terça-feira, novembro 21, 2017

Adulteradas conexões






olho as profundas linhas das minhas mãos
são sermões senões de todas as conexões de lacrados tãos
separações insinuadas em diversas proporções no cósmico mapa
geográficas etapas de todo mundo ser uma inseparável ilha condicionada

há pequenas substâncias sempre singelas sorrindo contatos em recepção ingrata
burocrata forma sociopata da negação desta desconexão de tanto continente particular
tsunami dos arquipélagos causando casualidades cancerígenas de adultérios sentimentais

totais viagens transcendentais transmitindo títulos sem contexto bugando confusões mentais
ais de contatos físicos fenomenais fingindo feitos factuais do outro lado das fundamentais águas

sempre há vagas no acasos vagos ocupados por permanentes passados sentados projetados em imaginárias paredes enquanto o coração deitado na rede revela relvas prontas para praticar ser floresta prestes a se isolar.


+Rafael Belo, às 12h05, terça, 21 de novembro de 2017+

segunda-feira, novembro 20, 2017

Nossa incapacidade





por Rafael Belo

Uma pessoa querida me falou de conexões e fiquei pensando ao que somos conectados se constantemente estamos desconectados de nós mesmos. O futuro não tem conexão o passado é uma prisão da mente e o agora... Bem, o Agora é apenas convocado como um deus pagão precisando de um sacrifício para acontecer. Talvez, nem mais sejamos conjugados porque falta o tempo certo para flexionar o verbo que deveríamos ser. Então, onde estamos? Não queremos ficar sozinhos de verdade, mas não queremos outra pessoa com medo de nos machucar e nesta contradição paralela do impossível nossa selfie revela um borrão ou um apagão distorcido no olhar.

É tão difícil assim se conectar? Vou detalhar para ninguém vir falar de dados e wi-fi. Falo de conexões físicas, emocionais e mentais. Não vejo mais muito disso, pelo contrário... E, aliás, a gente repara sim. Quando quer... Leio declarações hipócritas nas redes sociais e não julgo apesar do adjetivo, só fico pensando o que esta passando a pessoa, o que ela está pensando...? Aqui neste fluxo seria um luxo não associar o fim dos dados, a oscilação da conexão do wi-fi, a queda do sinal... Não vou fugir deste lugar comum de alegorias e analogias. Quando os dados acabam vamos em busca de um wi-fi free ou começamos a nos desesperar? Se o sinal oscila xingamos, nos irritamos ou esperamos? Se o sinal cai, qual nossa reação? É piegas, é clichê, é old school e tudo mais, mas eu sinto falta de tocar as pessoas, estar presente, olhar nos olhos...

É totalmente insuficiente teclar no whats, trocar fotos, vídeos, áudios e gifs. Eu quero mais. Arrepio-me um pouco ao pensar nas conexões físicas porque normalmente tem a ver com o corpo, a pele, o toque, os sentidos, a satisfação, o desejo... Resumimos-nos a isso? A sair nos rolês em busca de sentir novamente ou de uma nova maneira o sexo, o cheiro, o gosto? De encontrar alguém, ao invés de aproveitar quem está contigo? Isso é diversão? Contorço um pouco os lábios ao pensar nas conexões emocionais. Elas me são caras e raras. Esquentam meu coração, elevam minh’alma, abrem as janelas dos meus olhos... As quero livres, felizes com si mesmas e inspiradas. As pessoas, não as conexões...


Conexões mentais? Estas ficam em uma mão somente. São praticamente impossíveis. São naturais, profundas, diretas, admiráveis, raríssimas... Desbloqueiam sinapses esquecidas, fazem algo inexplicável com o tempo, me acalentam, me inspiram e criam em mim um fluxo de criatividade possivelmente incomparável. Enfim, até conseguimos no conectar imediatamente ou no decorrer do tempo a estas três conexões, no entanto, penso ser nosso maior problema nosso desconhecimento sobre o que nos conecta, a dependência do outro, a dependência daquele sentimento despertado com a presença do outro, o desenvolvimento de uma carência que enfiamos na nossa cabeça só ser suprida pela pessoa “escolhida”, “destinada”, o que, por fim, acaba nos levando ao verdadeiro obstáculo: a incapacidade de desconectar. Você já desconectou hoje?

sexta-feira, novembro 17, 2017

Lady Murphy (miniconto)






por Rafael Belo

Eu estava ali. Mais uma vez tombada. Mesmo assim, minha raiva estava direcionada para aquele copo de plástico e para a falta de retidão de tudo. A cidade não era reta e já nem fazia sentido o motivo de eu ter parado ali. Não neste momento, mas quando vim para cá há muitos anos. Nada daquilo existe mais. A garota certinha tinha sido agredida, passei por mais essa sem ser violentada. Mas, ser submetida a tanto babaca se achando no direito de ter direitos... Não vou ficar mais calada... Bem, nunca fiquei. Não é possível uma “família” ter tanto poder. Isso não vai ficar assim, vou ser bem clichê para dizer isso. Nunca mais alguém vai encostar em mim no rolê se eu não deixar. Nunca mais!

Está tudo tão pesado que minha ressaca moral, deitada aqui de lado, fica meio ofendida por nenhuma criatura ter vindo ver se estou morta ou viva. Não tenho motivos para não ter o outro tipo de ressaca também. Não vou parar de beber bebidas alcoólicas... Resolver com a “família” sem me esconder e mesmo assim não me descobrirem... Não será o suficiente. Eu vou revidar contra todo homem indecente, inconsequente, violento... E daí eu ter sido mimada?!. Mimos são bons... Só estragam mentes incapazes de se moldar... Aliás, me sinto retardada. Parece que meu cérebro diminui a cada “oi sumida” que recebo no whats ou quando um imbecil qualquer vem falar qualquer merda. Estou me distraindo, eu sei! Preciso de foco. Qual o problema de eu ser um pouco vingativa?! Vai somar em mim mesmo...

Vou ser a Lady Murphy destes homens que acham poder ser chamados assim. Não sou arquiteta de computadores à toa... Vou crackear todos os casos de agressões e criar uma lista. Tomei gosto e é de sangue com uma fatia de pão com manteiga caído no chão. Vou inserir vírus simbioses para se transformarem nos arquivos dos aparelhos eletrônicos destes maníacos doentes. Lady Murphy vai substituir deliberadamente toda esta imagem de “certinha” colada em mim como um nome de família. Será que eu bati a cabeça e vou virar uma justiceira? Quem se importa?! Não vou represar esta raiva, não vou mostrar meus seios, não vou pintar a cara, não vou exigir meus direitos... Vou tomar esta dor para mim! Vou resolver do meu jeito!


Tudo vai dar errado para eles. Ah, eles vão se arrepender... Serei o karma ruim... Vão falar por aí “Lei de Murphy” e mimimi, mas só nas primeiras vezes... Logo vão associar à Lady Murphy porque se você fez algo de errado com uma mulher, tudo vai dar errado para você. Ah, vai! Não pense que serei uma vigilante. Serei eu mesma com novo nome, repaginada. Mulher rebelde é o %$#@*&¨+-. Assim, que tudo parar de girar vou assumir meu papel. Você vai ver e se for homem agressivo, vai se arrepender.

quinta-feira, novembro 16, 2017

dizendo rebeldia





queima o peito incendeia o estômago sou tão autônomo a ponto de gritar
meu coração agita se debate em cada parte de mim na própria rebeldia
meu corpo são imensas placas tectônicas em conflito sem permitir faltar ar
mudando toda esta estrutura diluída na liquidez da vida em apologia

há tantos vulcões ativos provocando erupções de motivos para terapia da minha mente
sou emotivo na multidão dadas as mãos na sintonia da marcha para desfazer a cidade
caem corações cruéis rasgando véus desta realidade atuando novas alegorias

pareço nascer dentro de mim de novo tentando sair pelo meio dos pulmões
as emoções se misturam as sensações se acumulam ouço ser eu mais um rebelde

comemora minha pelve rasga minhas calças seguro a alça do tempo passando lento pego fogo em todos os números a me identificar cidadão sorrio sem dimensão dizendo rebeldia é saber ser imensidão.



+às 10h45, Rafael Belo, quinta, 16 de novembro de 2016+

quarta-feira, novembro 15, 2017

Não vou reclamar (miniconto)







por Rafael Belo

Eu não queria fazer a diferença. Não queria fazer nada. Passei este dia da Indepên... Proclamação da República sem proclamar nada, sem dizer sequer uma palavra. Estou de luto, estou... Não eu não sei ser rebelde. O que é a rebeldia, afinal? Proclame aí tua rebeldia. Mostre-me o que é isso? Eu não quero me envolver. Estou bem, então está tudo bem... Nem vou votar mais neste bando de bandido... É tudo igual, né?! ... Se bem que...! Espera neste sistema republicano eu não votar só diminui o número, mas não muda quem está lá, muda?. Tenho pelo menos que mostrar que não sou acomodada, achando que nada vai mudar...

Mas, não. Eu não sou rebelde. Estou empregada. Trabalhando que nem uma vaca leiteira, mas tenho meu dinheiro. Estou sempre cansada e sem tempo, mas estou bem no trabalho... Posso pagar meu roles... Posso fazer o que quiser, mas sei lá... Tenho preguiça... Não! Tenho sono! Tem alguma coisa errada nisso tudo, não tem? Fora os bicos que faço, não as caretas para este monte de babaca mexendo comigo... Aff! Enfim, complemento minha renda aí com uns trabalhos extras. Lá vem você achando que sou garota de programa, me poupe. Sou técnica em informática e designer de aplicativos, mas isso só interessa a mim...

O fato é que hoje eu queria ser mais rebelde, mas estou tão cansada de empilhar jornadas nas costas e ainda ser mal-tratada, sabe? Ninguém merece. Tenho vontade todos os dias de juntar tudo e dizer vários nãos... Aí penso o quanto preciso do trabalho, nas minhas dívidas, que preciso comer... etc e etc... Aí engulo vário porcos-espinhos, ouriços porque sapo é fácil engolir, né... Respiro fundo e traduzo oralmente em gentilezas cada xingamento pesado vociferando na minha mente. É uma exploração sem tamanho e o reconhecimento? E a meritocracia? Existem tantas modalidades de trabalho escravo hoje e nós simplesmente endossamos, ignoramos, damos às costas e seguimos com nossas vidinhas medíocres... Ah, faça me o favor!!


Não queria ser mais uma hipócrita! Pelo Amor de Deus! Só molha o rolê isso! Só boda geral! Cordiais e alegres é só uma reação a tanta desigualdade, a gente não quer só uma oportunidade de mostrar a que viemos? Quem somos? Meu, pô, me ajuda aí a ser rebelde. Mostra-me a tua rebeldia... Quem sabe eu me identifico e tomo coragem de ser retaliada, passar por maus bocados sabendo que na luz do fim do túnel vai valer à pena, o pássaro todo, esta revoada sonhada dentro desta padronização toda... Queria poder dizer que sou louca, mas não posso...! Dizer só prova o quão normal eu sou, criticando a rebeldia alheia de quem enfrenta de alma lavada esta corja toda suja de neutralidade, de branquidão e esquecimento! Não vou admitir ter inveja da rebeldia perdida! E não conte isso para ninguém! Deixa-me voltar para o meu lere lere... Não vou reclamar que é difícil ser mulher, não vou!

terça-feira, novembro 14, 2017

Desenluar





aquela linha reta precisava de precipitação na curva
chuva que só molhava lá fora enquanto eu a via
pensava ver o fundo das águas mas a vista era turva
qualquer cura que caísse teria uma queda embolia

desfraldava a bandeira pirata mas eu não usava luvas para luta
rasgava minhas mãos depremia me faltava rebeldia
jogo de louco causando azia e refluxo aos poucos na disputa

eu criava tempestade de inverdades dentro de mim e retraia
olhava com angustia a vida que me encarava e só pedia: escuta

cada raio que me atingia me morria e eu só queria continuar no padrão sem lua.



+Às 12h10, Rafael Belo, terça, 14 de novembro de 2017+

segunda-feira, novembro 13, 2017

A necessidade da rebeldia



por Rafael Belo

Há um medo vestido em nós desde a infância. Criança não pode ser criança. Já nasce e tem que ser capacitada para competir e ser a melhor. Pautar-se nos padrões e se elevar. Recebemos recomendações, muitos não pode e não faça, aprendemos a lidar com o outro, a como se vestir como se comportar, como... Como... Como... E por aí vai. Mas, como ser nós mesmos não sabemos. Ninguém sabe ao certo, né?! Este incentivo de conhecer quem somos e quem queremos ser praticamente não existe. Isso aprendemos na marra, quebrando os dentes na queda, despedaçando o coração mal-utilizado, quebrando a cara metafórica e literalmente... Então, quando nos descobrimos viramos rebeldes.

Nossa rebeldia é por não seguir os padrões, por termos opinião, por termos atitude, por termos independência, por destroçar paradigmas, por expressar quem realmente somos... Assim, podemos mudar o mundo, não podemos? Quantos considerados gênios não mudaram? Basta uma googlada para confirmamos que eles podem ser considerados rebeldes. Fora dos padrões, diferentes, atrevidos, ousados, cheios de atitude e já sabemos o fim da história: eles mudaram o mundo. As rebeliões são necessárias porque no conceito das palavras é uma ação contra algo pré-estabelecido.

Ficar calado, reclamando, sem ação, não muda nada. Rebeldia vem do latim REBELLIS que vem a ser insurgente, rebelde. Por sua vez vem de REBELLARE (Re significa contra e Bellare, guerrear). Precisamos contraguerrear diariamente o comodismo, o achismo, o preconceito, esta tentativa de dizer que somos diferentes para nos encaixotar em outras caixas, nos robotizar, nos dizer o que fazer, como fazer e quando fazer... Como não ser rebelde neste mundo que invertemos todo? Seguir os padrões, os patrões e fingir que nada está acontecendo, que nada vai mudar e simplesmente um suicídio da própria evolução.


Este mundo de arco-íris pintado em frases copiadas, em fotos tratadas em ângulos testados e retestados para a aprovação das pessoas interagindo nas mídias digitais é tão obsessivo e cria uma possessão inexistente neste mundo onde nada possuímos. Tudo bem que podemos nem querer mudar o mundo, mas é impossível não ter nada para mudar em nós mesmos, ao nosso redor, no nosso quintal, na nossa cidade, algo que possamos fazer para melhorar a vida de outrem... Deixemos a passividade de lado para sermos passionais porque se acreditamos em vida depois da morte física teremos muito que responder e se não acreditamos tudo o que temos é esta vida. E se este não é um bom motivo para ser rebelde, o seja para ser mais você.

sexta-feira, novembro 10, 2017

Quem pode... (miniconto)





por Rafael Belo


Eu já fui uma imitadora, uma seguidora de tendências e isso é passado. O passado é um ser esquisito que pode ficar para sempre ou desaparecer totalmente. Há muitas possibilidades nele porque ele é particular e realmente pode deixar de existir. Hoje eu o transformei em informações. Sabe? Como se eu o tivesse lido em um livro onde eu era a protagonista atrapalhada e em um paralelo ele foi minha primeira menstruação. Quando começou a parecer importar e eu já podia ser considerada “adulta”, já era rotina, apesar das cólicas que me deixavam extremamente assassina, então, eu me pego hoje no lado oposto de quem fui.

Entende? Depois que me dei por mim... Quando passei a acreditar na minha originalidade, na boa coisa que é ser diferente... Ficava estressada com quererem parecer comigo. Mas, aí me dei conte... É estranho ser imitada. É uma responsabilidade a me fazer melhor. Por quê? Porque preciso fazer o meu melhor o tempo todo. Este quê de condicionadora de padrões... Prefiro não ter esta etiqueta. Quero ser recondicionadora de padrões. Se posso errar? Claro! Só preciso reconhecer meus erros. Se já errei? Muito e sigo errando... Não são os mesmos erros, antes que você pergunte...

Fazer parte da seleta ala dos “influenciadores” é complexo porque este rótulo não se conquista é dado pela mídia. A gente só fazer o que pensa e acredita é de uma grandeza não misturadas a rótulos e etiquetas. Saber quem são os reais influenciadores mesmo vai além da exposição midiática. Você sabe que está entre esses quando falam diretamente contigo sobre algo que criou... Inspiração! É tão forte ser a inspiração de alguém. É normal negar ainda mais se for algo negativo o resultado da influência... Por mais claros e objetivos, que - impossivelmente - tentamos ser, a subjetividade é o óculos do mundo.


É totalmente incômodo pedir perdão por alguém cometer uma atrocidade em teu nome. Eu dei a ideia? Eu influenciei? Não obriguei nada nem ninguém... Mas, vamos fazer assim: para cada influência ruim que eu der, vocês cobram dos seus representantes, das autoridades algo que têm direito? Ok. Eu exagerei no vídeo, no textão... Mas justiça com as próprias mãos não resolve. Violência gera mais violência, gera medo, gera caos, um insegurança generalizada, cria uma onda negativa tão grande... Uma avalanche infinita soterrando todos. Estamos tão literais por falta de literatura ou tão estrategistas por excesso de jogos... Enfim, não virem haters, principalmente, meus. Vocês não precisam seguir meu suicídio social, calma gente só estou ficando offline temporariamente. Depois que minha vergonha passar eu volto. Peço perdão! Antes disso, quem pode me ajudar com...

quinta-feira, novembro 09, 2017

desagrilhoar





mais um dia aquele encaixe incômodo se fez diversão
sem satisfação suficiente mas aparentemente no padrão
ajeitado em cômodos vazios fio invisível naquela acomodação
nenhuma paixão partia paralela a tela iluminava outra situação

todo imóvel era ela de janelas fechadas
uma pessoa móvel com maneiras ajustáveis

no meio da respiração foi lá de nova fachada
as iluminações pareciam totalmente justificáveis
jamais haveria quaisquer resquícios de subordinação

pintou um quadro escreveu um poema compôs uma canção vestiu atitudes assumiu seu eu abriu os braços com o sorriso desagrilhoou a libertação abraçou ser sempre inspiração.


+às 12h24, Rafael Belo, quinta, 09 de novembro de 2017+

quarta-feira, novembro 08, 2017

A jogada (miniconto)





por Rafael Belo

Havia admiradores por toda parte. Eu não sabia. Ninguém curtia nada dos meus posts, ninguém comentava... Ninguém falava. Como eu iria saber? Sempre me considerei linda acima dos padrões, mas só atraia gente vazia... Não fuçava o perfil de ninguém... Falo muito ninguém, né?! É porque eu me considero ninguém. Não é baixa autoestima. Eu sou alguém muito importante... Para mim! Você me entende. Eu sei! Que horror ser vigiada o tempo todo, imitada, ser... É difícil para mim dizer esta palavra, mas ok. Inspiração.

Sou inspiração de tanta gente... Quer dizer que eu não posso fazer nada fora do esperado, se eu cometer um erro serei cobrada pela eternidade... Não acho isso admirável. Por favor, não me admirem! Gostaria que me esquecessem, mas quando isso acontece eu fico depressiva... Sinto-me abandonada. Seriam sintomas de abstinência? Alguém pode criar os Inspiradores Anônimos? Meu Deus! Não quero esta responsabilidade, não. Tenho medir tudo sempre. É tão exaustivo.

Quanta reclamação... Nasci reclamona mesmo. Deveria ser grata por ser percebida e as pessoas me verem como referência, mas não sou assim. Não vou me obrigar a me sentir agradecida. Só porque eu sou autêntica no meio de tanta xérox mal feita e pessoas copiadas? Cópias me parecem vazias e de vazio basta este mundo superpopuloso. Eu deveria mesmo pensar em ser ferramenta do outro para ele se sentir melhor? E os meus sentimentos? Isso não é egoísmo é motivo de tantas más decisões...

Tomo tantas más decisões que esta deve ser mais uma diante das minhas coleções de ressacas só de hoje. Mas, não me importo... Como posso ser inspiração, referência, se estou eu precisando disso? Será que...? Estas minhas graves falhas me humanizam? É isso? Estou mais próximo daqueles por trás de tantas cópias de máscaras e até por trás destas máscaras? Bom, já perceberam ter sido tudo programado, né? Meus últimos posts, incluindo este meu vídeo... Agora espero estar indetectável. Ah, não tentem repetir isso ou me seguir.


Realmente ninguém sabia quem ela era até ela decidir sumir. As pessoas não passaram a sumir também, mas começaram a prestar mais atenção nas más-ações que insistiam em repetir.

terça-feira, novembro 07, 2017

pisca-pisca





braços se abrem em um abraço não dado
um lago de paz se forma rompe laços inacaba
escala um respirar profundo lento em um tempo em pausa
salva o sentimento difuso tosco embaçado confuso pelo nublar

sai sol na chuva para também se molhar
cada raio solar é a maior inspiração do levantar
em pé o abraço aperta desfaz o alerta sempre tem alguém a te olhar

neste pisca-pisca a gente arrisca a ser copiado a copiar
malabaristas das horas das formas provisórias a se encaixar

no meio da nossa testa apara a aresta o farol não para de girar.

+ às 10h34, Rafel Belo, terça, 07 de novembro de 2017 +

segunda-feira, novembro 06, 2017

Sempre há tempo



por Rafael Belo

Às vezes eu acordo em um dia como esta segunda-feira. É novembro. É início de semana. O dia começa nublado... Garoa em alguns lugares. Eu acordo segunda-feira e simplesmente olho ao redor. Sou este tempo ou apenas estou assim? Mais um pouco e outro ano termina... A vida significa especificamente algo? Somos alvos das nossas ações, reféns dos nossos sentimentos e significados só nós damos, mais ninguém. Penso na rotina e nos significados, nas fatalidades e liberdades, causas e efeitos até me dar conta na minha responsabilidade. Você já parou para pensar que é inspiração para alguém?

Não é algo que se aceita ou se assume. É um fato. Você não precisa ter um milhão de amigos, milhares de seguidores, incontáveis curtidas... Você pode não ter nada disso. Mas, sempre tem alguém te observando. Pode ser assustador, mas de que adianta temer isso? Nossas atitudes refletem sim por toda parte. Ação gera reação e em um mundo onde “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” atribuída a Lavoisier responsável por derrubar crenças antigas com provas científicas e que teve a cabeça guilhotinada há 223 anos sob a frase de Lagrange : “não bastará um século para produzir uma cabeça igual à que se fez cair num segundo”.

A frase de Lavoisier, veja só, não é dele. Já falei sobre isso há um tempo. É de Anaxágoras de Clazômenas um filósofo pré-socrático responsável por todo o desenvolvimento da filosofia que viria, isso por volta de 500 Antes de Cristo... Tudo isso só serve para provar a frase. Enfim, somos responsáveis por cada atitude nossa não importa se estamos conscientes delas ou de nós mesmos. Sem saber estamos inspirando uma criança, uma senhora, aquele colega de trabalho, da rua, da escola, da faculdade, desconhecidos... Como saber? Se ninguém disser só podemos cogitar a ideia. Mas, pode ter certeza você é inspiração!


Por isso, é primordial a pergunta: você tem feito o que? Você questiona seus atos? Tem orgulho dos seus feitos? Acredita ter tipos de pessoas? Faz das redes sociais plataforma para criticar gratuitamente ou propõe soluções? Cria discórdia ou concórdia? Promove a união ou desunião? Amor ou desamor? Tristezas ou alegrias? Promove o ódio? Cria guerras? Emite paz? Faz elogios? Demonstra gratidão? Libera perdão? Sua vontade importa e você afeta as pessoas ao seu redor. Cabe a cada um de nós demonstrar qual referência estamos emitindo no momento porque sempre há tempo de mudar.

sexta-feira, novembro 03, 2017

o palco é ela (miniconto)






por Rafael Belo

Todos os olhares estavam nela. Ela era o ímã. A atração despertando tudo. Alguns estavam boquiabertos outros sorriam sinceramente. Ela mexia os quadris com os ardis aprendidos. Iam sutis e pontuais. Sua barriga tinha vida própria e seus ombros pareciam ondas agitadas invadindo as praias.

Todo o corpo dela ondulava. Até olhos comprometidos admiravam. Era uma hipnose em doses voluntárias extraordinárias. Estava tudo azul e mesmo assim um vermelho denso dominava. Ela dominava. Tentação! Desejo! Sedução! Eram ordinárias perto do poder daquela mulher.

Ela era um anjo caído cheio de graça! Flutuava delicada e forte como o encontro das águas em mar aberto. Cada centímetro corpóreo dançava, arrepiava e emitia as melhores vibrações. Ela era dança e música vivas. Causava frisson. Fascinação. A própria sereia rainha atraindo todas as emoções para quem assistia, mas ela mesma nada via. Estava focada naquela leveza, em estar no melhor lugar: nela mesma.


Encarava alguns rostos, porém, não os via. Tudo o que importava era ela. Ela estava em liberdade. Seu corpo era livre. Ela estava na maior imersão que jamais estivera. Enquanto era a própria expressão da música só enxergava borrões. Na mente dela ela era reprodução do que acontecia no palco. Ela desceu sem perder o ritmo. Ela era o ritmo. Ela é o presente é o agora. Nas escadas fez reverência para a vida enquanto acreditavam que ela agradecia os aplausos. Não voltou para os bastidores. Seria sempre protagonista. Saiu apenas andando excelsa e exultante vida afora. A música sai dela e a envolve Mulher. O palco é ela própria a desmontar e montar quando quiser.

quinta-feira, novembro 02, 2017

descalça




era tentação escorrendo daquela face
em desejo de momentos de insanidade
supernovas da intensidade à primeira
profundidade  mergulha  pele inteira

sugando todo ar devagar envolvida água
arrepiando todo o mar com o leve tocar
gratidão de poder se libertar vai se lava

mergulha com o olhar ao toque todo transpirar
destrava respira suspira só sentindo seduz mais

cais caótico cantando harmonia densa dança descalça excelsa energia intensa sintonia universal farfalha suas asas femininas ser fatal vital.

+Às 11h07, Rafael Belo, quinta, 02 de novembro de 2017+

quarta-feira, novembro 01, 2017

Quando abriu os olhos (miniconto)






por Rafael Belo

Parecia haver uma divisão nela. Era como olhar para uma janela de possibilidades e acabar em uma paisagem refletida em um rio. Ela causava um arrepio gostoso anjo caído, arcanjo modelo... Havia algo nela de intrigar qualquer sujeito ou sujeita. Não era a beleza física dela o motivo da atração, havia um forte imã saindo daquelas mãos, daqueles insanos olhos livres de um oceano incerto. Era de um ciano denso confundido com nuvens carregadas, mas ela ainda assim era leve... Entender? Quem disse algo sobre entender?

Saia dela tanta sonoridade como uma sororidade reversa. Ela era jazz, blues, música clássica, uma aquarela transitando uma dança de olhar com um sorrir desavisado. Isto provocava uma libertação, uma sensação inesperada para os contaminados. Ah, sim! Porque todo mundo estava contaminado com aquela força da natureza. Queriam saber o nome dela. Enfatizavam: “A” Mulher. Diziam: “Mulherão”. Afirmavam: “Mulheraço” e não havia espaço para nada além de elogios e adjetivos bons. A Mulher um Tornado. O Tornado não detectado por nenhum centro climático, jamais apareceria na previsão.

Ela sorria e olhos fracos cegavam. Vestia O vestido vermelho frisado tão forte e delicado... Com o vento acompanhando dedicado. Seus traços eram condensados e cada um dizia ela ser aquela mulher ideal particular com o machismo de cada um no lugar. Alguns homens diziam ser a Sedução, outras mulheres afirmavam ser Desejo. Ela não poderia ser uma projeção coletiva, poderia? Estaria acontecendo uma histeria coletiva tão intensa assim? Seria possível? Há quanto tempo as pessoas a seguiam a meia distância?


Quando ela parou. Houve uma ânsia. Houve primeiro um início de burburinho cortando aquele silêncio levando o ar de todos, mas não foi possível o corte e tudo ouvido foi um suspiro de uma multidão impressionada. Ela estava descalça e aqueles pés... Ah, aqueles pés...! Revelaram-se em uma fenda sensual e os olhos dela estavam fechados o tempo todo. Ninguém ousou se aproximar. Ela não parecia ser deste planeta. Um palco estava montado naquele ponto alto e central da cidade. Ela subiu sentindo cada partezinha do corpo de costas para a multidão. Voltou-se de frente e quando abriu os olhos a música começou a tocar.

terça-feira, outubro 31, 2017

ousar ser






aquelas asas debatidas em revoadas atadas
das angelicais flores vivas e não mais aladas
iam caídas por esta primavera despetalada
em uma força oculta outra total declarada

tinha aroma que entorpecia hipnotizava até quem não via
atraia pela via guardada pelas asas arrancadas dessintonia
sem ser flor anjo demônio nem o antônimo causava disrritimia

tentava só sorrir simplesmente sendo tão gente endeusava
acabava tentando sem vestígios diabólicos angelical pausa

até puxar maré seu intenso feminino Mulher ser quem é danava salvava.


+ Às 10h, Rafael Belo, terça, 31 de outubro de 2017+

segunda-feira, outubro 30, 2017

quebrando pescoços



por Rafael Belo

Desculpe se minha prosa parecer outra dose violentamente jocosa de machismo, mas o anjo e o anjo caído vivem ativos dentro da mulher. Esta poderosa imperfeição poética divina olhando glamourosamente evoluída para a pequenez dos homens. Esta imperfeição nos cabe tão masculinamente pobres querendo diminuir a sensação de inferioridade com falsa sagacidade, falso bom-humor e a testosterona da violência pela atitude incoerente e comportamento inadequado diariamente. Neste prestar atenção superficial não há como se afogar, só quebrar o pescoço.

Nós, homens, somos crianças e adolescentes em uma Terra do Nunca consciente persistentes no erro de querer sempre dominar. A mulher arruma o cabelo atrás da orelha, dá um meio sorriso, endireita o corpo e o homem acende a luz errada de alerta. Pensamos tudo ser flerte nesta nossa carência, mas a musa poética é independente e pode ser apenas uma indireta com delay, já não é mais para ela, o clima passou, o rolê agora é outro.

Aquele sabor parecendo o melhor bem estar já bugou, molhou totalmente, não está mais aberta a janela da oportunidade e isto pode ser uma eternidade ou passar antes do olho piscar. Repare bem nem anjo nem anjo caído à mulher. Ela tem o ar adquirido de todo o próprio penar. Há exceções, mas veja bem nunca fui mulher não posso dizer como brilhar nesta pele, como aturar interrupções constantes, obstáculos falantes, viver tendo o tempo todo que se superar e provar. Este é o meu olhar. Se acredita em anjos e anjos caídos, tenho certeza que eles dariam as asas para ter a força e determinação femininas. Fariam o que pela Alma?


Neste mundo de aparências, Vinicius de Moraes pediu perdão as feias para exaltar as bonitas na boemia dele falando da essência de se ter beleza, mas eu acredito no poeta. Ele falava além do enxergar dos olhos e os padrões mudam com o tempo. Elas podem tentar, guardar, voar, derrubar, só precisam acreditar nos detalhes delas mesmas, nas evidências, nas entrelinhas, no protagonismo e antagonismo mesmo nem tudo sendo poesia, poesia é tudo e seria nada se não fosse a alma feminina.

sexta-feira, outubro 27, 2017

A perspectiva (miniconto)







Por Rafael Belo

Morreu a esperança. A esperança morreu. A esperança foi baleada no Rio. Quase janeiro novamente. A esperança era carioca. Agora, a esperança está morta. Jaz com uma bala perdida, mas parece ter sido enforcada e esquartejada como Tiradentes. Está espalhada por todos os estados tentando intimidar os rebeldes com vontade de novidades. Mas, a história é sempre contada pelos poderosos, por quem quer deixar uma lição para o futuro, com medo de acontecer novamente. Por isso, ela estava tão revoltada com mais uma fake news. Perguntava-se o motivo das pessoas acreditarem mais nestas notícias falsas a verdadeiras.

Quero largar tudo. Dar as costas e partir. Não sei o que me segura... Aliás, só eu me seguro. Nesta dança eu sou a âncora. Não movo meu corpo com a música, não mexo meus pés no ritmo, minha alma espera a conexão, minha pele tem estática demais e não passa o som. Procuro o arrepio... Sento respiro, então sinto. Lá está ela brilhando dentro de mim. Meu sol particular aquecendo e iluminando não me deixando cair... Na rotina. Acredito e ela vive. Eu vivo nela, ela vive em mim. Se eu morro ela me ressuscita, se morre ela a ressuscito eu.

Não é um jogo. É um impulso ativando cada músculo do meu corpo deixando meu cérebro alucinado naturalmente. Sem nenhum lubrificante externo ou incentivo fora da palavra e da ação. Sinto-me toda uma convenção distante de coisas superficiais, covas rasas, ódios convencionais, tempestades temperamentais... Aí digo que podem matar quantas vezes for a esperança. Esta família não tem fim. Não começou ontem nem termina agora. E estes pássaros lá fora? Bicando, piando, ciscando, comendo... Mas, não voando...


Vou sair. Eles devem ter esquecido como fazer funcionar estas asas. Urubus, corvos? Peraí. Corvos não vivem no Brasil só Gralhas, o equivalente deles... Tucanos, Gaviões e... Corujas... Anoiteceu de repente. Faltam quatro dias para o Halloween... Quem diria que vem de “All hallow's eve” (véspera de todos os santos)? Enfim... Eles pararam. Que revoada linda! Não acredito que parecia noite de tantos deles... Quer dizer que a maioria voava. Eu só precisava sair de casa para ver. Pensava que antes eu acreditava.

quinta-feira, outubro 26, 2017

podemos ser




a novidade diária sou eu tentando me desinventar
fazer de malabares o ar de uma mão para outra
este sorriso de satisfação solto safado é imaginação
sou soldado situado na resistência rebocada ruidosamente ainda de roupas

tolas as pessoas decepcionadas com suas trouxas rasgadas nos ombros
logo nos primeiros tombos substituindo o rosto um pouco de cada vez
até a lucidez se esquecer de tudo falando falta fez

dentro da insensatez arranco as asas azaradas dos carnívoros pássaros
metonímia metalinguagem misturas do básico beijo da morte

explode vida junto com a sorte quem morreu vive descobrindo quem é enquanto o mundo começa de novo no porte livre além onde repetidamente podemos ser Bem.


+Rafael Belo, às 21h16, quarta, 25 de outubro de 2017+

quarta-feira, outubro 25, 2017

sem perdão (miniconto)




por Rafael Belo

Os urubus rodeavam entregando a localização de algo se decompondo ou talvez ainda vivo, mas com cheiro de morte. Os tucanos queriam meter o bico, gaviões davam rasantes e as corujas piavam assombrosamente... Geila estava tropeçando e com a pele toda queimada. Suas roupas puídas quando não rasgadas estavam coladas nas feridas e no suor. Olhando os movimentos de uma vista aérea, qualquer um diria ser um zumbi.  Demorando mais um pouco, alguém diria ter vistos olhos vidrados brancos mortos e arrastando a perna direita.

Eu deveria ter me matado. Mas, qual tipo de vingança eu teria cometido terminando em suicídio? Não sou covarde. Não. Nada me faria me matar... Matei sim e mataria de novo. Pelo menos sei quem eu sou. Sou ruim? Pode ser. Sei que vou responder por isso em algum inferno me aguardando, mas não vou acelerar a punição da minha alma... Já não a tenho. Não posso provar a venda a não ser por esta marca de total ausência de cores se espalhando dia após dia... Mas, antes disso eu já era “incomum”.

E estes pássaros? Eles têm uma comunicação entre eles. Te garanto. Eu os matava quando ainda era criança. Mas, só estes que agora me perseguem. Estas feridas são um oferecimento deles... Eles tentam me comer viva há tempos... Juntava as asas deles para tentar voar? Não. Eu dizia que eu matava até anjos caídos. Meus pais diziam ser uma fase... Isso até eles perderem o jogo quando a fase ficou difícil demais para a mentezinha pequena deles. Eles não tinham fotos minhas e nunca me falaram do meu nascimento. Bem, até ser tarde demais...

Não me delicio com os rostos se contorcendo de dor nem utilizo armas no meu próprio punho. Sou descolada demais para isso, não me atenho aos detalhes nem quando sonho com minhas obras tentando me assombrar. Todo mundo querendo achar tanta violência ser consequência de... Mas, não! Ela sempre existiu. Nem sempre fui Geila. Quando fui Lilith me deliciava com os detalhes, com os pecados... Nem me lembro de quantos infernos foram isso. Inferno mesmo é ter que nascer de novo e tentarem me fazer uma alma boa... Sendo que nunca tive uma... Hoje prefiro atear fogo, estourar bombas e controlar sistemas tecnológicos inteiros. São mais pessoas mortas como pouca energia gasta. 

Agora não consigo me levantar. Será que meus órgãos vão se regenerar e eu vou ter que caminhar neste sol deste mesmo jeito pela eternidade? Não poderia ser só o fígado como Prometeu? Pelo menos me mandem um Hércules mesmo eu não tendo perdão.

terça-feira, outubro 24, 2017

boiando






os talheres estrindem nos pratos sujos da pia
range o corpo como a casa contraindo dilatando autonomia
mais anarquia nem é mais novidade na cidade que se degladia
qual pássaro você é quando perde suas asas no meio do voo da miopia?

a disritmia da tempestade arranha com galhos secos a janela
fazendo fobias fenomenais raios cortando celestias olhos em tela
escapa a alma pelo caos da boca aberta desperta o alerta da destopia

tramam traumas traços insurrectos daquilo feito pelas traças de nós
sós nesta insurreição do fim do mundo a todo segundo que animal devora esta carne podre?

sobre várias mortes nossas boiam os rios que não mergulhamos e ao final do dia tudo esvazia para onde vamos?


+ às 11h39, Rafael Belo, terça, 24 de outubro de 2017+

segunda-feira, outubro 23, 2017

Não há novidades




por Rafael Belo

Não há novidades acontecendo no mundo. Morte, histeria, fatalidades e tragédias. O mundo está ao contrário há muito tempo. Não é que a gente não repare, infelizmente é um costume se acostumar. Ando tão em silêncio ouvindo as pessoas reclamarem estarem sós ou da pessoa com elas. Reclamam do país, do emprego, da família, fazem críticas gratuitas aos amigos e conhecidos e falam mal de quem nem conhecem... O botão do pânico se instala e desinstala automaticamente como um vírus indetectável. Assassinatos, vinganças, assaltos, roubos, corrupção e alardeamos o fim do mundo outra vez.

É triste conviver com tantos fatos pesados e a forma de lidar com isso segue só dependendo de nós, mas não mantemos a palavra mesmo assim. Nós mentimos para nós mesmos, descombinamos o certo e desconhecemos nossas prioridades. Estamos flutuando pelo mundo sem objetivo algum sem nem cuidar do lugar onde vivemos. Perdemos. Fomos derrotados por aquela imagem alterada no espelho e nem temos a capacidade de reconhecer. Portanto, nem vamos perceber a necessidade da derrota, da dor transitória... Nós somos o Mal do mundo e poderíamos ser o Bem. Nossos interesses se sobrepõem ao coletivo ironicamente. Já reparou nossa “necessidade” de ser melhor que o outro?

Este ciclo infinito preso no looping de uma montanha-russa sem manutenção formam um padrão de desgraças e horrores atemporais. Basta ligar a televisão, assistir vídeos do youtube, acessar sites de notícias, fuçar nos perfis por aí... Não, né?! Estou equivocado demais. Nós recebemos tudo no whatsapp... Fake news, notícias reais e quaisquer tipos de revoltas rasas armadas de ignorância, intolerância, ódio e desarmadas de conhecimento e argumentos. Tu não achas que isso tudo ajuda a fomentar a situação na qual estamos preservando neste mundo e ainda assim desprezamos?


Tu tens feito algo para mudar a si e, ao menos, o seu redor? Fico pensando nesta tal liberdade onde nos tornamos pássaros, mas qual tipo de pássaros? Aí penso: algumas pessoas são como rios. Nunca passam por nós da mesma forma. Não podemos desperdiçar o mergulho, mas vivemos de desperdícios e desperdiçar. Somos como carniças esperando o urubu nos almoçar, mas também somos o urubu... Neste mundo impossível de desassociar do que consideramos espiritual quem é você, afinal?

sexta-feira, outubro 20, 2017

Primeiro voo (miniconto)






por Rafael Belo

Só percebi o desaparecimento quando me perguntaram. Senti-me iluminar quando percebi. Eu simplesmente disse “obrigada”. Nem respondi. Meu médico não puxava mais minha orelha... Eu sempre ficava irritada. Beirando os oitenta e levando sermão de criança...! Faça-me o favor. Ele nem tinha 30 anos. Mas, tinha razão. Não conte para ele isso. Você ganharia a minha ira. Sou irada... Ah, não usa mais isso, né?! Ok! Sou “A” Mulher... Oi? Sem aspas? A Mulherão da po$#%! Pronto. Essa sou eu.

Dou meus rolês. Sou enxutona. Pára de me corrigir. Por favor. Aff! Gíria nova? Rolê é dos anos 1970, já cantada pelos Novos Mutantes. O que? Aaa! Hummm. Eu tenho o direito de confundir e esquecer... Aliás, Novos Baianos. Satisfeito? Pode me deixar em paz agora? Você vai embora ou vou eu? Biscoitinho? Vovó? Ah, vem aqui seu moleque! Vou pra minha hidro porque quando me convém sou velha mesmo e daí?! Tenho muito orgulho da minha vivência, desta experiência mal disfarçada na minha cara.

Vergonha? Não mais. Nem desta roubalheira toda... Talvez nossa diferença dos outros países seja a idade e não me venha com mais este ou aquele de primeiro mundo porque pode até não ser escancarado, escrachado, a tal cleptocracia escrachada nossa de cada dia, mas tem... Enfim, eu não reclamo da minha vida. Estou viva, não estou? Todo mundo criado e sadio, não está? Filhos, netos, bisnetos e por aí vai. Um dos meus maridos morreu de uma hora para outra e até hoje os médicos não me disseram a causa...


Nem fico triste pela ausência de visitas e os telefonemas... Escassos? Não! Inexistentes. Tem whats e quando precisam saber de algo, ficam sabendo e o mesmo para mim, então... Tristeza mata e ainda não estou pronta para desistir da vida. A consciência é de cada um. Não vou pagar nada para ninguém nem incluir marmanjos e marmanjas formados, assalariados, com família nas minhas viagens. Também não sou obrigada a ficar disponível... Na minha época... Ah, não! Eu disse isso mesmo!? Preciso adiantar minhas viagens. Deixa a hidro para lá vou pegar o primeiro voo para qualquer lugar.