quarta-feira, setembro 28, 2016

O Par (miniconto)


Rafael Belo

Há um ritmo diferente rompendo nela, abrindo portas e janelas para vê-la dançar, mas seus pés não se aguentam mesmo levitando como se a dor nada fosse. Ela dança. Seus passos desenham no chão anjos de neve, corações de areia soprados ao vento...  São tão leves... Ela é uma pluma voando das nuvens, mas suavidade não significa delicadeza. Ela é um puma, uma pantera. Fera. Bela. Beija e ruge. É flecha e alvo, se lança na dança. Não se cansa de fazer arte com movimentos. Seu corpo todo é alma seguindo o ritmo do coração, mesmo se a mente ainda não tenha a mínima noção de toda esta força dela. Natureza Passo não passa, permanece nos movendo.

Fluir, fluir... Rodar... O universo aqui está. Colado ao meu rosto, dentro de mim... Trocando minha alma com a vida. É meu par, sou par dele. É um abraço apertado deliciando viver. Dançando, esperando a música não acabar. Vida, vida, me tirando pra dançar antes que eu mesma a tire. Dê-me a mão e solte para eu de novo a procurar. Entrelaçar-me toda em ti. Sermos uma. Uma força tamanha. Esta força estranha saindo do chão para o ar. Passando pelas borboletas no estômago, no meu âmago a me entregar aos compassos deste ritmo mutante.

É mágico dançar com a Dança cada instante. A olhar nos olhos e deixar de saber quem é quem. Que sou eu? Quem é a Dança? Minhas pernas esticam, meu tronco vai ao estilo da postura... O chão balança... Nos passos o corpo segue as batidas, ondula... Circula a cintura e separa sem deixar de tocar. O brilho do meu olhar suspira pelo brilho da visão da dança. Para abraçar o todo fecho os olhos na esperança do mundo inteiro fechar e sentir mais o fluir do sopro da vida, do correr das águas... Não há mágoas, não há bolhas, há só a escolha de ser Par e participar.


Não há ninguém aqui hoje participando desta Dança. Já se foram as horas, já se foram há horas... Meditei sem saber. Encontro-me com A Dança e sou muito mais. Vou para um tempo e espaço onde não há “eu acho”, só existe a certeza do passo e as consequências da liberdade. Liberto os ruídos da cidade, a confusão das pessoas e sei não haver complicações na vida nem em mim. Há fins para recomeços e prefiro sempre recomeçar A Dança. Bailar descalça bolero, samba, forró, valsa, tango, mambo, foxtrot, bossa, merengue, pasodoble, salsa... Quebrando a coreografia do cotidiano transformando cada segundo em um feliz ano para continuar sendo o melhor Par.

Um comentário:

Maria Belo disse...

Vivo a dançar...com ritmo,sem ritmo! O texto muito bem escrito nos leva a refletir! Parabéns!