segunda-feira, agosto 27, 2018

nossa diária distração







por Rafael Belo

Eu me distraio com a lua. Ela me atrai feito um inseto na escuridão total sem qualquer outra luz. É uma fascinação como a interpretada por Elis Regina. Está no espaço para todos verem em algum momento da própria noite. É uma distração em um mundo de caos e confusão. É algo em comum para todos. Faz-me pensar… Aliás, repensar sobre nós. Pessoas. Como mudamos, como temos tantas fases, como às vezes estamos cheios, outras apenas repletos e brilhantes e ainda aquelas vezes que sumimos ou nos anulamos. Cheguei a conclusão que não é que não nos importamos, estamos distraídos.

Estamos em outra sintonia. Em outra fase quando uma pessoa quer nossa atenção e em nossa distração não percebemos. Não é maldade, estratégia… Ok. Às vezes é… Mas não deveria ser... Enfim, estamos distraídos. São tantas ocupações e insinuações que em distração em distração vamos nos afastando. É como parar tudo e olhar para a lua cheia. Pare e faça isso agora se for noite, se não, tente lembrar de o fazer quando anoitecer.

O problema é que muitas vezes é sempre noite. Vivemos para nos distrair. Não é obra do acaso ou do destino ou até divina nossa distração cotidiana. Nos enchemos de estimulantes para em um ciclo constante de distração nos alimentarmos de um vazio de angústia fabricado para não terminar. Não vemos o porvir com clareza porque só levamos em conta nós mesmos e às vezes nossa família. Não enxergamos nada bem perto ou distante. Deixamos de ser sociedade há muito tempo.

Hoje somos ilhas de exemplos de como eu posso fazer, de o corpo é meu, da minha causa. Se antes nos rotulavam, agora nós nos rotulamos, etiquetamos, nos colocamos nas caixinhas como subproduto de nós mesmos. Caixa do dia perfeito, caixa  do dia da preguiça, caixa da interação, caixa da dependência, caixa da independência, caixa de solteiro, caixa de trouxa, caixa do apaixonado, caixa do sexo, caixa da igualdade, caixa da desigualdade, caixa da depressão, caixa, da superação, caixa da exposição, caixa da lamentação, caixa do homão, caixa do mulherão, caixa do sensível, caixa da menininha, caixa da ofensa, caixa das desculpas, caixa da mudança, caixa do foda-se, caixa da academia, caixa do crossfit, caixa do Pilates, caixa do corpo ideal para mim, caixa da comida fit, caixa da comida vegetariana, caixa da comida vegana, caixa do contra, caixa do à favor, caixa da comida com carne… São tantos catálogos vendendo algo distraindo a gente, a si mesmos dos círculos e repetições que vamos fazendo, que nos acusar de frieza, de não se importar é apenas mais uma distração. É fácil governar qualquer tribo desunida e neste momento, até quem parece unido, só está enxergando o que quer ver. E se isso não é mais uma distração, alguém me ajude a entender.

sexta-feira, agosto 24, 2018

Além da melanina (miniconto)





por Rafael Belo

Veja só. Olha aqui. Estou toda arrepiada. Eu senti que algo ruim ia acontecer. Me senti o Homem-Aranha… E isso não me diminui como mulher... Não ia me fazer de desentendida. Não. Hoje eu não estou para fingir demência mental. Assim eu acabo acreditando… Não venha com apelidos nem com morena… Sou negra! Sem mais.

EU NÃO DESACATEI NINGUÉM! Quero ver agora onde específica o que é desacato porque dizer o que penso não é desacato. Eu só falava por mim. Ninguém vê questão de pele se só se importar com essa Luz além da melanina, além do sol… A gente ensina todo esse lixo de diferenciar as pessoas para nossas crianças… Quem mudou a lei no apagar das luzes e transformou conscientização em crime…

Ah, agora você vai me bater porque eu estou batendo nas grades? Cadê minha ligação? As leis de reparação escravistas e de todo preconceito hediondo destas mentalidades infantis e medrosas jamais serão reparadas por lei alguma, por cota nenhuma… É só uma forma de aliviar a consciência de quem se acha líder de todos nós, donos de cargos, carreiras e pessoas…

Olha aí! Veja lá! Eles só querem nos separar. Separados somos mais fracos. Eles são tão poucos e elevaram o poder ao dinheiro, aos cargos … Já pensou se tivéssemos o poder de parar tudo, de desvalorizar as instituições e o valor do dinheiro? Mas, não eles nos etiquetaram, nos estigmatizaram e fizeram o papel do demônio: o maior poder deles é fazer a gente acreditar que estas coisas não existem…

E aí? Ah, vai atirar em mim agora?! Será feminicídio? Será racismo? Será apenas violência ou queima de arquivo? Tenho pena de vocês acharem que estou presa nestas grades, nestas palavras… EU SOU LIVRE!

quinta-feira, agosto 23, 2018

noite de inverno








estou sentado levando choque
choco a energia circulando de não sei onde
é como uma antiga Londres imperial
vivendo em um país marginal sem acaso
quando cada ocaso se senta ao meu lado
infantil e medroso feito turba sem argumento
só tanto ranço quanto o peito pode aguentar
carregar até quando a bolha estourar
e neste escravizar ver o libertar
apontar para o quanto fomos adulterados
pendurados no senso comum sem bom senso
esquento minhas extremidades frias
esfregando as mãos vazias
não há soberania nem a pele em questão
mas mesmo que não exista
há quem não desista de inventar
tentar prejudicar sem cautela
espalhar nutella
enquanto contrariando vou incomodar
na noite de inverno que não está lá.
+às 18h, Rafael Belo, quinta-feira, 23 de agosto de 2018+

quarta-feira, agosto 22, 2018

A única (miniconto)






por Rafael Belo

Eu estou sendo perseguida. Ninguém está por perto. Não há ninguém nas ruas. Não sei nem como me sentir… Fui abordada sem motivo ou melhor por motivo inventado. Ainda estou com medo, como não estar? Quantas mulheres desaparecem por dia? Quantas são mortas por minuto? Quantas sobrevivem na fronteira? Mas isso cabe a todos os seres humanos. A violência direciona nossas vida. É ela quem diz como vamos viver e morrer…

Estou morta de medo. Não entendo a violência. Não. Eles não encostaram em mim. Não me revistaram. Fizeram perguntas sem sentido. Não eram policiais de trânsito. Não fecharam meu carro nem emparelharam, apenas ligaram timidamente o giroflex e permaneceram atrás sem passar… Dei espaço. Aí minha amiga disse para eu parar. Parei um instante e no seguinte estacionei. Não queria bloquear o trânsito…

Comecei a pensar e percebi eu ser a única negra que vi durante toda a semana estranha que passamos na Fronteira e antes de eu ser abordada não tinha visto isso acontecer também… o
O que isso significa? Fui firme nas respostas. Não tremi nem hesitei, mas eles tremiam e hesitavam… Alguma coisa estava muito errada. Eles pegaram meus documentos e eu ouvi falarem com a Interpol …

Eu ouvi em resposta frases misturadas entre português e alguma língua que eu não identificava. Foi quando quem conversava comigo sacou a arma… Eu joguei minha amiga junto comigo dentro do carro. O barulho ensurdecedor de tiros me fez chorar de raiva. Minha amiga estava desesperada, mas ela… Ela… Eu… Eu rastejei por baixo dela e sai do carro assim até a esquina quando tive certeza da possibilidade de levantar… Corri e ainda corro em silêncio. Não sei se vou poder parar um dia.

terça-feira, agosto 21, 2018

detenção





há tantas formas de preconceito
acabando com o conceito de tudo
com abordagens violentas e sutis
às vezes eu só passo cinza por aí
mas o meu jeito de vestir já foi acusado
de ser usado para chamar atenção
nunca foi a intenção é a minha maneira
de existir em contradição com a aceitação
do padrão
montagem rápida de forçar encaixe
desta sociedade ávida a se destruir
nesta fronteira onde nada é preto e branco
há a possibilidade da abordagem ser
a pele em questão
apenas quero me sentir bom
e bem ser por fora minha própria extensão
então uma nova fronteira vem fazer barreira
me amarrando à cadeira da detenção.
+às 13h40, Rafael Belo, terça-feira, 18 de agosto de 2018+

segunda-feira, agosto 20, 2018

Perigo na fronteira





por Rafael Belo

Contando bem só fui abordado pela polícia duas vezes na vida. Sempre andei à pé por toda parte sem pensar muito no assunto. Cansei de ver notícias, fatalidades, ouvir relatos pessoais e de terceiros, mas nem passou pela minha mente eu estar correndo riscos além dos usuais no meu dia-a-dia. Pensando bem eu tentar me sentir ótimo com o que visto pode ter alguma influência e ao mesmo tempo um balanço entre “abordagem” policial e marginal. Até ser dito em voz alta, não pensei na possibilidade de ser uma questão de pele.

No último sábado à noite (18/08/2018), a atitude e a tranquilidade aparente podem ter evitado o pior. Estávamos para passar a fronteira entre Brasil, Ponta Porã e Paraguai, Pedro Juan quando cruzamos uma avenida passando por uma viatura policial. Seguimos um desses aplicativos de mapas - quase certeza Waze, mas talvez Google Maps - quando a viatura veio atrás sem alarde. Eu pensei que queria apenas passar. Abrir espaço. Nada. Meu amigo, Gus, disse o que não era óbvio pra mim. Parei e logo decidi estacionar mais a frente. Os policiais não fecharam o carro, não ficaram atrás, nem se aproximaram imediatamente. Eu desci desorientado. Não lembro exatamente o que disseram, mas um deles estavam com uma escopeta automática engatilhada junto ao corpo em 45 graus apontada para baixo, mas para o chão. O que conversou não sacou a arma.

Eu fui até eles. Lembro que queriam saber porque eu não obedeci a placa proibindo virar, para onde eu ia, se o carro era meu, mas não encostaram em mim. O mais próximo que chegaram foi para pegar a minha CNH e os documentos do carro. Insistiram na história da infração de trânsito. Não discordamos. Plural porque perguntaram quem mais estava no carro e mandaram descer também pedindo o documento. Só explicamos que seguimos o aplicativo e não sabíamos do erro. Mostramos e mesmo assim pedimos desculpas. Não havia o que fazer. De repente, parecia que ninguém mais estava nas redondezas Perguntamos do local que nos foi indicado para comer Lomito eles falaram dos perigos do Paraguai praticamente dizendo que poderíamos morrer por lá.

Para deixar o clima menos tenso, perguntei onde eles recomendariam comer já que aquela altura já sabiam que meu amigo era músico e o local que tocaria. Da viatura ouvi a consulta direto à Polícia Federal… Não havia qualquer ação para ser feita. Devolveram nossos documentos e seguiram para onde iríamos: rumo ao Paraguai. Nos voltamos sem nenhuma explicação e sem comer. Passara a fome. Passamos pelo mesmo lugar da convergência confirmando a ausência de quaisquer sinalização e proibição. As explicações dadas pelos locais e amigos para o ocorrido não fizeram sentido e ainda não fazem. Comecei a reparar a ausência de negros e até de morenos. A não ser dois que contei. A Questão de pele É uma possibilidade, levantada pelo meu amigo. Eu estava de toca de frio, óculos de grau, jaqueta de couro preta, camiseta preta de caveiras, calça preta rasgada nos joelhos e tênis preto.
Mas ainda  não sei o que houve… Sobrevivemos para contar mais uma história que, felizmente, terminou bem.

sexta-feira, agosto 17, 2018

A inocente do primeiro amor (miniconto)




por Rafael Belo

Sabe a gente não precisa saber tudo, nem tem como. Não tem que ser o melhor , mas precisa ter vontade e ah, algo essencial: amigos. Eu diria que sou uma mulher de sorte. Uma pessoa sofrida, mas sem comparar porque aí eu perco feio. Demorei a aprender a não sofrer, afinal eu ainda sou a inocente do primeiro amor.

Mas eu sou de energia, sabe? Não ajo diferente com ninguém. Sou eu mesma sempre. Trato todos igual… Claro que quem eu gosto e quem eu amo muito acabo tocando mais, abraçando mais, querendo compartilhar, visitar, falar, enfim estar mais em contato. Não importa o que sigam os outros eu acredito em mim. É preciso ter essa pureza, está inocência… Eu sempre soube naturalmente...

Se assim não fosse eu seria amarga, mal-humorada, reclamona, pessimista, solitária… Se tem algo que não sou é solitária. Meu amigos… Me emociono ao falar deles… Eles são os dons que eu não tenho. Por isso, digo a você para me libertar. Eu sou rica de tantas coisas, mas nenhuma delas tem a ver com capital. Se você matar nunca mais será o mesmo…

Sei que não é a sua primeira morte, mas você nunca mais vai me esquecer e isso vai acabar com tua vida. Você vai gerar muita comoção. Eu não terminei minha missão, só não tire essa máscara não preciso ver teu rosto e nem quero. Só me desamarre e vá ao banheiro. Pela primeira vez neste mês só estamos nós aqui neste cativeiro. Por favor, vá. Eu fui logo depois e ouvi vários tiros e o silêncio. Me reconheceram na primeira tabacaria que entrei. Logo todos estavam lá na mesma velocidade que me protegiam da mídia na tevê mostrava os corpos de quatro pessoas. O resto é especulação até eu resolver falar.

quinta-feira, agosto 16, 2018

quando a alma se vai






apago tudo da memória para tirar
o peso da minha história e ser leve
breve onde tentam me usar como degrau
eterno no reinício da inocência transformada
em crença neste eu não há urgência
vem e vai essência destemperando meu sal
dou aval até deixar de acreditar
não há julgar no meu abraço
meu espaço é coletivo
ou desinteressado ou emotivo
sou vivo até na dificuldade de dizer
que algo é meu já que tudo vai tão rápido
meu ser larápio rouba as horas
as amarra na aurora até sozinhas
as amarras se soltarem e a marra
deixar de ser expressão
de certas caras sem tempo.

+às 12h47, Rafael Belo, quinta-feira, 16 de agosto de 2018+

quarta-feira, agosto 15, 2018

Desta posição (miniconto)



por Rafael Belo

Eu não conseguia me sentir boba como eles diziam que eu estava sendo. Achava normal ajudar mesmo naquilo ao qual eu nada tinha a ver. Não via problema algum. Parecia parte da minha rotina. Descobri mais tarde ser exploração, crimes trabalhistas… Mas não adiantava ninguém falar sobre mim… Tudo o que eu sentia era meu e de mais ninguém. Aquelas doenças todas psicológicas e físicas ainda são um mistério…

Eu sou Inocência. Não é natural de mim ser inocente? O que mais eu seria? Fui até presa… Verdade que logo disseram ser eu a própria Inocência e tal fato foi constatado… Mas, diz o ditado… É equivocado todo aquele pensando ser espertalhão ou seria malandrão? Bom, eu só sou eu mesma não sei ser mais ninguém e venho mesmo me embebedar esperando nenhum macho vir me incomodar, a não ser venha…

E daí se eu perco a noção. Ninguém tem mais noção de nada mesmo. Eu canso de ver me interpretarem da pior maneira quando acho ter dado a única intenção possível. Eu me sinto clara como a luz do dia, mas aí o tempo não pára e vejo a paranoia que não possuo me rondar como assassinos seriais da mente alheia… Fu….. tudo. Eita! Não sou tão inocente assim

Minha mente é só minha até eu me perder neste meu nome e sei lá. Já desconheço minha identidade, o meu lugar, onde estou, as direções se misturam com as emoções e tudo fica desconhecido sem sol sem lua nem céu há mais. Só vejo o chão quando sou recheio de uma multidão de botas sujas fingindo distração… Aí quando dizem que sou ruim acabo acreditando da posição onde fiquei.

terça-feira, agosto 14, 2018

apidéias








saio ouvindo os sonhos e vou vendo abandonos
abanando donos de nada
feito gente inocente injustiçada içada
pelo pescoço como um animal de estimação
eu vou na direção de tentar plantar independência no buraco da ausência
que costuma estar sempre no mesmo lugar
pareço estar plantando em pedras terras devastadas
mas sempre há coisas inesperadas
fazendo a pedra furar
aí me vejo águas represadas
desviadas da sua correnteza natural
me jogo no meu infinito lago artificial
mergulho em apnéia porque há aqueles
dias sem idéias onde só queremos respirar.

+às 14h49, Rafael Belo, terça-feira, 14 de agosto de 2018+

segunda-feira, agosto 13, 2018

Olha a inocência







por Rafael Belo

Você já assumiu o quanto a gente quer que gostem da gente? Mesmo quando nos esforçamos para sermos autênticos e nós mesmos... Seja lá quem formos... ? É natural querer. Não queremos que nos rejeitem, que nos odeiem... Tudo ao nosso redor durante o nosso desenvolvimento dá a entender inocentemente que somos únicos e especiais, uma inocência que insistimos em manter. Uma proteção egoísta que acaba sendo só para o bem de quem protege. Podemos até chegar a maturidade de não ligar a mínima para o opinião dos outros, até realmente nos tornarmos únicos e especiais para nós mesmos e para algumas pessoas, mas até lá ainda temos esta tal inocência em uma país onde a exaltação é a malandragem e a malícia. Mas devemos perdê-la?

Quando finalmente este sistema lucrando com nossa insegurança nos faz perceber que a vida não é um filme que não entendemos acabamos desacreditando em partes em relacionamentos cantando o mantra de que não era a pessoa certa, que a pessoa certa irá chegar... Até nos cansamos tanto a ponte de nos afundarmos em relacionamentos ruins com medo de ficarmos sós, ou então desconfiamos quando está tudo certo achando estar certo demais e ter algo errado, criando bloqueios e comparações ou ainda transformamos aquela velha inocência em aprendizado seguindo em frente e não deixando de acreditar sermos todos seres humanos cheios de falhas crescendo diariamente. Mesmo assim não simplificamos nem uma conversa e...

São tantos códigos possíveis nesta conversa que a clareza precisa ir além das palavras e dos gestos. É preciso dizer exatamente as intenções e ter a vivência de entender que erramos e também as intenções mudam. Não somos uma coluna de sustentação de algum imóvel antigo tombado. Podemos despir de nós todas as exigências das sociedades e ainda assim manter a inocência de uma criança, mas sem deixar de tentar diferenciar sinceridade de conveniência e manipulação. Afinal, inocência e ser trouxa e capacho são totalmente diferentes. Até porque a falta de caráter motivando tratar qualquer pessoa como trouxa e capacho é de quem tem a atitude cretina do tratamento.

Precisamos desta inocência da infância editada para não sermos explorados com medo de perder “amizades”, de “acabar com a relação íntima”, da reação do outro, de sermos julgados, de não dar certo, de sermos demitidos... Se não for dito, não será adivinhado, precisa ser exposto, iluminado, inocentado todos aqueles que têm a coragem de acreditar nas pessoas e que sofrem as retaliações (consequências), estes sabem encontrar a paz. Vamos assumir tudo que precisa ser assumido, não importa o que digam.

sábado, agosto 11, 2018

Vamos voar (miniconto)





por Rafael Belo

Eu me esqueci... Fui à pouco! Foi por pouco que me lembrei, mas me segurei e me deixei. Um quase se perder... Assim me encontrei aqui, neste agora. Tomei uma distância de mim, tomei fôlego e corri para no caminho decidir ter sido, estar sendo minha última corrida. Eu precisava de uma trilha sonora sem nada me incomodar. Ia correr e dançar. Aliviar e respirar, mas pela primeira vez... Calmamente... calma mente... Calma, mente... Assim, com pausa era antigamente ontem quando ainda me enganava e fingia calma. Eu tinha que me lembrar de sorrir, lustrar meu brilho...

Acionei minha playlist Girl Power Bad Ass e lá estava o sorriso perdido. Nada em mim mentia mais. Eu não acumulava, não deixava para depois, não fazia um monte de coisas ao mesmo tempo... Acabou a competição! Só nunca vou esquecer tudo que perdi achando que ganhava... Ainda acharei a cura para esta dor. Não fui responsável, mas se ao menos eu tivesse dormido mais antes de dirigir... Ou nem ter ido... Mas já não dói tanto, já não me leva de um extremo ao outro... Já passo pelo túnel escuro só com minha própria luz própria.

Consigo pensar melhor e também não pensar em nada. Posso refletir tranquilamente sem surtar, sem me acusarem de estar na TPM, sem ter ataque de sinceridade quando não é sequer necessário e ficar em silêncio quando deveria estar tendo o tal ataque de sinceridade... Se corro ainda agora já não é mais fuga, é aquele encontro comigo mesma... Uma desconectada deliciosa, uma calma tão contraditória ao personagem vestido por mim como se eu fosse e eu assim acreditava... Tudo isso por tão pouco. Esta minha paz deste instante não vai mais ser perturbada sem a minha reflexão.

É só levantar a cabeça deste mundinho de ansiedade, disperso e imediato onde mergulhava para respirar, para perceber que eu sou o satélite definitivo construído, mas se desconstruindo em cada passo para ser nova, uma supernova tocando o sol e saindo mais viva, não ilesa. Não saímos de nada ilesos! Você acredita nisso? Meu superego estourou e ainda ouço o ar saindo quando pouso meus pés no chão. É raro eu sair da minha lua, prefiro levar algumas pessoas para lá, essas que como eu, de vez em quando, se libertam e lembram saber voar. 

quinta-feira, agosto 09, 2018

encontrada





meu eu espelho me olha como se me visse
mas nem usamos palavras é uma reflexão silenciosa tecida em lembranças dessas
músicas que a gente nunca esquece
e tece nova teia em cadeia universal
com escalas lentas sem repetição
cada vez que paro sou novo
povo da rede desamassa
vejo tudo que passa e nem corro
morro um pouco para viver
e ninguém tem que ver
quem dirá saber
sou individual e trato os outros como me trato
sou sua solidão com energia
digo para o espelho com tranquilidade
percebo a cidade acordada encontrando o coletivo
aditivo do reflexo fechando os olhos tomando decisão e da aceitação vem o necessário nos aliviar.

+às 11h34, Rafael Belo, quinta-feira, 09 de agosto de 2018+

quarta-feira, agosto 08, 2018

Comprometida (miniconto)




por Rafael Belo

Se eu Não me entendo, como alguém entenderia? Por que eu insisto nisso?! Vou forçando até me arrebentar… Como posso ficar satisfeita com alguma coisa? Preciso da opinião das pessoas e a maioria nem conheço… Preciso de autocontrole e nem conheço… Preciso dormir e esqueço... Aliás, venho esquecendo tudo e como toda mãe, a minha insiste que só não esqueço minha cabeça porque está grudada.

Aí eu sinto falta dela e assim que vou visitá-la desarrependo de ter ido morar sozinha tão cedo… Ela também me faz lembrar o motivo e… Já estou atrasada. Nem tive tempo de cansar ou seria descansar? Estou tão confusa quanto o rumo destes políticos… Cadê minha agenda? Será que eu apaguei o app? Cara. Preciso de tempo pra chorar… Será que sobra?

Vou colocar na agenda e pronto. Agora sim. Quanto tempo será que vou poder chorar? Sinto que estou precisando muito e o que vocês acham, meninas? Estou louca pra aumentar o seios e um pouquinho a bunda também… Quem aí já fez? Você vivem me fazendo acreditar que sou incrível e eu acredito, mas quero corresponder a expectativa de vocês e…

Quando eu chegar a 2K de seguidores vou mandar surpresinhas no direct de vocês e sortear algumas coisas. Já estou atrasada de novo. Será que dá tempo de surtar um pouquinho antes? Eu vou ter que encaixar aqui entre as selfies das 15h e a sessão de fotos das 15h30… Não! Vou ter que tentar encaixar amanhã vou ao salão e ver o crush e postar a indireta para aquele contatinho novo… Preciso dos meus ansiolíticos. Aí ansiedade, me solta!

terça-feira, agosto 07, 2018

reflexo







descobri que o que me causa esquecimento
não é idade tempo insônia estresse o acúmulo das coisas mas a desimportância
desimporta coisas pequenas falas miúdas
me acabo esquecendo delas
me importo com as pessoas com a presença
meço as ausências a partir das minhas
apenas meu estar é necessário
ou desnecessário é arbitrário  
ambíguo bipolar
aí eu penso se há tempo para tudo
tenho tempo para me perder
quando multiplico estes meus pólos
e tudo parece uma grande esquizofrenia
porque no meu ser sou muito sou todos
alegria agonia
perdido no labirinto da repetição
sou uma multidão tarja-preta
pululando da teia mundial da ansiedade
uma mídia sociedade perdendo o senso coletivo
olhando em um espelho sem enxergar reflexão.

+às 14h34, Rafael Belo, terça-feira, 07 de agosto de 2018+

segunda-feira, agosto 06, 2018

Falhas diárias



por Rafael Belo

A busca pela juventude eterna de um lado e a ganância sem escrúpulos do outro é o resultado da nossa superficial sociedade do individualismo extremo e da competição exagerada. Todo dia casos novos de mortes decorrentes de procedimento estético feito em casas ou lugares clandestinos são notícias e não importa a gravidade irreversível da situação, mais pessoas vão atrás da mesma coisa do mesmo jeito com o mesmo resultado.

Insaciáveis que somos, justificamos tudo e buscamos o próximo resultado. Ainda sem fôlego, ainda sem respirar, ainda sem descansar… Tornamo-nos insatisfeitos natos. Chatos querendo doutrinar e criar um disciplina do nosso jeito demorando a nos darmos conta que se o outro não estiver fazendo o mesmo, ele está procurando ou repetindo, se não nós, alguém que considera bem-sucedido em algo. Lembrando que exceção não é regra e que cada um é de um jeito.

Isso não significa que é diferente a pessoa, o objeto e sim sua forma de lidar com isso. Antes disso somos indiferentes. Estamos concentrados nos nossos problemas, desta forma incapazes de aprender com a experiência do outro. Sempre vestimos o superego com capa e qualquer fantasia tendo certeza que não vai acontecer com a gente porque temos a prepotência de achar isso.as.podemos fazer totalmente o oposto disto... Nós não temos meio-termo apesar de vivermos em cima do muro confundindo imortalidade com eternidade. Nosso despreparo em lidar com a gente e com o outro é pessoal, social, familiar...

Aí “percebemos” que há cobranças por toda parte aliadas a uma desestrutura psicológica e uma exposição somática vinda com um kit de julgamento diário sem fim. Este ciclo nos leva a inúmeros escapes, mas acabamos escolhendo aquele que não nos faz bem. Escolhemos o que nos faz esquecer para seguirmos da mesma forma ao invés de resolvermos o problema. Não há como esquecer ou apagar, a gente acumula o que não supera. Mas, é difícil errar quando você escolhe se sentir bem, se sentir confortável, então pode perder o senso de coletividade nenhuma pessoa é obrigada a nada, mas precisa entender mesmo as consequências para cada atitude e posicionamento. Só reflita diante de tudo.

sexta-feira, agosto 03, 2018

Até na fila (miniconto)





por Rafael Belo

Sabe, eu comecei um relacionamento agora. Este palavrão que fingi por tanto tempo não querer. Claro! Eu nem sei se acreditava mesmo em relacionamentos… Quem acredita? Mal me relacionava comigo sem comparar com uma infinidade de padrões… Os homens e mulheres só viviam querendo o que? Serem patrões! Minha referência era isso. Está ausência de independência forjada em liberdade por aí…

É esta desconfiguração de aí meu amorzinho pra cá, ô meu chuchuzinho pra lá e aquele monte de diminutivos tão lindo para os apaixonados… Mistura com um monte de regra social, com vícios de comportamento e vem me comparar feminismo com machismo… Que ofensa grave. Nem pedi pra parar o mundo. Fui lá e desci. Quanta chatice este monte de elogio infundado sem atitude ou pior atitude planejada… Cadê a espontaneidade!

Eu perco o interesse na hora. Quero viver e morrer diariamente. Sabe que agora está acontecendo isso. Eu superei toda esta merda de complexos, traumas e este monte palavrão chamado comparação, submissão, possessão… Nem penso em como será amanhã?! Ninguém sabe. Retirei meus excessos de passado, futuro e imediatismo…

São tantas nóias pesadas transvestidas de palavras, de cobranças… Neste instante eu sei, sei não dever nada a ninguém, principalmente a mim mesma. Quando senti necessidade de uma intimidade bem próxima não suprida, olha suprida, pelas amizades meu coração simplesmente começou a tocar em uma batida diferente e cá estou eu cheia de clichês… Naturalmente como se fosse a primeira vez, mas sem peso algum. Sinto-me mais, livremente. Eu quero alimentar diariamente para, então, ser Amor até camelando na fila do pão.

quinta-feira, agosto 02, 2018

inusitar




havia tantas relações relacionadas
enquanto todo o resto desfocava
cada qual em seu tempo atual
o vento me respirava em um despertar

imensidões enfileiradas esperavam em ação
a reação sabia quando atuar
até o medo esvoaçando na barriga voar

os sons das minhas asas só aproximavam
sem portas telas janelas nem parede para cercar

total libertar ouvindo fluindo sem recuar O inusitar.

+às 12h05, Rafael Belo, quinta-feira, 02 de agosto de 2018+

quarta-feira, agosto 01, 2018

Contagioso ou contagiante? (miniconto)





por Rafael Belo

Aqui estou eu me lamentando, reclamando, chorando, gritando, jurando, prometendo, revidando, me vingando… De novo… Mais uma vez… Meu Deus! Quando vou aprender?! Por que sou tão cabeçuda assim? Invento de sofrer mais com o coração partido e ralo meu joelhos para me contradizer em pedidos divinos… Depois junto todas as dores e fico uma temporada sozinha achando o máximo até não achar mais e…

Eu sou a roda-gigante da montanha-americana da vida porque me sinto na Rússia… Não sei me relacionar comigo. Aff! Não sei o que quero comigo imagina com outra pessoa. Aí vou lá e começo uma relação sem liberdade para nada, me distancio das minhas amigas e paro de fazer o que gosto e deixo de ser quem eu sou sem nem saber quem sou, entende? Só escuta ou lê que hoje tô sem voz…

Como é isso de despossuir a vida e tomar posse de mim?! Parece tão sofrido e colorido… Só ser for de roxo-hematoma! Aff! Dolorido, sofrido como tentar fazer o mesmo com a outra parte da relação, o mesmo controle, as mesmas abstinências, as mesmas ausências, as mesmas cobranças, uma mesmice diária disfarçada de deslumbramento, aquela vidinha de antolhos,  de mimimis enquanto a paixão durar…

Aí tudo parece ruim e vamos dizendo que está tudo bom. Mantendo as aparências, maquiando as evidências (e cantando também)... E nestas insanidades vamos mantendo algo… Eu toda bloguerinha dando dicas de desastres futuros porque… É eu sei que isso vai acabar com minha carreira de Digital Influencer, mas cansei de dizer que é bom ser sozinha e depois desdizer dizendo ser bom estar apaixonada por alguém… Tenho meus momentos para ambos, só não estou preparada para andar nesta velocidade indecente das coisas não resolvidas, só passadas adiante, preciso me reparar comigo e Ei! Outro dia continuo…! Ai meu coração!!! Deu até palpitação entre Deus me livre, mas quem me dera... Olha o crush falando comigo…