terça-feira, junho 14, 2011

O Aroma da Alma

(*No quintal de cada mundo tem uma rosa amarelada esperando para voltar a sua brancura...' Captei em casa da rosa que plantei)



Rafael Belo

Parar de escrever é um exercício doentio de fazer mal a si mesmo. Pelo menos para este que vos escreve é como amputar parte da alma e a desperdiçar em um abismo raso. Não foi uma parada intencional sadomasoquista. Porque dói não escrever. É como se rumos, destinos e caminhos fossem meras palavras arremessadas pelo pára-brisa de um motorista suicida. Escrever não é parte de mim, sou eu. Sem tecer as palavras em uma trama em branco o mundo se movimenta estranho como se eu não fizesse parte de qualquer rotação ou translação e o sol fosse mero reflexo do início da escuridão.

É uma autonegação batendo em um vazio no peito apaixonado. Aquela sensação de deveria escrever deveria registrar deveria criar toma conta feito uma possessão total. Morre a escrita e a alma parece estar de luto em um corpo putrefato de Lázaro... Ressuscitado não quatro dias depois, mas quase quatro semanas completas passadas. A Alma vive de Amor e de ações, mas não basta ter Este sentimento magnífico e em eterna evolução se Ele não for compartilhado de todas as formas únicas captadas por meio da mente ou é mera anestesia insuficiente.

Parar... Simplesmente rasgar folhas em branco e deletar arquivos intactos é se jogar em um limbo shakespeariano do ser ou não ser, esmagando o próprio crânio aparentemente silenciado com uma expiração interminável. Escrever é ter esperança e dar formas a poesia da vida contida na incontinência arbitrária da pluralidade das dimensões da visão com a Alma pesando o olhar leve pelo coração inspirado espelhando um sopro do mundo. A paz interior, então, víscera pela pele sorrindo pacífica para as impaciências...

Uma flor amarelada volta a ser branca e suas imperfeições e eminências à morte parecem uma intermitência reveladora de uma aroma não cheirado. Nesta suspensão momentânea fica clara a importância do sol ter seu alvorecer e seu crepúsculo, enquanto o universo pulsa as mudanças constantes do escrito nas estrelas porque nada pára realmente. Há um movimento de descoberta encoberto pelo fechar dos olhos e atar das mãos, mas retomado pelos outros sentidos no momento do nosso voltar a sentir nosso próprio aroma e ouvir os dizeres do coração.

terça-feira, maio 17, 2011

Tu é meu Lar

*( O Céu ilimitado é o limite do Universo de Dois ... Céu de CG captado para a poesia)


Lágrimas noturnas entregam meu leito
em teus fios dourados a me aquecerem

São gotas escorrendo da Alma
todo Oceano Infinito da desproporção
de nos Amarmos, gotejando até o embargar da voz


É um choro praiano da ressaca
dos olhos brilhantes escorregando
a corrente dos membros
para outro arrastar

Clara demonstração do não voltar para casa
ser igual a retornar no Tempo em outro corpo

onde o troco da revolta se desfaz e o coração é mais

É Tua Morada e Tu és meu Lar.

(Rafael Belo)

Às 23h58,11 de maio de 2011.

quarta-feira, maio 11, 2011

Vida da confusão entre sono e sonhos


*(O Louva-a-Deus observa atento da mesa do mundo quem serão os louvadores... Catei na sala da Uems CG)

 

Por Rafael Belo

É cômodo como nos deixamos levar pelo silêncio quando deveríamos falar e pela clausura quando deveríamos aproveitar a liberdade da vida. É como se desistíssemos e um fardo nos vestisse e resultasse sono pescador... Aquele sentimento alienígena toma conta e olhamos em volta querendo saber onde está nosso lar, onde estamos... Sabemos bem a resposta... Não estamos aqui. Pelo menos a maior parte do tempo, nos sentimos deslocados como se estivéssemos evoluído, mas não acompanhamos nossa própria evolução. Uma balança da nossa própria Justiça...

De fato é difícil acompanhar o desprendimento incondicional do coração. A mente não entende - nem tenta entender – e o corpo só tenta ser o receptáculo de toda a expansão incabível tão complicada por nós, meros obstáculos de nós mesmos. Pressionamos um dedo vazio da nossa visão de divindade em nosso peito misturando compressão e vazio e nos deixarmos ser abatidos – mesmo que por um segundo – por uma apatia de caminho errado, de escolha torta porque todo o ideal é uma previsão de respostas confortáveis e cada verdade uma crença de cabresto e anteolhos.

Viver destas ilusões é a desilusão. O sonho real, o toque preciso são aquelas pessoas passadas, presentes e estas que mesmo ausentes continuam no nosso tempo, não importa em qual tempo estejamos. Sentar no fundo da nossa mente e lamentar, seja lá o motivo da lamentação, seja lá o fato do bloqueio de ser quem és, é o desejo mais íntimo do nosso demônio interno. É preciso coragem para o medo ser apenas um impulso nestes sequenciais passos da vida. Todos têm medo do isolamento, da próxima etapa, de assumir não ser mais jovem – nem menos – e continuamos a viver como adolescentes mal-humorados.

Não importa a profundidade de nossa perda, o abismo do nosso descaminho nem a queda do nosso pedestal de vidro... Merdas acontecem é uma ótima expressão para muitos acontecimentos, mais daí a chafurdar nela é uma história completamente diferente. Por isso, reconhecer os inúmeros problemas no nosso pacote diário é se libertar de si mesmo e juntar os fragmentos de identidade aplicados a cada espaço-tempo dos nossos deslocamentos, mas o mais importante é não deixar o sono se disfarçar de sonho e nos fazer dormir por toda a estada da existência.

quinta-feira, abril 28, 2011

Reticências de um bando sem vírgulas

*( o que é o céu de dimensões vítreas, senão a única visão do nosso olhar noturno... captei esperando no carro)

Uma ligação começa a noite no deslocamento de espaço
então há o limbo da madrugada e o tempo se desliga
outro lugar nos espera fora deste incômodo presente de ausência
qualquer hora nos olha como se passássemos e sequer mudamos

ah, estação atrasada batendo na janela feito ônibus na rua solitária
tremem os vidros e ninguém entra, as folhas conversam lá fora
farfalham feito frenesis faceiras fitando fortes falácias fugazes

Falso silêncio dos pelos crescendo como mato na chuva infindável

E na verdade o frio sol domina todo um meio-dia imaginado
no centro da tecnologia de uma multidão de pensamentos desencontrados

(Rafael Belo) 23h38, 27 de abril de 2011.

sexta-feira, abril 15, 2011

Depois do jantar


(* Em meio ao verde a beleza se distrai e o menor de nós se destaca por meio da nossa janela ... Captei no sítio do meu cunhado)


E a descoberta é a redescoberta de um exército de mim mesmo pronto para as batalhas pelos sorrisos e os corações repletos de causas perdidas a moverem moinhos ventando montanhas para onde soprarmos nossas mentes leves extensas pelo infinito nos arrepios dos sons tocados
pelas nossas falhas de não conseguirmos apenas observar a queda da semente

Por aquela flor de pétalas róseas e ligeiramente devoradas pela ânsia nossa de inspirar
o mundo de respiração presa pelo suspiro de nós polinizadores de pedras e espinhos

admiradores de tantas peles diversas no molde do nosso olhar colonizado pela borboleta
de uma futura flor morta ainda viva pelo contexto da paisagem adormecida em nossos corações apressados

apertados por um não se sabe sentimento de esquecimento do olhar pela janela
a deixar todos os dragões e duelos adentrarem para depois do jantar.

(Rafael Belo)
14h10
14/04/11.



quinta-feira, abril 14, 2011

Horizonte do olhar

(* 'Os horizontes estão em cada parte, mas toda sua origem nasce no nosso olhar... (RB)' ...Captei no sítio dos sogros)


A primeira vez sempre retorna inédita como a média do melhor
já acontecido feito a novidade mais esperada, a antiga, a memória não imaginada de cor
paisagens se materializam em ‘ós’ sem sós na junção de nós dois
feito luzes intensas sob qualquer escuridão na maré
nos arrastando no vai e vem da vida em pleno ar de possibilidades
e toda respiração é um inspiração efervescendo nossos sonhos em frescores

De repente é riso e conforto no meio da estrada sem mapa
é a aventura constante do Amor querendo repetir a sensação dos sabores
únicos de toda vez, e quando achar ser impossível extrapolar, então o impossível é um ponto que ficou para trás, longe dos nossos horizontes no olhar.

(Rafael Belo)
13h35
14/04/11.


quinta-feira, março 31, 2011

O fim de Ninguém é o fim ou é contradição?

*( No calor o branco é frio como a neve interior daqueles que nunca mudaram de estação.... Captei na sala onde 'relaxo' após o almoço no serviço dia 31.03.2011)


Por Rafael Belo
Mais um dia a menos na vida arrastada de Ninguém Sem Sobrenome. Ninguém tinha acordado ao meio-dia e olhava atravessado da cama sua ausência de vontade passear sob um sol carioca-cuiabano em plena zona temperada. Deveria ser menos quente pensou, mas também deveria ter ido trabalhar todos os setes dias passados e repassados na bagunça da sua casa herdada. Quem se importa afinal? Ele estava ansioso para ser mandado embora ou ser preso ou até morto... Mas, não era assim que todos viviam... Mortos?!  Presos!? Escorraçados!? Basta ser um pouco atento para responder positivamente...

Como o mundo, as pessoas e as religiões ele era hipócrita, bom é hipócrita... Nunca trabalhou ou estudou, mas roubar, matar e estuprar era o mesmo de dormir, comer e suprir suas necessidades. Tudo contido em seu vasto conhecimento era sobrevivência. Não recorda de um rosto amigável na sua infância ou adolescência e uma mão estendida era para machucar. Suas cicatrizes da rua são seu orgulho e medalhas. Não entendeu e ainda está desconfiado desta casa herdada há oito dias... Ameaçaram aleijá-lo de várias maneiras se não assinasse aquele papel que inacreditavelmente continha ao seu nome – sim ele sabe ler.
 
Toda equipada. Assim era a casa de Ninguém. Tinha tudo Sem Sobrenome. Ninguém deveria ser dono de tudo mesmo, não só desta casa. Um sentimento estranho o invadiu no dia seguinte da ‘herança’ e fez barricadas em todas as portas e janelas do lugar e desde então voltou a não saber ‘o que fazer’. Olha para o teto e sua feito garrafa de água gelada no asfalto ao meio-dia. O lugar é completamente branco sem nenhuma cor diferente ou sujeira – agora há Ninguém. Não parece haver qualquer memória neste lugar nenhum. Mas, há um buraco do tamanho de um dedo no teto. Ninguém consegue parar de olhar...

Seu rosto inexpressivo está vazio nos sopros de um deserto esquecido. Suas mãos são chumbo acopladas a braços de aço enferrujado, seus pés são concretos terminando o prolongamento de pernas feitas de um bronze empobrecido. É tudo tão pesado que Ninguém parece ter levado uma surra daqueles de ficar mortos por minutos e depois voltar. Se conseguisse levantar um dedo sequer poderia ter menos um dia a mais na vida arrastada... Mas o pequeno buraco dedal mastiga sua alma lentamente. Sua mente sem referência entende bem mau o bem e mau bem o mal ou teria invocado alguma prece ou conjurado um maldição. Ao invés disso vê calado seu corpo ficar em um quarto de nenhum lugar enquanto o sol carioca-cuiabano continua ao meio-dia.

quarta-feira, março 23, 2011

Morte e vida nas esquinas


*( Em algum lugar alguém chora em demasia pela ausência de quem partiu na romaria das vidas idas e vindas na correnteza... Captei em um dia de chuva)
por Rafael Belo
Sem nome sem rosto sem voz... É como andar dentro de Vidas Secas de Graciliano Ramos ou em Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto, mas pior porque esta diante de nós o tempo todo. Está nos faróis fechados, nas calçadas, praças e em algum lugar coberto com esperanças de não serem expulsos. Tem cheiro de descaso e abandono, rosto comum, cobertor furado, rasgado, remendado ou um papelão. Está lá fora no frio, mas enganados estamos se fingimos estarem distantes. As pessoas comuns e repletas de histórias estão ali agarradas a fiapos de vida, mas repletas de raspas e restos da morte. Porque a vida é isso: sobrevivência.

Mesmo diante de tantas imagens emanando morte viramos o rosto, tampamos os olhos e os narizes pseudohumanos... Lá no calor matador, na desolação ao bel-prazer da escuridão. Não da dualidade da claridade, isso é coisa de quando a complexidade era sumariamente ignorada para a construção de maquetes humanas de ou é ou não é. Somos ambos e uma bagagem toda de história. Cada pessoa passando fome, morrendo de inanição e de carência é fruta da nossa hipocrisia porque no fim – no meio e no começo - todos somos vítimas e algozes, todos somos causa e consequência, todos somos escolhas...  Mas, de fato somos medrosos! Temos medo de olhar para um ‘morador’ de rua e sentirmos pena e sermos levados pelo impulso de ajudar... Somos covardes!

Envolvida está a morte como em tudo na vida... Vemos um reflexo de como as coisas podem dar errado, de como podemos ser simplesmente mais um no meio de uma multidão apática, apressada e de olho nas horas... E o mundo é um borrão. Não dá para dizer de quando as gerações são ‘malcriadas’, mas se não geramos este mundo, nós somos o borrão desta realidade kafkaniana onde somos completos retirantes Severinos ou um desnome qualquer, acordando cada dia como um gigante inseto diferente explorados pela exploração cultivada no nosso quintal, no nosso coração... Vivemos mentindo para nos entorpecer e não chorar diante da dor de vários mundos...

Mas há a morte e a vida não a tampa com o sol. São ‘Processos’ inacabados, são acusações inexistentes, são chifres demoníacos e confissões... Como em um filme a escuridão nos toma e tentamos permanecer gritando “eu existo”, mas no final tudo que não pertence ao corpo fica. Na calçada ficam as roupas, o cheiro, a lembrança, nossas justificativas e porquês constantes, momentos nos quais olhamos para cima e culpamos Deus ou olhamos para o nada e culpamos Lúcifer e fazemos total questão de esquecer o livre-arbítrio ao lado das fatalidades. Não somos personagens planos criados para um romance moralista, bom, somos humanos caramba...!   

sexta-feira, março 18, 2011

Tempo marcado

*( Te dou uma rosa híbrida, pois é do Amor que vem a Paz, te dou uma raridade não porque é rara uma rosa de duas cores, mas porque é do coração para brotar no seu Jardim... Captei no quintal da minha namorada)





Como antes de ir embora, vou embora uma hora antes de ir
tenho hora marcada com a estrada, mas para enfrentá-la
não para fugir

Já a hora cheia é vaga
pela madrugada inglória sem qualquer história para dormir
ficar e partir são apenas formas de reconhecer a ausência paga
só para existir

Existo independente do fato da minha presença física relativizar
a quantidade indiferente de escuridão e claridade a me fazer quem sou
às vezes não sei rir

Pensar mostra muito de quanto não estou aqui

Logo não é conclusão nem sinônimo de tempo curto
já no entendimento do meu pensamento, eu penso tudo e o passar é um vulto

de uma sombra vindo em minha direção, não tenho direção nenhuma agora

vivo de alguma vontade passageira a voltar depois de ir, como antes porque meu vazio é faminto não importa a marca da hora.

Rafael Belo (às 16h13, Campo Grande, 17 de março de 2011)*

quarta-feira, março 16, 2011

Quem sabe sou você e você sou eu

*( Olhando para o quintal , o jardim selvagem olha de volta para mim e até os espinhos são bonitos...Captei no meu quintal...)



por Rafael Belo
Minha mente canta em reprovação pela manhã rápida. O celular toca isolado e ignorado até perder a música. Esta era a música na mente... Distante de todo este acordar de mais uma semana. Por que tenho raiva dos meus erros repetidos? Aliás, por que não tenho?  Perder tempo... É. É por isso! Agora lembro... Enquanto o teto insiste em continuar a rodar, essas lembranças vagas vão virando esta minha memória de ontem até se perderem, olharem para um relógio antigo e desnecessário para decidir não se ‘atrasar’ hoje. Enquanto ainda não têm trânsito e a pressa enrola o desejo de ficar em casa, os motoristas estão pedestres.

Eu estou quarta-feira, não porque seja quarta-feira... Às vezes parecem os objetivos distantes e algo sem sentido transforma-se em rotina... Não é depressão é apenas um momento vazio se arrastando no incerto, mas só vejo o certo à minha frente e ele é tão enfadonho, sem ritmo, sem som, sem gosto... Interação é preciso viver não! Lá fora ainda chove e eu mofando aqui dentro neste corpo parado, catatônico diante das oportunidades. Mecanicamente me levanto para trabalhar e já sei a programação a fazer, todo dia o dia todo... A imagem refletida me olha tão irreconhecível ao meu olhar para ela. Não estou mais presente... Quero saber onde estou?!

Em algumas gotas desta inundação celeste quem sabe. Achava desconhecer o tédio... Na verdade ele é tudo que conheço. Meu suicídio diário resulta em quê, afinal?! Em mais mortes... Qual a diferença de matar a imperfeição da sociedade se ela é a imperfeição?! Apertar o gatilho de novo e de novo e de novo é o meu clichê desta dor surda em meu peito. Assim, simplesmente morro vazio sem alma só um exterminador barato... Sem fôlego para dar um basta ao mundo medíocre de um ser medíocre feito eu... Não importa ter de matar a escória da escória, sempre surge coisa pior...

Creio que o pior sou eu... Não pense na radiografia da minha consciência humana, eu não a possuo... Matar mostra a simples fragilidade da vida... Uma hora você está no celular e na outra não existe mais. Já tive de matar pessoas relativamente inocentes, mas matei porque viver ou morrer não tem tanta distância assim... É a mesma coisa... Como se morre e como se vive também são irrelevantes... Conta o meio de tudo isso e já que o inferno é aqui... Vou atrás de você com este sorrisinho imbecil e conflituoso na boca... Já tive minha conversa com muitos diabos pobres só de alma, mas sei da espreita do verdadeiro da Razão daquele a punir o pecador e a amá-lo pelo pecado por construir sua casa, estamos no território dele.  Aqui é o inferno, o resto é purgatório. Creio este ser meu último momento consciente, minha loucura já me toma. Adeus! Sou coisa e lugar nenhum... Quem sabe você!

quinta-feira, março 10, 2011

Mau Comportamento


*(Chuva traz os contrastes da vidas atrás dos olhos da nostalgia da renovação do descanso - captei dia 5, sábado de carnaval)
 
Chuva dolorida colore de vermelho o céu
e o céu da minha boca aguenta a dor de falar
e de calar a limpeza ensurdecedora do atrito da máquina
com os dentes sangrando a sátira da pancada no rosto do silêncio
salgado e amargo na boca desgostosa, mas doer mesmo só depois

Um eco maldito reverberando de uma surra inexistente
Nada aconteceu, nada foi dito, ninguém perdeu os dentes...
Mas os sisos já não existem mais, a boca foi violentada pelo pudor da ação
O juízo nem sequer nasce nem se arranca é um mito odontológico
Do vento demasiado, da chuva torrencial, do lógico da lógica do tempo, da briga por espaço  limitado,
pelo nosso mau comportamento.

Às 13h38 (Rafael Belo) 10 de março de 2010.

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Fantasmas de dias ao sol


(*Em meio as nuvens, está o astro exuberante, a luz viva dia e noite, eu, você, eles e nós esperando a mente desanuviar... Captei na quinta (24) )

Por Rafael Belo
O sexto sentido. Aquele filme com o Bruce Willis. Estas pessoas pareciam ele. Bem, não ele propriamente dito, mas seu personagem naquele filme. Todas pensavam estarem vivas. Todas elas. Mas, eram o mero retrato cotidiano de quando vivas... Eram fantasmas... E já passava uma centena de dias desde a última vez... Onde estavam os vivos? Enclausurado na própria rotina, sobre o domínio do deus dinheiro e seu vassalo superior, o tempo...  É fácil dizer: I see dead people... Porque, pensando sob este sol desértico avassalador, qualquer um alucina e diz ver pessoas mortas ao reencontrar com quem conviveu há centenas de anos.

Sério! Com o cérebro já cozido devido ao sol constantemente estar ao meio-dia, não é difícil sumir da vida das pessoas e parecer um fantasma assombrando o mundo em busca do pão do dia e pensar na massa assada para nos alimentar no dia seguinte, no dia seguinte...  Um dia por vez... Assim, deveria ser, mas queremos viver todos os dias ao mesmo tempo... Somos alucinados comedores de açúcar, tomadores de café, sugadores de olhos fundos e olheiras protuberantes, submissos dos goles de coca-cola e da rede Globo, ‘difundidores‘ das conversas do enésimo reality show ... Tão vazios de tantas cheias...

Mas, voltando às pessoas de dez mil anos atrás - àquelas que nos conheceram mais sonhadores – faz bem manter contato, mas ver e ouvir presencialmente é bem melhor. Então, assim por mera força da mudada de lugar ao esperar minha namorada, que comecei a voltar a me deparar com conhecidos e amizades de – ok, não tenho dez mil anos – quatro e cinco anos passados. Aquela velha sensação deste tempo (de seja lá qual for a profundidade da relação) não ter passado, daquele conversa inacabada estar terminando agora como se o espaço de voltar a ver aquele ser não tivesse sido um abismal buraco negro e sim um salto do meio fio, é realmente palpável e agradável.

Vontade forte mesmo, depois de um upload, uma atualização básica sem banalidades de amigos do passado, presente e futuro, é sair ligando e marcando um deja vù com todos e matar àquela saudade que às vezes, corridos atropelados e mau-humorados fingimos não ter. Dar um mero bestial: Oi! Lembra de mim! Ou simplesmente sair tagarelando sobre uma coisa qualquer fortalecendo o melhor remédio da vida chamado Amizade, um Amor com cores específicas sem ser meramente colorido, por que este, a cores, acontece poucas vezes na vida e corre o risco de terminar ou se transformar em outro sentimento, mas tanto em um quanto em outro, cabe somente a nós saber crescer com esta emoção sentida apenas por nós: humanos.

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

Verso por Verso, Uni

(* na parede da redação o caminho chama atenção para seus obstáculos de onde ergueremos nossas próprias fortalezas com nossos caminhos, esta é a passagem... captei na redação apoiado na minha atual leitura - 24.02.11)



Meu corpo está sedento e faminto feito um menino assustado
encarcerado pelo grito perdido nos corredores fechados da mente

Senhor! Tem um livro aí? Só um livrinho para me libertar...
Não quero esta moeda ou este mantimento... Minha alma precisa se alimentar

Meu estômago ruge, minha boca é seca, mas só me alimento de palavras de fomento
esta é a fome incalculável e insaciável, me traga livros para comerem minha prisão de carne

Um naco de pão, um toldo de circo, mas só me dignifico se puder virar páginas, disso sou faminto

Horizontes não têm fim, crepúsculos e alvoradas são espetáculos atemporais...  Ah e minha mente não para de trabalhar e imaginar

Uma chuva de livros - pelo amor de Deus! De fome e sede posso me libertar...
Dêem-me universos variados de uma vez, e destemido, serei verso por verso a
Inclusão.

(13h30, Rafael Belo, 24 de fevereiro de 2011).