segunda-feira, setembro 17, 2012

No meio da rua


Por Rafael Belo
No domingo o almoço costuma ser mais tarde então, antes da 13h, eu ainda faminto, seguia para casa quando vejo um senhor premeditado pelo cheiro alcoólico no ar no meio da Avenida Albert Sabin. O primeiro dia da semana parecia o esquecimento. Os carros desviavam e ele esbravejava como se não fosse um obstáculo, mas a própria rua. A frustração podia ser sentida. Não dava para ter certeza se o efeito do álcool era permanente de quem sobrevive às ruas ou de quem costuma ceder ao vício ou ainda a vontade do entorpecimento. Talvez a certeza fosse a dúvida de como ele terminou por ali.

Podia ser um parente meu ou seu de milésimo ou primeiro grau, um amigo, um conhecido, uma vítima... Mas nossa demagogia nos mantém distante. Ficamos desviando do estender da mão verdadeiro e do abrir do ouvido atento. Quem consome bebida alcoólica ou se reconhece ou deseja nunca o fazer, mas na superfície prefere mesmo ignorar e esquecer antes da próxima esquina. Bem ali no meio da rua podemos até reprimir a situação lastimável, porém se nos colocarmos no lugar, para onde voltaremos?

Quem sabe chegaremos onde está o bom senso. Lá podemos nos perder nesta perdição porque nem ao menos sabemos se o bêbado no meio da rua procura bom senso ou se dirigimos em busca deste. Não reconhecer pode ser o mais aceitável, mesmo se este tal de... For o corpo estranho dentro dos nossos olhos. Quanta dor pode ser entorpecida e por quanto tempo? Esta nossa vontade de ignorar, esquecer, entorpecer... Não pode ser antagônica ao paradoxo do bêbado no meio da rua.

Então, somos este cheiro etílico pairando no ar seco, envoltos a um mormaço angustiante sob o sol incandescente. Quase metáforas irônicas sem sentidos funcionais capazes de entrar em combustão por um pouco de nada. Diante de toda uma semana a percorrer dentro de uma crise identitária, ficamos a mercê de decidir o quão bêbados equilibristas estamos dispostos a ser, bem ali no meio da rua tentando não cair da faixa contínua totalmente em chamas.

3 comentários:

La Sorcière disse...

E o álcool devora neurônios e escolhas...

Rafael Belo disse...

é ... e ás vezes o embebedar dos outros resulta na nossa embriaguez! obrigado Lele!!!

Anônimo disse...

O bêbado,quando sobrio já vive se equilibrando,porque é um cidadão brasileiro,talvez está seja a causa da sua embriaguês.Mas o conto diz da indiferença nossa ao ser humano quando se encontra neste estado lastimável.