terça-feira, maio 21, 2013

O imediatismo da impaciência

O imediatismo da impaciência
por Rafael Belo
Ansiosidade. Pouca idade. Diversidade. Cadeiras. Show. Desrespeito mútuo. Uns em pé em detrimento de quem estava sentado outros sentados com palavras de ordem para que os da frente fizessem o mesmo. Tentando ignorar os gritos da massa, permaneciam em pé. Tentando não serem ignorados, todo arsenal em mãos era arremessado com má pontaria, acertando-os nas mesmas condições destes, sentados. Muita munição desperdiçada até se sentarem todos, porém ainda há alguém disposto a continuar os joguinhos dos desrespeitos. Em cima da cadeira vocifera para quem joga e há discussão. Segue lá em pé e em pé sobre a cadeira. Única. Sozinha. Solitária no ato. A desafiar sem nenhuma palavra. O corpo denuncia o constrangimento e o ato repetido por empáfia, mas então senta.  Show com cadeiras. Este foi o magnífico show de Ana Carolina há três fins de semana.

Do começo ao fim houve esta agressão paralela ao som de altíssima qualidade. A marcante apresentação da consagrada cantora mostrou uma parcela do público diversa dela, ela simpática, expansiva e interativa, ele tempestuoso e egoísta. Este comportamento só ocorre em duas ocasiões: em grupo ou em um automóvel.  Um enfrentamento que evidencia a falta de respeito das pessoas e o prazer das sentadas permanecerem atirando latas, papéis e seja-lá-o-quê-estiver-próximo. Um desrespeita-me que eu te desrespeito que por a minoria ceder não terminou em baderna e até pancadaria. Claro que quem estava sentado e não se envolvera, desvia a atenção para o cabo de guerra. Mas ninguém se metia. Assistia como um show à parte. Uma realidade paralela que se distanciava voltando os olhos e ouvidos para o show. É irrelevante dizer que eram meninas. Adolescentes. Porque tudo parece se misturar nesta nossa realidade e nada vai mais de gênero e sim de personalidade ou a epidêmica falta dela.

Fato é a massa sentada incomodada com o grupo em pé em frente às cadeiras, somava aos gritos de ordem da meia dúzia mais eufórica. Era um: SENTA SENTA SENTA. Enquanto rolava o show da talentosa Karina Marques. Mas foi por pouco tempo. Quando a cantora e compositora local terminou o show. A demora voltou o foco do pequeno grupo sentado, mais à margem das cadeiras, a quem estava em pé. Divertiam-se. Riam. Estavam lá para se divertir e todos repetiam o coro. Senta Senta Senta Senta Senta Senta SENTA SENTA SENTA. Havia vaias também quando se sentavam e logo levantavam. Durante todo o show foi assim. Quem senta quer enxergar, quem levanta quer enxergar... E neste senta levanta acabam ficando todos estes sem sentir o show, sem se envolver realmente porque o diálogo não existe. Parece não haver vocabulário nem para se comprimentar, quanto mais palavras sensatas para chegar a um acordo. O imediatismo da impaciência...

Ah, esta impaciência imediata... Se não acontecer no tempo determinado por fulano-sicrano-beltrano, o tempo fecha, a temperatura muda, arde o mármore do inferno e todo o sol vira gelo. Tudo no olhar é fúria e é morte rápida, principalmente de quem as têm brilhando nos olhos. Mas sabe lá o que é desrespeito. Esta pandemia tupiniquim do distanciamento chamado egoísmo – mesmo alguns chamando de mídias digitais, alienamento, autismo opcional e ignorância funcional – do julgamento, de uma antecipação covarde do imprevisto sem sequer termos tempo para olhar para este nosso imenso umbigo sem a mínima higiene necessária. Só porque nem ao menos nos respeitamos... Saímos por aí, perfeitos fios desencapados a procura de coletivizar nossas angústias e vazios, afinal achar culpado(s) pelo (nosso) bem maior é o objetivo que mais respeitamos. Quem sabe o segundo seja chocar...

3 comentários:

José María Souza Costa disse...

Ola, Rafael bello
Bom dia.

lendo esta crônica, que chamarei de coisas do cotidiano, fez-me lembrar das do carioca Ibraim Sued, muito popular nos anos 70 e 80 nos jornais: O Globo e do Brasil, ambos do Rio de Janeiro. Mas, retornando a sua escrita, entendo que a cantora Ana Carolina, esqueceu de levar " As Rosas", para o seu publico. Sim, sei que é uma questão de Educação. Mas, volto a contrapor que além disso as Casas de Show, sabem que as pessoas, principalmente da primeira fila, tem a tendência de ficar de pé, como quê, querendo bulinar nos artistas. Precisam adaptar-se estruturalmente. Acontece, que os patrocinadores dessas festas, farras, fanfarras não estam preocupadas com o conforto do consumidor e sim com o vil metal que lhes derrama os bolsos. As pessoas, independentes da idade, estam lá ansiosas, debochadas, despautérrimas, revoltadas e revoltantes. E, buscam nesses espaços, um derramamento de energias negativas.
Creio, que seja senso comum, esse tipo de desrespeito. Até por que a vida, quase sempre é copiada comportamentalmente das bulas da idiotices juvenis.
Abraços, pra você. Felicidades.

Rafael Belo disse...

Obrigado caríssimo. Está correto, só preciso fazer a ressalva que o show foi gratuito (desconsiderando nossos impostos pagos claro)

Anônimo disse...

às vezes em diversas situações de nossa vida, somos levados pela impaciência, por não acreditar mais em soluções, principalmente por parte de nosos governantes, que assistem de palanque os nossos senta-levnta da vida!mamys