sexta-feira, julho 27, 2018

Despertar (miniconto)






por Rafael Belo

Começamos com algumas. Éramos poucas, mas juntas chamamos atenção. Nossos pés sangram. Nossas vozes sangram... Ainda assim continuamos e gritamos! Nós não paramos. Há uma indignação em nós precisando ao menos sair do peito. Chamamo-nos Artes, nos chamam Mulheres. A gente só quer ser ouvida. Não! Não é só! A igualdade vem antes! Queremos criar... Então, nos trancaram em caixas, nos separaram... Tento entender o que fizeram... Foi um período de descrença, de ataques pessoais, de desunião. Parecíamos frágeis e submissas... Parecíamos...

As aparências sempre enganaram. Estávamos ali nos juntando, nos pintando, nos versando, sentindo novos passos surgindo, novas danças, novas canções... Estávamos apagando o invisível e quando subimos ao palco novamente não foi mais esporádico, não havia mais como nos roubarem, retirarem nossos créditos, sabotarem nossa força. Somos artes. Somos valorização. Começamos a revolução? Não, ela já vinha. Ela não parou. Estava sufocada pela mídia como as guerras intermináveis divulgadas como novidades.

Nosso grito de guerra sempre foi: artista não anda só. Estamos despertando todos os dons capazes de estapear a sociedade. Estamos onipresentes. Onde olhar verá algo da nossa responsabilidade e isso irá te tocar. É poesia! É dança! São olhos fechados! São as artes! Quem não esta compartilhando o espaço com a gente, infelizmente, está desaparecendo. Descobrimos a tempo, então te chamo para vir conosco. Temos a cura, mas quem quer o poder pelo poder, não quer a cura...

A cura está no coração, a cura está na alma... Vocês não escutam nem veem agora, mas Eles estão chegando para tentar tirar isto de nós. Eles começam destruindo sonhos, apertando às jornadas de trabalho, encarecendo tudo, roubando nosso tempo, nos induzindo a escravidão, nos desvalorizando, tirando nossa sobrevivência, mas dons e sonhos não morrem por mais que digam que sim. Eles chegaram, mas desta vez não resistiram ao nosso Templo de Cultura. Hoje não somos nós que choráramos de dor... São Eles que choram pelo Despertar!

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