segunda-feira, novembro 23, 2020

Covidado do isolamento

 








por Rafael Belo


Hoje deve ser o décimo dia. Ou os dias se embaralharam tanto que não sei mais qual é, qual foi nem qual será... Quando será que virei Covidado? Talvez em algum momento antes de sexta-feira 13 ou no sábado 14 ou até no domingo de eleições 15, o fato é que detesto dor de garganta. Aos poucos ela veio, virou o que pareceu uma sinusite, atrás do olhos doía. Fui aos médicos CRS, UBS, UBSF, UPA e nada. Oxigenação do pulmão boa, boa pressão, bons batimentos, possível dengue, inflamação da garganta e bactéria da "inflamação ainda sem pus" no estômago. Abre bem a boca. Enfia o instrumento quase na garganta. Usa o estetoscópio em todos os pontos do pulmão…


Peço novamente exame de COVID, mesmo com outro diagnóstico. "A enfermeira já foi embora. Marquei seu teste para terça". Outro médico outro posto. Sentado distante. Receita amoxicilina por cinco dias junto com dexametasona 5 ml e o mesmo de maleato de dexclorfeniramina. Mas e o teste? "Não adianta fazer agora vai dar falso negativo". Saio desnorteado. Volto peço encaminhamento para o teste. Mesma orientação. Vou em outro posto que atende até 18h30. São 17h. "Não atende mais hoje. Não tem ninguém. Volta na terça".  Antes liga para o Disk COVID. Ocupado por horas. Atende. " Você é o número 50". Quase 30 minutos depois. "Tenente fulano de tal, Como posso ajudar senhor". Tusso muito. Várias vezes. Explico. "Só dia 28 senhor". "Não, não tem jeito antes, posso marcar?"


Sábado, 21 de novembro. Teste pago na farmácia. R$ 99,00. Depois de 45 minutos na fila para o exame, a farmacêutica manda para outra fila pagar o teste nasal que eu seria o próximo. "Chegou o paciente de antes senhor. Logo depois é o senhor". Mais 15 minutos de espera. Entro. Ouço os procedimentos. Tapo a boca com um papel. Inclino a cabeça. Lágrimas escorrem enquanto por dois minutos o cotonete específico é girado pela farmacêutica primeiro em um narina, depois em outra. "Deu positivo". Mas nem dá pra ver a marca preta direito. "É o suficiente. Quer dizer que já passou de sete dias". É só.


Ir ao CRS novamente. Consulta para pegar atestado. Pedido de remédio para tirar na farmácia o kit COVID. Faltando Azitromicina em toda o sistema público, mas sobrando nas farmácias particulares. O pior - tirando grande parte do isolamento - é a ausência de olfato. Mesmo sentido o paladar, nada de cheiro. Sempre tive sensibilidade olfativa. Na sexta 20. Esfreguei um desodorante roll on de forte odor nas narinas. Sujou todo o nariz e nada. Foi quando mais me preocupei ainda mais com meu amor grávida de seis meses. Mas a gente é otimista demais, acredita demais nas pessoas e eu ainda não acreditava assim como os médicos que me atenderam… Minha voz também quase se foi. Doía. Se esmagava para se formar na boca. Mas o silêncio do isolamento a descansou para ela não me deixar totalmente. Desde o início da pandemia este é o terceiro ou quarto teste que faço. Todos negativos, menos o último. Quantas pessoas eu não poderia contaminar e até matar se não usasse máscara, distanciamento e álcool em gel? Graças a Deus não infectei ninguém ou infectei? Talvez tenha infectado... Que Deus cure e ela tome as medicações. Não é possível um momento de descuido.  Mas quantas pessoas estão infectadas sem saber? Oremos e não nos descuidemos.

quinta-feira, novembro 19, 2020

Não houve tempo de piscar os olhos (miniconto)

 







por Rafael Belo


Foi como se céu fosse rasgado com um força brutal em um instante sem fim. Tudo ruiu. Todos caíram. Muitos sumiram. Pelo menos um membro de cada família. Mas isso, só foi descoberto dias depois. Era tanto caos quando as pessoas despertaram da queda que pensar doía e só se foi perceber as faltas no momento da reorganização da mente e dos sentimentos. Até lá se perdeu tempo e nada se sentia ou pensava.


Não se via o céu. Nada se enxergava à frente. Era uma coleção rara de esquecimento habitando nos restantes. Febre, mal-estar e dor inimaginável percorria os que restaram. Era assim que chamavam uns aos outros… Mas cada vez que pensavam em equilíbrio e em como ser justo mais fazia sentido a situação.


A mente clareava, o coração falava e tudo era possível ver. As conexões se estabeleciam. Havia reconhecimento e já não havia a pessoa ali no momento da aceitação. Mas, antes gritos incontroláveis cortavam tanta cegueira vindos de todas as partes. Eram aqueles que não aceitavam. Aqueles que falhavam no último processo. 


Só quem já não estava ali enxergava. Entendia não poder intervir. Cada um tinha seu momento de escolha. Havia lágrimas escuras da cor de um horrendo odor pairando denso, áspero e barulhento na dominação daquela terra já perdida. Era exatamente A Terra agora se abrindo com o som sangrento aos ouvidos repetindo o rasgar dos céus. Não houve tempo de piscar os olhos diante do fim iminente. 

quarta-feira, novembro 11, 2020

custeados

 





a Liberdade queimou a venda da Justiça

cruzando os braços da estátua do cristo carioca

trazendo o alto da crista

da onda afogando mágoas com palpites


despistes do desequilíbrio

queimando a vida no combustível gasto

incendiando pastos

anotado no pagar depois


apagado no estouro do gado

marcado onde ninguém notou


nota riscada da manada vendida


vencida na validade desta estrada não pavimentada

construída cheia de custos

destruída quando esquecem

cabe ao Eu ser Justo.

às 11h49, quinta, 11 de novembro de 2020, Campo Grande-MS.

+-Rafael Belo/*




segunda-feira, novembro 09, 2020

Somos injustos

 




por Rafael Belo


Eu olho ao redor e só vejo injustiças. Paro e reflito se é isso mesmo. Busco entender o que é ser justo. Leio o significado, procuro na Palavra e percebo o peso de carregar esta cruz. No mínimo ser justo é conceder igualdade a todos em tudo. Mas mais uma vez, humanos falhos que somos, não respeitamos o outro. Nem nas filas queremos ficar.


É justo você julgar alguém? É justo você não ouvir o outro? É justo não se pôr no lugar do outro? É justo cobrar algo de alguém (se esta pessoa não estiver te devendo)? Somos injustos porque tendemos, obviamente, a não enxergar o todo. Ficamos contidos na nossa visão se nem sequer querer entender as outras partes envolvidas. Seguimos cultivando rancor, raiva e frustração.


Não buscamos a Paz, buscamos a razão. Não buscamos a harmonia nem o equilíbrio, buscamos prolongar situações que até poderiam ser ignoradas. Somos criados desta forma. Poucos de nós cedem, ouvem, deixam pra lá quando necessário… Estamos desunidos. Preferimos falar causando constrangimento ou confusão a calar e esperar conversar no particular ou em outro momento. Há mais desconversa ou oportunidade de falar do que escutar e, se avaliarmos com Verdade, poucas vezes somos justos.


É justo passar no semáforo fechado sem qualquer fator que nos leve a pensar estarmos em risco de morte iminente? Ir em alta velocidade de carro vai fazer diferença no nosso atraso? Furar a fila no supermercado é justo com quem está esperando? Entrar na vaga de estacionamento que outra pessoa já estava entrando, é justo?  Ofender, gritar, agredir é justo? Só Deus é justo, nós, cristãos, assim somos considerados. Mas se não tentarmos agir com justiça sempre, quem somos? Quem seremos?

sexta-feira, novembro 06, 2020

Idiopatas

 







o silêncio não se omite

ele grita todas as intenções

nesta preguiça culposa

cheia de flores cheirosas

escondendo as plantas venenosas

se alimentando da alma das nações

deixando todo um povo sem noção pensar ter opinião

estuprando mentes e corações

parindo aberrações democrática fingindo demência ao não saber ter decência

na desigualdade e injustiça somos tão escuridão

no absurdo que mata frutos dos idiopatas. 

+-Rafael Belo/*

Às 08h36, Rafael Belo, sexta-feira, 06 de novembro de 2020, Campo Grande-MS.

quarta-feira, novembro 04, 2020

Estamos indo repetir nosso fim






por Rafael Belo


Estamos em uma sociedade culposa às avessas, ou seja, que tem intenção de fazer o que faz, mas finge demência. A injustiça reina nas brechas da lei, na imoralidade e até na amoralidade pregadas como liberdade de expressão. Os limites foram esquecidos em algum tapete perdido encostado em qualquer lugar varrido para baixo de outro esconderijo. A Justiça é minúscula e parcial diminuindo todos os que deveriam - por lei ou por consciência - serem iguais. A verdade é que tudo feito às escondidas antes, agora é exposto com orgulho.


É vergonhosa a desigualdade e a exclusão ensinada longe de quaisquer faces do Amor. O medo está mais forte na atuação dos nossos governantes, na imposição dos líderes ou simplesmente daqueles que falam enquanto outros calam. As conquistas da humanidade sempre chegaram atrasadas no Brasil, mas o retrocesso sempre chegou antes do entendimento dos acontecimentos. Assim, na hora das injustiças brilhamos em descaso, covardia e humilhação. Inventamos um crime. Estupro Culposo jamais será aceito. 


A legalização de tudo no Brasil depende de quem privilegia.  O voto feminino aconteceu em fevereiro de 1932, mas somente para as mulheres casadas e com autorização do marido, viúvas e solteiras com renda própria estavam previstas no Código Eleitoral, baseados no Estatuto da Mulher Casada, onde a mulher só podia fazer o que o marido permitia. Apenas em 1934 acabaram todas as restrições e em 1946 a obrigatoriedade do voto alcançou plenamente as mulheres. Nesta época já haviam passados 12 anos da única e primeira mulher eleita deputada federal, a médica, escritora e pedagoga Carlota Pereira de Queirós. Ela também foi a única mulher participante da Assembleia Nacional Constituinte (responsável pela Constituição de 1934).


Ainda assim, só na Constituição de 1988 os direitos das mulheres ficaram realmente garantidos. Esta repressão patriarcal machista voltou sem precedentes lembrando a filósofa existencialista, Simone de Beauvoir. No livro O segundo Sexo, Simone de Beauvoir diz:  Em verdade, a natureza, como a realidade histórica, não é um dado imutável. Se a mulher se enxerga como o inessencial que nunca retorna ao essencial é porque não opera, ela própria, esse retorno. Os proletários dizem" nós ". Os negros também. Apresentando-se como sujeitos, eles transformam em" outros "os burgueses, os brancos. As mulheres - salvo em certos congressos que permanecem manifestações abstratas - não dizem" nós ". Os homens dizem" as mulheres "e elas usam essas palavras para designar a si mesmas: mas não se põem autenticamente como Sujeito.


Somos sujeitos aos desmandos e injustiças, mas a fé sim salva. Fé e esperança com atitude e posicionamento na realidade. Então, ainda há quem se escore pela diferenciação de tratamento entre gêneros na Bíblia. Basta lê-la para saber ser ao contrário. Em Deuteronômio 16:19 está escrito: "Não torcerás o juízo, não farás acepção de pessoas, nem tomarás suborno, porquanto o suborno cega os olhos dos sábios e perverte as palavras dos justos." Sabemos bem qual caminho tomamos e para onde tanta desigualdade e humilhação nós leva. Se não sabemos, já chegamos ao lugar onde todos estão se permitindo ir.

segunda-feira, setembro 28, 2020

Escute seu coração

 





por Rafael Belo


Nós deixamos de escutar nosso coração. Passamos a seguir impulsos e pensamento guiados, conduzidos, viciados pela repetição. Não há só inversão de valores engasgada na garganta, mas inversão de prioridades e de criação com produto. Quem cria mentiras as torna verdade e as verdades as faz parecer mentiras. Entre nós os maus sentimentos, os maus pensamentos e falas com atitudes negativas proliferam como ervas daninhas


O caminho da Verdade foi pintado de ruína. Esconderam a Liberdade e Salvação. Discursos e posicionamentos de perdição foram introduzidos na nossa mente dourados em um altruísmo que é egoísmo tudo acobertado em inversão. Quem não lê, quem não busca respaldo da fé, chafurda neste mal. A dúvida e o tormento são as dores manipuladas arrancando a carne a unha enquanto o espírito grita pelo despertar na alma, coração e corpo. Trindade da união, da unificação onde um vai o outro está. 


Estamos onde? Este caos organizado pela dúvida, confusão e tormento nos faz seguir o primeiro a focar soluções em nós mesmos, no eu… O princípio é partir de nós. Arrumamos a casa, ou seja, nossos problemas e dúvidas para poder ajudar, mas precisamos começar por acreditar em nós mesmos. Fé em Deus, fé em nós e fé no próximo. Quaisquer notícias falsas e mentirosas são desvendadas, reveladas, descobertas, desmentidas buscando a fonte. Ser conveniente por concordar com o que está sendo dito é se enquadrar, é se associar, se igualar as injustiças e males consequentes. 


Se textificarmos e testificarmos toda informação que chega até nós não erraremos o menos possível. Vamos errar sim porque somos humanos e falhos. Quantas vezes deixou de ouvir seu coração e algo que poderia ser evitado aconteceu? Fui tantas vezes surdo a ele. Há tempos não sou mais. Já pensou que pode ser Deus falando contigo no seu coração? Tudo o que aqui foi escrito está lá em todo o capítulo de Provérbios 7 e Segundo João 2 onde nossa atual realidade está retratada. Quando reflito antes de agir penso o que Deus diz sobre isso e aguardo a resposta que sempre vem.

sexta-feira, setembro 25, 2020

Canção Íntima (miniconto)

 










por Rafael Belo


Aos gritos parei o trânsito na manhã. O fluxo de buzinas esperado não aconteceu. Não me xingaram. Não me cantaram. Desviavam apenas… Eu não falava após os gritos. Só olhava para as galerias fluviais abaixo de nós. Aquelas águas fluindo esquecidas debaixo da cidade. Apesar de toda a poluição sonora, eu ouvia e ainda ouço aquela correnteza.


Ela me chamava. As águas me chamavam. Só de olhar eu corria com ela. Só de olhar eu estava totalmente imersa nas águas correntes. Minhas correntes foram arrebentadas. Saí do estado hipnótico da rotina cansativa de acordar se matar de trabalhar dormir e entre isso pagar contas, arrumar uma forma de esquecer, usar sujar lavar roupas e repetir, repetir, repetir…


Quando percebi a leveza da gratidão, voei e neste instante sigo mergulhada nas galerias das águas que me limpam e me lavam até a alma. Aqui, imersa, me sinto imensidão porque se dizer imensa começo uma dieta no instante seguinte… Enfim me sinto O Todo e me espalho sem parar. Não há palavras para ouvidos absorverem, todo o diálogo vem do coração com a alma. Ninguém pergunta nada.


Em alto e bom som o silêncio despolui a cidade, despolui as pessoas... Eu sou instrumento deste Som do Coração. Uma Canção Íntima particular de cada um. Única. Nesta constante imersão sou um convite vivo. Todos são quando sãos ou na consciência da loucura constatada pela ciência por acreditar no que olhos sem fé, sem Amor derivado do Philautia (por nós mesmos), além do Pragma (dedicação ao bem maior), diferente do Ludus (por diversão, por prazer), superado do Eros (romance, paixão e desejo), consegue ser maior que Philia (por irmãos e amigos) e avançado do Storge (incondicional para pais e filhos). É o Ágape (incondicional para todos os seres vivos com conexão com a natureza, a humanidade e Deus) manifestado em nós, testemunhas de Renascimentos.

quarta-feira, setembro 23, 2020

Elo Eterno

 






aquece o sol a face

olhos fechados para sentir

um momento pessoal

refugiado no particular 


não há seres devastados no abandono

neste imediatismo precoce

na falsa crença da incapacidade


no nosso nítido coração habita

a mais divina pulsação


revela nossa ligação de cor no real envolvimento de nunca estar só.

+-Rafael Belo/*

+às 07h29, quarta-feira, 23 de setembro de 2020, Campo Grande-MS+

segunda-feira, setembro 21, 2020

Imediatismo precoce








por Rafael Belo


Mais um sinal fechado e a opressão do mundo assola. Tenta controlar nossa mente criando um cenário desanimador a frente. Sinais de ansiedade, estresse e imediatismo precoce tentam invadir nossos corpos em plena segunda-feira. Carros aglomerados no atraso inusitado enquanto uma aparente tristeza se engalfinha com a raiva real no engarrafamento desnecessário.


Tantos carros nas ruas é uma normalidade que não deveria ser normal nem quando era. Parece obra do diabo. Pessoas se endividando para comprar seus veículos particulares, pessoas se endividando enquanto aguardam o próximo coletivo lotado ou já estão se arrastando dentro de um deles, pessoas sem dormir direito dando alterações corporais tão grandes… Zumbis zanzando na vida prontos para ser colhidos exatamente pelo que não acreditam.


Um imediatismo precoce claramente redundante criando a desarmonia desnecessária da nossa arritmia ou taquicardia mais a sensação fria no estômago… Nos coloca aptos para sermos controlados, nos qualifica para a manipulação, no enquadra nos prontos a passar dos limites da lei, da moral e da humanidade. Ficamos em uma distância calculada do envolvimento real com, inclusive, nossa família e amigos.


Assim, vazios, somos ocupados pelos maus sentimentos, maus pensamentos, pelas reclamações e todas as coisas negativas nos curvam diante de quaisquer barreiras feitas de misturas de "nada vai mudar" com muitos de "é assim mesmo", "não adianta" e "você não vai conseguir" aliados a todas as variações criadas para nos fazer sentir incapazes e solitários. Porém, isto tudo é a criação do inferno das escolhas erradas ou do "deixa a vida me levar" de onde podemos ser salvos primeiro percebendo e depois tendo consciência da necessidade do respeito e equilíbrio entre nosso corpo, nossa mente e nossa espiritualidade. Ao sabermos da indivisibilidade destes, nossa Luz reacende e reascende revelando a constância de Deus na nossa vida.

sexta-feira, setembro 18, 2020

É tudo fé e pé (miniconto)

 








Rafael Belo


Acordei e o ano mais uma vez não passou. Olhei ao redor as oportunidades despertas selvagens feitas animais no mundo ainda sem nomes, curiosos e ariscos como toda infância desconfiada. Sentei-me e fechei os olhos ao respirar fundo. Lá fora os estalos do fogo alastrado circulavam minha casa molhada. Eu fluía feito fluvial água e nem me lembrava de ser um elemento essencial da natureza. Ainda que repousando em certos pontos em outros eu corria e continuava intacta sem evaporar ou perder uma gota.


Fui tomada e derramada dentro de um corpo invisível sem proporções. De repente tudo ficou do avesso. Sentia-me morada. Era habitada por uma extraordinária Luz. Ela era um Amor tão extraordinariamente longe dos padrões humanos que eu me prostrava, mas não havia o meu entendimento total. Até eu dizer Eu Te Amo. Aquela Luz era Deus por toda parte. Eu disse: Eu te Amo Deus. Preenchi-me assim. Não era feita minha vontade mas algo bem superior a ela.


Uma coletividade universal percorria minha superfície e não precisar compreender me levava a uma compreensão onde o meu temor era reverência, assombro diante da grandiosidade do Criador de tudo. Não tinha medo dele. Medo é o contrário de Amor. Não se Ama quem te faz sentir medo. Sem medo eu fui. Sem medo estava sem vestes e incendiava junto ao mundo em chamas. Apagava destruidores e acendia os purificadores. As labaredas deste Amor me consumiam e recriavam. Eu era mais de um elemento.


Eu estava sentada vendo as cinzas trazerem de volta o carbono consumido no vento percorrendo os quatro cantos da existência. Não havia aparência e onde ainda existia terra, era eu também. Mas, no centro de tudo eu pulso, eu bato, Eu Sou…! O Verbo se declama, se derrama e se renova. O passado chama presente chama futuro e volta. Ciclo... E tudo é fé e pé. Eu acredito, eu Amo e piso onde a um instante não havia chão. Eu sou ser humano, semelhança do Criador. Todos somos!

quarta-feira, setembro 16, 2020

protótipo da pequenez




falham as línguas falham os olhos

com a própria vontade sendo feita

eleita por aclamação pessoal

acima de toda moral


em queda espiritual no desequilíbrio

nada é bem ou mal somente

há muitas sementes jogadas na área cinzenta


neste concreto impróprio

protótipo da pequenez


não basta só sensatez é preciso alma coração

e a emoção de estar o próximo.


+-Rafael Belo/*

+às 20h17, 16 de setembro de 2020, quarta-feira, Campo Grande, Mato Grosso do Sul+

segunda-feira, setembro 14, 2020

Seja feita nossa vontade








por Rafael Belo

O mundo em sociedade é tão egoísta e escuro. Cheio de segundas intenções e indiretas. Nós queremos impor nossas visões e desejos ao outro não importa a opinião e a disposição dele. Queremos ser vistos e ouvidos, mas não ouvimos e vemos as outras pessoas. Somos falsos cristão? Não seria tão radical, porém, por mais aprendizagem que estamos tendo não agimos pelo todo e sim pelo eu dizendo que seja feita nossa vontade.


Vindo pela manhã avistei lá a frente uma senhora varrendo enquanto um ônibus coletivo público ia na direção dela. Ela avançou para varrer forçando o motorista a diminuir e depois voltou tranquilamente a varrer a calçada. Pouco depois quase o mesmo aconteceu com um senhor… Enfim, varrer folhas embaixo de árvores em meio ao vento é uma atualização de enxugar gelo? O risco para limpar ruas e calçadas vale à pena? 


Nossa vontade se impõe o tempo todo. Não sabemos viver em sociedade. Não queremos ouvir. Nossos desejos nos controlam. No entanto, quando precisamos perceber que nossos pensamentos, sentimentos e posicionamentos ferem o outro, despercebemos. Soltamos nossos pensamentos e julgamentos independente de nos colocarmos no lugar do outro, independente se havia outra maneira de tratar a situação, independente das outras pessoas porque na verdade se trata de nós.


Nossa força de vontade ao buscar algo para nós mesmo deveria ser o mesmo pelo coletivo. É claro que é difícil ser altruísta, ser empático, ser cristão, mas é desta forma que desejamos viver? Machucando as pessoas? Diminuindo o outro ou não dando a ele a oportunidade merecida? Quem somos nós, afinal, além de julgadores baseados no sentido mais falho do homem depois da língua, os olhos? 

sábado, setembro 12, 2020

Nada há de sentir falta (miniconto)

 





por Rafael Belo


Havia uma falatório me incomodando. Não sabia se era a minha realidade ou se todos enxergavam os mundos que agora eu via. Há tanto cansaço vivendo de maneiras tão diferentes no cotidiano desgastado que é fácil ser vítima de uma má índole qualquer.


Olho as pessoas e vejo todas as versões dela. Tento unificá-las em quem são realmente e, normalmente, se é que há algo normal, não é nenhuma das que vejo. É alguém soterrado profundamente naquelas personalidades construídas.


Converso com cada versão. Elas parecem me reconhecer e lutam para permanecer originais. Querem viver nestes corpos rasos esperando serem profundos mas do profundo vem a Alma correndo feito um mar universal habitando paciente pela permissão de retomar seu lar e transbordar.

Algumas me atacam. É algo que jamais pertenceu aquele ser humano. São projeções de adaptações forçadas a um mundo domado de desejos por manipulações de realidades. Eu Sou A Verdade e nada resiste a mim. Comigo todos serão Alma e ninguém mais sentirá falta de nada por mais que algo falte.


quinta-feira, setembro 10, 2020

Capaz

 







a manhã se esfarela

quando a desarmonia amanhece

amanhã acaba

antes da intenção

o medo do erro bloqueia

toda única imensidão 


da nascente espelho fluindo de nós

algozes do mundo paralelo

elo quebrado da união 


em silencioso conserto

no concerto da direção


a audição é capaz de falar.


+-Rafael Belo/*

+às 07h48, 10 de setembro de 2020, quinta-feira, Campo Grande-MS+


terça-feira, setembro 08, 2020

Não cale a Voz em ti







por Rafael Belo

Há uma realidade distorcida pelo nosso medo de estarmos errados. Uma adaptação para nossa verdade andando vedada. Teme-se ceder ser fraqueza e vive-se com sede independente de quanta água se beba. São estas distorções junto às alucinações pela falta de água responsáveis por criar realidades paralelas. Mundos inteiros feitos aos próprios olhos dando importância ao que não importa. 


Esta manhã observando um morador de rua entrar na recepção da redação, sair com um cafézinho, feliz e cantando me desejando bom dia, percebi que ele não vive em uma realidade paralela e ele se Importa com pequenos gestos, detalhes da vida e desimportâncias do cotidiano corrido, atropelada pela tentativa de conforto no sacrifício do tempo. Gastamos tanto tempo resistindo ao invés de fluir, de ser o rio capazes de sermos.


A simplicidade de ser, a humildade de existir não significa pobreza, humilhação. Muitas vezes é a maior riqueza. Podemos ser simples e humildes ao mesmo tempo de prósperos e com bens materiais. Mas não sabemos discernir, conhecer ou buscar a sabedoria para entender como isso é feito. Vivemos assim lamentando flashes da nossa vida passada incapazes de voltar fora das lembranças.


Remoemos assim desnecessidades. Jogamos fermento na raiva, amarguramos o coração, guerreamos contra tudo e contra todos em uma vitimização tão invertida que a confusão não cessa nunca. Um ciclo vicioso incapacitado de olhar e se colocar na pele do outro por não acreditar ser possível, por na verdade ter calado seu próprio templo clamando por paz, clamando por ser ouvido. Deus fala com a gente a todo instante, mas colocamos todos os obstáculos à frente com medo de não sermos capazes. Mas além de sermos, Deus não desiste de nós.

sábado, setembro 05, 2020

Mundo Janela (miniconto)

 



por Rafael Belo

Quando o assunto é treta não há outra urgência. Não sei qual é a curiosidade humana pela desestrutura alheia, pelo mau olhado do outro, mas tudo para se souber da chamada treta. Olhos se esticam, orelhas se levantam, as mãos coçam, a boca saliva, a pele se arrepia e até o olfato se aguça… Estou olhando as janelas com insufilm. Diferente da apresentação através delas, quase não há vida humana lá fora. As pessoas foram obrigadas a ficarem em casa. Nós recebemos há 1 ano uma notificação de monitoramento onde somos amparados com rede ampla e de real alcance mundial antiqueda. Nunca caiu nosso sistema… Porém, não caímos na real a tempo. Recuamos a primeira dificuldade.

Eu observei as plantas crescerem junto ao silêncio. Não há mais ninguém lá fora. A mesma árvore que se apresenta a mim em três versões por três janelas lado a lado é aquela que cobre tudo aquilo que foi minha rua de referência. Ela está seca em uma, verde em outra e seca novamente na terceira. Fiquei hipnotizada. Não ventava. Talvez um assovio do silêncio aqui, outro ali… A Natureza me chama. Ela retomou seu espaço lentamente. Não há quaisquer vestígios nem nada documentado sobre o ocorrido no último ano. Fomos absorvidos…

Absorvidos pelo tempo, pelos mundos nas telas, pelo silêncio, por uma paz estranha nunca sentida no último século. Sinto ainda estar hipnotizado. Será apenas um ano? Perdi um ano ou mais? As pessoas foram mortas? Só eu fiquei sozinha em casa e obedeci? Não! Todos os meus conhecidos, amigos e família pelo mundo falavam comigo por vídeos e mensagens… Mas, há quanto tempo nada vejo, nada falo… Nada faço? Há algo na minha memória inacessível por enquanto. A janela me chama. Acende uma chama em mim me desestabilizando, me deixando tonto… Fala comigo! Isso! Ela fala comigo…!


Agora me pergunto o motivo de eu não me aproximar da janela. Havia algo nas instruções sobre. Quais eram as orientações? Não importam mais! Estou colada a janela. Há algo reconfortante me levando a abrí-las. Fora deve circular dentro agora e dentro precisa circular fora já. Estou saindo. Preciso ir até onde os ids das pessoas apontam a localidade delas. Vou me libertar. Engraçado como nossa Luz não consegue ser guardada na escuridão ainda mais quando encaixotada desta forma. Me misturei novamente no destaque a Luz. O assobio do silêncio agora é a melodia de uma Voz.

quinta-feira, setembro 03, 2020

para caminhar

 




Não parou não deu um passo atrás

Nada de back of ou sair fora

ficou lá na esquina 

obstruída de caminhos


jamais recuaria da sua postura

mesmo percebendo a esta altura o estar fazendo

recusaria qualquer ajuda e recusou


rodopiou em si com desculpas

apontou todas as sentimentais culpas


disparou como balas que estilhaços fazem e fez a então consciência

atravessar o espaço da dor e da razão para seu espírito caminhar.


+às 07h29, Rafael Belo, 02 de setembro de 2020, quarta-feira, Campo Grande-MS+

terça-feira, setembro 01, 2020

Dificuldade de recuar

 









por Rafael Belo


Temos uma dificuldade imensa de recuar. De analisar os desdobramentos de uma ação e reconhecer seja lá o que for necessário. Julgar não está nada passível de aglutinar na palavra sabedoria. Só podemos analisar nós mesmos. Sábio é buscar a paz ou buscar soluções rápidas para um conflito desnecessário. Somos tão falhos e passageiros neste trem descarrilhado para nossa evolução, que não percebemos que o real trilho é espiritual.


Focamos na mente, na razão, nas pequenas coisas da vida inválidas quando se trata de nos fazer bem. Estressar, ficar com raiva, odiar é invisível, porém, palpável. Afeta nossa alma, nosso coração e o ambiente. Faz mal. Há gestos considerados pequenos mas é como dizer que mulheres e negros são minorias… Ouvir, não reclamar, recuar, dar passagem, fazer carinho permitido, estar presente, comprimentar, desejar bom dia, boa tarde, boa noite, boa sorte e Deus acompanhe são desejos que não prejudicam ninguém. Qual o motivo de não desejá-lo ou fazê-lo? 


Fazer o Bem nunca fez mal a quem o faz de coração aberto. Ajudar sem esperar absolutamente nada em troca traz benefícios não esperados e até inusitados ao nosso cotidiano. Somos o prisma das ações que fazemos e desejamos. Somos a lupa de uma Luz nossa particular capaz dos milagres diários que negamos. Quem nunca reparou que um mau pensamento, uma postura negativa e uma negação constante de si fecha portas e ocasiona uma Lei de Murphy. Está onde se destaca que qualquer coisa que possa ocorrer mal, ocorrerá mal, no pior momento possível.


Prefiro me regrar pela lei de Deus. Nela tudo de Bom e Bem para acontecer, acontecerá, no melhor momento possível e nos maus momentos, passaremos como lição para sabermos como proceder, basta acreditar e agir de acordo. Vimos o tempo todo não haver prosperidade nem paz para quem não se reconhece falho e pecador. O pior ainda chega para aquele que escolhe o mau caminho e a estrada da discórdia. Por isso, peço sempre: recue quando perceber não haver nada de bom em prosseguir.