sexta-feira, março 27, 2009


Cicatrizes do vento

por Rafael Belo

Na pele, ela tem caminhos com inícios e fins que não levam a parte alguma, diferente das lembranças cicatrizadas pelo vento. Soprado da própria boca com o ar dolorido para continuar. Acácia sabe que o vento há de levá-la no tempo certo, já marcado há tempos. Sabe, porque já esteve acidentada tantas vezes sob tantas formas, que para outros foi mortal. Ficaram dos acidentes, cicatrizes. Uma de cada um. Um vislumbre de uma vida finita, mas longeva.

Sobreviveu em silêncio a explosão de um avião. A aeronave caíra sobre sua casa sem deixar vestígios do que era a casa. Ela dormia de bruços e acordou distante sem se preocupar com qualquer explicação. Não era a primeira vez. Já havia parado de contar quando os números se aproximaram de centenas. Mas, este levou todos da sua família e deixou que a levassem também. Olhou como inconsciente para o vazio em chamas de onde morava. Suas lágrimas correram pelos diversos cortes fundos no corpo e chegavam abundantes ao chão.

Sentiu o vento a levar e lembrou-se da desolação, que ao invés de secar, este novo oceano de tristeza, fartava em uma abundância absurda como se não houvesse terra no planeta, só sal e ondas. O mundo das águas soterrava a sete palmos seu mundo em afogadas dores. Não havia sentido nos pensamentos, apenas um pesar enlutado dilacerando o coração constante a atirando de joelhos ao chão e levando a escuridão a consciência de um desfalecer.

Quando as cicatrizes começaram, a mais vaga lembrança era cair do berço sem ninguém por perto, além das ressonâncias dos pais a dormir em outro quarto. Mas, não podia ser dela esta memória. Como poderia ir tão ao passado? Não! Ela não queria se aceitar diferente, pródiga de algo. Era como todos. O resto é coincidência. Mesmo não conseguindo se enganar desta maneira. Por que sempre sobrevivia sem maiores gravidades?

Após recobrar do fim de tudo que tinha. Ficou ajoelhada por horas. Ainda que doesse mais a alma ao corpo, mas o coração competia por milímetros de vencer. Ela sentiu neste instante, seu negro manto triste de tortura ser despido suavemente. Suas permanentes cicatrizes viraram lembranças do vento, que a afagava e soprava na direção da imensa fogueira de uma vida desperdiçada por incontáveis “ses”, “sou assim mesmo” “o quê vai mudar, afinal?”.

Na própria fogueira de egoísmos, vaidades e julgamentos teve sua Sodorra e Gomorra e sua própria barca. Suas segundas chances eram definitivas desta vez e seus maus pensamentos definitivamente não existiam mais. Navegava em si e acolhia o mundo que via feito uma revelação apocalíptica escrita por dentro da pele em um evangelho de caminhos. Acácia revia seu filme todos os dias, para seguir com o vento adiante e ao menos refrescar o mundo cuidando das suas borboletas.

2 comentários:

Tathy Panziera disse...

Triste...

=/

Rafael Belo disse...

É de essência... Mas é um bonita tristeza hheh