sábado, outubro 29, 2011

Bem atentos nossos ouvidos ficarão


(*Bem aprecia o dia indo, rumando para o fim, distante em seu galho mediano refletindo luz do céu ao chão...  captei há dias no sítio da Fran)


por Rafael Belo

Bem-Te-Vi se empoleirava no galho mais alto no início da dissolução da noite. Não podia ser dito cedo demais, tarde demais ou pontualmente. Era um horário sem tempo pertencente apenas a ele. Bem, escolhia a mais alta árvore mais a leste, bem no oriente mesmo e apontava o bico para o horizonte. Quando o primeiro cálido raio o atingia, suas asas se abriam, suas penas se arrepiavam e o anúncio alvo da manhã vinha da conexão da sua imensa alma incontida no coração. Seu canto incansável chamava a alvorada com o teor de barítono mais envolvente proporcionado pela natureza. 

Só depois da Primeira Hora, Bem avisava: bemtevi, bemtevi, bemtevi... Passava o dia contando a maravilha vista e descrevia de maneira tão visual para seus iguais a tornar impossível estes também não terem visto. O dia se formava de peitos amarelo-sol cheios da verdade do alvorecer e todos podiam enredar para o mundo: bemtevi, bemtevi, bemtevi... Começaram a bem verem Bem e tentavam amanhecer junto a ele, mas Bem sentia quando a noite se entregava aos primeiros raios e nunca foi segundo. No entanto, nenhum imbuído do alvo solar deixaria de ser primeiro. 

A revoada da alvorada, agora, criava eclipses penosos e o amanhecer demorava um pouco mais para todos os outros seres. O estufar do peito e o cantar do prenúncio das manhãs antecedia os galos gritantes e todo o leve amarelo inicial dos pássaros iguais a Bem se transformou no intenso dourado branco. Eles bem esvaziavam a mente e deixava o dia vindouro cantar por meio deles. Agora o local de Bem era de todos e Bem logo partiria para Bem incentivar outras asas a serem o primeiro som gracioso antes do total despertar para o dia. 

Seu canto é ouvido como despertar diferente e sorridente para cada ouvinte. Aqueles que ouvem apenas os bemtevi, bemtevi, bemtevi... Acabam por enxergar a manhã de Bem. Acabam por renascer com vontade de crescer e partilhar a alegria de mais uma manhã e Bem bem fica próximo a todos e às vezes brilha na mente de quem está disposto a ouvir e espera paciente ser ouvido por quem ainda não escuta. Suas asas libertas vão acima rumo ao sol, bem a leste, bem ao oriente e quando repousa, repousa bem no fundo de nossa alma cantando no nosso profundo, aguardando ouvir a hora do nosso cantar.

quinta-feira, outubro 27, 2011

Um pássaro, várias lições


o pequeno pássaro marca o chão encenando a morte para afastá-la, ele vive
por Rafael Belo

A natureza se defende imediatamente ou aos poucos lutando pela vida.  Basta estar atento para comprovar. No quintal de casa mora uma cadela hiperativa. Ela faz do verde sua selva e dos cocos seus brinquedos, até abri-los e comer o interior.  Sim ela aprendeu a abrir. Mesmo com vários nomes, devido ao fato de ter chegado com um esdrúxulo Pintia(?!!), ela sempre sabe quando a chamamos. Nenhum intruso consegue ficar muito tempo no espaço dela, inclusive ratos. Mas, ontem (terça-feira) o maior erro dela aconteceu. Um filhote de Bem-Te-Vi foi abocanhado duas vezes, porém foi salvo pelo meu pai.

Logo em seguida, uma comitiva de bem-te-vis começou a atacá-la. Rasantes e picadas. Enquanto uns a puniam outros a ameaçavam com pios estridentes. Mais observadores, uns terceiros, cantavam os conhecido bemtevi bemtevi. Nunca foi tão assustador tal canto. Agora ela está mais contida perto da varanda pedindo asilo político dentro de casa. Toda oportunidade é aproveitada pelos seus carrascos. No quintal dos fundos, um moribundo filhote de penas tentava sobreviver. No segundo dia era iminente a morte. Eminente era o zelo cego dos pais a procurarem a cria perdida.

Pouco depois do almoço. Os pássaros genéricos do filme de Hitchcock pairavam mais baixo e faziam Pintia revelar um arrependimento quase piedoso de sua travessura por domínio de território. Um pio gritado já ecoava por horas. Lá no fundo, o pequeno pássaro parecia já não respirar. E provavelmente uma ressabiada mãe velava arisca a junção de penas sem vida de uma variação não registrada de som desta espécie. Tinha um quê de descrença nos pios cada vez mais baixos. Mas, para minha surpresa aquele pequeno Bem-Te-Vi não estava mais no mesmo lugar.

Ele se arrastava e tentava erguer a cabeça enquanto seus pais rodeavam e piavam incentivos.  Mas, ele não estava morto? – qualquer som ameaçador era o suficiente para encenar a morte. No chão insistia, piava forte. O pescoço parecia quebrado e uma asa também, mesmo assim forçava a asa boa para se erguer e apontar o bico para o som de quem lhe chocou. Seus ágeis protetores faziam sombra sob o sol e estavam em toda parte.  Ninguém chegaria perto mais. Menor comparado a um punho fechado, poucas semanas de vida, conhecendo apenas a imensidão de um quintal, com penas contáveis e provável sensação do vento sob as asas, aquele filhote não desistiu. Sua vida, sua liberdade. Dos pequenos lateja a força de viver, a árdua luta para continuar a respirar. Um pássaro, várias lições.

terça-feira, outubro 25, 2011

Atravessando

(*Todo copo d'água é vida e o sol é o guia do todo... captei nestes dias de calor)

Úmidos lábios se contraem em dilatados olhos translúcidos
lúcidos da alucinação real do Amor revelando o oásis da vida
com toda água sombra e areia de tempestades enfrentáveis
nas inevitáveis curvas do dia jorrando poeira no sinal do farol
jogando a intensa luz para guiar os navegantes distantes da praia

tocando cada um que saia sem destino com apenas lembranças no paiol
com todas as esperanças guardadas na experiência de mais um nascer do sol
recomeçando a vida de um ponto novo com as velhas referências
na nudez total da pele vestida da essência
de um beijos contraindo o tempo nesta ausência de espaço.

por Rafael Belo às 10h09 de segunda-feira, 24 de outubro de 2011.

sábado, outubro 22, 2011

O caminho da cabeça meio vazio


(*As folhas caem e os sentimentos ciscam apenas com o instinto de sobrevivência e nada mais além da vastidão...! ... captei no sítio dos meus sogros em Sidrolândia)


por Rafael Belo
Aquela dor de cabeça passageira decidiu não descer mais. Deixou de ser a constância dos olhos vidrados por horas na tela para tornar-se uma passageira perdida, mas ele achava ser tarde parar voltar a sentir. Passava das duas da madrugada de mais de sete anos de isolamento e insensibilidade. Aquela cabeça doída foi o início da frieza e de uma maldade. Tudo por causa de um tumor imaginado obstruindo o sistema límbico. Este responsável por motivações, comportamento agressivo e emoções.

Ele vagava simplesmente evitando qualquer ser respirando. Morava em uma pedreira abandonada nos confins das redes sociais. Vivia de óculos escuros e cara de mal – seja lá o significado disso. Quando raramente era visto era em um comentário ácido desproporcional direcionado a um bom dia qualquer. Mas, sua dor lancinante sempre parecia uma smile original sem qualquer expressão identificável. Cometia coisas não acertos ou erros, coisas. Nada cabia no dualismo simplista de maldade e bondade.

Quando menos esperasse, saberia que nenhum sistema límbico obstruído por uma imaginação imaginada seria responsável pelo que ecoa a alma, pelo som descompassado do coração. Encontraria o lugar para onde foi o que deveria ter sentido nos momentos que terminou relacionamentos, que foi assaltado, que viu a morte, que comprou sua primeira casa, que foi visto pela morte, que foi demitido, promovido, reconhecido, rejeitado, traído, ignorado, exaltado, confundido, procurado... Só não estaria preparado para encontrar este lençol freático escondido.

Incrível foi quando de fato aconteceu. Ele sentiu falta da fidelidade da dor e se surpreendeu por poder sentir falta e saber o significado de falta...! Mas, foi só. Esta solidão doeu e ele pensou na dor... Até esquecer e olhar para a tela escura. Não havia luz em parte alguma. Sem saber como se referir a si mesmo soube de um tempo aonde a luz vinha de dentro, o incluindo. Isto levou a horas olhando para um reflexo desconhecido imitando os seus movimentos. Lembrou que para ter reflexo em um espelho é necessária luz...
...Começou a percorrer um vazio e a contar os grãos de areia... Sabe-se lá o tempo do porvir para retornar deste espaço deixado... Pesou a cabeça nas mãos sentindo tanta bagagem quanto possível. Depois divagou e não soube mais o que fazer...!

sexta-feira, outubro 21, 2011

Não deixamos de fazer


*( Caminho com o sol ao redor mesmo quando seus relfexos são a lua seus raios sempre chegam no meu caminhar...Captei ao caminhar apra o serviço no dia 19/ 10/11)

Por Rafael Belo
Sentar e imaginar cada expressão dos seus quando conversam e lembrar acabou virando mais real pelas redes sociais. Eu sempre escrevi e desagrilhoava os limites da mente quando ouvia e observava o mundo ao meu redor e fazer o upload para tantas timelines e updates status levou um tempo, confesso. Por isso, fiquei agrilhoado a correntes de ar intermináveis de sons, imagens, sensações e sentimentos profusos de maneira quase delirante por tempo demais pelo tempo necessário.

Sentia-me febril e com uma anti-rábica vencida constantemente, afinal, eu escrevia o tempo todo sobre tudo. Mas, só a maturidade tardia me mostraria a arrogância disto. Adoeci de mim mesmo ao deixar a voluntariosa estupidez humana sair da caixinha. Lidar com a estupidez e zerar a arrogância eram os desafios para o arrebentar das novas correntes insensíveis. Lá no canto do isolamento mental minhas mãos estavam cortadas e o olhar cego, mas a adaptação voltou a mostrar que só a alma escreve com o Coração, as mãos são desnecessárias.

Tomar distância de si parece ser necessário para um salto mais profundo na volta. Típico afastamento involuntário. Bem, o melhor de se afastar é a bagagem do retorno. E o mundo virtual em palavras mesmo disfarçadas-copiadas-alteradas-inventadas traz a população para o mesmo espaço ao mesmo tempo, contrariando a física. Vários corpos não presentes ocupam sim o mesmo lugar simultaneamente. Assim como é feito fora dos arrobas e underlines  em outros toques mais antigos. Porque já fazia tempo que corpo e mente não estavam juntos andando na orla do mundo.

No fim a união continua sendo a força, as palavras mal contextualizadas seguem problemáticas, a exposição de relacionamentos mal atados caminham se desfazendo, amizades superficiais ainda fazem silêncio, novas pessoas entram em nossas vidas, amigos reais fazem menos falta com as conversas virtuais, grupos reforçando opiniões se destacam e permanecemos conhecendo sempre. Só não direi que o mundo é o mesmo porque a aceleração do tempo e do espalhar das informações vivem agora na velocidade do pensamento. Sentar e imaginar cada expressão dos nossos quando conversam e lembrar nos atropelou, mas não deixamos de o fazer.

quinta-feira, outubro 20, 2011

Olhos Brilhantes


A imensidão gira em acompanhados galhos para subirmos em abas as direções
captei, Rafael Belo, rs  nesta quinta (20).
Quando o Amor se manifesta
não há procura espera nem escuridão
há uma festa de todos os dias no coração vestindo os olhos
de todos os espólios divinos vivos
e nos enxergamos todos filhos [ e irmãos...]

é um óculos sorrindo fazendo o sol vir vindo
ver... Finalmente podemos enxergar e crer
na intensa Luz salgada de suavidade audível
e é perceptível: tocamos o Amor com o olhar
vendo vastos vales infinitos no Ser Humano possível
no contínuo perdão,

Sermos mais Alma Coração e imensidão.






Às 12h53 - quinta-feira, 20 de outubro de 2011 por Rafael Belo.


PS: Desculpem o sumiço, mas voltei mais renovado e inspirado! Esta é em homenagem a vida e ao Dia do Poeta. E não é que a foto parece a da anterior rs...

quarta-feira, agosto 31, 2011

Consumição íntegra da contaminação

*( O mundo às vezes dói e a expressão da dor também é bela... E mesmo quando a dor passar e a tristeza se dissolve, a beleza fica... Captei no sítio dos sogros)

Uma frase jogada no espelho na sala espelhada
vem carregada de sentimentos de faces diversas
de pensamentos partidos aparados e meios deturpados
em alegorias disfarçadas da especulação desavisada

na nascente depressão pesando o coração em balança de espinhos

os ninhos são desfeitos e jamais jazem na visão de quando fomos niños

epitáfios vivos dançam equivocadamente sobre a alma caída

e a saída sempre segue a mesma, mas às vezes, mais escura e distante

no corpo moribundo inerte cambaleante fingindo ser zumbi

a personalidade cede parte da força e dilacera sua unicidade
enquanto a cidade apagada permanece insone e te consome inteiro.

Às 08h16, 31 de agosto de 2011 (Rafael Belo).

sexta-feira, agosto 26, 2011

A fé não é um bem comum



*(Captar a essência da janela quando você estar dos dois lados e em movimento é chover transparente e em catarse... As Captei há dias na estrada entre Sidrolândia e Campo Grande)

Por Rafael Belo

Ainda não entendo como um mundo repleto de cristãos, religiosos ou simplesmente crentes julga constantemente cada folha caindo. Aliás, entender as fraquezas e hipocrisias humanas não é difícil, mas nossa inteligência fica ligada constantemente a patamares inexistentes de disputas. Sabemos o motivo exato das mazelas do mundo: somos nós e os nossos feitos, ou melhor, somos nós e o nosso não fazer. Mas, o fato mais desconcertante de uma vida tão repleta de sem explicações é a fé não ser um bem comum.


As pessoas têm um delimitador comum e apostam nele. O tal do tempo. Este é o limite e o controle. Todos nós, vez ou outra, cedemos e perdemos um pouco a fé... Por isso, devemos estar atentos ao que nos acontece porque não é possível viver sem acreditar. Crer não é tocar e desistir em meio aos obstáculos, o nome disto é insegurança. Nossa insegurança é reflexo da ideia imposta em nossa mente como um viral viciante de sermos os melhores. Como ainda filosofa Engenheiros do Hawaii ‘somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter’, mas muitas vezes é preciso do empurrão amigo para nos descobrirmos e podermos cantar este refrão.

O fato da fé não ser um bem comum é relativo ao peso de exemplos a moldarmos pelos nossos caminhos... Não somos perfeitos e aceitar o fato de ninguém o ser só não é o fim do caminho porque ‘é o fim do mundo todo dia da semana’. Se fossemos perfeitos bastaria o destempero de sentarmos e vermos a vida passar. A ideia distorcida da perfeição limita nosso olhar. Perfeito é o sol nascer todos os dias e termos nossa saúde em dia, não é ganhar além do necessário e se rodear de bens materiais, mas soberba minha é pensar saber muito.

Descansar o corpo de suas dores é essencial, alentar os tormentos da alma com o mesmo descanso é imprescindível. Dói ouvir e ver mentiras – ainda mais as extremamente desnecessárias – serem ditas, ensaiadas e encenadas na plena face da madeira de lei para um público pagante com suor, lágrimas e repetições... Porém, é bom sentir esta dor, pois, sei da ineficiência das anestesias aplicadas em cada esquina e assim, contrariando o título desta crônica, acredito a fé ser um bem comum, mas precisamos encontrar a mansidão e a humildade para entendermos o quanto é desnecessário entender o outro perante a aceitá-lo.

sexta-feira, agosto 19, 2011

Ventos do amanhã

*(Não sabia se o reflexo distorcido era a imagem ou a imagem distorcida meu reflexo de visão, mas a beleza está aí para quem quiser ver... Captei de uma varanda boa há seis dias)



Por Rafael Belo
Enfermidades o estava dilacerando e laceravam também seus caminhos. Senva havia ficado surdo muito cedo quando levou um tiro na cabeça ainda bebê e a bala atravessou seus tímpanos. Por destinos possíveis foi a única sequela. Mas, com os climas incertos assolando o mundo e enlouquecendo meteorologistas, um ruído mudo o vinha perseguindo. Ele sabe ser o som dos ventos presos em seus corredores, impaciente por liberdade. Pelo menos eram as descrições daqueles antigos livros que encontrou como escavador, aliás, arqueólogo. Eram escritos do fenício antigo...

Todos os seus sonhos eram internos e imaginados, mas estes ventos não vinham totalmente de dentro. Havia seu próprio vento correndo em seu interior, mas este ele chamava de Alma. Nestes últimos dias, sua Alma parecia chamar todos aqueles assovios incorpóreos... Como desbravador da presença contínua do passado, ele possuía um sopro, não... Um pequeno suspiro de medo, porém havia tornados e furacões o silvando na direção deste desconhecido. Senva estava em casa esperando sentir um padrão nos seus ventos particulares e parecia que seus particulares ventos faziam o mesmo.

Seu silencioso mundo parecia realizar a ação das pessoas aos poucos. Sim a surdez, a cegueira era falsa. O mundo enxergava o quisto e o não quisto. Mas ouvir... Ah, ouvir era... Bem era porque hoje eu sou um guia contando minha história de um passado recente... Enfim, era um ato raro. Partes de cada conversa eram ignoradas, como se tivéssemos a capacidade de abaixar o volume dos ouvidos ou simplesmente conferir a programação de uma outra estação repetindo, hora ou outra, um gesto de assentimento e às vezes de negativa.

Eu no meu isolamento... Compreendi tarde o prenúncio dos meus ventos particulares. Cada um no planeta tinha os seus particulares ventos como vidas inteligentes estudando ângulos e luzes para o melhor momento de captar o silêncio para sempre.  Mas os deles não emitiam som algum. Quando percebi o porvir os ouvidos do mundo sangravam e aos poucos as bocas deixaram de se movimentar se não fosse para dilacerar alimentos. Por instinto, creio, eles vieram a mim e escreveram seus males mudos, um a um. Até agora leio vidas nas telas de um mundo sem sons. Sou Senva Guia e ainda não contei a nenhum deles que este foi apenas um suspiro de medo diante dos ventos fortes a ‘porvirem’ soprar e soprar.

sexta-feira, agosto 12, 2011

"Definitivamente a dois

*(Depois do antes, estamos nós, durante o restos de nossas vidas dizendo um ao outro sim...)
 

O sol é uma lâmpada acesa tod o tempo
no soberano Tempo do nosso Amor
água de toda a clareza e verdadeira Luz
profunda perante qualquer sombra a dois

lançada, sem dúvida, para imemoráveis anos vindouros

na correnteza viva dos louros de nos entregarmos um ao outro

pequenos, poucos, imensuráveis pela medida incondicional a nos tornarmos
e tomarmos um do outro o líquido da Felicidade

Entalhada nos detalhes...

Dos incontidos olhos nos milhares momentos onde somos, um no outro, contínuo absinto

ao nos sentirmos fortemente alucinados pela aliança que nos faz infinitos.

(Rafael Belo) 11 de agosto de 2011."




*Mal começou a poesia declamada e as lágrimas da noiva Karine Nogueira já faziam brilhar os belos olhos cor de mel... A lua refletia Karine e o Parque encantava...

quinta-feira, agosto 04, 2011

Brincadeira de criança na ingenuidade de nos perdermos matutos


*(Como saber se o animal é apenas aquele que late se mal sabemos nosso ladrar... captei nesta quinta (4) )


Por Rafael Belo
Quem aqui que nunca quis protagonizar uma ação heróica e ainda hoje sonha em realizar tal ‘disparato social’? Aliás, quem em qualquer parte não pensou em realizar um ato de bravura.  Abrir todas as gaiolas, alimentar todos os carentes – de afeto, alimento e fé – e fazer a justiça ser um ato rotineiro poderia bem ser comum, mas não o é. Por isso, é surpreendente quando um adolescente de 13 anos, cujo parceiro é uma criança de sete, brinca com a realidade, inconformado com o ato desta, e munido de sua vontade e ingenuidade pratica um resgate incomum.

Como nos antigos filmes de cowboy, o adolescente invadiu o CCZ (Centro de Controle de Zoonoses) de Corumbá montado a cavalo e com uma arma de brinquedo para resgatar duas vacas. Enquanto este ameaçava, seu parceiro de aventura libertava os dois animais. Eles foram presos e levados para a delegacia, as comedoras de pasto eram do tio deles e quem cuidava delas era a dupla. A arma era de um videogame. Como na fantasia controlada, o garoto ameaçou atirar em todo mundo. A polícia o liberou declarando que não passava de uma brincadeira.

Eu não acho. Eles sabiam e planejaram o ato. Mas foi à revelia das punições. Não imaginavam que haveriam consequências por salvarem seus animais. Não agiram por mera rebeldia. Me parece mais por amor. Então, penso na falta e na distância e confusão entre nós e os animais com outra racionalidade. Os parceiros da iniciativa pseudoheróica ainda não foram influenciados pela desapropriação da aldeia global. Eles têm um lar e aprenderam a amar os animais, cuidar deles e os proteger. A dupla foi resgatar não sua propriedade, mas dois seres que amam.

Quantos de nós se arriscam pela liberdade do outro? E pela liberdade daqueles animais que dizemos serem nossos amigos? Não estou escrevendo sobre provas de amor. Escrevo sobre o reconhecimento deste. Quando temos um animal de outra racionalidade em casa, este nos cuida, nos diverte e nos quer bem incondicionalmente. Nós em troca os deixamos na pior. Os mimamos e os transformamos em humanos de quatro ou duas patas mesmo. Hoje a maioria dos animais domésticos ou são substituições ou meros cães de guarda.  Por isso, lá na zona rural da minha dupla de heróis até duas vaquinhas ensinam valores e justiça. Me lembra o quanto ficou feliz a imensa criança que vive a se manifestar em mim.

quinta-feira, julho 28, 2011

Pureza interna na face

*(Vossa majestade felina desconhece muros e grandiosidades do poder porque para ele o grande é a pequenez e a humildade que permite enxergar os detalhes dos pequeninos... Captei num momento especial de observar o muro)


Bate a ilusão de Salomão da sapiência e inteligência suprema

mas nada na fase extrema é sábio e inteligente nas nuvens em dissolução
ser grande é uma adoração a cegueira nos lábios emergentes
escondendo o ranger dos dentes do falso poder

melhor é ser pequenino para enxergar e ver pelos olhos alheios
o sorrateiro jardim florescer com a beleza posta em frascos
com aroma inodoro para os cascos dos inteligentes demais e sábios em demasia

uma fantasia da nudez exposta pelas sobras à mostra de um passado humano
nos trapos de um pano não fabricado mais

nada demais a não ser amostra da arrogância posta em disfarce
pelo branco arte vestido em amarelos dentes sem latitude e longitude pungentes
amiúde falta de localização da situação perdida dos holofotes pendentes
na face da realidade acessível do incrível ser humilde

independente na atitude pura interna, iluminada na expressão sem sombra.


(Rafael Belo – às 9h46 – 25 de julho de 2011)

quinta-feira, julho 21, 2011

Ainda é nossa estação

*(As flores nascem nos locais mais inusitados para no meio do fluxo do congestionamento serem contempladas como um momento de paz... Captei na Av. Tamandaré)

Por Rafael Belo

Ainda neste momento o que mais me impressiona nas pessoas negativamente é a falta de paciência. Por que afinal, o quê é instantâneo hoje a não ser comidas industrializadas e mensagens? Viver na correria já é demasiado estressante e causador de insônia, consequentemente a memória se vai também. Se aliar a não saber esperar nada temos de concreto. A velocidade da internet e a tecnologia do celular auxiliaram nossa condição de imediatistas. Agimos para no término da ação já termos resultados. Não paramos sequer para pensar o quanto é absurdo plantar agora e no minuto seguinte ter uma jovem adulta árvore carregada de bons frutos.

Bons frutos, aliás, precisam de cultivo prolongadamente bem cuidado desde a escolha da semente. É preciso trabalho árduo bem suado para perdurar um bom fruto que seja. Como ter um jardim cuidado e um sorriso sincero sem ter paciência? Se vivemos no imediatismo, vivemos na insatisfação. Vivemos com fome de atenção e a carência do medo nos assombra. Medo de envelhecer, de morrer, de sair às ruas, de perder, de terminar, de começar, de responsabilidade, da falta dela, do próprio medo... Se não tivermos medo parece faltar o sentimento de conquista e nada é suficiente. Se não viemos ao mundo com o dom da paciência, praticá-la fará de tudo melhor.

Meus medos me olham pacientemente nos olhos e se vêem ainda em algum lugar. Ainda bem que estão aqui para me encararem e eu os encarar de volta. Ninguém elimina ninguém. Somos necessários uns aos outros de certa forma. Sem medo não haveria as superações com aquele eterno ‘pontinho’ de frio na barriga e o encorajamento – apesar do gelar dos ossos – para seguirmos conquistando o necessário. Não vejo graça de percorrer um caminho só de flores e brisa. Se não vermos as pedras, as sentirmos sob os pés como saberemos evitá-las ao plantarmos? Se não nos ferirmos nos espinhos como saberemos reconhece-los? Se não vermos desistentes ao nosso redor como nos encorajar e encorajá-los?

Perdemos nosso tempo e espaço para nossas vontades infantis e ambições alheias. Mas, nenhum tempo foi perdido... Procuramos-nos nas horas impacientemente e às vezes somos ultrapassados pelo nosso imediatismo, apenas para não reconhecermos nossa própria nuca. Por isso, me assombra as pessoas faltarem em paciência. Sem ela não é possível admirar a paisagem ao redor e ver as flores tentando nos envolver com seu aroma natural enquanto ainda é sua estação.

quarta-feira, julho 13, 2011

Afogar, congelar e pegar fogo

* O que nos separa do céu e do sol renascido diariamente é o teto que colocamos acima das nossas cabeças - captei neste Dia Mundial do Rock (13 de Julho)

 Por Rafael Belo

Caminhando entre uma multidão há um parente de todos e de ninguém. Muitos acham não o conhecer outros já o viram, mas não se recordam. Ele provoca reações diversas nas pessoas, mas apenas quem segura sua mão sabe seus sentimentos e pensamentos. Em poucos instantes, alguém evitará uma catástrofe com o custo de uma revelação que será posta à prova. Cobiçando a namorada do Desconhecido Conhecido (Desco), um raivoso ser repousa a mão sobre uma pistola 9 mm. Ao mesmo tempo, Desco o analisa instintivamente. O futuro não-atirador estremece.

Uma mão coloca os pensamentos conturbados do raivoso em calmaria. Você não sabe o que fará? Diz a voz dona da mão.  Caso o faça, não sobrará ninguém de tua linhagem para contar qualquer história...  Aquele é parente direto de Deus e Lúcifer. Ele é a Razão e o Divino. Não é bem nem mal. Este não é o momento de misturar Reação em Cadeia com Efeito Dominó... Suas ações podem desencadear várias iras adormecidas em faces forçadas infernais mesmo celestes...

Profecias são belas histórias, mas Desco Luceus faz sempre diferente. Por isso, mesmo assim uma bala silenciosa atravessa o ar e Desco a acompanha desde o início sua trajetória. Não veio do não-atirador observado, veio de outro – que ele tem certeza (paranoicamente) – também deseja sua namorada. Ninguém percebe o projétil se projetando em direção ao improvável alvo. Habilmente Luceus se revela ágil e em frações de milésimos captura o derradeiro disparo em um caixa blindada. Ele grita o próprio nome e todos se reconhecem naquela face estranha. A fortaleza mental de Luceus é destruída, ele pensava ser perfeito por ser filho do Tempo. Mas, o viscoso líquido vermelho escorrendo em sua face despedaçou sua insensibilidade.

Um segundo disparo havia atingido sua amada. Seus sentimentos perdidos jorraram como uma erupção catastrófica na maior geleira do mundo. Primeiro o desespero desconhecido tomou conta, depois uma raiva sobrenatural emanou por toda parte. Foi como se o sol fosse atraído pela Terra e todo o gelo do mundo derretesse ao mesmo tempo. Cada coisa sentida se solidificava se tornava física e era hiperespelhado em cada indivíduo. Era se afogar, congelar e pegar fogo se revezando na morte aguda e lentamente crônica dos corações inchando e derradeiramente Amando um fim. Alguém pode nos ajudar? Ocupar nosso cérebro?

Ao fundo toca Paranoid:
Finished with my woman 'cause she couldn't help me with my mind
People think I'm insane because I am frowning all the time
All day long I think of things but nothing seems to satisfy
Think I'll lose my mind if I don't find something to pacify
Can you help me? Occupy my brain?
Oh yeah
Veja Ozzy e Paranoid...

terça-feira, julho 05, 2011

Indefinidos ritmos

*(Quantos tons têm o Céu sobre o verde e rosa dos sons do olhar?... Captei em casa para variar...)




Impulsiona a gente um pulso corrente eletrificado
arrepiando a mente pelo coração batente intencionado
pela constante nascente do Amor eloquente sorrindo calado
um corpo presente na alma recente em milhares de anos dobrados
nos sinos circense de olhos e dentes brilhantes latentes ao infinito soprados
com universo pungente de estrelas indigentes e planetas adulterados
pelo inconsequente fluxo frequente de sóis eclipsados
efeito deprimente dos lamentos permanentes dos erros customizados
raso conveniente ao ritmo intermitente do intérprete direcionado

cacos do espelho partido nos estilhaços do aço frio cortante,
resultante do instante conhecimento a me fazer ignorante amante sem Tempo, mesmo que hesitante nas horas de definir um ponto nas nossas falsas contradições.

Rafael Belo, às 11h16 do dia 5 de julho de 2011.

terça-feira, junho 14, 2011

O Aroma da Alma

(*No quintal de cada mundo tem uma rosa amarelada esperando para voltar a sua brancura...' Captei em casa da rosa que plantei)



Rafael Belo

Parar de escrever é um exercício doentio de fazer mal a si mesmo. Pelo menos para este que vos escreve é como amputar parte da alma e a desperdiçar em um abismo raso. Não foi uma parada intencional sadomasoquista. Porque dói não escrever. É como se rumos, destinos e caminhos fossem meras palavras arremessadas pelo pára-brisa de um motorista suicida. Escrever não é parte de mim, sou eu. Sem tecer as palavras em uma trama em branco o mundo se movimenta estranho como se eu não fizesse parte de qualquer rotação ou translação e o sol fosse mero reflexo do início da escuridão.

É uma autonegação batendo em um vazio no peito apaixonado. Aquela sensação de deveria escrever deveria registrar deveria criar toma conta feito uma possessão total. Morre a escrita e a alma parece estar de luto em um corpo putrefato de Lázaro... Ressuscitado não quatro dias depois, mas quase quatro semanas completas passadas. A Alma vive de Amor e de ações, mas não basta ter Este sentimento magnífico e em eterna evolução se Ele não for compartilhado de todas as formas únicas captadas por meio da mente ou é mera anestesia insuficiente.

Parar... Simplesmente rasgar folhas em branco e deletar arquivos intactos é se jogar em um limbo shakespeariano do ser ou não ser, esmagando o próprio crânio aparentemente silenciado com uma expiração interminável. Escrever é ter esperança e dar formas a poesia da vida contida na incontinência arbitrária da pluralidade das dimensões da visão com a Alma pesando o olhar leve pelo coração inspirado espelhando um sopro do mundo. A paz interior, então, víscera pela pele sorrindo pacífica para as impaciências...

Uma flor amarelada volta a ser branca e suas imperfeições e eminências à morte parecem uma intermitência reveladora de uma aroma não cheirado. Nesta suspensão momentânea fica clara a importância do sol ter seu alvorecer e seu crepúsculo, enquanto o universo pulsa as mudanças constantes do escrito nas estrelas porque nada pára realmente. Há um movimento de descoberta encoberto pelo fechar dos olhos e atar das mãos, mas retomado pelos outros sentidos no momento do nosso voltar a sentir nosso próprio aroma e ouvir os dizeres do coração.

terça-feira, maio 17, 2011

Tu é meu Lar

*( O Céu ilimitado é o limite do Universo de Dois ... Céu de CG captado para a poesia)


Lágrimas noturnas entregam meu leito
em teus fios dourados a me aquecerem

São gotas escorrendo da Alma
todo Oceano Infinito da desproporção
de nos Amarmos, gotejando até o embargar da voz


É um choro praiano da ressaca
dos olhos brilhantes escorregando
a corrente dos membros
para outro arrastar

Clara demonstração do não voltar para casa
ser igual a retornar no Tempo em outro corpo

onde o troco da revolta se desfaz e o coração é mais

É Tua Morada e Tu és meu Lar.

(Rafael Belo)

Às 23h58,11 de maio de 2011.

quarta-feira, maio 11, 2011

Vida da confusão entre sono e sonhos


*(O Louva-a-Deus observa atento da mesa do mundo quem serão os louvadores... Catei na sala da Uems CG)

 

Por Rafael Belo

É cômodo como nos deixamos levar pelo silêncio quando deveríamos falar e pela clausura quando deveríamos aproveitar a liberdade da vida. É como se desistíssemos e um fardo nos vestisse e resultasse sono pescador... Aquele sentimento alienígena toma conta e olhamos em volta querendo saber onde está nosso lar, onde estamos... Sabemos bem a resposta... Não estamos aqui. Pelo menos a maior parte do tempo, nos sentimos deslocados como se estivéssemos evoluído, mas não acompanhamos nossa própria evolução. Uma balança da nossa própria Justiça...

De fato é difícil acompanhar o desprendimento incondicional do coração. A mente não entende - nem tenta entender – e o corpo só tenta ser o receptáculo de toda a expansão incabível tão complicada por nós, meros obstáculos de nós mesmos. Pressionamos um dedo vazio da nossa visão de divindade em nosso peito misturando compressão e vazio e nos deixarmos ser abatidos – mesmo que por um segundo – por uma apatia de caminho errado, de escolha torta porque todo o ideal é uma previsão de respostas confortáveis e cada verdade uma crença de cabresto e anteolhos.

Viver destas ilusões é a desilusão. O sonho real, o toque preciso são aquelas pessoas passadas, presentes e estas que mesmo ausentes continuam no nosso tempo, não importa em qual tempo estejamos. Sentar no fundo da nossa mente e lamentar, seja lá o motivo da lamentação, seja lá o fato do bloqueio de ser quem és, é o desejo mais íntimo do nosso demônio interno. É preciso coragem para o medo ser apenas um impulso nestes sequenciais passos da vida. Todos têm medo do isolamento, da próxima etapa, de assumir não ser mais jovem – nem menos – e continuamos a viver como adolescentes mal-humorados.

Não importa a profundidade de nossa perda, o abismo do nosso descaminho nem a queda do nosso pedestal de vidro... Merdas acontecem é uma ótima expressão para muitos acontecimentos, mais daí a chafurdar nela é uma história completamente diferente. Por isso, reconhecer os inúmeros problemas no nosso pacote diário é se libertar de si mesmo e juntar os fragmentos de identidade aplicados a cada espaço-tempo dos nossos deslocamentos, mas o mais importante é não deixar o sono se disfarçar de sonho e nos fazer dormir por toda a estada da existência.

quinta-feira, abril 28, 2011

Reticências de um bando sem vírgulas

*( o que é o céu de dimensões vítreas, senão a única visão do nosso olhar noturno... captei esperando no carro)

Uma ligação começa a noite no deslocamento de espaço
então há o limbo da madrugada e o tempo se desliga
outro lugar nos espera fora deste incômodo presente de ausência
qualquer hora nos olha como se passássemos e sequer mudamos

ah, estação atrasada batendo na janela feito ônibus na rua solitária
tremem os vidros e ninguém entra, as folhas conversam lá fora
farfalham feito frenesis faceiras fitando fortes falácias fugazes

Falso silêncio dos pelos crescendo como mato na chuva infindável

E na verdade o frio sol domina todo um meio-dia imaginado
no centro da tecnologia de uma multidão de pensamentos desencontrados

(Rafael Belo) 23h38, 27 de abril de 2011.

sexta-feira, abril 15, 2011

Depois do jantar


(* Em meio ao verde a beleza se distrai e o menor de nós se destaca por meio da nossa janela ... Captei no sítio do meu cunhado)


E a descoberta é a redescoberta de um exército de mim mesmo pronto para as batalhas pelos sorrisos e os corações repletos de causas perdidas a moverem moinhos ventando montanhas para onde soprarmos nossas mentes leves extensas pelo infinito nos arrepios dos sons tocados
pelas nossas falhas de não conseguirmos apenas observar a queda da semente

Por aquela flor de pétalas róseas e ligeiramente devoradas pela ânsia nossa de inspirar
o mundo de respiração presa pelo suspiro de nós polinizadores de pedras e espinhos

admiradores de tantas peles diversas no molde do nosso olhar colonizado pela borboleta
de uma futura flor morta ainda viva pelo contexto da paisagem adormecida em nossos corações apressados

apertados por um não se sabe sentimento de esquecimento do olhar pela janela
a deixar todos os dragões e duelos adentrarem para depois do jantar.

(Rafael Belo)
14h10
14/04/11.



quinta-feira, abril 14, 2011

Horizonte do olhar

(* 'Os horizontes estão em cada parte, mas toda sua origem nasce no nosso olhar... (RB)' ...Captei no sítio dos sogros)


A primeira vez sempre retorna inédita como a média do melhor
já acontecido feito a novidade mais esperada, a antiga, a memória não imaginada de cor
paisagens se materializam em ‘ós’ sem sós na junção de nós dois
feito luzes intensas sob qualquer escuridão na maré
nos arrastando no vai e vem da vida em pleno ar de possibilidades
e toda respiração é um inspiração efervescendo nossos sonhos em frescores

De repente é riso e conforto no meio da estrada sem mapa
é a aventura constante do Amor querendo repetir a sensação dos sabores
únicos de toda vez, e quando achar ser impossível extrapolar, então o impossível é um ponto que ficou para trás, longe dos nossos horizontes no olhar.

(Rafael Belo)
13h35
14/04/11.


quinta-feira, março 31, 2011

O fim de Ninguém é o fim ou é contradição?

*( No calor o branco é frio como a neve interior daqueles que nunca mudaram de estação.... Captei na sala onde 'relaxo' após o almoço no serviço dia 31.03.2011)


Por Rafael Belo
Mais um dia a menos na vida arrastada de Ninguém Sem Sobrenome. Ninguém tinha acordado ao meio-dia e olhava atravessado da cama sua ausência de vontade passear sob um sol carioca-cuiabano em plena zona temperada. Deveria ser menos quente pensou, mas também deveria ter ido trabalhar todos os setes dias passados e repassados na bagunça da sua casa herdada. Quem se importa afinal? Ele estava ansioso para ser mandado embora ou ser preso ou até morto... Mas, não era assim que todos viviam... Mortos?!  Presos!? Escorraçados!? Basta ser um pouco atento para responder positivamente...

Como o mundo, as pessoas e as religiões ele era hipócrita, bom é hipócrita... Nunca trabalhou ou estudou, mas roubar, matar e estuprar era o mesmo de dormir, comer e suprir suas necessidades. Tudo contido em seu vasto conhecimento era sobrevivência. Não recorda de um rosto amigável na sua infância ou adolescência e uma mão estendida era para machucar. Suas cicatrizes da rua são seu orgulho e medalhas. Não entendeu e ainda está desconfiado desta casa herdada há oito dias... Ameaçaram aleijá-lo de várias maneiras se não assinasse aquele papel que inacreditavelmente continha ao seu nome – sim ele sabe ler.
 
Toda equipada. Assim era a casa de Ninguém. Tinha tudo Sem Sobrenome. Ninguém deveria ser dono de tudo mesmo, não só desta casa. Um sentimento estranho o invadiu no dia seguinte da ‘herança’ e fez barricadas em todas as portas e janelas do lugar e desde então voltou a não saber ‘o que fazer’. Olha para o teto e sua feito garrafa de água gelada no asfalto ao meio-dia. O lugar é completamente branco sem nenhuma cor diferente ou sujeira – agora há Ninguém. Não parece haver qualquer memória neste lugar nenhum. Mas, há um buraco do tamanho de um dedo no teto. Ninguém consegue parar de olhar...

Seu rosto inexpressivo está vazio nos sopros de um deserto esquecido. Suas mãos são chumbo acopladas a braços de aço enferrujado, seus pés são concretos terminando o prolongamento de pernas feitas de um bronze empobrecido. É tudo tão pesado que Ninguém parece ter levado uma surra daqueles de ficar mortos por minutos e depois voltar. Se conseguisse levantar um dedo sequer poderia ter menos um dia a mais na vida arrastada... Mas o pequeno buraco dedal mastiga sua alma lentamente. Sua mente sem referência entende bem mau o bem e mau bem o mal ou teria invocado alguma prece ou conjurado um maldição. Ao invés disso vê calado seu corpo ficar em um quarto de nenhum lugar enquanto o sol carioca-cuiabano continua ao meio-dia.

quarta-feira, março 23, 2011

Morte e vida nas esquinas


*( Em algum lugar alguém chora em demasia pela ausência de quem partiu na romaria das vidas idas e vindas na correnteza... Captei em um dia de chuva)
por Rafael Belo
Sem nome sem rosto sem voz... É como andar dentro de Vidas Secas de Graciliano Ramos ou em Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto, mas pior porque esta diante de nós o tempo todo. Está nos faróis fechados, nas calçadas, praças e em algum lugar coberto com esperanças de não serem expulsos. Tem cheiro de descaso e abandono, rosto comum, cobertor furado, rasgado, remendado ou um papelão. Está lá fora no frio, mas enganados estamos se fingimos estarem distantes. As pessoas comuns e repletas de histórias estão ali agarradas a fiapos de vida, mas repletas de raspas e restos da morte. Porque a vida é isso: sobrevivência.

Mesmo diante de tantas imagens emanando morte viramos o rosto, tampamos os olhos e os narizes pseudohumanos... Lá no calor matador, na desolação ao bel-prazer da escuridão. Não da dualidade da claridade, isso é coisa de quando a complexidade era sumariamente ignorada para a construção de maquetes humanas de ou é ou não é. Somos ambos e uma bagagem toda de história. Cada pessoa passando fome, morrendo de inanição e de carência é fruta da nossa hipocrisia porque no fim – no meio e no começo - todos somos vítimas e algozes, todos somos causa e consequência, todos somos escolhas...  Mas, de fato somos medrosos! Temos medo de olhar para um ‘morador’ de rua e sentirmos pena e sermos levados pelo impulso de ajudar... Somos covardes!

Envolvida está a morte como em tudo na vida... Vemos um reflexo de como as coisas podem dar errado, de como podemos ser simplesmente mais um no meio de uma multidão apática, apressada e de olho nas horas... E o mundo é um borrão. Não dá para dizer de quando as gerações são ‘malcriadas’, mas se não geramos este mundo, nós somos o borrão desta realidade kafkaniana onde somos completos retirantes Severinos ou um desnome qualquer, acordando cada dia como um gigante inseto diferente explorados pela exploração cultivada no nosso quintal, no nosso coração... Vivemos mentindo para nos entorpecer e não chorar diante da dor de vários mundos...

Mas há a morte e a vida não a tampa com o sol. São ‘Processos’ inacabados, são acusações inexistentes, são chifres demoníacos e confissões... Como em um filme a escuridão nos toma e tentamos permanecer gritando “eu existo”, mas no final tudo que não pertence ao corpo fica. Na calçada ficam as roupas, o cheiro, a lembrança, nossas justificativas e porquês constantes, momentos nos quais olhamos para cima e culpamos Deus ou olhamos para o nada e culpamos Lúcifer e fazemos total questão de esquecer o livre-arbítrio ao lado das fatalidades. Não somos personagens planos criados para um romance moralista, bom, somos humanos caramba...!