segunda-feira, outubro 29, 2012

E terminou!

E terminou!
por Rafael Belo
Cada um oficialmente tem sua própria vida, mas nos tempos de monitoramento virtual em tempo real a conta se perde. Como se houvesse uma perda coletiva da noção do porvir e os esgotos da cidade derretessem com seu surpreendente odor – originário de nós - as formas distorcidas dos nossos bailes de máscaras diários. E como se não houvesse amanhã nos jogamos na defesa dos nossos empregos, dos nossos interesses, “ideais”como se fôssemos sem propósito, como se voltássemos no tempo onde nem queríamos ter maturidade, quanto mais responsabilidade. Por isso a pergunta incontida na boca é: E o amanhã terminou?

Para desgosto geral dos organizadores dos bailes de máscaras... Não. Terminaram as eleições, estes bailes e estas máscaras, mas ofensas, ataques e banalidades continuam nas timelines – e prints – nas páginas dos jornais, sites, depósitos dos canais abertos e os UFC’s confundidos com o Vale-Tudo - este último banido há tempos pelo dito do próprio nome... Tudo pela política, ou melhor, pelo pensamento individual de política de cada um online. E agora, passados dois turnos, sobrou o melhor: uma vida. Assim, nossos narizes vermelhos começam a ser revelados novamente...

Nesta hora o chão se abre e tudo volta para o esquecimento até daqui a dois anos quando votaremos novamente... Voltaremos nesta segunda-feira? Como costumamos fazer decerto, como se nada tivesse acontecido, como se uma amizade nada valesse, como se o baile continuasse, como se os jornais não escolhessem lados e os defendessem para atacar os lados opostos... Estes sãos os pontos onde a inversão de valores não só está em negrito e itálico como possuem imagens e sons salientes. Nestes particulares nunca é game over, os controles nunca são largados e a fase final só chega no último suspiro.

Por isso - e muito mais, a ignorância vence com cada um defendendo o seu e escondendo o próprio umbigo e viva a democracia e salve a liberdade, ou seria salve-se quem puder, ou então manda quem pode obedece quem tem juízo, enfim qualquer um destes ditados populares morais... Só vamos encontrar a moral antes, pois quem sabe nas proximidades esteja a tal da ética. Porque hoje, como nunca antes na história das eleições, o Vale-Tudo Eleitoral faz sua marca na terra do Facebook e a inteligência mais uma vez mostra não ser ter sacadas, falar o decorado e sim saber a hora de falar de calar e que para ambos é preciso ter conteúdo para raciocinar!

sexta-feira, outubro 26, 2012

Encalço descalço


Encalço descalço



Espasmos elétricos arrepiam o ar e a pele peleja tremula
a fricção da pragmática dos choques acumulados na areia
clareia um outro mundo encoberto de uma branca flâmula

flamejando coração e alma gerados e transformados em energia na teia
cadeia aberta em grades imaginárias correndo corrente em súmula
eletricidade estática a ressuscitar os ares que rodeia

até o vento despertar as imagens das mensagens da fórmula
formulam um rio de planos no abrir dos olhos e no leito ateia

o olhar de volta para o olhado em estranhamento
sem avesso, sem calçado, descalço no encalço
de sua silenciosa multidão.

(Às 20h06, quinta-feira, 25 de outubro de 2012, Rafael Belo)

quarta-feira, outubro 24, 2012

Miniconto - Leito de areia

Miniconto - Leito de areia
por Rafael Belo

Quando pisou no leito daquele rio pela primeira vez tudo parecia normal. Mas, ela não sabia estar sobre uma falsa margem. Um bunker de areia formado na última cheia e desfeito em seguida. Isso sempre acontecia. Depois de uma torrencial chuva tirando toda a visibilidade da estrada ela chegou a Anastácio/Aquidauana. A tempestade implacável circulou durante as quatros horas gastas para chegar ao destino de seu feriadão. Ela ainda não sabia da história do leito de areia e como apreciou a solidão daquele lugar, lá voltou.

Adormeceu com o calor intenso e a pescaria frustrada. Ainda esperava se conhecer, finalmente... Olhou em volta e nada reconheceu. Não havia trilha no matagal pelo qual atravessou para ali chegar. Levantou com dificuldade pelo chão incerto e nem um pouco plano. Desequilibrou e rolou sem direção ou distância. Percebeu assim não estar no mesmo lugar e mais... Estava em movimento... E havia outro porém, seu espaço estava diminuindo e nas próximas horas acabaria sem espaço algum. Seu estranhamento consigo ficaria em segundo plano.

Aquela areia toda isolava a energia acumulada naquele corpo e era frenética a mistura dos pensamentos e sentimentos. Seu horizonte se aproximava e ao mesmo tempo as águas. A areia movediça se formava sob os pés e a sugava. Com todos os pêlos arrepiados, a eletricidade estática, formada de sua inação, fazia raios brancos e azuis estralarem... O impacto dos choques solidificava a areia antes isolante e a ilha arenosa aos poucos se tornava vidro. Foi assim que o leito de areia foi se tornando leito de vidro. Uma mudança mineral...

Cada grão de areia a receber seus raios do cúmulo da eletricidade acumulada, agora era a materialização de seus pensamentos, a escultura de seus sentimentos e toda aquela arte vítrea reluzia atraindo às margens tudo quanto é gente gritando e gesticulando embasbacadas. Os grãos de areia, ainda não molhados, se espalhavam ao redor dela com o vento a levar o antigo leito adiante. Uma redoma era formada envolta do corpo dela e ela nada ouvia e só via distorções. Assim, o leito antes arenoso agora era vidro. Uma arte ambulante. Sobre as águas chegava a ser transparente e invisível aos olhos desatentos... Mas olhares mais atentos viam a maioria dos planos dela e da imagem em si e o leito seguia pelo rio.

segunda-feira, outubro 22, 2012

Multidões silenciosas


Multidões silenciosas
por Rafael Belo
Sabe quando a eletricidade estática vira um gerador em seu corpo e os estralos dos choques dão impactos constantes em qualquer pessoa e metal tocado? Você sabe... Há algo a ser mudado. Há um sentimento silencioso se manifestando fisicamente. Há um impulso insistente retumbando pelo corpo até incomodar a mente. E somos diversificações de semblantes, e somos concentrações de energia. Esta energia acumulada precisa ser liberada, ser direcionada... É hora de abraçar mais, apertar mais mãos e principalmente andar descalço para ser hábito.

Por os pés no chão nos coloca em contato com o mundo e nos faz sentir a vida conectada. São multidões silenciosas mal acomodadas dentro de nós e não é só isso... Você não está sozinho. Basta ver a acomodação encalhada também na praia deserta de outrem. Há alimento em abundância, há água potável, há toda a sobrevivência e ponto. Nada mais. Mas é o suficiente para a vida, para todas as possibilidades e obstáculos nos nossos caminhos? Não é preciso responder o óbvio. Só é preciso sentir o vento soprar diferente, sussurrar um rumo desejado por nós interiormente...

Abrir os olhos não é só ver o primeiro plano da imagem vista. Há muitos planos nesta imagem, há ângulos demais para à primeira vista tudo ser enxergado. Mesmo porque a totalidade não nós é permitida, pelo menos não sozinhos. Existem influências e tendências no caminho de cada um de nós e são nós absorvidos de forma a somente nossa individualidade poder atar e desatar. Esta é a razão pela qual quando a compatibilidade de uma causa passa de 50% a adesão chega a ser avassaladora e, portanto, não é inexplicável (vale também para a amizade e talvez para tudo na vida).

Inexplicável poderia ser não haver o estranhamento de si em alguns períodos, pelo simples fato da imposição publicitária imagética ser tão forte por toda parte. Mas quando o incômodo começa, a mutação de gerador e transformador no nosso coração e cérebro uma hora ou outra nos consume. Somos consumidos. Não pelo mundo, pelo acaso, pelo óbvio... Por nós mesmo. E somos uma multidão silenciosa reprimindo o desejo de andar descalço e nossa energia se alimenta de nós, não ao avesso.

sexta-feira, outubro 19, 2012

Arauto das águas


Arauto das águas


A chuva escorria pelo rosto da noite
e chovia pelos ruas vazias feitos filetes de rios
cruzando a pororoca da impermeabilidade do asfalto

as águas trovejavam em um crescente posto em açoite
no descanso do silêncio das almas aladas presas aos corpos por fortes fios
 oferecendo o prolongar da correnteza na previsibilidade do arauto

o som vinha arrastando gente cansada de cansar e aos poucos foi-se
com chuva calorosa repentina rasgando o rosto da noite com brios

estralando no pavimento quente no ritmo cadente da preparação de um salto

a cantar seu canto em pranto do alto dos cios das águas descansadas... No fio da foice.

(Às 22h23, quinta-feira, 18 de outubro de 2012, Rafael Belo)

quarta-feira, outubro 17, 2012

Miniconto - Limites opostos



Miniconto - Limites opostos
por Rafael Belo
O trabalho havia chegado ao limite. Voltar ao antigo serviço não era mais possível. A exaustão já baqueava momentos de apagões inexplicáveis em meio a conversas animadas, no término de um trabalho complicado... Seu raciocínio rareava. Começou a não acompanhar mais o limiar das discussões, pescava ao encostar ou sentir qualquer calor próximo... Um dia depois do outro todos os sintomas intensificavam-se e sua memória esvaia-se. Primeiro foram as da infância e de repente já não lembrava o início da frase a pouco começada a ser dita... Daí para o colapso foi um pensamento.

Quando acordou parecia ser uma página em branco renascida. Parecia... Ter sido automatizada todos os meses seguintes ao colapso. Seu coma durou poucos dias, mas sentia estar despertando dele agora após um festival de cinema mudo e sem imagem. Estava em repouso forçado. Não resistiu ao duplo conflito da mente resistente e o corpo acumulado de esforço... Após tombar em plenos altos da Avenida Afonso Pena, em dia de show no Parque das Nações Indígenas, demorou para a multidão curtindo mais um show perceber aquele corpo desacordando desprovido de qualquer sensibilidade... Mas, isso já era passado...

Ter a percepção do próprio corpo por meio do tato ajudava. Tateando a pele e suas cicatrizes esquecidas reativava vagarosamente as lembranças. Lembrava de muita coisa principalmente da solidão causada pelos amigos de ocasião. Não que estes não tentassem permanecer com a amizade, mas o trabalho era seu único foco, então, seguia sem ninguém realmente o amparar e o ouvir. Sua família já jazia e era a última pessoa com os genes desta genealogia em extinção. Quando sentiu o molhar assustou com o soluçar balançante de seu corpo.

Não chorava um Mar Morto pelas lembranças. Todo o pranto soluçante – atração dos médicos e enfermeiros de plantão – era porque seu trabalho sem fim se transformou em um descanso prolongado. Primeiro precisava recordar seu nome... Mas, forçado a tomar um tranquilizante cavalar pelo regimento branco local, apagou novamente... No dia seguinte despertou pronto para ativar sua memória e se preparar para fugir para o mundo conhecido. Queria voltar a querida exaustão diária.

segunda-feira, outubro 15, 2012

Descanso prolongado


Descanso prolongado
por Rafael Belo
Nas ruas não há descanso. No trabalho também – pelo menos não durante o expediente, mas descansar é preciso. Não ao ponto da preguiça, dos pecados dos bocejos constantes e o lacrimejar inevitável... É preciso para o corpo funcionar como deve e a mente estar tinindo como deveria. Conhecer novos lugares não é regra. Regra é poder se afastar do ambiente de trabalho, de vivência comum... Dificilmente um fim de semana é o suficiente. Para sanar nosso déficit com corpo e mente é preciso prolongar. Parar, respirar fundo e se preparar para continuar é tão necessário quanto à correria diária dos bits, bytes e touch screen.

Estamos tão conectados a ponta dos dedos, ao falar – de longe – sozinhos, a deixarmos de usar nossa educação. Sair às ruas isolados ao celular sem parar de falar, passar por pessoas e fazer compras, ignorando tudo isso, é um constante ato cansativo de isolada solidão. Como não cansar de tentar se ocupar o tempo todo, de misturar resoluções na mente de pensar no adiante, de se esforçar a não fazer nada...? As vistas já vão cansadas e o horizonte treme diante dos cochilos acordados de quem acha ter de continuar sem parar.

Sem descanso o seu infinito se limita a visões constantes do chão. Sem descanso o corpo não funciona direito, as barreiras de proteção se rompem, ou simplesmente enfraquecem, e nós adoecemos. A mente oscila, as frases não se formam, o raciocínio patina e nós caímos. O pior da queda é se levantar sem saber por que caímos, sem reconhecer o tempo para cada feito e desfeito das nossas pedras empilhadas, nada encaixa.

Como construir sem montar nosso quebra-cabeça, sem formar a mera imagem do presente? Um descanso prolongado supre os fins de semana de descanso in loco quando é possível ter o fim de semana. Toda máquina precisa de manutenção. As feitas por Deus, deuses e homens. Estar parcialmente montado é estar parcialmente desmontado. Pode ser verdade ter tempo de descansar quando nosso Tempo acabar, mas como estará nossa consciência se não sabemos o tempo no qual estamos agora?

sexta-feira, outubro 12, 2012

In completude


foto original sem modificações
In completude

Despedaçados pedaços rachados na estatela do chão
na emoção esvaziada de presença ainda em queda
ausência morosa na cela sem dolo, mas dolorosa de antemão

não no corpo ainda anestesiado de solidão... de uma era

sim de pedaços partidos da entrega a qualquer situação
direto ao coração guardado no fundo da alma, velada a vela

da incompletude dos degraus em toda ação esquartejada
pelos invisíveis olhos, invisível olhar

ninguém estava lá, nem você em grau projetada
não se entregou a nada, nem a si  nem ao estar.

(Às 15h24, 10 de outubro de 2012, quarta-feira, Rafael Belo)

quarta-feira, outubro 10, 2012

Miniconto - De grau por degrau

De grau por degrau
por Rafael Belo
Estava no chão. Estatelado. A queda não foi dolorosa, foi anestésica. Da primeira vez a desistir até agora foi um sopro. Tudo tão rápido. Desistiu de sonhar, desistiu de dar opinião, desistiu de tentar... Então, rolou do último degrau sem mais nem menos após decidir desistir. Entregou-se. Era noite quando tropeçou no próprio pé. Pisou em falso e o pé esquerdo bateu no direito. Rolou e a medida dos degraus contou cada um ao som de seus próprios ossos se quebrando em todo baque no concreto. Pelas contas dele foram 500 degraus...

A temperatura de seu corpo variava de grau em grau. As horas passaram diversas vezes por minuto e quando percebeu estar no meio da escadaria os borrões do céu já iam clareando, a madrugada passava... Todo seu ciclo de desistência, da entrega dos pontos era uma sequência em flashes da memória como se estas fossem a causa daquela queda final. Deveria estar sentindo toda a dor inaudita, indizível e merecida por sua covardia para si mesmo. Mas a anestesia impossível o impedia de se perder na dor e só pensava em suas entregas.

Já vinha a metade da manhã e seu corpo seguia estendido no chão. Não era mais um... Deveria estar urrando com as dores do horror do inferno, deveria ter sido morte instantânea, mas não... Estava lá com tamanho sofrimento por cada sonho supostamente apagado, por cada mudança não realizada, por todo silêncio maltratado, por toda palavra subserviente... Este era o verdadeiro sofrimento. Não importava não conseguir mover nem os olhos, ele ainda enxergava...  Talvez este fosse o dom mais desperdiçado, mais ainda a não raciocinar: a visão.

Ele não via ninguém, ninguém o via. Era uma cordialidade de invisíveis. Ninguém estava lá. Eram pedaços e pela primeira vez em sua última situação ele reconhecia. Começou a perceber as dores do corpo e quando seu grito engruvinhado de sangue jorrou sentiu-se virgem em seu corpo, estava presente, estava em outro tipo de entrega, estava entregue ao presente. Revirou os olhos e não havia mais a luz da manhã. Dezenas de pessoas o cercavam e um som estridente se repetida acima de todas as vozes o questionando: está tudo bem você? Onde não dói?

segunda-feira, outubro 08, 2012

Entrega


Entrega
Atenção imagem não modificada
Por Rafael Belo
Este passo ausente no ar entre um lado e outro de uma ponte quebrada provoca reações adversas e contraditórias a nós humanos. Maravilhosos ápices e abismos da capacidade de ter vários sentimentos ao mesmo tempo. Arrebatado e abatidos. Felizes e entristecidos. Os olhos podem estar lacrimejando, a cabeça baixa, mas a certeza de estar no caminho certo enche o coração de uma alegria avessa a todo o sentimento carregado no corpo. Todo este nós se potencializa quando há a entrega. Mas a oposição deste verbo confunde muitas mentes pseudo-sãs.

Entregar costuma vir a ser desistir mais a estar por inteiro na feitura das ações. Começa por entregar a personalidade a moldes midiáticos, segue por seguir às cegas qualquer tendência e fica em uma conclusão depressiva de ciclos estéticos e financeiros a terminar em uma esquina para começar na próxima. É um entregar a vida a dois pesos e duas medidas diante da balança manipulada pendendo para o benefício único. Aí neste cair constante mora a liquidez e inversões de valores, onde quem vive o avesso é o coitado.

Acreditar no seu fazer diário pode ser mais recompensador a necessidade financeira em si. Afinal, são necessidades imateriais o alimento da alma, esta a nos fazer brilhar os olhos e acender os sorrisos. Crer apesar dos erros, das perdas, das enganações, das traições, dos desmerecimentos, das desconfianças... Apesar de tudo há o amanhã. Há um amanhecer pronto para pintar um novo dia neste quadro chamado nós. Mesmo com o medo da dor de dar errado. Mas quem foi que disse ser necessário sempre acertar? No fundo sabemos não haver acertos sem erros. Ações provocam reações, mesmo se forem silenciosas.

Nossa responsabilidade com a nossa fé, com nossos iguais, com quem amamos fica perdida se não assumimos a postura pregada por nós. Porque sim temos sentimentos contraditórios, mas está aí a razão, esta a nos fazer animais racionais para não contradizermos nossas falas e ações. Esta a permitir uma análise para tomarmos uma decisão. E esta a nos levar também a entrega. Completude em cada ação vale muito. Vale além de papéis, de moedas, de plásticos, de tecidos, de borracha... Ser pedaços espalhados acaba por ser remendos de você. Mas onde você está? Por isso, prefiro me entregar.


sexta-feira, outubro 05, 2012

Acordar


Acordar

Dia dorme em teus olhos
e dormes tu, sem acordar
todo mundo adormecido na Luz deste teu Olhar

Um movimento, um novo tempo
um revirar das pálpebras de um sonho limpo

lindo sentimento dormindo bem lá no fundo
ao redor da noite, escuro com estrelas apagadas
e o sono parece querer varar a madrugada

da varanda dos olhos algo desperta
a vista brilha, alerta, com todas as cores cintilantes do esperar
bem diante do abrir dos olhos onde começa o amanhecer e a escuridão acaba

(às 22h07, quinta-feira, 4 de outubro de 2012, Rafael Belo)

quarta-feira, outubro 03, 2012

Miniconto - Sol do Amanhecer

por Rafael Belo

Sentada ela chorava. Nem ela ainda tinha se atentado ao motivo a explodir de sua rasgada alma. Era como se... Se misturasse cada tom de alaranjado pintado lentamente no céu se pondo no sol. Este posto há tempos, dando espaço para a noite e ela chorava. Mas, o pranto derramou-se depois de uma voz constante e profunda ecoar como consciência. Conforme raciocinava sentia um imenso peso oscilar em si.  A voz afirmava: “O único coração inteiro é o coração partido”.  Ela sabia ter ouvido isso de algum filme...

Não fazia sentido ser inteiro e partido, ainda mais porque ela estava sozinha há alguns anos. Ele pensou... E a lua já tinha passado da fase de cheia, mas mesmo assim preenchia o meio da noite. Seu pensamento já chacoalhava por entre as árvores passeando pela quantidade de religiões com o mesmo objetivo e se perguntou por quê A resposta estava ali, guiada pelo vento. Se há tantas árvores diferentes em busca do mesmo objetivo - o Sol – porque haveria de ter uma religião?Cada árvore tem sua necessidade e suas raízes, mesmo o Sol sendo um só.

Nos olhos dela o sol tinha se posto e sua visão estava alaranjada com todos seus tons. Continuar sendo quem era exigia todo o desgaste de manter uma mentira vista por todos. Deitar neste egoísmo já não seria mais confortável. Decidiu não dormir mais em muitas camas e provocar dor em quem for. Não iria mais deixar de se importar. Sua vontade não era mais satisfazer seus próprios desejos. Esta insaciedade não era alimento nenhum, era jogar álcool no incêndio do mundo.

Precisava saciar... Algo mais profundo em si... O vento foi ficando mais forte e as árvores chacoalhavam uma nova harmonia, uma nova música... Um arranjo sonoro gradual a soprar aquele oscilante peso. Mais ao horizonte, novas cores chegavam direto daqueles olhos. Os mesmos em um pranto sem fim já não mais de uma descabida dor desnomeada. Era agora um choro jubiloso. Vinha o amanhecer direto do olhar com novos tons de cores. Ela se levantou e caminhou para cantar junto ás árvores. Foi abrindo os braços e já abraçando um novo tempo a ser uma conexão com a plenitude. As lágrimas iriam cessar.

segunda-feira, outubro 01, 2012

Misturados aos tons alaranjados do pôr-do-sol


Ter fé. Vendo o brilho natural nos olhos das pessoas percebi a vontade de ter em quem acreditar. Ávidas por atenção e por alguém do qual seja possível tocar, conversar e ouvir... Imitar até. Aquela ânsia de estar próximo, esta carência de exemplos a espalhar a desconfiança. Mas, não é uma desconfiança qualquer é um desconfiar confiando com um quê de “e se...” Há uma necessidade latente de completar este espaço tão emaranhado de teias.

Por mais divino ser o humano, há este físico sensorial aflito por algo além da mesmice, existe um sorriso escondido atrás do brilho dos dentes incontidos... Está a carne querendo um semelhante nas falhas, este também sendo divino, este ser de carne e alma no espelho e por onde haja um pensamento. Este deve ser o motivo de tanta contradição, tanto desequilíbrio, tanta expectativa invadindo já fora da pele e da mente incapazes de conter já tanto sentimento exalando...

Então, falar do nosso outro lado, nossos silenciosos pensamentos, nossos ardilosos sentimentos não é mudar é revelar realmente quem é você e quem sou eu. Lá está o medo de ser descoberto, de perder a cobertura do errado, de tentar peneirar toda a velocidade da luz dos raios solares, da própria percepção dos limites entre o poder e a lei. Do seu meio e o da cidade, do meio dos outros e do público. O particular e o público se misturam na navalha viciosa das mídias sociais.

Ficar onde está é como dizer não ter nada mais a ser feito, a vida acabou. É isso mesmo?Os sonhos chegaram ao fim? As conquistas cessaram? Podemos, então, nos misturar aos inúmeros tons alaranjados do sol e nos despedir desta insossa vida planejadíssima por nós, tão inteligentes a ponto de saber a hora de dar um basta, certo? É... Desistir sem tentar o suficiente é bem renovador, é exatamente a forma de mudarmos aqueles detalhes incômodos do qual tanto reclamamos. Estamos a nos pôr?


sexta-feira, setembro 28, 2012

Sombras do entalhe


O detalhe é o entalhe curvado ao vento
no tempo dobrado ao meio ao som dos cales
marcados no devaneio dos males ensaiados
a contento das bases da erosão

anseio da sensação do galanteio errado
pela confusão da mensagem mirada na miragem
da expressão nula, do corpo quieto

passado em branco pelas sombras tocando a luz
pelo olhar atento escondido no discreto
revelado na face no impasse dos detalhes.

(Às 23h17, 28 de setembro de 2012, quinta-feira, Rafael Belo)

quarta-feira, setembro 26, 2012

Miniconto - Erosão dos detalhes


Sua face dizia tanto, seus lábios quanto se mexiam, mas não condiziam com as expressões. Suas mãos pareciam amarradas... Todo o contexto entre os silêncios e a fala parecia perdido entre as palavras costuradas entre uma ferida e outra. Ela estava lá trabalhando a interpretação espiã infiltrada entre o cérebro e a língua, enquanto chovia em uma parte e o sol vinha desértico de outra. Enquanto o mundo vinha desatento trombando em suas falas e suas caras e bocas.

Detalhe é passarem desapercebidos os detalhes. Toda a conversa era incompleta, toda visão deturpada. Toda a riqueza da nossa língua viva e da conversa do corpo eram sumariamente ignorados. Havia um limite bem diante dos olhos oculto e toda informação completa parecia telefone sem fio. Era a aridez de um deserto de atenção. Era como entender apenas 1/3 de cada assunto. Era como enxergar 1/3 do dia pensando ser 3/3. Um rachar da terra na nossa erosão.

Sem água, sem cuidados e sem atenção a erosão se espalhava e toda face rachava e cada máscara despencava. Ela queria entender porque não era entendida, ou melhor, porque era mal entendida e depois tinha de utilizar exemplos. Desenhava e criava uma legenda... E mesmo assim, pouco depois a desatenção voltava. Os detalhes ficavam de lado, a vida ficava de lado. Era essa sua tentativa desde as primeiras linhas: explicar os detalhes.

Mas, a escassez de atenção aos detalhes acabava com vidas todos os dias.  Tornava toda a profundidade um manequim do passado sem vestes para vender sem vitrine para enfeitar. Ela, a entrelinha, ficava solta nas páginas, desentendida nas expressões, flutuando no ar a espera de ser aspirada, no intuito de ser inspiração e a reinventarem como detalhe. Ela gostava de ser um detalhe a mudar tudo, por não ser dita e mesmo assim tanto falar. Porém, ela iria tentar ser ponto final três vezes para garantir ser entendida, mas o grande detalhe é parecer tão reticente...

segunda-feira, setembro 24, 2012

Detalhes na face


por Rafael Belo
Prestar atenção deixou de ser de utilidade pública nestes nossos idos anos. Olhar nos olhos e enxergar os detalhes na face é raridade digna de extinção. Ouvir e distinguir o significado do dito pelo não dito já não é mais captado pelo tom. O corpo nunca falou tão bem quanto agora, mas a surdez de todos os sentidos dessignifica até o silêncio. Não há mais contextos. A ignorância chegou ao seu mais bruto estado novamente e as conversas são ensaios de monólogos ansiosos por terem razão e serem aceitos.

Calar e falar... Tanto faz. A beleza dos significados parece ter se tornado tão insignificante a ponto da eterna dúvida sempre estar no apertar e morder dos lábios, no espremer dos olhos e no erguer das sobrancelhas. Mas, isso não diz nada mais. Os detalhes se profissionalizaram e abandonaram a riqueza popular. Tudo se tornou casca de ovos e desconhecimento. Nada literalmente, claro... Por isso, ontem quando observei cada rosto envelhecido sentado, prestando atenção, tive de sentar e digitar para dividir isso. Ainda há o reconhecimento de todos os tipos de sons e silêncios...

Cada idoso sentado oferecia atenção de uma maneira própria ou forçada pelo avanço da idade. Alguns nem olhavam o orador da noite e estavam cabisbaixos. Outros não tiravam os olhos dele. Uns ainda concordavam, sorriam, se ansiavam, viravam o rosto, tentavam aproximar o ouvido dos lábios de quem falava. Não era dispersos de maneira alguma. A vida lhes deu o diploma da experiência sofrida. As faces marcadas demonstravam suas lutas. Cada sulco, cada ruga, cada olheira trazia uma história pronta a ser contada.

Quando finalmente chegou o momento de interagirem com o orador, mostraram a simplicidade do tempo e o quão pouco é suficiente. Queriam apenas atenção, com isso respeito. Passando a marca dos sessenta são os mesmos. Os mesmos destes seres conhecidos como eu e você. Mesmo com toda essa nossa carência e armaduras enferrujadas, porém, reluzentes. Porque se prestássemos atenção aos nossos próprios sinais e ao nosso redor, poderíamos ser melhores ou pelo menos tentaríamos ser. Assim, me diz se a vida não seria outra.


sexta-feira, setembro 21, 2012

Um minuto atrás


Aquelas palavras embriagaram a alma
e o corpo esticou-se em palma, para o coração bater
sair de suas sucessivas depressivas derrotas, para parar de doer

fazer o verde desviar da rota, dos galhos secos nascer

mas a palavra virou vapor e de tão embriagada choveu

chuva chovida de choverar, enchendo esta garrafa vazia
de um ar incerto, pressionando o embriagado líquido, a estar perto
da água da nostalgia de um minuto atrás

a embriaguez do correto, a bebedeira capaz
de deixar mais sedentos  quem nem sente sede mais.

(Às 22h54, 20 de setembro de 2012, quinta-feira, Rafael Belo)

quarta-feira, setembro 19, 2012

Miniconto - As cinzas da fumaça


Por Rafael Belo
Aquela situação já não enxergava o limite ultrapassado há tempos. O nervosismo e a brutalidade das palavras tomaram uma forma ainda não encarnada antes em ninguém. Foi se transformando aos poucos naquela incontenção e transbordou dela feito obra pública mal estruturada com toda sua qualidade desviada para outros fins... Enfim, ela já não era ela. Ela já era... Seus sentimentos sem sintonia sintonizavam em outras línguas e não era nenhuma inspiração divina o motivo. Um porvir alcoólico desvirginaria aquele sangue não batizado.

Mas, batizar o sangue e marinar os órgãos passariam por um conservar interno só possível depois de juntar os disformes cacos da alma estilhaçada. Podia-se dizer então que era impossível. O álcool a aguardar ela era de uma concentração quase proibida. Até aquele ponto, ela nunca aceitou ingerir nada alcoólico. Sempre recusou - invariavelmente irritada - a oferta dos amigos. Eles a acusavam de não saber viver, especulavam alguma doença e insistiam irritantemente para se lubrificar do entorpe.

E sempre foi assim... Recentemente ela havia perdido todas as suas conquistas, belezas e - como não era Jó – negou sua situação ao máximo até não ter mais suas carências supridas por aqueles homens efêmeros e os massageadores de egos genitários colhidos em locais escolhidos a dedo. Ficou insustentável e julgou Deus por seus problemas. Logo invadia o primeiro bar furreco fechado cometendo dois atos em um só, nunca antes sequer pensados por ela: invadiu e roubou. Quando perdeu as contas não havia mais bebida alcoólica alguma. Seus pedaços estavam tão estilhaçados a ponto de não haver surpresa não ter morrido de coma alcoólico. Era o começo do fim da madrugada.

Nas primeiras horas solares, ela estava em pé, esbravejando. Não teve sucesso em promover seu atropelo. Não era porque os motoristas não queriam livra-se dela, mas porque queriam preservar seus veículos em bom estado. Como ficariam seus planos se houvesse alguma alteração na rota destinada? Indigente e em um mar etílico próprio, exalou mais forte aquele virgem odor para seu corpo, prostrou-se no meio da rua e esperou para sempre um atropelamento digno de sua situação... Chorava cinza e suava fumaça.

segunda-feira, setembro 17, 2012

No meio da rua


Por Rafael Belo
No domingo o almoço costuma ser mais tarde então, antes da 13h, eu ainda faminto, seguia para casa quando vejo um senhor premeditado pelo cheiro alcoólico no ar no meio da Avenida Albert Sabin. O primeiro dia da semana parecia o esquecimento. Os carros desviavam e ele esbravejava como se não fosse um obstáculo, mas a própria rua. A frustração podia ser sentida. Não dava para ter certeza se o efeito do álcool era permanente de quem sobrevive às ruas ou de quem costuma ceder ao vício ou ainda a vontade do entorpecimento. Talvez a certeza fosse a dúvida de como ele terminou por ali.

Podia ser um parente meu ou seu de milésimo ou primeiro grau, um amigo, um conhecido, uma vítima... Mas nossa demagogia nos mantém distante. Ficamos desviando do estender da mão verdadeiro e do abrir do ouvido atento. Quem consome bebida alcoólica ou se reconhece ou deseja nunca o fazer, mas na superfície prefere mesmo ignorar e esquecer antes da próxima esquina. Bem ali no meio da rua podemos até reprimir a situação lastimável, porém se nos colocarmos no lugar, para onde voltaremos?

Quem sabe chegaremos onde está o bom senso. Lá podemos nos perder nesta perdição porque nem ao menos sabemos se o bêbado no meio da rua procura bom senso ou se dirigimos em busca deste. Não reconhecer pode ser o mais aceitável, mesmo se este tal de... For o corpo estranho dentro dos nossos olhos. Quanta dor pode ser entorpecida e por quanto tempo? Esta nossa vontade de ignorar, esquecer, entorpecer... Não pode ser antagônica ao paradoxo do bêbado no meio da rua.

Então, somos este cheiro etílico pairando no ar seco, envoltos a um mormaço angustiante sob o sol incandescente. Quase metáforas irônicas sem sentidos funcionais capazes de entrar em combustão por um pouco de nada. Diante de toda uma semana a percorrer dentro de uma crise identitária, ficamos a mercê de decidir o quão bêbados equilibristas estamos dispostos a ser, bem ali no meio da rua tentando não cair da faixa contínua totalmente em chamas.

sexta-feira, setembro 14, 2012

atados

Plena pequenez ignorada
atada a noite inacabada
pelo dormente fantasma se arrastando pelo vento

serpente silenciosa na escada sibilando o momento
na estrada perdida vestindo nossos descalços pés

até o receber parar de chegar no tempo parado
o tilintar das correntes continuam invocados
pela retribuição do acostamento assombrado

há a chuva do não vem doando a fumaça
pelo impermeável solo - aquém – lado a lado do ato
no tato do desfazer, desato, o ser pelo comando: faça fato!

(às 23h30, quinta-feira, 13 de setembro de 2012, Rafael Belo)

quarta-feira, setembro 12, 2012

Miniconto – Pequenitude


por Rafael Belo
Ele estava preso em suas orgias trabalhistas de horas extras e coberturas. Passava 24 horas recebendo novos trabalhos, novas encomendas e virava as noites se arrastando entre um serviço e outro assombrando seus sonhos com os barulhos de suas correntes, afastando a vida com os sustos de suas ausências. Era tudo para uma vida – esta da qual não participava – ser melhor. Era um receber sem comer direito ou se alimentar demais. Era um receber sem destino, pois, o futuro vinha, ia e no fim não chegava. Ele se consumia feito um canibal capitalista lendo era uma vez...

Leitura esta a beirar a indecência capital no escravizar a um dinheiro a o desejar de tal forma e com tamanha lascívia a deixar o ultraje rigoroso profundamente envergonhado. A imoralidade não custava, recebia. Neste constante receber a prisão uivava por mais, mas era destemperada e ele sabia não ter sentido... A anestesia não permitia quaisquer percepção, sensação e entendimento de toda aquela atuação vívida se desfazendo feita a verdadeira miragem diante dos espelhos. Enfeites do encontrar desencontrado de um despedaçar de um ser não juntado.

E... Aqueles olhos se esvaziavam ao encontrarem seus escuros e obscuros reflexos apáticos em um encarar oco ecoando um vácuo entre um receber e outro. Um despropósito inconsequente de um planejamento arbitrário para uma vida futura, para a ausência presente, para uma negação confusa significando o querer sempre receber. Desconhecendo o distante doar enterrado em algum coração vagando em um deserto de mágoas irreconhecíveis sob um teto de ovos apodrecidos na delicadeza de soltar o verbo correto, desenhar o sorriso da alma, apertar o abraço da sinceridade acolhedora... No haver das entranhas...

Havia um entranhamento visceral tão estranho a ponto dele não existir... Pelo menos ele era invisível fora de suas funções assinadas na carteira de trabalho. Por dentro sua pequenitude sofria o efeito da gravidade em um abismo sem fundo, em uma ilusão encontrada matando a sede na lagoa do oásis. Sobre estas águas alusivas caminhava sua sombra. Um fantasma de si procurando voltar a si...  Ao longe vinha um acolhimento. Eram vários encontros possíveis passíveis do, então, estranhamento. Mas as reações nunca eram medidas ou especuladas e uma arma carregada surgiu diante do armado abraço. Foi um som seco, uma queda sem quique e até ao amanhã as correntes tilintam.

segunda-feira, setembro 10, 2012

Doar ou receber


por Rafael Belo
Neste dia-a-dia capitalista receber é o maior interesse por trás das ações. Receber pelo trabalho, pela atenção, pelo amor, pelo tempo, pelas palavras... Por qualquer movimento dado, por qualquer raciocínio vazio ou elaborado... Ter dinheiro para consumir nos consome. Nos torna ávidos por mais e nos escraviza ao tempo e nos agrilhoa a tanto trabalho a ponto desta corrente nos arrastar feito fantasmas... Assim assombramos a vida doada a nós. Caminhamos sob o sol mais quente sobre a estrada perdida e um céu incerto.

Simultaneamente se simula a mesma ação de suor e lágrimas misturados a um labor muitas vezes sem sabor e nossa vida é um oásis no fim da visão ao nosso alcance, mas sem nosso toque. Como se vivêssemos para ter aquela paisagem, porém sem no fim senti-la porque o fim não existe... É um novo começo, é uma substituição por um compra mais cara. Este sem fim exaustivo nos exaure. Consumidos somos consumo. Consumados somos este desejo nauseante do querer ser pago por tudo para nos recompensarmos...

Por isso, doar hoje é sinônimo de receber algo em troca... Financeiramente, fisicamente... Doar acabou sendo receber. Não é mais raridade. Uma palavra em desuso, um sentimento... É! Um sentimento de não ser o suficiente viver no nosso mundinho de aparências e acúmulos e sem tempo... De meias palavras, deste vazio existencial acachapante... Exatamente deste ser esmagado pelo seu egoísmo solitário achando inconcebível fazer “seja lá...” sem retribuição... É triste nos contentarmos com nossa pequenez diante da imensidão da nossa alma.

Não conseguimos optar pela escolha de refletir sobre nós mesmos e nosso arredor e mais... Como podemos servir para começar uma mudança. É preciso uma intervenção, às vezes, trágica para aprendermos a doar-nos. Doar-nos para alguma causa. Tal ato não causa resultado imediato... Aliás, causa sim. Proporciona uma sensação de participação de um movimento maior, de um elo contínuo de ondas crescentes encharcando esta sequidão em nós, neste uso insubordinado do corpo “em decadência” a alma. E nossa alma manchada necessita de algo de nós: o saber diferenciar doar e receber, para podermos embarcar nos nossos pés descalços e sentir porque viemos em um ônibus quebrado e paramos de vez em uma estrada perdida.

sexta-feira, setembro 07, 2012

Miniconto - Personalidade passageira


por Rafael Belo
Naquela janela ela vivia debruçada. Por esta janela ela assistia o tempo. Pela janela ela era mera paisagem... Pendurada em uma infância sem fim, jogada em uma adolescência sem chegada. A maturidade era uma picuinha à toa sem resultado sem início... De um meio tão parado a ponto de nada parecer. Com os fundamentos em falta e as formas sobrando, tudo parecia ser forma por fora e por dentro. Por isso, então, o raciocínio travava, empacava em um vazio às vezes preenchido por uma personalidade passageira.

Ela tinha um congelamento mental. Portanto, a inação e a falta de encorajamento eram reações normais. Mas, admitir o envelhecimento era inadmissível, era um palavrão imensurável. Era algo tão distante preferível de ficar olhando pela janela... E pela janela a personalidade passava os riscos se esvaiam e nada acontecia, além da angústia, o sentimento de abandono e uma forma abismal de fim a abraçava com força por trás. Um peso sem medidas por fora e outro com toda a gravidade por dentro.

Era um remoer feito rato faminto tentando sair, forçando espaço para escapar de seu fim tão derradeiro, tão próximo a sentir o hálito duvidoso da morte esmagando com mãos afiadas um coração de retalhos. Com aquela bomba de sangue se espalhando pelo corpo com tanta ausência, mais tanta solidão e carência acumulados por desconhecimento de afeto, ao vento se tornar uma paixão avassaladora pelo toque cauteloso e envolvente na pele esquecida. Este era o motivo de ficar ali na janela. Ela esperava um sopro ao menos...

Esta brisa não vinha. Estava tudo seco. Ela secava cada vez mais também. Pela janela debruçada... Sentia um temor de perder até sua personalidade passageira... O tato ainda lhe restara, todos os outros sentidos dormiam. O sono profundo a velava. Nada escutava nada cheirava nada falava nada tinha gosto, mas ela acredita ver – nada via... Não podia ver a madrugada abrindo os olhos da alvorada para ela dissipando cada sombra carregada nas costas, cada sombra grávida no interior... Mas pelo ressoar mudo e a pele arrepiada, ela sonhava outro sonho, além das digitais na viva janela.

quarta-feira, setembro 05, 2012

Pela Janela Viva

Pela janela há dois lados parados
lado a lado com o medo interno disfarçado
de um destemido exterior

pela janela há os olhos olhando serem olhados... Pela janela
tudo passando sem se mexer, sem tocar a juventude da gravidade
tardia idade... Gravidade de envelhecer sem crescer, estática tela

de um tempo branco em branco com as cores concentradas no descolor

é madrugada e parece o amanhecer não vir
mas, na infância longa, se alonga uma tímida luz
pela janela viva aonde um novo dia cintila o pudor do porvir.


(às 18h15, 4 de setembro de 2012, terça-feira, Rafael Belo)

segunda-feira, setembro 03, 2012

Adolescência chega aos 30 sem tocar na juventude


por Rafael Belo
Sair do conforto da situação na qual estamos nem sempre é dar um passo à frente, mas é dar um passo. Caminhar parece ser o terrível medo de nós humanos. Partir do ninho é o segundo passo, o primeiro é conquistar a liberdade materna e paterna. Mas, diante de tanta proteção ou a extrema ausência dela, há o medo das mudanças e sempre é mais cômodo tatear por onde podemos andar cegos sem trombar com os móveis imóveis neste ambiente já conhecido por nós. Ir para o desconhecido é o risco de crescer e hoje a adolescência já chegou aos 30 sem tocar a juventude.

Mas, este congelamento mental é consequência da infância estendida até os 20 e poucos anos. Claro, para os privilegiados a terem quem lhes paparique e superproteja além do prazo de validade. Não há de se pensar muito para ter a garantia das reações a tanta inação, a tanta falta de encorajamento. O tudo posso, tudo quero, tudo tenho, tudo de alguma forma ponho as mãos... Esta insegurança maquiada com segurança nas posses vela uma inveja. A inveja incendiada é o mal real do nosso tempo Neandertal sofrido na ausência de sentidos, na ausência de querer algo além de agilidade e aceleração, menos quando se trata envelhecer...

Não são todos inativos, mas a audição, o tato, o olfato, a visão e o paladar já estão anestesiados com receitas de farmácias paraguaias, o sexto sentido está confuso e o prazer é o único aqui com olhos de Argos, aquele punido por espionar Zeus a ter milhares de olhos para sempre permanecer alerta e vigilante – para resumir. A gula também nos devora. Sempre queremos mais sem limites. Aqui é onde o paradoxo amplia uma ponte longa feita de cordas e tábuas sequenciais e nós damos o primeiro passo sem nos abalarmos pelo balançar constante porque precisamos abrir a janela e passar para fora da nossa caverna.

Porém, os passos seguintes podem ser em linha reta ou ascendentes. Depende da ambição e do orgulho nos preenchendo, depende da raiva, das mágoas e das pedras atiradas porque podemos estar construindo um castelo firme e milenar ou retirando todo nosso alicerce para um vento de boatos e confidências nos ouvidos silenciados. Observar, analisar e raciocinar são algumas das funções do cérebro armazenador – e da visão - de experiências, conector de sentidos, nossa evolução, mas há muito anda cheio de teias de aranhas, areia e alguns até limpinhos, contudo pesados e dependentes de outrem. Enquanto isso, ficamos vivendo picuinhas e indecisões como se ainda estivéssemos aquém da nossa idade cronológica...