segunda-feira, janeiro 02, 2017

Coisas erradas




por Rafael Belo

As pegadas atrás de nós mostram o peso da gente. Não os quilos do nosso corpo, mas o tanto de desnecessidades se acumulando dentro da gente. Cada um de nós traz uma quantidade incalculável de poeira escondendo quem somos e quem podemos ser. É uma sujeira curvando o corpo, baixando os olhos, adiantando um envelhecer inexistente no cansar dos olhos, no arrastar dos pés, na desistência triste lapidada na expressão sempre distante da face. Nossos pés estão tão fundo no concreto que é preciso muita flexibilidade para retirar a perna do buraco para o próximo passo.

Não estamos ocupando nosso espaço, nem estamos presentes. Vivemos de uma ausência complexa fabricando um vazio constante e estamos de enfeite na estante assistindo nosso próprio espetáculo sem nos reconhecer. Somos novos! Um novo ano acaba de nascer! Não somos promessas nem este ano ou os que foram e virão. Somos realidade, sonhos, presente... A simplicidade, os detalhes dos pequenos gestos... Nada de espera. Não me venha sentar e aguardar o fim dos tempos, o advento porque já acontece tudo isso em nós.

Somos este milagre que a gente tanto espera, esta chance de prosperar, esta oportunidade de se realizar, as boas novas, a Paz e o Amor. Nenhum destes é um sentimento. São estados da nossa Alma, são sujeitos do nosso Coração. Nós somos o tempo. Não há idade. Há a experiência e a sabedoria tentando serem vestidas, respeitadas... Mas, veja só - olha a gente – nos deixando levar pela ira, pela discórdia, pela ausência, confundindo esvaziar com vazio, esquecendo de nos olhar nos olhos, entregar um sorriso, desejar o bem e o bom...!

É de se envergonhar nossas mentiras, nosso comportamento, este temperamento velho, rançoso dominando a necessidade criada de dinheiro e glória. Quem ganha com nosso egoísmo, nosso empobrecimento de ideias, nosso esfriar do coração, nosso apequenamento da alma, nossa descrença? Por que matar nossa criança e impedir a infância de quem nem chegou a adolescência? Estamos nos tornando máquinas da eficiência: duros, mecânicos e conectados. Buracos negros engolindo nossas mãos estendidas entretidas com as coisas erradas. Nossa liberdade faz revoada de um pássaro multiplicado e nós não vemos nada.

Um comentário:

Maria Belo disse...

Pura verdade!...."nossa liberdade faz revoada de um pássaro multiplicado e nós não vemos nada" Estamos cegos, mas tá na hora de tirarmos as vendas!