sexta-feira, março 20, 2015

Do lado de baixo (miniconto)


por Rafael Belo


Depois de tanto empinar o focinho, o porquinho conseguiu focar a visão. Porquinho, não! Porco! Não como o besta do Baby, porcos nunca foram nem seriam daquele jeito. Orwellianos, então, nem serão. Aliás, ele era o leitão que mandava. Leitão grande e vistoso, sempre à vista. Era a revolução em “porcoa”. Nada de bicho, nada mais animal que o homem.

Territorial, tinha presença de cercado e o atravessava, às vezes, a passos cruzados, mas normalmente trotava imperial de cá pra lá, de lá pra cá. Só queria consumir e se consumia na impaciência e agitação. Inquieto grunhia e bufando tentava encarar do lado de baixo. Deixando tantas marcas de patas quanto uma legião de porcos. Uma vara invadindo e devorando até a suposta chusma dominante por ali.

Mas, não! Era sozinho. Corrupta solidão... Só, sentia raiva e cercava a cerca por dentro... Sua ambição diária era mostrar ser a própria vara independente servida por uma pessoa ou uma chusma. Para Porco era corja o servindo e o alimentando. Tudo a ser feito era comer e crescer. “Ah, que belo leitão eu sou...”, se suspirava.

Tinha uma vaga perturbação e enuveava seus brilhantes olhos desafiadores. Quando a chusma se divertia, sua corja “porcoal”, um dia antes sumia uma galinha e codornas do quintal... Sem noção de tempo, sabia haver uma hora só dele, mas preferia ser déspota imortal. Lembrava de histórias de terror natalinas do tempo “porcal” do fim da engorda quando a corja devorava o melhor leitão... Por isso, se fazia selvagem, fingia voltar a ser javali, mas tudo isso porque temia acumulações de gente, era o cúmulo a diversão dos outros ser seu provável funeral.

quinta-feira, março 19, 2015

Semelhanças



exacerbados aos extremos, ambos alterados
em lágrimas negras do escorrido óleo adulterado,
máquina do introdutório feita de carne,
desfalecida ave se debatendo no chão,
trave do equilibrista desequilibrado,

bêbado alpinista das áreas planas,
cedendo cedo sua sede à sede,
urbano sedento por outras lembranças
semelhanças metálicas com a esquálida recordação
de um jardim além de mim.

(Rafael Belo, às 08h33, quarta-feira, 18 de março de 2015)


quarta-feira, março 18, 2015

Curtida ilusão (miniconto)



por Rafael Belo

O cheiro sempre chega certeiro, primeiro, antes de quaisquer outros sinais. A inquietação soma consoantes e vogais para a emissão dos grunhidos sequenciais ... Advertências demais. Uma gritaria em outra língua e nada mais. Vai mexendo a cabeça... Talvez entorpeça e enlouqueça fingindo só comer e dormir, comer e dormir e comer e dormir.

Focinho de porco cheio de ouro e diamantes especiais para fora da cerca, para que não nos perca. Mexe, remexe, chafurda e se joga na lama, cama da fama sonhada por poder sem nos tirar do olfato. Mas, de fato quer nos ver. Enxergar quem está à espreita, à torta e à direita quer nos afugentar. Apura as orelhas para ajudar o olfato, quer o contato apenas para arrancar pedaços, meu e seu...

Uma máquina de carne andando como um leão enjaulado, enfurecido por não nos tocar, ser objeto para olhar e comer, mas devorando tudo e todos e alcançando no grito desesperado cada ouvido em um arrepio demorado para explicar... Quem sabe um presságio de algo a não ser explicado na ausência da necessidade de entender, então se expressa sendo o próprio ser...


Porquinho se sentindo javali com seus humanos olhos fora do alcance, mas ainda sim grunhindo, bufando, se debatendo na madeira com seus anéis preciosos brilhando, porém preso ali... Com a lavagem. Um falso selvagem sempre esperando o alimentarem. Alimentação de restos, ostentado modesto... Sem nenhum protesto, ao contrário, satisfação.  Não se esquece, mas invariavelmente não quer recordar. Acordado não pensa, devora de cor. Embriagado pelas suas sobras curte ressaca, compartilha solidão.

terça-feira, março 17, 2015

Sem lembranças




Lágrimas alcoólicas escorrem históricas,
máquinas automáticas da insatisfação
embriagadas na provisória crucificação
estigmatizada na virada do esquecimento,
instrumento líquido para não recordar.

Ressaca virtual curtida, comentada na orgia da ausência
audiência acordada para não pensar,
compartilhada na aparência de imaginar,
lágrimas de máquinas escorrem...
Sem nem sequer lembrar.

(às 13h15, Rafael Belo, segunda-feira, 16 de março de 2015).

segunda-feira, março 16, 2015

É fácil



por Rafael Belo
Atentando-nos tem sempre alguém prestando atenção. Não importa nossa crença ou os pensamentos de quem nos vê porque este pode ser nós mesmo em um elevado grau de consciência sobre as consequências dos atos contínuos feitos por nós. Um deus lubrificante e “desinibidor” sempre cultuado é fermentado e destilado. Estas bebidas variam do social para o antissocial com a mesma velocidade dos copos virando e, então, lá se vai uma festa perdida em esquecimento alcoólico.

Fora as agressões e as amarras do monstro escondido na lucidez, o eu lubrificado acaba solto e corajoso há milhares de anos. A ardência no ar e o bafo inebriante vira briga de festa, de bar, daquele alvará de libertação, de fim de escravidão para àquela criatura confabulando na nossa mente querendo socar, reinar, os holofotes e o microfone para comandar aquele corpo, outro durante o dia, enquanto trabalha...

Própria mente conspirando para ir à forro, ser farra enquanto a música toca, durante a revelação daquele desconhecido dos outros e declarado estrangeiro por nós mesmo, mas não. Quem se revela não está escondido está lutando para ser quem dá bom dia ou grita bom dia por quê?!  Somos o álcool e a água e por não nos aceitarmos ignorantes perpétuos ignoramos a individualidade verdadeira e a diversão sem desculpas.


Embriagados estamos de olhares imaginados, de cobranças inválidas, de nos afogar turistas da vida consequência das nossas escolhas, mas não buscamos significados reais, queremos esquecer, nos iludir e festejar a vontade do prazer pelo prazer e não entender quem é o monstro e o significado de saber enquanto somos massa porque é fácil moldar e lidar com a ressaca com receitas caseiras e analgésicos industriais.

sexta-feira, março 13, 2015

Regados jardins (miniconto)


por Rafael Belo

Estava tão impermeável sua vida que ela secava. Acumulava pó e o vento a espalhava. Foi assim, com um pedaço dela chegando com um hálito quente que ele a notou. Ela precisava de menos poeira e muitos menos do mais em seu depósito mental e material, mas mesmo sendo uma redundante duna ambulante ele enxergava o brilho fechado nela. A olhava sem ver nada mais, como se o universo acabasse de começar em um inédito Big Bang.

Sentiu-se ele mesmo impermeável. Deu-se conta de ainda não ter saído do pó de onde viemos todos e com toda a chuva passando por ele diariamente, ainda não se molhara. Ele realmente enxergava aquela luz nela. Seus olhos lacrimejavam e secavam antes dele perceber, mas a ardência permanecia. Naquele momento chovia e era como se as gotas desviassem deles e escorressem por toda cidade.

Ela o viu pelo canto do olho e ficou sem se mexer, lembrando vez ou outra de respirar, mas permaneceu intacta. Uma estátua de sal maculada pelo esquecimento. Uma destas raridades paradas no tempo depois de uma bárbara invasão. Ela estava com a cabeça doendo de tanto forçar os olhos para não perdê-lo de vista, sem se virar. Olhava-o como se visse um pôr-do-sol interminável no meio da noite.

Cientes de que sementes e sequidão eram aridez. Eles tentariam enriquecer seu próprio solo, cultivar jardins pessoais, se Amar primeiro... Ser tão felizes individualmente a ponto de um grão de poeira ser praia e uma lágrima o mar. Então navegar... Se reconheceriam novamente, mas com a sensação, com sentimento totalmente desconhecido para compartilhar a soma e um no outro, quem sabe, finalmente se encharcar.

quinta-feira, março 12, 2015

Vão-se




o absoluto empoça na joça
uma viva humana paçoca
de cada esquecida roça
pensando ser simplesmente jardim

nem doce tão pouco salgada, festim
bala falsa, uma troça virada do avesso

com todo contexto chovendo
subliminar sem parar com cada gota a transbordar
alagados ilhados a intensamente se derramar

inundações vãs nos vãos que não vão secar.
.

(Rafael Belo, às 19h10, quarta-feira, 11 de março de 2015).

quarta-feira, março 11, 2015

Confidentes distantes (miniconto)



por Rafael Belo

Varrendo a calçada alagada na hora da chuva, tentando se ocupar. Parando todo momento e expondo seu sentimento a quem passar. Um dedo molhado de prosa sem impermeabilidade, por favor. Depois segue passando a vassoura na água. Prestando atenção de verdade adiante, lá onde o ônibus para, enchendo e derramando gente encharcando a roupa aos poucos com a indiferença dos loucos tão sábios em seus próprios rios.

A senhora via virem dois jovens com minutos de diferença. Não se conheciam era evidente, só esperavam, por acaso, o mesmo ônibus, mas não desceriam no mesmo lugar. Porém, se olharam confidentes. Confidência do que ouviram. Falavam os impermeáveis motoristas diante da impermeabilidade daquela garoa da noite vermelha. Os dois estavam protegidos pelo teto do ponto de ônibus.

Sozinho à frente, cabelo liso-duro-sujo, um universitário nem ligava para a chuva a cutuca-lo por todos os lados. Não se mexia nem confidenciava aquele segredo de estranhos entre os dois a o observarem e lá vinha o olhar confidente e o sorrisinho cúmplice. À direita sobravam explicações e nenhuma resposta se fixava ao solitário homem também se molhando ou era impermeável também?


Após algum tempo se protege com o capuz do moletom e se encolhe no próprio mundo da sua playlist sem ritmo. Só luzes e sombras escorriam com a chuva, tudo mais se acumulada e os dois desconhecidos dedilhavam com os olhos outras confidências silenciosas que ali existiam, bastava atentar os ouvidos. Eles ainda esbarravam o olhar, mas em tantas formas de escolher o autismo impermeável, eles somente olhavam para a cidade chovida se inundando nos alagamentos de gotas contadas, sem nenhuma confidência em palavras.  Não queriam mesmo se conhecer ou falar, não havia necessidade.

terça-feira, março 10, 2015

eterno hesitante


janela aberta chuva indiscreta a se derramar

declamando a impermeabilidade de ser quem é
o avesso de mar a chorar

encharcando o temporário levando o estagiário a navegar
em uma cimentada acidentada maré
andando sob as águas nos pés
a cidade insiste em se afogar

em copos de plástico a acreditar
nada além da extrema fé

a efemeridade permanece mais que o eternizar.


(às 21h47, Rafael Belo, segunda-feira, 09 de março de 2015)

segunda-feira, março 09, 2015

Abra a janela

por Rafael Belo
O som da chuva traz sorrisos e arrepios simultaneamente. Depende de quem somos. Independente do tempo da queda das águas já não tão puras como antes, também já não o somos. Caímos cadenciais como estas águas de março diariamente, mas, como as cidades, estamos impermeáveis. Não absorvemos a garoa, chuvisco ou torrenciais granizos e temporais. Inundamos e levamos nossa confiança e convicção para longe porque já não há mais onde escorrer. Nossas vias se vão e basta olhar para a cidade que ela também se vai.

Mas para onde? Para o mesmo lugar, porém é necessário adubar, enriquecer o solo empobrecido onde mudos não mudamos e nem plantamos as mudas certas para reflorescer. Ora! Nem jogamos o lixo no lugar, não cedemos espaço, acentos, assentos só ocupamos e nada mais. Há naquela cor natural ainda não desbotando o sorriso pelo sorriso, o brilho pelo chocolate presenteado, a flores bem-vindas, o semblante se irradiante diante de um bebê e perante um cachorro no colo.

Isto é gentileza. O quanto dói ser gentil, oferecer o lugar, jogar o lixo na lixeira? Parece muito dolorido se expor, permitir o outro se aproximar, se arriscar... Viver uma dor passada é estender o sofrimento ao nada e esperar encharcados o sol secar enquanto é noite. Então, transbordamos e levamos outros conosco como a cidade carregando motos, carros, casas e vidas, levamos caminhos, oportunidades, necessidades, nossa poesia...


Somos o som da chuva, o barulho da cidade, esta infertilidade promovida pelo nosso pânico a nos paralisar enquanto nos preocupamos com a inutilidade do medo, ao invés de nos alertar para a necessidade deste alerta. Como vamos sorrir ou arrepiar se nos esvaziamos das coisas erradas? Precisamos parar com as deturpações para plantar a semente e colocá-la no sol mesmo dentro de um temporário copo de plástico, mesmo nem tudo sendo efêmero precisamos abrir a janela.

domingo, março 08, 2015

Estamos acostumados? (resenha de Objetos Cortantes)

por Rafael Belo


Para cortar é preciso estar afiado? Até papel corta e faz o sangue escorrer viscoso, faz poças psicológicas coagulando em algum canto do cérebro e do corpo. É cortante as reações das pessoas e da natureza em contraste as possibilidades contrárias, algo sem fio, mas com ponta pode ser perfeitamente perfurante. Até uma coisa antiga e enferrujada acaba por ser danosa e mais letal que a morte. Basta ser forte ou fraco o suficiente. Objetos cortantes de Gillian Flynn é uma estreia feita do metal mais mortal recortando a realidade.

Muitos mistérios flutuam cegantes à vista com quinas machucando o tempo todos os personagens profundos e demasiadamente humanos deste livro que lhe oferece uma tesoura para picotar rasos papéis. Michelle, Adora, Amma e Marian são a família disfuncional e voluntariosa desta surpreendente leitura. É como matar a vontade de nadar em um desconhecido rio em um dia de vento gelado, mas com a temperatura acima de 40 graus.

Primeiro tocamos a água com as mãos e recuamos, depois ingerimos coragem aos olhos desconfiados e desafiantes dos outros nos impulsionando a ousar o pé. Água derretida das próprias calotas polares... Sentamos e nervosos olhamos em volta para garantir não sermos empurrados em sentir milhares de agulhas furando todas as partes do nosso corpo simultaneamente. Saímos do raso junto com a autora e aprendemos a nadar em sua obra.

Quando a água já está na cintura queremos mergulhar. Está frio lá fora e a autora tornou aquela estreia dela nossa estreia em sua leitura. Está confortável, bom e já não há mais aquela vontade de sair. Na visão de Michelle descobrimos os crimes e quem os praticou desta maneira mais chocante e pior, com crianças, estamos imersos com a personagem até o fim, se bem que o fim poderia ser mais elaborado, ou seria apenas mais uma forma de término ao qual não estamos acostumados?

As palavras são como um mapa de estradas para o passado perturbado da jornalista Camille Preaker. Acabada de vir de uma estadia breve num hospital psiquiátrico, o primeiro artigo que o jornal de segunda categoria onde Camille trabalha lhe atribui leva-a relutantemente de volta à sua cidade natal para cobrir o assassinato de duas pré-adolescentes. Desde que saiu da cidade há doze anos, Camille raramente falou com a sua neurótica e hipocondríaca mãe, nem com a meia-irmã que mal conhece...

Único absoluto (homenagem a todos os dias da Mulher)

Feliz todos os dias da Mulher,


happy every day of the Woman
 

sexta-feira, março 06, 2015

olhARes do alto (miniconto)


por Rafael Belo

Poucas pessoas passavam pelo terminal naquele horário. Eram quase 9h da manhã de uma sexta-feira, os ônibus mal paravam e já partiam. Os passarinhos olhavam... Os funcionários trocavam de turno e as duas crianças - entre poucos saudáveis 5 e 9 anos – pareciam com acessórios daquele lugar. Acessórios ignorados, perdidos e praticamente lutando pela sobrevivência desde o primeiro horário de pico do dia.

Inicialmente eram obstáculos para os apressados paulistanos (de origem ou por adoção) e depois elas precisavam se alimentar... Ninguém olhava para baixo, outro desafio... Todos evitam sentir pesar. Queriam se afastar do contato visual e de relacionamentos... Nada de se envolver de verdade. Mas sabiam de uma forma que podiam esquecer... Esqueciam... Como fingir a ausência de duas menininhas?

Presentes embaixo, famintas como bonecas largadas pelas meninas mimadas que têm demais e quase nada de afeto de fato. Foi assim que uma jovem devorando um prensado cachorro quente se encolheu como se fugisse da noiva do Chuck. Ela fazia parte de um casal solitário. Era aquela parte virando o rosto em pânico, mas indiferente sem dar qualquer resposta ao pedido vindo de algum ponto daquela mãozinha a encostar nela.


Ele olha segurando um lábio retorcido ao mesmo tempo no qual repassa os porquês de terem chegado até ali. Não consegue sorrir e dobra seu pedido como as meninas dobraram... “não incomodem. Deixe o cliente em paz...” Ele olha respirando forte para o funcionário ávido por satisfazer seu comprador... Depois apenas ignora sua vontade e as palavras desse com a mesma intensidade do abraço para as meninas. Um capaz de tirá-las daquela realidade exploratória, dali... Desta cidade fria e distante, mas apenas atende a vontade delas. Felizes elas comem pão de queijo enquanto ele espera silenciosamente o labirinto com o qual casou.

piedade


apiedai-vos sempre dos empoderados e dos humilhados,
eles são cidades perdidas, aturdidas com seu excesso de luzes

carregando uzis nas línguas e bombas nas mãos

empoeirados imóveis, quase sãos,  nas reticências que criaram, sentados
em seus labirintos, irados com todos os instintos desligados,
observando de cima não sabendo estar embaixo
evoluindo a vários óbitos

sem saber ser o outro lado do tópico
utópico como uma cidade imaculada cheia dos restos
da saliva escorrida de Caim.


(Rafael Belo, às 08h51, quinta-feira, 5 de março de 2015)

quinta-feira, março 05, 2015

Roçando os braços (miniconto)

por Rafael Belo

Ela decidiu ir ao encontro dele. Era perto, afinal. No máximo meia hora de caminhada. Ambos precisavam se encontrar. Sentiam-se perdidos, aturdidos com as próprias limitações. Mas por causa destas baterias insuficientes, o excesso de aplicativos nestes celulares inteligentes e, principalmente, pela distração que um causava no outro, eles se esqueceram de carregar o telefone móvel... Destas coisas que mentimos ser coincidência, os dois ficaram sem celular enquanto planejavam se encontrar no meio do caminho da cidade.

Durante o expediente e em um dos piores plenos horário de pico deste ano sentiram o famoso aperto no coração, que os levou àquela surpreendente tentativa de fazer surpresa e, curiosamente, acabaram se surpreendendo. Haviam feito um mapa. Este se desfazia neste momento nos ansiosos bolsos suados. Eles andavam olhando para frente, mas nada enxergavam. Era como se tivessem feito dilatação das pupilas e utilizassem fones de ouvido e alto e mal som. Eram pontos transparentes em meio ao cinza.

Quando se deram por si já estavam tão longe de onde saíram quanto suas origens. Eram um devaneio, uma bruma que não se dissipava. Em um movimento sincronizado à distância, levaram a mão ao bolso, ao celular sem bateria e aos mapas sem utilidade mais. Levantaram a cabeça tentando se localizar... Ela logo cerrou os dentes em claro sinal de bruxismo e os comprimiu forte fazendo ressaltar os músculos do maxilar. Ele expirava forte, contorcia o nariz e umedecia os lábios, se descobriu perdido.


Ao menos duas horas haviam se passado sem eles estarem em lugar algum. Estavam tão perto um do outro e de si mesmos, mas não se encontravam. Continuavam não enxergando nada. Pareciam sofrer de cegueira nervosa. Bastava olhar para o outro lado da rua e se encontrariam. Quem sabe dissipariam a neblina das suas origens... Sentiam-se estarem tão próximos que doía como se o coração fosse um faminto animal selvagem se debatendo pelo corpo todo em busca de uma saída. Eles passariam boa parte da vida nesta busca passando quase ao lado, praticamente roçando os braços e, então, seguiriam na própria perdição. Ruminando em um dia amanhecido ainda entrando no tom.

quarta-feira, março 04, 2015

vertigens




labirintos famintos devoram insaciáveis
os instáveis moradores de si

cantando em dissonante nota na cidade remota,
a anedota projetada no espelho um dia hospitaleiro
hospedado, agitado, no seu prolongado ano prisioneiro

rodando no próprio eixo, nos arredores por aí
sem saber ter onde ir indo liberto seu incerto interiorano


rasgados planos capitais sem cantos soltando ruas sem saídas
partidas pelas feridas escorridas das veias abertas

desertas da origem na vertigem
que nos trouxe até aqui


(Rafael Belo, às 15h29, terça-feira, 03 de março de 2015)

segunda-feira, março 02, 2015

Sem sair do lugar


por Rafael Belo

Nos nós das vielas, ruas e avenidas há sempre o princípio, as origens. Muitos cruzamentos, várias intersecções e a mesma finalidade: nos levar a algum lugar. As pontes, tuneis e viadutos conectam um ponto ao outro e o movimento não para, mesmo se o domingo for estendido além das horas. Não há atalhos e quando aparece algum caminho disfarçado de mais rápido acaba sendo ao contrário, demoramos mais para chegar. Esta é a cidade e nós somos iguais.

Precisamos conhecer a cidade, nos conhecer. Saber os melhores lugares, as qualidades, os piores becos, os defeitos, as esquinas erradas e as curvas mais certas porque não saberemos em hipótese alguma a totalidade de qualquer vida e objeto, mas podemos chegar o mais perto possível sabendo como trafegar por aí e dentro de nós. Não há sequer um sistema de posicionamento geográfico capaz de nos levar onde queremos se no fundo não sabemos onde fica. As origens precisam ser descobertas.

Por mais que o tempo passe novas vias surgem junto com sarjetas ocupadas e ambas estão em toda parte nos olhando como se fôssemos um quadro abstrato obrigando o outro a nos entender, aos sinais funcionarem conforme nossa vontade... É fascinante como pensamos ser ruas de mão única... Como o passado é causa do presente... O deslumbramento adolescente que não nos larga, continua em larga escala nos afetando afetados que somos e negamos. Depois temos raiva, barganhamos e ficamos depressivos, mas nunca aceitamos. E o ciclo reinicia como se vivêssemos de luto.


Luto pela morte do que não chegou, não veio, não reagiu porque nada agiu antes, mas lutamos, sonhamos e de alguma forma não percebemos que nos matamos... De uma forma incompleta nos deparamos com nós mesmos e batemos portas deslumbrados adolescentes rebeldes que ainda estamos, explodindo hormônios, criando faces com todas as fases da lua indo do raso ao profundo nas próprias descobertas. Enquanto o ponto não chega, não há origem e nem destino, parece que só há o ônibus errado para pegar com a estrutura abalada e todas as direções do avesso fazendo o olhar enviesar. Nos deixamos no nosso labirinto sem sair do lugar.

sexta-feira, fevereiro 27, 2015

Próximo papel, por favor (conto)


por Rafael Belo

Em vão as cortinas se fecharam como um raio estourando no vil metal. Fulminante. Figurino bestial da nudez arrepiada em cada olhar glacial. Não era o esperado pelo público. Este deixou de ser respeitável há tempos, por isso quem riu fui eu. Logo depois de cessarem as gargalhadas. Estas subitamente viraram gritos e outras reações de susto. Valeu o custo? Cada centavo... Imediatamente o alvoroço ia e vinha feito musgo dominante. Solução hilariante no momento. Quem estava se divertindo então?!

Foi a solução para tanto estardalhaço das ilusões lá de fora. A vida já não é e ponto. Como não rir com pessoas deslizando, escorregando, se atropelando... Plena comoção. O ápice do teatro. Quero ver quem fica stand-up... Palavras erradas, entonações erradas, expressões erradas, gestos errados, o corpo errado... Enfim... O fim da interpretação... Ainda bem que todas as ações caíram pelo mundo e os preços subiram comprometendo até as próximas cenas do não escrito.

Afinal criar bolhas dentro de bolhas dentro de bolhas... É vistoso, artístico, habilidoso, mas quando estoura a inflação é geral, ou melhor, a inflamação. São encenações atrás de encenações no meio de encenações no fim de encenações que se iniciam ao primeiro despertar, mesmo se ainda estiver dormindo. As tais das intenções sorrateiras, disfarçadas de pãezinhos quentinho da manhã, do aroma salivante do cafezinho recém passado deixa os desavisados, todos nós, em estado de eufórica mudança até a noite chegar e o teto nos encarar... Já foi mais um dia.

Próximo papel, por favor. Saiam todos! Encerrem a cena. Sem direção, ator principal nem figurante. Vamos criar neste instante. É tudo improvisação. Pode se atentar. O teatro agora é a realidade e a realidade vai começar um velho novo espetáculo. Ainda vamos descobrir isso. Ah, vamos! Descobriremos que é preciso tirar qualquer nitidez para enxergar além do talvez e que a lucidez pode não ser tão lúcida assim. Lá fora é tudo mentira, a vida é aqui neste palco e parece que o público entendeu os atos, fez seu teste e vai pedir que não passe de uma trilogia, pois o enredo e os atores estão tão ruins que assumirão eles mesmos os papéis. Assim que conseguirem entrar no personagem...

quinta-feira, fevereiro 26, 2015

Torna-te


o granizo cai nas pessoas de vidro

elas se estilhaçam antes do tempo previsto
juntam-se os cacos juntos no palco do improviso,
fecham-se as cortinas como as nuvens escuras no céu.

mas o ritmo das geladas gotas golpeando a janela
parece trincar todo o vidro restante rasgando ruidosamente
o céu, com cauteloso trovão tão titubeante
seguido do cegante fulminante farol faiscante do raio
ou ao contrário.

Só nós somos páreos...
Mercenários dos erros cometidos de interpretação.

Para entender o outro torna-te a ti mesmo então
ou caia como chuva na cidade em vão.

(Rafael Belo, às 17h48, quarta-feira, 25 de janeiro de 2015).

quarta-feira, fevereiro 25, 2015

suficiente (miniconto)

por Rafael Belo

Tem horas que é melhor não falar e elas são quase todas. Mas já está dito não adianta chorar pela verborragia jorrada. Se era melhor o silêncio? Prefiro não comentar e você também poderia ter optado por esta... Agora escorregou nesta opinião egoísta e segregada e fica na ladainha das desculpas? Você tem culpa. Assuma-a. A verdade é: não ligo. Mas vou manter no pensamento essa verdade porque se ela a ouvir vai achar outras situações não presentes e achar também fica na preferência do silêncio. Nem o corpo diz nada. É a deixa em que tudo se cala.

Sabe nós dois falamos muito, às vezes, sem dizer coisa alguma. Nem sequer somos um casal. Não há as falas clichês, nem algo a nos definir. Aliás, a única coisa definida é a palavra definição no dicionário. Nem sei porque este é o único livro por aqui... Gosto do silêncio e você... Bem você pensa saber o próprio gosto. Eu não sou arrogante, apenas te conheço bem.... Eu? Sabe meu gosto por ser misterioso e minha raiva por interpretações toscas.

Já não sei lidar com ele mais. Ele me irrita... Agora chove lá fora e eu não consigo sequer chorar. Não gosto de interpretar, mas me repito muito sem perceber, isto porque é o que a chuva faz comigo. Eu choro... Lembro bem de antes de nós dois, mas nada decoro. É claro que há nós dois, certo? Lá está ele ao invés de estar aqui. Pode ser... É podemos nos encaixar no perfil de dois estranhos ou dois malucos bêbados...  Definitivamente somos um porre, aliás dois...

Poderíamos nos beber e quem sabe nos encontrar. Um no outro ao mesmo tempo, no mesmo palco. Ele me olha como se estivesse do outro lado deste pensamento, mas porque só olha e fica lá olhando? Não. Ele me conhece. Podemos ser dois pássaros ou quatro... Quem sabe o mesmo saltitando... Talvez seja ele meu orgulho... Somos independentes, mas conseguimos ultrapassar esta deturpada definição. Somos péssimos bons atores, nem sabemos usar estas máscaras rachadas... Sem marcação, sem cortina, mas com ação... Estou indo meu bem e lá vem você também... Ah, como o corpo fala. Tagarela. E nós somos definição suficiente, sem atuação. Esqueça as próximas cenas, direçãoooo.

terça-feira, fevereiro 24, 2015

Lambida na testa

dilacerando as lâminas esquálidas

a inutilidade metálica interpreta seu papel de sangue
e jorra das afiadas línguas uma nova interpretação

a comoção chora um palco inteiro
e a bota pisa um futuro rosto inchado

diante de um levante hortifrutigranjeiro
adiante novamente o relógio parado

o paradeiro das lágrimas corre o dia trancado no banheiro [sem porta]

escorrem todas as cores dos tinteiros, até o sinaleiro se revolta
repetindo verde amarelo vermelho sem importar a ninguém

levanta a cabeça quase pra cima, entorta, fragmentos de frestas, muitas sobras, tanto resta, lambida na testa.

(Rafael Belo, às 22h26, segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015).