sexta-feira, junho 27, 2014

Não era esperança (miniconto) – por Rafael Belo







Aquele sofá já tinha seu formato mesmo ele se derramando nele apenas às noites. Souza Cinza era consumido pelo sofá. O sofá era o encosto da solidão. A solidão um sumidouro onde desapareciam vítimas constantes e, ele como todo ser humano, oscilava em casa. Seu humor era multipolar e ele não sabia o que fazer com tanta liberdade. Separava seus momentos como instantes de estar sozinho e o restante de lidar como ser solitário, porque, obviamente, não são a mesma coisa.

Estar sozinho era uma necessidade da alma para se expandir. Uma precisão do coração para relaxar e um vício da mente para aquietar.  Ser solitário é.... O silêncio incomodo, o vazio do lar, uma coceira inalcançável, uma ausência de conexão, um medo explicado, um celular mudo... Era uma malcheirosa bosta! Porém, era uma condição por ele imposta. Uma escolha irreversível, simplesmente porque ele não tinha vontade suficiente para reverter. A preguiça se enraizava em seus ossos e, como dizem por aí, cada vez mais Souza Cinza tinha preguiça das pessoas.

Tinha uma inveja doentia das folhas secas. Mesmo mortas, nunca estavam sozinhas e ainda iriam melhorar o solo. Estavam ligadas a algo. Este algo é a renovação da natureza. Ele era um estorvo. Seu nome tinha o significado da ironia. Seixo, pedra...  Não sirvo nem para ficar no meio do caminho de ninguém. Entre a depressão e a total falta de estima e baixa autoestima. Então, um grande inseto verde grama começou a sobrevoar sua cozinha americana e em seguida a sala. Ele estava na sala sendo consumido pelo sofá. Souza pensava: VáemboraVáemboraVáembora...


Com o spray de veneno na mão acertou o inseto no ar, na pia e depois no chão enquanto este tentava limpar a cara. O fez até matá-lo. Souza só conseguia se balançar e repetir: eu matei a esperança... EU matei a esperança... EU MATEI A ESPERANÇA... E o fez até ficar rouco e depois até perder a voz. Então, desapareceu como a voz. Foi-se no sumidouro da solidão. Estava finalmente consumido pelo sofá. Ele desapareceu com a esperança morta. Mas, aquele grande e verde inseto era apenas um devorador. Um destruidor gafanhoto. Este teve a morte antecipada por segundos. Longe de sua nuvem morreria de qualquer jeito.

2 comentários:

Pérola disse...

É dramática essa morte da esperança.

Vidas que levam a tristezas tão profundas que se auto aniquilam.

Entendo o sofá e o Cintra.

beijo

Rafael Belo disse...

exatamente Pérola. É bom saber que entende. Grato pela visita e coments

bj