terça-feira, abril 25, 2017

Desmergulho



ironiza a baleia azul o comando do jato d’água na superfície respiração
no meio do oceano tudo tem o mesmo tom é um espaço de contenção do som
ninguém escuta a tentativa de atenção onde os cortes no mundo ficam mudos
há muita desproporção para lidar com a transição dos adultos eles nunca estão lá

nosso lar é uma casa engraçada bagunçada por sentimentos desordem danada
nada dá nas conversas desorientadas é uma constante primeira jornada distante
diante das estantes vazias a depressão submersa nos afoga no expressivo silêncio

tensos espaços exagerados gerados da confusão generalizada liberdade é prisão
dimensão paralela na própria realidade acesa na tela manipulando a substituição

a mesma janela nos pula de uma altura pedindo ajuda para conversar ignorar é saltar junto quem sabe empurrar não ver os sinais necessários para respirar.


+ às 23h50, Rafael Belo, segunda-feira, 24 de abril de 2017 +

segunda-feira, abril 24, 2017

Desencalhe a língua preta



por Rafael Belo

O mundo é tão vasto e vivemos presos por uma cerca fraca em um local minúsculo. Talvez até andássemos oferecendo o nosso melhor, mas sabemos qual é ele? Podemos até ter as melhores intenções, mas sabemos qual é o efeito delas? Vivemos jogando vários jogos de azar e nos desafiando em um jogo sem vencedor. Lá fora estão as possibilidades, mas estamos desconectados aqui dentro, por isso estamos agrilhoados com uma corrente inexistente a um local invisível. Gostamos do humor, mas não queremos limites até tudo nos atingir. Nas redes virtuais há um animal real. Uma baleia. Baleia azul. A esta altura você já deve saber sobre o assunto e o vê de qual maneira. Vejo não bastar à incitação ao suicídio vir agradável como desafio da baleia azul. Precisamos ironizar, encalhar a ideia sem nem ter contato com os envolvidos. O mundo está frio. Este calor aparente é isto: aparência. As pessoas estão sim distantes e se alguém pensa em tirar a própria vida: está só sim. É uma epidemia dos nossos tempos. Ao mesmo tempo estamos conectados com tanta gente, somos populares nas redes sociais e estamos em um isolamento social.

O sentimento do outro não vem estampado no rosto, não está nas ironias, indiretas, no cotidiano é um desencadear sorumbático de um banzo moderno feito do que não se teve, do que não se viveu. A minha geração já tinha pouca atenção dos pais. Eles queriam um mundo melhor para os filhos, filhos melhores para o mundo... Foi-lhes pregada uma nova forma de melhor ligada à necessidade inconstante de enriquecer, de dar comodidade, do bom e do melhor, de não querer que os filhos passem privações… Aí ao invés da infância surgiam os cursos intermináveis… Pressões antecipadas da constante capacitação para a sobrevivência dos adultos.

Hoje o acesso ao mundo virtual irrefreável fez os pais libertarem os filhos de quase tudo. Se antes sempre havia alguém para cuidar, ameaças veladas para obediência, até palmadas... Agora não há tempo de estar presente, só compensações. Mas quando se escolhe estar presente, quando não sufoca a cria, deixa ela livre para se fechar, fazer o que bem entender. Cada um oferece aquilo em do próprio conhecimento, do próprio poder...  Não vamos julgar. Vamos cuidar do próximo. Ouvir. A baleia é um ser gigante submerso cheio da necessidade de emergir às vezes para respirar. Azul pode ser confundido com o deslocamento das águas marítimas. Seu sangue quente e vive em águas frias. Ela consegue ficar de 20 minutos a 1 hora sem respirar, mas morre encalhada na praia.


Ela não sua. É o mesmo que sairmos de preto no deserto do Saara ao meio dia. Além disso, o peso extremo dela pressiona seus órgãos e, às vezes, mesmo resgatada pode ser que morra pelos danos. Estes antes aumentaram ainda mais a própria dor. Pré-adolescentes e adolescentes vivem o mesmo como um distúrbio direta ou indiretamente sofrem pressão em casa e do mundo. Quando não tem atenção necessária então… Nós já passamos pela fase ou nunca saímos dela? Tanto faz. Todos temos nossas responsabilidades maiores, menores só sabe medir quem as carrega. Precisamos de privacidade? Claro. Mas, não somos oniscientes, onipresentes e nem aprendemos a ser incondicionais. Precisamos conversar! Vamos conversar! Respeitamos todos, podemos dar espaços para todos, mas precisamos estar atentos e dar atenção para as pessoas. Não temos controle de nada, quem dirá dos outros. Seja parente próximo, distante ou amigos se não for dito nenhum sinal do mundo é o suficiente para termos quaisquer conhecimentos. É preciso de senha para entrar, ou seja, da autorização. Então, vamos nos conectar a vida.

sexta-feira, abril 21, 2017

A melhor de todos os tempos (miniconto)





por Rafael Belo

De repente estava toda bloqueada. Não via mais aquela pessoa com hora marcada. Nem virtualmente ela existia mais. Não sabia o motivo e nem queria saber. Era de olhar para frente e só. Elangela não carregava nada com ela. Sua bagagem era a alma e o coração livres. Quando amasse uma pessoa ainda assim seria livre, aliás seria mais livre. Assim pensava e assim agia. Por isso, mudou os rumos quando o encontro marcado se perdeu horas antes de acontecer. Foi um achado sair sozinha e encontrar uma oferta do Destino. Nunca bastou querer para dar certo, ela pensou. Mas insistir no seu acreditar e capacitar o mundo para te receber é o suficiente, sorriu sozinha.

Sou atriz e “de repente” descubro alguém influente assistindo minhas esquetes no Youtube. Trabalhar em filmes e séries? Será necessário mostrar espanto ou naturalidade? Sério?! Deixei de ser a ovelha negra escondida a discordar do mundo e das modas...? Não tenho reação, mas preciso responder rápido. – Nossa! Claro! Muito obrigada!, respondeu se atropelando. Eu nem imaginava... Uma oferta despertar... Despertar-me. Preciso respirar. Quanta libertação!!! Não imaginava isso ser um incômodo na minha vida. Quanto alívio. Estou leve. Sinto-me brilhante, iluminada.

É um Amor por mim. Isso é reconhecimento? Não! É pouco! Sou eu reconhecendo minha vontade de ser conhecida, de interpretar, de atingir as pessoas com um pouco delas mesmas. Isso é Beleza!!!  Sou um espelho de Luz. Quantos sorrisos contive, agora já não me contém. Preciso falar para os meus. São tantas pessoas passando na minha mente. Será mal interpretado meu silêncio? – Olha! Não imaginava mais isso na minha vida. Ainda mais ser revelado assim, em uma ambiente desse... Sei. Eu estava me sentindo sozinha, abandonada. Só um pouquinho e estava aqui silenciosamente ruminando a mim mesma, tudo aquilo responsável por meu eu agora. Volto a acreditar nas energias do Destino!, Você tem toda minha gratidão, disparava Elangela.

É assim... As pessoas desimpedidas e sonhadoras se sentem desta forma quando se realizam? Se não for deveriam. Ah, deveriam sim! Deveriam muito!! Poderia ser uma regra... Eita! Quanta euforia... Estou efusiva a ponto de me sentir ludibriada. É mais uma descoberta de mim? Preciso me distancia para enxergar este momento... Não! Para! Agora vou aproveitar e estar toda nisso! Agora já passou? Será possível passar? Incrível!  Sem se conter, Elangela, levanta e abraça a mulher dona das suas boas novas. Depois levanta e sai correndo. Todos olham para aquela explosão de sentimentos intensos misturados. Preciso gastar esta energia vou gravar uma nova esquete. Ah, vai ser a melhor de todos os tempos!

quinta-feira, abril 20, 2017

orvalhos



morremos nós todo o dia para ressuscitar na virada do ano
desatamos tantas desnecessidades a perder o tempo se formando
chovemos senões sermões inundações então até o entendimento brotando
somos sertões silenciosos temendo novas secas erosando

cerco a cerca caridosa com carinhosos espinhos disfarçados flores despetalando
o caminho é diferente para cada querer crente em si leviano
vi as nuvens nubladas negando se desenhando com céus chorando

veio a bonança no meio da tempestade sem tempo nem distância contudo contendo toda a esperança
temos vontades sendo a única verdade vista quando habitamos o coração do outro com o nosso habitado

há um estado elevado dentro de nós revelado quando percebemos sermos o orvalho de todas as manhã.


+Rafael Belo, às 20h02, quarta-feita, 19 de abril de 2017+

quarta-feira, abril 19, 2017

Ser infeliz em Paris (miniconto)



por Rafael Belo

Tudo havia mudado em um dado momento negado por ela até aquele questionamento. Darila sempre usou sua vontade de querer dar certo para o fazê-lo. Ela sempre acreditou ser assim. Mas, fora do mundo dela havia outras vontades incompatíveis, suscetíveis apenas a autoimolação, a autopiedade, a autoexaltação, a autopreservação, a apropriação, a própria querência… Foi mais uma falência institucional.

Nunca houve desilusão igual e jamais haveria. Cada um se desilude ao próprio jeito e gesto. Um dilúvio literalmente caiu sobre ela. Darila ignorou os sinais do tempo, o vento e se molhou sem nem ter percebido a saída para a chuva. Descabelada e encharcada chafurdava nas lembranças vendo só agora: só ela queria se ex só não queria começar tudo de novo. Estava cômodo e ela já vinha sentindo o incômodo há muito tempo. Ela já não queria o tal do dar certo basta ter vontade. Queria mesmo era liberdade e ser feliz.

Pegou seus documentos e foi. Não disse nada. Não queria nada muito menos ficar ouvindo monossílabas bovinas. Chega de hummm, hummm, hummmm… Não ia se justificar. Só devia a ela mesma. Não queria falir também. Não era mais ela mesma, mas ele era o mesmo… Resolveu aceitar o emprego em outro país. Aquele tão sonhado de tradutora. Foi ser infeliz em Paris. Deixou o bilhete considerado ingrato e covarde pelos donos dos “eu avisei” da família e amigos dele e digerido em silêncios pelos “como eu não percebi” dá família e amigos dela. Ela tinha vergonha de não ter dado certo. Foi passar um tempo redescobrindo ela mesma.

Darila simplesmente ignorou as ligações, mensagens e whatsapps… Depois de um tempo, gravou uma mensagem “explicando” e fez o impensável: jogou fora o celular. Rodou Paris, cada vez menos infeliz. Fez o que quis e o que não quis também para experimentar. Tatuou “basta ser você, não precisa dar sempre certo” e toda vez no momento da dúvida respirava fundo e olhava para o incentivo/lembrança. Nunca mais voltou para o Brasil. Há alguns dias voltou a usar o celular, sem nunca nem mandar um whats “internacional". Não queria um passado zumbi tentando devorar seu cérebro de novo. Estava em Paris cada vez menos infeliz. Seria feliz?, se perguntava. Até se autoirritar e falar exaltada, considerada louca só pelos brasileiros locais por erguer a voz: Vamos por partes como Jack… Depois rir pensando o quanto era sombrio pensar no estripador na terra dele. Nunca descobriram quem era o serial Killer… Espera! Foi em Londres. A terra dele era Inglaterra... Estou confusa agora ou ... Calma! Torre Eiffel? Não! É o Big Bang!!

terça-feira, abril 18, 2017

morremos nós




corre ao meu redor o suor do passado o odor do tempo
um esquecimento voluntário do autismo opcional
naquela moeda de um só lado a qual sou eu cedendo
fazendo o meu som solitário de árvore caída em floresta densa por igual

quem escuta a permuta entre o bem e o mal?
qual o tamanho da área cinzenta do certo e o errado se remoendo?
quanto mede a culpa da negação da aceitação do principal?

quantas perguntas ficam sem resposta acessível se fazendo
o controle se descontrola no inesperado desejo do impossível se desfazendo

não basta querer ignorar a gravidade dos livros e voar batendo só as asas rompendo os ares sendo vento
há uma liberdade arbitrária da vontade sedentária do outro sedento
sem respeito o próprio reconhecimento leva nossa voz  e morremos nós
o orvalho se forma nas folhas mornas nos sendo e nós nem chovemos.

+às 00h16, Rafael Belo, terça-feira, 18 de abril de 2017+

segunda-feira, abril 17, 2017

não depende só de nós



por Rafael Belo

Há um pássaro pousado lá fora em um tronco da cerca de arame farpado. Ele me olha nos olhos. Posso sentir. Ele pode voar, mas continua ali encarando. Não depende só de bater as asas. As milhares de penas leves, flexíveis, duras e resistentes são os principais motivos, mas a aerodinâmica do corpo, o esqueleto, a musculatura, o modo de vida e o habitat ajudam a ignorar a gravidade. Nós não somos tão diferentes. Estamos pousados dentro de nós voando engaiolados pelo detalhe do plural na frase: a gente pode fazer dar certo! Aprendi! Não bastam só palavras e vontades para dar certo. O tal do certo também pode ser errado.

Durante muito tempo eu fiquei voando em círculos em mim mesmo usando esta frase de efeito. É claro, eu posso fazer dar certo. Mas quem é este certo? O meu certo é o seu certo? Não são suficientes experiência e conhecimento. Não é mais agradável voar sem rumo voltando para onde é seguro. Há tantos fatores ajudando o voo acontecer, mas precisamos pousar, descansar, entender ao menos nós mesmo antes de voar novamente. Querer é um belo de um poder, porém se há outra pessoa envolvida dois quereres se bicam um bom tempo até perceberem não pagarem o preço da liberdade.

A gente faz dar certo não é nem meia verdade. É você ter vontade de tudo acontecer da melhor maneira possível (para você mesmo). É uma forma de controle ou negação porque se estamos falando de Amor se passaria em nós aquela liberdade, aquela vontade do melhor para o outro, independente do nosso querer. Por isso, é uma verdade por inteiro apenas quando depende só de nós. Eu já acreditei nesta frase. Já o disse. Podemos fazer dar certo se a gente quiser...  Era quase um mantra. No entanto, temos sempre algo quebrado em nós negligenciado, ignorado, deixado nas sombras como um hematoma maquiado no olho, disfarçados nos óculos escuros.


Se não estamos nos sentindo bem, a gente precisa voar e ser independente sem qualquer tipo de cobrança. Este é o motivo de termos total confiança em nós mesmos. Fazer acontecer começa quando nos fazemos acontecer. O primeiro relacionamento é no nosso interior. Não podemos ir à onda da obrigação ou somos constantemente afogados quando levados para o fundo do mar sem nem perceber a morte do nosso ser. O meu objetivo é ser o passarinho amante da liberdade querendo amar alguém igualmente livre sem nada prender. Só vontade não faz nenhuma asa bater.

sexta-feira, abril 14, 2017

O apagar das luzes (miniconto)





Por Rafael Belo

o blecaute era global. Sem motivo algum. Estava tudo funcionando normalmente quando aconteceu há exatos 30 dias. No ano anterior o sol mal apareceu. Foram quase 300 dias chuvosos. Lógico. Os conspiradores e seus teóricos teciam fins do mundo diários. Mendigos e histéricos levantavam placas hollywoodianas do apocalipse, da segunda vinda de Cristo, da Terceira Guerra Mundial, saudações aos extraterrestres e outras quase loucuras assim. Marilau Mires, estava observando o mapa  criado por ela. Lá constava hora, local, situação no momento no qual se iniciou o apagar das luzes. Sim. Não foi geral como o Governo quer impor à nossa sutil imbecilidade.

Demorou cada um dos inteiros 30 dias para Lau conseguir chegar ao ponto na qual a deixamos. Nada funcionava. Nada, nada e nada. Nem wifis nem dados nem sequer ligavam os celulares. Lau ligava os pontos e quando seu raciocínio estava prestes a acender, uma luz ofuscante veio cegar. Tão forte estava a procura a ponto de Lau se sentir entrar em combustão. Algumas coisas espontaneamente explodiam ou se consumiam. Foi como um concussão  após estar correndo e bater de cabeça em um multidão de cabeças duras. Claro! Cair depois e a queda não levou as habituais mãos primeiro. Foi a cabeça a chegar lá antes de novo.

A mente de Lau se iluminou como um farol. Tudo parecia se conectar e doía parecia uma cirurgia sem anestesia nos olhos abertos incapazes de fechar. Sofrimento e terror… Quase uma retomada de jogos mortais. Ela se lembrou de quando era criança e viu um pássaro escondido entre as folhagens no chão. Ela quis ser “invisível" daquele jeito. Lembrou quando brigava por política, quando jogava futebol e era violenta com os inimigos - porque para ela nada era amistoso. Lembrou de quanto julgava ser religiosa, mas acreditava um pouco em cada religião… Foi quando estudou por si mesma e…  Descobriu: ações são orações e não há em nenhum lugar o decreto de fundar segmentações religiosas contraditórias manipulando o Amor. Contudo, ela defendia: alienação não é religião é acreditar em ideais partidários. Ela nem tinha 18 anos na época… Já andava na contramão.

Ela levantou da queda e olhou em volta. Não era nada parecido com nenhuma Sexta-feira Santa ou Sexta-feira da Paixão. Lau estava ali em pensamento e emoções observando tudo com tanta clareza mesmo com a escuridão ali: viva e independente. Talvez ela realmente fosse a alienígena tão acusada de ser... Mas, agora seu agora era mais intenso. Ela se sentia sob o holofote mais forte do  Twilight Zone. A vida dela sempre tinha sido assim: um convite para olhar pela janela do universo. Antes as pessoas ignoravam, porém desde o início do blecaute, este apagar das luzes parece ter deixado apenas ela acesa. Neste instante ela ouve a porta bater. Ela hesita em atender. Lau sabe! É mais um alguém querendo uma explicação dela sobre si mesmo, sobre o apagar das luzes (assim a mídia vem chamando o evento sem fim) e, impossivelmente, Lau nunca viu a pessoa, mas a conhece como ninguém. Neste momento seu corpo sangra, principalmente, pulsos, canelas, couro cabeludo e tórax.

quinta-feira, abril 13, 2017

próprias mãos



o outro ouve ouro mas é mais um mantido na manada
não é outro é o mesmo corpo maltratado prata da casa ignorada
parte de degraus escada para o nada não é pedra é almofada
um amortecimento da anestesia vendida em cada esquina liberdade de fachada

valoriza a fogueira das vaidades chamuscando falsos donos por dentro
o orgulho oportuno dá um mergulho no escuro profundo da superficialidade
não há ninguém de verdade nestas covas rasas valas da exaltação do sou bom

pirataria é falsificação do dom quando o sono de outono vai cair sem chegar ao chão
estou a dormir mas não fecho os olhos não vou invadir a minha paixão
desistir da ilusão de seguir repetir o passo de quem está ao lado preso em tantos laços indo na mesma direção
pisando passos partidos pelo perdido passeio alheio da manada manifestação muito jogada está em observação a debandada do eu a ação da destruição da autenticidade da personalidade do outro em vão
mataram nossos irmãos com nossas próprias mãos.


+às 13h01, Rafael Belo, quinta-feira, 13 de abril de 2017+

quarta-feira, abril 12, 2017

Sensação sem nome (miniconto)




por Rafael Belo

Aquela lua cheia encheu o mundo, mas foi ela, e somente ela, a maré. Aquela realmente estava mudada. Quando a lua cheia chegou no meio da noite, Luarara transbordava. Todo o vestígio de pirataria naufragara e o restante do mundo sucumbiu. Toda a falsificação pôde emergir e tomar conta. Mas, Luarara esta autêntica, segue única. Ela perdeu o orgulho e a vaidade. Não precisaria se preocupar com a inveja mais. Só ela havia tomado a pílula azul. Apenas Luarara se desgarrada e deixara a manada. Ela percebia o fim chegando em todos os sentidos e pensava se iria ao encontro, de encontro ou seguia junto.

Havia silêncio. A respiração parecia um vendaval, mas Luarara estava tranquila. Aqueles passos pareciam cavalos trotando e ela sempre considerou caminhar como um anjo... Ela ouviu ecos assustadores parecendo estrondos. Tratratratrá, tratratratrá, tratratratrá... Cada vez mais próximos. Estava escuro demais até apara definir contornos, apesar da lua cheia. Alguma coisa estava completamente errada e ela lembrava as histórias contadas sobre os exércitos invasores. Precediam silêncios antes da gritaria. Antes do cerco total uma sombra parecia cair como um manto acústico isolando cada som como uma perturbação psicológica enlouquecedora.

Por uns instantes, Luarara, se perdeu, tremeu e quis gritar. Um horror tremendo a bolinava, arranhava sua garganta, apertava seu peito, sentava nos seus pulmões, saltava nas suas costas e se jogava no estômago como se fosse uma legião foragida rejeitada no inferno. Parecia uma possessão demoníaca em hordas consecutivas. O medo estava travando uma batalha com ela e o som daquele exército invisível se aproxima, se aproximando, se aproximou... Luarara suspirou, respirou fundo, fechou os olhos e tudo parecia escuridão igual, total, ela tremeu incontrolavelmente e sentiu todo aquele peso ter uma negatividade, algo péssimo, querendo juntamente o descontrole, o desespero...


Ela desejava parar de tremer, mas dentro de si havia uma força maior irrompendo, clareando, expulsando aquela invasão. Aquelas presenças a tocando simultaneamente pareciam nunca ter existido. Luarara ergueu a cabeça e desentrelaçou as mãos. Não havia percebido esta posição de oração. Será? Ela havia orado pela primeira vez? Para quem? Para o que? Estava sozinha, mas esta solidão consciente iria afetar a todos, eventualmente. Ela não enxergava mais ninguém, mesmo quem estava diante dela. Também não sentia o toque da manada. Parecia um fantasma assombrando àqueles na escuridão ainda a enxergando... Ela sorriu em ironia e aquilo pareceu dissolver de vez esta sensação sem nome. Agora precisava encontrar outros, não queria ver mais só a si mesma.

terça-feira, abril 11, 2017

falsa autêntica



corrói cada comportamento maquiado minimamente manada
disparada decididamente dolorida pela pista perdida
vai vaidosa vendo vento voltando velozmente esquecida
atrevida autoriza agressores a fazerem feridas a facadas

cansei dos banguelas do dente por dente da cegueira do olho por olho oferecidas
no extremo orgulho condescendente detalhes são abismos disfarçados de escadas
do topo da impunidade são todos punidos por pura loucura incitada

sinceramente a honestidade está aprisionada na preguiça permitida
pintada na anestesia da risada do nada destacada na fachada

a incerteza da dúvida é uma luxúria injuriada adorada pelo muro pichado
adultera a intensidade com palavras trocadas em balidos em mugidos embalados coagidos pela autenticidade falsificada.


+ às 01h15, Rafael Belo, terça-feira, 11 de abril de 2017 +

segunda-feira, abril 10, 2017

Sobre ainda ser manada



Por Rafael Belo

Demorou para eu enxergar o outro como outro. Mesmo sem saber, este sempre foi uma extensão de mim, de cada um de nós. Tantos os considerados positivo ao dito negativo eram reflexos dos meus pensamentos, dos meus ideais, das minhas expectativas, sabemos disso, mas superficialmente e preferimos ignorar. É fácil ler o discurso de aceitação geral e agir totalmente diferente. Fazemos isso. Não negue. Basta ler os posts, os comentários, o compartilhar por aí e depois conversar com as pessoas. Vivemos em negação.  Não perdoamos, não seguimos em frente. Guardamos para nós. Somos falsos cristãos, falsos moralistas, falsos crentes... Usamos nossas virtudes para julgar o outro. Seguimos corretos no trânsito e vamos crucificando o errado desejando a punição deste, mas não porque é lei, porque é justo, mas para exaltarmos nossa retidão.

Quanta petulância a nossa achar sermos o conserto do mundo se não nos descobrimos quebrados, apontando o dedo disfarçando como comparação. Falamos dos “defeitos” e para compensar enumeramos “qualidades”. Armazenamos a raiva e qualquer poeira pode ser a gota d’água. Divergências viram guerras e vivemos uma falsa liberdade... Escrevi tanto falso aqui... Mas é por aí. Nós falsificamos nossa realidade, pirateamos todo o nosso redor e somos tendenciosos aos nossos interesses. Só podemos ser menos invejosos, chegar a quase sabedoria, reduzir o orgulho, zerar a luxúria quando pararmos os joguinhos.

Vivemos jogando com nós mesmos partidas intermináveis onde todos perdem. Sustentar falsificações, piratarias e tendências causam exaustão, perda de memória, solidão... Tornamo-nos carentes e desconfiados colecionando um desperdício recorde de oportunidades, chances de recomeçar ou terminar o jogo. Estamos de patins correndo na esteira. Estamos mortos... Vivemos paranóicos ou em um estou nem aí forçado vazios nos relacionamentos e também quando em nenhum. Solteiros esbanjando o quanto é bom ser solteiro? Sério? Namorados exaltando a perfeição da vida a dois? Casados mostrando a superação diária em dupla dos desafios do mundo? Pode isso produção? Queremos um aval, uma comparação para dizer: há pessoas, há casais, há casados piores por aí...

Condescendentes ao extremo e orgulhosos nos detalhes vamos vaidosos vendo notícias – implícita ou explicitamente – nos incitar a cegueira do olho por olho, mas não pela informação em si, mas porque não podemos permitir ninguém impune. Onde está a sinceridade e a honestidade puras, distantes dessas buscando audiência, aceitação, seguidores, adoradores...? Cansei de quem não sai do muro, de quem fica na dúvida e de quem não arrisca... Ando com preguiça de quem não se entrega, de quem não está presente, de quem não demonstra interesse nem intensidade e de quem não respeita o outro. Vale à pena a aceitação e descoberta de si, a liberdade do outro e a autenticidade de cada um. Todo o resto é ainda ser manada.

sexta-feira, abril 07, 2017

Não vai sobrar ninguém (miniconto)




Por Rafael Belo

Atrás da grade invade aquilo onde traz capaz a voz algoz de estar a sós e nós aqui no jardim, presos assim um ao outro, obrigados a sentir diante de tanto mentir a resistir em mim. Este fingimento louco pra quem só não está além da frieza é pouco, torto, todo tristeza. A fraqueza de amar corpos e dar apenas golpes em si. Como dizer o meu penso sem ferir sem derrubar... Quando passei a me importar? Dispenso outras formas de amar. Estou chacoalhando a grade com o olhar enroscada nas folhagens, tentando disfarçar minha intensidade. Não há integridade a me juntar.

Quando fugi daquele lar onde nem sabem meu nome? Eu, lá, na multidão a gente se esconde porque sou muitos eu’s em debates, na fila do abate... Vejo este nome, vem e some... Não é meu: Girula Gariah. Sou uma legião de mulheres, uma falange de garotas... Demônio Anjo, não sou uma coisa só. Já prendi, mas nunca matei... Até me arrependi quando invadiram minha delegacia só para explodir. Consegui me preservar, descarregar minha arma... Mas, era tanta raiva... Quando as balas acabaram sangrei minhas mãos, aliviei minha dor, mas me acabei... Fui acusada de imprudência, exonerada... Não tive paciência.

Minha aparência julgada, meus atos expostos... Não era mais delegada. Tentaram me reduzir a nada... Fizeram jogos... Escrava do sistema, tema de Meme, meu sonho de PM acabou. Mas, aqui estou eu: tratada como Zé Dirceu. Executando uma missão. Detonando mais uma facção. Não sou ninguém, nada. Toda a mídia orquestrada para minha “delatação”... Fui deletada. Ou você acha ficção os filmes de ação com espião? Fui encontrada morta, enterrada, mas nunca viram meu corpo, meu rosto... Virei um estorvo e logo passei pela espiral do silêncio. Penso e não existo, mas desisto de fazer o tal do certo. Qual o critério? Se só parece sério quem quer a autopreservação.


Minha missão morreu. Não encontro a chave das algemas. Não posso voltar para o sistema, então me resta a prece e a pressa de tirar este peso morto do meu pulso. É muito barulho, mesmo escuro o som faz a direção apontar para você. Posso fazer tanta coisa, mas não é viável. Está tudo tão instável e ainda nem cheguei aos 30. Vou me virar. Talvez voltar para o lar de onde fugi. Não agredi ninguém. Amém. Fingia ser muda, surda e toda turma acreditava. Se fosse outra época, a seta não estaria certa sobre mim. Assim, eu não carregaria um homem morto todo dia, ainda mais um pai de família. Este seria o próximo tampão da nação, ou melhor, presidente tampão. Agora há só um vão para eu não me juntar a ele. Já estou morta, mas se ficar aqui, anota, é o fim. Não vai sobrar ninguém já conhecido por mim.

quinta-feira, abril 06, 2017

nos ser



procura beleza com os sentidos
os olhos são cegos o tato insensível
é o sentimento descontaminado a enxergar
um tocar Almas mentes corações só assim é possível

saborear o viver deixar de ler o roteiro do entreter
ver a emoção vazar sem noção pelo vão inacessível
cada indizível fato fica invisível sem ninguém de fato entender

quem somos nós nos nós nocivos vítimas do nosso vitimismo inadmissível
crível dos abusos nos usos manipulados lado a lado ao libertar sem convencer

vencer a si mesmo tecer sem medo o caminho sem enredo para fora de si até a própria Beleza incrível nos ser uma flor no deserto certo de primavera florescer.

+01h30, Rafael Belo, quinta-feira, 06 de abril de 2017+

quarta-feira, abril 05, 2017

Flor intermediária (miniconto)




por Rafael Belo

Lá estava ela na mesma cela. Não tinha vitória nem escapatória. A cela era ela. É ela foragida, escondida nas próprias folhagens... Presa em si mesma, flor intermediária. Nem brota nem morre. Ainda assim é bela. Flor de Liz Maria não resseca, mas é metade de si porque é completa sem saber. Soube ser corpo, outras flores, outros corpos e matérias. Agora é aquela com outras flores em si, outros brotos, mas todos ela. Estava toda empoderada, mas a sociedade canalha veio machista e abusou dela. Liz fechou portas e janelas: não aguentava. Desesperada pegou a arma, vestiu a mortalha quando a malha da escuridão enlutou seu coração e nublou sua mente.

Ela matou e matou e matou... Mais uma vez morreu! Sentiu a serpente drenar seu sangue e injetar a peçonha direto nas veias. Estava fria. Estava morta. Logo ela, na cela... Não era mais a mais nova juíza. A nova Dama de Ferro executora fora executada por um bando de gralhas, abusando dela fora dos tribunais. As famílias dos marginais, pais... Queriam olho por olho, ficaram cegos e no fim mataram a alma de Liz... Ela nunca quis fazer nada além da Justiça. De realizada a vazia. De exemplo de justiça a justiceira aprisionada, mas estava mesmo toda acorrentada em um abismo.

Hipócritas, consolavam com preciosismos, otimismos... Nada adiantava. Usaram da força física para a fazerem se sentir um nada. Abusada, violentada de todas as formas... Seus colegas de toga só chegavam até sua porta para atacá-la, arrombavam toda aquela força, mas fisicamente não adiantava... Ela atrapalhava os esquemas, cada novo estratagema era uma nova gema separada da clara. Um atrás do outro, nenhum escândalo parava. Mas, apesar da vaidade, sua qualidade reinava, imperava sua jornada paladina Deusa Thémis. O povo já idolatrava, colegas corrompidos e políticos a odiavam. Ela estava limpando o Brasil. Liz não imaginava como estava o fim do túnel.


Depois de óbvias palavras clichês focando as emoções de marginais e ladrões, a população se converteu. Quem antes abusava, roubava, agora era vítima e a deusa virou diaba. Mesmo assim, ela se sentia imaculada e seguia com a própria jornada, caminhava a estrada escolhida... Não esperava ser esfaqueada na surdina, ter sua cabeça prometida e pendurada e toda a opinião sobre si manipulada. Chegou a sua cela, apenas quando a ideia medieval de violação da alma, invasão da psiquê rompeu quem era ela. Ela matou e matou e matou... Depois morreu de novo. No fundo das suas folhagens ainda é possível ver a imagem misturada de quem foi, mas ela nem se pergunta isso. Ele pensa maior, não pensa só. Ela escreve por toda cela dela: quem somos nós?

terça-feira, abril 04, 2017

estilhaços



fatos fragmentados fogem do contexto
ficam no rodapé das fachadas dos textos emocionais
espalham virais em chuva de sais ornamentais
fakes formais tão reais quanto acreditam ser

reconhecer dos corpos materiais desejados achados presos nas redes sociais

abusados em amares rasos descasos normais em palavra
escrava de um pensar libertar intencionais no espaço
estilhaços de espelhos inchados ao amanhecer

parados diante de todas as formas oficiais estanca quem somos nós
intimamente lentos observando cada mente veloz acontecer sem nem existir.

+às 00h14, Rafael Belo, terça-feira, 04 de abril de 2017+

segunda-feira, abril 03, 2017

Quem somos nós?



Por Rafael Belo

Há uma falsa autenticidade fundindo mentes por aqui, espalhando uma fumaça espessa e tóxica contaminado outros cérebros por aí. Não há controle da verdade, da mentira, há só um compartilhar argumentado na violência neste acúmulo de aparência no cúmulo de tantos materiais estocados. Estamos minerando na web nossos guetos aprofundados nas nossas zonas de conforto, ainda assim acionamos nosso RH pessoal para dizer ao contrário. Nosso pior e nosso melhor acabam expostos ao avesso da foto postada, a opinião revelada naquele ódio da obrigatoriedade de ser feliz.

Na há limites no acesso à informação, mas a simplificação pula o meio, vai direto da constatação para o fim e a caminhada não pôde ensinar porque não foi feita. Então, vem um novo neologismo: a pós-verdade. É propaganda política, guerrilha de contrainformação, a emoção antes e mais focada enquanto os fatos são ignorados. As impressões viram notícias emocionadas e a falsa tolerância nada mais é além de um disfarce da intolerância. Você já se distanciou para enxergar melhor o quanto iguais são os pareceres de quem exalta ter opiniões diferentes?

Enquanto se exalta amor, religião e paz se produz desamor, descrença e guerra...Só falta clareza e vontade de se desapegar do emocional conectado a cada razão, simplesmente porque aí está nossa zona de conforto. Não queremos realmente nos incomodar, causar estranhamento com nossos iguais, com nós mesmos quando acontece ficamos birrentos e xingamos, mentimos, difamamos, caluniamos, injuriamos, acabamos com o jogo porque a bola é nossa, ocultamos e excluímos, afinal nossa razão é a melhor. Gritamos uma soberania inexistente dando espaço para as serpentes nos abraçarem sem peçonha para – apertados – morrermos.


Ao mesmo tempo as peçonhentas continuam a inocular seu veneno em nós, principalmente, nos olhos, na língua, nos ouvidos e no pensamento. Então, capitalizamos nossa identidade. Aceitamos as pessoas amarem nosso corpo e bens, somos constantemente abusados, no entanto estamos mais perto de permitir aos seres humanos Amarem nossa mente, coração e Alma, ou seja, nos libertar. Mas estamos diante de incontáveis espelhos sempre percorrendo um corredor de reflexos e não vemos nada diferente de nós. Por isso, a pergunta flutuante é: quem somos nós?

sexta-feira, março 31, 2017

Eu sou o momento (miniconto)




Por Rafael Belo

Este é qual? O vigésimo? Meu Deus! Caiam fora! Deixem-me em paz! Não vou permitir me tocarem, me acuarem, me abusarem... Não estou atrás de nada aqui. Só quero me divertir só. Eu estou bem sozinha. Quando vão entender isso? Claro! Não acreditam! Não há motivo para acreditarem, mas não preciso disso. Não peço para acreditarem em mim. Nem quero. Isso levaria àquela intimidade... Não darei intimidade pra ninguém! Só porque fui educada? Um oi não é porta de entrada para nada. Quanta voluntariosidade e carência? Estou aqui justo para não escutar nada e vem gritar no meu ouvido...

Não! Não quero! Estou intensa. Total como sempre, mas consciente pela primeira vez! Capaz! Vou vir no pub lotado para me divertir, ouvir o som... Ok! Posso até sorrir para um “crush” ou outro, dar a entender algo, mas só à distância... Tem uns bonitinhos outros mais ainda, mas tem cada esquisito... Uns beijos podem até rolar, mas eles sempre querem mais... Nada de sexo casual. Já passei desta, estou em outra “vibe”. Vou me curtindo e vendo os acomodados se incomodarem. Dou risada mesmo e daí?! Pior ainda acharem eu ter rido deles... Quem são mesmo?

É tanta importância dada a si mesmo... Há tanta gente por aí, meus queridos... Guarde esta arrogância, por favor. Certo, meu nome não é nada humilde Marilin Deusa, mas não devo nada a ninguém nem fico esnobando, porém se me chamarem de louca... Vou concordar! Pensando comigo mesma tudo isso e ainda cheia de caras e bocas... Nada a declarar! Erra-me vai. Cuida da sua vida. Não! Pode cuidar da minha e me diz porque pode ser... Eu vivo distraída, mas estou intensamente focada em uma coisa de cada vez! Meu pensamento é estar comigo na melhor convivência. Vou postar este texto e ainda vão achar... Vão garantir... “Ah, Lin, você não precisava ter postado...”.


Sabe de uma coisa? Precisava sim! Mas, espera não postei e não preciso de mimimi na minha cabeça agora. Vou parar de ver o futuro tanto a me enrolar e voltar para meu agora para dançar, dançar, dançar... Vou repelir sim e podem me tachar vou de não tô nem aí. Se eu tivesse feito outras escolhas estaria questionando outras escolhas feitas... Já li isso em algum lugar nestas redes antissociais... Mas veja só MA-RI-LIN nada de celular, nada de wi-fi, de dados, estou apenas aproveitando o momento. Eu olho para cima ao ar livre... Eu sou o momento!

quinta-feira, março 30, 2017

medo de brinquedo



oscilava o sinal um farol em cada cruzamento da cidade
mal vinha já caia se acomodava em qualquer área da atrocidade
modernidade wi-fi se sobressai por não conectar a nenhuma verdade
estava visível a senha sem capacidade de oferecer qualquer intensidade

só salvava o ponto descartando a autenticidade livre vive os dados a guardar
aguarda a foto certa para marcar postar compartilhar hora companhia lugar
lidar com a ansiedade de estar e se ausentar em um fugir curtir do aprisionar

onde estamos neste movimentar distante instantaneamente hesitante?
iniciante check-in do princípio ao fim das cabeça baixas de um vazio popular

exposição aproveitando da falsa loucura da palavra pura sem razão escrava da solidão disfarçando a intenção no medo de brinquedo sem manual de instrução.


+ às 23h, Rafael Belo, quarta-feira, 29 de março de 2017+

quarta-feira, março 29, 2017

Afastem-se (miniconto)




por Rafael Belo

Sentada dentro de Si, Simani acomoda-se. Respira fundo e pensa: e agora? Não há brilho, não há intensidade, há uma promiscuidade criada por mim mesma. Logo eu... Sempre me achei tão intensa, tão incomodada... Nem sequer incomodo. Sinto-me um móvel não tão imóvel, pois me colocaram rodinhas... Não sei... Foi um susto perceber meu desconhecimento, minha ignorância... Eu ignorante e sempre me achando sabida, muito esperta... Fui nessa onda. Vou a tantas festas pensando estar ali, presente e entregue... Até descobrir não ter foco nenhum, aliás, só enxergar o fundo e me cegar ao diante do meu nariz.

Nem sei qual é o meu fiz. Nem me lembro de tudo. Preciso colar fragmentos postados em diferentes aplicativos com motivação social. Vai rápido como vem... Não há um sentimento relacionado a nada disso. São imagens me fazendo forçar a memória, juntar histórias e ser obrigada a sentir tudo isso. Intenso é este sequestro. Só vi os contrastes na altura deste drama. Vive restos, fui mais machista, mal fui mulher... Não sei ser feminista, ativista... Vistos meus rótulos mesmo sabendo: eles não mudam quem sou! Mas me questiono enquanto penso nas baboseiras dos prisioneiros amarrados estarem cientes o suficiente de si para conseguirem se soltar...

Eu só continuo me machucando enquanto o tempo vai acabando. Meus pulsos estão sangrando, meu rosto latejando... Fora a dor! Quem vai cuidar dos meus filhos, Meu Deus!! Eles vão me matar. Preciso encontrar uma só vivência intensa. Isto... Isto... Isto não pode ser o mais intenso vivido por mim... Não sou assim!! Engulo o choro! Chega de chorar!! Não adianta pensar meus “ses”, porém, se eu não tivesse ficado bêbada não teria encontrado a coragem para me encontrar. Aí vem Renato Russo me cantar “olha só o que eu achei: cavalos marinhos”. Talvez um unicórnio inexistente se sinta assim e eu seja este unicórnio. Serei extinta ou já o sou?


Quanto horror! Esta expectativa vai me matar antes. Prefiro não pensar no motivo das dores no meu corpo em tantos lugares... Preciso vomitar! Ei! Olha pra mim!! Tira esta mordaça da minha boca!! Não vou gritar! Não posso morrer afogada no meu próprio vômito como uma pessoa abandonada para viver morrer na rua. Por favor, Senhor! Sei, nunca mais rezei nem nada, me arrependo. Eu juro... Estou arrependida!! Não consigo nem lembrar um grão responsável por eu vir parar aqui, quem dirá do motivo... Mas espera!! Eles nem falaram de resgate!! Não conversaram comigo... Eu estou vendo o rosto de um!! Não não nãonãonãonãonão!!! É o... E os outros só podem ser... Hey!!! Afastem-se!! Nãããooo!