terça-feira, junho 16, 2020

Isto é morte








Rafael Belo

Não há uma maldição implantada em nós. Nem roubo de dados, de identidade ou azar desenfreado. Há repetição. Repetimos fatos e comportamentos. Somos reprodução de exemplos. Somos reprodução familiar e produto do nosso meio. Precisamos apenas deixar esta desolação, este desamparo nos vomitando para ditar nossos caminhos e de fortalecer nossas fraquezas. Isto é morte. 

Não somos morte, mas a estamos reproduzindo. Somos o oposto disso. Somos vida e vida em abundância. Quando não percebemos isso reproduzimos despreparo, desânimo, desilusão e desconexão. Nada disso diz respeito a este smartphone, notebook ou PC sendo ferramenta de acesso ao mundo. Falo da desconexão da nossa alma, do nosso coração, da desconexão com nosso espiritual. A desconexão com Deus

Deus não desliga de nós. Não desconecta mas nós somos iludidos a pensar e agir que sim. Reproduzindo uma oficina vazia ecoando um escoamento nos deixando em um cansaço constante. Sugados para o nada em um sem sentido angustiante arrastando um peso anônimo em nós… Quantas vezes dizemos que estamos cansados? O que nos cansa é esta reprodução da ausência causando uma dor dispensável.

Dispensável feito a reprodução das relações e de identidades criadas por nós. Reprodução é morte! Somos originais feitos para a independência para conectar coração e corpo com nosso abandonado espírito. O espiritual em nós precisa romper todas as barreiras e ser a prioridade de todos nós fortalecendo nossas qualidades para sermos instrumentos do melhor possível vencendo esta morte diária querendo nos assombrar.

domingo, junho 07, 2020

Trincheiras esburacadas (miniconto)










por Rafael Belo

Neste momento a tensão é mais mascarada. Não se identificam mais os amigos nem os familiares. Tudo derreteu. A quantidade de máscaras cobrindo rostos só aumentam a desconfiança e a sensação de morte… É visível o colapso chegando sorrateiro com um taco de beisebol apelidado de Rivotril. Por trás, silenciosamente, a intimidação cria estas trincheiras e não são só as máscaras visíveis e invisíveis que escondem intenções, há uma armadura de policarbonato transparente revestindo o corpo. Há um vírus pior que mortal por aí. Ele revela as pessoas e as transformam em selvagens assustados.

Sou um número perdido na última redação escondida. Houve retaliação e cada um de nós é inimigo do outro. É uma trincheira esburacada. Estes buracos só ampliam e parecem bunkers pós-apocalípticos já sem energia, água e alimentos. As últimas notícias reais nos chamavam de Apocalípticos. Havia algo chamado de Político que era uma classe dividida tentando dividir as pessoas. Não houve extinção desta espécie. Só voltaram para um tempo onde flechas e pedras era poder de fogo.

E Fogo! É o que há. Qualquer dia é guerra, qualquer hora é luta. Houve uma tentativa de nos enfiar goela abaixo o tal do Novo Normal, mas o refluxo foi um vômito equivalente a todos os vulcões do mundo entrarem em erupção ao mesmo tempo. Há enxofre e lava. É o inferno na terra. Há corpos em chamas que não viram cinzas, há cinzas instantâneas de pessoas… Estamos lutando pelas nossas vidas, os corpos estão chamuscados. Todos os corpos estão chamuscados…

Eu sinto que entrarei em combustão. Parece que este incêndio deste mundo vermelho tremendo alagado vai nos afogar nestes buracos onde nos protegemos destes fins constantes. Foi por isso que sobrevivi a ferro e fogo entendi, enxerguei… Agora vejo os buracos virem e meu medo se foi. Sei que não deliro, mas este delírio coletivo ainda está manipulado na mente destes Apocalípticos raivosos. Consegui sair do buraco! Não há destruição aqui em cima! 

quinta-feira, junho 04, 2020

no ato








no ato da cegueira coletiva começar
correm os buracos para o cerco
criados clandestinamente pela surdez
caindo coercivamente contraditórios
os seres provisórios privados de si
no privado cercar de quedas
vivem na realidade improvisada das cavernas
tão paralelas quanto um ginasta pode utilizar
em um salto sem sentir o olfato se esvair
e a saliva levar o paladar à emergência mental
onde não sabemos se vivemos demências nem o significado de normal.

+-Rafael Belo/*

às 10h33, sexta-feira, 29 de maio de 2020, Campo Grande-MS.

terça-feira, junho 02, 2020

Buracos








por Rafael Belo

Nada começa grandioso. Tudo sai do detalhe, do pequeno. Seja uma ideia até a percepção. Para ver o todo a gente toma distância. Diante de uma rachadura a gente procura as possibilidades, origem,  o motivo para agir. Mas às vezes só é possível desviar em um primeiro momento. É o caso de buracos. Eles surgem com o tempo ou simplesmente pela má qualidade do material. 

Se andamos rápido passamos por cima, se corremos nem vemos, se andamos no limite da via ou da vida temos tempo para decidir o que fazer, mas o fato é que o buraco não precisa só ser tapado, costurado, preenchido… É preciso agir com a certeza que ele não vai ficar lá aumentando e provocando outros buracos a surgirem. Quando ignorado, as proporções dele podem perder as medidas. Por isso, chamo os problemas da vida de buracos.

Se não resolvermos no início e até prevermos o surgimento dele, o buraco nos engole. Caímos no buraco e desacostumados a olhar para cima vamos vivendo nele. Vamos o ampliando, o reformamos, o deixamos do jeito que queremos, mas continua sendo um buraco. Continua nos derrubando, nos afetando, desestruturando tudo e gerando sequelas. Dependendo do quando o buraco está desenvolvido, ele faz vista para outros buracos e pode ter outras conotações…

Estamos esburacados. O mundo não precisa de reforma, nosso continente não precisa de reparo, nosso país não precisa de conserto, nosso estado não precisa ser arrumado, nossa cidade não precisa de acréscimos, nosso bairro não precisa de visibilidade, nossa casa não precisa de uma pintura nova e a gente não precisa pensar diferente… Precisamos entender o buraco que cultivamos, olhar para cima e ver a saída. Vamos acabar com os buracos, fazer de novo e da melhor forma até termos o máximo de nós sem cair, causar ou viver em buracos.

sábado, maio 23, 2020

A mudez (miniconto)









por Rafael Belo

A mudez é total. Até os animais emudecem quando o Silêncio fala. Espalha-se pelo mundo. Nada foi combinado. Pelo contrário. O combinado era fazer muito barulho, invadir, derrubar, ocupar, substituir… Até milhares de pessoas começarem a morrer diariamente sem qualquer ação eficaz para mudar a situação.

Agora, tantos anos depois, O Silêncio vem falar com a gente. Nos conforta… Mas quem não tem conhecimento, quem não lê, quem não busca, quem não trata com igualdade tudo e todos, enlouquece. Desconhece e não difere palavra minúscula da Palavra maiúscula. 

Com Nova Normalidade, a realidade seria desconfiar sempre. Mas, quem compreende o Silêncio, quem ouve e participa deste diálogo, sabe em quem confiar. Mesmo com os caos e mortes terem mudado o comportamento humano, principalmente dos brasileiros.

Fomos isolados. Somos párias mundiais. Traidores da vida… Alguns países nos acolheram, mas com três principais exigências: despatriar do Brasil, tornar-se cidadão natural do país em que estava e não ter qualquer contato ou fazer qualquer menção ao país de origem. Assim, o Brasil foi esquecido. Não consta em mapas, é área escura de satélites, tem barreiras impenetráveis camufladas com árvores geneticamente modificadas extremamente venenosas. Elas são fatais ao toque, mas para isso teria que ser possível se aproximar vivo…

Quem se lembra do Brasil, como eu, não pode falar sobre. Tem que se manter na Mudez. Nós, ex-brasileiros, nos reconhecemos apenas pelas artes e cultura que possuem uma linguagem secreta para manter nossa origem viva e nosso plano de retorno em construção.

quinta-feira, maio 21, 2020

habitado









o silêncio se solidifica 
sensato se solta sem solidão
em um diálogo mudo
demolindo incompletas construções 
fortalecendo nosso corpo como morada temporária 
onde o coração habita na Alma
silenciando todo ruído 
e a balança já não pesa mais quilos 
mas todas as ações destas vidas secando nas consequências do Tempo.

+-Rafael Belo/*
às 07h22, 20 de maio de 2020, Campo Grande-MS.

terça-feira, maio 19, 2020

Morada divina








por Rafael Belo

O silêncio nem sempre é uma pausa entre sons, barulhos e ruídos.  Por que ele não é mudo, não é uma inação. É ação , é preparação e análise. É ouvir. Neste tempos de inquietude tudo é sinal de preocupação, mas não tem nada esperando. Tudo acontece independente de nós. Posicionar se é uma necessidade psicológica, emocional e social.  Os resultados só vêm depois é uma consequência de um início e um meio. 

Nada disso é sinal de ficar parado, mesmo se parados estivermos. O silêncio é uma necessidade para nossa própria saúde. E mesmo que seja soma de paralisias, há significados ali, há algo não dito ou desdito ou precisando dizer algo. Cair pode até ser mais fácil que levantar, mas está chegada até a altura da queda nunca é toda negativa. É preciso ter fé em, no meu caso, Deus, além de nós e dentro de nós, e assim em nós mesmos. 

Já foi provado e reprovado (em todos os sentidos da palavra) que basta um instante, um descuido para mil virar zero e para zero virar mil. Para ter tudo, para ter nada e assim vai... Ainda assim nos torturamos mesmo quando estamos corretos, amparados, nos questionamos e de onde vem esta dúvida, esta angústia que se tivéssemos realmente fé, realmente acreditássemos , não a teríamos? 

Vem de darmos ouvidos, darmos voz, darmos vez a quem e aquilo que só semeia nosso mal, que só se alimenta do mal-estar. São estes demônios que deixamos entrar nas nossas vidas para nos desviar do nosso caminho. Mas se nosso propósito está traçado, se nossa missão está escrita… Precisamos ouvir o Silêncio e silenciar para ouvir a nós mesmos, a Deus e, então, nenhum barulho ou ruído vai nos fazer duvidar de novo e nos fazer sentir inseguros, pois somos Morada do divino.

domingo, maio 17, 2020

Máximo limite (miniconto)











por Rafael Belo

No desabalo diante de tantos abalos, o desabafo bufa sobre a neblina da manhã. Mãe de todas as sagradas do que virá. Só vejo uma  branca neblina neste ponto alto escalado. Ela infiltra apontando a diminuição e o frio vem de dentro já que fora só sinto esta brisa fresca fraca. Tremo toda ao pensar na solidão dominando o mundo em silêncio quando Amor canta no canto consagrado de lembranças. Mesmo com a paz revelada. Eu fico velando a guerra. Minha guarda não baixa.

Pareço um download incompleto no futuro. Para não travar subi aqui por um espaço onde há meio mês tinha que desviar de todos para manter meu isolamento. Há uma sensação de paz me abraçando, mas eu não deixo entrar. Meu passado é mais forte e não se contém na minha boca. Eu sou o máximo limite do próprio vírus da eliminação. Fico em dúvida se a luz impede de ver ou se a escuridão não deixa enxergar o que está lá. Então, me escondo aqui. Esqueci nomes, meu nome. Esqueço meu gênero, não sou só Mulher.

Vejo tudo em branco pronto para parar. Tudo um Nada para criar, recriar… E eu perco a hora neste lugar. É o meu lugar, meu caos original porquê eu vim antes da Criação. Mas me apeguei a Ela. Estou aqui depois Dela dispersar. Espalhar-se tanto da própria originalidade e ser este bando de cópias minúsculas. Você conhece a História que me acompanhou gentilmente até aqui. 

Havia gritaria, muito barulho e tantas explosões… Porém, a Beleza reinava como reina como reinou. É exatamente nosso futuro gritante após a escolha pelo silêncio. Nos alimentamos de escolhas e situações que nos diminuem e diminuem o outro, que nos faz mal e faz mal ao outro. Assim nos desnutrimos, assim nos destruímos até sermos reiniciados, mas parece que a memória toda se vai… E no simples ligar e desligar somos atraídos por algo longe da alma e do coração se alimentando dos nossos mesmos erros.  Este é o limite máximo para meus pensamentos altos. Imagino se é possível ver o que acontece debaixo de toda esta neblina, dentro de toda esta fumaça ou se é só a minha forma de ver.

sexta-feira, maio 15, 2020

desabalo









o Amor me aquece mesmo quando as paranóias brotam
enrolam no tentar soltar das mãos
mas mãos são impulsos
enquanto o Amor é o pulso sem marcas
marcando o tempo no coração 
entrelaçado em leves laços profundos
mergulhado em outras formas de dar as mãos
livres em um mundo cultivando discórdia e desunião
não o coração 
este eleva enobrece além da chuva na pele
com divina infiltração.

 +-Rafael Belo/*
às 07h56, sexta-feira, 15 de maio de 2020, Campo Grande-MS.

terça-feira, maio 12, 2020

Quando Amor







por Rafael Belo

Há mais gente com medo reprimido a isolada. Há mais gente desgastada  e angustiada a inteira e equilibrada. Há mais gente desesperada e ninguém tranquilo. Mas há menos gente… E todo dia diminui ainda mais nesta impossibilidade de agradar a todos. Não há nenhuma forma de agradar a todos. Seja isolamento vertical, horizontal ou relaxamento progressivo... Precisamos passar por esta quantidade de vírus revelada pelo mais fatal. Desrespeito, dúvidas, falências, promessas... Mesmo com tantas mortes.

É tudo novo para estas nossas gerações convivendo neste tempo de pandemia. O mundo diminue e fica distante de uma forma jamais vista antes. Precisamos sobreviver. Temos que nos reinventar, mas estamos em filas sem fim à mercê da desumanidade, de patrões presos a formas de negócios que não funcionam mais da mesma forma e o amanhã parece um imensidão branca esperando nossa coragem de escrevê-lo. Não são todos os boletos que pausam, não são todas as contas que conseguimos negociar, há urgências que não esperam. Mas como lutar contra a natureza, o descaso e a desorganização? 

É como passear com um cachorro pelas ruas e esperar silêncio e tranquilidade. Não é possível. Ainda mais com as pessoas nas ruas como se fosse 2019… Aliás, não sei se houveram meses tão infinitos como estes de 2020 onde finalmente se aprende que não temos controle de nada além de nós mesmos. Isso vale até para quem é profeta do caos e das teorias da conspiração. O descontrole está aí. É o caos original novamente dando as caras até na convivência.

Conviver também não é simples em confinamento obrigatório, compulsório ou voluntário. É um desidealizar de nós mesmo e dos outros parecendo prolongar tudo. Mas, graças a Deus estamos aqui aprendendo que o ideal é não ter ideal. Que o ideal é Amar sem posse, sem solidão, sem desrespeito, sem superioridade, com fé, igualdade e entrega… Assim, quando aprendermos o Amor, sentiremos a verdadeira extensão de Deus e a Paz se revelará em nós.

sexta-feira, abril 24, 2020

Sombra do Poder (miniconto)







por Rafael Belo

Há muito tempo a Escuridão se mantém sobre nós. Não há vestígio de Luz em lugar algum. Há a Sombra do Poder pairando mais densa que a Escuridão consumindo qualquer boato sobre a presença da Luz. Mas até agora ninguém tinha presenciado esta presença. Nossa História conta que há muito tempo líderes tentavam ser a própria Luz e se queimavam com o tempo por não serem  capazes de chegarem sequer próximos a Fonte Primordial. Alguns diziam ser o Sol outros o próprio Deus… Mas há quem diga que havia quem seguia luz artificial e estes, mesmo assim, não resistiram a esta energia.

O que restou deles são rangidos, gritos e gemidos do passado. Também dizem que estes eram os insetos sem identidade, memória nem personalidade que pairavam e se jogavam em qualquer luz que ousava brilhar. Queriam o mesmo poder da luz mas não conseguiam. Insetos zumbindo tentando manipular e desestabilizar qualquer tentativa de Luz. Então, o mundo simplesmente ignorou a Escuridão e as Sombras do Poder. O medo, a insegurança e a descrença ocuparam corações desorientados.

Esquecemos. Somos Luz. Somos A Luz. Nenhuma Sombra, nenhuma Escuridão é capaz de desestabilizar. Cada Luz desperta precisa resgatar as demais da Insanidade e do Esquecimento. Resgatar de um tormento disfarçado de seguidas tormentas buscando nossas fraquezas para nos enterrar na escuridão tentando nos habitar. Esquecemos o tamanho que somos quando de joelhos dobrados e um sorriso desenhado em todo o rosto.

Onde estão os sorrisos neste velho mundo novo? Onde estão os olhos? Não há um olhar iluminado por aqui. Estão todos se escondendo, evitando olhar em outras janelas humanas com medo de revelarem a Sombra do Poder tão disseminada por um constante disputa fadada a morte. Tantas vezes vencida, porém, sem Luz não é possível enxergar a saída a um minuto de silêncio nem uma salva de palmas… Não nos vemos por dentro e nem toda a Força estrondosa presa em uma prisão sem grades, cercas, cadeados, correntes ou sequer uma porta e um portão.

quarta-feira, abril 22, 2020

confinados








calados ficamos parados
atormentados pela superfície da nossa profundidade 
cutucados pelos abismos nos olhos
nos engolindo sem parar no nosso lar
expondo quem somos sem desculpas
nas grades das coleções de culpas
pendurados no meio da imaginária lua 
confinados na absurda rua da natureza
e cárceres cativos das nossas escolhas
vivemos bolhas estouradas em busca da cura
que começa com pequenos movimentos em nós mesmos.
+-Rafael Belo/*
às 23h20, 05 de abril de 2020, domingo, Campo Grande-MS.

segunda-feira, abril 20, 2020

Confinamento







Por Rafael Belo

Talvez a terra seja plana e todo conhecimento inútil, diante da petulância humana de dominar o mundo… Não. O descaso habita em nós quando não nos damos o trabalho de se importar, de se esforçar diante de tantas dores psicológicas insistindo em confundir quem muitos são e quem nossa sanidade diz que somos. Somos sãos? Como seremos depois de restritos e confinados? 

Esses dias de convivência "obrigatória" intensa foram de renascimentos. Mesmo saindo ainda confinados e ainda restritos neste relaxamento do isolamento, ficou mais fácil perceber que muitos de nós, inclusive eu, mantemos muito de quem somos confinado e restrito, por isso o lapidar necessário cego até outrora fica evidente, grita no ouvido, nos abala, desaba e nos mostra nossa fragilidade. Ou a gente sai ou entra no casulo. Nesta possibilidade de se transformar, se esconder ou revelar, a certeza é a necessidade de limpeza, de fazer legalmente nossa própria obra e descartar o entulho no lugar certo.

Mas, como tudo na vida, é preciso reconhecer e assumir cada erro para realmente se libertar, para realmente mudar. Aliás, tudo mudou menos a necessidade das pessoas de estarem certas batendo no peito que não acontecerá com elas enquanto o mundo segue morrendo e vamos ensaiando o mais novo fim do mundo chegando diariamente depois de tentarmos voltar a fazer as mesmas coisas que nos trouxeram até aqui.

Aqui onde estamos na necessidade de eufemismos e diminuição do outro e dos acontecimentos com diferentes finais diários, porém, sempre colocando o foco na política, na ideologia, nas divergências, nas diferenças e tantos abismos que nos separam. Mas sabe de uma coisa? Tudo isso não significa nada. A vida nos junta. Nosso destino muda. Nossa missão é bem maior. Crescemos e os abismos parecem pequenos buracos. Sem união, fé e bom-senso nossa sanidade se liberta e ficamos confinados na insanidade que criamos hipnotizados pela escuridão do abismo preso no nosso olhar.

quarta-feira, março 25, 2020

O silêncio guardado







por Rafael Belo

No geral é silêncio. Pelo menos agora. Parece que foi percebida a urgência e gravidade da situação. Há dois dias pais e crianças afrontavam a quarentena, desafiavam nominalmente o coronavírus (COVID-19) e os decretos do “FIQUEM em CASA”. Mesmo após o pronunciamento irresponsável do presidente da nossa República da conveniência menosprezar os acontecimentos e pedir um direcionamento diferente do que o mundo está tomando e sem alternativas concretas. Esporadicamente os sons que surgem são do vento balançando alguma roupa no varal, a telha de metal estalando, a geladeira zumbindo, carros e motos ligando e passando… Esta situação inédita vivida por todos nós tentando afastar o medo com humor e negação, causa extrema estranheza. Realmente estamos em quarentena vendo os erros de outros países que ignoraram a pandemia… Parece que estamos suspensos no ar. Há quem está em casa há dez dias. Eu estou neste momento da escrita há cinco dias. 

Como não lembrar das sucessões de quarentenas bíblicas e, principalmente, a do senhor Jesus?! Andamos no deserto separados dos nossos. Com os pés na areia fervendo e o sol escaldante na cabeça, tentados ao desleixo, ao desprezo, a raiva, a solidão, ao mal... Nestes instantes caseiros  e de isolamento é que realmente as falhas - grandes ou pequenas - se agigantam. Percebemos o quanto nossa humanidade é falha. Vi tantos erros meus confessados pós-descobertas e não os cometendo mais. Assustei-me com o que não me vi fazendo, não percebi minhas ações… Todo o silêncio guardado me corrompia. Sobre tudo e os pensamentos presos se perdiam. Eu me desfazia com ambos. Penso em quantas casas silenciosas estão gritando agora. Estão isoladas, em perigo… Esta quarentena involuntária é praticamente uma internação compulsória.

Esta é a hora de nos desfazermos dos nossos vícios e egoísmos. Esta é a hora de reconhecermos o mal que fizemos, fazemos e podemos fazer. Este é o momento de aprendermos as consequências de nossos atos e mesmo não tendo envolvimento, de alguma forma somos cúmplices da culpa. Nos minutos estendidos da nossa maior fragilidade exposta é que podemos ser fortes e negar as tentações. Podemos nos fortalecer e enxergar a importância de nós mesmos e de todos os nossos irmãos. É hora de limpar a casa, de tirar as impurezas detalhadamente de nós mesmos e aprendermos a discernir os silêncios que nos ronda. Como vivemos até agora não nos leva para onde deveríamos ir. Já se perguntou, ao invés de determinar, para onde deve ir?

Não guarde o silêncio. O use. O entenda. Nada mais de julgamentos. O seu Espírito é o próprio Deus manifestado em ti esperando para agir. Pode ser que o som mais assustador no momento seja o espirro de um vizinho e a tosse seca de outro, mas mais assustador ainda é ver toda a nação caindo diante dos nossos olhos. Levante-se. Ouvi no meu silêncio esta ordem: Levante-se. Compartilhe seu silêncio e acalma teu coração. Não estamos sozinhos, não estamos isolados. Revele-se.

quinta-feira, março 19, 2020

Sinais do fim









por Rafael Belo
Uma pandemia sempre vacinada e possível de vacina: a ignorância. Mas, como toda vacina é preciso buscar tomá-la. Teorias da conspiração, fakenews, junkienews… É tanta desinformação proliferando que o contágio do novo coronavírus (COVID-19) é uma questão de tempo. Aliás, toda a demora para a prevenção acontecer acelerou a propagação, a potencialização e expansão da doença. 

Os casos no Brasil são imensamente maiores pela precariedade do sistema de saúde, já incapaz de atender traumas e outras doenças por insuficiência de leitos e uma coleção de fatores. Soma-se a isso os extremos de autoridades com o trabalho dos jornalistas. Ou são totalmente desacreditados ou intensamente acreditados. Por isso, é desolador a forma como o impacto dos acontecimentos causa dúvidas mesmo com reportagem e informações 24 horas por dia esclarecendo sobre cada detalhe sobre a pandemia do coronavírus. Além disso, os oportunistas aumentam preços de produtos essenciais para higiene e estocam os produtos para vender por valores exorbitantes, sem falar na falta de senso de coletividade.

Está não é uma gripe comum. Ela pode matar quem tem problemas respiratórios ou debilidades na imunidade. Prova da complexidade da situação  são as suspensões de aulas, gravações, eventos, circulação de pessoas e a autorização de prisões por desobediência deste toque de recolher da saúde. Quanto o planeta perde com a economia? Vidas estão se perdendo pelo descaso e com a velocidade que se espalha vai lotar hospitais já lotados, já sem leitos, vai sobrecarregar o sistema e profissionais da saúde.

Não estamos competindo com H1N1, Dengue, Zika, Chikungunya nem mesmo a devastadora fome. O COVID-19 não vai pedir licença para as outras doenças, vai somar a elas. Temos que acreditar e ter fé, mas prevenção é primordial.  Aliás, razão e fé andam juntas basta fazer o mínimo e ler a Bíblia. Não podemos ser irresponsáveis e acelerar a contaminação por este vírus, portanto, se há decretos e orientações mínimas deve-se seguir. Está lá em Mateus 22:15-22 e Romanos 13:1-3.

“Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Quando o disse, Jesus respondia sobre ser certo pagar impostos a César. Esta passagem fortalece como proceder diante de autoridades nos seguintes versículos. "Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por ele estabelecidas. Pois os governantes não devem ser temidos, a não ser pelos que praticam o mal. Você quer viver livre do medo da autoridade? Pratique o bem, e ela o enaltecerá".

As consequências de não praticarmos o Bem ou nos omitirmos são as quase dez mil mortes no mundo - mesmo a divulgação sendo de metade ou menos -  sendo 3.130 em Hubei na China, 2. 978 na Itália e em outros lugares bem frequentados por brasileiros como Argentina com três mortes e 97 casos confirmados e Equador com 168 casos e três mortes. Aqui na fronteira do Mato Grosso do Sul, temos o Paraguai com 11 casos confirmados e a Bolívia com 12. Além de outro país visitado pelo planeta todo, Estados Unidos com 9.415 casos onde há 68 mortes em Washington, 20 mortes em Nova York, 16 mortes na Califórnia. Os números se atualizam a todo momento. 

Quem esteve em Campo Grande-MS, antes de ir para o EUA foi o senador Nelsinho Trad hoje confirmado com coronavírus.  Ele esteve nos Estados Unidos onde, até agora, 16 pessoas que estavam na comitiva com o presidente Jair Bolsonaro também estão com a doença. A deputada federal Rose Modesto e a senadora Simone Tebet fizeram o teste e deu negativo. Já a senadora Soraya ainda não divulgou se conseguiu fazer o teste. Falo delas porque estiveram em Campo Grande na última semana e como não há testes para todos há muitos mais casos e mortes por causa do Covid-19 que se pode registrar. 

Falando em registro, só agora o presidente parou de tratar o assunto como fantasia e histeria, além de exagero com as medidas tomadas…  Ele contrariou ações não recomendadas pelo próprio ministro da saúde. Enfim, é tarde para arrepender-se. O fato é que tanta imprudência já aumentou no mundo em quatro dias mais de 60 mil casos hoje são mais de 234 mil confirmados.  Saltamos de 52 casos na última sexta para mais de 600 com sete mortes, ou oito, dependendo da fonte.

No entanto, a mobilização para parar a contaminação e encontrar a cura já acontece desde os primeiros indícios do novo vírus no ano passado. Hoje circulam notícias publicadas por jornalista em Cuba apontando que 1500 pessoas foram curadas na China. Na matéria é apontado um medicamento (Interferon Alfa 2B) que é fabricado desde 25 de janeiro na fábrica chinesa chang-heber, cubana, que fica na cidade de Changchun, província de Jilin na  China. Porém, há um porém. É tudo novo e no Japão e na China pacientes declarados curados voltaram a dar positivo...

Ah, sobre a queda das bolsas… A China também caiu como todos os países. Esta conspiração é uma distorção dos dados reais, basta pesquisar as bolsas e verá. Também há outra teoria da conspiração envolvendo a implantação do exército norte-americano como uma guerra biológica. Faz mais sentido do que a China “matar” mais de três mil pessoas para prosperar economicamente. Mas, mais uma vez, é teoria. Porém, guerras por questões econômicas acontecem há milhares de anos. Voltando a razão e fé, busque conhecimento, obedeça as recomendações das autoridades e tenha fé. Mas, não deixe de se prevenir.

quinta-feira, março 12, 2020

O teste de O Médico e o Monstro moderno










por Rafael Belo

Para um povo estatisticamente e da boca para fora cristão, além de chamado de alegre e acolhedor pelos estrangeiros, deixamos tudo a desejar. Cultivamos e apontamos demônios e monstros por toda parte, mas não nos capacitamos sequer para abraçar os mesmos. Agora pouco li um artigo sem o nome de quem escreveu, onde um dos motivos faz sentido e me motivou a escrever sobre nós mesmos e o ignorar do nosso divino.

Já devem imaginar que o texto lido falava da nossa reação sobre o assunto do momento: Dr. Dráuzio Varella e a transexual. O abraço que comoveu quem assistiu em um primeiro momento e gerou revolta em um segundo momento quando o crime brutal cometido pela mesma (o estupro, assassinato e o deixar apodrecer o cadáver de uma criança) chegou ao conhecimento público. No texto o motivo da revolta relatado foi termos tido empatia por um assassino com todos os maus adjetivos e empatia é reconhecer no outro algo em si mesmo…

Não. Não digo termos a capacidade de fazer o mesmo, é algo devastador… Mas de ser possível algo monstruoso, demoníaco ser cometido por qualquer um de nós. Esta "lembrança" forçada a cada um de nós pelo caso foi o motivo da revolta. Julgamos e condenamos o médico e a emissora por nos fazer sentir empatia pelo mal, por gerar dúvidas e ,a verdade, em maior ou menor grau apontamos o "crime" do outro mas quando cometemos o mesmo "crime" não reconhecemos, não aceitamos, minimizarmos o que fizemos e até negamos. 

Não é hipocrisia ou covardia. É medo. Medo de reconhecer que podemos cometer não só falhas pequenas, não só erros mínimos, não só pecados "menores", mas grandes, imensos, vergonhosos e desumanos. Nisto, o que nos incomoda, o que nos indigna é que o monstro pode estar ao nosso lado no espelho sem sequer notarmos sinais ou aparência diferentes. Se fôssemos realmente acolhedores e cristãos não trabalharíamos  com exclusão. Usamos nosso divino como conveniência… Já pensou se todo este episódio do "O Médico e o Monstro" atualizado pode ser um momento de reflexão e um ponto onde, independente de religião, Deus está nos testando?

domingo, março 08, 2020

Mais que uma vida (miniconto)







Rafael Belo
Aqui, revisitando o Calvário, já não sei quantos anos se passaram. Talvez 4 ou 40. Só faz sentido o que ficou e  este carbono adulterado, que ainda chamamos de pele, que ainda dizemos ser nosso corpo se acaba em um sopro. As estrelas, as lembranças, as experiências… Todas emocionais? Todas racionais? Isto é conhecimento? Até enfrentarmos os mais invencíveis guerreiros: A Vida e O Tempo. 

Conversei com a vida. A Vida sempre dá um jeito de continuar. Deitei-me no Tempo. O Tempo ensina. Esquecemos ou vivemos em nostalgia e rancor. Vivi muito tempo assim. Raiva me movia. Mas, a Vida me jogou no Tempo. Percebi que a Vida vinha me derrubando a todo Tempo. Precisei do Tempo para entender o motivo da Vida me derrubar. Me sobrava razão, me faltava emoção. Me sobrava emoção, me faltava razão. Com conhecimento destruí ao invés de construir. Com emoção manipulei ao invés de amar. Fiquei vagando no desamor e como um mal líder diminuía quem em mim confiava ao invés de aumentar. Achava ter entendido meu Calvário. Mas não. Porém, agora já peço ajuda para entender.

Não falta nem sobra nada mais, pensei que o equilíbrio era supervalorizado. Mas mais uma vez eu estava errada. Não pense que não está também. Todos estamos. Reveja as marcas no seu corpo. Reveja suas memórias. Não garanto ser esta a última vez que levanto. Mas quase já não tenho caído. Agora estou no Espírito. Espero ter compreendido que razão e emoção são delírios sozinhos. Ao redor, neste momento distantes de mim, há muitos delirantes tentando me alcançar...

Estive delirando neste mundo covarde. Virei covarde. Agora sinto a coragem me mover. Me sinto muito maior do que sou. Soou, ressoou. Sou o próprio Espírito habitando este corpo, estas lembranças, esta razão e esta emoção. Procuro me orientar Nele. Ser além do que minha carne permite e, às vezes, isso demora mais que uma vida.

quinta-feira, março 05, 2020

reconstruída








de braços abertos não abraço me equilibro
caminhando onde não cabem meus pés
até não ter mais caminhos
estou andando nas águas

minha razão não é mais forte 
esta força é O Espírito 
trabalhando na emoção oprimida

dividida em um muro com escoras
e o mundo reprimido revida

jogo fora os comprimidos estou livre vivo na eterna  vida.

+às 15h32, Rafael Belo, quarta-feira, 04 de março de 2020, Campo Grande-MS+

terça-feira, março 03, 2020

A razão, a emoção e o Espírito








por Rafael Belo
Eu vejo as pessoas vendendo conhecimento. Eu vejo as pessoas deturpando o significado do conhecimento. Eu vejo a busca deste conhecimento, o aumento dele… Este uso da razão e da experiência para compreender poucas vezes é usado sob si mesmo. Do latim cognoscere "ato de conhecer" que deriva para o sujeito (cognoscente) e o objeto (cognoscível). Nossa capacidade de conhecer é sobre nós mesmos, o autoconhecimento e dados e informações sobre algo ou alguém. Mas, o quanto usamos para melhorar ao invés de obter posição privilegiada e de se automassagear?

Conhece-te a ti mesmo era frase atribuída ao Oráculo de Delfos  (479-399 antes de Cristo) em um mundo cheio de deuses e idolatria. Lá se dedicava a Apolo considerado deus da luz e do sol, da verdade e da profecia. Mesmo neste politeísmo cansativo e em busca de respostas conhecer-se é caminho para uma vida equilibrada, autêntica e feliz. Porém, se limita a razão e a emoção. Como ter equilíbrio sem desenvolver a espiritualidade? Impossível. É caminho certo para orgulho, prepotência, desequilíbrio, desencontro e desarmonia. 

Por isso, o desapego aos bens materiais e amar ao próximo não é explicável. Primeiro porque acumular matéria nunca satisfaz. Segundo porque amar o próximo requer amar a ti mesmo e para isso é preciso conhecer-se e entram os três caminhos: razão, emoção e espírito. Este último faz um paralelo da frase filosófica inicial neste texto a um versículo bíblico. É João capítulo 8, versículo 32. "Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará". A verdade aqui tem proporções divinas, pois se refere A Verdade, ou seja, Jesus. Nele não há escravidão, nem morte eterna.

Emoção e razão se desfazem. Razão por conhecimento, emoção por conhecimento sempre entram em conflito e o princípio de que cada um tem sua visão e sua autodefesa. Em outras palavras, se aceita o que o outro diz ou se tolera o que este faz, mas a própria experiência é o que comanda. Entra aqui o desafio diário de ser cristão. Sem aceitar e se entregar ao Espírito não há equilíbrio, não há Graça, não há verdadeira transformação do ser humano carne fraca, no ser humano espírito forte e amigo de Cristo.

domingo, março 01, 2020

Perdida (miniconto)










por Rafael Belo
Estava eu perdida… De novo.  Não acertava nada, não reconhecia nada… Eu me sentia em um deserto bem na temporada de tempestades de areia. Eu me sentia o deserto. Mas desta vez era totalmente diferente. É! É totalmente diferente! Estava sozinha. Mesmo assim sentia não estar. Sentia ser necessário tudo isso. Era a primeira vez que eu lidava com este sentimento. É! É a primeira vez! 

Só não tirei a vida de ninguém nem cometi adultério ou roubei… Bom… Melhor não listar os pecados. De que adianta? Preciso confessar… Preciso reconhecer… Todos os motivos que me afastaram. Tenho fome. Tenho cedo e nada me sacia, nada me satisfaz. Pelo menos eu não reclamo mais. Não fico balindo ou procurando ouvir alguém balir para mim, mas não permiti me tosquiarem mais. Fiquei muito orgulhosa da minha lã.

Quando percebi. Quando dei por mim. Estava aqui, sem mim… Percebi que todo vazio é preenchido, todo espaço ocupado… Todo o possível a fazer, senti, era aceitar. Com mais compreensão eu aceitei novamente. A cada passo dado aceitava mais uma vez e outra vez e continuamente aceito. Nunca estive só, gritei. Algo Inexplicável, Inabalável e Onipresente me chama para a igualdade, para ser a própria profecia. Choveu. Eu só via Luz.

Esta Luz. Sim! Esta Luz! É Paz! É Amor! Ela é realmente O Alimento! Veio atrás de mim porque meus irmãos estão Salvos. Posso aceitar minha Salvação. Novamente. Sem desvios! Segui a Luz. Ela está sempre em meu coração. Caminho na tranquilidade e logo, aqui estou, com os meus. Há festa. Batem os sinos, balem meus iguais. Toda vez que eu me perder não estarei perdido. Sei que só preciso confiar e mais uma vez aceitar.

quinta-feira, fevereiro 27, 2020

Mover








badalei o badalo da vida
Vi o avesso de fora
balem meus sinos batem meus sonhos
vai-se meu sono para a noite voltar 

minha lã já não é troca
troca-se por si pelo Pastor
agora não há superfícies

pastoreio profundo o pasto do Éden
o Jardim infinito permitido em mim

Edificado estou pois o meu Mover é Eterno.

+às 08h08, Rafael Belo, Campo Grande-MS, quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020+

terça-feira, fevereiro 25, 2020

EU SOU OVELHA







por Rafael Belo

Somos injustos, somos cruéis, somos ingratos. É fato. Nosso ego e arrogância vive a nos cegar. É difícil admitir quando se é tanta carne e quase nada espírito, quando o nosso alimento é o desequilíbrio e o reflexo de como somos tratados pelo mundo. Nos falta fé e não vem a frase "no fundo" antes. Estamos aqui na superfície. Estamos rasos cheios de insegurança, desconfiança e atitude. Somos questionadores imprudentes porque segue nos faltando também nos colocar no lugar do outro e mais… Nos falta tanto, mas penso ser o maior destas faltas o arrependimento genuíno, o avivamento.

Deixamos de acreditar em tantas coisas e perdemos mais uma chance de nos edificar. Não falo olhando ao redor. Estou de olho no meu próprio umbigo e antes disto soar e parecer egoísmo já digo algo nada inédito: a partir do reconhecimento dos nossos erros, nossas falhas e ações para mudar isto é que processamos nossa fé. Saímos, assim, do raso, desta superfície mercantil de troca e nos entregamos, nos doamos, profundamente acreditamos e vivemos na imersão total da fé.

Há clareza e vivência. Os atrasos, os vícios, nossos constantes pecados vão diminuindo conforme vem o entendimento tão pedido. Devem usar sim a razão, mas não é sozinhos que garantirmos ser esta razão A Verdade, há o coração e A Palavra para nos orientarmos por isso, somos ovelhas. Não no sentido de dependentes, controlados, mas repletos de condições a nos adaptarmos ao local onde vivemos para fazermos a diferença e aceitarmos sermos pastoreados pela Força Tremenda a qual chamamos simplesmente de Deus.

Ovelhas são dóceis e tranquilas, reconhecem rostos dentro do rebanho, inclusive o seu pastor. Elas também sabem se automedicar quando doentes comendo plantas específicas para serem curadas e digerem grãos que outros animais não conseguem, afinal elas têm dois estômagos. Além disso, se generaliza ovelha para falar de toda a espécie e, talvez, porque o carneiro (macho da espécie) é agressivo e protetor diante das ameaças. Já cordeiro é o filhote e o jovem da espécie. Outro fator a nos colocar como ovelhas é o tempo. Elas foram o segundo animal domesticado entre 17 e 13 mil anos. Elas sabem também ser eficientes já que produzem lã  desde o nascimento e cada vez que é tosquiada, sua lã fica melhor. Ou seja, ela sempre produz, ela sempre frutifica, ela não fica parada, ela não espera nada acontecer.

Isto é edificar. Diferente de achar ter razão, como por muito tempo achei e lutei para deixar isto claro fazendo prevalecer esta minha justiça própria, está minha certeza do que é certo. Porém, não há a justiça dos homens de Lei e a Justiça de Deus ? Se eu agisse como antes seguiria sendo uma cobra picando sempre que pisado ou tentando pisar. Quando entendi transbordei e encho a boca para certificar: EU SOU OVELHA! 

sábado, fevereiro 22, 2020

Vaso Novo (miniconto)







por Rafael Belo
Estava sentada. Quando começou a chover continuei chovendo sentada. Eu chovia por dentro e a chuva me transbordava por fora. Estava ressentida, insegura… Esbravejava os trocos que jogavam em mim. Eu realmente me sentia uma mendiga, um ser humano invisível e abandonado… Começava a criar lógicas absurdas porque se eu era invisível como seria abandonada se para ser abandonada era preciso ser vista? Eu não fazia sentido.

A lógica real era eu estar procurando respostas no lugar errado. Neste lugar só pairava raiva e escuridão e não havia razão. Eu me questionava. Quando eu perdi a coragem de olhar nos olhos do outro ou de sustentar um olhar? Eu me reduzi em meu próprio inferno desabitado. Acreditei nas pessoas erradas e reino uma servidão escrava. Não contenho nada. Aliás, não continha. Era um vaso rachado sem serventia… Eu servia para a dúvida, para a incerteza… Nunca tive nada de verdade porque nada havia ficado. Este tudo dito na verdade não é nada. 

A chuva era um dilúvio. Meu dilúvio. Eu sentia algo na verdade, mas não aceitava. Quando vi aquela Luz. Olhei ao redor. Não estava mais no caos e na desordem só Centro daquela cidade qualquer. Estava em um quarto. Aquela Luz estava mais forte. Esta mais forte. Mas ao contrário da cegueira da escuridão, Ela me faz enxergar. Neste quarto a água está corrente e me imerge por inteira. Há uma conversa íntima, particular e eu já sou Luz também, sou um vaso novo.