quarta-feira, março 23, 2011

Morte e vida nas esquinas


*( Em algum lugar alguém chora em demasia pela ausência de quem partiu na romaria das vidas idas e vindas na correnteza... Captei em um dia de chuva)
por Rafael Belo
Sem nome sem rosto sem voz... É como andar dentro de Vidas Secas de Graciliano Ramos ou em Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto, mas pior porque esta diante de nós o tempo todo. Está nos faróis fechados, nas calçadas, praças e em algum lugar coberto com esperanças de não serem expulsos. Tem cheiro de descaso e abandono, rosto comum, cobertor furado, rasgado, remendado ou um papelão. Está lá fora no frio, mas enganados estamos se fingimos estarem distantes. As pessoas comuns e repletas de histórias estão ali agarradas a fiapos de vida, mas repletas de raspas e restos da morte. Porque a vida é isso: sobrevivência.

Mesmo diante de tantas imagens emanando morte viramos o rosto, tampamos os olhos e os narizes pseudohumanos... Lá no calor matador, na desolação ao bel-prazer da escuridão. Não da dualidade da claridade, isso é coisa de quando a complexidade era sumariamente ignorada para a construção de maquetes humanas de ou é ou não é. Somos ambos e uma bagagem toda de história. Cada pessoa passando fome, morrendo de inanição e de carência é fruta da nossa hipocrisia porque no fim – no meio e no começo - todos somos vítimas e algozes, todos somos causa e consequência, todos somos escolhas...  Mas, de fato somos medrosos! Temos medo de olhar para um ‘morador’ de rua e sentirmos pena e sermos levados pelo impulso de ajudar... Somos covardes!

Envolvida está a morte como em tudo na vida... Vemos um reflexo de como as coisas podem dar errado, de como podemos ser simplesmente mais um no meio de uma multidão apática, apressada e de olho nas horas... E o mundo é um borrão. Não dá para dizer de quando as gerações são ‘malcriadas’, mas se não geramos este mundo, nós somos o borrão desta realidade kafkaniana onde somos completos retirantes Severinos ou um desnome qualquer, acordando cada dia como um gigante inseto diferente explorados pela exploração cultivada no nosso quintal, no nosso coração... Vivemos mentindo para nos entorpecer e não chorar diante da dor de vários mundos...

Mas há a morte e a vida não a tampa com o sol. São ‘Processos’ inacabados, são acusações inexistentes, são chifres demoníacos e confissões... Como em um filme a escuridão nos toma e tentamos permanecer gritando “eu existo”, mas no final tudo que não pertence ao corpo fica. Na calçada ficam as roupas, o cheiro, a lembrança, nossas justificativas e porquês constantes, momentos nos quais olhamos para cima e culpamos Deus ou olhamos para o nada e culpamos Lúcifer e fazemos total questão de esquecer o livre-arbítrio ao lado das fatalidades. Não somos personagens planos criados para um romance moralista, bom, somos humanos caramba...!   

sexta-feira, março 18, 2011

Tempo marcado

*( Te dou uma rosa híbrida, pois é do Amor que vem a Paz, te dou uma raridade não porque é rara uma rosa de duas cores, mas porque é do coração para brotar no seu Jardim... Captei no quintal da minha namorada)





Como antes de ir embora, vou embora uma hora antes de ir
tenho hora marcada com a estrada, mas para enfrentá-la
não para fugir

Já a hora cheia é vaga
pela madrugada inglória sem qualquer história para dormir
ficar e partir são apenas formas de reconhecer a ausência paga
só para existir

Existo independente do fato da minha presença física relativizar
a quantidade indiferente de escuridão e claridade a me fazer quem sou
às vezes não sei rir

Pensar mostra muito de quanto não estou aqui

Logo não é conclusão nem sinônimo de tempo curto
já no entendimento do meu pensamento, eu penso tudo e o passar é um vulto

de uma sombra vindo em minha direção, não tenho direção nenhuma agora

vivo de alguma vontade passageira a voltar depois de ir, como antes porque meu vazio é faminto não importa a marca da hora.

Rafael Belo (às 16h13, Campo Grande, 17 de março de 2011)*

quarta-feira, março 16, 2011

Quem sabe sou você e você sou eu

*( Olhando para o quintal , o jardim selvagem olha de volta para mim e até os espinhos são bonitos...Captei no meu quintal...)



por Rafael Belo
Minha mente canta em reprovação pela manhã rápida. O celular toca isolado e ignorado até perder a música. Esta era a música na mente... Distante de todo este acordar de mais uma semana. Por que tenho raiva dos meus erros repetidos? Aliás, por que não tenho?  Perder tempo... É. É por isso! Agora lembro... Enquanto o teto insiste em continuar a rodar, essas lembranças vagas vão virando esta minha memória de ontem até se perderem, olharem para um relógio antigo e desnecessário para decidir não se ‘atrasar’ hoje. Enquanto ainda não têm trânsito e a pressa enrola o desejo de ficar em casa, os motoristas estão pedestres.

Eu estou quarta-feira, não porque seja quarta-feira... Às vezes parecem os objetivos distantes e algo sem sentido transforma-se em rotina... Não é depressão é apenas um momento vazio se arrastando no incerto, mas só vejo o certo à minha frente e ele é tão enfadonho, sem ritmo, sem som, sem gosto... Interação é preciso viver não! Lá fora ainda chove e eu mofando aqui dentro neste corpo parado, catatônico diante das oportunidades. Mecanicamente me levanto para trabalhar e já sei a programação a fazer, todo dia o dia todo... A imagem refletida me olha tão irreconhecível ao meu olhar para ela. Não estou mais presente... Quero saber onde estou?!

Em algumas gotas desta inundação celeste quem sabe. Achava desconhecer o tédio... Na verdade ele é tudo que conheço. Meu suicídio diário resulta em quê, afinal?! Em mais mortes... Qual a diferença de matar a imperfeição da sociedade se ela é a imperfeição?! Apertar o gatilho de novo e de novo e de novo é o meu clichê desta dor surda em meu peito. Assim, simplesmente morro vazio sem alma só um exterminador barato... Sem fôlego para dar um basta ao mundo medíocre de um ser medíocre feito eu... Não importa ter de matar a escória da escória, sempre surge coisa pior...

Creio que o pior sou eu... Não pense na radiografia da minha consciência humana, eu não a possuo... Matar mostra a simples fragilidade da vida... Uma hora você está no celular e na outra não existe mais. Já tive de matar pessoas relativamente inocentes, mas matei porque viver ou morrer não tem tanta distância assim... É a mesma coisa... Como se morre e como se vive também são irrelevantes... Conta o meio de tudo isso e já que o inferno é aqui... Vou atrás de você com este sorrisinho imbecil e conflituoso na boca... Já tive minha conversa com muitos diabos pobres só de alma, mas sei da espreita do verdadeiro da Razão daquele a punir o pecador e a amá-lo pelo pecado por construir sua casa, estamos no território dele.  Aqui é o inferno, o resto é purgatório. Creio este ser meu último momento consciente, minha loucura já me toma. Adeus! Sou coisa e lugar nenhum... Quem sabe você!

quinta-feira, março 10, 2011

Mau Comportamento


*(Chuva traz os contrastes da vidas atrás dos olhos da nostalgia da renovação do descanso - captei dia 5, sábado de carnaval)
 
Chuva dolorida colore de vermelho o céu
e o céu da minha boca aguenta a dor de falar
e de calar a limpeza ensurdecedora do atrito da máquina
com os dentes sangrando a sátira da pancada no rosto do silêncio
salgado e amargo na boca desgostosa, mas doer mesmo só depois

Um eco maldito reverberando de uma surra inexistente
Nada aconteceu, nada foi dito, ninguém perdeu os dentes...
Mas os sisos já não existem mais, a boca foi violentada pelo pudor da ação
O juízo nem sequer nasce nem se arranca é um mito odontológico
Do vento demasiado, da chuva torrencial, do lógico da lógica do tempo, da briga por espaço  limitado,
pelo nosso mau comportamento.

Às 13h38 (Rafael Belo) 10 de março de 2010.

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Fantasmas de dias ao sol


(*Em meio as nuvens, está o astro exuberante, a luz viva dia e noite, eu, você, eles e nós esperando a mente desanuviar... Captei na quinta (24) )

Por Rafael Belo
O sexto sentido. Aquele filme com o Bruce Willis. Estas pessoas pareciam ele. Bem, não ele propriamente dito, mas seu personagem naquele filme. Todas pensavam estarem vivas. Todas elas. Mas, eram o mero retrato cotidiano de quando vivas... Eram fantasmas... E já passava uma centena de dias desde a última vez... Onde estavam os vivos? Enclausurado na própria rotina, sobre o domínio do deus dinheiro e seu vassalo superior, o tempo...  É fácil dizer: I see dead people... Porque, pensando sob este sol desértico avassalador, qualquer um alucina e diz ver pessoas mortas ao reencontrar com quem conviveu há centenas de anos.

Sério! Com o cérebro já cozido devido ao sol constantemente estar ao meio-dia, não é difícil sumir da vida das pessoas e parecer um fantasma assombrando o mundo em busca do pão do dia e pensar na massa assada para nos alimentar no dia seguinte, no dia seguinte...  Um dia por vez... Assim, deveria ser, mas queremos viver todos os dias ao mesmo tempo... Somos alucinados comedores de açúcar, tomadores de café, sugadores de olhos fundos e olheiras protuberantes, submissos dos goles de coca-cola e da rede Globo, ‘difundidores‘ das conversas do enésimo reality show ... Tão vazios de tantas cheias...

Mas, voltando às pessoas de dez mil anos atrás - àquelas que nos conheceram mais sonhadores – faz bem manter contato, mas ver e ouvir presencialmente é bem melhor. Então, assim por mera força da mudada de lugar ao esperar minha namorada, que comecei a voltar a me deparar com conhecidos e amizades de – ok, não tenho dez mil anos – quatro e cinco anos passados. Aquela velha sensação deste tempo (de seja lá qual for a profundidade da relação) não ter passado, daquele conversa inacabada estar terminando agora como se o espaço de voltar a ver aquele ser não tivesse sido um abismal buraco negro e sim um salto do meio fio, é realmente palpável e agradável.

Vontade forte mesmo, depois de um upload, uma atualização básica sem banalidades de amigos do passado, presente e futuro, é sair ligando e marcando um deja vù com todos e matar àquela saudade que às vezes, corridos atropelados e mau-humorados fingimos não ter. Dar um mero bestial: Oi! Lembra de mim! Ou simplesmente sair tagarelando sobre uma coisa qualquer fortalecendo o melhor remédio da vida chamado Amizade, um Amor com cores específicas sem ser meramente colorido, por que este, a cores, acontece poucas vezes na vida e corre o risco de terminar ou se transformar em outro sentimento, mas tanto em um quanto em outro, cabe somente a nós saber crescer com esta emoção sentida apenas por nós: humanos.

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

Verso por Verso, Uni

(* na parede da redação o caminho chama atenção para seus obstáculos de onde ergueremos nossas próprias fortalezas com nossos caminhos, esta é a passagem... captei na redação apoiado na minha atual leitura - 24.02.11)



Meu corpo está sedento e faminto feito um menino assustado
encarcerado pelo grito perdido nos corredores fechados da mente

Senhor! Tem um livro aí? Só um livrinho para me libertar...
Não quero esta moeda ou este mantimento... Minha alma precisa se alimentar

Meu estômago ruge, minha boca é seca, mas só me alimento de palavras de fomento
esta é a fome incalculável e insaciável, me traga livros para comerem minha prisão de carne

Um naco de pão, um toldo de circo, mas só me dignifico se puder virar páginas, disso sou faminto

Horizontes não têm fim, crepúsculos e alvoradas são espetáculos atemporais...  Ah e minha mente não para de trabalhar e imaginar

Uma chuva de livros - pelo amor de Deus! De fome e sede posso me libertar...
Dêem-me universos variados de uma vez, e destemido, serei verso por verso a
Inclusão.

(13h30, Rafael Belo, 24 de fevereiro de 2011).

terça-feira, fevereiro 22, 2011

Atenção àquele Desnome temporário

(* Mesmo perdido no solo concreto do fragmento urbano, o verde desponta ao nublado céu entre fios e falas - captei dia 17.02.2011 )


Rafael Belo
Estava tudo silencioso como a hora fatídica na qual até a madrugada adormece. Nem os insetos faziam um zumbido sequer, muito menos os cachorros ladravam ou os gatos regojizavam um sexo de telhado e estávamos em uma maldita capital brasileira... Destas insônes, irrefreáveis com a cara do purgatório sem localização geográfica, mas ainda sim uma cidade cheia de jovens verdadeiros e falsos tentando aproveitar a capacidade de não dormir, onde há o inferno de um bar noturno com música ao vivo até o dia raiar bem ao lado do seu quarto já iluminado pela poluição visual das publicidades.

Paraíso era dormir tranquilo e sem acordar nenhuma vez, até o corpo e a mente descansarem completos. Será toda esta ausência de som o anúncio da morte? Ou seria o disfarçar do inferno espreitando meus pés com sua atraente beleza de pecados e libertinagens? Estarei sonhando... Não! Não tive um sonho sequer com estes olhos fechados e esta memória de elefante! Onde estão os bêbados incômodos tentando pilotar a mortal arma sobre quatro - ou duas – rodas nesta terra de poder político e descompasso? Chega de ficar perguntando perguntas geradoras de novos questionamentos... Vou sair!

Meu relógio não está em meu pulso nem em lugar algum. Os mostradores de horas não contam mais o tempo e se o fazem não querem me dizer...  Não vou me preocupar, sempre gostei do silêncio, também cheguei à conclusão deste ser meu único sonho, portanto, é a resposta para as questões não mais feitas... Estou sonhado. Há pouco vi espelhos sem meu reflexo e através deles estava dormindo em um lugar repleto de flores e velas, mas a luz elétrica... Não está mais nas tomadas e interruptores. Vejo vultos de luzes cegantes em pontos variados - como se isso fosse possível - e escuto uma cristalina voz na minha mente dizer para eu esperar... Espere! Ainda precisa redescobrir seu nome...

Eu sei quem sou... Só não consigo lembrar... Experimento ouvir as vozes ao meu redor nos espelhos onde ainda vejo meu corpo inerte. Sei dizerem meu nome a todo momento, mas é um burburinho incessante que chega a mim, como um mundo de orações mentais misturadas as falas... Devo ter enlouquecido e o hospício é meu corpo onde o meu desconhecimento sobre o ocorrido – porque algo aconteceu e é fato – se transforma nas amarras desta camisa de força presa ao invisível. O silêncio é tudo, mas não tenho as sensações dos diversos sentidos para poder me dar ao luxo de sentir esta estranheza em mim mais profundamente. 

Por enquanto, esta é a minha única forma de comunicação, por meio de sonhos desconexos a me consumir em algum lugar de mim mesmo... Contactando minha imagem aos sonhos de quem já entrou em contato comigo. Parece uma preparação... Logo volto a entrar em contado,

Atenciosamente,
Àquele Desnome temporário.

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

Moinhos dos nossos ventos


*( e o vento sopra nossas estruturas de hélices para nós motivar a imitá-lo - captei hoje, 17.02.11)
 
Rafael Belo
Este nosso mundo é realmente um moinho... De vento, elétrico e condensado no tal do futuro incerto. Não adianta ficarmos julgando as pessoas porque a bem da verdade toda história tem três lados feito as pirâmides regojizantes do Egito. Há toda uma bagagem cheia ou parcialmente vazia a induzir cada indivíduo a uma conclusão diante de certos acontecimentos por vezes duvidosos. Nós temos uma visão de Saddam Hussein, os árabes vestem outra... Nós temos nossa opinião sobre sentenças da Justiça, alguns querem a punição do criminoso com a morte outros apenas o pagamento dos crimes conforme manda a Lei. A morte não me parece expiar os pecados da carne...

Neste planeta que consumimos vorazmente dia após dia, a divulgação dos eventos locais e globais aparece em todos os tipos de comunicação social com um crivo parcial de seja lá o quer for, mas mesmo assim muitos instruídos levam aquela única fonte tão a sério a esta ser evocada como o fazer do Verbo. Imparcialidade não existe é apenas uma maneira de se envolver o mínimo possível com o acontecido, é tentar repassar o seu ‘diante dos olhos e ouvidos’. Não há como se despir de quem é para mecanizar algo qualquer ou um alguém notório porque o deus da mídia hoje é o demônio da mídia de amanhã.

Nem precisa procurar para ver as diferenças de opiniões. Diferentes e não certas ou erradas. Vestir os olhos alheios e olhos de terceiros pode não ser fácil, mas para entender o máximo possível de uma situação é preciso. Não importa se concordamos ou discordamos dos nossos colegas de trabalho, amigos, pais, namoradas... Há pessoas irredutíveis esperando uma queda para talvez compreender outras formas de lidar com seus problemas. Ser uma ilha em um mundo segmentado de arquipélagos - sem sequer um continente - é a desfragmentação total da fragmentação social de uma sociedade no fundo frustrada por seus próprios fracassos egocêntricos.

Mas tirando o amargo da língua, o sabor do nosso mundo de moinhos é condensado na nossa forma de enxergá-lo e é evidente a existência de ilhas repleta de pontes para outras ilhas mais paradisíacas do que a nossa vã ignorância apregoava. Não precisamos esconder quem somos ou quem são os nossos... Nosso fardo é este, leve, pesado ou compartilhado, nenhum esconderijo é bom o bastante para esquecermos nossos pedaços e seguirmos em falta com nós mesmos por aí. Podemos deixar a praia deserta da solidão intocada pela humanidade ser povoada ao menos aos fins de semana e seguir um futuro certo de nossos passos.

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Esconderijos verbais


*( As ondas invadem as praias e nos dão a sensação de sempre 'irmos e virmos' - captei na Praia da Daniela em SC)

Dito não dito desdito, palavras traçadas atrás das moitas
em um sexo selvagem entre vogais desconexas, absortas
na vontade de crescer e apoderar-se de poder, hipocrisar-se
com a hipocrisia de se vender para comprar-se, morto-vivo
variando em um mundo de espelhos, onde os banheiros são públicos
lúdicos das calçadas sanitárias com dejetos jogados nas caras boquiabertas

Do abraça-me carente do ranger dos dentes variados pela loucura
de subir no muro para entreter a luxúria de estar perdido no inferno particular
verborrágico de blábláblás sem fins com consoantes conjugadas em qualquer julgamento
de martelo ereto para desperdiçar as falas em ouvidos encerados no descer da construção de frases esquecidas na pessoas escondidas dos textos mal-encarados da interpretação nos esconderijos verbais.


Às 12h53, (Rafael Belo) 14 de fevereiro de 2011. 

terça-feira, fevereiro 08, 2011

O Demônio da mente vasculha a cidade

*( Bom deve ser nascer como o sol: Percorrer o céu de ponta a ponta, ser brilhante e necessário) Captei o Alvorecer na serra rumo à Floripa...


por Rafael Belo
Não havia como saber. Ela era silenciosa e penetrante. Mas, nada dizia e fazia mistério total do seu pensar. Sorria com o domar do mundo no olhar e caminhava leve em parceria com o vento. Parecia não existir sequer a palavra problema ao redor daqueles ruivos cabelos encaracolados a preencher seus ombros curtos e busto farto. Seu rosto tinha uma leve cicatriz quase imperceptível. Não ficava escondida. Na verdade, ela parecia ostentar a marca como lembranças de batalhas feitas para não se esquecer. Nunca foi vista em academias, porém, tinha pernas torneadas, não musculosas, mas pertencentes a alguém praticante de atividades físicas, ainda mais com os glúteos tão empinados.

Sua voz era uma imaginação carnal para as pessoas apaixonadas por aquela mulher interrogação fruto do desconhecido. De onde veio? Parecia haver tanto poder naquele 1,70m e olhos profundamente mel... Muitos a seguiam até se darem conta de estarem sós. Não conseguiam fixar nome ou apelido para aquela paisagem natural perseguidora do sol. Sim, porque como um girassol ela aparecia no raiar do dia e sumia ao último carinho solar direto. Mesmo com tantas qualidades, havia um fel naquela mulher de idade indefinida e ao mesmo tempo tão jovial... Tanto a chegar a provocar calafrios.

Era uma lenda urbana, uma histeria coletiva... Era um silêncio desconfortável e devorador se propagando na cidade. Talvez ela fosse uma devoradora canibal... Quem sabe uma lembrança reprimida deste lugar abandonado por anjos e demônios, por nós... O grande problema... Bem ultimamente ela aparecia pouco e muitos desapareciam. Ultimamente todos negavam já a terem visto. Nestes últimos dias a cidade também vem se calando em seu âmago como se preparasse para uma fuga inevitável. Como se... Como se aquela imagem de Eva urbana, mundana estivesse comendo uma maça e nós fôssemos esta fruta.

Havia como dizer: “O Paraíso foi expulso de nós”. Aqueles panos esvoaçantes sem data naquele corpo sem idade devia ser a beleza sagaz perdida ou simplesmente expurgada de nós como um bom demônio endemoniado por crenças antigas, por livros montados, por superstições engavetas que no final é um mero mortal com o angelical e demoníaco se equilibrando por dentro em consciência coletiva irregular no inconsciente subjetivo de interpretar o presente certo de acabar sendo passado pelo futuro seja qual for a imagem da sua mente ou da mente do mundo.

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Entre o não dito


(*O que há na tela fantasma da televisão - captei há dias na sala da minha namorada)

Respira o dia minha respiração sem muitos movimentos
na medida da tranquilidade do silêncio de uma manhã não iniciada
ainda antes dos primeiros raios solares, a expectativa do sol renascer
ainda antes do abrir preguiçoso dos olhos, os resquícios da noite em sonhos
sem ao menos espreguiçar, tudo se estica no bocejo começado

Farfalhar quieto da cama irrequieta, passos não dados na casa indesperta
sons iniciais da rua ainda fresca, mudez insone dos dormentes do dia
nada muito alerta além de um arrastar indesejoso  no indecoro da possibilidade de dormir mais
mente vazia, barriga roncando, minha respiração sem muitos movimentos respira a manhã igual
qual será o calendário adequado do organismo quadrado depois de tanta luz artificial?Quem esta dormindo, afinal?

12h33 (Rafael Belo) 04 de fevereiro de 2011.

terça-feira, fevereiro 01, 2011

Passagens da Vida sem sombra do Tempo

(*Captei entre Sidrolândia e Campo Grande - crepúsculos nos fazem tempos imprecisos passando em contemplação pelas nossas estradas)
 
por Rafael Belo
Sempre se reclama do Tempo e das poucas horas ou da longa espera, mas este Senhor tão antigo tem-me feito melhor. Com o passar dos dias as lembranças deveriam ficar mais distantes, os laços mais enfraquecidos, mas é ao contrário... As memórias estão ficando mais próximas, os elos mais fortes e o Amor cada vez mais incondicional. Tenho me dado bem com os relógios e cada minuto tem sido meu amigo íntimo e confessional. Há um acordo velado e silencioso entre nós onde sempre que passível - e possível - no adaptamos para seguir e fazer o ‘ter de ser feito’.

Não precisamos ser inimigos do Tempo nem correr contra o tempo – o tempo todo. Nossa relação - a minha e dos ponteiros imaginários do movimento solar – é como a relação do queijo e seus buracos: quanto mais menos – sabem, quanto mais buraco menos queijo, então quanto mais queijo menos queijo – deu vontade de comer um queijinho caipira agora... É uma matemática louca, onde quanto mais horas livres temos, mas as ocupamos. Então, é preciso voltar a terceira linha deste parágrafo para retomar o movimento secundário que leva os segundos a virarem minutos e me leva a disputar cada milésimo do movimento do sol com a agilidade dos meus pés.

Nosso Mano Velho, tem mostrado as façanhas de seu irmão gêmeo, O Amor. Assim, amo cada vez mais. Tornei-me petulante o bastante para sentir saber cada vez mais estar com a presença do Amor em mim e ao meu redor. Não há como ser indiferente ao tempo que não para de passar e nos mudar de árvores só para ver nosso verde madurar cair e voltar a fazer o ciclo criando novas raízes e fortalecendo antigas, nos transformando em árvores com posições diferentes, folhas mais reluzentes, flores mais exuberantes, frutos mais suculentos e quem sabe sementes mais sadias.

Eu sempre acreditei no Tempo e no Amor, mas tinha minhas dúvidas se tais irmãos atemporais praticamente idênticos tinham a mesma crença em mim. Deixei de duvidar há uns bons meses. Desde então, venho cantando com o Patu Fu, “Tempo, tempo, mano velho falta um tanto ainda eu sei, pra você correr macio... Tempo, tempo, tempo mano velho, Tempo, tempo, tempo mano velho, Vai, vai, vai, vai, vai, vai, Tempo amigo seja legal, Conto contigo pela madrugada, Só me derrube no final... Cantar faz o tempo ficar menos sério, mas maleável e totalmente voltado para as passagens da Vida.