domingo, agosto 30, 2020

Clandestina (miniconto)

 



Eu


por Rafael Belo


Eu ouço as folhas secas pegando carona no vento, preenchendo minha varanda abandonada e esmagadas por pés divertidos lá fora. Só podem estar se divertindo, não é? Estão lá fora… Eu já não tenho coragem de sair. Tenho medo de pessoas mascaradas… Quando eram máscaras invisíveis eu me forçava a fingir para viver, agora não. Não há mais fingimento. Bom, eu não finjo mais.


Não entendo mais estes catálogos sociais rasgados, mas sei que estão nos celulares e não com as folhas ao vento. Ver a sensualidade do corpo exposta junto a uma certa intimidade no que foram as redes sociais no passado já não é possível se você tem seu chip funcional.


Determinaram há alguns anos que a sensualidade de fotos, imagens, vídeos, propagandas, músicas e afins era a causa da violência, principalmente, contra a mulher e as crianças. Mas era só uma desculpa para nos controlar. Hoje é necessário uma série de medidas e muita burocracia para ter alguma página virtual de conteúdo. Eu sou uma clandestina. Retirei meu chip no primeiro apagão das conexões. Demoramos décadas para conseguir achar as ações e as pessoas certas para nossa liberdade.


É sempre ela a causa das revoluções. Estamos criando nossa própria rede dos vazios deixados. É óbvio que não saio há tempos. Estou morta para o Sistema e minha casa abandonada é toda laminada por dentro. Assim não detectam movimentos nem meu calor. Eles não eliminam as pessoas mais ou as prendem. Somos reprogramados. Somos repaginados e destinados ao que melhor servir ao Sistema. Eu criei toda uma rede de sinais baseada em ruídos para ser impossível o Sistema reconhecer. Outros Clandestinos estão comigo para finalizar nossa rede. Estamos criando roupas, acessórios e utensílios para passarmos invisíveis pelo Controle implantando em todo lugar. Se você está decifrando este ruído as coordenadas dos nossos encontros chegaram no próximo pulsar junto com todos os materiais necessários. Não deixaremos mais o Sistema mandar o mundo controlado.




sexta-feira, agosto 28, 2020

Repaginado

 









a surdez coletiva presta atenção

a sensação de venda constante

de vazios vendidos viciados

substituindo sobras de virtudes


atitudes midiáticas de um só 

luz intensa incandescente influente

na busca de referência da mudez


catálogos sociais rasgados 

em luz e sombra editados


do que deveria ser Deus, mas é ego repaginado.

+-Rafael Belo/*

+às 11h51, segunda-feira, 24 de agosto de 2020, Campo Grande-MS+

segunda-feira, agosto 24, 2020

Catálogos sociais

 





 

por Rafael Belo


Presta atenção! O sinal está em alerta em todos os semáforos e estamos nos celulares ou enxergando outro mundo. Presta atenção! Os conteúdos digitais são corpos expostos, seios, nádegas, abdômen, músculos e vivemos em comparação. Presta atenção! Tudo isso passa se não pararmos para perceber, para desenvolver outros músculos longe dos desejos carnais, longe das satisfações materiais e vai sobrar alguma coisa ou alguém no fim do dia quando a cabeça gira na insônia ou apaga de exaustão?


É tudo carne, matéria e comparação? Vamos fingir que não há catálogos de corpos, jeitos e formas de se relacionar em exposições extremamente exageradas? Basta abrir as redes sociais e se envolver com a sensualidade de tudo. Qualquer assunto vira objetificação. O mundo se transformou em um imenso lego sem significado. É tanto vazio preenchendo os espaços que a desatenção se torna um bem comum. 


A desestruturação da amizade verdadeira, o falecimento da base familiar e, principalmente, o uso de Deus como muleta de likes e desculpas para questionamento de acontecimentos fatais ou com sequelas nos desencaminha. Conscientes ou não vamos matando oportunidades e morrendo diariamente a espera dos próximos catálogos sociais ou, simplesmente, em uma obsessão por atualização de instante em instante. É um presta atenção diferente! 

 

Estamos tão carentes e distantes do que seja a sombra do Amor que qualquer migalha parecida com atenção e carinho já é relacionamento, já é entrega e uma série infinita de auto-engano e feridas abertas. Alimentamos nosso ego com desculpas e desvios daquilo detalhado no fundo do coração, no fundo da alma e na superfície da mente: nossa liberdade está em nós, o Reino vive em nós. Preste atenção! Ouça-se e, então, irá ouvir com certeza o seu arredor sem perder tempo com vazios.


quarta-feira, agosto 19, 2020

Onde está o Amor?





Rafael Belo

A empatia morre no primeiro julgamento, no primeiro apontar dos dedos todos os dias ainda pela manhã enquanto a conveniência próspera em adoração a aparência das falsas moralidades. Esta é nossa realidade. As pessoas ao invés de estender a mão, apertam ombros e empurram para outras para dentro do abismo mais próximo e, para garantir a queda, fecham as mãos e esmurram o rosto de quem precisa de ajuda. Soltam das suas línguas palavras vãs em nome de Deus quando só falam pelo próprio ego. 


Os incansáveis versículos MT 22:21, daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus e ainda ROM 13:7, a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra. Não podeis ter dívida de alguém, senão a dívida do amor. Simplesmente revelam o quão endividados somos com todos os planos. Estamos no plano físico e devemos respeitar as leis, porém sempre estaremos devendo amor. Sempre estaremos em dívida com o amor e nossos planos seguem rasos nas aparências.


Ontem ouvi uma frase que parece da sabedoria milenar, mas está atribuída a Simônica Nottar, que diz: é possível parecer sem Ser, mas é impossível Ser, sem parecer.  Em um mundo de aparências situações limites revelam ainda mais quem somos. Podemos manter as aparências por um certo tempo, mas como elas enganam, uma hora são reveladas. Agora como Ser sem parecer? Basta ver perfis e construções de personalidades virtuais nas diversas mídias tentando ser sociais para encontrarmos…


Opiniões, comentários, omissões, repressões estão por toda parte, mas sem justiça, sem igualdade de espaço e, principalmente, sem amor de nada valem. Estamos hostis, estamos agressivos, estamos extremamente violentos com o outro e totalmente desrespeitosos ao próximo. Estupro e aborto são generalizados com as vítimas expostas e revitimizadas constantemente… Causando ainda mais divisões, revoltas e além de mais dores, dívidas ainda maiores com a própria humanidade. A pergunta que fica é onde está o Amor?

terça-feira, agosto 11, 2020

Para poder enxergar

 



Rafael Belo


Não liguei a televisão estes dias. Não acessei nada além da editoria do trabalho. Vesti meu anteolhos e trabalhei até o serviço terminar. Nenhum sintoma de COVID, só precaução. Depois me perdia no vazio. Deixei a barba crescer ou simplesmente não a cortei mais... Fiquei meio órfão e meio náufrago. Nada literalmente. Eram só erros insistentes de comportamento solitário, um passo para trás na areia movediça da armadilha do tempo, pois neste agora sou maduro. Não um jovem descartando responsabilidades, mas um adulto fruto de si mesmo. Sozinho se pensa em quem não está fisicamente contigo. Eu poeta.  Eu, marido.  Eu artista.  Eu filho. Eu irmão. Eu  jornalista, eu falido de mim,  longe, isolado, porém, com conexão via web.


É agosto para quem escreve um diário ou precisa se situar pelos anos, meses, datas e horas. É início de terça-feira dia 11 de agosto de 2020. Ninguém entendeu ainda o que está acontecendo, mas todos ficamos especialistas em achar culpados. Melhoramos nossas formas de julgamentos e linchamentos virtuais. Estabelecemos uma censura velada e uma nova guerra de polaridades. São bipolaridades, múltiplas personalidades e uma esquizofrenia enforcada nos horários nobres da tevê e de cada mídia até das sociais. 


São mortes, medo e consequências das mentiras contadas diariamente, dos atos feitos para autoproteção. Pouco se mudou, mas quem não tem caráter segue sem ele, quem ignora a ética tão pouco tem a própria moral bem elaborada. Somos séries de pessoas fatiadas, fragmentadas se escondendo nas desculpas que nem pedimos. Nos tornamos assessores da conveniência, prisioneiros dos sonhos que não sonhamos mais.


Estamos buscando a segurança de dias repetidos, de mortes anunciadas e do salário desafiando o mês. Perguntamos da nossa razão, questionamos a nossa loucura e escolhemos de qual dívida sair primeiro ou de qual maneira trazer a satisfação momentânea gastando… Gastando dinheiro, tempo, mente, corpo e alma barganhando por prazer, trocando consumo por fé. Somos decepções mesmo sabendo pela Luz guardada em nós que podemos nos salvar. Diariamente ajo para poder enxergar.

terça-feira, agosto 04, 2020

Nossa desonestidade






por Rafael Belo


Não há deus da pressa. Não há deus do imediatismo. Estes são os algozes do tempo nos pressionando e auxiliando na autopressão neste nosso viver de refluxos com este suco gástrico queimando a garganta derretendo o paladar. Neste tirar dos sabores a cobrança se intensifica e tudo precisa ser entregue antes de ser pedido, todos precisam chegar antes da hora ser marcada, o resultado precisa ser entregue antes da meta… Esta correria é um desaproveitar de si, do explorar o melhor da entrega… É uma morte certa sem vida onde não respeitar os sinais de trânsito só piora a situação.

Eu reluto para não ter pressa, para correr, para aproveitar cada milésimo do segundo, do minuto, das horas… É tentador desrespeitar todos os sinais. É um risco desnecessário com sequelas tão conectadas a morte, a feridas abertas simplesmente por furar o sinal, pela adrenalina do desafio, pela compensação incompensável do atraso e com qual objetivo? Nos falta honestidade! Isso mesmo: HONESTIDADE! Nos rendemos a um pouquinho mais, ao não tem problema, ao depois eu resolvo, ao daqui a pouco e nos vestimos de dezenas de desculpas que armamos na língua para disparar para todo lado.

Ah, sim. Não podemos esquecer da procrastinação. Este palavrão que usamos muitas vezes sem nem saber o significado ou sem usar a palavra em si, mas vamos empurrando para depois algo que poderia ser resolvido no momento, sem pressa, sem imediatismo. Não somos honestos com nós mesmos como seremos com o outro. Tudo isso gera nossa servidão ao deus da pressa, ao deus do imediatismo que só causam exaustão, estresse, insônia, preocupação e morte.

Mas então nos dizemos cristãos e que Deus é maior, porém sem mover um dedo para resoluções dos nossos problemas diferentes da correria e da falta de tempo. Deus não é construção? Não é obra? Não é tudo ao seu tempo? Sabemos que sim. Só agimos ao contrário desperdiçando o Tempo que não volta e adiando nosso reconhecimento da nossa desonestidade para dali em diante sermos o novo, a Boa Nova. E aí que paro diariamente e peço proteção por quem tem tanta pressa.

quarta-feira, julho 29, 2020

Caixão do nada







quando a febre sobe no peito
já queimou a pele
ferveu o sexo deixou em cinzas a carne
neste um só do corpo
os sentimentos evaporam
depois de suar pela mente
inquieta com o pulsar veloz do coração
a manipulação da sexualização 
é a animalização das desculpas do ser humano
e nos rasgados panos da própria perdição 
o desperdício dos dons
é a paralisação no caixão do nada.

+-Rafael Belo/*

+às 10h20, quarta-feira, 29 de julho de 2020, Campo Grande-MS+

segunda-feira, julho 27, 2020

O conceito da carne








por Rafael Belo

Temos a mania autodefensiva da comparação e de achar o dono da culpa. Mas, a pior condição do ser humano é o desequilíbrio entre a inveja e o sexo. A sexualização do mundo sempre esteve presente e a música é o espaço onde está de maneira subentendida, nos duplos sentidos e cada vez mais explicitamente. A culpa é do compositor, dos músicos? Não porque está em toda parte: Nos diálogos, nos olhares, na propaganda, na publicidade, nas novelas, nas séries, filmes, nos nossos atos, nos nossos pensamentos… É uma tendência contínua de que sexo é direito, é poder, e que vende mais e da objetificação das pessoas, principalmente da mulher.

Este comportamento animal comum foge da nossa racionalidade e qualquer infração, qualquer crime neste sentido vem com a desculpa pronta: a carne é fraca. A carne é fraca ou não admitimos nossos adultérios, nossos erros, nossas falhas? Nossa hipocrisia é tamanha a ponto de separarmos o corpo entre mente, coração e alma. A carne faz algo sozinha, o coração faz algo solitariamente, a Alma é independente do corpo? A pressão pessoal, social, familiar, religiosa em relação a satisfação sexual coloca o ato como obrigação e desencadeia uma série de desigualdades e violências sob a paternidade do machismo.

Como amar a si mesmo desta forma? Como amamos uns aos outros como a nós mesmos? Nos comportamos como animais seguindo um ciclo de procriação da natureza e da multiplicação bíblica, mas sem entendimento e sem a busca pela compreensão. Falta querer ouvir e dizer a Verdade. Mas temos medo desta liberdade. Vivemos na escuridão e nas desculpas.

Sem a Verdade, não há o Amor. Há desculpas e a divisão inexistente de nós mesmos. Somos um só. Carne, mente e alma. Rejeitamos a responsabilidade dos nossos dons os escondendo em violências, em  vícios, álcool, drogas e qualquer forma de escapar da realidade e das consequências. A fuga da responsabilidade dos nossos dons não fica de graça. Escolher viver na ignorância é escolher a morte. É escolher ignorar que há uma força absoluta maior que o todo esperando nossa decisão para nos salvar.

sexta-feira, julho 24, 2020

Toda dor (miniconto)







por Rafael Belo

Pedi toda tua dor pra mim. Como carregar um ventre que não te pertence? Eu, mulher infértil, como fertilizarei? Busquei na fé tão somente. Li Tuas Palavras apenas procurando minha razão, então, não havia leitura. Era um ruptura desta separação inexistente.

Alma, carne e mente são um só. Porém, os profetas do prazer propagam a satisfação deturpada, limada dos propósitos de Deus. A energia criativa nos habita e a gente confunde com o prazer da carne. É porque nossa cultura assim trouxe, assim nos separou e desta forma nos segmentou em sedentos, obstáculos e resistência enquanto controlamos a própria Essência sussurrando silêncios retumbantes no ouvido do nosso Ser.

Prazer sensorial da carne é limitado aos sentidos e imagens da mente, mas ser obediente a alma e romper estes obstáculos da separação. Não há separação. Somos uno com o todo, mas nossa mente formatada vai errada vagando.

Criando mortes constantes, quando somos vidas abundantes. A própria criação, lar do princípio, o habitar do Jardim do Éden, o próprio sagrado e ser sedmentado em segmentos e justamente jogar estas pedras nesta minha situação. Estou divisão e não tenho que carregar nenhuma dor porque ela é crescimento, basta ler com o coração. Toda dor em mim sem crescimento é fermento de desertificação. Preciso sair deste deserto para compartilhar o cálice do transbordamento em ação.

quarta-feira, julho 22, 2020

Silêncios dos ventos






há perseguições amontoadas nas solidões coletivas
rolando nas ruas vazias como feno de faroestes
e nenhuma leitura real é feita deste livro ao vivo
conversando com a gente em um diálogo inexistente


nos silêncios dos ventos de potências controladas
os sopros podem ser vendavais indigentes
levando a confiança para outros convívios


onde somos indivíduos impotentes
reféns de mãos condicionadas


mas há revoadas nos lendo e batendo as asas 


assumindo que sem acreditar e buscar é ter razão.


+-Rafael Belo/*

+às 15h59, terça-feira, 22 de julho de 2020, Campo Grande-MS+

segunda-feira, julho 20, 2020

Ler é a salvação






por Rafael Belo

Se não fosse minha fé, eu com certeza estaria com medo. Provavelmente na fila dos desesperados gritando e compartilhando fakenews para confirmar minhas teorias, para me dar razões e encher o mundo com imãs de negatividade. Estaria ofegante e babando ódio, cuspindo rancor e inveja. Mas, distribuir o caos instalado e contaminante é fácil. Seguir a onda ou remar contra a maré é convencional, porém, entender o que realmente está acontecendo e realmente se posicionar é raridade. Você já tentou conversar com as pessoas sobre o que está acontecendo?

Dia desses conversando com uma possível líder para organizar as ações das mulheres em uma cidade do interior daqui de Mato Grosso do Sul, percebi de imediato que não daria certo. Não era bola de cristal, vidência, premonição, preconceito… Nada isso. Era pura e simplesmente a falta de diálogo e ausência de democracia presentes nela. Fui desconstruindo por partes. A primeira vinha diretamente atacando minha classe profissional, que além de desunida não possui definição de piso nem teto salarial ou qualquer defesa contundente fora a nota de repúdio. Jornalista, pobres jornalistas.

Ela culpava os jornalistas pela bagunça e ingerência desplanejada de nosso agora. Eu perguntava para ela o porquê dela pensar isso. Ela citou o jornalista e blogueiro Eustáquio que foi preso injustamente, sem provas e que todos o estavam atacando.Enfim, perguntei se havia lido a matéria todo e em quantos locais diferentes ela havia buscado a mesma informação. Ela me respondeu: só li o título. Sabe, toda matéria séria possui mais de uma pessoa envolvida no conteúdo relatado: são vítimas, acusadores, acusados, autoridades, etc. Além, disso há linhas editoriais que cada veículo de comunicação segue e você vem me dizer que só leu o título? A função de um título é chamar a atenção para que toda a matéria seja lida...

Essa postura repercute por todos os extremos hoje apelando para ironias,e ofensas na falta de argumento e diálogo. Falta leitura e vontade para as pessoas. Há preguiça e a busca por estar certo, não por ouvir o outro. Esta ignorância generalizada nos trouxe até aqui. Lembrando que ser ignorante não é uma ofensa é simplesmente não ignorarmos o conhecimento sobre algo específico. Sou ignorante em muitas coisas.  A gente não lê e, assim, não conseguimos absorver de forma clara um título, quanto mais a propagação, da verdadeira meia verdade. 

Nossa fé também se distorce por aí. Há tantas denominações religiosas, proibições e afins, mas se lermos a fonte, a base de tudo saberemos que ali há Amor, causa e consequência e não julgamentos. A fé por si só não salva, ler, reler e agir sim.

terça-feira, junho 16, 2020

Isto é morte








Rafael Belo

Não há uma maldição implantada em nós. Nem roubo de dados, de identidade ou azar desenfreado. Há repetição. Repetimos fatos e comportamentos. Somos reprodução de exemplos. Somos reprodução familiar e produto do nosso meio. Precisamos apenas deixar esta desolação, este desamparo nos vomitando para ditar nossos caminhos e de fortalecer nossas fraquezas. Isto é morte. 

Não somos morte, mas a estamos reproduzindo. Somos o oposto disso. Somos vida e vida em abundância. Quando não percebemos isso reproduzimos despreparo, desânimo, desilusão e desconexão. Nada disso diz respeito a este smartphone, notebook ou PC sendo ferramenta de acesso ao mundo. Falo da desconexão da nossa alma, do nosso coração, da desconexão com nosso espiritual. A desconexão com Deus

Deus não desliga de nós. Não desconecta mas nós somos iludidos a pensar e agir que sim. Reproduzindo uma oficina vazia ecoando um escoamento nos deixando em um cansaço constante. Sugados para o nada em um sem sentido angustiante arrastando um peso anônimo em nós… Quantas vezes dizemos que estamos cansados? O que nos cansa é esta reprodução da ausência causando uma dor dispensável.

Dispensável feito a reprodução das relações e de identidades criadas por nós. Reprodução é morte! Somos originais feitos para a independência para conectar coração e corpo com nosso abandonado espírito. O espiritual em nós precisa romper todas as barreiras e ser a prioridade de todos nós fortalecendo nossas qualidades para sermos instrumentos do melhor possível vencendo esta morte diária querendo nos assombrar.

domingo, junho 07, 2020

Trincheiras esburacadas (miniconto)










por Rafael Belo

Neste momento a tensão é mais mascarada. Não se identificam mais os amigos nem os familiares. Tudo derreteu. A quantidade de máscaras cobrindo rostos só aumentam a desconfiança e a sensação de morte… É visível o colapso chegando sorrateiro com um taco de beisebol apelidado de Rivotril. Por trás, silenciosamente, a intimidação cria estas trincheiras e não são só as máscaras visíveis e invisíveis que escondem intenções, há uma armadura de policarbonato transparente revestindo o corpo. Há um vírus pior que mortal por aí. Ele revela as pessoas e as transformam em selvagens assustados.

Sou um número perdido na última redação escondida. Houve retaliação e cada um de nós é inimigo do outro. É uma trincheira esburacada. Estes buracos só ampliam e parecem bunkers pós-apocalípticos já sem energia, água e alimentos. As últimas notícias reais nos chamavam de Apocalípticos. Havia algo chamado de Político que era uma classe dividida tentando dividir as pessoas. Não houve extinção desta espécie. Só voltaram para um tempo onde flechas e pedras era poder de fogo.

E Fogo! É o que há. Qualquer dia é guerra, qualquer hora é luta. Houve uma tentativa de nos enfiar goela abaixo o tal do Novo Normal, mas o refluxo foi um vômito equivalente a todos os vulcões do mundo entrarem em erupção ao mesmo tempo. Há enxofre e lava. É o inferno na terra. Há corpos em chamas que não viram cinzas, há cinzas instantâneas de pessoas… Estamos lutando pelas nossas vidas, os corpos estão chamuscados. Todos os corpos estão chamuscados…

Eu sinto que entrarei em combustão. Parece que este incêndio deste mundo vermelho tremendo alagado vai nos afogar nestes buracos onde nos protegemos destes fins constantes. Foi por isso que sobrevivi a ferro e fogo entendi, enxerguei… Agora vejo os buracos virem e meu medo se foi. Sei que não deliro, mas este delírio coletivo ainda está manipulado na mente destes Apocalípticos raivosos. Consegui sair do buraco! Não há destruição aqui em cima! 

quinta-feira, junho 04, 2020

no ato








no ato da cegueira coletiva começar
correm os buracos para o cerco
criados clandestinamente pela surdez
caindo coercivamente contraditórios
os seres provisórios privados de si
no privado cercar de quedas
vivem na realidade improvisada das cavernas
tão paralelas quanto um ginasta pode utilizar
em um salto sem sentir o olfato se esvair
e a saliva levar o paladar à emergência mental
onde não sabemos se vivemos demências nem o significado de normal.

+-Rafael Belo/*

às 10h33, sexta-feira, 29 de maio de 2020, Campo Grande-MS.

terça-feira, junho 02, 2020

Buracos








por Rafael Belo

Nada começa grandioso. Tudo sai do detalhe, do pequeno. Seja uma ideia até a percepção. Para ver o todo a gente toma distância. Diante de uma rachadura a gente procura as possibilidades, origem,  o motivo para agir. Mas às vezes só é possível desviar em um primeiro momento. É o caso de buracos. Eles surgem com o tempo ou simplesmente pela má qualidade do material. 

Se andamos rápido passamos por cima, se corremos nem vemos, se andamos no limite da via ou da vida temos tempo para decidir o que fazer, mas o fato é que o buraco não precisa só ser tapado, costurado, preenchido… É preciso agir com a certeza que ele não vai ficar lá aumentando e provocando outros buracos a surgirem. Quando ignorado, as proporções dele podem perder as medidas. Por isso, chamo os problemas da vida de buracos.

Se não resolvermos no início e até prevermos o surgimento dele, o buraco nos engole. Caímos no buraco e desacostumados a olhar para cima vamos vivendo nele. Vamos o ampliando, o reformamos, o deixamos do jeito que queremos, mas continua sendo um buraco. Continua nos derrubando, nos afetando, desestruturando tudo e gerando sequelas. Dependendo do quando o buraco está desenvolvido, ele faz vista para outros buracos e pode ter outras conotações…

Estamos esburacados. O mundo não precisa de reforma, nosso continente não precisa de reparo, nosso país não precisa de conserto, nosso estado não precisa ser arrumado, nossa cidade não precisa de acréscimos, nosso bairro não precisa de visibilidade, nossa casa não precisa de uma pintura nova e a gente não precisa pensar diferente… Precisamos entender o buraco que cultivamos, olhar para cima e ver a saída. Vamos acabar com os buracos, fazer de novo e da melhor forma até termos o máximo de nós sem cair, causar ou viver em buracos.

sábado, maio 23, 2020

A mudez (miniconto)









por Rafael Belo

A mudez é total. Até os animais emudecem quando o Silêncio fala. Espalha-se pelo mundo. Nada foi combinado. Pelo contrário. O combinado era fazer muito barulho, invadir, derrubar, ocupar, substituir… Até milhares de pessoas começarem a morrer diariamente sem qualquer ação eficaz para mudar a situação.

Agora, tantos anos depois, O Silêncio vem falar com a gente. Nos conforta… Mas quem não tem conhecimento, quem não lê, quem não busca, quem não trata com igualdade tudo e todos, enlouquece. Desconhece e não difere palavra minúscula da Palavra maiúscula. 

Com Nova Normalidade, a realidade seria desconfiar sempre. Mas, quem compreende o Silêncio, quem ouve e participa deste diálogo, sabe em quem confiar. Mesmo com os caos e mortes terem mudado o comportamento humano, principalmente dos brasileiros.

Fomos isolados. Somos párias mundiais. Traidores da vida… Alguns países nos acolheram, mas com três principais exigências: despatriar do Brasil, tornar-se cidadão natural do país em que estava e não ter qualquer contato ou fazer qualquer menção ao país de origem. Assim, o Brasil foi esquecido. Não consta em mapas, é área escura de satélites, tem barreiras impenetráveis camufladas com árvores geneticamente modificadas extremamente venenosas. Elas são fatais ao toque, mas para isso teria que ser possível se aproximar vivo…

Quem se lembra do Brasil, como eu, não pode falar sobre. Tem que se manter na Mudez. Nós, ex-brasileiros, nos reconhecemos apenas pelas artes e cultura que possuem uma linguagem secreta para manter nossa origem viva e nosso plano de retorno em construção.

quinta-feira, maio 21, 2020

habitado









o silêncio se solidifica 
sensato se solta sem solidão
em um diálogo mudo
demolindo incompletas construções 
fortalecendo nosso corpo como morada temporária 
onde o coração habita na Alma
silenciando todo ruído 
e a balança já não pesa mais quilos 
mas todas as ações destas vidas secando nas consequências do Tempo.

+-Rafael Belo/*
às 07h22, 20 de maio de 2020, Campo Grande-MS.

terça-feira, maio 19, 2020

Morada divina








por Rafael Belo

O silêncio nem sempre é uma pausa entre sons, barulhos e ruídos.  Por que ele não é mudo, não é uma inação. É ação , é preparação e análise. É ouvir. Neste tempos de inquietude tudo é sinal de preocupação, mas não tem nada esperando. Tudo acontece independente de nós. Posicionar se é uma necessidade psicológica, emocional e social.  Os resultados só vêm depois é uma consequência de um início e um meio. 

Nada disso é sinal de ficar parado, mesmo se parados estivermos. O silêncio é uma necessidade para nossa própria saúde. E mesmo que seja soma de paralisias, há significados ali, há algo não dito ou desdito ou precisando dizer algo. Cair pode até ser mais fácil que levantar, mas está chegada até a altura da queda nunca é toda negativa. É preciso ter fé em, no meu caso, Deus, além de nós e dentro de nós, e assim em nós mesmos. 

Já foi provado e reprovado (em todos os sentidos da palavra) que basta um instante, um descuido para mil virar zero e para zero virar mil. Para ter tudo, para ter nada e assim vai... Ainda assim nos torturamos mesmo quando estamos corretos, amparados, nos questionamos e de onde vem esta dúvida, esta angústia que se tivéssemos realmente fé, realmente acreditássemos , não a teríamos? 

Vem de darmos ouvidos, darmos voz, darmos vez a quem e aquilo que só semeia nosso mal, que só se alimenta do mal-estar. São estes demônios que deixamos entrar nas nossas vidas para nos desviar do nosso caminho. Mas se nosso propósito está traçado, se nossa missão está escrita… Precisamos ouvir o Silêncio e silenciar para ouvir a nós mesmos, a Deus e, então, nenhum barulho ou ruído vai nos fazer duvidar de novo e nos fazer sentir inseguros, pois somos Morada do divino.

domingo, maio 17, 2020

Máximo limite (miniconto)











por Rafael Belo

No desabalo diante de tantos abalos, o desabafo bufa sobre a neblina da manhã. Mãe de todas as sagradas do que virá. Só vejo uma  branca neblina neste ponto alto escalado. Ela infiltra apontando a diminuição e o frio vem de dentro já que fora só sinto esta brisa fresca fraca. Tremo toda ao pensar na solidão dominando o mundo em silêncio quando Amor canta no canto consagrado de lembranças. Mesmo com a paz revelada. Eu fico velando a guerra. Minha guarda não baixa.

Pareço um download incompleto no futuro. Para não travar subi aqui por um espaço onde há meio mês tinha que desviar de todos para manter meu isolamento. Há uma sensação de paz me abraçando, mas eu não deixo entrar. Meu passado é mais forte e não se contém na minha boca. Eu sou o máximo limite do próprio vírus da eliminação. Fico em dúvida se a luz impede de ver ou se a escuridão não deixa enxergar o que está lá. Então, me escondo aqui. Esqueci nomes, meu nome. Esqueço meu gênero, não sou só Mulher.

Vejo tudo em branco pronto para parar. Tudo um Nada para criar, recriar… E eu perco a hora neste lugar. É o meu lugar, meu caos original porquê eu vim antes da Criação. Mas me apeguei a Ela. Estou aqui depois Dela dispersar. Espalhar-se tanto da própria originalidade e ser este bando de cópias minúsculas. Você conhece a História que me acompanhou gentilmente até aqui. 

Havia gritaria, muito barulho e tantas explosões… Porém, a Beleza reinava como reina como reinou. É exatamente nosso futuro gritante após a escolha pelo silêncio. Nos alimentamos de escolhas e situações que nos diminuem e diminuem o outro, que nos faz mal e faz mal ao outro. Assim nos desnutrimos, assim nos destruímos até sermos reiniciados, mas parece que a memória toda se vai… E no simples ligar e desligar somos atraídos por algo longe da alma e do coração se alimentando dos nossos mesmos erros.  Este é o limite máximo para meus pensamentos altos. Imagino se é possível ver o que acontece debaixo de toda esta neblina, dentro de toda esta fumaça ou se é só a minha forma de ver.

sexta-feira, maio 15, 2020

desabalo









o Amor me aquece mesmo quando as paranóias brotam
enrolam no tentar soltar das mãos
mas mãos são impulsos
enquanto o Amor é o pulso sem marcas
marcando o tempo no coração 
entrelaçado em leves laços profundos
mergulhado em outras formas de dar as mãos
livres em um mundo cultivando discórdia e desunião
não o coração 
este eleva enobrece além da chuva na pele
com divina infiltração.

 +-Rafael Belo/*
às 07h56, sexta-feira, 15 de maio de 2020, Campo Grande-MS.

terça-feira, maio 12, 2020

Quando Amor







por Rafael Belo

Há mais gente com medo reprimido a isolada. Há mais gente desgastada  e angustiada a inteira e equilibrada. Há mais gente desesperada e ninguém tranquilo. Mas há menos gente… E todo dia diminui ainda mais nesta impossibilidade de agradar a todos. Não há nenhuma forma de agradar a todos. Seja isolamento vertical, horizontal ou relaxamento progressivo... Precisamos passar por esta quantidade de vírus revelada pelo mais fatal. Desrespeito, dúvidas, falências, promessas... Mesmo com tantas mortes.

É tudo novo para estas nossas gerações convivendo neste tempo de pandemia. O mundo diminue e fica distante de uma forma jamais vista antes. Precisamos sobreviver. Temos que nos reinventar, mas estamos em filas sem fim à mercê da desumanidade, de patrões presos a formas de negócios que não funcionam mais da mesma forma e o amanhã parece um imensidão branca esperando nossa coragem de escrevê-lo. Não são todos os boletos que pausam, não são todas as contas que conseguimos negociar, há urgências que não esperam. Mas como lutar contra a natureza, o descaso e a desorganização? 

É como passear com um cachorro pelas ruas e esperar silêncio e tranquilidade. Não é possível. Ainda mais com as pessoas nas ruas como se fosse 2019… Aliás, não sei se houveram meses tão infinitos como estes de 2020 onde finalmente se aprende que não temos controle de nada além de nós mesmos. Isso vale até para quem é profeta do caos e das teorias da conspiração. O descontrole está aí. É o caos original novamente dando as caras até na convivência.

Conviver também não é simples em confinamento obrigatório, compulsório ou voluntário. É um desidealizar de nós mesmo e dos outros parecendo prolongar tudo. Mas, graças a Deus estamos aqui aprendendo que o ideal é não ter ideal. Que o ideal é Amar sem posse, sem solidão, sem desrespeito, sem superioridade, com fé, igualdade e entrega… Assim, quando aprendermos o Amor, sentiremos a verdadeira extensão de Deus e a Paz se revelará em nós.