sexta-feira, agosto 31, 2012

Miniconto- Ventania

por Rafael Belo
Faltaram as palavras. Foi aquele silêncio constrangedor. No meio do protesto tudo se esvaziou, as pessoas se dispersaram com o novo assunto recém-chegado. Depois a internet parou de atualizar e ninguém mais curtiu, nada foi compartilhado.  A invenção parou. A voz foi calada e os dedos de tanto atrito acabaram calcificados no excesso. As ruas já vazias jaziam inertes enquanto os semáforos piscavam à procura daqueles seres de outro tempo a congestionarem...  As imitações e apropriações deram lugar à letargia. Toda esta sonolência pescava em cada vazio a completar mais uma adaptação do distúrbio social da sequidão. Esta seca se espalhava.

De alguma forma aquele homem disforme se tornara seco. Perdeu seu nome e qualquer registro de identidade. Acreditava ser o ouvir. Tudo ouvido era absorvido e caracterizado. Mas, durava pouco ele precisava se isolar e celebrar suas verdades secretas. Não se sabe porquê estas verdades dele se mantinham. Porém, qualquer informação recente, logo era esquecida.  Algo em torno de um dia, 24 horas e pronto... Nada. Sua mente se reiniciava como um bug do milênio real. Sua memória voltava a ser uma esponja seca e os recém-conhecidos, absolutos estranhos. Ele vagava em meio à poeira e a fumaça de um incêndio recente se alastrando com o forte vento.

Suas realidades virtuais não eram contradições. Contradição era sua presença, pois ela era a ausência em pessoa – bem quase isso. Havia um conflito o tempo todo para se saber sobre o motivo da briga, às vezes opinava sobre a superficialidade de tanto conflito interno, mas quando tudo se transformava em crise, ele batia cabeça. Faltavam palavras, faltavam pessoas, faltava conversa... Faltava... Bem... Outra hora lembramos... Certo era o homem sem nome navegando em águas turvas, se aventurando por onde não se enxergava, sem eira, sem beira, sem forma, devidamente constrangido em meio aos ex-conhecidos a o olharem de esguelha...

Algo dizia em seu interior empoeirado ser ele o escolhido para viver longe da sociedade, mas em sua loucura autista escolhida sempre se esquecia... Ser mais um de pele de areia, de memória curta, de vícios dispersos a ser dispersado por todo vento soprado, contra,  à favor... Mas há tempos não ventava e os secos clamavam por um vento novo. Todos pediam por uma ventania para levar esta casca plastificada e chamavam por um interior perdido em outras profundezas. No entanto, havia algo mais enraizado nesta poeira... A preguiça abraçada ao devido profundo se espalhava. A seca era a comida dos olhos, a bebida expelida da boca, o toque espinhoso do sentir, o arder do cheirar e as palavras quebradiças arranhando os ouvidos... Era o deserto de pessoas.

quarta-feira, agosto 29, 2012

Desassociados


Palavra contorna palavra,
desabafa os dedos teclados,
clicados ratos das aberturas virtuais escravas

vícios do fogo sem palha
da forma vazia sem toque
do TOC internado sem choque

com voz distorcida dos retoques
do curtir e compartilhar competitivo
do seguir o autismo escolhido
pelo caminho do conformismo editado

nas nossas ausências realizadas
postadas... Pelo ditado social.

(Às 21h20, Rafael Belo, terça-feira, 28 de agosto)

segunda-feira, agosto 27, 2012

Apatia e conformismo se dão as mãos

por Rafael Belo

Falar é fácil... Difícil é contornar as palavras. Mas, a dificuldade mesmo nestes dias de internação e desabafo no Facebook e contenção de palavreado nas tags e disparos de palavrões no Twitter é agir no mundo real. Parar de ritmar os dedos no encontro das letras nos teclados e cliques desenfreados e desatrofiar as pernas para reclamar efusivamente sobre os nossos direitos parece um mito, parece não dar certo no Brasil. Mais útil é deixar as formas do nosso corpo aonde permanecermos ou aflorar ainda mais nosso autismo por escolha.

É muito menos desafiador ser curtido e compartilhado por meio de mensagens clonadas, adulteradas e imagens usurpadas e editadas, a criar e se expor. A apropriação indevida, a coação do poder, o mimetismo das celebridades, a comodidade confundida com o comodismo e a apatia de mãos dadas com o conformismo sãos os nocautes do nosso ego diário procurando qualquer melancia para sermos aplaudidos nessa nossa vida de palhaços. Esse nosso jeitinho distorcido de sermos moldados aos ambientes acaba mais em camuflagem a dinamismo. Nossa confusão é tão intensa a nos tornar fogos-fátuos. Combustão espontânea onde o ar encontra o apodrecido.

Sempre há algo de podre no reino... E tudo bem¿? Vamos ganhar dinheiro de qualquer jeito? Vamos manter tudo como está? Vamos nos inventar tantas vezes até esquecermos quem somos? As linhas limites entre bondade e maldade se perderam quando os valores se inverteram e percebemos o fato da vida não ser um filme, muito menos a superfície de uma novela, mas mesmo assim vivemos personas ingratas e vorazes por mais... Passamos a afunilar um único olhar para todas as pessoas e culturas e esquecemos do relativismo generalizado, e esquecemos de quão profundo somos, e fazemos algo positivo para tentar anular algo negativo, e fingimos a falta de consequência perante nossas ações, e continuamos a forçar nosso esquecimento ao termos de dizer se somos bons ou ruins, pois somos ambos.


Fomos domesticados a sermos aceitos sempre e vencer constantemente. Fomos escondidos e acreditados na centralização do eu e com este aprendizado queremos ser coletivos... Queremos ser sociais... E bebemos e nos embriagamos de um tóxico qualquer e só assim revelamos ressentimentos egoístas, pensamentos covardes e atos insanos. Somos tão sociais e temos tantos amigos, a ponto de ser comum termos escolhido o autismo. Mesmo estes entre nós a parecerem sociais de fato serem uma caricatura de uma falta de análise psicológica ou da ausência de coragem de falar o pensado e o sentido. 

Nossas ausências são o verdadeiro preenchimento vazio oferecido por nós as nossas realidades.

sexta-feira, agosto 24, 2012

Miniconto - Sétimo dia



por Rafael Belo
Morto e enterrado. Para as pessoas e a medicina, Jazco Silva jazia há uma semana. Exatamente sete dias haviam se passado quando o falso falecido fez seu corpo presente no meio de sua própria missa de sétimo dia. Não há dúvidas da correria, do pensamento de brincadeira mórbida. Mas, o ex-morto, estava realmente vivo. Sujo, faminto, desnorteado, praticamente um zumbi. Por isso, o fato da igreja ficar acima do jazigo da família explicava o motivo de Jaczo estar ali tentando raciocinar porque tantas imagens dele e porque todos os familiares, amigos e conhecidos estavam ali.

Coração parado. Estas foram as últimas palavras ouvidas por Jazco. Depois tudo foi silêncio. Nenhuma voz de fora. Quando acordou tinha certeza de ter conversado muito, mas se falar. Estava se esforçando para lembrar palavra por palavra, enquanto os mais saudosos e corajosos se aproximavam, tocavam, perguntavam... E Jazco olhava olho por olho ao mesmo tempo lembrando a história de cada presente com ele. Até então, tudo estava escuro e rastejante, mas aos poucos uma ponte iluminada surgiu em sua mente.

Veio a Luz. Como se sua alma voltasse apenas neste momento. Jazco sorriu e todos pararam, tudo silenciou e quem se encheu de ruídos e de todo o claro som do mundo foi Jazco. Iluminado começou a falar, foi até o altar e feito o principal elemento para quem a missa era dedicada, inverteu os papéis. “Uma voz me tranquilizou este tempo efêmero no qual estive enterrado. Meu coração estava parado. Mas tive nova chance... Não sabia... Meu coração parado, já vinha sem bater há muito... E este ato físico acontecido, há de acontecer com todos se não ressuscitarem seus corações”.

O dito acelerou tanto os corações presentes a ponto de esquentar em um grau de espasmos. Corpos e almas se mantinham embevecidos e a pele arrepiada, porém, as mentes medrosas ferviam por outro motivo. Não era algo racional, nada a produzir um raciocínio aceitável, então, continuaram a ignorar os sentidos do corpo, da alma, as batidas dos corações parados e, pelo anunciado, estavam prestes a somatizarem para um funeral coletivo de proporções tão imensas a quebrarem as tradições dos caixões tailandeses... Vários Jazcos estavam acontecendo por toda parte.

quarta-feira, agosto 22, 2012

Vivendo


Para coração a bater na razão não mais batida
para um sensação repetida, sentida no mais intenso amparo
para o reparo do ainda não parado
para a paródia do sentimento somado

paro, separo, bato coração apanhado
para coração parado, quase enfurnado
para paradeira sem paradeiro na eira do comparo do atalho coroado

paro para poder continuar batendo
para o apanhado de vida no nosso punhado
apunhalado de corações, seja alvoradas e crepúsculos
para passarmos das ações dos súbitos, ao não morrendo.

(Rafael Belo, Às 23h27, terça-feira, 21 de agosto de 2012)

segunda-feira, agosto 20, 2012

Coração parado

Por Rafael Belo
Quantas vezes seu coração já parou? Não por ver seu amor passar, por sair ileso de um acidente, por levar aquele susto, por ser demitido, rejeitado, aprovado... Enfim... Me diga... Mas, sofrer 70 paradas cardíacas sequenciais no mesmo dia e permanecer vivo faz mais uma vez termos na ponta dos dedos a fragilidade da vida e termos em mente a força da alma humana. Agora some 66 anos, vida sedentária e alimentação ruim, de Francisco Silva, seria a sombra da morte, ou melhor, a própria morte ainda mais se acrescentarmos: a partir da quinta parada a medicina prova não funcionar mais os choques.

Milagre, Deus, fé... ? Tudo junto, nada disso... A vontade e a ação vinda na crença em si mesmo é todo o início de pavio alastrado pela chama a chegar até nós. Viver, sobreviver só é possível se acreditarmos. Cada etapa de crescimento pulada é um vácuo, é uma depressão semeada armazenada na memória da terra infértil vinda de uma poeira perdida até nós. É como se o vazio soprasse nos nossos ouvidos moucos e esta surdez nos preenchesse pelo coração parado.

Esta parada é consequência. Nossa inconsequência é esta parada. Talvez 70 seja algo nos levando a acreditar nas tentativas de continuar cada etapa escolhida da vida. No entanto, especulações sempre podem ser confirmadas - se esta for a vontade - e nos levar a histerias e outros extremos. Basta uma simples incitação para uma multidão raivosa provocar o caos ou fundar uma nova forma de acreditar no já acreditado. Eis a liberdade de expressão, só precisamos conscientizar nosso cérebro a não sermos só emocionais e somente racionais.

Já sentimos a parada do nosso coração diversas vezes pelos mais diversos motivos, nenhum fatal nenhum realmente físico... Mas, há sequelas. Fatos como este, a terem espaços em meios jornalísticos, ou pseudojornalísticos, são sim para se pensar na nossa força, nas consequências dos nossos atos, na nossa dicotomia de também sermos fragilidade, afinal quantas pessoas aos 66 anos, como Francisco, tiveram 70 paradas cardíacas e estão vivas quatro anos depois do ocorrido? O coração parado pode deixar de ser literal e ser literário quando somos apenas as linhas tortas esperando ter novas palavras.

sexta-feira, agosto 17, 2012

Miniconto - Bebendo do próprio ego transbordante


por Rafael Belo
“Vergonha alheia”. Mal tenho vergonha dos meus fazeres e afazeres quem dirá do dos outros. Condescendência típica... Mas esta é a moda moldada na boca das ruas e na linha do tempo do face. Não tenho vergonha da comédia e do drama da queda de outro no chão. Eu rio, dependendo da gravidade, e chego para ajudar a levantar, pronto. Realmente ficou no passado. Mas ai daquele que vier de dedo em riste dizer como devo ser, qual forma tenho de agir e o sentimento vazado no rosto. Demais, ainda mais se você for se definir pelo meu nome: Ególatra Eussim.

Mas desta forma eu ajo. Eu dito como as pessoas devem ser na minha visão e eu as adéquo a minha maneira, a mais correta de se viver. Eu comando, tenho tudo nas mãos... Estes fios invisíveis a te moverem são a “informação desnecessária” sobre você. Você é meu títere. Além de meu fantoche onde enfio minha mão e te movo. Você não percebe, eu sou teu mestre. Você está sob meu comando e cada dedo meu mexido faz algo contigo feito uma pressão não sentida. Meus queridos Pinóquios. Minhas madeirinhas esculpidas a fogo e talhadeira, bebem de mim como seu fosse água. Coitados, tenho dó!

... Não, não tenho! Os quero seguindo como degraus me elevando, me dando suas glórias mesmo parecendo serem suas. “Vergonha alheia”... Fala sério! Mostrem esta mágoa, este rancor, esta explosão de ódio guardado para uma vingança sem fim na Avenida Brasil ou escrachada e Cheia de Charme. Vai lá diga a verdade, mostre suas garras afiadas e suas presas esverdeadas de veneno. Chega de fingir este seu puritanismo apodrecido há décadas. Sei do seu gosto pela manipulação. Assuma seu sabor de manipular e se adequar de maneira subversiva aos seus interesses e somente por eles.

Vamos confirmar o nome: Ególatra Eussim. Todos somos. Mas eu sou mais. Eu sou o Aliciador dos aliciadores, o serial killers dos seriais killers, Eu sou Eu. Vocês venham a mim, me adulem, me idolatrem, me fotografem, façam primeiro comigo ou as consequências serão... Digamos... Articuladas ao fundo, armadas em silêncio, matutadas feito pasto bovino, ruminando... Porque eu não sou nada além de mim, e tudo sou eu. Não há nada a ser aprendido se eu não ensinar, então, aprendam agora... Na próxima receberam só meu esporro.. Bem... A não ser... Humm, quando eu precisar de você eu te aciono, fique no aguardo. Até a próxima.

quarta-feira, agosto 15, 2012

Folhagem ao tempo


Espelhos se estilhaçam de reflexos
nos infinitos efêmeros generosos
gêneros do genial genioso humano

caducando a juventude na extinta meia idade
espelhada na reflexão da atenção única a própria voz
ecoando os trincares ressoados nas cordas atando

nós tocando a garganta autossaturada
sons graves entre a sequidão engolida e os palavrões exaltados

fotografados na coleção de imagens solipsistas condensadas
soltas na pista à mercê de valores quaisquer, floreados.

(Às 23h20, 14 de agosto de 2012, terça-feira, Rafael Belo)

segunda-feira, agosto 13, 2012

Monocromático olhar pecilotérmico

*(Entre a Luz e a Sombra, só não há a escuridão. A Luz sempre virá mesmo se você estiver no ponto mais alto de costas e sem liberdade para voar - foto do crepúsculo do sítio dos meus sogros)

por Rafael Belo

Entre a vulgaridade e a paciência há um desentendimento e uma aparente fórmula única de ser. A necessidade de espelho e controle nos contradiz solenemente no nosso cotidiano, quando todo visto é reticências de quem somos no esquecimento dos três “dês”. As dimensões ficam limitadas ao modo eu de ver o mundo, a vida como os outros veem e como realmente é, são realidades paralelas. É como se todos sofressem de monocromatite aguda deixando o olhar sobre o mundo com a cor da vontade imposta. São seios à mostra como um belo sorriso e o descontrole explodindo como um abraço de tamanduá-bandeira.

Uma disfunção daltônica não referente à percepção visual, mas racional a se transformar e fortalecer este anteolho profissionalizante de viver em um viral real. Ai ai ai a ousadia se manifestar contrária a esta correnteza descolorida onde somos imperceptíveis aos distúrbios insones das nossas contradições. Este arco-íris preto e branco tem os disfarces da coloração tênue tensa espalhada pela mágica camaleônica de se ambientar e engolir venenos e coachares. É como se a peciloterma tomasse conta de nós, involuções de valores, e nós tornasse homens-répteis aptos a estarem ambientados em qualquer lugar, mas como irracionais agindo da mesma forma procurando o mesmo ângulo solar.

Além da percepção e da racionalização, ou mero uso digno do cérebro, esta diminuição de cores nos pasteurizaria à falta de luminosidade na extinção da diversidade... Há uma “não declarada” busca pelo pensamento único tão veementemente negada e criticada da boca para fora e tão fortalecida e robótica dos atos para dentro no ponto dos noticiários diários não nos dizerem nada e, muitas vezes, servindo para coisa alguma. Entre paciência e vulgaridade, nossa “agoramania”, “momentoemergencialidade” nos perde da paciência, nos esquece na vulgaridade e segue clonando o pertencido a outro, a personalidade alheia.

Somos sensíveis ao mundo mesmo sem admitirmos. Temos horror ao erro público, a aceitar falhas em cima do palco, a pedir e aceitar ajuda, ao comando autoritário, e, por isso, nosso branco só tem esta cor no nome. A sobreposição das cores primárias resultando na intensidade da clareza na luz emanada dos nossos olhos diversos parece estar ausente, carece de uma pretude originada exatamente desta ausência da luz, das cores... O preto. Admitir primeiro sermos diferentes e ao mesmo tempo iguais, não é bipolaridade é assumir a diferença. Tentar, arriscar, vestir o novo, ver por uma nova cor, enxergar por um novo olhar e se aquecer primeiro antes de procurar o sol é permitir ângulos serem esquadrinhados e mesmo assim sobreviver com sua essência e neste mundo, ou talvez esta seja a maneira da real vivência.

sexta-feira, agosto 10, 2012

Cegos

Egos renegam elos pelos pregos sinceros
sem conseguir ser verdade na hora da mentira
batem martelos nos pregados singelos
impregnados do orgulho caído em terra de ninguém

tetos quebrados pelos lábios torpes viciados nos flagelos
apontados na fragilidade alheia na hora da saída
partem línguas ferinas tingidas de impropérios
resgatados do surto sentido na guerra de outrem

empregados por afagos soprando egos quebradiços
adultérios negados ao próprio cego que és.

(Segunda-feira, 6 de agosto de 2012, às 22h, Rafael Belo)

quarta-feira, agosto 08, 2012

Miniconto - Dois lados iguais



por Rafael Belo

Na intensidade dos sentimentos dos extremos minha bipolaridade me leva a duas pontas desatadas e sorrio e choro na mesma hora. Estou cansada deste vento engarrafado vendido pelos meus olhos e entornado pela minha boca moldada de momentos entregues. Não sei qual minha sobra neste mundo de preços e ignorâncias costurado por uma soma de esquizofrenias adesivadas à revelia nas testas entorpecidas. Estes queixos arrebitados, estas cabeças baixas não sei se estão lá fora ou se estão aqui dentro...

Às vezes meu nome é Joana Espalha outras Maria Junta... Sei me perder nestes pensamentos incontáveis me invadindo aqui em cima... Ah, só pra você saber não estou deprimida... Agora estou... Bem, queria mesmo escrever da altura onde me encontro. A 60 andares em um prédio, sobre o único morro rodeado por arranha-céus, vendo os surtos da cidade e o balançar dos meus pés neste oceano de vazios. Olho e vejo um espelho me devolvendo o olhar...

Pequenos pontos estilhaçados se refletem e pressionam seus egos pelas ruas e avenidas a arranques e desrespeito, só eu saí deste combate não declarado... Mas declaro minha batalha contra eu mesma enquanto o céu me ventila e resfria minha pane do dia. Distante não há como não ver os passos dados, as pegadas apagando... Por isso, aqui me acalmo e conto meus pecados pelas pessoas se tocando e evitando se tocarem nas calçadas sem espaço para pensar. Também a sensação de leveza e liberdade aqui são maiores e talvez só existam neste lugar...

Quando se passa tanto tempo silenciando os gritos, ignorando as vozes intolerantes, deixando a vida te levar, já não há rumo conhecido, pois, todos já foram ignorados, mas todos estes sons sem forma continuam... Continuam... E a cabeça se arrebita e o queixo se rebaixa e o tempo se contrai e relaxa em espasmos urbanos. Deve ser Humano esta dicotomia, estas duas mulheres perdidas em mim, estes pensamentos desavisados, Esta Joana, Esta Maria, Esta na fila dos andares tomando coragem para descer e voltar a enfrentar as calçadas sem espaço para estar.

segunda-feira, agosto 06, 2012

*Sobre a sombra da folha seca

por Rafael Belo

Sequidão e fumaça. Cidade cinza amanhecida segunda-feira. Mais uma semana começa sem chuva e as gargantas secam na mudez do real. Há tantos silêncios nas entrelinhas das postagens, nas imagens de fundo das palavras, na presença hipócrita mudando os ventos de direção, abafando a razão gritante.  Não há lógica, há coação e uma constante tempestade mal formada de mal estares na vontade de ficar sobre a sombra da folha seca.

O pigarro da falação interminável e das discussões vazias são o diagnóstico do calejamento das contradições humanas, da vontade pelo poder eterno à custa do saco de pancadas chamado povo. Sobre esta sombra da folha seca fica o deserto de valores em jogo na mesa de pôquer. Vale qualquer cartada mais alta, qualquer jogada bem arquitetada, toda alteração e artimanha empregada para no fim abraçar sozinho a ambição, o egoísmo e toda forma de poder.

Chega um ponto onde prestar atenção não é o suficiente, simplesmente pelo fato da forma ainda ser sem conteúdo... Eles não dizem nada. Há um floreio sem costuras quebrando nosso controle remoto e manualmente nos deixando na estática, na “normalidade da alienação”. Sim, há aqueles fortalecendo as asas para tentar criar um bando de voadores ufanistas e crentes em um presente melhor... Mas há pouco trigo neste joio em uma medida equânime a quantidade de sombra da folha seca.

Vender a alma para o diabo, não se trata apenas do sentido religioso da danação eterna eclesiástica, de um pacto, ou na descrença de alguns um dito popular. É a constante perda da paciência, da paz, da fé em troca da tranquilidade da mente e do espírito.  Vende-se muito por quase nada, aliás, aluga-se... “Se ganha” um conjunto de demônios mentais perante o falso sorriso para a vida. Diante disso, “talvez” a verdadeira sombra sobre a folha seca seja a consciência da liberdade, a ação crítica e um momento antes o de analisar e refletir sobre o nosso redor.

*captei no chão do quintal da casa dos meus pais.

segunda-feira, maio 28, 2012

Sopro de Brisa




Rio retorna ao mar interior
com o frescor das boas novas
brilhando na trajetória insólita
das curvas do curso do arpoador

Mediador marcando a terra com nosso sal
salpicado pela tese do tempo dobrado na dor

passageira de todos os pontos costurados pela Brisa

da boca do céu acalentando as feridas mentais dissipadas
pela pontuação leiga dos espirituais [bebendo da humildade do joelho a dobrar
nos pés lavados do outro pelas nossas mãos na fonte da Eternidade.



Rafael Belo, 28 de maio de 2012, Campo Grande, MS, às 10h25.

ps: Imagem captada no sítio da Fran - logo mais à tarde o áudio será inserido.

sexta-feira, maio 25, 2012

Constelação se reflete no rio corrente*




                     



Trilha - O Vento - Los Hermanos - áudio da crônica Constelação se reflete no rio corrente*

por Rafael Belo


Como se arrastam seis meses para quem quer muito algo e como correm para quem o tempo precisa ser reorganizado. Ainda bem... De alguma forma voltamos para o espaço criado por nós. Isto feito, sentimos a saudade de compartilhar formas e olhares do avesso. Assim, me sinto eu. Hoje sou um rio e um rio retorna com novas arestas. Novo, mas encorpado com toda a vivência regada ao longo das retas e curvas de uma marcação rítmica cantada pelo presente constante.


Não podemos nos ater a uma parte de quem somos, pois, ao mesmo tempo nos infiltramos com nossas águas pela terra passante e somos constelação recém-nascida, pronta para viver um novo infinito público/particular no querer o brilho inerente de todos, expandido além do olhar. Somos contemplação e vínculo. Saciados e sedentos de uma direção sussurrante ou gritada no nosso íntimo, nos nossos passos... Por uma pontuação de fim em nós é desconhecer a nossa nata abertura para reciclar e evoluir. Somos interrogação...


Pegar distância para olhar o caminho e lapidar o já adquirido é um ótimo trabalho de paciência. Mas há dor. Como seres sinestésicos – independente do grau –deixar seus prazeres de lado pressiona o pulmão até o ar ficar rarefeito, até precisarmos dar um pequeno passo e darmos um gigantesco naquela atmosfera lunar. Os detalhes passam por opção racionalmente, mas o restante do corpo pensante, ampliando os sentidos da alma, não deixa nada escapar, e como um filme decorado, vemos o passado ignorado direto do nosso refúgio na lua.


Sabemos da relatividade do tempo porque nós o somos. Podemos dobrá-lo e tudo acontecer simultaneamente mesmo em diferentes datas do calendário, podemos esquecer das marcações temporais e nos perder sem uma mínima rotina ou podemos organizar toda esta retidão escrita no horizonte referente tremeluzente do espetáculo da morte e nascer do dia. Os cães não têm noção de tempo, você pode sair um minuto ou um dia e a falta será a mesma para eles. Não é preciso ser complexo, escrever de formas poéticas ou rebuscadas, mas se assim estiver posto, o sentimento contido nas palavras se revela... Ou há sempre o dicionário e o “Doutor Google” para detalhar e ajudar a nos reconhecermos e levarmos a vida adiante no tempo proposto para cada um.


ps: é sempre bom voltar a este espaço que sou eu.

*( A imagem captei na escola santo antônio)

domingo, dezembro 25, 2011

Chama crepitante de giz



Trilha - Chão De Giz - Zé Ramalho - Áudio do miniconto Chama Crepitante de giz

(*Felicidade vem da Paz acendida depois do queimar sem ardência esquentar por dentro.) Feliz Natal
Foto: Rafael Belo


Por Rafael Belo
A meia-noite já havia transformado o sábado em domingo há tempos e a chuva ainda faltava. Era costume até então não quebrado. Por isso, depois dos Felizes Natais habituais saiu enquanto seus pares lembravam vários passados mesclados e já contaminavam o ar da esperança, do novo... Com um quente bafo etílico embriagando qualquer um ainda sóbrio. Andou ouvindo as mesmas palavras em outros lares, mas caminhou com cautela para não receber abraços estranhos, mesmo de conhecidos a tentarem queimar todo o chão passado.

“Tudo bem! Nenhuma mágoa será guardada”, pensava Natalino com seus passos silenciosos pelas ruas tumultuadas, cheias de sorrisos a sorrirem pelo menos neste dia depois de tantos dias de caras fechadas... Talvez por isso, a chuva sempre vinha para deixar o céu mais limpo e as estrelas cintilantes no céu mais azul. É dia de cantar, celebrar, dançar o Sol podendo ser Solstício ou Cristo, pois no meio ambos são um, sendo luz do mundo dia e noite... No céu a aquarela das cores saia de um breu brilhoso para um claro contido de arco-íris, mas Natalino olhava para o chão.

No chão o incêndio iniciado por ele parecia ter transformado tudo em giz e estava ali ardente bruxuleando já sem queimar - Não era mais a chama iniciada por ele. Todas as cinzas devidas a ali estarem eram brotos verdes e orvalhados e através do fogo tudo ao alcance do olhar era novo. Diferente de qualquer chama já vista, aquela era uma só e irradiava com oscilação pulsante. Era vida pura em seu elemento construtor a estender sua cauda em calda marcada de rastro de sabores. O céu começava um toque solar para conectar um elemento vivo a outro. Toda a noite já estava envolvida pela Luz.

Natalino tocou aquilo parecido com giz no chão e sentiu a Paz vir... Não do tocado, mas de dentro dele e era como se ele ainda fosse noite até rasgar o medo com a estrela cadente de sua alma.  Mas, o medo ficou em partes menores para deixar o sossego ainda atento ao mundo de todos. Como se pegasse aquele giz e desenhasse, voltou buscando abraços etílicos como contornos de fogo celeste. Não importava a razão sua fé crepitava silenciosamente em seu retorno, enquanto a suposta chama de cauda voltava para ser guia, para levar olhares ao céu, para voltar a nascer Estrela de Belém e ficar acima da chuva, esta a amanhecer o Natal.

sexta-feira, dezembro 23, 2011

Até em secos galhos



Trilha - Eu Caçador De Mim - Milton Nascimento para a Crônica 'Até em secos galhos'



(*os galhos impedem a visão de quem vê...) Ft: Rafael Belo
por Rafael Belo
Somos partes de uma imensa raiz mutante metade profunda e a outra também aérea. Sugamos a força da terra com intensa independência da submutação para “qual evoluímos” e se quando percebemos somos galhos secos no meio de mais um feriado de presentes aparentemente tumultuados sem ligação nenhuma. É como conduzir um veículo em uma das principais avenidas do Centro da cidade e ver em toda e cada brecha pessoas tentando atravessar a rua. Lembra-me um brinquedo no qual assim que o bichinho colocava a cabeça para fora tínhamos que acertá-lo com uma espécie de porrete...

Bem amanhã é véspera e no domingo é Natal e as ruas estão todas assim cheias de nós procurando um significado para trocar presentes e ver ou fazer o possível para não ver parentes e amigos. Talvez até sermos um pouquinho menos egoístas e mais solidários, mudar a equação uma vez por ano ou quem sabe não seja a matemática o problema e sim a química... As misturas feitas para esta nova velha data sofreram mudanças históricas que iriam além das cerca de 40 linhas destas crônicas, mas fato é: é tempo de união e de esperança.

Não importa ser solidário apenas pelo espírito natalino a celebrar o sol, o capitalismo e Menino Jesus no dia 25 de dezembro... Tirando o capitalismo, os outros dois devem ser celebrados e praticados diariamente para quem crê no renascer cotidiano de um astro celeste a sempre estar no céu e no filho do homem/Deus. As pessoas não precisam de atenção, carinho e outros tipos de alimentos apenas em um dia do ano. Todo dia é tempo de praticar uma ação acolhedora para o próximo. Até para os ateus acordar, levantar e seguir é um ato de fé. Se acreditamos em nós já temos um impulso e um motivo para fazer brilhar um achama aquecedora no próximo. A vida é o maior ato de fé e o Amor é via-sacra do crescimento.

Abrace todos os dias... Não continuemos galhos secos vindo e indo em nossa direção e do próximo só para esfarelar e se quebrar, porque apesar de perto e até entrelaçados por dentro já não há fé. Há formas já não vistas por nós atrapalhando nossa visão... Caímos das árvores do Conhecimento e da Vida e fomos nos esquecendo da infância e do nosso tamanho. Antes de secarmos e sermos galhos caídos éramos folhas verdes, tronco robusto, raízes profundas e apontávamos vivos galhos para o céu. Crescíamos para cima e para baixo e espalhávamos sementes, esperanças de florestas jovens a dar sombras e frutos para o mundo... Mas a esperança brota até em secos galhos!

quarta-feira, dezembro 21, 2011

Misturas de novos



Trilha Depois de Nós - Engenheiros do Hawaii - Poesia Mistura de Novos

*(Cada renascida manhã é chance de ser nuvem e dissipar) Ft-Rafael Belo
Olhos marejados preenchem o mar escorrendo das montanhas
até as lágrimas doces transbordarem das lacunas completando a vastidão
encontram-se salgadas águas de um olho e do outro o rio

chovem choros cadenciados, correntezas carregadas do amanhã
choram chuvas confirmadas, contemplações caídas do pé de maçã

gravidade passada pela gravidez de um dia parido
das palavras nomeando o passar de tempo, o amanhecer de aurora,
alvorada, alvorecer... Tudo para um dia novo, para uma nova manhã

nascida sem som de parto, mas aos poucos de partida
para ao cantar do galo em plena diluição da noite na urbana Capital,
seja adquirida nova vida do alvor do sol para a luz artificial da macieira

partindo nomes e significados em novos olhares e transformações.

Rafael Belo, às 7h48 da terça-feira, 20 de dezembro de 2011.

domingo, dezembro 18, 2011

O casal na terra dos pelados



Trilha do miniconto - O Casal na terra dos pelados - música Pelado - Ultraje à rigor

(*As flores despidas e os espinhos também ,vestí-los seria a nudez)
Foto e palavras: Rafael Belo

por Rafael Belo

Pelados. Assim eles se viam pela primeira vez. Eles desejavam se verem nus com a mão no bolso antes do atracamento fulminante do melhor encaixe da vida deles. Mas, para nós seria engraçado o conceito de pelado dos dois, afinal, eles passaram a vida toda isolados em uma comunidade nudista dos tempos dos primeiros índios amazônicos.  Não havia novidade nenhuma balançado por aí, por ali, por aqui... Ninguém ficava com uma mão na frente e a outra atrás, roupas para eles eram novidade. Logo nos primeiros dias eles decidiram não fazer sexo explícito em público como era costume entre os outros. Mas outras duas decisões os fariam serem expulsos – algo nunca antes ocorrido na história destes descendentes dos tempos.

Tentaram algo novo, manter a relação entre os dois apenas, a poligamia à céu aberto até os reprimia. Mas, o jorro em êxtase das fofocas na comunidade surgiu antes destas duas decisões... Veio logo da primeira.  Eles não passaram a noite entrelaçados com suas genitálias proeminentes... O choque foi total no lugar mais sem privacidade do mundo. Fizeram o pior. Passaram a noite silenciosamente se olhando detalhe por detalhe insones. Nem as orgias, ménages, grupais e todos os seus sons povoadores pareciam chegar até eles. Eles haviam sido corrompidos, mas como nunca antes na história desta comunidade isto havia ocorrido. Decidiram esperar, afinal só podiam ser os espasmos da juventude inexperiente.

Toda a comunidade decidiu insonemente acompanhar o mais improvável: O Casal.  “Um casal? Só duas pessoas em um relacionamento. Como chama isso lá pela terra dos ‘pelados’... Mono... Monoga... Monogamia?! É isso!? Que cruel Que absurdo!! Eles não se tocaram ainda?! Vamos ter... Teremos de... (Longo suspiro seguido de silêncio gerais) Vamos consultar o livro dos primórdios?!” . E lá dizia: “aquele nãofornicador não é de pertencimento desta Comunidade, aquele não gerador de prole logo no primeiro contato pode contaminar toda a Comunidade e levá-la a novas sodomias e gomorrias terminando assim com o fim da nossa Comunidade”. As palavras lidas em voz altas despertaram o furor assassino de tubas reunidas e também das duas mães e os inúmeros possíveis pais – afinal este sentimento ainda não era selvagem.

Em algum lugar enterrado por décadas estava um guarda-roupa pressurizado a vácuo. Só estas duas mães guardavam o segredo. Fizeram os homens cavarem por horas, não sem antes fazerem estes encontrarem o... ooo.. o.. o Casal. O Casal estava por perto, mas escondido por precaução. De onde estavam todos escutavam a destruição da Comunidade a procura do... do.. do.. Casal que afinal ‘lhes pertencia’. Quando chegaram ao ‘tesouro’ fecharam os olhos e vasculharam às cegas. Tatearam duas pequenas malas e ainda na escuridão chamaram O Casal e passaram o tesouro para estes, não sem acrescentar secamente: ‘Corram por suas vidas, mas algo me diz para utilizarem este conteúdo assim que saírem de nossas vistas’.  As mães e os prováveis pais fugiram para o  lado oposto tomando rumo desconhecido. O Casal se despiu pela primeira vez e descobriu aquele desejo de sempre se verem nus com a mão no bolso... Não demorou muito e o atracamento fulminante encontrou ponto seguro onde começaria uma Nova Velha Comunidade.

sexta-feira, dezembro 16, 2011

O Desejo pelo outro nos move


Trilha 'O Desejo Pelo Outro Nos Move' - Ultraje à Rigor - Sexo

(*Flores e espinhos sempre podem se encontrar, despidos ou em
 uma dor gostosa) Foto: Rafael Belo

por Rafael Belo
Toda forma de amor é possível. Assim como abandonar as pessoas sem sair do lugar ou estando dentro delas. Não da maneira metafórica, imaterial, mas invasiva, sexual, carnal... Afinal, todos se autodenominam grandes amantes, mesmo o sexo sendo rotineiro e até ruim, sem sentimento, pois o fingir geme um som eufórico. Alguém já disse uma vez: Você não pode ser feio, as pessoas ainda não te conhecem... Mas com as genitálias não é assim, se você não proporciona prazer e não o sente, se você não toca no lugar exato e é tocado no lugar suspirável, não liga o GPS corpóreo de sensibilidade, é só mais uma vez. Se bem que se tratando de nós, homens, o cio é constante, e o gozo intermitente nem é prolongado como o das mulheres. Já se tratando de nós, humanos, o desejo pelo outro nós move.

Não importa a orientação sexual, o vasto órgão... Chamado pele... Espalha-se em incontáveis experiências a serem descobertas pelo outro. O maior paradoxo, nesta nossa nova era veloz, é este paralelo entre o acesso a tudo instantaneamente e o distanciamento imediato, contudo é este acesso ao mundo digital a facilitar o conhecimento dos mapas do prazer e levar o parceiro ao êxtase. O autoconhecimento e o autocontrole por meio das manipulações digitais dos genitais em parceira com as cenas explícitas expostas pela rede de alcance mundial também geram uma harmonia entre homem/mulher, homem/homem, mulher/mulher e por aí vai – e vem...

Não diria ser o abandono do egoísmo em prol do prazer da parceira (o), porque muitos homens (quiçá mulheres) o fazem pensando logo mais: “agora é minha vez”. O famoso dar para receber - também lido atualmente como receber para dar. Não falo do colecionamento de “saidinhas” - eu escrevi isto?! - noturnas, diurnas, colegiais, universitárias, experimentais... As aventuras recorrentes dos solteiros normalmente regadas a álcool, drogas, inconsciências – com muitas exceções.  Há claro, nestas exceções, o sexo sem compromisso, mas qual o ponto já ultrapassado – falo disto -de nós a não se comprometer em uma relação sexual? Sexo é bom e confirmo minha pieguice ao escrever: sexo com Amor é inesquecível. Sem esquecer: sem conversar e sem química o inesquecível pode sair às avessas, mas ainda sim jamais sair da memória.

Indiscutível (?) é escrever: o desejo faz nosso olhar invasivo e nossas ações moverem céu, inferno, terra e purgatório independente de sua fé ou ateísmo. O sexo está em toda parte, mas fazê-lo em todo lugar onde está pode levar a duas coisas: atentado ao pudor – consequentemente cadeia e... Sexo (?) - ou voyeurismo. Este do qual todos sofremos, principalmente se os desejos sexuais forem platônicos e idealizados. Ainda assim, as vitrines diárias, as ruas, e as ladras das janelas, as tevês, nos resumem ao desejo e um presumível movimento de vem e vai onde somos imagéticos seres comestíveis e canibais de nós mesmos... E o pior gostamos disso e mordemos os lábios lambidos.

quarta-feira, dezembro 14, 2011

Seus suores sagrados


*(Segredando o fazer inesquecível de exaltar o entrelaçar dos corpos e almas) Ft: Rafael Belo

Seus suores sagrados saem de ti em sacrilégio
sem suportarem seguirem, secam ao calor corpóreo
gritando prazer poro por poro dos roçares geniais do privilégio

prevalece o fazer em arrepios constantes do ofegar provisório
dos gozares Kama Sutras da cama procurada do olhar dos hemisférios
movendo-se ao encontro dos sexos nos tremores ultrapassando o esquentar dos óleos

escorregando o encaixe no ritmo frenético do vapor exalado no revelar dos mistérios
fabricados da entrega a consumação do Amor em oferenda a vida subindo em incensório

esgotando a sensação de miríades de sentidos sequenciais  movendo-se sem parar
em seus suores sagrados sacolejando os universos nas chuvas cadentes de estrelas
levando nosso ar.

Rafael Belo às 11h56 de 13 de dezembro de 2011.

domingo, dezembro 11, 2011

O Oito Deitado da amizade


Áudio de O Oito Deitado da Amizade -  Trilha Amigos pela fé - Anjos de Resgate


(*Na calada da noite a lua se movimenta e apesar do negro céu aparecer é azul e tudo se move e faz barulho) Foto: Rafael Belo


por Rafael Belo
“Sonhei meus sonhos em palavras declamadas e elas foram lapidadas arqueologicamente...” Havia uma redoma nebulosa com diversas faces conhecidas ao redor de um Oito Deitado, mãos se uniam e formavam um sol de raios espalhados. Nem todos se conheciam entre si, mas eram meus amigos, eu conhecia a todos e todos me conheciam. Cerca de 13 pessoas segurando um o dedão da mão direita da outra falavam boas palavras adjetivadas da reunião prestes a terminar. Ao fim, o sol foi sacudido e os raios se liberaram acima das cabeças sobre o grito uno de ‘infinito’.

Era a primeira reunião do Oito Deitado. Gabvi havia encontrado por acaso o artefato há um ano em um parque da cidade. Ele viu um brilho sob a grama reluzir diretamente em seus olhos e decidiu verificar. Sob a grama molhada, após a chuva seguida de três horas, havia barro ainda com água.  Não era sua intenção ir ao parque, mas há um tempo ele reuniu todos seus amigos naquele local de diversos estados e quando deu por si, voltou após dois anos. Só percebeu sua imundice ao estar praticamente dentro de um buraco. Olhou ao redor e viu dezenas de pessoas o cercando... Imperceptivelmente guardou o artefato no bolso e fingiu aos estranhos ter encontrado a suposta aliança perdida...

Estava cheio de barro e foi ao banheiro mais próximo. Nem havia terminado de se lavar quando a primeira ligação o assustou “ah, ah ah...” começava a canção de seu celular. Nos próximos onze meses, outros onze quase irmãos o surpreenderiam da mesma forma. Ele ainda pensava em como fez aquele buraco e encontrou aquela pedra desconhecida com o Oito Deitado. Quando Os Amigos – uma das denominações a perpetuar esta aliança reforçada - fizeram novo contato voltando a fazer parte de seus caminhos. Eram 13 contando com Gabvi.

Todos relataram sobre um chamado interno silencioso, porém pulsante.  A vontade de ajudar sempre o próximo começou a orientar o dia de todos os presentes. Um sentimento de irmandade era implacável. Eram diferentes, eram iguais e a partir deste dia seriam amigos de ventre. O desejo em comum de espalhar a fraternidade criou uma aliança forjada pelo tempo e um sobrenatural incondicional. Um Oito Deitado idêntico em 13 alianças guardado por milênios dentro do artefato não parecia intrigar ninguém. Eles os vestiram no anelar e dedo médio e saíram com a intenção de espalhar os sentimentos de verdadeiros irmãos.

sexta-feira, dezembro 09, 2011

Chuva que flui a vida


Trilha da Crônica Chuva que flui a vida- Canção da América - Milton Nascimento


por Rafael Belo


O tempo nos pega pelo pé e nos sacode feitos leitões natalinos - o ‘peru’ favorito lá pelas bandas européias. Quando percebemos, nossa criança interna naquela adolescência a fazer contorções faciais negando ser infanta. Mas, nos enche lembrar como nos construímos subindo em árvores, correndo em diversas brincadeiras, jogando o Jogo da Vida, Banco Imobiliário, War e até videogame. Contudo, as mais derradeiras e proeminentes são as pessoas plantadas no caminho. Os amigos e as marcas mútuas deixadas. As memórias e cicatrizes traçadas em nós do espaço pendendo levemente a esquerda do peito até as mais diversas sensações espalhadas no cérebro, na pele.

Parar, brilhar os olhos e olhar para um falso vazio no espaço são sintomas pulsantes de mais um fim de ano, de mais um celebrado Natal. Nestes nossos tempos de mídias sociais e dedos acelerados, os amigos - perto e distantes – estão ali ou ainda estarão. Mas lembrar dos feitos, dos passados juntos, dos aprontamentos traz a vibração de poder reencontrar, de reuni-los todos no mesmo lugar. Dilata a vontade de deixar o adulto de lado, soltar a criança mais intensa, esquecer dinheiro e empecilhos e atar as pontas livres de amarras só para saber...

Não é nostalgia. Nem chega a ser saudosismo. É a gratidão de ter estas pessoas, de alguma forma ainda, em nós. Não importa se estão em Rondônia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Roraima, São Paulo, Paraná, Distrito Federal... Elas ficam em nós. São partes das construções destes adultos apressados e esquecidos feitos nós.  São outras Felicidades a enredar a música mais bela das nossas vidas. Uma palavra, a presença, o puxão de orelha, a ligação, o pensamento... Aliás, quantas vezes já não associamos um momento de hoje a algum déjà vu com um amigo? Escrevendo em pensamento lembrei de uma composição minha onde digo que os amigos estão do outro lado do pensamento...

Mas é bem mais, não é? Amizade é aquele leito de rio seco esperando o tempo nublar, trovejar, relampear e despejar seus raios no sertão até virar mar... Esta esperança, esta força, esta fluência viva da água... A chuva motivo de toda água da terra. Gota a gota formando uma corrente arrastando os desafiantes, se adaptando por onde passa e seguindo, levando consigo um pouco e deixando um pouco também. Esta memória da natureza nos lembrando de quanto não hesitávamos ao sair para tomar banho de chuva e ensopar as roupas e calçados. Acima de tudo, regando além da distância, as sementes da amizade espalhadas em mentes e corações.