quarta-feira, março 18, 2015

Curtida ilusão (miniconto)



por Rafael Belo

O cheiro sempre chega certeiro, primeiro, antes de quaisquer outros sinais. A inquietação soma consoantes e vogais para a emissão dos grunhidos sequenciais ... Advertências demais. Uma gritaria em outra língua e nada mais. Vai mexendo a cabeça... Talvez entorpeça e enlouqueça fingindo só comer e dormir, comer e dormir e comer e dormir.

Focinho de porco cheio de ouro e diamantes especiais para fora da cerca, para que não nos perca. Mexe, remexe, chafurda e se joga na lama, cama da fama sonhada por poder sem nos tirar do olfato. Mas, de fato quer nos ver. Enxergar quem está à espreita, à torta e à direita quer nos afugentar. Apura as orelhas para ajudar o olfato, quer o contato apenas para arrancar pedaços, meu e seu...

Uma máquina de carne andando como um leão enjaulado, enfurecido por não nos tocar, ser objeto para olhar e comer, mas devorando tudo e todos e alcançando no grito desesperado cada ouvido em um arrepio demorado para explicar... Quem sabe um presságio de algo a não ser explicado na ausência da necessidade de entender, então se expressa sendo o próprio ser...


Porquinho se sentindo javali com seus humanos olhos fora do alcance, mas ainda sim grunhindo, bufando, se debatendo na madeira com seus anéis preciosos brilhando, porém preso ali... Com a lavagem. Um falso selvagem sempre esperando o alimentarem. Alimentação de restos, ostentado modesto... Sem nenhum protesto, ao contrário, satisfação.  Não se esquece, mas invariavelmente não quer recordar. Acordado não pensa, devora de cor. Embriagado pelas suas sobras curte ressaca, compartilha solidão.

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