segunda-feira, março 27, 2017

Somente um ponto de wi-fi



Por Rafael Belo

As noites são mais tortuosas para quem ainda está preso ao conceito de formarmos pares por ter sido sempre assim. Crescemos sobre vales feitos dos acúmulos dos erros de ficarmos sozinhos, da projeção dos sonhos das materiais riquezas, dos planos alheios, na dualidade, de sermos os melhores, em tantas amarras, em tantas prisões... Como estar inteiro se vivemos saindo de uma prisão por vez sem saber quantas ainda nos prendem? A ignorância é uma dádiva do conhecimento dado a quem nada sabe fazer com ele. Vivemos em uma insignificância tão branda e a nomeamos de fase, de passageira mesmo sentindo sermos o oposto disto. Claro, estamos cansados.

Já cansamos de falar sobre sermos inteiros, sermos completos, mas a mentira de sermos pedaços, partes, fragmentos, uma peça com o encaixe feito só para outra pessoa nos faz sairmos em uma jornada inglória, a nos submetermos a situações bizarras, a seguirmos sem situar nossa localização. Apesar de aprendermos assim, não fomos feitos apenas para um tipo de ação, um tipo de posição, um tipo de ideia, uma profissão, um amor, uma vida... Saímos de nós sem sequer saber voltar. Não aprendemos isso e se quisermos voltar para sair intensos havemos de enxergar quantas formas existem de se acomodar. Não precisamos atuar neste roteiro raso e repetitivo. Quer sair?

Vejo as baladas badalando nas cabeças no dia seguinte. São rolês para evitar a solidão já causando surdez temporária e aquela seletiva de todo dia – não para todos, alguns de nós só festejam realmente. Estamos acomodados nas palavras, nas desculpas superfíciais e nas atitudes desconhecidas de viver intensamente. Sabemos o significado de viver intensamente? Achamos ter conhecimento, mas sabemos usá-lo? A sabedoria esta perdida em algumas pichações por aí e espalhadas nos papéis colados nas paredes ignoradas das cidades onde há palcos e mais palcos para nos entorpecermos, massagearmos o ego e fazermos o check-in para podermos nos conectar e avisar o mundo onde festejamos.


Parece uma conspiração para continuarmos acreditando ser isso não se acomodar, ser isso intensidade... É isso mesmo ser intenso? Sair sempre, marcar as fotos com as pessoas, com os lugares, este excesso de exposição é apenas mais um desvio da importância de nós mesmos, do desabafo social... Há muita loucura envolvida na razão e separar uma da outra pode ser ilusão, mas por qual se deixar levar? Não tirar o próprio significado, nos afastar da possibilidade de conquistarmos a sabedoria, de nos vivermos e assim incendiar cada dia pode nos tirar desta vontade de ser somente um ponto de wi-fi.

Um comentário:

Maria Belo disse...

Muito bom! Perfeito!