sábado, julho 04, 2009

Há você

(foto que tirei da janela de um apê que morei)

Saiam sons indiscriminadamente daquele corpo exposto na noite apagada
Onde ninguém enxergava a água
Caída de outros corpos também de ninguém
Criando um rio parado do outro lado do fardo
De se deixar levar

Pela correnteza de pensamentos
Levados pelos sentimentos
A desaguar
Em um distante lugar
Tão perto
Chamado lembrança

No deserto de lágrimas
Caladas invisíveis
Saído de um rosto impávido
De falso brilho
Há você
Um ser de lembranças

17h30 – 02 de julho de 2009 – Rafael Belo (Folha de Outono)

terça-feira, junho 30, 2009

“Apenas o que devemos ser?”

(foto que tirei enquanto olhava para o céu deitado no banco traseiro do carro)

Por Rafael Belo

Na maioria sub nas outras sobre... Somos assim inconstantes. Quem somos? Ora, humanos... Não é? Deveríamos ser pelo menos... Não há e nem pode haver um medidor de humanidade pelo simples fato da nossa individualidade. O famoso desumano para um certamente é banal para outro. Não quero desviar do assunto, já se tratando de algo do tipo “não imaginei acontecer comigo”. Sabem aqueles fatos da vida envolvendo amigos os levando a se tornarem mais próximos, então este é o assunto.

Parece coisa de cinema para “evitar” lugares comuns, algo do roteiro de “Eu sei o que vocês fizeram no verão passado”, sem a morte (na verdade não ocorrida depois) e sem a sequência de mortes e perseguições. Mas, um quase pacto silencioso me levou ao filme. Nada grave ou criminoso apenas uma comoção de preocupações envolvendo cinco pessoas. Não vou detalhar a situação, mas o sentimento nascido dela. Quatro pessoas extremamente cuidadoras da quinta.

Foi um desmaio súbito, vindouro de um sequência combinatória não aconselhável a ninguém, perdido nas reações dos demais presentes. Porém, naquele momento surgia algo mais na amizade deles. Uma fortaleza de resquícios da muralha da china totalmente sem pretensão. Despretensiosa de tal forma a parecer algo comum. Nesses momentos não há o dito ou o não dito, há uma ligação interminável, incorruptível. Palavras muitas vezes duvidosas no nosso vocabulário diário.

É recente, mas posso afirmar ser minha concepção de amizade ainda de pouco retorno para mim. Compreensão, aceitação, apoio, opinião, procura... Estava presente em todos. Não pensei em subumanos ou sobre-humanos apenas em humanos. Somos inconstantes e codificados. Como somos humanos e como podemos ser quando a situação exige, mas não deixo de me perguntar se não é tão humano quanto não querer participar do problema alheio ou de quem aparentemente nos é querido?

domingo, junho 07, 2009

Colecionador de fantasmas

(Rafael Belo - foto pela estrada)

Prevaleceu o silêncio diante do caos de sons naquela tarde. Foi o motivo das mudanças. Porém, foi tudo repentino até o sentimento de... Traição (?), de queda de heróis (?)... Quando o nosso mundinho pessoal é estremecido a razão se distancia, mas - se a tivermos de fato – ela volta logo do passeio solitário por aí. Jogando um pouco de luz em tanto subentendido, confiar dói e dói mais quando você acredita em alguém acreditando sempre em você... Mas – sempre ele o “mas”- não é assim o funcionamento da mente humana. Olhando com atenção as relações não é difícil perceber as “’meias’ confianças”, os “meios sorrisos”, as “’meias’ pessoas” escondidas ali atrás das palavras faladas a dedo, resumindo o medo de se expor e se machucar.

As pessoas queridas e amadas bastam em presença em muitos momentos assim. Falar, esbravejar e gritar com as (más) intenções são opções viáveis também ou simplesmente ouvir sua voz incontrolável cheia de porquês, soltar palavras doloridas pela dor causada ao simplesmente confiar. Se arrastar fora deste corpo dono da sua voz. Ver a alma presa a um monte de carne possuída ao verbalizar as dores do mundo. Depois vestir um olhar triste de melancolia vazia ao ruir dos valores. Um traje típico fácil de colocar e se acomodar nele. Fácil também vestir preto e ver na imagem de quem confiava um luto vivo corroendo. Foram dois ou três suicídios onde velei corpos inexistentes, sozinho. Depois dividi meus “mortos”. Colecionador de fantasmas, mas para lembranças e avisos, não amarguras.

Vejo assim o motivo da falta de durabilidade de pessoas e coisas. Quando é com a gente, ficamos arredios por um tempo e pairamos no limbo de nos tornarmos metade ou mais um ator no mundo dos egos. Se, e apenas se, tivermos condições – além da capacidade inata – de medirmos a autodestruição a depois nos tornar póstumos em vida, não passaremos para o outro lado do limbo e nem permaneceremos neste além do necessário luto. Por isto respiro fundo, lamento e dou o próximo passo paciente. Esquecer? É uma homeopatia desnecessária se soubermos realmente o significado de pontos de vista. Autenticidade deveria ser a mistura essencial do homem, porém, é o item de série embutido mais vendido da “máquina humana”. Triste. É fácil ficar triste, por isso prefiro permanece alegre.

Entrega

O indireto doeu além da bebida alta
Fez a curva do bafômetro e levou as sobras contigo
Junto com pedaços da esperança perdida
Foi quando o céu fechou e a luz foi impedida de entrar
Aturdida enquanto o mundo era breu e gelo

Embriagadas das verdades caladas no copo vazio
As pessoas caíram, já não estavam mais entre as escuridões
Onde as ilusões não eram noite sem brilho, já eram elas
Amarelas levadas para a descoloração

Brilha o fundo da garrafa no momento da confiança devassa
Devastar os bloqueios do corpo vago a pintar
Um agora neutro concedido ao próprio inimigo, no espelho
Envergonhado o suficiente, não o bastante... Para mais se envergonhar
Estender a mãos para o escuro, adiantar o relógio e esperar...

Tirei essa também no Rio Paraguai/15h32(Rafael Belo)Folha de Outono 07 de junho 2009.

Tempos frios

Rafael Belo (- foto de um dia atolado na estrada)

Há tempos não assistia televisão que não fosse para me entreter com filmes, séries e artifícios culturais – que não se restringem a arte. Da mesma forma não lia jornais, apenas passava os olhos e direcionava toda minha atenção a colunas e artigos. Nada contra matérias jornalísticas, afinal sou jornalista também, mas a forma robótica e atemporal que são escritas me fazem perder o interesse. Sinto-me assim um desinformado funcional, sabe, como um analfabeta funcional. Sei o motivo de saber isso, mas qual a origem?

Enfim, nem todas as matérias são enfadonhas, porém o caso aqui é o medo passado nos noticiários e tantas mortes anunciadas e factuais. Em menos de dois minutos contabilizei mais de 50 mortes, dezenas de enchentes no Norte, Nordeste, aviões caindo – inclusive o de hoje, parricídio, homicídios dos próprios filhos, pandemias, violência atrás de violência... Porque havia tantas doações e interessados e amenizar as dores catarinenses e não há um só pelso nordestinos?! Então vem a ignorância a achar único culpado ou perguntar de Deus?! O livre-arbítrio e todas nossas escolhas têm sim consequências e a culpa é toda nossa.

Por que a ganância e a arrogância se hospedam indefinidamente em nós? É fácil ficar triste, difícil é permanecer alegre... Porque queremos buscar coisas desnecessárias para nós e acabamos alguma propaganda ambulante na antiga poesia de Drummond (Eu, Etiqueta). Valemos o quê? Parece que a sobrevivência a qualquer custo. Há tanta confusão, tanto barulho por nada que não ouvimos nem a nossa voz nem A que nos guia.
Quem se elege sozinho?! Ninguém... Afastamo-nos da responsabilidade e de nós mesmos e estamos lá no limbo como um bando de invisíveis, sabendo que alguém nos escuta, mas não nos veem... Recentemente um ex-chefe, já passados dos idos dos 50 anos foi espancado, porque não tinha dinheiro, por três pessoas desarmadas e a platéia do outro lado da rua de dezenas de pessoas nada fez...! Nem chamou a polícia! Aí eu me pergunto quais são as almas perdidas?!

Creio que por todo o escrito e não escrito é que não venho me informando de desinformação. Não consigo me conformar nos seres diminutos e egoístas que nos permitimos virar ao virar as costas aos valores morais, éticos e nos afundarmos em Prozac e suas derivações além da velocidade dos carros e da embriaguez reverenciada. Deveríamos saber em que investir nossa fé e auxílio... Para não reclamarmos das consequências em que atuamos quando os tempos ficarem mais frios... Que tal analisarmos a nós mesmo primeiro e nos assistir por um tempo? Vamos voltar a ser irmãos!

sexta-feira, junho 05, 2009

Destroços


------------------------------- (por Rafael Belo - tirei esta foto há alguns anos no Rio Paraguai)

Foram joelhos no chão, mãos espalmadas uma na outra. Primeiro a cabeça pendia para trás e olhava suplicante para o céu, depois os olhos fechavam-se e o queixo encostava-se ao peito e as lágrimas escorrendo de qualquer forma. Era tudo a ser feito. Nenhuma palavra diria um consolo adequado ou suficiente. Como acreditar na morte de tantos conhecidos sem poder velá-los, sem vê-los... Estão em algum lugar, não se desintegram simplesmente. Não podem ter sofrido tanta dor!
Um abraço me envolve sorrateira e suavemente. Me abraça com um beijo salgado de lágrimas e pressiona-me com muita força. Ela ajeita a cabeça em me ombro esquerdo, depois me olha até a última lágrima de meus olhos e afunda a cabeça como se estivesse apenas sobre meu coração. Nos conhecemos quando nos perdemos há um ano. Estávamos em trilhas praticando esportes radicais quando uma tempestade inusitada inundou a região.
Fomos arrastados por milhares de quilômetros, eu nem pronunciava o nome de Deus e ao invés de me enfurecer com tudo, estava calmo e certo de continuar vivo... O trauma matou muitos, instantaneamente e já não havia quase ninguém sobre as águas. Aquilo tudo parecia um cemitério aquático. Perdi os sentidos ao bater a cabeça com uma árvore arrancada pela fúria da chuva e do vento.
Despertei muito zonzo e ela estava ali ficando roxa. Me arrastei até ela, pressionei sua boca do estomago e então comecei a fazer respiração boca a boca. Passados poucos segundos ela se inclinou e vomitou muita água, me olhou - como agora a pouco – depois desfaleceu nos meus braços. Fomos tidos como mortos, mas éramos os únicos sobreviventes – como agora. Ninguém fala nomes, nem o ocorrido com a carreata de dezenas de vans.
Mas... É assim. É como dizer: “nenhum sobrevivente, nenhuma morte... mas morreram todos...!”. Percorri todo o caminho deles, das vans, de bicicleta. Havia marcas de pneus por toda a pista, mas nenhum vestígio de batidas. Parece ser necessária uma imagem, uma explicação, creio ser o motivo de eu ajoelhar e rezar, é o meu resto e ela? Ela é minha força, minha ligação com a vida, e também rezo por isto.

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quarta-feira, junho 03, 2009

Meu inverno vem

É frio o ar sobre meu verão
Vêm os caminhos da solidão
Deixando-me gélido e trêmulo

Os olhos fechados mesmo abertos de outrora
Já não marcam tão certos a esperança
Já não alcançaram os sonhos adiados

As certezas até então tão certas
Já causam dúvidas e vazio alto
Nos sintomas de um caminho tomado

Todos os dons cresceram e querem viver mais
Congela minha respiração e o sorriso se fecha
Inconstantes estações esquizofrênicas da pressão

Quando viver meu dom e satisfação?
Quando me libertar da angústia da rotina?
Quando me desnudar pro meu inverno, não irei mais perguntar...

13h12 (Folha de Outono) 03de junho de 2009.

sábado, maio 16, 2009

Folha de Outono

Nas costas não era o significado tatuado
Era uma imagem qualquer de erro crasso
Da manhã acontecendo de um zero total
Da tarde nublada ao redor do sol
Da noite enluarada de escuridão
Dizendo-me calma
Mostrando-me minha alma desenhada

Não era apenas uma imagem tatuada
Era acreditar em mim e acordar
Eram traços sem medo do meu caminho

Nas costas eu me carregava de dentro pra fora
Fogo e voo me misturavam ao equilíbrio
Enquanto doía um próximo sorriso
Minha força me mostrava forte
Minha solidão me interagia coletivo
Todo eu era partes de vocês

12h37 (Rafael Belo) Folha de Outono, 16 de maio de 2009.

quinta-feira, abril 23, 2009

Som do vibrar(Foto by Rafa Belo - é o Robby Krieger)

Vibram os mais mortos dos corpos
Ouvem os ouvidos mais surdos
E não há mais idades no brilho dos olhos
A alma é atemporal o coração musical
E o corpo uma mera ilusão
Cantando uma canção antiga
Sorrindo para os calos da vida
A deixar de existir então

Vibram os mais frios dos graus negativos
Sentem as peles mais insensíveis
E não há nada a atrapalhar a música

Cantam os impossíveis no ritmo dos invisíveis
E o povo na efêmera massificação
Trazendo o novo para o que não foi
A estrelar a estrela de todas as noites de reflexão

10h53 (Rafael Belo) 23.04.09

quarta-feira, abril 15, 2009

“O feriado” novo

por Rafael Belo

Minha mente às vezes está em tantas partes e com tantos Cosmos gritantes, que só posso sorrir. Nestes dias é como se eu estivesse contendo novos mundos em contrações para nascer de imediato – ou renascer posto a Páscoa. Estou inquieto prestes a acontecer. Me coço me impaciento, olho para todos os lados atento e às vezes sem olhar ouço, vejo, escuto, sinto... É o parto mental nietzschiano, mas terei anestesia ou terei me acostumado com qualquer dor? Claro, só porque pareço não a sentir... Pareço aumentar novos sentidos e as coisas do mundo falam comigo. De alguma forma tudo ficou lento e eu estou na velocidade máxima, sozinho. Ansioso por me acompanhar e me vendo afastar. Novos braços, novas pernas, novos olhos, novas bocas, novos ouvidos tudo em sinestesia, tudo tão claro. Minha mente não me deixa parar. Crio mundos em silêncio e controlo o que penso para calar ao dizer de outras formas, livre. Mas, nem sempre tenho controle sobre meus mundos. Que mundo tem controle, afinal? Nem os que são controlados.

Então, vejo repetir “o feriado” nos sites, na tevê, nos jornais, nos rostos das pessoas e nas igrejas. Não tem o mesmo significado, mas tem. Desenho. Ainda é ressurreição daquele terceiro dia quando o corpo se reunificou com o espírito, ainda é o êxito do êxodo dos israelitas quando fugiram de Ramsés II, da escravidão para a liberdade. Esta é a Pessach do hebraico. A passagem. Passamos... Mas, um fim de semana prolongado. O quê ficou? O quê foi esta Páscoa? Como as coisas deixam de ter sentido com o tempo e como deixamos isso acontecer. Mas não controlamos nada mesmo por muito tempo, o tempo todo então... Ouvi na rádio pessoas que desconheciam o significado do feriado, mas é de praxe que não seja o único e o mesmo “despadrão” prosseguiu na maioria dos canais zapeados da quinta-feira à noite.

Foi “o feriado” novo. Nele vi de uma forma diferente a Páscoa que simplesmente passou. E na segunda-feira parece que nada aconteceu e os mesmos comportamentos da dita hipocrisia e sobraram alguns “magros” chocolates. A passagem da Páscoa... Sendo religioso ou não, é história e de história sempre há de ficar algo. Passou rápido demais, mais um dia de folga... Não... Não consigo ver assim. Vi meu terceiro dia, comi chocolate – muito – mas me senti passando da vida para morte, da morte para a vida em um ciclo de liberdade. Nada fatídico, nada fenomenal, uma experiência pessoal com a transcendência das idéias e o calor da família. Nada passa se você viveu de verdade o passado - ou passa?

segunda-feira, abril 13, 2009

Esvaziar

Há tanto na cabeça conectada
Aos plugues do som sinfônico
Com a melodia das sinapses em expansão
Como um Cosmos infinito de Big Bangs mentais
Nos pensamentos atômicos transcendentais a explodir o silêncio
Feito um atentado da negação de criar no instante

A parecer raiva, a energia locomotora de inspiração
Inquieta dentro da alma chocando forte um coração de pensamentos
Enquanto muitos nãos retêm a arte para amanhã
Música letras, ataque defesa se unem para ontem e nascem depois

Há tanto na cabeça explosiva enviada
Para todos os sentidos aguçados famintos e sedentos demais
Apurando o redor como uma caça pela vida
Fechando os olhos e arrepiando a mente
Cheia de sentido, repleta de ilusão

11h13 – Rafael Belo – 13.04.09

quinta-feira, abril 09, 2009

Espera

Há chamas nesta neblina úmida
Incendiando-me de cegueira

Há instintos, moral, dinheiro e o dever
De vê-los, sei o que fazer, mas o que farei?
Vago na neblina, em chamas

Minha voz, sem som e estou vago
Não vejo quem me vê, cegueira coletiva

Deixei-me lá, crepitando
No meio de todos, sou pensamento
Luz, vácuo, escuridão com pressa

E o tempo não esperou, ficou cinza
E não olhou para trás

14h45 (Rafael Belo) 27.03.09

quarta-feira, abril 08, 2009

Colarinhos brancos da vida

por Rafael Belo

Cela no senado? Onde mais, não é?! A maior lógica de todos os tempos. Um prêmio para ela. Claro que vai ser mero enfeite, porque sonegadores, fraudadores, “caixadoresdois” e demais eternos reeleitos e colarinhos brancos vão e vêm das prisões como um ensaio da prisão ou apenas da simbologia de ser preso. A explicação é que a estrutura serviria para abrigar quem cometesse delitos na casa. Uau! Perfeito. Está realmente no local mais adequado. O eufemismo da prisão senatoria é sala de custódia?! Aonde fica a sala de justiça?! Alguém chame a liga de super-heróis... Por isso o Brasil vem com piada pronta como diz Zé Simão. Otaviano Costa pensa como eu, para que perder tempo com a construção? É só espalhar barras pelas janelas e portas, assim só sairia o “presidiário” com bom comportamento aprovado. Os pequenos colares brancos dos burguesinhos empáfios têm sempre um final feliz seja lá o que for felicidade para eles – ou para nós.

Outros crimes de lesa-pátria cada um deles tem ou terá o seu. No senado são cerca de mil ocorrências por ano, porém, nem todas levam o infrator à sala de custódia que cabem três pessoas. E se houver superlotação. Temos que lembrar que são 300 senadores? E a mágica da ilusão, bem redundante mesmo, de cortar só 50 diretorias das 190 ou seriam mesmo as 181 no senado como “corrigiram”. Depois disseram extinguir mais 50 e o que fazem todos os diretores lá sem diretoria... Ficariam 81 diretorias ou 90? Bem, então finalmente disseram que são só 38 diretorias... Engolível o número, mas, não a informação, todo o resto são títulos disseram, chega de títulos então... Diretores que se dirigiam, o sofisma como disse Noblat, parece belíssimo. Somos trouxas certo? Diriam que já é um começo a aceitação... Pensem, diretores de: “Check in”, “garagem” e “autógrafos em atas” são os menos chamativos.

Ninguém foi afastado ainda ou deixou de ganhar a gratificação, são diretores gratificados de nada. Foram os publicitários que inventaram essas diretorias? Ou foi um concurso de criatividade? Enquanto suspensa para análise da necessidade da construção... Alguém tem alguma dúvida da necessidade...? Mas, ainda sou a favor de transformar o senado em uma prisão, pois, francamente, três pessoas em uma cela é um bom mito grego. O Senado da Roma antiga e antes da Grécia antiga elegia imperadores e 81 senadores, três por cada Estado. O nosso “elege” um monte de leis que ficam circulando lá por anos - e por que não décadas?! -e não chegam a ser sequer analisadas ou a público. Tenho a “leve” impressão que estamos presos a um passado recorrente sem sequer tentar algo novo não tentado naquelas épocas. Será uma cela nossa democracia em uma sela sobre nós?

Afinal, somos só nós os presidiários? Diria pode ser, mas, “pode ser” são dois verbinhos sem vergonhas... Ah... Suposições me irritam. Não, não me irritam. Mas, não acredito no “poder ser”. “Pode ser” que já estejamos todos gagás a ver o senado lá da Grécia antiga ser um covil como era, aliás, senado tem origem etimológica da mesma palavra: senil... É do latim senex que é igual a velho. Nada contra os idosos também quero chegar lá, mas de sabedoria estes “nossos do senado” só tem o bolso. Li a seguinte frase em um livro sobre a mentira: George Washington não diria uma mentira, Richard Nixon não diria uma verdade e Ronald Reagan não saberia a diferença entre elas. Falando em Washington este discutia com Thomas Jefferson, certa vez, sobre o senado e Jefferson interrogou o motivo de Washington ter derramado, propositadamente, um pouco de café no pires. A resposta foi que o processo auxiliava a resfriar mais rápido o conteúdo da xícara tornando-o degustável, ouvindo o que queria Jefferson disse ser o senado o pires para resfriar os ímpetos revolucionários populares e gerar o equilíbrio necessário para a vitória de um regime político democrático. Idos da criação da Constituição Norte-Americana. Nós, ao Sul, ainda nos encontramos nos achados e perdidos...

terça-feira, abril 07, 2009

Cópias


O balir de bailar a música hipnótica em ótica
De não entender o que enxerga
Vai nas superfícies, escondidas
em profundidades, confusas
sem saber o som saído, ao balir

Entre lobos e cordeiros, há troca de peles
Os cordeiros, em matilha, fingem uivar da lua
Os lobos, ao balir de seus rebanhos, simulam pastar, sem fugas
E quando o luar vem cheio, os dedos mudam
Não há origens, nem originais
Há cópias de seres, humanos
Apontado, para o outro

14h30 (Rafael Belo) 27.03.09

segunda-feira, abril 06, 2009

Menos

Ninguém se virou, enquanto a destruição seguia
Lenta e sistemática entre mentes da orgia democrática
Sem vestígios da democracia bradada, atrás de palavras

Entre povo e poder, há quem manda
Sob uivo de cordeiros covardes
Os círculos se formam e terminam no mesmo lugar
Mas, não foi bom caminhar?!

Sobre carnes artificiais da gula, só há sangue
E palavras mastigadas, de indigestão
Balem os lobos, verborragias
Do momento passado, do momento seguinte,
onde não somos mais, nem mesmos

14h15 (Rafael Belo) 27.03.09

sexta-feira, abril 03, 2009


Criança cruel e seus brinquedos

Por Rafael Belo

Senti-me adulto quando a infância tentou me derrubar. Era apenas mais um dia de sobrevivência na selva urbana nos devorando sem sabermos ao certo. Mas, uma súbita clarividência me afetava dias antes de me defender perante o tribunal de ninguém e colocar as palavras e as imagens nos devidos lugares. Fui absolvido. Mais que isso, a selva se tornou mais interessante como se eu fosse um mosquito vegetariano em toda parte.

Sugava imagens e sons sem zunir ou não estava ali para quem me visse. Silencioso e calado. Quase uma abelha com silenciador, já que estamos nos insetos e tive uma vontade incontrolável de polinizar. Como no Bee Movie a morte das abelhas significa o fim de tudo. A morte sem sentido, por uma decisão sem medir conseqüências a quantidade de afetados, leva a um suicídio coletivo inconsciente. Como se o ar fosse tocável.

A rasteira da infância não mexeu com o meu físico, mas meu psicológico gritava por revanche. Não havia reação, era continuar e melhorar a captação de sons e imagens com uma adaptação de ferroadas que não levassem minha vida. Em uma sociedade da mentira, há um monte de mentiras. Faltam adultos que saibam cair das árvores ou deixar de ser verdes. É uma selva falsa que pensa saber rugir e caçar solitariamente fazendo aliados duvidosos.

Sabia o que aconteceria daí por diante, aliás, a clarividência súbita já me “premonia” disso. Alguma retaliação deveria ser feita, mas era racional demais para permitir transparecer qualquer coisa e analisei palavra por palavra quando a selva me disse do ataque espreitado que tomei no mesmo dia em que era uma ave emplumada repetidora de reações alheias. Foi o derradeiro ultimato. Lembrei de dias antes quando estava vestido de outro.

O tribunal era escasso e só havia eu e o juiz. Um olhava nos olhos que desviavam e outro desviava dos olhos que olhavam. Houve um tremor intenso e insano dentro de quem olhava. Algo mudava no mundo e um envelhecimento centenário se formava nas olheiras. Passaram-se anos naqueles minutos derramados e acelerados em um coração passivo para quem não o via e tão ativo e insuportável de conter para quem enxergava que iria adiante formando novos continentes. O mundo é uma criança cruel e gozadora inconseqüente.

quarta-feira, abril 01, 2009

Jovem envelhecer


Envelheceu o tempo renascido, no mundo de ilusão
Não se passava pelo ar, ele nos retia no vazio
Não havia mais espaços disponíveis, para os de fora
Nem um passo a frente nem uma palavra atrás
Era a prisão aérea no solo, sem moral

Em sequência, Sibilava silêncios
Em dúvidas em defesas, atacados
Atados a golpes baixos estremecidos
Entorpecidos de qualquer revolta mal-resolvida
Amortecida pelo impacto não visto, mas assinado

Com tinta invisível simulada, alérgica
Métrica pelas medidas sem volume, anunciada
Pelas vidas nubladas no céu escuro, mormaço
De um leve amasso profundo de antigas crenças, no mundo
A girar para o mesmo ponto humano, parado

(Rafael Belo) 09h58 – 1º de abril

segunda-feira, março 30, 2009

Silêncio espancado


por Rafael Belo

Falar e não entender sobre o que fala é a “dádiva” de muitos seres humanos sem intenção ou com toda ela de passar adiante qualquer coisa ou uma coisa qualquer. Prejuízos intencionais ou sem intenção podem vir daquela pessoa que não conhece o silêncio. Fora de contexto, um beijo pode parecer o escarro de Augusto dos Anjos. “Escarra na boca que te beija”. É para dar o sentimento de nojo que a perda de confiança “às vezes” acarreta. Mas, não é bom beber veneno dos outros. Nem o próprio. Só penso ou tento, saber exatamente o que se passa em uma cabecinha oca, ao falar o que não lhe diz respeito. Em outra situação no meio de um clima não amistoso. O erro veio do momento de falar, não de quem ouviu. Brincadeira, mal-entendido, ironia, sarcasmo, não importa! Os lobos estão à espreita vestidos como sempre de cordeiros, mas uivam para a lua certa na fase errada.

É tempo de silêncio (?). Não! Quem sabe dar voltas, as dê. Por cima, pelo lado, em cima... Confrontar o “mal-entendedor” não ajuda sempre. É ínfimo e de uma igualdade inexistente. Seja perspicaz. Levante suas próprias orelhas e guarde seu silêncio. Resolva o “problema”, respire fundo e não seja idiota de cantar a vitória. Transforme em algo produtivo. O prazer humano de espalhar traz um fel ferino que desperta a besta em qualquer um. Direcione corretamente sua ira bestial. Não use intermediários. Passe calma desse seu vulcão tectônico. Procure saber o que aconteceu para desencadear, algo como uma série de demissões por causa de palavras medíocres que você disse. Eu disse! Inocentemente desta vez... Paguei o pato por alguns minutos... Mas, outras vezes outros falaram demais... Agora não digo mais nada. O ambiente pesa sem todos saberem o que ouve. Informação real ou não e o resultado disso parece realmente privilégio. Assim como privacidade. É conto de fadas.

Era uma vez... Então, acabo por pensar na índole das pessoas. Não gosto de parâmetros de comparação e não gosto de comparar, portanto não o farei. Não me cabe julgar as pessoas. Mas, posso ter uma certa ira com relação às atitudes delas e deixar de confiar e interagir totalmente. Neste momento me parece que o silêncio ensina mais que as palavras... Não falaria sobre isso se não estivesse permitindo que me incomodasse, queria falar sobre a sela do senado, ops, cela do senado. Porém, devo dar vazão ao que está mais forte em mim. Na sexta pressenti algo ruim e estava com uma raiva insana. Sabia que por mais inocente, minhas palavras eram culpadas. Boca fechada agora para um bom grito depois. Há camadas de egoísmo provindos de lugares escuros da boca, onde até mal cheiro e aroma refrescante de alguma marca de higiene dental se confundem. Ah, humanos de onde sou afinal? Falar o que pensa às vezes é sinal de silêncio...!

sexta-feira, março 27, 2009


Cicatrizes do vento

por Rafael Belo

Na pele, ela tem caminhos com inícios e fins que não levam a parte alguma, diferente das lembranças cicatrizadas pelo vento. Soprado da própria boca com o ar dolorido para continuar. Acácia sabe que o vento há de levá-la no tempo certo, já marcado há tempos. Sabe, porque já esteve acidentada tantas vezes sob tantas formas, que para outros foi mortal. Ficaram dos acidentes, cicatrizes. Uma de cada um. Um vislumbre de uma vida finita, mas longeva.

Sobreviveu em silêncio a explosão de um avião. A aeronave caíra sobre sua casa sem deixar vestígios do que era a casa. Ela dormia de bruços e acordou distante sem se preocupar com qualquer explicação. Não era a primeira vez. Já havia parado de contar quando os números se aproximaram de centenas. Mas, este levou todos da sua família e deixou que a levassem também. Olhou como inconsciente para o vazio em chamas de onde morava. Suas lágrimas correram pelos diversos cortes fundos no corpo e chegavam abundantes ao chão.

Sentiu o vento a levar e lembrou-se da desolação, que ao invés de secar, este novo oceano de tristeza, fartava em uma abundância absurda como se não houvesse terra no planeta, só sal e ondas. O mundo das águas soterrava a sete palmos seu mundo em afogadas dores. Não havia sentido nos pensamentos, apenas um pesar enlutado dilacerando o coração constante a atirando de joelhos ao chão e levando a escuridão a consciência de um desfalecer.

Quando as cicatrizes começaram, a mais vaga lembrança era cair do berço sem ninguém por perto, além das ressonâncias dos pais a dormir em outro quarto. Mas, não podia ser dela esta memória. Como poderia ir tão ao passado? Não! Ela não queria se aceitar diferente, pródiga de algo. Era como todos. O resto é coincidência. Mesmo não conseguindo se enganar desta maneira. Por que sempre sobrevivia sem maiores gravidades?

Após recobrar do fim de tudo que tinha. Ficou ajoelhada por horas. Ainda que doesse mais a alma ao corpo, mas o coração competia por milímetros de vencer. Ela sentiu neste instante, seu negro manto triste de tortura ser despido suavemente. Suas permanentes cicatrizes viraram lembranças do vento, que a afagava e soprava na direção da imensa fogueira de uma vida desperdiçada por incontáveis “ses”, “sou assim mesmo” “o quê vai mudar, afinal?”.

Na própria fogueira de egoísmos, vaidades e julgamentos teve sua Sodorra e Gomorra e sua própria barca. Suas segundas chances eram definitivas desta vez e seus maus pensamentos definitivamente não existiam mais. Navegava em si e acolhia o mundo que via feito uma revelação apocalíptica escrita por dentro da pele em um evangelho de caminhos. Acácia revia seu filme todos os dias, para seguir com o vento adiante e ao menos refrescar o mundo cuidando das suas borboletas.

quarta-feira, março 25, 2009


Estava lá

Uma direção direcionada, guiava
Os rumos de alguns passos meus
Mas eu, me impedia de não os seguir
Caminhando contradição, faltando um pedaço
Deixando a perdição diante das opções dos caminhos

Rumores me enchiam a cabeça, eu nada sabia
Queria me libertar, mas voar para onde?
Seria qualquer coisa melhor, que a própria prisão?
Dissabores me tiram os gostos da boca, qual o gosto de gostar de si?
Minha cabeça gira, parodia tantos pensamentos soltos

Sinto o gosto de se gostar, é uma música derretida no paladar
Pensar com os próprios pés, contrariar autoridades, cantarolar
A direção em minhas mãos sem habilitação para guiar, mas quem tem afinal?!
Rebeldes estão aqui, na mente, não querem estar assim por mais tempo
A rebeldia, sempre estava lá, impaciente

14h35 – (Rafael Belo) 25.03.09 - (para Lore)




Rei de mim

Quando as portas abrirem
me leve para dentro
com um movimento
que só eu veja sem olhar

Na natural natureza de rosnares libertos
No verde do concreto a pedir devastar
O trancar alheio das portas de vidro sem lar

Serei o leão morto todos os dias
Disfarçado de mitologias em cinzas
Para no outro dia voltar a rosnar

(Rafael Belo) 11h42 – 25.03.09

segunda-feira, março 23, 2009

Dias de chuva...

Por Rafael Belo

Quantas dores há no mundo? Começando de nós mesmos, vejo muitas. A dor da fome, da ignorância, da desilusão... Mas, a mais dolorida é a da perda. É desta dor a se falar. Viva e deixe morrer... Viva e deixe viver... Quando alguém próximo - e muito próximo – morre, não é como acabar um relacionamento, mudar de cidade ou manter um segredo devastador (às vezes é)... Toda aquela rotina onde a pessoa (agora morta) se infiltrara está vazia dela. Perder pessoas é um termo forte demais, não se perde ninguém. As pessoas não nos pertencem, nem nós nos pertencemos. Há algumas semanas, a revista eletrônica dominical daquela rede sinônimo de planeta, mostrou a dor de quem ficou após a calamidade “natural” de Santa Catarina. A alguns deles, vestidos de dor, me pareceu a própria morte mais fácil, a agüentar a morte de um filho, ou de um ente amado. Orfandade de diversas maneiras na televisão.

É triste, de diversas maneiras, assistir sem poder assistir a dor alheia jogada da tela para informar (?) e entreter (?). Infelizmente eu tinha esquecido a proporção das chuvas catarinenses. Não, bem esquecido, mas me desligado do efeito em longo prazo. Casas e famílias afogadas. Os sobreviventes mostrando claramente uma dor aguda na televisão. Qual a necessidade de contar a cicatriz aberta de novo e de novo. Foi bom e foi ruim, digo. Não precisava mostrar tanto a dramaticidade, de um drama tão triste. Os “sobreviventes” poderiam ser poupados de reviver os dias de chuva e os de desolação conseqüentes. Quantas dores custa uma informação? É dor, medo e violência nas cores iluminando da velha caixa, no escuro da sala a receber exclamações indignadas e de cautela das famílias diante da tela. Dias de chuva são preocupação para o país de uma maneira mais dolorosa, agora.

Terminei de ler um livro onde guardião de memórias (título do livro de Kim Edwards) ficou sinônimo de segredo imenso e devastador. Lugar onde uma floresta densa e impenetrável cresce no centro do coração e ninguém entra de fato. O livro prendedor conecta-se diretamente com as dores de Santa Catarina pela dor causada pelo silêncio e o vazio posterior. A dor de um pai, uma mãe, um filho, uma diversidade genética, decisões, desastres naturais onde a culpa envolve todos e aponta caminhos longos e tortuosos caminhados sozinho. Algumas pessoas vestem a dor com um número a menos, pensando ser apropriado o aperto. Deixam a vestimenta apropriada por pouco tempo ser inapropriada por tempo demais e as dores próprias do mundo não são tidas como aprendizado, mas como castigo supérfluo a ensinar apenas quem regeu o castigo. O que sei de dor, afinal?

segunda-feira, março 09, 2009

Ficou na curva

Veio a dor
Feito um rio seco
Onde as pedras não se acomodam

Rolam sobre o peito
Sem arredondar as pontas
Rasgando os gritos com ecos

Represa a sequidão do rio
Onde rola a dor em pedras
A empilhando no leito vazio

Rio de pedras
A me atirar primeira
Hipocrisia como a gota d’água

Há um desvio no rio
Rio que continua a doer
Dor que ficou na curva

22h14 (Rafael Belo) 08.03.09

sexta-feira, março 06, 2009


Mente paranóica _____
Por Rafael Belo

O mesmo som a noite inteira na festa do pijama com roupas curtas e sorrisos longos. É festa íntima até de repente aos gritos de no chão no chão, a diversão parece acabar. Curiosas, às mulheres tentam olhar pela sacada. Dois objetos não identificados foram arremessados e vistos como granadas. Pânico da dona do apartamento que ao perceber ser o ex-namorado policial desce. Alêgrea ainda tentou descer mais o carro saiu em disparada com o som mais alto do que o ensurdecedor som da festa.

Por precaução todos permaneceram soldados. Rastejando sobre os cotovelos, braços, mãos, joelhos, pernas, pés feitos calangos no deserto escaldande diante da iminência da guerra entre iguais. Já eram ouvidos barulhos de bombas estourando ao redor, seqüências ininterruptas de balas, gritos – bem estes eram reais demais – e um sangue jorrado de uma imaginação paranóica. O medo orquestrava tudo com sua pose petulante de necessário.

Mas, a mente humana não deixa nada sem associação. Alêgrea não sabe disso e cultiva suas conspirações contra si mesma. Assim dias depois da guerra imaginária, Alêgrea estava envolta de uma dessas associações, que não tem sentido algum fora da mente dela. Descendo umas e outras e se divertindo mais uma vez - será um padrão – ela presencia a briga violenta dos vizinhos “por acaso” também no posto. Abastecendo a mente com algumas sandices ela guarda a cena cotidiana na memória.

A rotina de brigas do casal de vizinhos é brutal com gritos já desvendados pelo ouvido de plantão. Certa noite, próxima ao dia do posto, Alêgrea olha atenta pela janela e vê o homem do casal descer do carro. Ele volta pega uma imensa faca quase do tamanho de uma foice ceifadeira, a esconde por toda a extensão do braço e do corpo e segue até o apartamento. A confusão está acelerada. Em Pânico, Alêgrea aciona todos os próximos e espalha a nóia. Em rede no telefone, não quer ficar só.

Com um policial a tiracolo em casa - sem ninguém ver o que ela enxerga – conta toda a história, que nem nós sabemos. Ela é cúmplice da briga do casal e imagina ser uma queima de arquivo. Será assassinada e a vinda do homem com o imenso facão prova tudo. O casal nem sabia da existência dela, mas quando o policial vê o facão e revista à casa do casal a história do homem da janela da frente é confirmada. Eram os preparativos de um churrasco do casal entre o amor e o ódio. Agora todos conhecem Alêgrea.

quarta-feira, março 04, 2009

Páginas tremidas


Presente na ausência as ruas vazias preenchem as lacunas
Entre temer e estar só pela vastidão de um beco sem saída
Onde enxergam além dos muros pela visão tremida de não querer sair
Enquanto da janela as sombras acompanham a vida olhando pelos cantos
Dos olhos desconfiados os passos apressados temidos assombram

A si mesmos porque tudo passa onde nada passa enfim, ausente
E a presença da ausência vai parte por parte se tornando lembrança
Nas desertas pessoas que não estão lá nem aqui por tremer estar
No pânico estranho do mundo estranho de paranóia
Com a obsessão de uma perseguição inexistente

Ausente na presença de ninguém, esvaziam corpos de medo
Com copos cheios de alterações bebidos com água e açúcar
Nos cantos onde pessoas encolhidas usam o toque de recolher
“Às custas” da covardia da alegoria da caverna ambulante
Distante da luz mesmo sob o temido sol ardente
Sombreando páginas em branco


09h38 (Rafael Belo) 04 de março 2009.