quarta-feira, março 29, 2017

Afastem-se (miniconto)




por Rafael Belo

Sentada dentro de Si, Simani acomoda-se. Respira fundo e pensa: e agora? Não há brilho, não há intensidade, há uma promiscuidade criada por mim mesma. Logo eu... Sempre me achei tão intensa, tão incomodada... Nem sequer incomodo. Sinto-me um móvel não tão imóvel, pois me colocaram rodinhas... Não sei... Foi um susto perceber meu desconhecimento, minha ignorância... Eu ignorante e sempre me achando sabida, muito esperta... Fui nessa onda. Vou a tantas festas pensando estar ali, presente e entregue... Até descobrir não ter foco nenhum, aliás, só enxergar o fundo e me cegar ao diante do meu nariz.

Nem sei qual é o meu fiz. Nem me lembro de tudo. Preciso colar fragmentos postados em diferentes aplicativos com motivação social. Vai rápido como vem... Não há um sentimento relacionado a nada disso. São imagens me fazendo forçar a memória, juntar histórias e ser obrigada a sentir tudo isso. Intenso é este sequestro. Só vi os contrastes na altura deste drama. Vive restos, fui mais machista, mal fui mulher... Não sei ser feminista, ativista... Vistos meus rótulos mesmo sabendo: eles não mudam quem sou! Mas me questiono enquanto penso nas baboseiras dos prisioneiros amarrados estarem cientes o suficiente de si para conseguirem se soltar...

Eu só continuo me machucando enquanto o tempo vai acabando. Meus pulsos estão sangrando, meu rosto latejando... Fora a dor! Quem vai cuidar dos meus filhos, Meu Deus!! Eles vão me matar. Preciso encontrar uma só vivência intensa. Isto... Isto... Isto não pode ser o mais intenso vivido por mim... Não sou assim!! Engulo o choro! Chega de chorar!! Não adianta pensar meus “ses”, porém, se eu não tivesse ficado bêbada não teria encontrado a coragem para me encontrar. Aí vem Renato Russo me cantar “olha só o que eu achei: cavalos marinhos”. Talvez um unicórnio inexistente se sinta assim e eu seja este unicórnio. Serei extinta ou já o sou?


Quanto horror! Esta expectativa vai me matar antes. Prefiro não pensar no motivo das dores no meu corpo em tantos lugares... Preciso vomitar! Ei! Olha pra mim!! Tira esta mordaça da minha boca!! Não vou gritar! Não posso morrer afogada no meu próprio vômito como uma pessoa abandonada para viver morrer na rua. Por favor, Senhor! Sei, nunca mais rezei nem nada, me arrependo. Eu juro... Estou arrependida!! Não consigo nem lembrar um grão responsável por eu vir parar aqui, quem dirá do motivo... Mas espera!! Eles nem falaram de resgate!! Não conversaram comigo... Eu estou vendo o rosto de um!! Não não nãonãonãonãonão!!! É o... E os outros só podem ser... Hey!!! Afastem-se!! Nãããooo! 

Um comentário:

Maria Belo disse...

"Tira essa mordaça de mim" estamos todos amordaçados!