quarta-feira, janeiro 30, 2019

correnteza








o som da cachoeira some
fico parado no mesmo lugar
é tudo um acúmulo de desnome
com esquecimento familiar

este rio vivo molha meus pés
a paz e o silêncio respiram
suspirando o que interessa em um devagar interessante

um minuto com efeito escorre na pele
os defeitos no tempo alucinam

eu oscilo com a memória descendo a correnteza sem parar.
+Rafael Belo, às 00h09, 30 de janeiro de 2019, quarta-feira, Campo Grande-MS+

segunda-feira, janeiro 28, 2019

Nossos (d)efeitos no tempo







por Rafael Belo

Lembro de Nelson Rodrigues quando ele fala de beleza. Vou adaptá-lo. É preciso chegar às pessoas e dizer: “ser bonito não interessa, seja interessante”. A beleza acaba em 15 dias em uma fadiga visual. Agora pessoas interessantes se perpetuam… Mas, não estou falando aqui de beleza e sim do tempo. Perdemos o controle diante dele. Há toda uma ditadura social impondo nossos direitos e deveres diante do tempo. O tempo nos controla. Somos alienados para temer os efeitos dele. Entre parar, descansar, refletir e continuar pensamos sobre este vigia eficiente e tão presente em nós. Sim ele passa. Ele não pára. Cabe a nós entender como ele funciona individualmente. Sabe, eu estava estes dias esperando em uma das cachoeiras do Ceuzinho. Era só o barulho das folhas e daquela pequena cachoeira. Ouvi meu silêncio ali e senti minha paz.

Vendo as águas passarem preenchendo os espaços, percebi que estamos na história com nosso passado, no amanhã em mistério e tudo isso deságua no nosso agora, neste presente onde podemos aplicar nossa aprendizagem até ontem e nos preparar para revelar nosso depois. Tudo dependendo deste momento. Tocando o frescor daquele rio, realmente senti ele não ser o mesmo a cada instante acontecendo. Eu era aquele rio. Sou ele. Somos… Aqui comigo, você está ouvindo o som de alguma cachoeira na sua memória. Lembra como se sentiu? Está sentindo o mesmo agora. Sentimento é tempo. O tempo é o sentir. Esqueça o controle. Foque nas ferramentas dentro de ti para lidar consigo mesmo e assim lidar com tudo.

A maneira como nos sentimos é prisão ou liberdade. Eu sinto o tempo me libertando a cada passo dado, a cada palavra formada, a cada nota emitida como canção e em toda dança eternizada em um abraço gostoso. Este é o tempo, este é o sentimento, estes somos nós lidando, conforme nossas escolhas, com a mão estendida da vida nos tirando para dançar todos os dias, a cada instante. Por isso, individualmente 1 minuto pode nos ser eterno e dez anos um sopro, um instante. É nosso sentimento-tempo. Realmente depende de nós. Individualmente e coletivamente. Então, não se prenda dizendo eu não tenho controle sobre o meu sentimento… Aí entra o pensamento, a reflexão, o conhecimento. Um exemplo? Quantas vezes você pensou amar alguém e no primeiro deslize da pessoa seu sentimento foi de raiva? Diga-me: isso é amor? Ou, então, quantas vezes você não sentiu raiva e quando parou para pensar percebeu o mal que estava fazendo a si mesmo?

Vamos voltar a Nelson Rodrigues na vida como ela é e dedicar este último parágrafo ao interesse e ao interessante. Não é mais interessante não sentir raiva e focar o interesse em resolver a situação? Quanto tempo vamos desperdiçar com egoísmo, com desamor, com raiva, com futilidades e nos deixar transformar em pessoas manipuladas, controladas pelo desinteresse, pela ausência, pelo domínio de sentimentos que apenas nos fazem mal e contribuem para um vazio ganhando tempo e espaço nas nossas vidas? É interessante nos permitir sentir até a tristeza e a dor, mas é do nosso interesse utilizar nosso tempo como uma ferramenta para crescermos individualmente e coletivamente estendendo a mão, chamando também a vida para dançar no tempo do abraço gostoso localizado naquela cachoeira da memória.


sexta-feira, janeiro 25, 2019

Protagonista (miniconto)







por Rafael Belo
Eu era mais um viciado. Vivia vazio me preenchendo. Não enxergávamos ninguém, mas todos os corpos estavam lá, vagando, esperando... As autoridades que ainda pensavam diziam ser tudo resultado dos excessos, principalmente, de passado, presente e futuro. Só desconfiávamos estarmos loucos de fato. Afinal, como não enxergar o outro? Nada fazia sentido. Parecíamos todos maiores abandonados como de um músico de uma era distante: Cazuza.

Batíamos uns nos outros, mas não nos ouvíamos, não nos sentíamos, não sabíamos conversar mais... Uma onda silenciosa de suicídios estava acontecendo. A imprensa chamou de Despropósitos. Quando as pessoas perdiam seus propósitos e repetiam seus apegos materiais caminhando sobre um abismo onde ainda não era possível ver o fundo, mas havia um fundo.

Tínhamos o orgulho da teoria e a pobreza da prática. Mas quando nosso espirito nos fugia... Morríamos. O suicídio era só protocolo. Um viciado até admite ser viciado, mas não o seu vício. Eu era viciado em sentimentos. Precisava sentir e, talvez, talvez, só talvez... Neste momento, eu conseguia enxergar um outro alguém e até eu mesmo. Mas, logo acabava. A carne não era suficiente...

Nada era. Precisava desta satisfação imediata... Não fazia sentido... Eu não sentia e me desesperava e me jogava para o vislumbre seguinte. Você me entende? Não vai falar nada? Eu estou sozinho, realmente. Agora me vejo o protagonista de um filme também de outros tempos: O Sexto Sentido. Agora eu vejo pessoas mortas o tempo todo e preciso aceitar a necessidade de fazer o possível para trazê-las de volta à vida.

quarta-feira, janeiro 23, 2019

talhado







fritados pelo dia insano
somos o próprio calor no mormaço
queimados pela carne em um cheiro vencido
apodrecidos com'alma trocada pela matéria

formados por despropósitos dos desesperos
estilhaços de um espelho sem reflexos
feridas abertas misturando dores

sem saber sabores desgarrados do dia
nossas línguas insensíveis param

talham na escuridão um luminoso pedido de socorro.

+Rafael Belo, às 23h34, terça-feira, 22 de janeiro de 2019, Campo Grande – MS+

segunda-feira, janeiro 21, 2019

Despropósitos







por Rafael Belo
O vazio cresce sem controle. Vejo tanta falta de objetivos reais. Pessoas enraivecidas no trânsito, mortes por nada e ainda nos escondemos atrás do fútil, do banal em todo tipo de coisas minúsculas e materiais que acabam. Não valorizamos o outro, desperdiçamos nosso tempo... Poderíamos nos unir e fazer tanto por tantos, mas não. Vivemos digitando, registrando, distantes e usamos o espiritual como barganha para algo que queremos. Estamos tão pequenos que já não é uma questão de cegueira, realmente não podemos ver mais. Não somos visíveis à olho nu. Somos um acúmulo de despropósitos nos levando a todo tipo de doenças e distúrbios mentais. Somos ansiosos, depressivos e imediatistas.

Nossos propósitos são carnais, são de pele, são de sensações, fogem ao chegar ao fim porque focamos em algo que perpetua nossa insatisfação. Queremos mais e mais em uma gula material orgulhosa, avarenta, preguiçosa, raivosa, invejosa e com todo tipo de luxúria. Ou seja, passamos do ponto ou desistimos antes de chegar nele. Espiritualmente falando nem se sabe mais se temos medo do inferno ou de simplesmente de não ir para o céu. Seja na versão católica, protestante, islâmica, budista, umbanda ou a crença que cada pessoa possui no que lhe é mais aceitável. Porém, se olharmos bem transformamos em um comércio, um mercado de troca de favores... Quando o cerne de todas é não julgar, não dar às costas... é o Amor.

Este Estado de evolução ainda não alcançamos porque queremos as pessoas para nós, queremos retribuição, reciprocidade, não aceitamos simplesmente que o outro esteja bem, feliz, alcançando as conquistas sem nós. Temos este amor minúsculo que é facilmente chamado de sentimento de posse. Nos falta gentileza e paciência. Nos sobram desculpas porque nos transformamos em raspas, restos, migalhas, em mentiras sinceras de interesses. Este engano constante ao qual nos sujeitamos diariamente acaba explodindo. Somos pessoas-bombas porque nossa alma nos escapa. Vivemos tratando o corpo, destratando o coração e nem percebemos para onde está indo nossa alma.

Desalmados, somos frágeis em uma falsa carcaça forte e determinada. Ficamos agressivos, violentos, nosso psicológico chora ao anoitecer, no debandar das pessoas, quando no momento de desespero só temos nós mesmos e apelamos ao que possa estar nos ouvindo. Nesta nossa hipocrisia acabamos nos agarrando a defesa de uma causa, uma entidade ou uma pessoa e colocamos à nossa frente cegamente sem questionar arrumamos justificativas, justificando os fins pelos meios e maquiando isso de um propósito. Quando aceitamos que este propósito é um despropósito e acaba, voltamos a nos perder e procurar outro despropósito parecido. Não enxergamos o todo, não vemos os detalhes, não ouvimos nossa intuição e nos agarramos a um algo qualquer capaz de nos trazer satisfação imediata.

Então, estamos desgarrados, sem um propósito sequer... Esta é nossa tristeza, nossa crise existencial porque sem propósito questionamos a nossa própria existência. Eu acredito sermos bem mais. Eu acredito termos propósitos espirituais. Eu acredito sermos seres espirituais em uma experiência carnal e enquanto esta frase forte, de impacto, não for ação continua a ser hipocrisia.

sexta-feira, janeiro 18, 2019

Não espalhe (miniconto)






por Rafael Belo

Só havia nada. Até nós, cegos, enxergarmos. A verdade é que não éramos cegos. Só estávamos no ponto mais escuro deste planeta desabitado. Dizem ser a Terra ou teria sido ou será. Sabe, o tempo não é mais o mesmo. Tudo foi dividido por aquela substância divina profanada. Pensávamos ter sido a morte de todos. Nós, mortos, acreditávamos sermos realmente mortes e tudo isso uma punição severa pela nossa incapacidade adotada de evitar fazer algo pelo outro.

Era só escuridão. Uma ausência insana de luz. Não tinha nada nem com purgatório ou inferno. Era só preciso acender a luz. Mas o inferno nunca foi o outro, sempre fomos nós… Tínhamos que desenvolver o sentido profético, o sentido premonitório, o sentido da antecipação… Não podíamos sequer tatear para saber as distâncias ou para imaginar as aparências. Elas sempre enganaram, mas agora é totalmente diferente. Não existe status ou formas de exposição…

É escolha e omissão. Há várias formas de estar morto sem deixar de existir em um corpo de pele, carne, ossos, órgãos costurados friamente com possibilidades. Pensamentos e sentimentos escapam exatamente agora... Se você parar é capaz de escutar, de sentir, mas ninguém quer parar. É ou um atropelo louco ou uma leseira, uma lentidão paranóica… Sabe, não podemos nem abraçar ou beijar. Mesmo não havendo público ou privado as coisas não são no 8 ou 80!

Elas enguiçam. Elas quebram! São substituídas!  A exceção virou regra sem sequer saber. O motivo desapegou e foi embora. Eu, agora, quando vejo um facho de luz, um raio escapando de algum lugar onde me prendo, eu me escondo. Eu prendo a respiração. Não mexo um músculo… Se eu admitir enxergar mesmo no escuro aí sim serei dividida. Meu ego, meu orgulho, meu barulho, grita tão alto que não admito ter errado e sigo errando. Venho sozinha aqui com medo de ficar realmente cega com tanta luz, mas ainda não tive coragem de dividir com ninguém. Nosso ditado diz que se só uma pessoa viu, não é real. Não espalhe.

quarta-feira, janeiro 16, 2019

desnecessária






Foi no meio a divisão
depois de novo e de novo
milhares de mim se espalharam
dividindo a mesma sensação sem sentido

assim sem motivo a esperança voa
bagunça toda a fortaleza virtual
enquanto a indiferença procura se esconder

na casualidade do caos emotivo
ser afetivo é um conflito interminável

em público no privado de forma doutrinária em uma adulterada ordem desnecessária.
+às 01h06, Rafael Belo, segunda-feira, 14 de janeiro de 2019, Campo Grande - MS+

segunda-feira, janeiro 14, 2019

Nossas divisões






(por Rafael Belo)

Minha vida é feita de experiências. A de todos de fato... Mas minha ciência é o comportamento humano diante das adaptações e das reações quanto a despadronização. Há pouco de verdade por aí. É muito da boca para fora. Na prática já não cabe ninguém na Caixa. Eu chamaria esta Caixa, de Caixa do Absurdo ou até da Hipocrisia. Caixa da Hipocrisia... Não se baseia mais ações com relação ao sentimento do outro. Há um “quê” de como me sinto sobressalente por aqui aplicando a mesma maldita dieta do emagrecimento para todos os seres geneticamente diferentes. Só pode terminar mal.

Viver encaixotado é um ciclo venenoso deixando o raso dominar e sempre dividir o mundo em dois. Este Efeito Manada impulsionado pelo Efeito Dominó ignorando totalmente o Efeito Borboleta é morte cérebrosentimental diária. Talvez todos nós estejamos em um coma induzido prestes a finalizar o teste de inutilidade social. Somos inaptos a convivência humana. Exageramos no afeto e na ausência dele... Exageramos na solidão e multidão que achamos querer em nossas vidas... Exageramos na defesa e também no ataque... No fim de todos os dias temos mais dúvidas.

Nossas dúvidas e divisões são segregações pessoais nos enterrando, principalmente, quando estamos sós à noite. Tantas regras, tantas imposições, tanto controle… Sem nos trazer nenhum benefício, pelo contrário, não estamos experimentando. Estamos nos afastando e nossas conexões são sexo ruim, beber até esquecer e tentar se moldar a algo. É no mínimo um fracasso constante dentro de um colapso de conflitos já colidindo nas mentes inseguras que não se sabe porquê gostamos de cultivar.

O processo de desencaixotar é tão particular que, obviamente, não é igual para ninguém. Fórmulas não existem. Rapidez não existe. E mesmo quando saímos da caixa esquecemos de sair dela. Seguimos sendo nossos próprios vilões e dividindo tantas possibilidades em duas apenas. No primeiro erro novo regredimos e vamos patinando neste lugar seguro sem ter segurança total só temos a infinita imaturidade como leal companheira e ficamos nos enganando dizendo estar tudo bem quando está só é mais uma Caixa para entrar.

sexta-feira, janeiro 11, 2019

A semana perdida - o ano do surto (miniconto)




por Rafael Belo

Que dia é hoje? Dia 11 de janeiro… Não, não, não, não, não, não... Não pode ser! Hoje deveria ser dia 4 de janeiro. Eu perdi uma semana. Que pegadinha tenebrosa gente. Todos se olharam naquele instante. Eles se perguntavam se havia sido da mesma maneira com eles, mas como não era pessoas comuns nada disseram. Levantaram-se e apenas se aproximaram dela tentando manter uma expressão neutra no rosto. Sem preocupação sem susto sem ignorância sem desprezo nem atenção demais…

-Incluída na lista, meu bem! Sabe bebê, você não é a única perdida neste mundo. Antes que pergunte todos aqui são seus amigos ou familiares e juntos…

-Calada! Sua louca! Deixa ela em paz. Não bombardeie ela com este Cavalo de Tróia corrompido que é você, Zzaila. A Azuma esta bem, não está?

-Espero que sim, irmã. A Zzaila ainda é minha melhor amiga e a qualidade dela que eu mais gosto é ela ser direta e sincericida. Mas, este não é seu forte Laiala. Onde estão nossos pais e… Ei!! Estamos em 2020? Como isso é possível?


Foi aí que Azuma descobriu que todos tinham perdido uma semana diferente da vida e todos eram próximos dela. Seria um vírus? Somando  todos, ela totalizou um ano… Todos seus amigos e familiares juntos totalizaram um ano. Ela chamou aquilo de o ano do surto. O que a incomodava era a quantidade de elogios vinda de seus queridos e a quantidade de perguntas pessoais… No entanto, ela já tinha se acostumado a dar sorrisos amarelos e mudar de assunto. Era especialista. Incomodada mesmo estava com O surto.

- Somos 48, começou Azuma com sua voz de liderança audível e potente, acolhedora e afrontosa, mas principalmente penetrante. Por algum motivo todos aqui estão ligados a mim. São 24 amigos e 24 familiares… Aqui está todo o meu sangue e coração. Onde estão todos os outros? Podemos confiar em alguém fora deste… Lugar. Aliás, onde estamos? Por quê perdemos uma semana e é como se juntos tivéssemos apagado todo o resto ? Foi um ano perdido? O que fizemos? Somos causa ou consequência?

Depois disso, todos ali se perderam de novo.

quarta-feira, janeiro 09, 2019

o esquecimento





estou distraído com minha distração
a janela olha através de mim
não há meios de me enxergar
só muito mais do que os olhos podem ver

até distraindo me perco
perder-me é um vácuo
neste espaço sem som

no teste do isolamento há insolação
é possível pegar sol de qualquer lugar

porque a ausência de luz não é escuridão
é esquecimento.
+Rafael Belo, às 12h50, domingo, 06 de janeiro de 2019+

segunda-feira, janeiro 07, 2019

Apocalipse das relações humanas





por Rafael Belo

O que vem me incomodando desde o ano passado é minha distração. Minha não, nada me pertence. Parece uma desassociação. Um vírus de computador me distraindo no momento que decido fazer algo, começo a fazer outras coisas naquele lugar que fui para fazer só o algo decidido e volto sem fazer nada. Meu cérebro está tão vasto que me sinto perdido de repente. Dissociado em uma dissolução insolúvel na água cristalina, vou colecionando abandonos feito por mim mesmo.

Mas nenhum problema vem sem solução. Ando me experimentando. Desconecto de tudo e de todos. Ainda mais os que me são caros e importantes. O resultado é uma desmemória, um dessentimento. Diria até, uma desolação. Não me pertence. Imagino e sinto com empatia isto ser o sentimento ou a ausência deles nos desesperançados. Nos apegos pela depressão também. É algo sombrio ignorado, afastado mediocremente na superfície deste amontoado de poeira que nos tornamos.

Adoradores de políticos e das coisas estamos esquecidos de que somos feitos. Buscamos um sucesso material, levantamos diariamente arrastados para melhorar por algo, por alguém, por dinheiro, matamos nossos sonhos ao invés de matarmos os dragões. Matamos Sancho Pança e Dom Quixote há muito tempo... Não vejo sentido ou objetivos no que ando vendo por aí. Só vejo ódio, desculpas e mais do mesmo. O mundo ainda é aquele da Idade das Trevas onde a inveja e o medo imperavam e nos matavam brutalmente.

Avançamos em tudo material, mas regredimos espiritual e humanamente. Esta é a maior distração do mundo, além de pensar que somos felizes sozinhos. O plural do mundo é o singular de cada pessoa e há uma Guerra Fria de mundos distorcidos e vazios colidindo com nossas possibilidades de ser. Estamos agora tecendo nosso inferno de silêncios e pedras. Escolhemos sermos pedras ao invés de caminhos e estamos nos atirando com toda força para o nada, para um apocalipse das relações humanas.

sexta-feira, dezembro 21, 2018

há um amanhã maior (miniconto)





por Rafael Belo

Passei as mãos nas minhas cicatrizes. Carícias nas minhas mais profundas memórias emotivas. Por toda extensão delas, em cada uma delas e consigo sorrir depois de tantas dores… Sou referência do despadrão. Já fui linda e desejada conforme os padrões da moda atual. Fui forçada a mudar. Ou me aceitava ou matava… Ainda amo a vida. Mas naquela época havia um fio de esperança, um restinho de amor. Foi o suficiente para eu superar o estupro e todos os abusos.

Há borboletas em mim. Não falo apenas deste bando multicolorido me seguindo. Falo das minhas tatuagens em todos os tons, todas as cores, todos os tipos e espécies. Elas ajudam a me lembrar que voo tão alto aos astros mais antigos do universo. Tenho todo este invisível em mim e ele quer despertar em todas nós também. Deixa a gente inabalável, não invencível. A sensação de invencibilidade só torna a queda certa maior, mais alta e muito dolorosa...

Dores vêm ainda, mas as domino. Elas não me dominam mais. Não me descontrolo mais. Até me dão energia para queimar e não voltar aquele estado ao qual nem gosto de lembrar. As dores são passageiras e, às vezes, copiloto guia. Fico pensando na covardia destes seres humanos desviados de si mesmos capazes destas atrocidades nojentas, horrendas e aí foco em algo bom em mim e na humanidade. Só vemos coisas ruins porque as boas são desvalorizadas e eu garanto que estas são muito mais, a ruindade, o estado animal da violência sexual humana é exceção. É uma forma sorrateira de cortar nossas asas, de tentar nos submeter ao chão, a incapacidade de voar, mas...

Eu voo e liberto. Sou libertadora hoje. Tenho algum sentido a mais. O décimo depois de tantos… Eu sei quando uma mulher foi estuprada, foi abusada… Mas não sou justiceira, não sou vingadora. Minha missão é libertar elas, nós, das marcas e mostrar minha cicatrizes porque há um amanhã melhor. Um amanhã onde elas, nós, podem(os) chorar e serem(os) fortes. Chorar é força. Falar é força. Existir é força. Não me sinto mais humilhada. Quem deve se sentir assim é aqueles… Enfim, é passado. Sou uma mulher vencendo diariamente. Sou a própria Força da Natureza e você também é!

quinta-feira, dezembro 20, 2018

novos voos






caiu a borboleta do seu último voo
folha descolando dos ventos
dores agora são forças sem doer
todo o voar é primeiro para elas

ressurreição diária afastando as máculas
cicatrizando todas as dilacerações
sem ser abusadas novamente

do sonho de liberdade cerrando também as grades virtuais

todas elas forças e continuidade
realidade de ser ação e voz
no levantar da borboleta para novos voos.
+-Rafael Belo/*

Uma benção e uma maldição (miniconto)





por Rafael Belo

Havia tantas máscaras nele. Ainda mais a daqueles para aliviar a própria culpa o livravam da dele. A palavra monstro vinha estampada em toda boca e mídia, mas não significava nada para ele. Não haviam monstros. Ele só fazia o que queria e como queria. Ainda podia se gabar do próprio poder. Nem sabia mais quantas mulheres havia usado, sabia sim que estava satisfeito, por enquanto… Ele era o símbolo de algo contrário ao que fazia. Mas, para ele aquilo era só para satisfazer as próprias necessidades biológicas.

Uma benção e uma maldição. É algo atribuído a quem tem dons. Algo considerado até sobrenatural e assustador para quem nega ter algum poder. Neste mundo é preciso chegar aos dois extremos dos limites: o bom e o ruim, o bem e o mal… Foi nas mãos deste falso profeta que tudo em mim se dissolveu, derreteu, virou nada… Mas neste meu universo nada fica desocupado, qualquer vaga recém aparecida é ocupada de imediato. Foi durante meu segundo estupro assistido que eu realmente me assustei e me despedacei…

Virei pó. Sai de mim. Ainda sentia toda a dor no corpo, a dor na alma, a humilhação… Eu não via o mal nele, não via nada bom naquele momento nojento e horrendo, mas eu via negatividade, via escuridão e via aquele ser humano desprezível me destruir. Fui destruída. Talvez até tenha morrido. Não diria ser o destino. Seria cruel ter que passar por algo assim para descobrir meu destino… Não. Foi obra de um homem e todo o poder dado a ele. Que não tem nada a ver com o divino. É o desespero… A fé que há algo além de nós!

Como nada fica desocupado. Nada fica desequilibrado. Eu estava dividida entre tirar todo aquele peso esmagando tantas mulheres como eu, as ajudar a descobrirem também serem Maravilhas, Mulheres Maravilhas ou ser mais uma vítima atormentada por aquele homem e pela sociedade me acusando de… Enfim, eu decidi o expor e revelar a minha mediunidade. Mas, naquele momento do meu Despertar eu pude escolher entre matá-lo e sofrer todas as consequências, morrer continuamente com minha dor ou ser a Luz para despertar o poder das mulheres humilhadas… Eu sou as três escolhas. Equilibrei a balança porque sou mais humana a divina. O deixei com a marca da dor constante. Teve consequências para mim, além das sequelas que ele me deixou, porém nenhum homem mais vai estuprar e humilhar mulheres esta é minha benção e minha maldição. Eu sou a balança e minha Justiça tem um moderado molho de vingança.

terça-feira, dezembro 18, 2018

restam





sangue na boca olhos dilatados
sorriso macabro do cotidiano
destruindo almas no esconderijo humano
carnes dilaceradas pelo abuso de poder

humilhação forjada pela falsa cura
surra infinita construindo traumas
e a mente procura desculpas para viver

até a coragem se render às sombras
nesta ausência de luz perturbadora

as dores avassaladoras são o que restam.
+às 20h27, Rafael Belo, terça-feira, 18 de dezembro de 2018, Campo Grande-MS+

odiando-nos





por Rafael Belo

Daqui 17 dias os ciclos se renovam. Eu me vi me distanciando de mim. Deixei-me cinco passos adiante esperando me alcançar e, agora, não há mais divisões sou um só ainda seguramente sendo quantos de mim eu quiser ser. Só tenho necessidade de criar e aprender. são meus ares. Só respiro desta maneira. Mas agora mesmo estou prendendo o ar, esquecendo de respirar. Há milhares de mulheres sofrendo, mas o foco atual está nas abusadas, estupradas por um homem. O machismo, sexismo e todos os ismos ainda ferem e querem desacreditar tantas vítimas. Um homem contra mais de 330 mulheres…

Não tenho ideia das dores e traumas causados pelo homem acusado João de Deus, nem pretensão disso. Quem pratica estes atos horrendos continua sendo um homem. Chamar de monstro se pressupõe que estava fora de si… A quantidade de denúncias de abusos, estupros e ameaças, infelizmente é recordista. Levando em conta os mais de 40 anos de atendimentos, o líder religioso além de distorcer a religião que representa, abusou da posição de poder, inclusive da filha. Há mais vítimas por aí com medo… Mas tudo isso está acessível. Com um caso tão notório a Justiça deve ser feita. Ela precisa ser feita.

Mas o ódio foi direcionado as vítimas, mais uma vez. Como uma nojenta guerra interminável. O abuso e o estupro sempre foram uma forma de humilhação e poder em guerras, invasões e de uma forma covarde e perversa estas mulheres, que tiveram coragem de ser expor, estão sendo perseguidas, humilhadas, pressionadas e postas em dúvida.  Que seres humanos somos? Não podemos sequer defender as vítimas? Queremos desfilar o ódio e, ao invés de acolher, rejeitamos, acusamos, repetimos as marcas massacrantes de guerras.

Violar o corpo, a alma, a mente, a liberdade de alguém deveria ser crime hediondo. Estamos distantes de ser quem podemos ser e ainda que as mulheres sejam maioria seguem sendo humilhadas e desrespeitadas em plena época de evolução constante, de progressos nossa alma se apequena pela falta de acolhimento e gentileza com a profundidade e a vergonha manifestada na dor do outro nos canabalizando feito velhos bons selvagens se perguntando qual a diferença do ano estar terminando… Neste lugar onde chegamos fico pensando: a imagem e semelhança de quem?

sexta-feira, dezembro 14, 2018

interferência (miniconto)






por Rafael Belo

Quando o agora deixou de existir, eu era o vazio. Não uma mulher vazia ou a própria Gaia desterrada, devastada, desolada… Não! Só parecia haver um Limbo em mim. Meu Purgatório na minha alma cansada. Fui filha e mãe do Tempo… Mulher, Deusa, Titã…  diversas ordens não necessárias. Desnecessariamente perdi meus propósitos humano, divino, perdi meus caminhos e não estava boa suficiente para procurar quem eu era na atemporalidade.

É esta Liberdade nova, repaginada, renascida, resolvida a responsável pelo vazio vir à tona. Eu era a desmemória sistemática. Fui rodapé e protagonista na linha da minha vida. Fui e voltei. Será que não roubei oportunidades de outras? Não. Como Gaia não permitiria este desvio. Um desvio de conduta sem reparação. Lá estive no rodapé e no protagonismo da História. Quando meu filho ainda me chamava e o vi utilizar de si mesmo para evoluir. Foi quando eu sumi. Ele não me viu e eu o via latejando poder…

Penso sempre se O visitei quando ele, O Tempo, era contado. Quando… Ninguém usa mais este condicional localizador… Mas eu lembro Dele me dizer o quanto O culpavam por tudo. No começo O aborrecia e ele fazia todos ficarem bem idosos e necessitados da ajuda de outras pessoas para quase tudo, porém, bem  em si mesmo foi mudando até perceber sequer ter existido como os humanos o fazem existir… Com certeza os conflitos familiares deveriam cessar…

Ah, meu filho! O desequilíbrio causado pelo seu retorno se equilibrou com o desequilíbrio causado por mim e teu pai. Terra e Céu estavam em colapso. Até nos reencontrarmos e no recompormos. Mas o que sobrou da nossa forma original, afinal? Nenhum humano tem a capacidade de sobreviver a visão das nossas formas reais nem sequer a imensidão da imaginação deles. Como não pensei nisso quando interferi diretamente e também seu pai? Agora tantos infinitos nestas almas também são deuses sem Tempo e o acusam filho de algo criado por eles próprios. Eles precisam deixar de serem Hades. Há muita escuridão nesta confusão deles. Eles precisam esquecer… Esquecer… Você!

quinta-feira, dezembro 13, 2018

De nós






quando não era mais suficiente partiu
foi-se para tantas partes partida em pedaços
partidos inteiros nas queridas imperfeições
que não havia mais contagens para nada

este nada ora boiava ora mergulhava
libertando um grito ecoado do peito
daquela conquista inexpressável

despatriada de mais inexistências padrões
quebradas em reflexos emitindo infinitos

nisto onde tudo que se aproxima é transmissão.
+às 20h48, Rafael Belo, quinta-feira, 13 de dezembro de 2018, Campo Grande-MS+

quarta-feira, dezembro 12, 2018

Cansada Alma (miniconto)




por Rafael Belo

Ao longo dos séculos tudo foi bem e tranquilo. Mesmo passando os dias muito cansada, apesar de ter dormido bem. Ela não tinha só um corpo. A Alma era única. Mas habitava diversos corpos utilizando um sistema temporal próprio. O que lembrava era simplesmente tratado como sonhos que logo sumiam da memória. Ela seguia a vida como uma autêntica anônima. As coisas iam como sempre sem fazer sentido. Ela só se sentia bem descalça e, obviamente, em uma sociedade padronizada e robótica, ela era sumariamente julgada.

Mas como em toda história tudo estava prestes a mudar e como ela reagiria ao saber quem era? Quem era seu filho? O Tempo resolveu usar toda sua força e existência para sair do Tártaro. Desde que Zeus o enganou e o esquartejou para aprisioná-lo no Tártaro ele vinha se recompondo. Nunca mais permitiu o chamarem de Cronos e como era o Titã mais antigo e poderoso era constantemente incomodado na sua aborrecida e furiosa prisão. Hoje, como ninguém acredita mais em deuses. O que o prendeu não prende mais.

Zeus se desfez em muitas almas, mas sua avó Gaia(terra) e seu avô Urano(céu) consumidos diariamente pelo desequilíbrio, estavam misturados às almas de alguns humanos. Mas Gaia há séculos, também habitava as almas femininas. Completamente. Mas não sublimação a alma original do corpo. Ela observava interferindo para se tudo não desse certo, o aprendizado fosse pleno. Mas quando reconheceu Urano em um acaso onde o humano ali, também era apaixonado pela humana que ela habitava…

Os alinhamentos do Destino enlouqueceram. Foi aí que Cronos acordou. Não há precisão de data. Obviamente só após isso. A fusão entre a alma e a própria Terra. Mudou tudo. Este ciclo vinha acontecendo até então. Pois quando o Tempo se deparou com a Terra. O colapso do tempo humano virou o próprio Caos e até reverberou no verdadeiro Vazio. Os conflitos sentimentais entre Titã e A Deusa original. A Mãe sobrecarregou a memória e a primeira mulher cuja alma também era Deusa, estava quebrada. Nunca um ser humano tinha vivido tanto sem mácula por eras e tenho o nome na História. Agora que existia um agora a Loucura reivindicava sua vez.

verbais




o tempo se deu tanta importância
desperdiçou-se pelo dia ensolarado
ficou nublado chovendo a própria inexistência
e quando enluarado a escuridão era total

usando um tempo verbal que já foi
falando de um jeito que ainda será
com tantas condicionais conjugadas

imitando insetos suicidas nas lâmpadas
neste sol artificial queimando as crianças

tentando sobreviver no nosso interior.
+às 23h08, Rafael Belo, terça-feira, 11 de dezembro de 2018, Campo Grande-MS+

terça-feira, dezembro 11, 2018

Quando nos perdemos






por Rafael Belo

A gente mede tudo pelo tempo. Falamos de rapidez e lentidão o tempo todo. Nossas expressões são baseadas no passar das horas e no não passar também. É um controle tirano causando descontrole insano. Horas de trabalho não pagas, o mundo girando em explorações por minuto e contamos os instantes para que? Nos preocupamos com a idade e ficamos nos posicionando entre velho demais e jovem demais… Não é demais sermos dominados por algo que vivemos acumulando ou dizendo perdermos?

Temos todo tempo do mundo ou somos tão jovens? A Legião é filosófica-poética e misturar razão com poesia nos toca. Quando somos esta canção é o sentimento o culpado pelas medidas ou  o pensamento?? Semana passada, dias atrás, semana que vem, em um minuto… Parece tudo contagem regressiva ou um acumulador desregulado de passados em aparências que acabam e por dentro o nascimento vive renascendo… O tal do cronológico é outro.

Este tal Cronos, origem da derivação cronológica, é pai de Zeus. Este, por sua vez, para não ser devorado pelo pai o esquartejou e o jogou no lugar mais profundo do Tártaro… Percebe? O Tempo não queria perder o lugar para quem viria depois mesmo sendo o próprio sangue e devorava todos os filhos. Acabou despedaçado pelo filho sobrevivente perdendo tudo, inclusive a liberdade. Quando o Tempo reinava era tudo fome, miséria, guerras e doenças. Nada era graça. Se seguimos baseando a vida em mitos, o tempo não existe mais. Nós somos culpados e as desgraças jamais deixam de nos rodear. Não há um dia para isso, ao contrário nós abraçamos esta causa sórdida e culpamos mais uma vez o Tempo.

Quantas desconstruções precisamos realizar em um voltar e ir sem fim onde o ficar inexiste em um desestar estável nos perturbando? Eu proponho desmedir. Vamos usar desmedidas para tudo. Deixa o coração falar, deixa o instinto revelar, deixa o pensamento conectar… Medidas servem para coisas, para construções de objetos, carne, ossos e sentimentos não precisam disso. Nada material satisfaz o imaterial, o impalpável, a presença e se satisfaz é quando realmente perdemos.