhenta nas cobranças incabíveis sem fim. Até mudar vou estar parada no meio da pista sem ser quem eu sou.

terça-feira, setembro 18, 2018

tensão





não teve olhares
o toque era frio
a distância pesava entre os dois
eram duas bolhas

cheias de passos repletas de movimentos
todas os sentimentos estavam espalhados
eu olhava meio de lado rígido

só sentia a tensão sem nada do sentir
caíram todas as conexões

aquela transferência de peso não tinha consciência não era dança.

+às 14h36, Rafael Belo, terça-feira, Campo Grande, 18 de setembro de 2018+

segunda-feira, setembro 17, 2018

Para melhor escutar





por Rafael Belo

Eu sempre tive vontade de dançar. Parecia algo inerente ao meu corpo. Se eu fechasse os olhos meu corpo se moveria inspirado pela letra, instrumentos, melodia, pela música... Sempre me inspirou. Eu me divertia, mas alguma voz inadvertida me repreendia por algo não estar certo. Passos, ritmo, dança... Também sempre desconstruí palavras, rimas, significados, imagens, sentimentos, respirações. Aliar tudo isso a fechar os olhos e harmonizar o corpo com o invisível me ressignifica mais uma vez. É terapia dissociativa unida as palavras do universo.

Neste verso eu me crio, recrio, silencio, sorrio e grito. Dançar te prepara para a vida e te desmonta. Há expressão de tudo isso em duas personificações: Brenda e Anderson. A história deles. Tudo que a dança fez e faz até aqui com estes dois. A alegria incontida ali. Aqueles sorrisos livres e iluminados. Entender o sentir e o sentimento pela leveza e intensidade do toque. Limpar a mente. Relaxar o corpo. Dá uma clareza para dançar até nas sombras. Dançar é ser poesia. Ah, e eles são Poesia.

Estar trocando experiências com Brenda e Anderson foi mais um degrau evolutivo, não só na dança, mas na vida. Em dois dias reduzidos a poucas horas - porque não há tempo para dizer ser o suficiente -, eles lembraram a todos ali presentes, compartilhando, que a primeira expressão da alma é o movimento, o silêncio, a concentração, o relaxar, uma descoberta constante do equilíbrio e da liberdade do corpo. Diante de tantos obstáculos na vida, no tempo deles, eles foram lá e dançaram, ressignificaram os problemas, as dores, os amores os traduzindo em liberdade da ponta dos dedos dos pés até o último átomo sobre a cabeça.

Brenda Carvalho e Anderson Mendes são seres humanos únicos construindo e desconstruindo diariamente provocando reflexões e muitas emoções com o que mais amam: a dança. Como cada um de nós que parou de repetir e passou a questionar, a liderar a si mesmo, eles ensinam os primórdios do ser humano. Os primeiros momentos de aprendizagem, a pureza, a atenção aos detalhes, a cada parte de si mesmo e assim elevam a arte de dançar porque cantar ainda necessidade de som, mas o corpo para dançar completo, inteiro, íntegro, puro, precisa do silêncio dentro de si para melhor escutar.

sexta-feira, setembro 14, 2018

Estamos em guerra (miniconto)







por Rafael Belo

As pessoas cultuam a saudade e a dor por aqui. A sociedade da dor e da saudade. É o que move a economia neste mundo destruído. Nesta terra desatenta, os joelhos se dobram sustentando o mundo, as culpas, os mares se formam de saudades transbordando em deturpações latentes, queimando, dilacerando estes alimentos adulterados com vidro moído nos triturando por dentro, nos matando para desvalorizar as pessoas e valorizar objetos, status, a velha aparência padrão desdenhando de pele, corpo, classe...

Eu era estas pessoas. Tentei derrubar este sistema e posso dizer que estou morta. Para a sociedade, para o sistema... Venderam minha atitude, minha voz, tentaram me deletar da existência, mas havia muitos backups de mim por aí e os downloads foram realizados com sucesso. Eu viralizei e a cada tentativa de sumirem com algo, apareciam milhares de avatares meus contaminando cada clique com views desta sociedade lucrando da nossa dor e transformando a saudade quase em uma maldade...

Quando derrubaram todo o sistema para hackearem toda a tecnologia rastreada deste mundo do avesso, eu realmente tive de desaparecer. Dada como morta, não poderia morrer novamente, não poderia aparecer que qualquer câmera ou smartphone me denunciaria e em instantes meu mito seria arrancado de toda a existência. Eu tive que aprender a sentir dor e saudade novamente. Minha insensibilidade crônica causada pela Síndrome de Riley-Day me fez viver uma jornada em busca dos meus neurônios sensoriais...

Haviam células troncos experimentais capazes de serem redirecionadas para a criação destes neurônicos. Funcionou e adivinhem, virei experimento. Todos viram a primeira vez que chorei, que senti dor, mas eu aprendi biológica e neurologicamente a não permitir ser dominada pela tristeza na hora da saudade e pela negativada na hora da dor. Então, eu ria ao chorar também, eu sorria ao lembrar do passado, das pessoas... Eu era uma anomalia de risco. Eles me consideraram um risco ao equilíbrio nacional e hoje eu sou uma foragida. Não estou sozinha e nem original pareço diante de tantas distopias, mas eu sou real e desperto ao menos a reflexão e só de causar este risco causei o colapso desta economia. Estamos em guerra quer você saiba ou não.

quinta-feira, setembro 13, 2018

por ter






deitei na grama matinal
o orvalho se misturou a mim
fiquei imóvel até ser parte abstrata
daquele ciclo concreto

sorri sozinho sendo solares raios
contei tantas quedas mas não doía
veio a saudade deitar comigo

desta grama fértil  escavei reforços
sujo de terra verde céu

suspirei aqui juntando tantos eus felizes por terem saudade.

+ Rafael Belo, às 17h11, quinta-feira, 13 de setembro de 2018, Campo Grande+

quarta-feira, setembro 12, 2018

Ciclos (miniconto)







por Rafael Belo

Eu parecia digna de uma internação. Ria e chorava sem saber qual era qual mais. As pessoas desviavam de mim. Desviavam! Que mundo é esse, gente! Isso significa que preciso de ajuda e não isolamento. Ei! Quem chamou a polícia? É porque sou mulher, não é? Se afastem! Saiam! Não encostem! Não fiz nada de errado. Tenho mais direito que estas propriedades! Sou uma pessoa, não a droga de um estabelecimento comercial escravizando estes pobres coitados por um salário indigno... Tira a mão! Espera! Vou chamar meu advogado! Lógico que tenho! Devolve meu celular! Você não tem esse direito!

Você não deveria ter esperado tanto! Como estão os machucados? Eu não bati neles! Eu me defendi! Eles me ofenderam, me agrediram, disseram que tinha saudade de quando as mulheres eram obedientes... Vai se f*&¨%@! Foi demais para mim! Quando tentaram me subjugar aí me defendi e só dei um golpe em cada um, não importa que desmaiaram ou se omiti as minhas graduações marciais. Você viu quantas visualizações tinham os vídeos? Quantas pessoas gravaram e subiram no Youtube? Viralizou é? Por isso a gritaria lá fora... Ninguém descobriu minha identidade. Eles não podem me obrigar a dar minhas digitais ou qualquer outra forma de identificação e...

Eu disse para você não falar com ninguém... Como você? Seu filha da p*&¨% mexeu nas minhas coisas. Como fica minha teoria da dor e saudade serem a mesma coisa? Seu bosta! Não sei como me sentir com isso além de raiva... Você falou algo de Enoque, Matusalém, Lameque, Noé... Tudo bem! Só espero não ter falado daquelas realmente importantes Betenos, Ada, Zilá, Naamá, Enzara... Não falarei o nome de todas. Este patriarcado falso nunca existiu o homem não pode gerar nada. Só saudade e dor. Nós fomos contagiadas com ambas e ainda...

Deixa eu me calar. A saudade e a dor serão despertadas agora na forma certa. As lágrimas serão enfim novos oceanos. Escute a comoção lá fora. Escute os celulares, as rádios, os podcasts, as tevês... Estão todas ligadas neste momento e por alguma razão que ainda desconhecem falam de dor e saudade... Eu devo voltar a rir e chorar como se só fosse saudade, como se tudo acabasse em dor e cada vez mais minhas prisões serão menores. Está na minha pele, no meu coração, na minha mente e na minha alma. Minha caixa final nem tem grades. Agora minha prisão é real!

terça-feira, setembro 11, 2018

Quem







quando a saudade bateu no peito e gritou
já veio do colapso da mente no tempo
fiquei me olhando ali selvagem
sem saber o que fazer com as malas nas costas

eu cai ralado vítima de mim mesmo
sem entender aquela dor me esmagando
com o rosto perdido foi minha cara arrastada

não sei se meu escândalo era compatível com alguma coisa
mas eu gritava dono de nada

o que eu esperava se me construí sem lar e não queria viver em mim
quem viveria nesta casca fosca?
+às 19h07, Rafael Belo, terça-feira, Campo Grande, 11 de setembro de 2018+

segunda-feira, setembro 10, 2018

Está em nós




V


por Rafael Belo

É normal sentir saudade. É comum sentir dor. Ambos também nos prendem e presos definhamos em uma solitária depois do último escândalo que fizemos reclamando de onde nos colocamos. Isso! Nos colocamos. Ninguém é responsável pelos nossos passos e por onde eles nos levaram. Esta dupla sertaneja, dor e saudade, ainda está na creche cantando as escolhas tão identificadas por nós. Eu sinto saudade do meu pai falecido, das minhas irmãs e meus sobrinhos morando longe, dos meus amigos, mas não é dor. São momentos que eu quero compartilhar com eles. Eu sorrio quando penso neles e sinto toda a energia que compartilhamos. É um impulso bem bonito.

Eu não concordo com a saudade doer. A saudade só dói quando aquelas boas coisas do passado são o nosso melhor. Quando seguimos em frente leves, sem amarras, sem pendências não há passado porque carregamos com a gente todo o bom e bem que sempre esteve aqui presente, torcendo por nós de alguma maneira. Nós vivemos sem o outro, nós vivemos sós. Esqueça isso de não viver sem alguém, a não ser que este alguém seja você mesmo. Se vamos no caminho da dependência não temos como compartilhar nada e tudo vira dor e saudade.

Saudade é um lugar tão bonito dentro do meu peito. Eu olho e vejo quantas histórias me contam, me constroem e quantas ainda estou escrevendo para este espaço sem fim. Aprendi a tratar a todos como família. Venho com esta minha alma antiga de tempos incontáveis tentando me unir em liberdade com as pessoas e não sinto dor. Sinto sorrisos saindo em Amor... Mas se pudesse recomendar o choro, recomendaria. Mas, só se você tiver preparado para o alívio, para pensar no próprio crescimento. Não há tempo para ficar lamentando o que não pode ser desfeito, o que feriu e o que ficou para trás. É daqui para frente o caminho das possibilidades, de se refazer, de crescer.

Sinto –me assim e não quero esconder as lágrimas possíveis de representar uma dor que vai indo quando percebida. E a cada gota de lágrima caindo brilhando a saudade nestes dias corridos eu me sinto revigorado, preparado, olhando para o horizonte atento ao tempo. Sem pensar por um instante para no instante seguinte eu pensar o quanto cada um é capaz de mudar, de crescer, de sentir falta e “de repente” começar a criar e fazer tantas coisas que só posso encontrar maneiras para aprender a encontrar diariamente esta capacidade em mim mesmo também e eu sei que aqui ela está.

sexta-feira, setembro 07, 2018

as cartas que eu deixo (miniconto)






por Rafael Belo

Apesar das notícias antigas, você sabe que eu vejo novidades. Você vem quando brilham meus olhos. Você os vê brilhando e finge não ser nada. Por isso, sigo indo embora e deixando novidades escritas à mão. As cartas que eu deixo é para você ter certeza. Eu sei que está atrás de mim. Mas, você só vai me alcançar quando eu cansar. Azar o seu se eu canso das pessoas e dos lugares antes de você chegar.

Você tornou tudo mais difícil quando divulgou minhas cartas como novidade. Mas só por um tempo. Logo eu fui copiada de todas as formas. Agora é tão comum e chato. Todos fazem o mesmo enquanto curtidas, comentários e compartilhamentos estiverem acontecendo depois é o próximo. Eu sei. Sei de cada uma das tuas tentativas. Não vai funcionar de novo. Somos espíritos antigos em corpos que não envelhecem…

Não contamos o tempo da mesma forma. Eu tento dormir só para me misturar. Tento reclamar para ninguém desconfiar. Tento estar na maioria dos rolês para ninguém ficar falando. Tento fingir embriaguez não importa quantas misturas de bebidas nem sequer fazerem efeito… Tento até me relacionar, mas talvez realmente eu não tenha coração como você me acusou certa vez. Você tem certeza que não o devorou pouco depois de despedaçá-lo?

Eu tento esquecer das coisas, dos nomes, dos lugares, das pessoas, mas eu esqueço mesmo é das possíveis dores… Ainda não descobri o motivo de armazenar tantas informações se a seleção natural deixou de ser eficaz e é assaltada, burlada, ignorada, assassinada pelos contatos, pelas relações e minha balança jaz enferrujada ao som de algum esquecido jazz… A única coisa que ainda me faz procurar é eu ter dado minha Palavra existir boa poesia por aí. E como nosso tempo é outro, eu vou seguir deixando minhas cartas e você, único capaz de ler, segue tentando provar minha existência.

quinta-feira, setembro 06, 2018

saiu da multidão





passaram as novidades
e eu só acompanhei com o olhar
já haviam passado há tantos passados
que sentei ali tentando conversar

não houve diálogo mais do mesmo se foi
mas meu rosto ficou iluminado
desembalado encarou a repetição a rejeitou

o desfile seguiu porém quem me viu ficou
vivendo aquele momento revelador

parados eu relógio quebrado e aquela que saiu da multidão e me consertou.

+às 16h26, Rafael Belo, 06 de setembro de 2018, quinta-feira+

quarta-feira, setembro 05, 2018

Tudo de novo (miniconto)





por Rafael Belo

Não sou este tipo de monstro, ele me disse. Eu só pensava a partir de então qual tipo de.monstro ele seria se eu sobreviveria a esta noite. Ele riu de um jeito descontraído e debochado. O que disse em seguida me assustou e deixou claro que ele sabia o que eu estava pensando.

Mas, você também não é este tipo de monstro, nem o mesmo tipo que eu, mas é meu tipo, ele continuou. Ele estava se divertindo comigo como um gato antes de se alimentar. Ele é um gato, mas espera. Eu sou um monstro também. Do que ele está falando, afinal? Eu nunca mais vou me encontrar com ninguém de aplicativo… E pela milésima vez, é verdade.

O ser humano é um ótimo disfarce. Sempre foi. Até em outro ciclos e outras linhas temporais. Um saco de pele cheio de emoções e contradições que se dá tanta importância quando tudo praticamente é insignificância. Conseguiram até acabar com o que de mais forte tinham: a união, a comunidade, a sociedade, o amor, a amizade…

Eu não sentia que ele estava brincando. Foi aí que realmente ele ficou sério e quando me tocou dizendo que era hora de terminar mais uma vez. Eu chorei e me lembrei. Quantas vezes nós tínhamos nos separado só para voltar a nos encontrar inevitavelmente. Estávamos provando esta teoria das almas, mas o mundo estava acabando novamente. Sem novidades. Íamos chegar aos sete dígitos de milênios e mais uma vez nos esqueceríamos de quem somos. Morreríamos para fazer tudo de novo.

terça-feira, setembro 04, 2018

não sabemos








não há nada novo não há nada interessante
os semblantes estão apagados os indivíduos embriagados
todos guardados nas caixinhas dos achados e perdidos
as vidas seguem bem cuidadas pelos outros

totalmente descuidadas por nós mesmos
embalados na embalagem dos medos
treinamos o olhar de fortes

enfraquecidos pela coleção de inseguranças
na confusão das abundâncias com fartos glúteos

surdos ao que nos dizem os sinais os demais adiante nem procuramos nos informar e ainda não descobrimos como parar.

+ às 16h05, Rafael Belo, terça-feira, 04 de setembro de 2018+

segunda-feira, setembro 03, 2018

Sem novidades






por Rafael Belo

Não há novidade por aí. Todas as crianças agora estão entretidas em brilhantes telas móveis, antes eram notebooks, antes eram computadores fixos, antes era a televisão... Mudamos os métodos devido aos constantes upgrades, à tecnologia nos atropelando sem sequer termos tempo de respirar e ela vai muito mais rápido, mas o interesse do mercado é vender aquilo que está muitos passos atrás do que estão fazendo no momento. Nossos filhos ainda são os mesmos e os métodos de maquiagem virtual são tão avançados com tutoriais no Youtube que as imagens são algum padrão novo de beleza irrelevante. Não temos certeza da aparência de ninguém e vociferamos por toda parte sobre o quanto não nos importamos com esta, com os padrões, ainda assim nos atraímos por eles na nossa hipocrisia diária para ter o prazer de postar nosso novo papel de trouxa por termos sido enganados exatamente da mesma forma pena incontável vez. Nós precisamos da atenção que não damos para nossos filhos.

É um ciclo vicioso. A poderosa droga inebriante levando o raciocínio para algo mais distante... Somos desviados. Os desvios infinitos nos penduram no varal do desinteresse. Fica para a conta do dia esta dívida. Estamos aqui na tal maioridade sem ter amadurecido nada, só seguimos cultivando novas sementes que nos fazem acreditar que sim, somos maduros. Somos independentes. Vivemos do nosso suor e reclamações diárias. Buscamos a riqueza, o orgulho, o glamour... Será que a satisfação faz parte realmente disso? Trabalhamos para seguir para o próximo trabalho capaz de nos dar acesso ao tal sucesso, mas basta ter coragem de ler sobre a vida das celebridades e balancear entre se sentir bem, fingir estar bem e vender a imagem de cheguei onde queria para saber que até fazer o que gosta precisa de um tempo, que há um limite onde tudo se inverte e sonho vira pesadelo. Esta é a maturidade?

Qual a relevância da maturidade, afinal? Reclamar que era tão melhor não ter responsabilidades? Seguir um sonho aleatório em busca de fama e glória? Ser exemplo? Alimentar fantasias de estar tudo bem, de estar fisicamente bem, financeiramente bem e estar com saúde mental em dia? E a paz? Onde está a paz? Parecemos estar ao mesmo tempo sentados em um trono equilibrado em um pedestal e presos em um buraco profundo na beira da praia enterrados até o pescoço com todos ao redor pensando ser uma encenação. Quando estamos em cima elevamos nossa caminhada, falamos da possibilidade de chegar, de quantos não acreditavam em nós... Quando estamos embaixo exaltamos nossas fragilidades, porém com a força da necessidade das quedas para subir de novo mesmo com a depressão, falamos das dificuldades, da vontade de desistir... Se formos seguir a história do mundo e de cada um, descobrimos tantas semelhanças...

Ao invés de tentar entender, de escutar, de ir dar mais um passo, pensamos em estratégias, na jogada seguinte, e mesmo afirmando não ligar, perguntamos o que os outros irão pensar... Somos formados na arte diária de deduzir. No final das contas não se trata do que o outro fez, mas de como isso atingiu você, o eu, o ego, a imagem... Este ó poder de uma informação. Verdadeira ou falsa, a informação sempre foi um meio para o conhecimento, para derrubar, criar intrigas, enfraquecer, manipular, a diferença é a velocidade, a instantaneidade atual. Há mais de uma década quando comecei a aprender jornalismo, estudávamos quanto uma informação não apurada podia destruir vidas para sempre mesmo se aquela inverdade fosse desfeita, recompensada, ela não volta. A imagem manchada, o nome sujo, a reputação destruída não é recuperada. Ainda a justiça brasileira retirou a validação do diploma e tudo é feito para tirar a credibilidade de veículos de comunicação, de jornalistas quando sem informação bem apurada, com técnica, nem um passo seguro é dado. Por isso, ainda hoje não há novidade por aí.

sexta-feira, agosto 31, 2018

Distraídos anônimos (miniconto)






por Rafael Belo

Eu levantei a cabeça. Corrigi a coluna. Doíam meus ombros, minha lombar, minhas pernas, minhas costas, meu pescoço, meus olhos lacrimejavam e eu não conseguia me concentrar em nada. Não lembrava das coisas, das pessoas… Aliás, não me lembro. Este foi o primeiro estágio. Ainda é. Sigo com problemas temporais. São temporais de conexões que já nem existiam mais. Sofria de distração aguda. Quando criei o DA, o Distraídos Anônimos tinha consciência que falaríamos todos os dias.

Este grupo é full time. Estamos online, conectados direto nos nossos smartphones para um cuidar do outro. Seremos os menos distraídos possíveis. Ser multifuncional é a maior distração quando parecemos sempre ou acelerados no efeito drogados ou trocando tudo e trançando as pernas na quase perda total alcoólica solicitando ansiolíticos e vitaminas para sair da exaustão, desta constante ocupação em busca da distração infinita…

Minha diversão hoje contém imersão sim, mas é uma diversão responsável para eu não me perder diante de tanta tentativa de enrolação na nossa vida rumando a enganação e o acúmulo de corrupções… Seria o motorista da rodada que dá certo… Sempre que alguém passar do limite da distração outro alguém vai chamar a atenção deste alguém.

Por um minuto a menos desta deturpada distração nos fazendo reclamões sobre a disponibilidade do nosso tempo, desta espiral do silêncio atualizada diariamente adaptando as informações pessoais e carências que espalhamos por aí. O Sistema principal da nossa sociedade é a distração. Podemos assumir isso? Não saiam daí. Estamos com o pacote empresarial de conexão infalível. Isso não vai cair. Procurem se distrair o menos possível. E padrinhos! Todas as notificações das mídias sociais dos seus afilhados também apitarão nos seus aparelhos. Logo mais outra intervenção com upgrade no nosso Ao Vivo. Atenção! Não se distraiam.

quinta-feira, agosto 30, 2018

distração automática





pensava que só a ausência da calmaria me faltava
a ausência do agito também
e vou neste vai e vem particular
tentando ir devagar sem distração

mas quando menos imagino estou em outra direção
distraído daquilo tudo à frente
porque de repente não faz mais sentido

então falta mesmo é coragem
sair da proteção da distração automática

desta sistemática deixando a gente doente
doente de distração.
+às 09h50, Rafael Belo, quinta-feira, 30 de agosto de 2018+

quarta-feira, agosto 29, 2018

Realmente o tempo (miniconto)







por Rafael Belo

Ele adorava os hqs de heróis. Os filmes, inclusive a versão com Jack Chan do Karatê Kid … Adorava lutas, mas não. Ele não queria ser um herói. Amava ser anônimo. Passar despercebido era seu planejamento diário. Estava juntando cada centavo para sumir de vez. Mas não tolerava covardia. Foi o erro clássico dele.

Não podemos conversar? Se intrometeu João Prometeu. A arma simplesmente foi apontada para ele. Nem João sabia se continuava sorrindo de nervoso ou desafio ou pela paz, mas não esperava que funcionasse. Na verdade, não esperava nada. Só sentia que se não fizesse algo todos morreriam.

Aquela cena de um filme do Homem-Aranha era surreal demais para não se fazer nada contra. Ele reconheceu a metralhadora toda raspada com uma numeração diferenciada anti criminosos. A reportagem acaba de passar, mas só ele prestou atenção. Não imaginava que aquela mulher fosse a responsável pelas fronteiras… A tatuagem debaixo da orelha dizia isso. Era o significado daquelas armas cruzadas ostentando uma coroa.

Por algum motivo ela o reconheceu. Abaixou a arma. Porra João!!!???? O beijou até perder a noção do tempo. Ela fechou os olhos, pensava João enquanto orientava para todos saírem devagar como se nada tivesse acontecido. Gesticulando como se deslizasse a mão da direita pra esquerda negando qualquer possibilidade de dar match. Incrivelmente foi assim… Realmente o tempo tinha passado e uma lua sangrenta atraia todos os distraídos que nem sequer ouviram as rajadas de tiro deixando reticências ao invés do ponto final.

terça-feira, agosto 28, 2018

Já tinha ido





a vida passou distraída
nem me olhou nos olhos
e eu na minha própria distração
só prestei atenção quando ela já tinha ido

por um segundo olhei em volta
como uma nota aguda não terminada
todos estavam na mesma situação

mesmo os do sermão e o que dizem que não
procurando um forma de ser social sem ser

querendo se manter individual achando normal ter de se esforçar para se encontrar

pensando não se importar quando é só mais uma vida distraída.
+às 10h08, Rafael Belo, terça-feira, 28 de agosto de 2018+

segunda-feira, agosto 27, 2018

nossa diária distração







por Rafael Belo

Eu me distraio com a lua. Ela me atrai feito um inseto na escuridão total sem qualquer outra luz. É uma fascinação como a interpretada por Elis Regina. Está no espaço para todos verem em algum momento da própria noite. É uma distração em um mundo de caos e confusão. É algo em comum para todos. Faz-me pensar… Aliás, repensar sobre nós. Pessoas. Como mudamos, como temos tantas fases, como às vezes estamos cheios, outras apenas repletos e brilhantes e ainda aquelas vezes que sumimos ou nos anulamos. Cheguei a conclusão que não é que não nos importamos, estamos distraídos.

Estamos em outra sintonia. Em outra fase quando uma pessoa quer nossa atenção e em nossa distração não percebemos. Não é maldade, estratégia… Ok. Às vezes é… Mas não deveria ser... Enfim, estamos distraídos. São tantas ocupações e insinuações que em distração em distração vamos nos afastando. É como parar tudo e olhar para a lua cheia. Pare e faça isso agora se for noite, se não, tente lembrar de o fazer quando anoitecer.

O problema é que muitas vezes é sempre noite. Vivemos para nos distrair. Não é obra do acaso ou do destino ou até divina nossa distração cotidiana. Nos enchemos de estimulantes para em um ciclo constante de distração nos alimentarmos de um vazio de angústia fabricado para não terminar. Não vemos o porvir com clareza porque só levamos em conta nós mesmos e às vezes nossa família. Não enxergamos nada bem perto ou distante. Deixamos de ser sociedade há muito tempo.

Hoje somos ilhas de exemplos de como eu posso fazer, de o corpo é meu, da minha causa. Se antes nos rotulavam, agora nós nos rotulamos, etiquetamos, nos colocamos nas caixinhas como subproduto de nós mesmos. Caixa do dia perfeito, caixa  do dia da preguiça, caixa da interação, caixa da dependência, caixa da independência, caixa de solteiro, caixa de trouxa, caixa do apaixonado, caixa do sexo, caixa da igualdade, caixa da desigualdade, caixa da depressão, caixa, da superação, caixa da exposição, caixa da lamentação, caixa do homão, caixa do mulherão, caixa do sensível, caixa da menininha, caixa da ofensa, caixa das desculpas, caixa da mudança, caixa do foda-se, caixa da academia, caixa do crossfit, caixa do Pilates, caixa do corpo ideal para mim, caixa da comida fit, caixa da comida vegetariana, caixa da comida vegana, caixa do contra, caixa do à favor, caixa da comida com carne… São tantos catálogos vendendo algo distraindo a gente, a si mesmos dos círculos e repetições que vamos fazendo, que nos acusar de frieza, de não se importar é apenas mais uma distração. É fácil governar qualquer tribo desunida e neste momento, até quem parece unido, só está enxergando o que quer ver. E se isso não é mais uma distração, alguém me ajude a entender.

sexta-feira, agosto 24, 2018

Além da melanina (miniconto)





por Rafael Belo

Veja só. Olha aqui. Estou toda arrepiada. Eu senti que algo ruim ia acontecer. Me senti o Homem-Aranha… E isso não me diminui como mulher... Não ia me fazer de desentendida. Não. Hoje eu não estou para fingir demência mental. Assim eu acabo acreditando… Não venha com apelidos nem com morena… Sou negra! Sem mais.

EU NÃO DESACATEI NINGUÉM! Quero ver agora onde específica o que é desacato porque dizer o que penso não é desacato. Eu só falava por mim. Ninguém vê questão de pele se só se importar com essa Luz além da melanina, além do sol… A gente ensina todo esse lixo de diferenciar as pessoas para nossas crianças… Quem mudou a lei no apagar das luzes e transformou conscientização em crime…

Ah, agora você vai me bater porque eu estou batendo nas grades? Cadê minha ligação? As leis de reparação escravistas e de todo preconceito hediondo destas mentalidades infantis e medrosas jamais serão reparadas por lei alguma, por cota nenhuma… É só uma forma de aliviar a consciência de quem se acha líder de todos nós, donos de cargos, carreiras e pessoas…

Olha aí! Veja lá! Eles só querem nos separar. Separados somos mais fracos. Eles são tão poucos e elevaram o poder ao dinheiro, aos cargos … Já pensou se tivéssemos o poder de parar tudo, de desvalorizar as instituições e o valor do dinheiro? Mas, não eles nos etiquetaram, nos estigmatizaram e fizeram o papel do demônio: o maior poder deles é fazer a gente acreditar que estas coisas não existem…

E aí? Ah, vai atirar em mim agora?! Será feminicídio? Será racismo? Será apenas violência ou queima de arquivo? Tenho pena de vocês acharem que estou presa nestas grades, nestas palavras… EU SOU LIVRE!

quinta-feira, agosto 23, 2018

noite de inverno








estou sentado levando choque
choco a energia circulando de não sei onde
é como uma antiga Londres imperial
vivendo em um país marginal sem acaso
quando cada ocaso se senta ao meu lado
infantil e medroso feito turba sem argumento
só tanto ranço quanto o peito pode aguentar
carregar até quando a bolha estourar
e neste escravizar ver o libertar
apontar para o quanto fomos adulterados
pendurados no senso comum sem bom senso
esquento minhas extremidades frias
esfregando as mãos vazias
não há soberania nem a pele em questão
mas mesmo que não exista
há quem não desista de inventar
tentar prejudicar sem cautela
espalhar nutella
enquanto contrariando vou incomodar
na noite de inverno que não está lá.
+às 18h, Rafael Belo, quinta-feira, 23 de agosto de 2018+