sábado, dezembro 30, 2017

Nunca sou sozinha (miniconto)






por Rafael Belo

Já perceberam que estar em família é jogar o jogo da memória? Em todos os aspectos. Depois de deixar claro para as tias solteironas e para as primas divorciadas, sem contar com as viúvas por casualidades, fatalidades ou doenças, como está meu status (principalmente no facebook)... Ainda tem a família dos agregados sendo ainda mais inconveniente e... Não. Eu ia dizer: amo meus parentes, mesmo vendo a maioria só quando esta acabando o ano e quando ele termina... Se é assim com a família imediata... Enfim...

Jogo da memória... É incrível que cada um presente tenha um equivalente ao pai, a mãe, ao tio e o mesmo com amigos... Óbvio que tem sempre quem não parece ninguém e aqueles que gostamos mais ou menos. Tem aquele momento da noite de ceia... Não... Estou muito natalina e sempre fico assim neste período do ano. A gente faz planos, mas os planos é que nos fazem... Imaginem vocês que eu estaria aqui de novo e chorando...

Foram tantas coisas este ano e eu virei um gigante. Eu venci até quando perdi... Ver aqui todo mundo reunido me deixa... Desculpem as lágrimas... Você já fizeram isso, né?! Saíram do meio da reunião para ver de fora tanto amor apesar das diferenças é família, são amigos... Sou uma mulher de sorte. Eu já prometi tantas vezes não chorar, mas sabe?Chega de me segurar. São MEUS amigos, é MINHA família. São meu ponto fraco e dizem que sou a rainha de gelo sem coração...

Só não tenho tempo a perder... Não mais. Meu coração é para sempre da minha família, dos meus amigos... Não é questão de antes ou depois, não é por ordem de chegada, não é medida de intensidade... Não! Cada um deles diz um pouco de mim, são minha verdade e minha liberdade. São minha base para quaisquer relações. É isso que vejo quando olho para eles. Também vejo a mim mesma. Por que espero tanto para tê-los perto? Nunca sou sozinha assim, mas qual o motivo de eu estar aqui olhando de longe?

quinta-feira, dezembro 28, 2017

somos família





perdem-se abraços em coletivos braços acolhedores
lágrimas rolam lembranças escorrem a infância
cuidamos da próxima esperança para ela não morrer
os fogos estouram sem som é só a emoção de acontecer

somos família a gente cria compartilha engajadores do querer
torcemos apoiamos nos jogamos postamos tantas reações
é da nossa índole esquindô lêlê falar das sensações ver

briga bloqueia sai do grupo finge nem querer saber
mas sempre visualiza status stories perfis sem entender aparecer

vai doer vai passar vai esquecer porque o Amor não está no sangue nem no fim do ano ou quaisquer fins está no gosto gesto jeito jogo ajeito ajuste disposto no peito repleto de braços abertos abraços transbordantes em um estar perto a qualquer instante.


+às 19h18, Rafael Belo, quinta-feira, 28 de dezembro de 2017+

quarta-feira, dezembro 27, 2017

Não contamos tudo (miniconto)






por Rafael Belo


O dia tinha terminado e o Natal ficado para trás. Foi solitário mesmo com tanta gente. Seria solidário ajudar como é, mas porque sempre tem aqueles querendo se aproveitar de uma mulher. Eles pensam mais vezes hoje antes de ofender, magoar... Na maioria das vezes na própria família, né? É onde estamos mais sensíveis e esperamos compreensão. Quem aqui nunca quis fugir de casa? Sair correndo e sumir por um tempo?

Assim... Eu amo minha família, mas sempre querem saber de namoradinho, namoradinha... Ah, me poupe, se poupe, nos poupe... Eu vou para os rolês para encontrar diversão, ilusão, distração e não problemas... Oi? Não eu não quero ficar sozinha. Mas, eu estou bem, entendeu? Quando aparecer alguém... Nossa! Por que estou me explicando? É sempre assim... Agora vão querer ser modernos e falar crush e match? Meu Deus! Como saio daqui? Conhecer quem?! Tchau!

Quem foi que criou uma filial da minha família aqui? Julgamentos comparações, constrangimentos, brigas, implicâncias e o que vem depois? Amigo oculto? Laços sanguíneos podem ser bem irritantes e qualquer coisa magoa. Se falo magoa, se calo magoa... Que existência é essa? Mas, quer saber? Eu amo estar com eles e sinto falta de todos... A maior parte do tempo... Não importa a minha expressão ou se não escuto a maior parte do tempo...

Ou importa? Eu me confundo às vezes e falo com uma certeza estranha que meus amigos são minha família. Até que são mais família que a família? Mas, não contamos tudo, tudo, tuuuudoooo, para nossa família, contamos? Se bem que nossos primeiros melhores amigos são primos ou até irmãos, não são? Faz horas que no status do meu nome só aparece digitando... Já me xingaram de tanta coisa por isso... Nem ligo. Só não sei se publico isto no grupo da família e deixo o tal “publiquei e sai correndo” ou não crio polêmica desta vez... Cara! Este grupo está tão parado... Publicando e correndo em 3... 2... 1...!

terça-feira, dezembro 26, 2017

queremos mais



agregam agregados ao tempo dos laços
traços gestos abraços nos estendem nos comprimem
imprimem na pele as características místicas individuais
ajeitam de forma delicada os pensamentos desiguais

rejeitam negar quando negam o que não entendem sociais
mas um dia aceitam não haver iguais
os meus os seus os nossos nem sempre são sangue sócios sentimentais

pode ser uma gangue do bem escolhida tribais a nos dar acolhida
nesta vida família não é só DNA

ninguém normal navega junto nesta conexão física
a gente se equilibra mesmo com recaída na sarjeta sofrida nos fortalecemos com aqueles que mutuamente queremos mais.

+Rafael Belo, às 13h26, terça-feira, 26 de dezembro de 2017+

segunda-feira, dezembro 25, 2017

Mesmo este distante







por Rafael Belo


As tradições são criadas conforme a necessidade e poucas coisas necessitamos mais que a família. Pode nem ser de sangue, mas conforme o tempo passa encontrar a própria família vai ficando difícil. Nós nos distanciamos, brigamos, magoamos ou simplesmente nos perdemos nas nossas ocupações, porém, amando ou desamando, perto ou longe, ocupado ou desocupado nesta esta época do ano onde o coração pede mais, a alma clama paz e até a mente cheia de manias quer Amor...

Queremos mais de nós mesmos e do outro. Ainda mais se este outro for dos nossos e de uma importância alarmante na vida. Mãe, pai, irmãos, irmãs, tios, tias, sobrinhos, sobrinhas, avós, avôs... Para quem tem a sorte de os ter ainda. Eu já não tenho mais pai e avós... Não aqui em carne e osso, mas a presença deles está na minha memória, na minha história, em muitos pensamentos e muito além de palavras: eles fazem parte de quem me tornei. Não que um dia me pertenceram ou de alguma forma eu tive posse deles... Não! Eles estavam sempre dispostos a me ensinar, a me ajudar...

Há um carinho diferente, um Amor denso e profundo... Sobretudo o exercício do perdão e da paciência. Eu tenho um segundo pai amado tanto quanto o primeiro e ele é meu cunhado, marido da minha irmã mais velha. Conhece-me desde sempre. O amo como amo minha mãe, minhas irmãs e meus sobrinhos... Da minha mãe será preciso uma semana específica para falar...  Há também meus primos. Devo ter dormido na casa de todos durante um bom tempo da minha vida. Eu era um tipo de coringa familiar que tentava estar com todo mundo que tinha algum vestígio de laço sanguíneo.


Hoje já não faço isso. Mas, tento. Quero estar com todos do meu sangue e os meus amigos. Para mim são todos irmãos. Todos família. Talvez uma função do Natal sempre tenha sido esta de nos lembrar nossas origens, nossas possibilidades, a importância das pessoas e de relevar as pequenas coisas. A gente pode nascer de novo, pode aproximar pela primeira vez, reaproximar desarmados até de palavras e ser uma Luz livre sentindo uma iluminação constante para poder iluminar também. Somos bem mais do que a gente imagina. Podemos acreditar na gente e no próximo mesmo este distante.

sexta-feira, dezembro 22, 2017

Vou mergulhar (miniconto)







por Rafael Belo

Estou aqui disposta no meio desta multidão de estranhos. Não vou esconder nada mais. Mas, alguém me diga como vim parar aqui... Deixa eu pensar... Eu sai desta caverna subaquática depois de horas me distanciando na cachoeira e oi?! Não, não estou falando com você?! Não, não estou falando sozinha! Estou falando comigo mesma... Sai pra lá. É por isso que me escondia... Não tenho paciência para isso... Não há paz nos roles... Não há liberdade para as mulheres! Enfim, eu sai e caminhei sem rumo.

Ouvi meu nome diversas vezes sem me importar. Fui apressando os passos porque na verdade havia um objetivo ali, uma missão.  Eu era uma redução, um rascunho... Negando minha imensidão... Não devia preocupar ninguém... Sério? Cada um escolhe com o que se preocupar. Eu devia tanta gente e tanta coisa, mas decidi ignorar. Esconder-me era mais fácil, evitar, não falar e de que adiantou? Olha onde estou? Veja como estou perdida?

Sei que ninguém lê textão mais. Sei lá se é bode, se dá ruim, se é preguiça... Mas como você continua a ser eu, nós nos entendemos. Você nem se lembra de ter escrito isso. Sabia que esqueceria porque gostaria de esquecer, mas é preciso lembrar que alguns silêncios são nocivos e outros fatais! Não retroceda, não recue... Não somos as mesmas mais, é verdade! Eu sei, a diferença foi feita, mas nunca é o suficiente. Só não perca tempo porque não há tempo perdido, no entanto nem tudo tem um motivo.

Esta coisa de aconselhar a si mesmo é tão batido, batida... A única coisa a ser batida somos nós mesmas e eu quero é mais estar bem, não só... Claro que há coisas que ninguém mais entende, mas a gente se rende para continuar, mas não para ser menos, isso nunca! Nunca mais! Vou cultivar minha calma, ser uma nova alma e me dar a paz. Eu sou mais. Sinto a felicidade bem aqui e você também pode sentir. Não hesite de falar consigo mesma e se ler. Este lugar maravilhoso também tem mar? É verdade... Vou mergulhar!

quinta-feira, dezembro 21, 2017

consumo inexistente







eu deito no improvisado leito permanente do chão
nada está escondido nem cada perdida ilusão
meu sono é tranquilo como de um felino em imersão
sonho longe acordando tudo em revelação aguda

acuda o esconderijo onde durmo no piso gelado
vejo todo ser alado parado entrelaçado com a contemplação
o desobstruir triste insiste a palavra pela fala do selo quebrado

rachada pele desidratada pelos mares escorridos no rosto lago
posto fato ser cavernas e abertos mares no resgate de um náufrago

eu elemento cálculo sou gato largado lagarto para deitado casulo
consumo o inexistente na mutação constante irreverente desapelo

apego seus olhos com os meus no regalo a gente os arregala flagra os sinais arregaça mangas pelos demais  percebe o quanto recebe vitais

quando nem o invisível é escondido pelos avessos finais.


+ às 13h17, Rafael Belo, quinta-feira, 21 de dezembro de 2017 +

quarta-feira, dezembro 20, 2017

Devo preocupar os outros (miniconto)







por Rafael Belo

Lá vou eu de novo me sentar culpada distante ou com este sentimento de rejeição, esta necessidade de aprovação... É uma sensação de caverna. Não, não sou uma ogra, uma mulher das cavernas no sentido literal, mas me sinto vulnerável ao me revelar, ao dizer quaisquer coisas sobre mim, ao ter muito conhecimento. Prefiro me esconder o máximo possível e parecer mais forte ainda por fora, com este sorriso, estas histórias, minhas memórias... Esta trajetória dos silêncios sobre as coisas realmente importantes, as falantes sobre mim...

Qual o motivo de eu me apegar em me esconder? Pareço um jardim de jasmins na primavera ou dramáticos e pequeninos amores-sem-fim deixando a chuva virar uma cortina blackout toda ao meu redor. É bem pior aceitar as coisas como são sem tentar mudar e, ao invés de aproveitar a chuva, deixá-la me encharcar e carregar como uma indigente. Vou nesta próxima enxurrada nem sei para onde. Será que gosto da chuva pelos motivos errados ou não há errado motivo?

Às vezes me sinto apenas um adjetivo deste corpo de poucas curvas, celulites, estrias e envelhecendo. Não importa qual idade tenho fico pensando se vale à pena me envolver, me revelar, sair desta ostra onde estou tão confortável... Deveria arriscar quantas vezes mais? Não deveria me sentir culpada e me afastar, mas se me sinto assim não vou me enganar... Quantas vezes eu estive errada e, orgulhosa, continuei me dizendo certa? É tão mais fácil dizer “estou bem” e pronto... Não é?


Só quero ver quem nunca se automedicou, quem nunca se calou, quem nunca escondeu algo nesta vida...? Ninguém entende o que acontece na vida de ninguém não, pelo menos não da mesma forma porque ninguém sente igual até se for muito semelhante... Cada um é único e exclusivo, mas precisa perceber isso, né? Quando eu vou perceber, heim?! Prefiro dizer nunca nem vi e seguir. Vou dormir se minha ansiedade deixar e se eu não acordar? Será que alguém sabe se tem luz nesta caverna? Ou vela? Ou fogo? Devo preocupar os outros?

terça-feira, dezembro 19, 2017

fuso-horário








explodiu a dor e toda lágrima rolou
nada diagnosticado escorre sem significação
o silêncio cantou reflexivamente quando algo quebrou
mesmo diante de todo o passou ainda não quis preocupar

não chega o ar enquanto uma cortina de fumaça passa
repassa os esconderijos por adjetivos em desuso
estão contorcidos os rostos de preocupação

há abusos além dos exageros nos atropelos diários
o zelo foi usurpado por enrolações quebra-galhos

em frangalhos todo paliativo é intermediário de um fuso-horário do arrependimento.


+Rafael Belo, às 09h40, terça-feira, 19 de dezembro de 2017+

segunda-feira, dezembro 18, 2017

Não esconda nada






por Rafael Belo

Ah, nossa teimosia diária! Vive nos extremos. Já assumiu que esconde as coisas ou só usou o eufemismo “não queria preocupar ninguém” ou, então, “é só do meu interesse”? Não resolvemos nada definitivamente sozinhos. Mesmo as coisas mais pessoais só podem nos parecer corretas quando compartilhadas ao menos com uma pessoa. Guardar sentimentos, ressentimentos e tantos experimentos mais causa muitas doenças psicossomáticas e o próprio corpo desenvolve algo nocivo a nós como o câncer... Se dê uma chance de viver, de mudar, de crescer, até as árvores enraizadas mudam e seguem crescendo suas raízes, galhos, folhas e frutos.

A imutabilidade das árvores é só aparência. Tudo pode parar se você acreditar não ser possível fazer nada. Não esconda nada! Só você perde com isso. O medo só afeta a nós mesmos... Não! Isto não é verdade. Afeta todos que se preocupam com nós. É egoísmo. Querer transformar em inevitável o evitável é inconcebível. Até tornar-se inevitável. Quantas pessoas morrem pelo silêncio? As mortes silenciosas acontecem diariamente e a gente nem percebe. Esta modalidade de focar em si, de elevar a si, de voltar-se a si, do potencial do eu exagerado está equivocado gerando uma nítida solidão palpável e o oposto também.

Há um meio termo, há um equilíbrio e sem equilíbrio fazemos algo próximo de sobreviver. Esta sobrevida contém um marcapasso falho em uma corda bamba elaborada na construção mais alta do planeta em meio a torrencial tempestade e ventos acima de 100 quilômetros por hora. Lá estamos nós... Esconder as coisas não é proteger ninguém, não é poupar coisa alguma é uma espécie de afastamento e conformidade ainda não admitida, mas exercida com uma excelência assustadora.


Não há porque esconder nada, a não ser... Ser responsabilidade de outra pessoa, sobre outra pessoa. Você pode dar os sinais, mas cabe a ela revelar este ácido que ela passou a beber no lugar da água, esta desidratação passada a ser vendida como hidratação. Mas, às vezes é só o coração que não aguenta tanta pressão por tanto tempo mais. Obstruções começam a surgir e a gente a negar. Então, quando não os acessos se interrompem... Vão-se sangue e oxigênio para concluir com um fim desnecessário. Se dê uma oportunidade de viver, dê uma chance de revelação.

sexta-feira, dezembro 15, 2017

“É uma obrigação artística refletir o meu tempo”







Todo dia eu subo ao palco. Canto, interpreto, declamo poesia, satirizo, satanizo, beatifico… Sou iludida e iludo. Nem sempre é intencional, mas não desfaz nem desobriga a necessidade de desculpas e até perdão. Às vezes, até uma reparação… mesmo assim há coisas irreparáveis. Coisas até insuperáveis, mas que com o tempo aprendemos a tratar de uma forma capaz de nos permitir viver e continuar. É difícil admitir que eu também faço tais coisas, não sou racista de forma alguma mesmo havendo negros racistas... Mas quantas vezes não fui contraditória antes de perceber?

Somos sensíveis significâncias, ou seja, lá o significado disso. Já senti não significar nada, mas agora eu sou livre. Minha alma voa sem rumo parecendo encontrar uma Nina Simone ativista em alguma nuvem de chuva para despertar uma catarse e ressignifica a liberdade a todo instante, então tocam as músicas desta musa que dizia que “é uma obrigação artística refletir o meu tempo”...É um looping infinito de “Why The King Of Love is Dead”, “To Be Young, Gifted and Black” e “Mississipi Goddam” em um looping infinito me fazendo refletir.

Não sou mais de reclamar. Eu procuro soluções antes mesmo de abrir a boca. Ouço estas músicas de protesto me perseguindo e tento ser grata pelos sacrifícios feitos por tanta gente antes sequer de meus pais se conhecerem... Mas, as aparências me engaram tão bem que foi difícil conseguir entender que meu silêncio e entretenimento por entretenimento, sem nenhum conteúdo, só seriam distrações e já há muitos ocupando este papel. Eu preciso despertar as pessoas dentro das pessoas, entende?

Aquelas que querem fazer algo para mudar, para se libertar, ao invés de fingir estar tudo bem e esperar outros fazerem o que precisa ser feito. Quantos não repetiram para si mesmos terem nascido na época errada? Isso não é verdade, eu garanto. Garanto para mim de hora em hora porque nós temos algo a fazer aqui e já. Falar sozinha assim pode até me fazer louca, mas me acalma e posso pensar com o máximo de clareza em como isso será arte logo... Bem nem sempre com clareza porque prefiro negritude ou simplesmente pensar em quanta igualdade precisamos no meio de tanta diferença e quão pouco os intolerantes são e afetam com ódio quem ainda não se posicionou...


Penso ser mortal a conformidade social. A questão não é só Zumbi e o direito de ir e vir. É Dandara dos Palmares, Anastácia, Luiza Mahín, Tereza de Benguela, Aqualtune, Zeferina, Maria Felipa de Oliveira, Acotirene, Adelina Charuteira, Rainha Tereza do Quariterê, Mariana Crioula, Esperança Garcia, Zacimba Gaba, Tia Simoa, Na Agontimé (Maria Jesuína), Eva Maria de Bonsucesso, Maria Aranha e Maria Firmina dos Reis... Todas estas mulheres heroínas negras estão em mim e as vejo em todas nós. Só penso que a pele não tem cor, mas melanina e o que nos torna diferentes é muito mais profundo que a quantidade de melanina. Sou Melania e sempre pergunto: você quem é?

quinta-feira, dezembro 14, 2017

significâncias




todas as noites quando vou dormir tatuo em mim uma âncora
para poder praticar a volta mesmo se a tatuagem sumir quando acordo
minha liberdade me leva para outros mundos onde a pele é só sensações
sou todas as nações em emoções intensificadas com as cores em aquarela

 gêneros se espalham em um igualdade sentinela da diferença das quebradas ânforas
como conchas misturadas às esponjas acabam as balas de borracha e os projéteis de fogo
descem todas as tonfas pela última vez no jogo e só sobra o fim da dor deixando o cheiro de cânfora

é difícil compreender que o passado não se foi e nada deveria segurar as exuberâncias
as alforrias demonstram ânsia mas cada dia que passa sou livre outra vez como na primeira

todos os dias acordo com quandos à beira do despertar sem qualquer âncora procuro minha sombra e também a descubro liberta nas significâncias.


+Rafael Belo, às 13h45, quinta-feira, 14 de dezembro de 2017+

quarta-feira, dezembro 13, 2017

Black Feeling Good (miniconto)








Por Rafael Belo

Feeling Good gritava nos meus ouvidos naquela voz inimaginável de Nina Simone, aliás, sou Nina por causa dela. Negra por genética mesmo... Esta música é minha trilha sonora diária e não importa o que aconteça a ouço ainda que esteja de som ambiente de qualquer outra coisa. Nina é minha referência, apesar da insanidade total mortal do alcoolismo... Eu me identifico, às vezes a vontade é entorpecer para sair deste mundo de dor sem cor querendo segregar por cor... Mas, vou em Feeling Good e transporto um sorriso e uma malemolência no balançar da cabeça.

Ela me faz bem. Realmente faz me sentir bem... É meu lugar de paz e poder. Já cansei de fazer necessários escândalos por causa de abusadores e ainda ser recriminada por irmãs e irmãos... Enfim, este mundo é opressivo pra mim e é impossível não pensar em desistir uma hora ou outra. Não há vencedores e perdedores... Somos animais precisando conviver eventualmente e esta tentativa falha de nos diminuir com injúrias raciais e todo este palavreado chulo, tosco, escroto... Ah, eu fico putaça! Tenho direito, mas prefiro o direito de me sentir bem. Não é a vontade global? O mundo não quer se sentir bem?

É preciso diminuir o outro? Humilhar o outro por questões inexistentes? Desconheço este deus diminutivo do eu sou melhor, da segregação, do ódio, do desamor... Estes resquícios rançosos da eugenia são de um absurdo tamanho... Me dá até falta de ar... Vamos lá... Feeling Good... Ajuda-me Nina...! É um mundo racista, preconceituoso e machista repleto de disfarces e desculpas ou... Como se sentir bem fazendo o outro se sentir mal? Como ser humano assim? Resiliência, resistência, força... Desgastam como ossos sendo batidos como baquetas...


Mas, a gente pode se renovar. Você entende? Ninguém pode nos diminuir! Sou tão plural que, às vezes, paro para me encontrar e cada uma de mim sentar para conversar... Uma destas é Nina cantora, engajada, dona dos rolês, apontando o dedo e batendo na cara, mas a outra é o oposto. Ela se encolhe, se retrai quando o racismo a diminuí, quando os abusadores lhe roubam a intimidade, a identidade e ela passa a ser objeto. Eu sou um conflito constante tentando retirar cada esteriótipo equivocado e ainda sim há um buraco negro como uma nuvem negra reforçando tanta escravidão.

terça-feira, dezembro 12, 2017

denegrindo





trava a língua a míngua e as cores não existem na pele de ninguém
quem não escuta as correntes tilintarem e se arrastarem no cotidiano?
anos de escravidão resistem debaixo dos panos as chibatas descem às claras
não se apagam as marcas com cicatrizes sendo abertas sem hesitação

é preta a situação como a degradação desta adjetivação
sem objetividade o buraco negro suga até a luz em alta gravidade
enquanto o humor negro desembesta a nos denegrir na obscuridade

a sociedade está no enegrecimento pejorativo do samba do crioulo doido
doído no não sou tuas negas para ficar balindo neste rebanho de ovelhas negras

com mercado negro magia negra lista negra e muito do negativo por aí querendo nos extrair
ouça o que disse a história não é presunção nem achismo a tortuosa trajetória a nos punir

negamos a inexistente inveja branca reforçando o oposto morremos com gosto de Zumbi.


+ às 11h19, Rafael Belo, terça-feira, 12 de dezembro de 2017 +

segunda-feira, dezembro 11, 2017

no mínimo igualdade




por Rafael Belo

Há uma nuvem de mágoas sobre nossas cabeças, não lágrimas, não olhos... Mágoas e cabeças. Vivemos irritados cheios de mimimis e razões. É onde habita o preconceito. Exatamente neste estado. A não aceitação do outro e o ódio gratuito espalhado gerando sentimentos contraditórios, cobranças e acusações eternas. Uma separação irracional abalando o emocional, um veneno inoculado abertamente, discretamente e alterando as intenções na medida errada, conforme se espalha. Nestes tempos sensacionalistas de “textões” e “sinceridades” falar o que pensa não é dizer a verdade.

Nós já somos escravos de tantas coisas e ainda não abolimos a escravidão. A escravatura veio das guerras quando um povo subjugava o outro e os subjugados eram obrigados a exercerem quaisquer tarefas para o “vencedor”. Não era questão de pele, de sexo (apesar da escravidão sexual, a prostituição forçada e outros tipos de degradação também variaram desta extrema privação de liberdade). Hoje tudo é medido por pele, gênero, sexo e, principalmente, dinheiro. Mas, nem este tão poderoso deus adorado e tão invocado a todo o momento distorcendo e controlando toda nossa sociedade faz imune o negro do preconceito e do infeliz recorde de maior número de mortos e assassinados.

Fala-se em graus de preconceitos conforme a tonalidade da cor, como se raça assim fosse. Mais claros ou mais escuros... Eu penso em tudo isso como um absurdo e uma discussão inesgotável, mas que termina com a simplicidade de todos serem humanos até os mais desumanos. Ensinar ódio, diferenciação entre classes, etc... Já me irrita tanto, mas se referir a outra pessoa de forma carinhosa ou pejorativa me incomoda na mesma medida e peso. Não importa que seja repleto de boas intenções eu me incomodo. Não há motivo no mundo para ressaltar “neguinho”, “pretinho”, seja lá o que for diante de todas as outras formas possíveis de se referir a uma pessoa e os motivos são tantos quanto uma tese acadêmica interminável.

Existe aqueles capazes de adotar estes “chamamentos” ou apelidos no nome como autoafirmação, forma de lutar contra o preconceito ou demostrar um não importar-se conveniente. O peso das palavras não é só dado pela mente e pela boca, mas pelo tom utilizado, mas enfim a injúria racial pública mais recente - que desolou muitos - foi do caso das celebridades que adotaram Chisomo (significa graça na língua de origem Nianja) e é de Malawi, no Sul do continente africano. A criança, conhecida como Titi, tem pais biológicos, no entanto, não encontrei o motivo dela ser passível de adoção, porém, estamos tratando de racismo. A socialite Day McCarthy foi debochada e racista em comentários gravados em vídeo direcionados a uma criança (Titi) publicado e viralizado chamando toda a atenção em um despropósito imensurável no destilar de ódio contaminando muitos.


Para mim é inconcebível este assunto sequer existir, mas ele está enraizado no nosso país repleto de preconceitos que voltam a ferver toda vez que as cotas voltam a ficar expostas. Há sempre um mimimi ignorante sobre este direito. Não é questão de inteligência é uma questão de reparação histórica irreparável. É desgastante ouvir os “argumentos”, as “justificativas” querendo desmerecer a necessidade das cotas, mas é fato que nunca será possível reparar a situação dos negros humilhados, degradados, chacinados e até quase apagados dos registros oficiais na tentativa de negar a escravidão. Precisamos reavivar o bom-senso e a humanidade para praticarmos no mínimo a igualdade.

sexta-feira, dezembro 08, 2017

Até quando eu quiser (miniconto)






por Rafael Belo

Eu não neguei o toque. Não iria resistir mais. Ele me tocou e eu toquei tantas músicas com meu corpo... Um instrumento universal soando, ressoando, cantando pela bateria da pele também percussão, pelas cordas vocais também viola, violoncelo, violino, violão... Pelo piano dedilhado, ah, intenso e delicado. Mais os instrumentos de sopro saindo de brisa para furacão e aí pela contramão... Então, um coro de anjos, o canto divino da falange também se intercalava com uma infernal legião...

Tudo de um contato físico, da pele tocada de todas as formas imaginadas...  Da entrega. Eu estava delivery, self service das sensações proporcionadas pela quebra de barreiras, de fronteiras, de obstáculos, de cálculos lunáticos e defesas pessoais...Tocar com o olhar já não bastava há tanto tempo que quase me perdi na minha própria orquestra em um esquecimento espiritual, sentimental para um domínio carnal totalmente sensorial. Cada poro meu é uma canção.

Quando vem o arrebatamento eu sinto cada músculo do meu corpo e o que esqueço agora é alguma vez ter me negado... Ter negado o toque e o tocar... Espero o som do silêncio e tocada continuo. Chego à liberação de sentimento e aos desbloqueios mentais. Só então, o espiritual extravasa. Avassala qualquer resquício de escravidão acorrentado em mim como uma sombra infinita. Meu silêncio grita e se torna parte da canção. A pausa entre as respirações, entre as notas, a gente se nota e anota mentalmente o calor inicial do contato físico, do toque...


Sinto-me germinal e mais solar que o sol... Sou Gama e todo o sentido emana sobrando sentidos em um explosão corporal de estímulos e ao invés da pele ser a prisão imposta social, é meu portal para ser extensão e parte do todo e toda em parte conectada da distância inexistente da ponta dos dedos até o seu olhar. Resistência agora só contra o negativo. Negação desde já apenas para o que não acrescenta, ao que não quer tocar, sentir e àquele que só quer contato para chamar de contatinho. Mas, só me toque seu eu deixar e aí é até quando eu quiser parar.

quinta-feira, dezembro 07, 2017

tateia





estende os dedos toca timidez
devagar roça o dedo na pele
olha nos olhos espera reação
até toda mão poder envolver sentir

contato físico imediato enviando impulsos arrepiados pelo pulso acelerado
vai inflamado incendiando a pele suspirada esperando novo toque pensado
até o coração espancado pular pela boca sempre a reagir ao seu tocar estrelado

uma imensa bolha se forma ao nosso redor lá fora silêncio
todo tato tateia em fogo a tatuagem feita pelo arrepio saliente

de repente tudo pára a gente continua o mundo nunca foi tão imenso.


+ às 10h09, Rafael Belo, quinta-feira, 07 de dezembro de 2017 +

quarta-feira, dezembro 06, 2017

agora não (miniconto)





por Rafael Belo

Esqueça esse tal de entender. O que entendemos realmente nesta instável vida? Vai lá e sinta. Pronto. Acabou. Ficar procurando motivos não resolve nada. Mas, não estou dando conselhos nem sendo exemplo. Eu mesma... Eu mesma me sinto um iceberg, apesar de saber estar continuamente utilizando todas minhas ferramentas e aprendizagem para a frieza exalar o ar gélido do olhar. Não importa mais se quero tocar... Eu não toco e pronto. Pior ainda é se me tocarem... Não entendo esta mania das pessoas... Tá! Eu entendo. Querem atenção total, querem que você olhe, querem ter certeza que você está ouvindo... Mas, não me toque, diga.

Esta necessidade patológica de contato físico, de achar que se for tocado significa algo... Esta mania de todos se acharem psicólogos e sábios da vida... É um saco. Digo só isso porque prometi pra minha mãe diminuir os palavrões, mas... Vamos voltar ao assunto. Não poderiam simplesmente me deixar em paz. Não é todo mundo que quer ficar só que está depressivo, que procura o suicídio... É muito difícil saber diferenciar a preocupação com a invasão? Esquece isso. Pergunta idiota...

Creio... Humm... Nunca soubemos exatamente o nome do sentimento quente saído de um toque. Eu sempre associei a desejo, vontade, querer... De novo... Esta mania nossa de procurar padrões e acabar seguindo um padrão de escolha podre, bem bosta mesmo... Aí não sei se a gente surta, chora ou... Quero dizer eu, né. Não sei vocês. Eu surto e choro de temporada em temporada e quando chega o fim, eu não sei o que fazer aí vou segurando até mesmo quando vejo ser impossível... Sou teimosa. Tenho medo de ficar sozinha e olha aqui... Estou só.


Só não entendo... Droga. Olha a contradição de novo. Eu devo ter medo também de escolher diferente, então escolho sempre parecido achando que eu sou errada – Só faltava – ou que eu posso mudar a pessoa escolhida. Meu Deus! Quanta burrice. Tem alguém por aí eu sei, não sou tão louca ou sou tão louca a ponto de insistir nesta ideia. Mas, agora não. Agora eu quero tentar me entender um pouquinho. Ok! Tentar escutar o que sinto. Melhor né? Entender é supervalorizado demais... Vou parar de emendar as coisas, sem respirar, sem pensar... Nem sempre o impulso nos leva para frente ou para cima. Às vezes é só uma estática, um ruído, um congelamento no ar para que pelo menos nesta oportunidade (gostaria de pensar assim...) de cair quebrando a cara, algo aconteça... Então, deixa eu encontrar meu espaço sem precisar tocar em ninguém e, por favor, não me toque. Pelo menos agora não.

terça-feira, dezembro 05, 2017

de longe



o olhar ousa tocar prendendo a respiração
já não tem noção de tempo se perde distante
leva o semblante momento de intenso desejo com medo do tato
preso como um raro artefato reprimido nas areias de um deserto antigo

está instintivo lutando contra si deixando o coração em perigo
deixa de rir enquanto segura as mãos perdido naquela visão
quer o toque mas segue em choque movido por um coração atingido

tingindo em cicatrizes cauterizadas com caules cortados assim que nascidos
desfavorecido por outros batimentos fingidos está oprimido pelo acontecido tão querido

só imagina o físico contato quer sentir o impacto o calor o pulsar do respirar intensivo ao lado colado contudo flagelado permanece olhado agudo em dor frio sem amor.


+ Às 10h48, Rafael Belo, terça, 05 de dezembro de 2017 +

segunda-feira, dezembro 04, 2017

Por que é tão difícil?





Por Rafael Belo

A pele deu aquele arrepio em um dia sem vento, nem sequer frio. Mas, há aquela necessidade de contato físico... Não sei em qual cidade você está, mas aqui em Campo Grande/MS o tempo é sorrateiro e muda de repente de um sol escaldante para uma chuva corrente, uma tempestade torrencial. Enfim, falava da pele tendo vontade de tocar pele quase como uma necessidade, a referência climática e realmente para falar de clima. Climão ou aquele clima instantâneo. Uma vontade absurda de roçar a textura e o oposto disto, nem querer ver a pessoa.

Tudo isso, mexe com nosso organismo. É sintomático, psicossomático, vivo, dinâmico, demorado e momentâneo. Causa vermelhidão, palidez, sensatez e, ah aquela insensatez. Quantas vezes não conhecemos alguém e de imediato vemos nossos atos se manifestarem sem razão e, pronto, estamos tocando a outra pessoa? O corpo tem mais razão frente à própria razão. Ele tem mais sentido por sentir mais e responder de imediato sem precisar pensar porque já sabe. E a pele? Ela é o nosso maior órgão... Então, imagine comigo o nascimento de um arrepio.

Ele nasce na sola dos pés em um formigamento e vai subindo. Nem sempre passa pelos genitais, mas passa pelo frio na barriga, mexe com a lombar, passa por costas e ombro, traz um suspiro quando chega à nuca, então, parece irradiar no couro cabelo e acender o cérebro. Normalmente, vem com uma sensação boa. Aquelas boas vibrações que nos faz sorrir e, às vezes, parece densa, profunda e misteriosamente uma paixão. Segue aquele toque capaz de acelerar o coração, fazer a gente esquecer de respirar... Ao contrário, o arrepio também pode ser um aviso aracnídeo de perigo, um alerta.


Mas, prefiro focar neste tocar tão intenso e elétrico causando as estações dentro de nós com aquela sensação de conexão, de elo... Aí chovemos como naquela infância onde corríamos na chuva e pulávamos nas poças, ao mesmo tempo recebemos aqueles raios solares matinais no despertar naturalmente, vemos as folhas caírem vagarosamente, o frio congelar a emoção em um eterno batimento bom disposto a aquecer no encostar e em um tom subir primavera com todos os melhores aromas nos perfumando trazendo a essência para o físico... Este é o toque. Esta é a memória mais agradável da pele, do corpo, da química da alma saindo do olhar. Então, me diga o motivo de ser tão difícil se deixar tocar e se tocar?

sexta-feira, dezembro 01, 2017

Detenta (miniconto)






por Rafael Belo

Até há pouco meu estômago estava gelado. Meu peito vazio e apertado. Uma apreensão inexplicável fazendo minhas mãos tremerem. Havia insegurança em mim e a culpa não era minha. Eu queria assumir, mas assumiria o que? Fiz tudo certo, apesar da difamação. Então, larguei mão. Finalmente, liberei o “cansei de esperar”. O grito de angústia saiu gritado queimando do fundo da garganta, a cabeça latejou e doeu, mas o começo da liberdade bateu asas bem no meu rosto.

Quero o que me importa, o útil e o agradável todos os dias. Esta não vai ser a última caixa que saí, a última caverna inundada em mim. Veja, estou nesta caixa de grades acusada de um crime que não cometi. Não vou me entregar. Vou usar cada uma destas caixas onde um dia me enfiei para subir e respirar esta esperança que deixei lá fora. Cada raio solar é um verão me aquecendo e se eu mergulhar nas minhas cavernas inundadas será só uma necessária imersão. Sabe? Aquele momento comigo mesma...

Dói saber tanto, mas é uma dor diferente. Não me puxa pra baixo nem me empurra para trás. Esta dor me puxa para o alto e me empurra para frente. Como uma maçã por dia porque dizem ser saudável e trazer longevidade. O conhecimento trás longevidade? Eu me sinto jovem sempre... Quer entrar na minha caixa? Faça melhor e me ajude a desconstruí-la. Não me julgue por ser presidiária. Quantos de vocês estão aprisionados dentro de si mesmos e por crimes realmentes cometidos por vocês?


Pode ser que eu seja a serpente, esta tentação que uma mulher pode ser em total sedução. Mas, as minhas escolhas só eu tomo. Embriago-me delas, as tomo todas sem ressaca. No entanto, ainda há aquela apreensão no peito, aquele continente Antártico no estômago, mas o motivo está mudando. Agora estou sozinha na cela e ontem estava em uma superlotada com menos de 30 centímetros quadrados para existir. Não preciso decidir entre a solidão e a multidão. Sou ambas e com as duas posso estar. Só preciso reencontrar meu equilíbrio ou um novo criar. Sou o diário de uma detenta cumprindo a pena de outra. Se valerá a pena é outra questão. Posso não estar pagando pela penitência certa, mas estou pagando pelas minhas que só eu sei... Espero suportar... Ei! Será possível alguém abrir esta caixa para eu sair?