sábado, maio 16, 2009

Folha de Outono

Nas costas não era o significado tatuado
Era uma imagem qualquer de erro crasso
Da manhã acontecendo de um zero total
Da tarde nublada ao redor do sol
Da noite enluarada de escuridão
Dizendo-me calma
Mostrando-me minha alma desenhada

Não era apenas uma imagem tatuada
Era acreditar em mim e acordar
Eram traços sem medo do meu caminho

Nas costas eu me carregava de dentro pra fora
Fogo e voo me misturavam ao equilíbrio
Enquanto doía um próximo sorriso
Minha força me mostrava forte
Minha solidão me interagia coletivo
Todo eu era partes de vocês

12h37 (Rafael Belo) Folha de Outono, 16 de maio de 2009.

quinta-feira, abril 23, 2009

Som do vibrar(Foto by Rafa Belo - é o Robby Krieger)

Vibram os mais mortos dos corpos
Ouvem os ouvidos mais surdos
E não há mais idades no brilho dos olhos
A alma é atemporal o coração musical
E o corpo uma mera ilusão
Cantando uma canção antiga
Sorrindo para os calos da vida
A deixar de existir então

Vibram os mais frios dos graus negativos
Sentem as peles mais insensíveis
E não há nada a atrapalhar a música

Cantam os impossíveis no ritmo dos invisíveis
E o povo na efêmera massificação
Trazendo o novo para o que não foi
A estrelar a estrela de todas as noites de reflexão

10h53 (Rafael Belo) 23.04.09

quarta-feira, abril 15, 2009

“O feriado” novo

por Rafael Belo

Minha mente às vezes está em tantas partes e com tantos Cosmos gritantes, que só posso sorrir. Nestes dias é como se eu estivesse contendo novos mundos em contrações para nascer de imediato – ou renascer posto a Páscoa. Estou inquieto prestes a acontecer. Me coço me impaciento, olho para todos os lados atento e às vezes sem olhar ouço, vejo, escuto, sinto... É o parto mental nietzschiano, mas terei anestesia ou terei me acostumado com qualquer dor? Claro, só porque pareço não a sentir... Pareço aumentar novos sentidos e as coisas do mundo falam comigo. De alguma forma tudo ficou lento e eu estou na velocidade máxima, sozinho. Ansioso por me acompanhar e me vendo afastar. Novos braços, novas pernas, novos olhos, novas bocas, novos ouvidos tudo em sinestesia, tudo tão claro. Minha mente não me deixa parar. Crio mundos em silêncio e controlo o que penso para calar ao dizer de outras formas, livre. Mas, nem sempre tenho controle sobre meus mundos. Que mundo tem controle, afinal? Nem os que são controlados.

Então, vejo repetir “o feriado” nos sites, na tevê, nos jornais, nos rostos das pessoas e nas igrejas. Não tem o mesmo significado, mas tem. Desenho. Ainda é ressurreição daquele terceiro dia quando o corpo se reunificou com o espírito, ainda é o êxito do êxodo dos israelitas quando fugiram de Ramsés II, da escravidão para a liberdade. Esta é a Pessach do hebraico. A passagem. Passamos... Mas, um fim de semana prolongado. O quê ficou? O quê foi esta Páscoa? Como as coisas deixam de ter sentido com o tempo e como deixamos isso acontecer. Mas não controlamos nada mesmo por muito tempo, o tempo todo então... Ouvi na rádio pessoas que desconheciam o significado do feriado, mas é de praxe que não seja o único e o mesmo “despadrão” prosseguiu na maioria dos canais zapeados da quinta-feira à noite.

Foi “o feriado” novo. Nele vi de uma forma diferente a Páscoa que simplesmente passou. E na segunda-feira parece que nada aconteceu e os mesmos comportamentos da dita hipocrisia e sobraram alguns “magros” chocolates. A passagem da Páscoa... Sendo religioso ou não, é história e de história sempre há de ficar algo. Passou rápido demais, mais um dia de folga... Não... Não consigo ver assim. Vi meu terceiro dia, comi chocolate – muito – mas me senti passando da vida para morte, da morte para a vida em um ciclo de liberdade. Nada fatídico, nada fenomenal, uma experiência pessoal com a transcendência das idéias e o calor da família. Nada passa se você viveu de verdade o passado - ou passa?

segunda-feira, abril 13, 2009

Esvaziar

Há tanto na cabeça conectada
Aos plugues do som sinfônico
Com a melodia das sinapses em expansão
Como um Cosmos infinito de Big Bangs mentais
Nos pensamentos atômicos transcendentais a explodir o silêncio
Feito um atentado da negação de criar no instante

A parecer raiva, a energia locomotora de inspiração
Inquieta dentro da alma chocando forte um coração de pensamentos
Enquanto muitos nãos retêm a arte para amanhã
Música letras, ataque defesa se unem para ontem e nascem depois

Há tanto na cabeça explosiva enviada
Para todos os sentidos aguçados famintos e sedentos demais
Apurando o redor como uma caça pela vida
Fechando os olhos e arrepiando a mente
Cheia de sentido, repleta de ilusão

11h13 – Rafael Belo – 13.04.09

quinta-feira, abril 09, 2009

Espera

Há chamas nesta neblina úmida
Incendiando-me de cegueira

Há instintos, moral, dinheiro e o dever
De vê-los, sei o que fazer, mas o que farei?
Vago na neblina, em chamas

Minha voz, sem som e estou vago
Não vejo quem me vê, cegueira coletiva

Deixei-me lá, crepitando
No meio de todos, sou pensamento
Luz, vácuo, escuridão com pressa

E o tempo não esperou, ficou cinza
E não olhou para trás

14h45 (Rafael Belo) 27.03.09

quarta-feira, abril 08, 2009

Colarinhos brancos da vida

por Rafael Belo

Cela no senado? Onde mais, não é?! A maior lógica de todos os tempos. Um prêmio para ela. Claro que vai ser mero enfeite, porque sonegadores, fraudadores, “caixadoresdois” e demais eternos reeleitos e colarinhos brancos vão e vêm das prisões como um ensaio da prisão ou apenas da simbologia de ser preso. A explicação é que a estrutura serviria para abrigar quem cometesse delitos na casa. Uau! Perfeito. Está realmente no local mais adequado. O eufemismo da prisão senatoria é sala de custódia?! Aonde fica a sala de justiça?! Alguém chame a liga de super-heróis... Por isso o Brasil vem com piada pronta como diz Zé Simão. Otaviano Costa pensa como eu, para que perder tempo com a construção? É só espalhar barras pelas janelas e portas, assim só sairia o “presidiário” com bom comportamento aprovado. Os pequenos colares brancos dos burguesinhos empáfios têm sempre um final feliz seja lá o que for felicidade para eles – ou para nós.

Outros crimes de lesa-pátria cada um deles tem ou terá o seu. No senado são cerca de mil ocorrências por ano, porém, nem todas levam o infrator à sala de custódia que cabem três pessoas. E se houver superlotação. Temos que lembrar que são 300 senadores? E a mágica da ilusão, bem redundante mesmo, de cortar só 50 diretorias das 190 ou seriam mesmo as 181 no senado como “corrigiram”. Depois disseram extinguir mais 50 e o que fazem todos os diretores lá sem diretoria... Ficariam 81 diretorias ou 90? Bem, então finalmente disseram que são só 38 diretorias... Engolível o número, mas, não a informação, todo o resto são títulos disseram, chega de títulos então... Diretores que se dirigiam, o sofisma como disse Noblat, parece belíssimo. Somos trouxas certo? Diriam que já é um começo a aceitação... Pensem, diretores de: “Check in”, “garagem” e “autógrafos em atas” são os menos chamativos.

Ninguém foi afastado ainda ou deixou de ganhar a gratificação, são diretores gratificados de nada. Foram os publicitários que inventaram essas diretorias? Ou foi um concurso de criatividade? Enquanto suspensa para análise da necessidade da construção... Alguém tem alguma dúvida da necessidade...? Mas, ainda sou a favor de transformar o senado em uma prisão, pois, francamente, três pessoas em uma cela é um bom mito grego. O Senado da Roma antiga e antes da Grécia antiga elegia imperadores e 81 senadores, três por cada Estado. O nosso “elege” um monte de leis que ficam circulando lá por anos - e por que não décadas?! -e não chegam a ser sequer analisadas ou a público. Tenho a “leve” impressão que estamos presos a um passado recorrente sem sequer tentar algo novo não tentado naquelas épocas. Será uma cela nossa democracia em uma sela sobre nós?

Afinal, somos só nós os presidiários? Diria pode ser, mas, “pode ser” são dois verbinhos sem vergonhas... Ah... Suposições me irritam. Não, não me irritam. Mas, não acredito no “poder ser”. “Pode ser” que já estejamos todos gagás a ver o senado lá da Grécia antiga ser um covil como era, aliás, senado tem origem etimológica da mesma palavra: senil... É do latim senex que é igual a velho. Nada contra os idosos também quero chegar lá, mas de sabedoria estes “nossos do senado” só tem o bolso. Li a seguinte frase em um livro sobre a mentira: George Washington não diria uma mentira, Richard Nixon não diria uma verdade e Ronald Reagan não saberia a diferença entre elas. Falando em Washington este discutia com Thomas Jefferson, certa vez, sobre o senado e Jefferson interrogou o motivo de Washington ter derramado, propositadamente, um pouco de café no pires. A resposta foi que o processo auxiliava a resfriar mais rápido o conteúdo da xícara tornando-o degustável, ouvindo o que queria Jefferson disse ser o senado o pires para resfriar os ímpetos revolucionários populares e gerar o equilíbrio necessário para a vitória de um regime político democrático. Idos da criação da Constituição Norte-Americana. Nós, ao Sul, ainda nos encontramos nos achados e perdidos...

terça-feira, abril 07, 2009

Cópias


O balir de bailar a música hipnótica em ótica
De não entender o que enxerga
Vai nas superfícies, escondidas
em profundidades, confusas
sem saber o som saído, ao balir

Entre lobos e cordeiros, há troca de peles
Os cordeiros, em matilha, fingem uivar da lua
Os lobos, ao balir de seus rebanhos, simulam pastar, sem fugas
E quando o luar vem cheio, os dedos mudam
Não há origens, nem originais
Há cópias de seres, humanos
Apontado, para o outro

14h30 (Rafael Belo) 27.03.09

segunda-feira, abril 06, 2009

Menos

Ninguém se virou, enquanto a destruição seguia
Lenta e sistemática entre mentes da orgia democrática
Sem vestígios da democracia bradada, atrás de palavras

Entre povo e poder, há quem manda
Sob uivo de cordeiros covardes
Os círculos se formam e terminam no mesmo lugar
Mas, não foi bom caminhar?!

Sobre carnes artificiais da gula, só há sangue
E palavras mastigadas, de indigestão
Balem os lobos, verborragias
Do momento passado, do momento seguinte,
onde não somos mais, nem mesmos

14h15 (Rafael Belo) 27.03.09

sexta-feira, abril 03, 2009


Criança cruel e seus brinquedos

Por Rafael Belo

Senti-me adulto quando a infância tentou me derrubar. Era apenas mais um dia de sobrevivência na selva urbana nos devorando sem sabermos ao certo. Mas, uma súbita clarividência me afetava dias antes de me defender perante o tribunal de ninguém e colocar as palavras e as imagens nos devidos lugares. Fui absolvido. Mais que isso, a selva se tornou mais interessante como se eu fosse um mosquito vegetariano em toda parte.

Sugava imagens e sons sem zunir ou não estava ali para quem me visse. Silencioso e calado. Quase uma abelha com silenciador, já que estamos nos insetos e tive uma vontade incontrolável de polinizar. Como no Bee Movie a morte das abelhas significa o fim de tudo. A morte sem sentido, por uma decisão sem medir conseqüências a quantidade de afetados, leva a um suicídio coletivo inconsciente. Como se o ar fosse tocável.

A rasteira da infância não mexeu com o meu físico, mas meu psicológico gritava por revanche. Não havia reação, era continuar e melhorar a captação de sons e imagens com uma adaptação de ferroadas que não levassem minha vida. Em uma sociedade da mentira, há um monte de mentiras. Faltam adultos que saibam cair das árvores ou deixar de ser verdes. É uma selva falsa que pensa saber rugir e caçar solitariamente fazendo aliados duvidosos.

Sabia o que aconteceria daí por diante, aliás, a clarividência súbita já me “premonia” disso. Alguma retaliação deveria ser feita, mas era racional demais para permitir transparecer qualquer coisa e analisei palavra por palavra quando a selva me disse do ataque espreitado que tomei no mesmo dia em que era uma ave emplumada repetidora de reações alheias. Foi o derradeiro ultimato. Lembrei de dias antes quando estava vestido de outro.

O tribunal era escasso e só havia eu e o juiz. Um olhava nos olhos que desviavam e outro desviava dos olhos que olhavam. Houve um tremor intenso e insano dentro de quem olhava. Algo mudava no mundo e um envelhecimento centenário se formava nas olheiras. Passaram-se anos naqueles minutos derramados e acelerados em um coração passivo para quem não o via e tão ativo e insuportável de conter para quem enxergava que iria adiante formando novos continentes. O mundo é uma criança cruel e gozadora inconseqüente.

quarta-feira, abril 01, 2009

Jovem envelhecer


Envelheceu o tempo renascido, no mundo de ilusão
Não se passava pelo ar, ele nos retia no vazio
Não havia mais espaços disponíveis, para os de fora
Nem um passo a frente nem uma palavra atrás
Era a prisão aérea no solo, sem moral

Em sequência, Sibilava silêncios
Em dúvidas em defesas, atacados
Atados a golpes baixos estremecidos
Entorpecidos de qualquer revolta mal-resolvida
Amortecida pelo impacto não visto, mas assinado

Com tinta invisível simulada, alérgica
Métrica pelas medidas sem volume, anunciada
Pelas vidas nubladas no céu escuro, mormaço
De um leve amasso profundo de antigas crenças, no mundo
A girar para o mesmo ponto humano, parado

(Rafael Belo) 09h58 – 1º de abril

segunda-feira, março 30, 2009

Silêncio espancado


por Rafael Belo

Falar e não entender sobre o que fala é a “dádiva” de muitos seres humanos sem intenção ou com toda ela de passar adiante qualquer coisa ou uma coisa qualquer. Prejuízos intencionais ou sem intenção podem vir daquela pessoa que não conhece o silêncio. Fora de contexto, um beijo pode parecer o escarro de Augusto dos Anjos. “Escarra na boca que te beija”. É para dar o sentimento de nojo que a perda de confiança “às vezes” acarreta. Mas, não é bom beber veneno dos outros. Nem o próprio. Só penso ou tento, saber exatamente o que se passa em uma cabecinha oca, ao falar o que não lhe diz respeito. Em outra situação no meio de um clima não amistoso. O erro veio do momento de falar, não de quem ouviu. Brincadeira, mal-entendido, ironia, sarcasmo, não importa! Os lobos estão à espreita vestidos como sempre de cordeiros, mas uivam para a lua certa na fase errada.

É tempo de silêncio (?). Não! Quem sabe dar voltas, as dê. Por cima, pelo lado, em cima... Confrontar o “mal-entendedor” não ajuda sempre. É ínfimo e de uma igualdade inexistente. Seja perspicaz. Levante suas próprias orelhas e guarde seu silêncio. Resolva o “problema”, respire fundo e não seja idiota de cantar a vitória. Transforme em algo produtivo. O prazer humano de espalhar traz um fel ferino que desperta a besta em qualquer um. Direcione corretamente sua ira bestial. Não use intermediários. Passe calma desse seu vulcão tectônico. Procure saber o que aconteceu para desencadear, algo como uma série de demissões por causa de palavras medíocres que você disse. Eu disse! Inocentemente desta vez... Paguei o pato por alguns minutos... Mas, outras vezes outros falaram demais... Agora não digo mais nada. O ambiente pesa sem todos saberem o que ouve. Informação real ou não e o resultado disso parece realmente privilégio. Assim como privacidade. É conto de fadas.

Era uma vez... Então, acabo por pensar na índole das pessoas. Não gosto de parâmetros de comparação e não gosto de comparar, portanto não o farei. Não me cabe julgar as pessoas. Mas, posso ter uma certa ira com relação às atitudes delas e deixar de confiar e interagir totalmente. Neste momento me parece que o silêncio ensina mais que as palavras... Não falaria sobre isso se não estivesse permitindo que me incomodasse, queria falar sobre a sela do senado, ops, cela do senado. Porém, devo dar vazão ao que está mais forte em mim. Na sexta pressenti algo ruim e estava com uma raiva insana. Sabia que por mais inocente, minhas palavras eram culpadas. Boca fechada agora para um bom grito depois. Há camadas de egoísmo provindos de lugares escuros da boca, onde até mal cheiro e aroma refrescante de alguma marca de higiene dental se confundem. Ah, humanos de onde sou afinal? Falar o que pensa às vezes é sinal de silêncio...!

sexta-feira, março 27, 2009


Cicatrizes do vento

por Rafael Belo

Na pele, ela tem caminhos com inícios e fins que não levam a parte alguma, diferente das lembranças cicatrizadas pelo vento. Soprado da própria boca com o ar dolorido para continuar. Acácia sabe que o vento há de levá-la no tempo certo, já marcado há tempos. Sabe, porque já esteve acidentada tantas vezes sob tantas formas, que para outros foi mortal. Ficaram dos acidentes, cicatrizes. Uma de cada um. Um vislumbre de uma vida finita, mas longeva.

Sobreviveu em silêncio a explosão de um avião. A aeronave caíra sobre sua casa sem deixar vestígios do que era a casa. Ela dormia de bruços e acordou distante sem se preocupar com qualquer explicação. Não era a primeira vez. Já havia parado de contar quando os números se aproximaram de centenas. Mas, este levou todos da sua família e deixou que a levassem também. Olhou como inconsciente para o vazio em chamas de onde morava. Suas lágrimas correram pelos diversos cortes fundos no corpo e chegavam abundantes ao chão.

Sentiu o vento a levar e lembrou-se da desolação, que ao invés de secar, este novo oceano de tristeza, fartava em uma abundância absurda como se não houvesse terra no planeta, só sal e ondas. O mundo das águas soterrava a sete palmos seu mundo em afogadas dores. Não havia sentido nos pensamentos, apenas um pesar enlutado dilacerando o coração constante a atirando de joelhos ao chão e levando a escuridão a consciência de um desfalecer.

Quando as cicatrizes começaram, a mais vaga lembrança era cair do berço sem ninguém por perto, além das ressonâncias dos pais a dormir em outro quarto. Mas, não podia ser dela esta memória. Como poderia ir tão ao passado? Não! Ela não queria se aceitar diferente, pródiga de algo. Era como todos. O resto é coincidência. Mesmo não conseguindo se enganar desta maneira. Por que sempre sobrevivia sem maiores gravidades?

Após recobrar do fim de tudo que tinha. Ficou ajoelhada por horas. Ainda que doesse mais a alma ao corpo, mas o coração competia por milímetros de vencer. Ela sentiu neste instante, seu negro manto triste de tortura ser despido suavemente. Suas permanentes cicatrizes viraram lembranças do vento, que a afagava e soprava na direção da imensa fogueira de uma vida desperdiçada por incontáveis “ses”, “sou assim mesmo” “o quê vai mudar, afinal?”.

Na própria fogueira de egoísmos, vaidades e julgamentos teve sua Sodorra e Gomorra e sua própria barca. Suas segundas chances eram definitivas desta vez e seus maus pensamentos definitivamente não existiam mais. Navegava em si e acolhia o mundo que via feito uma revelação apocalíptica escrita por dentro da pele em um evangelho de caminhos. Acácia revia seu filme todos os dias, para seguir com o vento adiante e ao menos refrescar o mundo cuidando das suas borboletas.

quarta-feira, março 25, 2009


Estava lá

Uma direção direcionada, guiava
Os rumos de alguns passos meus
Mas eu, me impedia de não os seguir
Caminhando contradição, faltando um pedaço
Deixando a perdição diante das opções dos caminhos

Rumores me enchiam a cabeça, eu nada sabia
Queria me libertar, mas voar para onde?
Seria qualquer coisa melhor, que a própria prisão?
Dissabores me tiram os gostos da boca, qual o gosto de gostar de si?
Minha cabeça gira, parodia tantos pensamentos soltos

Sinto o gosto de se gostar, é uma música derretida no paladar
Pensar com os próprios pés, contrariar autoridades, cantarolar
A direção em minhas mãos sem habilitação para guiar, mas quem tem afinal?!
Rebeldes estão aqui, na mente, não querem estar assim por mais tempo
A rebeldia, sempre estava lá, impaciente

14h35 – (Rafael Belo) 25.03.09 - (para Lore)




Rei de mim

Quando as portas abrirem
me leve para dentro
com um movimento
que só eu veja sem olhar

Na natural natureza de rosnares libertos
No verde do concreto a pedir devastar
O trancar alheio das portas de vidro sem lar

Serei o leão morto todos os dias
Disfarçado de mitologias em cinzas
Para no outro dia voltar a rosnar

(Rafael Belo) 11h42 – 25.03.09

segunda-feira, março 23, 2009

Dias de chuva...

Por Rafael Belo

Quantas dores há no mundo? Começando de nós mesmos, vejo muitas. A dor da fome, da ignorância, da desilusão... Mas, a mais dolorida é a da perda. É desta dor a se falar. Viva e deixe morrer... Viva e deixe viver... Quando alguém próximo - e muito próximo – morre, não é como acabar um relacionamento, mudar de cidade ou manter um segredo devastador (às vezes é)... Toda aquela rotina onde a pessoa (agora morta) se infiltrara está vazia dela. Perder pessoas é um termo forte demais, não se perde ninguém. As pessoas não nos pertencem, nem nós nos pertencemos. Há algumas semanas, a revista eletrônica dominical daquela rede sinônimo de planeta, mostrou a dor de quem ficou após a calamidade “natural” de Santa Catarina. A alguns deles, vestidos de dor, me pareceu a própria morte mais fácil, a agüentar a morte de um filho, ou de um ente amado. Orfandade de diversas maneiras na televisão.

É triste, de diversas maneiras, assistir sem poder assistir a dor alheia jogada da tela para informar (?) e entreter (?). Infelizmente eu tinha esquecido a proporção das chuvas catarinenses. Não, bem esquecido, mas me desligado do efeito em longo prazo. Casas e famílias afogadas. Os sobreviventes mostrando claramente uma dor aguda na televisão. Qual a necessidade de contar a cicatriz aberta de novo e de novo. Foi bom e foi ruim, digo. Não precisava mostrar tanto a dramaticidade, de um drama tão triste. Os “sobreviventes” poderiam ser poupados de reviver os dias de chuva e os de desolação conseqüentes. Quantas dores custa uma informação? É dor, medo e violência nas cores iluminando da velha caixa, no escuro da sala a receber exclamações indignadas e de cautela das famílias diante da tela. Dias de chuva são preocupação para o país de uma maneira mais dolorosa, agora.

Terminei de ler um livro onde guardião de memórias (título do livro de Kim Edwards) ficou sinônimo de segredo imenso e devastador. Lugar onde uma floresta densa e impenetrável cresce no centro do coração e ninguém entra de fato. O livro prendedor conecta-se diretamente com as dores de Santa Catarina pela dor causada pelo silêncio e o vazio posterior. A dor de um pai, uma mãe, um filho, uma diversidade genética, decisões, desastres naturais onde a culpa envolve todos e aponta caminhos longos e tortuosos caminhados sozinho. Algumas pessoas vestem a dor com um número a menos, pensando ser apropriado o aperto. Deixam a vestimenta apropriada por pouco tempo ser inapropriada por tempo demais e as dores próprias do mundo não são tidas como aprendizado, mas como castigo supérfluo a ensinar apenas quem regeu o castigo. O que sei de dor, afinal?

segunda-feira, março 09, 2009

Ficou na curva

Veio a dor
Feito um rio seco
Onde as pedras não se acomodam

Rolam sobre o peito
Sem arredondar as pontas
Rasgando os gritos com ecos

Represa a sequidão do rio
Onde rola a dor em pedras
A empilhando no leito vazio

Rio de pedras
A me atirar primeira
Hipocrisia como a gota d’água

Há um desvio no rio
Rio que continua a doer
Dor que ficou na curva

22h14 (Rafael Belo) 08.03.09

sexta-feira, março 06, 2009


Mente paranóica _____
Por Rafael Belo

O mesmo som a noite inteira na festa do pijama com roupas curtas e sorrisos longos. É festa íntima até de repente aos gritos de no chão no chão, a diversão parece acabar. Curiosas, às mulheres tentam olhar pela sacada. Dois objetos não identificados foram arremessados e vistos como granadas. Pânico da dona do apartamento que ao perceber ser o ex-namorado policial desce. Alêgrea ainda tentou descer mais o carro saiu em disparada com o som mais alto do que o ensurdecedor som da festa.

Por precaução todos permaneceram soldados. Rastejando sobre os cotovelos, braços, mãos, joelhos, pernas, pés feitos calangos no deserto escaldande diante da iminência da guerra entre iguais. Já eram ouvidos barulhos de bombas estourando ao redor, seqüências ininterruptas de balas, gritos – bem estes eram reais demais – e um sangue jorrado de uma imaginação paranóica. O medo orquestrava tudo com sua pose petulante de necessário.

Mas, a mente humana não deixa nada sem associação. Alêgrea não sabe disso e cultiva suas conspirações contra si mesma. Assim dias depois da guerra imaginária, Alêgrea estava envolta de uma dessas associações, que não tem sentido algum fora da mente dela. Descendo umas e outras e se divertindo mais uma vez - será um padrão – ela presencia a briga violenta dos vizinhos “por acaso” também no posto. Abastecendo a mente com algumas sandices ela guarda a cena cotidiana na memória.

A rotina de brigas do casal de vizinhos é brutal com gritos já desvendados pelo ouvido de plantão. Certa noite, próxima ao dia do posto, Alêgrea olha atenta pela janela e vê o homem do casal descer do carro. Ele volta pega uma imensa faca quase do tamanho de uma foice ceifadeira, a esconde por toda a extensão do braço e do corpo e segue até o apartamento. A confusão está acelerada. Em Pânico, Alêgrea aciona todos os próximos e espalha a nóia. Em rede no telefone, não quer ficar só.

Com um policial a tiracolo em casa - sem ninguém ver o que ela enxerga – conta toda a história, que nem nós sabemos. Ela é cúmplice da briga do casal e imagina ser uma queima de arquivo. Será assassinada e a vinda do homem com o imenso facão prova tudo. O casal nem sabia da existência dela, mas quando o policial vê o facão e revista à casa do casal a história do homem da janela da frente é confirmada. Eram os preparativos de um churrasco do casal entre o amor e o ódio. Agora todos conhecem Alêgrea.

quarta-feira, março 04, 2009

Páginas tremidas


Presente na ausência as ruas vazias preenchem as lacunas
Entre temer e estar só pela vastidão de um beco sem saída
Onde enxergam além dos muros pela visão tremida de não querer sair
Enquanto da janela as sombras acompanham a vida olhando pelos cantos
Dos olhos desconfiados os passos apressados temidos assombram

A si mesmos porque tudo passa onde nada passa enfim, ausente
E a presença da ausência vai parte por parte se tornando lembrança
Nas desertas pessoas que não estão lá nem aqui por tremer estar
No pânico estranho do mundo estranho de paranóia
Com a obsessão de uma perseguição inexistente

Ausente na presença de ninguém, esvaziam corpos de medo
Com copos cheios de alterações bebidos com água e açúcar
Nos cantos onde pessoas encolhidas usam o toque de recolher
“Às custas” da covardia da alegoria da caverna ambulante
Distante da luz mesmo sob o temido sol ardente
Sombreando páginas em branco


09h38 (Rafael Belo) 04 de março 2009.

segunda-feira, março 02, 2009

Temor da vida


por Rafael Belo

Com os olhos vidrados em cada som produzido aos arredores algumas pessoas estão em pânico constante. Já perceberam? Os efeitos às vezes, ou muitas delas, não são de traumas, experiências alheias ou alguma pré-morte. São de ouvir falar, de assistir ou do nada mesmo. É uma angústia constante “viver” assim, imagino. Não dormir para não ser assaltado em casa e ainda assim não ter qualquer arma diferente de uma faquinha cega de pão. Luzes acesas, olhos vidrados, coração disparado e a porta de casa cheia de apetrechos Magaiver do Paraguai que só assustam quem chega tarde em casa. Se houver o assalto, qual a reação? “Parado ou te... Passo manteiga! Não estou brincando! Se afaste ou vou te lambuzar até você não conseguir ficar mais em pé”. Que obsessão absurda... Redundante! Qual não é? Há pessoas que não saem de casa por puro medo de ser abordada... Que horas são, por favor? Ahhhh...

Observo bem as pessoas antes de perguntar e fico pensando se vão me responder me ignorar me esfaquear... Aí sim - ainda pensando tudo - pergunto local de tal rua, as horas quando o celular descarrega. Às vezes obtenho boas informações, sabe, com detalhes e referências, outras as pessoas dão aquela paradinha involuntária já se preparando para correr, falam muito rápido e antes de você agradecer, somem. O medo vive no canto dos olhos. Você ouve passos e aperta os seus, você vê alguém com quem não se familiariza e muda de calçada, o sinal fecha e você olha para todos os lados implorando para abrir logo, você faz de tudo para não ter que andar sozinho e confia em quase ninguém. Que tristeza! Viver com o coração não garganta não ajuda ninguém a respirar e por que pensar que isso é “normal”? Porque é o comportamento padrão da nossa sociedade. Ah, bom! Agora sim!

Na ponta da língua. Ter medo é normal, mas viver com medo... Aliás, esqueça o “normal”. Já não é palavra confiável! Está é a palavra chave, não é?! Confiança! É aquela história de tentar se suicidar e levar o milagre da vida para outras argumentações. Quem quer tirar a própria vida, o faz. Há filmes e livros sobre este ato obsceno e medonho. Mas a “falha” desta tentativa indica o medo de seguir em frente, de estar sozinho, de enfrentar a vida, de pedir e aceitar a necessidade de ajuda, de achar que agüenta o que o caminho seguido lhe proporciona ou proporcionou sem ninguém, então, a palavra solta a alguma linhas volta: Confiança. Coragem não é o antônimo de medo. Antônimo de medo é confiança, porque coragem não é ausência de medo. Confiança sim.se você confia em Algo maior e m sim mesmo, não há porque evitar a vida a temendo. Caso contrário, é hora de aprender a confiar.

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Desculpe, estou eu

Por Rafael Belo

Chove um mar de egoísmo na minha alma. Logo eu, Nélio Basta, que sempre pensei realizar ações altruístas sem beneficio. Estou espalhando um ego egoísta de proporções gritantes. Deixe eu gritar aaaaaaaaaaa. Não olho ninguém sem tédio, sem pensar no que poderia estar fazendo se não estivesse perdendo tempo dando atenção a outra pessoa. Vou passando por cima soltando sarcasmo pelos cantos da boca para não engolir minhas palavras asperamente cruéis.

Estou indigesto como jaca com açaí na soja. Minha mediocridade virótica se espalha e cria pandemia. Ninguém sai ileso da minha presença inútil. Sou nocivo. Sou um veneno de vias aéreas. Não me respiram estou intragável. Não percam tempo me mastigando para morrer de indigestão. Minhas palavras cortam peles de aço e ferem ferinas qualquer ouvido próximo. Quem me vê hoje enxerga tempestades que levam vidas com as casa inteiras. Mas, não sou assim... Pelo menos não era!

Estou letal e era manso. De uma mansidão que águas serenas sem vento jamais tiveram. Fiquei no limite de tudo: da consciência, da paciência, da emoção, da tolerância, do equilíbrio, da sanidade... Caí em um poço de egocentrismo tão denso a deixar Narciso repleto de inveja de mim. Sou uma cabeça vazia agindo por estímulos e instintos rosnando ferozes em constante insaciedade, em uma sede de destruição de dar vergonha aos sem vergonhas.

Mas, DESCULPE, estou eu! Não creio que meu eu manso exista ou de fato tenha existido. Sou egoísta e de fato é minha essência. Passei minha vida recheado de máscaras e, aliás, DEVOLVA MINHAS DESCULPAS. As pessoas não diziam e não dizem o que pensam e eu as poupava das minhas palavras. Não mais! Este é o meu Basta. Sou mal e praticarei quem sou. Se é que ser mal é fazer o que quer e for quem é. Posso dizer que sou.

Não encoste em mim, não me diga o que fazer. Não me olhe por muito tempo e se olhar que seja nos olhos e se for nos olhos sorria. Eu recomendo. Não quero saber de ninguém, quero saber de mim e somente eu me interesso. As pessoas são tão chatas e enfadonhas que devo ser algum anjo caído, um demônio ou um arcanjo empunhando uma espada de fogo. Só que engoli a espada e a lanço pela língua e às vezes pelo punho. Se afaste, se aproximar-se virará um mar de egoísmo feito da minha chuva.

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Pegada

Fui pisar já tinha um passo
Evitei pisar no pé
Continuei caminhando encolhido
Fui trombado como ambulante errado
Olhando as pessoas mudas nos carros gesticulando
Invisíveis nas ruas ninguém via ninguém
Não havia um olhar nos olhos também

Pisei em um pé irritado com desculpas
Não havia desculpar no vocabulário
Não havia tudo bem nos lábios cerrados
Nenhuma presença real nos avatares da vida
A não ser os grupos parados observando passantes

Pessoas obstáculos nos caminhos pisados
Pedras atiradas no silêncio briga de ratos
Passos escorregadios sons de macacos
Marcas apagadas antes de serem feitas
Caminhantes do asfalto feito de areia
Pegadas misturadas sem a gente pegar

15h48 (Rafael Belo) 28 de janeiro de 2009.

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

O próximo é egoísta?

Por Rafael Belo

Dias de chuva em Ribeirão Preto. Ainda! Gosto de chuva. Sério mesmo. Caindo serena quase sem molhar. Diariamente. Bom para dormir, ruim para acordar. Enfim... Ontem sai cedo com o guarda-chuva me protegendo. Enorme, daqueles parentes dos guarda-sóis. Andei o dia inteiro sob ele e acabei o esquecendo depois que a chuva deu um intervalo na tarde. Desviei e me preocupei o tempo todo em não acerta meu teto ambulante em nada, em ninguém. Não reparei se o oposto era verdadeiro, mas gostei do malabarismo da antecipação dos próximos passos para posicionamento adequado de passagem. Só hoje na garoa paulista sem o teto esquecido, tive que torcer para não ser degolado. Passos rápidos em corpos encolhidos se aproximavam com as hastes próximas da minha garganta e nem me olhavam. A preocupação era a própria “proteção”. Nada de próximo.

Parece que há bolhas espalhadas nas calçadas ao redor das pessoas esperando um “bom dia” para olharem surpresas com um meio sorriso. Tenho mais de 1,80m, portanto não sou difícil de enxergar e mesmo assim corria riscos me aventurando com guarda-chuvas acusados de tentativa de homicídio. Próximo dos próximos observava a distância generalizada. Procurava fachadas com qualquer cobertura para me molhar menos e me incomodava à falta de senso daqueles tetos ambulantes debaixo de outra proteção. Cadê o espaço? Não há respeito ao próximo do próximo? Até na fila do famoso ônibus do ponto coberto até a porta uma dupla debaixo daquela imensa proteção gotejante rodando e mexendo na altura dos meus olhos. Derreteremos todos se pensarmos próximos, não iguais... É difícil pensar chove para todos aqui e que podemos pensar em algo... Assim... Além de nós mesmos...?

Há uma pregação tamanha do egoísmo e não falo só da presença dos guarda-chuvas invasivos. Com sol há aquela disputa por espaço na calçada. Imagine, ou melhor, lembre. Você está indo por um caminho estreito e do outro lado há alguém vindo em sua direção. De repente ambos aceleram para passar primeiro... Um doce para o felizardo que conseguiu...! É proibido ceder. É contra as regras (não me pergunte quais). É você e você e ninguém mais. Satisfação, carência, satisfação, carência, impulsividades, falta de raciocínio, satisfação carência... Sintomas da grave doença do século: Depressão. Vamos abrindo buracos e de repente (depois de dias, meses, anos...) estamos sem chão, sem nós mesmos, estamos ligados às névoas passageiras de felicidade em comprimidos vendidos sem receitas nas propagandas da vida. O resto que se molhe... (?) Para merecer espaço é necessário ceder lugares!

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

___________________________________Luz acesa 

Por Rafael Belo

Foi dormir e acordou com o coração disparado. Não havia ninguém em casa. A Escuridão mais uma vez tenta afastá-lo da Luz. É com freqüência esta repetição. Uma tentativa de trabalhar em conjunto com o medo. Um pesadelo e tanto o deixou tremendo. De longe, sob a luz da tevê, ele vê os objetos da cozinha rodarem no ar como uma dança macabra. Sons ininteligíveis viam. Ele sabia a direção de tudo aquilo: ele mesmo.

Diogo se afastou muito desta vez. Lá fora ele via a escuridão se aproximar, o pressionar. Mas, também estava no pé do ouvido tagarelando. Ele ouvia como pensamentos e cavava mais a ilha de desilusão e desespero se arruinando na solidão dolorida de talvez não existir. Uma depressão o anulou, o deixou com vontade de suicídio e sua ilha era engolida mais e mais para a escuridão chamada para entrar. Seus olhos tremiam na cozinha. 

Decidiu ir até lá com uma respiração pesada e um medo absurdo como se não tivesse ninguém como se fosse abandonado. No dia anterior ele se sentia manipulado e com maus pensamentos de todo o tipo de morte e destruição. No decorrer de um domingo ele sentiu uma paz imensa que dizia confiar nele.  Sem precisar de mais ele imediatamente sem sequer perceber parou com os maus pensamentos. Descobria ali um a um os motivos da falta de vontade e descaso próprio.

Viu o abandono dos dons e a obsessão por desejos vazios. Mudara com um sentimento. Mas, quando à noite veio ele quase clamou pela volta. O pesadelo durou horas e ninguém presente (pais e sobrinha) ouvia nada, via coisa alguma. A sobrinha arrumava as malas, os pais vidrados na televisão... E toda aquela Escuridão o danando como um caldeirão de cozidos dele mesmo. Acordado olhou para os vazios da casa e voltou a deitar ainda tremendo o pesadelo. 

Havia abandonado suas crenças e seus dons. Ao voltar se deparou com uma barreira. Poderia ter “voltado atrás”, mas não agüentava mais tanta escuridão. Tudo como uma metáfora mais elaborada do que apenas o Bem e o Mal. É o aviso de maldade. Da má influência. De como somos mais carne e obscurecemos o espírito para satisfações e nossas luxúrias. Como podemos ser fracos sendo tão fortes? Nossa Alma é tão maior e ainda fingimos termos outras necessidades... Acenda a Luz!

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quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Se Foi

Hoje eu não sou um bom dia

Não levanto não acordo estou no mesmo lugar

Meu corpo treme em agonia depressiva da dor

De uma janela chove cinza do meu corpo ido

Foi lavar a alma na esquina vazia

 

Com o sentimento de abandono espumando

Nos cantos da boca redonda

Mas alguém sorri para minhas lágrimas sedentárias

Uma luz ao meu lado de passagem

Passando para deixar a auto-piedade no ponto

 

Um sopro de palavras na tempestade feita de vida

Lança-me de volta para levantar com um suspiro

De retorno para o hoje que continua por mais que amanhã chegue

Olhares tristes se vão sobem e descem

Param na esquina, e a preenchem.

 

13h53 (Rafael Belo) 26 de janeiro de 2009.

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Sem pensar

Por Rafael Belo

Dia chuvoso. Não estava animado para sair debaixo da coberta, soltar o travesseiro. Tudo cinza. Mas, amanhã tenho dentista já faltarei. Segunda-feira é o dia da preguiça e assim o dia que mais faltam ao trabalho. Quem não tem seus momentos de dúvidas? Eu me escondi este fim de semana já que meus planos haviam sido alterados desnecessariamente. Precisava pensar só. Me senti triste. Poucas vezes admito, mas depois de uma sessão rápida de acupuntura praticamente terapêutica, percebi algumas coisas me entristecendo. Minha liberdade estava sendo cerceada pelo meu silêncio. Acomodei minhas palavras, meus anseios, sentimentos e pensamentos em algum canto de mim esquecido. Não percebia minha tristeza. Mesmo pouca... Por quê? Bom eu não admitia que me faltassem “coisas”! Falta meu espaço, meus amigos e falei calado, pela metade. ( Mas, já faz algumas semanas)

Gosto de escrever, cantar, tocar e ler mais do que tudo e pouco tenho feito. Gosto de fazer matérias que façam diferença, de estar com as pessoas e algo se perdeu. Fiquei preso no que tenho que fazer, pagar... Não do meu gostar, do meu sentir, do meu dom... Criamos uma bolha, às vezes. Olho para frente e não para agora. Nunca fiz isso, me entristece avançar assim. O bom é analisar o caminho tomado até. Fiz isso e voltei alegremente a fabrica criativa atemporal da poesia, da música, do violão. Tive raiva e vi a direção dela: a minha. Homer Simpson diz que a culpa é dele e põe em que ele quiser. Também o digo e é justo mea culpa. Procuramos culpados e exemplos todo o tempo. Sempre procurei justamente ao contrário. Todo bom ombro precisa de ombros bons... Dia cinza. Tudo chuvoso. A animação veio, mas passou. É um processo solitário, mas, não precisa ser. 

É difícil admitirmos nossos atos e quando não o é, escondemos até de nós mesmos certas coisas. Nos aprisionamos e confundimos a liberdade. Então as pequenas coisas nos prendem. Eu acredito em Deus! Quando quem não acredita me pergunta: por que você acredita e respondo por que não? Falam de coisas racionais, de ciências... Podemos acreditar no que quisermos e podemos ser livres se esta for nossa opção. Não há perdas neste relacionamento de alto padrão. Neste relacionamento com a alma. Não é um negócio, então não falemos de vantagens... “Engraçado” como sem “perceber” queremos tirá-la (a vantagem) de tudo. Assim vive chovendo muito forte ou fazendo sóis abrasadores individuais. Não quero ficar pensando em querer deixar marcas. Vou ser eu mesmo, mesmo me perdendo em alguma mancha na minha alma apenas para limpá-la e sem pensar deixarei.