sexta-feira, junho 05, 2009

Destroços


------------------------------- (por Rafael Belo - tirei esta foto há alguns anos no Rio Paraguai)

Foram joelhos no chão, mãos espalmadas uma na outra. Primeiro a cabeça pendia para trás e olhava suplicante para o céu, depois os olhos fechavam-se e o queixo encostava-se ao peito e as lágrimas escorrendo de qualquer forma. Era tudo a ser feito. Nenhuma palavra diria um consolo adequado ou suficiente. Como acreditar na morte de tantos conhecidos sem poder velá-los, sem vê-los... Estão em algum lugar, não se desintegram simplesmente. Não podem ter sofrido tanta dor!
Um abraço me envolve sorrateira e suavemente. Me abraça com um beijo salgado de lágrimas e pressiona-me com muita força. Ela ajeita a cabeça em me ombro esquerdo, depois me olha até a última lágrima de meus olhos e afunda a cabeça como se estivesse apenas sobre meu coração. Nos conhecemos quando nos perdemos há um ano. Estávamos em trilhas praticando esportes radicais quando uma tempestade inusitada inundou a região.
Fomos arrastados por milhares de quilômetros, eu nem pronunciava o nome de Deus e ao invés de me enfurecer com tudo, estava calmo e certo de continuar vivo... O trauma matou muitos, instantaneamente e já não havia quase ninguém sobre as águas. Aquilo tudo parecia um cemitério aquático. Perdi os sentidos ao bater a cabeça com uma árvore arrancada pela fúria da chuva e do vento.
Despertei muito zonzo e ela estava ali ficando roxa. Me arrastei até ela, pressionei sua boca do estomago e então comecei a fazer respiração boca a boca. Passados poucos segundos ela se inclinou e vomitou muita água, me olhou - como agora a pouco – depois desfaleceu nos meus braços. Fomos tidos como mortos, mas éramos os únicos sobreviventes – como agora. Ninguém fala nomes, nem o ocorrido com a carreata de dezenas de vans.
Mas... É assim. É como dizer: “nenhum sobrevivente, nenhuma morte... mas morreram todos...!”. Percorri todo o caminho deles, das vans, de bicicleta. Havia marcas de pneus por toda a pista, mas nenhum vestígio de batidas. Parece ser necessária uma imagem, uma explicação, creio ser o motivo de eu ajoelhar e rezar, é o meu resto e ela? Ela é minha força, minha ligação com a vida, e também rezo por isto.

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4 comentários:

Fernanda Soares Antunes disse...

Como eu já havia lhe tido. Esse texto parece terrivelmente real, chega a incomodar. Quase posso sentir a dor do rapaz.Ficou bom. É possível sentir as palavras, o sentimento.
Gostei muito do seu blog.
bjos
fer

Rafael Belo disse...

UAu! QUe bom qu surtiu o efeito que queria fer. FIco honrado com sua presença e comentário. bjs

La Sorcière disse...

Gostei do que ficou oculto, ou que vc quis manter oculto, ou a sugestão de alguma coisa....a historia é triste, linda e trás um desconcertante traço de realidade...
Realmente muito bom Rafael!
Bj grande!!!!

Rafael Belo disse...

esta era a intenção: o conflito do oculto com o sentimento latente. brigado, La. Beijos ótima semana