sábado, dezembro 19, 2015

É o bastante (miniconto)


“Quase selvagens”, pensava ela olhando para ele e para as próprias linhas das mãos. “Estou perdido e Aura está me encarando... Eu fiquei distante e ela ganhou outras formas”, pensava ele. - Lauro... Será que nos amamos? Ele sabe que não adianta fingir. A pergunta foi feita em voz alta e lhe ocorre a destruição que causaria se dissesse seu esperado para a noite anunciando: ninguém dorme e ficamos em claro passando por todas as posições do Kama Sutra ou nenhuma palavra e vamos dormir... Não! Somente traria mais chororô e dúvidas.

Ele se senta. Olha ao redor. Ouve a insônia da cidade e tenta focar no rosto dela. Aperta os olhos mais para desfocar do que manter uma imagem nítida de Aura e espera. Lauro espera para quem sabe haja uma repetição da pergunta e o que pensa imediatamente é na variação de idade. Não entre eles, mas às vezes a diferença da correta e da aparente é enorme. Já passaram de 18 a 25 anos, mas raramente os 30 e poucos de ambos. Nesta noite qualquer um juraria terem mais de 50 anos...

- Como a gente sabe o que quer? Lauro pergunta sem resposta. – Você sabe o que quer? Ele insinua a cabeça em direção de Aura e mais uma vez espera. Tenta não dar seu sorriso cínico e definitivamente evita o de superioridade. Faz cara de paisagem desolada para disfarçar seus pensamentos sobre o objetivo da vida, sobre as atrocidades e toda esta pancadaria em estilhaços de guerra.

Lauro sabe como brigar, mas seu maior conhecimento é como não brigar. Ele se declara e umedece os lábios com o coração. Sussurra as mais belas palavras possíveis àquela hora da madrugada. Eles se abraçam. Choram e choram mais um pouco. Choram pelas interrogações, por não ser como era antes, pela juventude, pela velhice e, então adormecem mais leves mesmo sem saberem se foram as lágrimas o motivo do alívio ou por conseguirem dormir sem brigar. Antes do dia despertar seus corpos se entrelaçam e amassam o tempo. Algumas coisas voltam a fazer sentido por enquanto e é o bastante.

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito bom!